segunda-feira, agosto 31, 2009

A ONDA


A onda bate na praia,
todos se molham,
todos pulam;
eu fico seco.

Como é possível permanecer seco no meio da água?
Te digo:
o inverso!

Quando o vento te fizer correr: pare!
Quando o mundo quiser te provocar, não reaja: observe!

AREIA MOVEDIÇA

Ando,
Ando

e
Afundo;


Step, step,

Ploc, pluft,
Caí
E levanto de novo,
Mas torno a cair.

Oh, Meu Deus, o que foi que eu fiz?
Onde errei?

Faltou firmeza, caminhante, firmeza!

sábado, agosto 29, 2009

TUESDAY ou THURSDAY

Como ensinar o meu aluno Eduardo a diferença entre Tuesday e Thursday? O seu inglês avançado não ajudava a resolver a confusão; as pronúncias das duas palavras eram o seu "calcanhar de Aquiles".

Tentei ajudá-lo com várias dicas, mas só uma me pareceu mais indicada para ajudá-lo, lembrei pra ele que Thursday tem esse nome por causa do Deus Thor.

Os dias da semana normalmente tem seus nomes baseados nos sete corpos celestes que podem ser vistos a olho nú: Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno. Normalmente os paises latinos usam o sábado baseado no Shabbath Hebreu e o Domingo vem do latim Dominicus (Dia do Senhor). Assim não dizemos a primeira-feira nem a sétima feira. E essa tal de “feira” vem da páscoa antiga que era uma semana toda. Cada dia então era uma “feria” (feriado). E a “feria” virou feira em português...

Já em Inglês, se usa os deuses germânicos e dos planetas:
Sunday – O dia do Sol (Sun).
Monday – O dia da Lua (Moon).
Tuesday – Dia de Tyr, o deus da guerra.
Wednesday – Dia de Wodan (Odin), o todo poderoso deus nórdico.
Thursday – Dia de Thor, deus do trovão e filho de Odin.
Friday – Dia de Freya, deusa da beleza.
Saturday – Dia de Saturno, deus latino que conseguiu entrar na lista também.

Baseado nisso, ele fez a seguinte analogia para não confundir mais: "Thursday, dia do Thor, vem sempre depois do dia de Odin, o seu pai."

Ele não é especialista em Deuses Nórdicos, nem sou eu, mas Eduardo, assim como eu, é fã de gibi e crescemos lendos os heróis da Marvel nas "revistinhas" e desenhos na TV.

Coisa curiosa é a mente que com as suas associações para facilitar a lembrança.

A caminho de casa, pensando na solução do meu estudante, veio a minha boca, o tema de abertura do desenho do Thor:

"Onde o arco-íris é ponte;
Onde vivem os imortais;
O trovão é seu guarda-voz;
O barra-limpa, o Grande Thor!"

Eu conseguia lembrar da letra, mesmo sem ouvi-la há pelo menos 30 anos.

Por que será que lembramos algo como o tema de abertura de um desenho animado , mas não conseguimos lembrar onde deixamos a chave de casa?

Mistérios da memória, enigmas da mente...

JOÃO PENCA

Estou ficando velho! Ninguém lembra mais do Léo Jaime, muito menos do João Penca e seus Miquinhos Amestrados. Como assim?

Se nos Estados Unidos houve a magia dos anos 50 e 60; aqui no Brasil, a nossa "golden age" foi nos anos 80; o Léo no começo e os Miquinhos por toda a carreira trouxeram a magia dos anos 50 e 60 para os meninos e meninas brasileiros que cresciam nos anos 80 e embarcavam nas últimas décadas do Século XX.

Sempre fui fã do Mr Jaime, mas as canções dos Cariocas Amestrados foram meus temas da adolescência. O seu "surf music with rockabilly" tocava o tempo todo no meu walkman até o dia que a fitinha cassete com as 20 melhores dos Miquinhos arrebentou e fiquei um bom tempo sem ouvi-los; tempos depois comprei todos os álbuns em CD.

Cheguei a assistir um show do João Penca em 91; pouco tempo depois, fiquei sabendo que eles tinham encerrado a carreira. A alegria da música brasileira ficou um tanto triste depois desse dia...

O Léu Jaime também se afastou da música ou até parecia, esses dias o próprio Léo, no Twitter, anunciou o seu retorno a música com a atração "Amor e Sexo" com a Fernanda Lima na TV Globo. Por coincidência, acabei descobrindo também que os Miquinhos enterraram a sua aposentadoria e voltaram a estrada com novos shows.

Para quem nunca ouviu falar do rockasurfbilly music do João Penca, dá uma olhada no espaço dos músicos no my space:

http://www.myspace.com/joaopenca

DEPOIS DE ONTEM A NOITE

- Acordei muito bem! - disse Auri enquanto tomávamos café. Eu sentia o mesmo. Chegamos em casa quase às 3 da matina, depois de passarmos horas conversando, ouvindo música, tomando vinho e comendo queijo com dois grandes amigos.

Coisa maravilhosa é sermos queridos por outras pessoas, sem precisar dar nada em troca. Coisa incrível é sabermos que alguém nos reservou um espaço da sua casa; colocando uma foto nossa em seu coração.

Estar com amigos assim é uma benção. Agradecer a noite que passou seria uma obrigação, se não fosse desnecessário; afinal, verdadeiros amigos não gostam de ouvir "obrigado" e nem dizer " de nada"; pois o abraço já diz tudo o que quer vai na alma.

sexta-feira, agosto 28, 2009

Ladrões de Chinelos

Aconteceu muito rápido, quase perdi a cena em que ví dois assaltantes roubando os chinelos de um menino de rua que dormia em frente ao MacDonald´s.

Parecia coisa de cinema ou melhor de uma tragédia grega mostrando o quanto a humanidade decaiu e anda formando ladrões de araque que roubam até de quem não tem nada para ser roubado.

Quis parar os dois ladrões e perguntar o que fariam com aquele par surrado de chinelos; mas não precisava ser Sherlock para perceber que ali à duas esquinas, o comércio do crack estava ainda à pleno vapor do meio-dia e qualquer coisa vira moeda, até um par de chinelos usados.

quinta-feira, agosto 27, 2009

VOVÓ ESQUECEU MEU PRESENTE

Vovó esqueceu o meu aniversário!
É estranho,
Ela sempre lembra;
Sempre quer fazer bolo,
Sempre quer dar presente;
Eu que não sou boba,
Não reclamo.

Mas esse ano,
Vovó esqueceu que faço 8 anos.
Mamãe disse que vovó tá doente,
Por isso ela esqueceu o meu presente;

Estranho, muito estranho!

Já vivi vovó esquecer das chaves,
Já vivi vovó esquecer os nomes das pessoas,
Já vivi vovó esquecer a porta aberta;
O que é normal,
Até papai que lembra tudo, esquece!

Mas esquecer do meu aniversário?
Nunca vi!

Será que vovó está mesmo doente?
Será que está doente demais para lembrar?
Por isso, Papai do Céu, nesse meu aniversário,
Só quero fazer um pedido: Que vovó se lembre do meu aniversário.
Esse é o meu pedido: por favor, faça presente!

quarta-feira, agosto 26, 2009

SOB A LUZ DE UMA EXPLICAÇÃO

Para esclarecermos as suas perguntas, o nosso departamento de verdades passageiras formulou essa mensagem com respostas prontas com seus devidos pontos finais; uma vez que recebemos a sua reclamação em relação a dubiedade das afirmações com ponto e vírgula; e das que continham reticências... cujo teor não passou pelo crivo da sua jornada por e pela verdade.

Afirmamos, porém, com todas as vírgulas, embora seja necessário, nesse caso, dois pontos: toda a certeza sobre a existência de planos superiores é proporcional a capacidade de compreensão da mente humana.

Sendo o entendimento humano do tamanho de uma pulga comparado ao tamanho do universo, peço que você use toda a sua capacidade de absorção e compreensão para assimilar as respostas enviadas por nosso colaborador Lucas ( 7 anos, estudante de escola pública) que respondeu algumas das suas perguntas:

1. De onde viemos?
Da barriga da Mamãe!

2. Para onde vamos?
Para a escola para aprender e para a casa para comer e dormir.

3. Quem somos?
O meu nome é Lucas e o seu?

4. Existe vida depois da morte?
Sei lá!

5. Porque Deus permite a violência e a tragédia no mundo?
Deus permite? Será por isso que há tantos Super Heróis?

6. Existe vida em outros planetas?
Claro! De onde você acha que veio o Superman?

7. Como conciliar a vida espiritual e a vida no mundo físico com o devido equilíbrio?
Faça como papai faz: na semana ele trabalha para pagar as contas e no domingo ele vai pra missa. Ele disse pra mim que cada coisa tem o seu tempo certo, pois tem tempo de brincar e tempo de dormir...acho que isso é esse tal de equilíbrio. Né, não?

Frank – The Fighter

Minha amiga Camilla me ligou:

- Frank, sonhei que lutávamos juntos.

- Como assim? Nem gosto de briga...

- Sei lá, como podemos interpretar o sonho, mais era como se precisassemos ganhar algo e tivessemos que lutar numa rua numa espécie de “Street Fighter”. Por que estava lá com você, eu não sei, mas como não esqueci, pode significar alguma coisa.

Ela desligou e a mensagem quase passou ignorada, mas logo caiu a ficha: estou travando o maior combate da minha vida, ficar ou ir embora do país?

Sould I stay or should I go?

É realmente uma briga de rua, Camilla, e das pesadas.

terça-feira, agosto 25, 2009

CRIANÇAS E RELIGIÃO

Será mesmo certo batizarmos os nossos filhos de acordo com as nossas crenças? Esse é um debate antigo e polêmico surgido há alguns anos; provavelmente da boca de algum rebelde religioso que optou por alguma crença além da que manda o povo; contudo, essa pergunta exige de cada um de nós, uma profunda reflexão, pois queremos, e isso é natural, que os nossos amados, companheiros, filhos e amigos compartilhem conosco das nossas certezas espirituais; não apenas porque queremos salvá-los do mundo, ou qualquer outro desses discursos absurdos, mas principalmente por um senso de comunidade, de pertencermos a um grupo; vontade essa que criou a civilização no começo do tempo dos homens, e isso em si só, fecharia a resposta, se não houvesse também dentro de nós, um senso de justiça e dicernimento, e me parece um tanto egoísta querermos que a criança nascida do amor, já seja inserida numa prisão religiosa sem que ao menos ela compreenda o que está ocorrendo.

Recentemente conversando com uma amiga querida, ela me disse que só foi batizada aos onze anos, pois a sua mãe queria ter certeza que fosse ela a escolher a religião, se quisesse uma. Ela, depois de crescida, acabou escolhendo ser católica inicialmente, depois partiu para a Umbanda e recentemente aderiu para uma linha mais xamânica; a qual se sente definitivamente mais acolhida; mas disse que se ela transitou pelas religiões e crenças; esse processo ocorreu naturalmente e por sua própria vontade, como deveria ser tudo na vida.

Outro amigo reclama que sempre se sentiu isolado, não construiu muito bem a sua identidade social, porque seus pais não o iniciaram em nenhuma tradição religiosa. Ele lamenta essa decisão dizendo que os pais têm a responsabilidade de inserir os seus filhos no mundo de forma efetiva, o que incluiria uma religião; cabendo ao filho ao crescer, optar se continuará ou não nessa religião, ou se terá mesmo alguma crença. Ele completa dizendo que a criança deve ser preparada para o meio social, assim como deve ser protegida, alimentada e cuidada.

Um outro conhecido argumenta usando uma base totalmente religiosa, dizendo que todas as crianças devem ser batizadas para serem salvas do pecado original; argumento esse que já o exclui de qualquer debate sério que seja construído levando em consideração o livre fluir de idéias.

A vida muda muito depressa, assim como muda as crenças e as formas de educação. As palmadas, antes aceitas até nas escolas como ferramenta educacional, já não são aceitas nem dentro de casa; assim como o ensino da religião nas escolas brasileiras (profundamente manipulado por uma única voz religiosa predominante), antes obrigatório, hoje na maioria delas, não passa de uma memória; por isso, acredito que há de chegar também um tempo, onde o respeito pela opinião de outro ser humano seja tão importante que não tenhamos escolha a não ser respeitá-la; o que inclui a educação de nossos filhos, tanto em relação a religião quanto as opções profissionais e até mesmo sexuais que possam vir a ter.

Atualmente, já não somos mais crucificados por não querermos ser a imagem e a forma de nossos pais. Se houve famílias de advogados, médicos e engenheiros no passado (bem recente); hoje já existem atores, músicos e até professores dentro desses núcleos familiares; jovens que se rebelaram contra a direção profissional familiar e optaram por um vocação ao invés de uma profissão que visa apenas o lucro ou manter um status familiar. Há inclusive famílias onde a criança é desenvolvida e não apenas criada; e talvez essa “nova” forma de educação seja mesmo um sinal que a maneira como educamos os nossos filhos esteja mudando; talvez seja o acaso, mas sinto que estamos prestando mais atenção nesses seres que nos foram emprestados por um tempo; que ao invés de projetarmos os nossos valores e crenças nessas crianças, estamos começando a encarar o ato de criar um filho como um desenvolvimento de um ser humano e assumindo a nossa responsabilidade nesse rito.

Se mudarmos o olhar em relação a essas crianças, perceberemos que por sermos pais, não somos seus donos e seu destino não nos pertence. Com isso, se torna até meio óbvio que a única educação que deveríamos dar é a educação livre, o ensinar pensar com discernimento desde cedo; o saber interpretar a vida, mostrando à criança a riqueza da diversidade humana, das crenças em diversas culturas, os pontos que essas religiões diferem e os que possuem em comum.

Se o batismo é a iniciação espiritual de muitas religiões, o amor é iniciação da própria vida; e quem ama, não doutrina seus amados, ensina.

segunda-feira, agosto 24, 2009

CHEGADA

Cheguei ao fim da caminhada.

Cruzei o Monte do Gozo com entusiasmo, ao meu lado, meu eu pequenininho. A mochila estava vazia, mas a alma repleta de experiências e algumas certezas, que na certa, seriam mudadas.

Quando cheguei no topo do Monte. Respirei fundo; queria descansar da longa jornada, mas o meu eu-criança, gritava: "vamos!"

E eu recuperando folêgo pedi paciência ao moleque afoito, mas ele queria chegar logo em Santiago; por isso, firmei o meu cajado no chão e dei minhas últimas passadas no Caminho do Campo das Estrelas.

Cantei alguma canção religiosas, enquanto cruzava a linha de chegada, mas meu moleque queria uma do Elvis; fiquei com uma do Raul que dizia assim:

"coragem, coragem.
Se o que você quer é aquilo que pensa e faz.
Coragem, coragem.
Eu sei que você é capaz."


Eu sou capaz, fui de chegar até ali; e foi cantando essa canção que atravessei o Portal do Peregrino e pedi minha benção ao apóstolo, que olhou-me com orgulho, no alto da sua estátua, e pediu que eu entrasse e rezasse meu agradecimento.

Agradeci e vi o meu eu-menino desaparecendo. Cada um tem o Mestre que merece; eu tive o melhor professor: eu mesmo!

Saí da Catedral com alegria e na saída, percebi um papelzinho voando, como se fosse um aviãozinho feito por uma criança, desconfiei de quem era, pois ele aterrizou bem nos meus pés e ao pegá-lo, notei que havia algo escrito:

" Peregrino,

A caminhada real começa agora"

sábado, agosto 22, 2009

O velho, o Carro e o Casamento

Sonho com um velho dentro de uma fábrica empoeirada que não me olha. Tento vender meu carro, ele concorda que compra, desde que eu apresente um convite do meu casamento, a lembrança que foi dada e o nosso par de alianças.

Acordo, ela não está na cama. Estamos brigados, não faço o café; ela não reclama e vai embora sem dizer nada.

Assisto o jornal e lembro do sonho. Tento recordar onde está o convite de casamento e surpreso, percebo que não lembro o que estava escrito nele e a lembrança, sem memória do que era, nem do formato.

Cai então a lembrança de uma velha caixa onde guardo recortes de jornais e revistas que um dia poderiam virar crônica. Abro e o que vejo, um velho convite:

“ Um dia, como por acaso, se encontraram numa viagem e surpreendemente todo o universo conspirou para que se aproximassem e iniciassem um sonho...”

Ao lado do convite, a lembrança: um travesseiro que representava os sonhos e os vôos e dois pares de aliança.

Nesse momento, repasso as cenas do sonho e vejo o homem de novo, não consigo ver o seu rosto, mas noto ao seu lado, um espelho e no reflexo o meu rosto.

Minha noite com a Jurema

Por Ricardo Kelmer
08 Jun 2007 - 09h10min

Em 1999 participei de um ritual no Santo Daime, com a Ayahuasca. Foi uma experiência intensa e reveladora - mas extremamente difícil, que exigiu muito de mim, física e psicologicamente, durante várias horas. Dia seguinte, ainda assustado, estava convicto que jamais me meteria com isso novamente, que o melhor era que meu interesse por estados especiais de consciência ficasse apenas nos livros e filmes.

Mas mudei de opinião após refletir bastante sobre tudo que me ocorrera. Entendi que esse tipo de experiência podia, de fato, me ajudar a entender melhor a vida e a mim mesmo. Concluí que alguns fatores me impediram de aproveitar melhor a oportunidade, como o orgulho, as regras e filosofia da seita e o medo de perder o controle. Eu precisava de outra chance. Estava disposto a tomar novamente o chá e empreender nova viagem ao interior de mim mesmo. Porém, só tentaria novamente se fosse fora do ambiente das seitas.

A oportunidade chegou no ano seguinte: o convite de uma amiga antropóloga para participar de um ritual xamânico com o chá de Jurema, outra planta psicoativa, que cresce no semi-árido nordestino e é usada por tribos indígenas em rituais religiosos. Aconteceria na casa de um seu amigo, também antropólogo, e seria algo mais descontraído e desvinculado de dogmas - que normalmente compõem as seitas que utilizam chás de plantas de poder.

Nessa noite memorável fui conduzido para dentro de mim mesmo pelo próprio espírito da planta, que me guiou, comunicou-se comigo, me assustou, me fez rir e ensinou coisas maravilhosas.

Sim, sei perfeitamente que afirmar isso soa como atentado à racionalidade. Mas não me importo. Aprendi definitivamente nessa noite que o que chamamos razão é apenas uma das ferramentas humanas para apreender a realidade e que ela, a razão, deve ser descartada em certas situações onde precisamos ampliar a percepção da vida. Se nessa noite eu insistisse para que meu lado racional se mantivesse no controle dos fatos, repetiria o mesmo erro da experiência anterior, com a Ayahuasca, quando usei a orgulhosa razão durante horas, num esforço ingênuo, inútil e muito doloroso, tão-somente para barrar o curso natural da experiência. A racionalidade é vital para a vida, sim, mas infelizmente ela se convenceu que a realidade deve ter seu exclusivo carimbo para poder existir.

Nessa noite de 2000, uma hora após ingerido o chá de Jurema, eu estava deitado tranquilo e confortável no sofá da sala e experimentava um intenso fluxo de idéias que se sucediam sem que eu tivesse total controle sobre elas. Foi aí que senti uma forte presença e entendi que se tratava da própria planta, ou melhor, o espírito da planta. Evitando racionalizar sobre o que me ocorria, logo percebi que deveria deixar que a própria Jurema me conduzisse pela experiência e isso significava confiar inteiramente no fluxo natural das idéias e sensações, abdicando de qualquer controle racional sobre elas. Então fechei os olhos e soltei-me das últimas resistências. Mesmo um pouco temeroso ainda, depositei toda minha confiança na estranha força feminina que se apresentava e que em seguida, como se apenas esperasse minha concordância, passou a me conduzir pelas mais diversas idéias, sensações, sentimentos e revelações.

Mal a Jurema se manifestou fui tomado de um imenso respeito por ela, uma reverência que jamais sentira em minha vida. Entendi logo que ela era sábia e poderosa, além de muito, muito antiga. E era bastante amorosa, sem deixar de ser dura quando necessário. Ela não falava, pelo menos não como entendemos o “falar”, mas eu me sentia inteiramente envolto pela grandiosidade de sua presença como, imagino, um peixe “sente” o mar, e era através desse sentir que se processava a comunicação, através da minha mente e também do meu corpo. Eu me sentia protegido e muitíssimo grato por ser tocado por sua imensa sabedoria e generosidade. Se abria os olhos, essa comunicação perdia a força em meio às tantas informações do ambiente - por esse motivo mantinha-os fechados e bastava isso para me sentir novamente amado, compreendido e protegido pela espírito da Jurema.

Durante as quatro horas seguintes o espírito da planta esteve bem presente, me conduzindo, com firmeza mas amigavelmente, por um corredor cheio de portas. A cada porta que se abria eu me deparava com uma nova experiência interior, vivenciando sensações, idéias, sentimentos e revelações importantes sobre minha vida, meus relacionamentos, meu trabalho. Houve momentos de alegria e êxtase mas também momentos de tensão em que me vi forçado a encarar e repensar questões delicadas de minha própria personalidade. Houve também um momento em que me deparei com uma porta e nesse momento fui tomado de um terror nunca antes sentido. Eu não sabia o que me esperava além da porta mas sentia que era algo terrível. Então implorei à planta para me dispensar daquela experiência, fosse qual fosse. Para meu imenso alívio ela me atendeu. Anos depois é que compreendi o que havia além da porta e que eu tanto temia: era a experiência do amor, do qual durante muito tempo em minha vida eu fugi e fugi. Mas isso é outra história...

A Jurema mostrou-me também a urgente necessidade de respeitarmos o planeta e de cuidarmos dele e nesses momentos o espírito da Jurema era o próprio espírito da Terra. Em vários momentos me emocionei e chorei baixinho. Sem dúvida, foi a experiência mais intensa e mais incrível que vivi em minha vida.

Pela manhã não consegui dormir, ainda eufórico. Sentia-me renascido, mais vivo e disposto do que jamais fui, maravilhosamente bem. Era como despertar de um longo sono.

A experiência dessa noite me transformou em outra pessoa. O senso de estar atavicamente ligado à Terra trouxe-me uma notável segurança e tornou-me mais confiante e tranquilo, ciente de minhas origens e de meu papel no mundo. Minha vida ganhou um novo sentido. É difícil explicar mas algo deslocou-se dentro de mim, mudando para sempre minha noção de quem sou eu, minha relação com o mundo e também minha noção do que é este planeta. Entendi que tudo tem uma espécie de consciência e que é possível se comunicar com animais, plantas e minerais e aprender com eles. Como, porém, esta comunicação não se processa no nível da racionalidade, é muito difícil para o intelecto aceitar tal fato, preferindo tratá-lo com desdém e descartá-lo como fantasia, superstição ou patologia.

Mas para mim não há dúvidas. Nessa noite abri minha alma para a sabedoria da Jurema e, através da planta, reconectei-me à minha verdadeira origem, à força sagrada que me gerou e que me nutre dia após dia: a Terra. Senti a imensidão de seu amor e me surpreendi por ter vivido tanto tempo sem senti-lo. Em termos junguianos, poderia dizer que vivi uma profunda experiência com o arquétipo da Grande Mãe, sendo envolvido por sua imensa força e vivenciando-o em ambas as polaridades, positiva e negativa, êxtase e terror. Mas nesse momento dispenso quaisquer explicações científicas, preferindo ater-me ao que, de fato, vivi, ou seja, um encontro com o espírito da Terra, essa mãe generosa e compreensiva que ama a todos os filhos, mesmo que eles tenham esquecido de onde vieram e o que devem fazer. Mas ela alerta: o preço que o filho pode ter de pagar por esse esquecimento é a sua própria destruição.

Os antigos já sabiam e os cientistas de hoje já reúnem provas: a Terra é um imenso organismo vivo. Além disso é dotada de um tipo de autoconsciência que ainda não entendemos bem, dona de um avançado senso de auto-regulação bioquímica e capaz de se comunicar perfeitamente com tudo que nela existe, inclusive os seres humanos. Animais, vegetais e minerais, tudo que há na Terra são como células de um corpo que precisam estar em harmonia para que o todo funcione bem. Infelizmente as células chamadas humanos cortaram a ligação espiritual com sua origem e se desconectaram do todo, passando a se entender como algo separado. Essa ilusão tem causado terríveis problemas ao organismo inteiro, principalmente à espécie humana.

Plantas mestras como a Jurema têm o poder de despertar as pessoas. Mas entendo o medo que a maioria tem de largar sua racionalidade e saltar no escuro de suas próprias possibilidades espirituais. Entendo também o pavor que as religiões cristãs têm da Natureza, sempre demonizando-a. No fundo, é o velho medo de ser livre. Porém, já que isso ocorre, seria maravilhoso se ao menos educássemos nossos filhos no respeito sagrado à Natureza e eles entendessem que a Terra é nossa casa. Ensinar isso já seria uma forma de lhes deixar um mundo muito melhor.



Ricardo Kelmer é escritor, letrista e roteirista e mora em São Paulo, Terra, 3a. pedra do Sol


Para ler este texto no site do autor: http://blogdokelmer.wordpress.com/

sexta-feira, agosto 21, 2009

Se eu cair

A minha casa fica nas nuvens,
Quando eu abro as janelas,
Tenho o céu;

As estrelas não parecem distantes,
Pelo contrário,
Posso tocá-las com as mãos;

Em cada uma delas,
Uma lembrança,
Uma sensação;

Que estou apenas
Vestido de gente,
Pois sou feito de uma outra coisa;

Sou feito da mesma matéria
De que são feitos os sonhos,
Por isso não tenho medo de altura;
Se eu cair.
Eu só tombo.

quinta-feira, agosto 20, 2009

No Rosto de Você

Diante da Sua presença faltaram-me palavras, a poesia calou;

Se ao menos eu pintasse, usaria mil combinações, brincaria com as cores para desenhar as curvas do Seu rosto que lembra o rosto de nós todos;

Se ao menos eu soubesse compor, cantaria a mais bela das canções, a música mais sutil com os acordes mais singelos que tocam direto no coração, enquanto entoamos pontos de exclamação em todas as nossas dúvidas;

Mas eu sou apenas um catador de estrelas, um apanhador de palavras que costura versos, que cata letras e que diante do Seu amor, ficou calado.



Fiquei calado, pois a palavra me faltou e só percebemos o encanto da palavra quando ela nos falta e desejamos expressar aquilo que não pode ser dito;

Fiquei calado, não pelo visto ser complexo, mas porque só nomeamos aquilo que pode ser explicado, digerido, manipulado; e o Seu amor, Senhor, não pode ser descrito ou mensurado.

Porém, sou escritor, meu Pai e por isso Te peço: dai me o nome da experiência que senti, conceda-me o privilégio da tentativa de mostrar aos meus irmãos, que não bebi, não sonhei; eu vivi!

Eu vivi uma das experiências mais honestas da minha vida, pois a mentira, a falsidade e arrogância exarcebada do ego ficaram de fora do salão dourado onde fui recebido pelo Senhor em pessoa;

E eu fiquei curioso, pois sempre acreditei que o Senhor não tinha um rosto; então, o Senhor riu e disse para mim: “Não tenho mesmo, pois tenho todos os rostos”. Na hora entendi, agora pelejo para compreender, como o Senhor consegue ser nós todos e ainda assim ser Você.


Você...

Permita-me chamá-Lo de Você, pois até agora vejo o seu rosto no outro, nos amados e nos estranhos, Te vejo em cada canto e Tudo tem cara de Você.

E isso me dá uma alegria tão grande, pois é muito bom saber que não estamos sozinhos; que por trás de cada ato, há o Seu carinho, o Seu cuidado, como qualquer Pai faria, e eu sei disso, mesmo sem ter sido pai ainda.

Obrigado meu Querido Pai Rei

Por me permitir lembrar disso,

Por ainda me deixar sentir a Sua graça no ar e mais do que tudo,

Por eu poder lembrar do Seu Rosto na face de cada povo e nas curvas de cada coisa.



GOSPEL - Nova Música do Raul Seixas

Depois de tantos pedidos, eis que alguém toca Raul, ou melhor, uma das canções perdidas do Rei do Rock nacional.

Neste mês em que o Brasil relembra os 20 anos de morte de Raul Seixas; novos materiais começam a aparecer para a alegria dos fãs, incluindo uma faixa de 1974 intitulada "Gospel".

A canção foi escrita pelo roqueiro com o seu grande amigo e letrista Paulo Coelho. Depois de gravada, devido a censura, acabou sendo esquecida e ficou perdida durante muito tempo em um velho K7, mas foi recuperada pelo produtor Marco Mazzola, que chamou um time de músicos para fazer novos arranjos. Contudo, vale lembrar que ela é um versão de uma canção de Elvis Presley "Working on the Building" do albúm gospel "Hand In Mine". Coincidência ou não, a música está sendo lançada no mês em que se "comemora" também a passagem do próprio Elvis ( grande inspirador do Raul).


Anyway, ficamos com a canção:

" Gospel

(Raul Seixas / Paulo Coelho)
Por que é que o Sol nasceu de novo
E não amanheceu?
Por que é que tanta honestidade
No espaço se perdeu?
Por que que cristo não desceu lá do céu?
E o veneno só tem gosto de mel?
Porque é que a água não matou a sede de quem bebeu?

Por que é que eu passo a vida inteira
Com medo de morrer?
Por que é que os sonhos foram feitos
Pra gente não viver?
Por que que a sala fica sempre arrumada
Se ela passa o dia inteiro fechada?
Por que é que eu tenho caneta e não consigo escrever? (Escrever)

Por que é que existem as canções
E ninguém quer cantar?
Por que que sempre a solidão
Vem junto com o luar?
Por que que aquele que você quer também
Já tem sempre ao teu lado outro alguém?
Por que que eu gasto tempo sempre, sempre a perguntar? (Perguntar)

Por que é que eu passo a vida inteira
Com medo de morrer?
Por que é que os sonhos foram feitos
Pra gente não viver?
Por que que a sala fica sempre arrumada
Se ela passa o dia inteiro fechada?
Por que que eu tenho caneta e não consigo escrever? (Escrever)

Por que é que existem as canções
E ninguém quer cantar?
Por que que sempre a solidão
Vem junto com o luar?
Por que que aquele que você quer também
Já tem sempre ao teu lado outro alguém?
Por que que eu gasto tempo sempre, sempre a perguntar? (Perguntar) "


Para assistir o clipe da nova versão da canção do Raul:
http://www.youtube.com/watch?v=bKX-2vcZJX8



Para ouvir a versão original do Elvis:
http://www.youtube.com/watch?v=ek3_HGt0uGw




Hypnotizing Maria - Novo Livro do Richard Bach


Saiu o novo livro do meu escritor favorito Richard Bach: "Hypnotizing Maria", ainda sem título em português, mas que promete ser mais um livro de profunda meditação sobre a natureza humana, uma experiência transcendental sem igual, como todos os livros anteriores do autor.

Sou suspeito em relação ao Mr Bach, mas devo apenas acrescentar aos meus leitores que ele foi um dos grandes inspiradores dos meus escritos, se não, o maior deles. Até conhecer os livros de Richard, eu apenas brincava de palavrinhas, como quem come sopa de letrinhas sem reparar nelas; depois que recebi de presente o livro Fernão Capelo Gaivota, nasceu definitivamente o escritor em mim; e só essa estória já vale uma crônica que posteriormente postarei aqui.

Para os interessados e que dominam a língua inglesa, segue essa crítica literária abaixo que fala sobre o novo livro e também segue um link do youtube com uma entrevista com Mr Bach em pessoa.


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Deanna Joseph
BellaOnline's Inspiration Editor

Book Review Hypnotizing Maria

Richard Bach was the first spiritual teacher to step into my life in the guise of a book; Illusions, presented to me by my Grandma on my 14th birthday. When I was ten I’d read Jonathan Livingston Seagull, and greatly enjoyed it, so my Grandma was inspired in her gift giving. I don’t think she ever knew the impact that Illusions had on my spiritual development.

Richard Bach has continued to inspire me through out the years. With each journey I felt I was off to a new and exciting destination; a feather caught in the tailwind of his storytelling.

Hypnotizing Maria, Bach’s latest book, took me by surprise. I expected a story that would captivate me (because he always does), but I had no idea it would touch me at such a deep level.

It’s the story of Jamie Forbes, a pilot and flight instructor, who is making a routine journey back to his home in Florida. While in flight, he picks up a panicked call from Maria, a woman who’s husband, a pilot, has just collapsed while they were flying! Jamie tells her that everything will be okay, that he happens to be a flight instructor, and he knows that together they can make sure she safely lands the plane.

Maria, who does indeed safely land the plane, later tells newspaper reporters that she had been very frightened when her husband collapsed, but that this pilot who came to her rescue had hypnotized her into believing she could fly a plane.

Jamie reads about this in the paper, and it triggers a chain of events which starts with a memory of when he had been hypnotized years earlier.

“Hypnotism… is suggestion accepted.” (From the book – page 47).

Through a series of synchronicities, Jamie learns more about how hypnosis, or suggestions, affect us, and either hold us back, or propel us forward.

“What if we believed we were chained by something that doesn’t exist?” (From the book – page 64).

What I LOVED about this book was its simplicity. Stories that can clearly and easily get a message across offer the greatest impact on our being. Bach is a gifted storyteller who has a way of simplifying the most complex teachings.

Hypnotizing Maria takes us on a journey filled with synchronicities through our own mind. What are the thoughts that go through our head minute by minute, hour by hour? What are we suggesting to ourselves on a daily basis? Are we nurturing or bruising our self-esteem? The thoughts we think, whether they are true or not, affect us and how we perceive the world around us.

Bach illuminates with his words. As I read Hypnotizing Maria I felt as if I were on my own journey. One where I am reminded that every thought I think and every word I say has meaning.

Fonte: http://www.bellaonline.com/articles/art62525.asp
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Entrevista com Richard Back

http://www.youtube.com/watch?v=PyHSu-trNt0

quarta-feira, agosto 19, 2009

IRMÃO MAIS VELHO

Coisa de irmão mais novo: olhar pro mais velho com um olhar de quero ser assim; foi assim comigo, cresci querendo ser o irmão mais velho, ser tão grande quanto ele, conseguir as mesmas conquistas; numa espécie de clone em busca da própria identidade.

Achei quem eu era, quando tentava ser igual a ele; daí passei para a fase onde queria ser bem diferente, queria o meu holofote, queria que as minhas qualidades fossem maiores que a dele; coisa de adolescente, coisa de fruta verde ainda em busca de uma cor, de um sabor; até que percebi que eramos realmente bem diferentes, com uma coisa em comum: o sangue.

Depois da casa dos vinte, as coisas um pouco se inverteram e era ele que seguia os meus passos; e pude com orgulho retribuir o que aprendi com ele; e com alegria perceber que ele aprovara o meu diferente e não tinha vergonha de dizer: "maninho, quero estar aonde está você!"

Os anos trinta chegaram, nossos caminhos seguiram por outras vias, nos distanciamos, porém, numa dessas voltas e revoltas da vida, novamente precisei do meu irmão mais velho, dessa vez era eu que queria estar aonde ele estava e achei que ele diria que não, que me desse alguma desculpa, mas não; ficou feliz em querer que eu estivesse com ele.

E assim a roda vai continuar girando e mostrando que todos os amigos podem passar, mas irmão é para toda vida e para toda vez que a gente precisar.

Feliz Aniversário, Irmão Mais Velho!!!

terça-feira, agosto 18, 2009

Homo Hipócritas

Tem gente que é um modelo exemplar de cidadania: não joga lixo no chão, respeita o banco do idoso, carrega as compras da velhinha, escuta o outro mais do que fala e segue todas as regras do bom convívio social, mas basta chegar em casa, para cair a máscara e o sujeito revelar a sua verdadeira cara: o hipócrita!

Grita com a esposa, não tem tempo de brincar com os filhos, não dá descarga no que fala, acha que todos que estão a sua volta estarão lá para sempre, por isso não se importa em dar um pouco de carinho e um tanto de consideração. É capaz de dar as roupas do corpo para o outro, mais não consegue telefonar para o próprio irmão e perguntar: how do you do?

Temos todos um pouquinho desse hipócrita nas veias do nosso cotidiano. Os estranhos são sempre mais interessantes que aqueles que estão a nossa volta, o quintal do vizinho é sempre mais dourado; a esposa alheia é a esposa perfeita; ser brasileiro é sempre uma desgraça; e seguimos com o nosso repertório das melhores da “Síndrome de Vira-latas” como dizia o Nelson Rodrigues; sempre idolatrando o que é de fora.

Como combater essa herança?

Como destruir essa erva-daninha para que ela não avance no jardim de nossos filhos?

Infelizmente não existe resposta simples, solução direta, mas cada um sabe os esqueletos que estão escondidos em seus armários e deixar de ignorá-los, já é um bom começo.

segunda-feira, agosto 17, 2009

Síndrome de Peter Pan e Outras

Se até a Turma da Mônica cresce

Que fim terá a minha síndrome de Peter Pan?

Espero que o menino em mim

Fique mais tempo;

Esse adulto vive me dando susto!!!






*)

Acabei de participar de uma dinâmica

E de tudo o que

Vivi, falei e quis tentar passar,

Ficou as palavras de Ana, a psicóloga:

" A auto-estima começa
Com a AUTO estima;
Depois o outro
Te estima!"

*)

Algumas lições do dia que ouvi das pessoas ao meu redor:

" Se eu pudesse viveria mil anos pelos meus filhos!"
" O sonho só passa a existir, quando acreditamos nele"
" Quero viajar o mundo quando eu tiver coragem"
" Só devemos fazer aquilo que queremos, todo o resto é perda de tempo"
" Importante é não dar importância a nada que deseje ser importante"

Pianinho

Preciso aprender a entrar

De mansinho em cada lugar,

Não chamar a atenção para a minha pena,

Não puxar a sardinha para o meu prato.


Não é fácil!

Tenho fome de amizade,

Anseio por colaborar,

Mas é chegado a hora de trocar

O tambor pelo piano...

A CANÇÃO DO SALÃO DOURADO


Piso delicadamente nesse salão dourado.
Piso macio com suavidade, pois já sei que não caminho mais à esmo, não estou mais equivocado e mesmo que esteja, são tantos os bons frutos, que mesmo se amanhã, eu descobrir que estava errado, o aprendizado foi digerido; a lição espalhada em palavras. Não sei o que me aguarda ou se terei êxito, mais percebo na sutileza do que eu sinto, no perfume que cheiro, que não preciso acreditar para saber que sempre houve porque sempre há um Criador, um Arquiteto Divino que planejou esse salão dourado revelado nessa noite.

Diante de coisas tão belas, peço desculpas, peço perdão, se por vezes, fico cego; se duvidei, pequei por inocência; na ingenuidade de quem acredita em tudo o que se diz ser verdade; não era, não é! Pois a verdade não diz que é verdade, ela se mostra completa, por inteira e o coração sabe, o coração sabe.

Foi permitido que eu voltasse para esse salão dourado, depois de um bom tempo exilado por minhas próprias desconfianças e se conto o que conto é que me deixaram contar o que senti, pois preciso se faz lembrar aos meus irmãos que estamos todos destinados a ocupar o nosso lugar ao lado do Pai, da Mãe e do Irmão nesse reinado.

domingo, agosto 16, 2009

ELVIS E EU

Elvis e eu caminhamos juntos faz muito tempo. Pouca gente sabe sobre a razão das minhas costeletas, do ainda topete e se hoje sou fascinado por música em geral, aprendi a gostar com o eterno Rei do Rock, mas nem sempre a nossa relação foi assim.

Morto há 32 anos ou desaparecido, como alucinam alguns; a sua música percorreu as novas gerações e ainda fascina muita gente. Comecei a ouvir Elvis por causa da minha tia e como ela só tinha um álbum e tocava sempre a mesma música; digamos que eu simplesmente odiava o topetudo; e estamos em 1977.

Morávamos em Brasília, meu irmão mais novo, Billy, tinha apenas alguns meses de vida, quando as TV´s do mundo inteiro anunciavam todos os detalhes sobre a morte do Rei. Algo parecido, ocorreu com o Michael Jackson esses dias, tentem imaginar, ao invés de "Billie Jean" e "Triller", as rádios tocando sem parar "Jailhouse Rock", "Love me Tender" e "Can´t help falling in love", mas a minha tia só tinha ouvidos para "Kiss me quick".

"
Kiss me quick, while we still have this feeling
Hold me close and never let me go
'Cause tomorrows can be so uncertain
Love can fly and leave just hurting
Kiss me quick because I love you so
"



Ela ouvia a canção sem parar, dia e noite, eu era muito pequeno, apenas 3 anos, mas aquela música ecoava até em meus sonhos e à medida que fui crescendo e experimentando outros mundos musicais, uma coisa eu tinha certeza: eu odiava Elvis Presley!

Gostei primeiro do Michael, daí para o Rock Nacional, fui até fã do Raul antes dos dez; aos doze, eu conhecia muito sobre a música americana e brasileira, aos 17 ganhei um CD do Elvis e por coincidência, era o mesmo álbum de 1977, o álbum que incluia "Kiss me quick".

Ignorei o CD o máximo que pude, até o dia em que arrisquei ouvi-lo e para a minha surpresa, eu simplesmente amei.

Era o som que faltava em meu vocabulário musical.

Havia no álbum, canções como:

Don't Be Cruel
All Shook up
Teddy Bear
Suspicious Minds
The Wonder Of You
An American Trilogy


De Elvis, comecei uma bu
sca pelo som do RocknRoll dos anos 50 e 60. Quanto mais ouvia, mais gostava. Era como se Elvis liderasse um batalhão do Rock que tinha Jerry Lee Lews, Buddy Holly, Rick Nelson, Everly Brolthers, Little Richard; Chucky Berry e outros tantos grupos, female singers e comecei uma coleção dos Goldies, sempre de olho no repertório do Rei que se alastrou pelo mundo todo. O que seria de Roberto Carlos sem a influência do Rei? Lulu Santos? Do Rock Nacional? Rock do mundo? Os Beatles foram influenciados totalmente por Elvis e Buddy Holly...

Hoje, depois de pequeno de tamanho e grande musicalmente, Elvis é basicamente presente em toda lista de música de meus mp3 e iPod. Não consigo me afastar muito tempo das suas canções e até consigo ouvir "Kiss me Quick", por isso termino essa homenagem com um obrigado a minha tia.

YOGA PELA PAZ 2009

Ato I: Calor
Estamos no Yoga pela Paz 2009. O sol aquece muito mais do que a gente gostaria que queimasse a pele e a moleira; no palco, uma moça de voz suave conduz uma meditação, penso em ir pra a sombra, não vou não; fecho os olhos, faço um terço da posição de lótus, cheiro um tanto de incenso que vem do lado e somos todos embalados numa visualização de amor e união pela humanidade.

O Yoga pela Paz é um evento anual que leva a prática e o conhecimento associado ao Yoga, à Ayurveda e às culturas orientais a milhares de pessoas. A proposta é uma meditação coletiva pela paz mundial, num evento muito importante, que ocorre desde 1993 pelo mundo; aqui no Brasil, participo desde 2005; sempre que possível, junto com meus amigos da Lista Voadores.
Ato II: Passione
O Parque do Ibirapuera não é Woodstock, mas é so amor e harmonia, minha esposa e eu, e milhares de pessoas sendo conduzidos por uma voz suave e calma que nos convida a meditação:

“ Respirem fundo, entrem em comunhão com a Terra. Lembrem-se que cada decisão que tomamos é uma escolha entre o sofrimento e o milagre...”

Opto pelo milagre e sou um com a Terra e com todos os seus elementos. Absorvo o sopro cósmico; faço meu pranayma; ajusto meus chacras e logo estou sentindo minha aura pulsando e se expandindo, juntando-se com a energia coletiva; sinto como se fossemos um único corpo, uma única alma, em total expansão da consciência. Posso ouvir o som de mil anjos tocando harpa e cantando:

“Tô ficando atoladinha! Tô ficando atoladinha...”

Será que havia alguém fazendo sexo no parque? Não! Era o som de um celular tocando um funk, não o meu; o da moça do lado:

- Oi! E ai? Tudo bom? Estou aqui numa meditação no parque,pode falar...

A meditação acabou pra mim, mas para quem não estava perto, continuou com o som do Mahabanda; uma banda que não tinha muita coisa de “maha”, mas alguns mantras, bhajans, Lázaro e Camilla, e muita microfonia depois; matamos a nossa sede com as garrafinhas d’água Crystal, patrocinadora oficial do Yoga pela Paz 2009.

Entra Carlinhos Brown vestido de guru indiano:

" Bebeu água? Tá com sede?
Água...água...água...água...água é crystal; água é crystal, água é crystaaalll para o yoga ficar legal!!!"

Propaganda à parte, descobrimos o ato secreto yogano e o que fizeram com o dinheiro que pagaria a vinda do Krishna Das. Revoltado, quis gritar: “tragam o Krishna, o pessoal que traga água de casa!”, mas todos estavam ansiosos esperando o show da banda americana Shaman's Dream começar; e eu decidi esperar para ver. Eles deveriam ser bons, depois de quatro anos com o super star da yoga sempre fechando os eventos, não trariam uma bandinha de chill out eletrônico para nos conduzir ao samadhi musical.

Ato III: Profundo
Como seria o show final pela paz?

Curioso, perguntei pro Lázaro ao meu lado se ele sabia alguma coisa sobre essa banda, mas ele não me deu muita atenção, pois estava totalmente em comunhão celestial com um pote de marmite que havia ganhado e tirando fotos do pote com o seu iPhone. Ansioso em saber mais sobre a atração musical e sabendo que o Láz provavelmente tinha lido sobre o grupo; parti para a ignorância e para chamar a sua atenção, lhe tomei o seu iPhone, dizendo que só devolveria se ele me contasse o que sabia sobre aquela banda:

- It´s mine! It´s mine! - ele disse alucinado, olhos brilhantes, com certeza, precisa de um terapeuta; alguém conhece algum que tenha Twitter? - Cuidado! Cuidado! - Ele repetia sem parar, com os olhos fixos no seu precioso aparelho.

- Fale sobre esse tal Shaman´s Dream. É melhor adiantar alguma coisa, senão, adeus iPhone!!! - ameaço, sou o Jack Bauer da Paraíba.

- Ok! Ok! – ele concordou passar a informação – Eles parecem fazer um som interessante, isso é tudo o que eu posso dizer – concluiu e pegou o iPhone da minha mão, se afastando, enquanto sussurrava: “my precious! My precious!”.

Hum...o Lázaro disse que eles são interessantes, isso não parece bom.

Continuamos conversando, batendo papo, rindo; Camilla me falando de sonhos, minha esposa Auri se preparando para o show da tal banda; Lázaro com a marmite e o iPhone; e enquanto isso, em algum lugar no lado das sombras, Fernando Golfar e Adriana Splendore, assistiam a uma caravana de peregrinos a caminho do Himalaia passarem na frente deles: gurus sendo entrevistados pelos repórteres sérios do Pânico na TV; vendedores de espetinho de tufu; palestrantes da medicina ayurvédica distribuindo panfletos condenando os carnívoros de plantão; cachorrinhos fazendo asanas, crianças cantando Hare, Hare Krishna. Era mais um Yoga da Paz e desconfiamos que havia outros voadores por lá, mas acabamos nos desencontrando; não dava para procurá-los mais, no palco, com a gente, a banda Shaman's Dream!

Ato IV: Loucura
Aplausos!!! Clap! Clap! Clap! Alguém pode pedir pro DJ para parar de tocar? Afinal, a banda já está no palco e vai começar a apresentação. Contudo, o DJ continuou a tocar e uma moça possivelmente em transe após muita respiração de prana branco, começa a dançar sem parar; com uma animação meio axé demais para um evento de yoga; ela parece animada, a gente não.

- We are from Los Angeles - ela grita e eu traduzo: "Somos de Los Angeles, seus índios". E ela segue repetindo de onde eles são, a cada dois putz putz. Onde estão os Hare Krishnas do Paraíso mesmo?

Um cara toca tambor, não consigo ouvir, o DJ está com todo o poder do som. Olho pros lados, o sujeito que estava com o incenso na mão dança freneticamente, a outra dona que estava com pernas pro ar, entra em profundo êxtase musical pulando a cada putz, putz, putz. Olho pra Auri que olha pra Camilla que olha pro Lázaro, que me dá um mea culpa: “no site parecia mais interessante”, ele diz; algumas pessoas se levantam e vão embora, outras entram no clima da “Rave da Paz”.

Ato V: Fuerte
Enquanto todas as yogues se retorciam nas mais variadas poses da prática do som eletrônico; lembrei da meditação e diante da opção entre o sofrimento e o milagre, olhei pras meninas e para o Lázaro e perguntei::

- E se encontrássemos um bom restaurante vegetariano?

- Que tal aquele da Paulista? – pergunta Lázaro

- Parece interessante! – respondo – Quem sabe a gente não encontra o Bene por lá contando a piada do circo de pulga para os outros voadores em seus duplos.

TRUPE ARTEMANHA

A TRUPE

Teatro de rua com sorriso, cultura e conhecimento; assim pode ser definido a grosso modo e a modo grosso, a experiência de assistir a tragicomédia “ Brazil, quem foi que te pariu?” do grupo de teatro Trupe Artemanha. A peça percorre a capital inteira, contando a história do Brasil de um jeito sarcástico, irônico, mas muito divertido que encanta públicos de várias idades.

ARTE

Em frente ao Pátio do Colégio, no centro de São Paulo, os transeuntes param, os mendigos ficam encantados; um público fiel vai chegando e se acomodando no chão mesmo sob o calor das 15 horas, num dia de verão em pleno inverno. Chego com meu grupo de estudantes, que não possuem a menor idéia do que vão assistir; eu já havia visto algumas fotos, até um vídeo, conhecia a fama da peça de boca; mas ao observar como aqueles atores profissionalmente montam um espetáculo tão bonito na rua, com seus próprios recursos, pensei na arte no Brasil e percebi porque ela é tão boa, pois quem a faz, é gente que a ama e quem ama faz com gosto; faz e encanta.

Não sei se assisto a peça ou observo as pessoas; fico alguns momentos com a peça, em outros sigo a reação de cada gente, dos estranhos e dos meus estudantes: minha irmã e meus sobrinhos riam sem parar das situações cômicas; Denise refletia sobre como fomos colonizados e a maneira como o nosso país já começou errado; Débora, olhava a tudo com mil interpretações; Niele, minha prima não piscava; Larissa, minha sobrinha olhava, absorvia tudo o que seus doze anos conseguia; um olhar adolescente, outro mais maduro; até olhar estrangeiro tinha, havia público de tudo que é jeito; até bebê que respondia ao som e as cores com golfadas de alegria.

MANHA

Sim, a peça é um festival de alegorias históricas, com muita música, um quê de política, mas sem a chatice do falar só de denuncia, numa forma brasileira de rir da desgraça, mas tirando a lição necessária em forma de alegria, sem esquecer da devida meditação que se começamos errado, ainda temos tempo e arte para consertar; e dá-lhe batucada, dá-lhe samba, forró, todos os ritmos dos quatro cantos brasileiros; e o fim da peça se aproxima; uma atriz vestida de índia que representa a própria floresta, usando pernas de pau, vestida de verde; junto com os outros atores, fazem uma dança índigena e olho para os meus sobrinhos, respectivamente 6, 10 e 12 e percebo que a próxima geração já está sendo preparada com arte e isso me esperança de um mundo mais forte, com essa geração preservando a natureza, pois, como diz uma música: "é dela que tiramos mesmo a nossa riqueza".

ARTEMANHA

Sim, entramos, mas saímos do espetáculo transformados.

A trupe se despede propondo uma ciranda. O público não arreda o pé, pelo contrário, estava esperando a deixa, para entrar no espetáculo também e o que se viu, em frente ao Museu do Padre Anchieta, no centro do Sampa, foi uma ciranda gigante com crianças, adultos, velhos e muita gente cantando e dançando, celebrando a vida e a arte de fazer o feio ficar bonito com a manha de quem sabe.


Fotos: http://trupeartemanha.blogspot.com/2009/06/comeca-temporada-do-brasil-quem-foi-que.html

Burgos

Caminho com minha irmã pelas estradas de Burgos que levam peregrinos a Santiago. Ao nosso lado, uma loja de souvenirs ; do outro lado, uma loja oferecendo capuzes, roupas medievais.

Estamos em silêncio, minha irmã tenta acompanhar o meu ritmo, eu sorrio; estamos juntos há muitas estradas; porém é a primeira vez em que ela caminha lado a lado comigo. Não digo nada, mais tenho orgulho das suas passadas, das suas tentativas de enxergar o que há e chegar lá, mesmo com os calos, a dor no joelho e todos os boicotes da peregrinação.

Somos irmãos aqui e lá. Ela sabe disso, eu nem preciso dizer. Há realmente coisas que não precisam ser ditas, pois as ações falam por si e ditam as setas a serem seguidas.

Acordo...


E percebo que a caminhada foi um sonho
Ou pode ter sido lembrança de outras estadas sonhadas.

Calado, escrevo essa crônica, ainda lembrando do cheiro das ruas de Burgos e o quanto bravos todos nós somos por caminhar em direção a esse lugar que nem sabemos ao certo onde é ou como vamos parar.

sábado, agosto 15, 2009

Dois Cavalos

Ela gosta mais das crônicas que falam do cotidiano; não gosta dos contos fantásticos e das poesias surreais que escrevo, volta e outra. Não usou exatamente essas palavras, mais eu vi em seus olhos, que essas letras "espiritualistas" são meio excêntricas demais para quem a leitura deve ser sempre uma aventura com tiquete de volta.

Expliquei que era preciso ler nas entrelinhas, ir além da dificuldade inicial das letras herméticas e compreender o impacto da leitura da surpresa, aquele tipo de literatura que modifica o pensar, faz questionar; mas ela insistiu: você escreve melhor quando fala das coisas da gente e daquilo que nos ocorre. Nem sempre estamos dispostos a embarcar nessas "viagens sobre esse mundo e sobre os outros mundos que existem além da nossa imaginação."

Eu respondi que tinha consciência que já havia um público cativo, que retornava todos os dias, famintos das Crônicas do Frank, e justamente por isso, não poderia permanecer com uma única escrita, que precisava, vez e sempre, brincar com as palavras, com os símbolos; arrancar um ? mesmo que demorasse o !

Ela disse que continuaria a ler; eu disse que seria um prazer; afinal escritor e leitor são dois cavalos correndo lado a lado nos campos da leitura e da interpretação.

sexta-feira, agosto 14, 2009

Notícias de última Hora

Após uma semana em vigor, lei antifumo "esbarra" na lei Psiu

O Psiu foi chamado por vários moradores da Rua Oscar Bares pelo barulho ensurdecedor de uma multidão de gente tossindo abaixo de suas janelas.

Os agentes do orgão público que cuida do silêncio e da paz dos paulistanos não sabia o que fazer: se levavam os tossintes para a delegacia ou para um pronto socorro.


São Paulo ultrapassa 11 milhões de habitantes, segundo o IBGE

Ei, eu moro na Cidade Tiradentes, alguém veio me contar aqui?
Não me lembro!


Filme "Bruno" ataca mundos da moda e das celebridades

Salve o São Arlequim, santo padroeiro dos palhaços, pois somente o humor, mesmo que ácido, para revelar os esqueletos que escondemos no armário.


Militar diz que navio mercante desaparecido está perto de Cabo Verde
Nada como o velho ciclo das coisas.
Tudo retorna ao começo,
Ainda que não seja coisa boa
Só falta aparecer o Willy CaOlho

Manifestantes fazem ato e mantêm interdição parcial da av. Paulista em frente ao Masp

Estou organizando uma manifestação contra todas as manifestações feitas em frente ao Masp, na Avenida Paulista. Alguém quer participar? Vai ser na Avenida Paulista ...

O EVANGELHO SEGUNDO TODO MUNDO

No principio Deus criou o universo, o mundo e a mim e para me fazer companhia, você. Viu? É simples! Acabou o mistério, perdeu a graça, parei de brincar de busca-busca pistas nas estrelas e você?

Para os grandes koans da vida, tenho apenas uma resposta: vão infernizar outra pessoa, eu quero viver.

Passamos cerca de 25 anos da nossa vida dormindo, outros 10 vendo televisão e outros 15 provavelmente mandando mensagens pelo Twitter. Quanto tempo resta? Com a gripe suína avançando e se continuarmos gastando tanto tempo filosofando sobre quem somos, de onde viemos e para onde foram os milhões dos atos secretos; provavelmente acabaremos indigestos arrotando o pouco tempo que nos resta com todo essa filosofia espiritualista ao invés de vivermos as grandes alegrias da vida. Aqui entre nós, esse negócio de busca espiritual sempre acaba em pizza da verdade universal nunca revelada. Até onde eu sei, ninguém nunca ganhou o prêmio Nobel por ter provado a equação "Deus-cria-homem-e-depois-brinca-de-esconde-esconde".

Chega dessas discussões infernais. Saiam dos computadores, fechem os livros, corram para os parques e fiquem agradecidos por sermos apenas uns homenzinhos, frutos de uma reação química num planeta de décima gategoria mantido quente por um sol de quinta grandeza.

Ahh!

Hum...

Ok, confesso: Não penso assim, pelo contrário!

Desculpem o desabafo, mas é que estou revoltado e por isso, talvez, esteja dizendo que ficar se indagando sobre Jesus e Maria Madalena é perda de tempo, pois a missa avança. Sim, a espiritualidade vale a pena e a crônica. Não há dúvidas, mas estou passando por minhas pedras no caminho e brincando um pouco de Pedro, negando até que sou preto. É aquela fase onde queremos apenas olhar para o mundo e esquecer os mistérios do céu, pois um pedido que fizemos não foi realizado e nos sentimos traídos pela espiritualidade; afinal, depois de tanto tempo de trabalho para o bem, onde estava Deus que não realizou aquela cura ou fez cair no nosso colo aquele trabalho tão desejado? Cadê aquele empurrãozinho espiritual, ainda mais em tempo de crise? Se tem colarinho branco vivendo bem com a grana do nosso bolso no Senado, será justo que nós, trabalhadores da espiritualidade, estejamos sempre na pindaíba?

Sim, burlei a regra e fiz o meu ato secreto também e ao invés de agradecer por estar acordado, fiquei pedindo uma intervenção, uma ajudinha; esquecendo que se devemos seguir a lei do carma, a lei da gravidade e até a lei do Serra e do Kassab; não podemos nos esquecer da lei da espiritualidade, que diz que o nosso conhecimento sempre será útil para os outros, nunca para nós mesmos ou para os nossos amados; pois afinal, se temos um poder em nossas mãos, e estar desperto para a espiritualidade é um poder descomunal; não é justo que tenhamos mais vantagem que os outros.

O mundo tem as suas dificuldades para todos: contas a pagar, violência, injustiça, desemprego, novela mexicana e todo o pacote de mazelas que faria duvidar até o Papa sobre a existência de uma causa divina. Porém, se toda vez que as coisas apertassem, o céu se abrisse e tivéssemos o que pedimos, seriamos um bando de preguiçosos; essa “gente especial” demais para trabalhar e superar os obstáculos do caminho por conta própria, como boa parte do mundo faz. Seríamos os espiritualistas invocados, gritando com o mundo: não mexam comigo! Vocês sabem com quem estão falando? Cuidado: sou o “Filho do Pai!"

Ora essa, somos todos filhos do mesmo Pai, né? Ou não é?
Se quisermos que o nosso time ganhe, que tal jogar bem ao invés de pedir a Deus que seja corintiano? Pensando nisso, lembrei que toda vez que vejo na televisão aquele monte de jogadores rezando o pai nosso depois do jogo ganho ou mesmo antes, fico pensando no time adversário. Será que eles são menos merecedores da vitória?

Para não chover no molhado, pois tenho certeza que você já entendeu o recado; só queria dizer que sabíamos que não teríamos lugar especial no estádio do Divino quando nos propusemos a jogar e agora não adianta reclamar e se irritar, dizendo por aí, que esse negócio de espiritualidade é conversa, só porque não lhe dá de mão beijada o que te interessa.

O evangelho da vida se escreve com as parábolas, lutas e lições vividas por todo mundo. O problema é que queremos sempre um tratamento especial, mas se tivermos um pouco de discernimento e maturidade, avançaremos nos tempos da "Kali Dúvida" e encontraremos Deus sorrindo, orgulhoso por termos finalmente entendido a piada.

quinta-feira, agosto 13, 2009

Bene´s Koan

From Bene
Lista Voadores

O que é pior, afinal?
Uma criança que crê no nada,
ou
um marmanjo que acredita em tudo?

GAIVOTA – VOANDO COM OS ESPÍRITOS, ALÉM...*


By Wagner Borges

Gaivota, gaivota, que conhece o céu e o mar...
Revele-me o que o vento lhe ensinou.
Aquilo que os pescadores não viram,
E que o velho do mar cantou.

A sabedoria do coração que sente e sonha...
A fé que move montanhas e abre caminhos.
O amor que a tudo transforma...

Ah, gaivota, você viu o azul do céu bem de perto.
E você riu e agradeceu à Grande Gaivota Criadora.
E você também viu os espíritos subindo nos raios de sol.
E outros mais descendo nas gotinhas de chuva.
E junto com eles, você cantou...

E lá, na linha do horizonte, você bordejou contente.
Porque o vento levou-a em seu ventre...
E os espíritos lhe falaram de outras paragens, além...

Ah, gaivota, os seus pais e irmãos não morreram.
E nem os seus amigos... E o velho do mar também não.
Eles voaram para outras paragens, no ventre da Luz.

Olhe o momento mágico do crepúsculo, e veja além...
Veja as primeiras estrelas surgindo no firmamento.
É para lá que eles foram, todos bem vivos.
Sim, para a Casa das Estrelas, no ventre do Todo.

Ah, gaivota, escute o seu coração.
Nada é mais precioso; e o amor faz voar bem alto.
Continue a cantar e rir, como o vento lhe ensinou.
E outras gaivotas também compreenderão...

Sim, continue voando pelos céus da Grande Gaivota Criadora...
Siga cantando e rindo com os espíritos... E vendo estrelas.
E seus pais, irmãos e amigos também cantarão junto, além...

Gaivota, gaivota, que conhece o céu e o mar...

(Dedicado aos pais, irmãos e amigos que hoje moram nas estrelas, no ventre do Todo.)

P.S.:
Há almas boas, tranquilas e magnânimas, que, como a primavera, fazem bem a todos. Elas ajudam silenciosamente aos homens na longa travessia das existências seriadas. Fazem isso apenas por sua bondade. E sempre ensinam que há uma luz que brilha mais do que bilhões de sóis juntos e que é a essência da alma.
Essa é a luz que mora no coração.
Então, que essa luz ilumine esses escritos, para que eles cumpram sua função no mundo e inspirem a outras gaivotas a pensar no Eterno que está em tudo.

Amor e Alegria.
Paz e Luz.

- Wagner Borges – pequena gaivota encarnada... Voando e aprendendo com o vento do Espírito Supremo.
São Paulo, 01 de julho de 2009.

- Nota:
* Para enriquecimento desses escritos, sugiro aos leitores que leiam os dois textos intitulados de “O Vôo da Gaivota - I e II”, publicados no meu livro “Flama Espiritual”, e também disponibilizados no site do IPPB, no seguinte endereço específico: http://www.ippb.org.br/modules.php?op=modload&name=News&file=article&sid=4997.

PRECISAMOS DE UMA TRAGÉDIA

Só uma tragédia para nos unir
Uma tragédia para nos fazer pensar
Um desastre para darmos as mãos
Olharmos pro céu
E para os irmãos

Só uma tragédia para varrer a lama
Do castelo
Onde o Rei e a Rainha
Fazem festa
Com nosso dinheiro
E empregam princesa e príncipe
Em ministérios
De vilarejos desertos
Com atos secretos

Só um desastre para o pastor
Perceber que virou
O que tanto falava
Que temia
Que deviamos temer

Foi ao meio dia, do sol à pino
Que o pastor virou lobinho
Lesou o seu rebanho
Em troca de alguma lã
Que dura um tempo
E depois se cobra

Foi na nossa cara
Que o Rei e a Rainha cuspiu
No prato e pediu mais

Só uma tragédia, um desastre
Para sairmos à rua e pedimos forca
Pedirmos justiça
Criarmos vergonha
Deixarmos de ser ovelhas tolas
De sermos ainda um Reinado de Bananas
Onde a Pizzaria não é uma casa de massa italiana

Que um Robin Hood venha nos salvar
Dessa corja de lobos que sentam no trono

Que o Divino "Rabi" mostre o rosto
E revele que quem pastora em seu nome é o lobo mau
Disfarçado de vovôzinho
Pois é tempo
De acabar com a ingenuidade dos chapéuzinhos
Que acreditam em qualquer milagre
E votam sempre nos nobres que apodrecem esse reino
Que não é a Dinamarca.



DEIXA PRA LÁ

Deixa passar, deixa ir.
Com carinho e com amor,
Observe aquilo que era entrave,
Deixa passar,
Deixa ir.

Não lute;
Não tente eliminar, extinguir;
Deixa passar,
Deixa ir.

Não dialogue com as sombras, não reaja;
Deixa ir,
Deixa passar.

Não é preciso lutar,
Troque a espada por seus olhos,
Observe o inimigo golpeando o ar,
Observe o combate perder a graça,
Ir
E
Passar.

quarta-feira, agosto 12, 2009

ANCESTRAIS


Pense a respeito:

Você é o ultimo de uma longa tradição,
Uma extensa linhagem de ancestrais;
Gente que pisou por aqui,
Que talvez ainda pise
Ou que não pisa mais;
Por isso quando precisar de ajuda,
Quando precisar de firmeza;
Sinta a força dos seus pais-avós,
Dos seus avôs-pais;
Do ultimo ao primeiro que pisou na terra;
Do primeiro que veio
E deixou para frente o que havia atrás;
E está em você, como presente,
Mesmo que você não sinta mais;
Mas acredite, você já sentiu;
Quando o seu corpo estava sendo feito;
Quando a sua alma voltou para a Terra;
Trouxe com ela a sintonia de outros tempos,
Uma energia que já entrou na matéria
Com laços que ultrapassam os planos
Que vão além do tempo
Do espaço
Do que você acredita
Do que há de fato
Eles se foram, mas ao mesmo tempo estão ainda aqui
Habitam dentro de você, e continuam aqui
E deixaram um pouco
Para que você continue usando

Você é muito, único e múltiplo
E nisso reside a sua força
Por isso, levante-se homem
Trabalhe, esforça-se
Apoia-se nas suas próprias pernas
E continue...

terça-feira, agosto 11, 2009

Quebra de Decoro

Quebra-se o decoro com o palavrão,
a palavrinha
e onde ficou a palavra
dada ao povo:
decorada!

Decorou-se o discurso, roubou-se o voto,
Enganou-se o povo, deu-se leite,
Voto barato, longo mandato
A família agradece
O novo cargo
O povo espia
Não entende mais nada
Tudo acaba em pizza
Ou em marmelada
E o Brasil segue falido
Sem político
Sem política
Sem vergonha
E vazio


ONDE VOCÊ ESTÁ AGORA?


Eu não estou aqui,
Eu estou em todo lugar
E em lugar nenhum
E mesmo assim não deixo de existir.

Eu estou refletido no olhar de um índio
Que da praia observa
Uma frota de caravelas surgindo no horizonte.

Não tente compreender,
Entenda!
Nas infinitas dimensões da mente
Onde nos fazemos presentes,
Calam-se as palavras,
Experiências são sentidas
Não podem ser descritas
Nem cabem nas palavras,
Por isso, tudo é dito;
E o mistério é revelado
E tudo faz todo sentido.

Guarda a tua pergunta
E perceba:
A vida não se faz dúvida,
Justamente por ser óbvia.
Existe algo
No olhar do índio que prova sem ter provas,
Que estamos todos dormindo,
Mesmo estando acordados;
E a consciência de quem somos
Surge no horizonte
Como oposto vestido
Como destino velado,
Pois a vida é um pensamento fluindo
Nos olhos do índio
Que está sonhando
Que sou eu onde estou agora;
Que é você,
Onde você está agora?
Tem certeza que está mesmo aí?
Ou chegando na caravela?

UMBANDAIME

A polêmica envolvendo a Umbanda e o Santo Daime Muitos são os caminhos para o Divino, muitas são as práticas, as estradas iniciáticas, as técnicas e as escolas; e se desde o começo dos tempos religiões são oferecidas aos montes, se deve ao fato que é inquestionável a fome de espiritualidade que temos dentro da gente . Talvez isso seja apenas uma semente que foi plantada há muito tempo e que precisa ser devidamente regada, para crescer com troncos fortes e florescer em fruta madura a ser entregue para quem vem depois e tem a mesma fome que nos levou ao começo da caminhada; caminhada que nos levou e nos leva ainda a buscar as mais diversas formas de contato com Deus; e é por essa razão e por sermos tantos indivíduos com os nossos pontos de vista respectivos, que a cada dia, a cada hora e a cada precisar, uma nova forma ( ou antiga repaginada) surge ou surgirá para nos religar.

Toda religião “nova” ou mal documentada ou vulgarmente estudada pode ser alvo de perseguições, críticas desenfreadas e nem um pouco construtivas. Afinal, falar mal de qualquer caminho é ignorar que todas as estradas são válidas; até mesmo aquelas que pela sociedade são renegadas. Chamar atenção para abusos é um dever de qualquer estudioso da espiritualidade, mas é preciso cuidado, cautela, pois basta uma palavra mal intencionada ou experiências pessoais mal analisadas para negativar uma busca sagrada. Foi assim com a Umbanda, é assim hoje com as religiões derivadas do uso da Ayahuasca; e será assim amanhã com outras formas mais que fugirem daquilo que não se adequar na “religião de Meu Pai”.

Talvez pela sorte do acaso ou talvez por alguma repercussão cármica, nascemos, graças aos deuses, nesse país de maioria miscigenada, onde a cor de pele não representa mais nada, em virtude de muita gente de pele branca ser mais negra que muito negro, e mesmo sob forte influência das religiões que foram herdadas da Europa, a Umbanda e o Santo Daime (uso esse nome como exemplo, pois é assim que é mais conhecida as religiões que usam como sacramento essa bebida), foram evoluindo e sendo misturadas com outras cores em outras festas; envolvendo o maracá indígena com o tambor africano; migrando naturalmente dos guetos e da floresta para a cidade e para os grandes centros, tornando-se uma mistura que muitos defendem e outros tanto criticam, mas que possui uma força própria independentemente do atrito do preconceito que deseja para a sua trajetória. Vivemos num país de maioria cristã, mas que de alguma forma nasceu com uma vocação religiosa universalista; abraçando outras religiões e as tornando parte de uma única crença: a brasileira. Foi assim com o espiritismo francês, tem sido assim com o orientalismo hindu e budista; ou seja, uma construção silenciosa, mas expansiva de uma identidade espiritualista onde todas as formas da fé são bem-vindas, afinal, é somente nas ruas desse país, que um evento envolvendo judeus e muçulmanos numa corrida da paz poderia tomar lugar; como ocorreu num dia desses em São Paulo. Porém, é natural também que toda religião nova passe por uma fase de perseguição antes de ser devidamente incorporada e adaptada à sociedade. Essa é a razão desse artigo, uma defesa da fé como um todo, e explico isso, pois não sou umbandista, nem tão pouco daimista, ou mesmo praticante de qualquer religião em especial, e se é preciso nomear ou rotular alguém pela crença que persegue, esse escritor não passa de um estudante da espiritualidade em suas infinitas formas que contrabalanceia com esse artigo as muitas opiniões desconstrutivas que há pela internet, pelas revistas, palestras e cursos envolvendo essas duas religiões que são tão amadas e ao mesmo tempo tão odiadas.

A Umbanda, essa festa cultural e espiritual, que há tantos aterrorizou e ainda apavora as pessoas “cultas” por envolver incorporações de “ espíritos”, começou a sua subida dos quintais da periferia e hoje alcança até mesmo os jardins dos Jardins de São Paulo. Os ritos já não são feitos às escuras, o som do tambor já não é silenciado pelo “psiu” da ignorância; e em sua jornada para ser respeitada como uma autêntica religião como todas as outras, ela tem sido representada por seus seguidores com orgulho; e seus orixás, com as suas origens, lendas e símbolos, já são estudados até mesmo em nossas escolas; o que indica um avanço significativo na mente coletiva desse nosso Brasil tão rico em diversidade e tão pobre ainda em educação e respeito ao diferente. Trajetória também que vem sendo seguida pelas religiões originadas pelo uso das plantas sagradas dentro de seus ritos, que tem entre suas maiores representações, o Santo Daime, um nome que há tempos já evoluiu do “esoterismo exótico” para uma prática religiosa autenticamente brasileira.

Criada por Raimundo Irineu, um seringueiro maranhense que morava no Acre no começo do século XX, a religião se expandiu para além do verde da floresta, desdobrando-se e chegando até as cidades grandes e com ela, o seu evangelho cantado (o hinário) e o bailado (o rito) que prega entre outras coisas, a união dos homens e o respeito pela mata. O que torna essa religião motivo de tanto alvoroço é o uso da Ayahuasca, que ingerida na forma de bebida durante os rituais, provoca alteração do estado de consciência. Os críticos dessa religião alegam que a bebida, por trazer em sua fórmula elementos psicoativos, é um passatempo alucinógeno e as pessoas que a buscam, o fazem por diversão ou para experimentar um “barato” de uma alucinação legalizada; ora, até os órgãos federais (representado pelo CONAD - Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas), que sob forte pressão popular fez diversos estudos para a proibição do uso da bebida no ritual, já cedeu parecer favorável à religião, especificando que durante os estudos que duraram anos, não houve e nem há sinal de degradação moral ou social ou algum perigo à saúde ou à sociedade envolvendo os indivíduos que praticam os rituais que utilizam essa bebida. O estudo mostra que as pessoas que participaram e participam desses ritos retomam hábitos saudáveis, pois muitos largaram as drogas, bebidas, jogos e outros vícios e voltaram a ter uma vida produtiva e participativa em sua comunidade. Contudo, nenhum estudo sério sobre esse ritual prevalece sobre a opinião de certos críticos que resolveram iniciar uma brigada contra qualquer ritual envolvendo a Ayahuasca e afirmam grosseiramente que o Santo Daime nas cidades deveria ser proibido, pois tendo em seu ritual uma bebida alucinógena, não pode ser caracterizado como busca espiritual verdadeira.

O que é afinal uma busca espiritual verdadeira? A busca dos outros ou a nossa busca íntima?

Há pessoas que nasceram com o dom de entrar em comunhão com o universo num piscar de olhos ou ficar por horas em expansão da consciência e outros estados alterados da mente, onde conseguem ter provas reais de que existe algo a mais do que o que sonha a nossa rotina; mas eles também o sabem que há outros tantos, como esse escritor e muita boa gente, que sempre teve dificuldade em enxergar um palmo além dessa realidade. De qualquer forma, clarividentes, médiuns ou comuns como eu, somos todos peregrinos do caminho espiritual e cada um se vale do que melhor lhe convém para lhe servir de cajado. Os rituais com o sacramento, assim como as práticas de projeção da consciência (a viagem astral); ou mesmo as incorporações quando verdadeiras, permitem que todos tenhamos acesso ao que antes era terreno de poucos iniciados da ciência “oculta”. Permite que se tire o “para” e se insira o “normal” em qualquer experiência espiritual, que é basicamente o que buscamos todos e é uma herança que cada indivíduo tem o direito de conhecer. É claro, que nem todos estão preparados e para rituais com plantas de poder é necessário o devido preparo, estudo e acompanhamento espiritual e mental; assim como deveria ser em qualquer estudo espiritual. Assim é feito (nem sempre conseguido efetivamente) em todos os centros de Daime ou Umbadaime que tenho freqüentado; e foram vários, justamente para que eu estudasse esse fenômeno sob a ótica de diversas escolas, muitas delas com algumas misturas realmente um tanto exóticas e outras tanto que buscam por meio dessa bebida (que eles chamam de sacramento) um cura individual ou coletiva; uma melhora baseada em aspectos positivos e não alienativos, que infelizmente ainda são induzidos por muitas outras religiões. Como em qualquer estudo ou religião, testemunhei abusos, exageros e considero esses casos, os percussores das críticas tão severas que recebem e receberam certas escolas; mas que não as invalida, pelo contrário, uma vez que as religiões não nascem formatadas e são tentativas entre erros e acertos de proporcionar a todos que a procuram alguma espécie de união com o Divino que essas pessoas não conseguiram por conta própria.

Para escrever com propriedade sobre o Santo Daime, assim como fiz com a Umbanda, efetuei uma pesquisa sobre suas origens, suas ramificações e seus aspectos positivos e negativos. Participei ativamente de seus rituais; tomando notas, fazendo as minhas próprias experimentações no que tange à incorporação, ao transe mediúnico da Umbanda e o catarse psíquico físico, mental e espiritual dos rituais envolvendo a Ayahuasca. Como em qualquer representação religiosa há exageros, pitadas de fanatismo e há muitos e muitos casos de abusos, de “cases” que se forem estrategicamente tirados de seu contexto, poderiam fundamentar proibições; contudo, há muito mais relatos, milhares talvez de pessoas, de comunidades profundamente mudadas pela influência dessas religiões para o bem dos seus; homens e mulheres que se tornaram mais conscientes de seu papel social e que passaram a contribuir com a sociedade, retornando para as suas famílias, para os seus trabalhos; para uma produção cultural envolvendo as mais diversas formas de arte e representações da cultura popular e também para um trabalho de caridade que atinge não somente as suas comunidades, mas também outras áreas de baixa renda, os famosos “gaps” do subúrbio onde os tentáculos do governo e da opinião pública só os alcança em tempos de política ou em horas de tragédia. Estudando, pesquisando, praticando e questionando todos os aspectos envolvendo essas duas religiões, percebi que as duas religiões poderiam já ter deixado de existir se não estivessem trazendo à sociedade como um todo, algo útil, algo humanitário, algo que rompa a barreira das crenças e que provoque uma melhora na vida das pessoas que estão nelas envolvidas.

É necessário criticar os abusos, mas também é fundamental o respeito pela opção de seus praticantes por esse rito em particular, afinal o livre exercício dos cultos religiosos é garantido por lei na cidade, no campo, na floresta e em qualquer lugar do solo brasileiro e se tornou um crime o preconceito religioso, assim como é um crime, o preconceito étnico, político e cultural. Tanto o Santo Daime quanto a Umbanda experimentaram e experimentam ainda essas perseguições preconceituosas; e ao contrário das outras, sofrem ainda mais perseguições por serem crenças originadas por negros, no caso da Umbanda, e por caboclos ribeirinhos da Amazônia, no caso do Santo Daime; perseguições que mostram um desconhecimento da nossa própria origem e desmerecimento da nossa história; perseguições que são baseadas no preconceito que já disse antes a que veio e ainda esta ligado ao antigo ciclo de ignorância religiosa, mas cultuada pela maioria, especialmente, cidadãos das grandes cidades que desconhecem ou estudaram superficialmente a evolução dessas religiões e vestem o preconceito sem a devida base investigativa que não se adquire apenas com a leitura ou com a participação em alguns rituais. É claro, que se tudo é cíclico na história, essas perseguições são perfeitamente naturais, assim como também é natural quem as defenda, até que artigos como esses se tornem obsoletos por não terem mais a pretensão de lembrar quem esqueceu da obviedade de que tudo que envolve muita gente, ocorre por uma razão maior que aquela que nos move.

Antes de estar envolvido nos estudos dessas duas religiões, viajei os quatro cantos do mundo, estudando também as muitas formas da fé e sua relação com os seus povos e suas culturas. Não tenho doutorado em teologia, mas há tempos, antes mesmo de minhas viagens, já praticava a tolerância, virtude essa que independe de crença ou estudo se aprende em casa, em lares onde se aplicam o respeito e a confiança. Por isso, desconfio das argumentações de grupos de estudantes espiritualista que dizem e afirmam que o caminho dessas religiões que usam plantas de poder não deveria ser permitido, pois a única forma de união com o Divino deve ser feito com as “práticas naturais” como oração, meditação ou yoga ; ora, a ingestão da bebida ou de qualquer componente alucinógeno não muda o homem que já não tiver dentro de si a vontade natural de mudança e é perfeitamente natural que a ingestão da Ayahuasca seja usada pela humanidade, desde os tempos remotos, para se lembrar de quem é e viver melhor com o que faz. Há os que usam o pranayama ( técnica respiratória yogue) e outros que usam a Ayhuasca. Em ambos os casos, temos indivíduos utilizando ferramentas para entrar em estado alterado de consciência e se unir com a sua crença, seja ela qual for, do que seja Deus ou a Deusa.

Existe uma idéia nos meios espiritualistas que Deus não pode ser definido como Ele ou Ela, justamente por não ser alguém ou algo, mais ser tudo e todos ao mesmo tempo; conceito que se aproxima da visão espiritualista do Vedanta dos hindus, na qual uma de suas correntes, a Advaita, ensina a unidade espiritual: o “Eu, Tu e Deus somos um”. Se todos Somos Um Só, o que importa a forma ou a classe de Ser e me Tornar que eu escolher para lembrar daquilo que já sou? Outra vertente do Vedanta, a Dvaita, que é dualista, ou seja, é voltada para a adoração de Deus Pessoal ou adoração a qualquer Ideal Divino; ensina sobre os avatares, seres divinos que reencarnam na Terra, como mortais, para nos lembrar de quem somos e que há um Criador por trás de tudo; baseado nisso, surgem algumas perguntas: até que ponto vai a nossa arrogância em exigirmos que os deuses retornem numa forma mais naturalmente de acordo com a nossa cultura, preconceito e crença? E se eles decidirem usar para voltar à humanidade, a forma de um vegetal ou uma tartaruga, ou um peixe ou um pássaro? Um Ser Divino precisa mesmo sempre voltar vestido de homem? Jesus é menos judeu por ter se tornado um símbolo cristão? Vishnu seria menos hari hari se resolvesse que seu próximo avatar será um novo Orixá? Considerando que boa parte das religiões ocidentais seguem esse pensamento dualista e ainda esperam por um messias, como podemos ter certeza de que Messias já não veio para a Terra há tempos na religião do outro que nem sabe que é religioso? Tudo não seriam diferentes aspectos da união com o Divino?

Com a expansão dos ritos de Umbanda e a migração natural do Santo Daime para as cidades, já ocorre outro fato também típico das religiões no Brasil: a junção dessas duas religiões nos rituais de Umbandaime. O culto aos orixás, caboclos, preto-velhos e mestres já são conduzidos com o uso da Ayahuasca que segundo os médiuns, favorece a incorporação e o transe; tornando o estudo da mediunidade mais profundo, principalmente em relação aos estados mentais que influenciam sim na incorporação e em meio as armadilhas do inconsciente, temos cada vez menos médiuns fingindo um processo mediúnico por puro orgulho em não aceitar que nem sempre os caboclos de Aruanda querem incorporar, ou outros que viram "pai-de-santo" por motivos financeiros e com isso ajudam a alimentar o estereótipo da Umbanda como instrumento de macumba, feitiçaria, religião do faz de conta, prejudicando os trabalho de caridade que são feitos dentro dos raros centros que pregam a verdade e o estudo sério dessa religião. Esse estado “fake” de mediunidade é algo que havia me afastado a principio dos estudos da Umbanda, até que eu estudei a incorporação em mim mesmo e percebi a validade do transe mediúnico dentro do Umbandaime, uma vez que sob o efeito da bebida, a simples idéia da mentira é inaceitável; a própria Ayahuasca não permite, acreditem, já tentei fingir, já tentei mentir, para ver o que aconteceria, acontece que eu não consegui mentir; o que curiosamente fez com que eu desse os créditos aos rituais com essa bebida, pois permitindo um contato ou não com o mundo espiritual (cada um tem a sua crença sobre o que é espiritual ou não), ninguém consegue usar essa bebida como recreação, nem tão pouco fica viciado nesses rituais, uma vez que as “visões” da bebida só te obrigam a uma coisa: melhorar a sua estrutura de vida.

No caminho espiritual sempre há o perigo de cairmos numa cilada, entrarmos em alguma escola que exija a nossa alma em troca da abertura de alguns portais que nos auxilie em nossa caminhada. Para fugir da manipulação de certos mestres, padrinhos, professores e doutores que podem ou não usar essa bebida (afinal, é muito fácil manipular a mente alheia, basta algumas frases de neurociência e outras tantas de vontade de ser manipulado) é preciso a mesma arma que nos levou a questionar a religião que herdamos de nossos pais e nos colocou nessa busca pelo caminho próprio: o discernimento.

Hoje com a internet, mesmo quem não tem dinheiro para comprar algum livro dos poucos que foram escritos sobre esse assunto, pode acessar as diversas opiniões que se envolvem e se debatem nessa discussão sobre a Ayahuasca nos centros urbanos. Há opiniões de pessoas que estão totalmente ligadas ao Santo Daime e há outros que criticam sem saber do que falam; há também os que foram uma, duas, cinco vezes ao ritual e odiaram a experiência e viraram perseguidores desse estudo e há também outros que freqüentaram essas igrejas e templos por um certo tempo, completaram certos estudos que a escola pediu e que elas mesmas se dispuseram realizar e possuem uma visão mais ampla não do estudo da planta estudada, mas do príncipio religioso que implica a tolerância a todas as formas de crenças. Mas como filtrar tanta informação? Como saber o que é verdade ou mentira nessas experiências? Cabe ao leitor procurar perceber por si e aprender que todos nós temos o direito de nos expressar, mas o leitor precisa sempre ter mais cautela com discursos ofensivos e que foram escritos para confundir, criar pânico e não para ajudar a esclarecer os do´s e dont´s dessa caminhada.

Para aqueles que desejam conhecer mais sobre o mundo das plantas de poder, recomendo muito estudo, cuidado sobre o que se deseja descobrir e meditar em até que ponto está decidido a melhorar como pessoa fisicamente e espiritualmente falando. Não tema porém, siga em frente, experimente, tenha a sua própria opinião sobre aquilo que serve ou não para a sua estrada espiritual; pois se você for um peregrino que carrega em suas costas a bagagem da espiritualidade sadia e da tolerância, você conseguirá investigar essa rota e tirar as suas próprias conclusões ao invés de repetir os mesmos argumentos que leram no texto de algum doutor em alguma coisa que professe que isso ou aquilo seja proibido; afinal quando o assunto é caminhar para o Divino, cada um deve fazer com os seus próprios pés e para evitar calos, quedas e paradas desnecessárias, é preciso caminhar como livre pensante e caminhante aberto para aceitar que podemos pegar um atalho ou mesmo seguir por um tempo em algum caminho equivocado, mas é fundamental aceitar que cada um tem o seu caminho e todos vamos,com Ayauhuasca, Umbanda ou não, chegar ao nosso destino.
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