terça-feira, janeiro 27, 2009

FORMA FARINHA

Eram duas da matina, quando notei que estava fora do corpo. Só podia estar, enxergava tudo claro, mesmo sabendo que lá fora tudo estava escuro. Antes que eu pensasse em voar, fugir, correr, pular cambalhota, entrar no apartamento da Juliana Paes ou qualquer outra coisa dessas que a gente faz quando se dá conta que está lúcido no astral, notei que havia alguém no quarto comigo, além da minha esposa dormindo e aquele mosquito vampiro sugando o meu sangue, se aproveitando que eu estava ali fora. Maldito, se eu volto pro corpo a tempo, eu te mato, seu inseto...hã...hum... Voltando a presença, que é o que interessa aqui ( esqueçam a imagem da minha esposa dormindo, por favor!!!), abri minhas para-defesas e tentei sentir se a vibração daquela entidade era boa ou se era algo que demandaria as técnicas milenares de auto-defesa astral que aprendi em milhares de livros espirítas. Porém, antes que eu pudesse pôr em prática esse conhecimento Zibiano, percebi que estava diante do meu Amparador.

Era o cara que eu tentara ver a minha vida de neófito astral inteira. O sujeito que quebrara meu galho centenas de vezes, que torcia por mim nos bastidores, que me levara tantas vezes para os cursos nas diversas universidades dos mundos celestiais, o cara que me amparava.

- E ai, seu Amparador, cumé que vai? - falei, pelo menos, é o que acho. Fora do corpo, a gente se comunica meio mentalmente, meio cantando, é tudo menos fala, enfim, vai ficar esse verbo mesmo.

Silêncio. Olhar sério, postura rigída. Meu Amparador, era o cara. Grandão, com uma roupa de hindu, cara de chinês, cor de negrão, escudo e lança de guerreiro, enfim, o cara era uma amálgama de tudo aquilo que eu havia imaginado que ele seria.

- Caramba, que honra te ver - falei, pelo menos, é o que acho. Fora do corpo, a gente se comuni...ora,vc entendeu!!!

Quietude era tudo que ele fazia. Na certa, ele não queria acordar a minha esposa. Sujeito educado, firme, tudo aquilo que um dia eu queria ser.

- Eu sei que você vai continuar em silêncio, eu compreendo. Falar para quê? O importante é a mensagem do olhar, certo? - falei, pelo menos, é o que a...enfim, agradeci a presença dele e estendi a minha para-mão para me despedir, mas ao tocar no Amparador, minha mão atravessou o seu corpo. Ele era muito sutil, só podia ser isso ou não? Era não, notei que parte dele se quebrou. Circulei o homem, meio desconfiado, toquei ele de novo, e outra parte dele se desfez, e daí em diante, o homem começou a se quebrar como se fosse feito de farinha ( desculpem a minha analogia nordestina, vocês queriam o quê? Sou da Paraíba). Continuei enfiando a mão no homem ( gente, por favor, orai e vigiai esses pensamentos!!!) e ele foi virando farelo, até desaparecer por completo.

O susto foi tão grande que voltei para dentro do corpo, ainda há tempo de matar o mosquito e acordar a minha esposa, com o barulho do tapa que esmagou aquele vampiro em mil pedacos, miserável, teve o que merecia, morreu, seu mosquito desgraçado...hã...hum...quero dizer, limpei os vestígios do inseto do meu braço e pedi desculpa a minha esposa por tê-la acordado e fiquei olhando para o escuro que também era teto e meditando: "caraca, preciso ter cuidado com o que crio com os meus pensamentos ou na pior das hipóteses, parar de comer farinha, antes de dormir."


Frank Oliveira
Um Paraíba Vagastral

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