sexta-feira, outubro 31, 2008

O BECO DA CARNIÇA ( Dia das Bruxas e dos Bruxinhos)

“ Com Deus eu entro,
Com Deus eu saio,
Em armadilhas
Eu não caio”

Reza popular nordestina


Havia um beco onde os moradores do Bairro da Esperança jogavam entulho e também se desfaziam de animais de estimação mortos. Estamos em Cajazeiras,na Paraíba, a população em sua grande maioria, é de classe humilde, pessoas que não tem dinheiro para enterrar seus mortos humanos, quanto mais seus mortos bichos. Durante o dia, boa parte dessa gente evitava o Beco da Carniça, por causa do mau cheiro, por causa do lixo e do esgoto; outros, como eu, o usavam como atalho; afinal, para chegar na casa dos meus avós, só havia dois caminhos, pelo Beco ou dando a volta pelo seminário que demorava ao menos mais dez minutos de caminhada.

Sempre gostei de caminhos curtos, por isso nunca ouvi muito o que minha Vó dizia: “Caminho curto é o atalho de defunto”. Eu não tinha planos de morrer tão cedo, tinha apenas onze anos e muitos planos pela frente: seria famoso, publicaria um livro com as minhas memórias de iogurte, sexo e rock´n´roll; e veria o gibi com o final do confronto entre o Homem Aranha e o Mistério. Também não tinha medo das estórias assombradas que contavam sobre o Beco. Diziam os velhos em suas cadeiras de balanço coladas nas calçadas da Rua Luiz Paulo Silva, que há muito tempo, uma velha que todos consideravam ser uma bruxa, desapareceu ao entrar no Beco. Seria mais uma estória de gente sumida ou defunta, se não fosse pelas gargalhadas que toda noite ecoam de lá e todos dizem serem da velha penada.

Certa vez, fiquei até escurecer na casa de um amigo, assistindo filmes de terror. Ele tinha vídeo-cassete, eu tinha o dinheiro ( Na verdade, ele não sabia, mais eu tinha um amigo que trabalhava na locadora, que me cedia os filmes de graça) e assim em parceria, assistíamos todos os filmes de horror que minhas “finanças” podiam pagar. Já havíamos visto todos os filmes lançados do Jason Vorhees e do Freddy Krueger; a Volta dos Mortos Vivos e também o Exorcista, versão sem cortes. Era bagagem o suficiente para garantir que nada nesse mundo me assustava, por essa razão, decidi pela primeira vez, atravessar o Beco da Carniça á noite.

Era um breu só. Não conseguia enxergar nada entre a rua onde começava o beco e o outro lado, onde ficava o bairro que eu morava. Porém de tanto pegar aquele atalho, eu sabia o caminho de cor e salteado. Conhecia cada curva, cada mato, onde começava o esgoto e onde terminava a montanha de lixo, sabia até a parte onde a carniça começava a feder mais, em suma, atravessar o Beco durante a noite, não deveria ser nada diferente que de dia.

Comecei a travessia, pensando nos gibis que poderia trocar por siriguelas, nas provas da semana que entraria, e em Eliana, o amor da minha vida, ou seja, qualquer pensamento que não me remetesse ao beco ou a sua fama. Não que tivesse medo, afinal, eu era um especialista em filmes de terror e sabia que tudo não passava de ficção. Desci a trilha que começava junto ao muro do seminário e comecei a me desviar do riacho de esgoto que reconheci pelo cheiro; pulei o primeiro cachorro morto e continuei andando á esquerda do muro e á direita do entulho. Já podia ver as luzes do outro lado, e confesso, até respirei aliviado; e contente, pois eu poderia confrontar aqueles velhotes e contar que não havia bruxa nenhuma no Beco.

- Menino, o que você faz sozinho, atravessando esse beco? – disse uma voz, bem atrás de mim; era um senhor com uma lanterna na mão, também pegando o atalho.

- O mesmo que o senhor! – respondi olhando para ele. Era moleque desaforado, não tinha ainda aprendido a respeitar os mais velhos.

- Você não sabe que é perigoso, se a bruxa te pegar...

- Acho mais fácil, ela pegar o senhor, que deve ter a mesma idade. – respondi rindo, e dando as costas pro velho; esperei a resposta, mas não houve. Olhei para trás, não havia sinal do velho, nem da sua lanterna. As chances dele ter pulado o muro eram mínimas, e comecei a pensar um monte de besteira e sentir muito medo. E se o velho fosse o marido da bruxa? Quem disse que homem também não podia ser bruxo? E se as gargalhadas que o povo ouvia fossem dele e não da bruxa? Sem pensar duas vezes, comecei a correr, mas tropecei em algo e dei de cara nos restos de um gato morto. Descobri, olhando os restos do gato, que o escuro era de certa forma claro; e á minha frente jazia, centenas de restos de animais podres. Levantei-me com certo desespero e para a minha surpresa, o final do beco que parecia perto, estava ficando cada vez mais longe. Respirando com dificuldade, continuei a correr e tornei a cair. O medo estava me tornando cego para a minha memória do Beco, eu já não conseguia distinguir os detalhes, já não sabia onde pisava, nem onde pisaria e a angústia de cair em cima de algum outro bicho morto ou de cruzar novamente com o velho fez com que eu começasse a rezar uma oração de proteção que minha Vó me ensinara:

“ Com Deus eu entro, com Deus eu saio, em armadilhas, eu não caio
Com Deus eu entro, com Deus eu saio, em armadilhas, eu não caio
Com Deus eu entro, com Deus eu saio, em armadilhas, eu não caio”

Não adiantava, eu continuava tropeçando em bicho morto e o medo aumentava ainda mais, e o pânico, tomou de conta, quando comecei a sentir que havia alguém se aproximando com uma lanterna. Pensei em voltar e correr para o outro lado, mas já não conseguia me mover de tanto medo que sentia. A pessoa se aproximava cada vez mais e eu então me joguei no chão, preparado para o pior.

- Menino, o que você faz sozinho atravessando esse beco? – disse a voz. Não me movi. Ele continuou - Não tenha medo, quero lhe ajudar - olhei então para cima e vi um rapaz com uma lanterna na mão. Contudo, não senti mais medo, pelo contrário, o sujeito me pareceu ser do bem e de carne e osso. Senti proteção e alívio.

- Por favor... – pedi, com lágrimas nos olhos -... me tire daqui!

- Venha! – disse ele com a voz terna – Seja lá o que for já passou.

O rapaz me conduziu pelo Beco até o outro lado. Lá chegando, ele se despediu e avisou:

- Cuidado! – ele disse, com uma voz clara e serena – Não atravesse o Beco á noite. O problema não são os casos que o povo fala, é que você pode pisar em algum buraco e se machucar.

- Obrigado moço, por me salvar – eu disse, mas percebendo que ele voltava para o beco, avisei - mas por favor, não entre nesse Beco, eu vi...vi...um fantasma!

- Não se preocupe. Conheço muito bem o beco e, além disso, tenho a lanterna. – ele respondeu sorrindo e entrou no beco. Respirei fundo uma vez mais e fui para casa, precisava tomar um banho e me livrar daquele cheio de carniça.

Quando cheguei a minha casa, meu avô e outras pessoas conversavam na calçada, como faziam todas as noites, e mais uma vez, alguém contava algo sobre o Beco e as gargalhadas da bruxa.

- Não há bruxa por lá – corrigi a pessoa – acabei de vim do Beco. Há na verdade um fantasma de um velho com uma lanterna na mão. Nunca mais passo por lá.

- É o marido da bruxa! – disse Dona Nininha, nossa vizinha, com convicção – Eles eram como unha e carne. Quando a bruxa desapareceu, ele passava o dia inteiro a procurando, e todas as noites também, sempre com uma lanterna na mão, vasculhou todos esses becos e matos. Ficou doido, o coitado, e a molecada não tinha pena e ele era motivo de piada dos meninos da rua e desses velhotes faladores. Morreu de solidão e desgosto.

- Para com isso, Nininha, até você o chamava de bruxinho! – disse meu avô, dando risada, o que fez todos rirem também. Eu não entendia a piada, comecei a ficar irritado com toda aquela conversa, mas antes que deixassem os velhos para trás, ouvi ainda a Dona Nininha falando:

- A gente ri para não chorar, não é? E pensar que logo depois, o único filho do casal desapareceu também... isso faz a gente pensar, que desgraça foi essa que envolveu essa família?

- Mistérios, Nininha – disse meu avô – Mistérios...

quinta-feira, outubro 30, 2008

O PARAÍBA COM UM MACHADO E OUTRAS CRÔNICAS

Crônicas de uma quarta dessas...

O PARAÍBA COM UM MACHADO

Quarta-feira, finalizo minha aula de inglês. O assunto do dia foi o
halloween, sua origem e significado; e para ilustrar melhor a aula,
disfarcei-me de "Morte", e com o capuz preto e um machado de
brinquedo, fui conduzindo os alunos por uma jornada que começa com o povo celta e acaba nas lojas brasileiras. Saio do serviço para casa, tenho pressa. Há uma palestra para ir e não quero me atrasar. Não tiro o escuro dos olhos, continuo parecendo o Governador José Serra, com olhos de vampiros e cara sinistra. O machado mal cabe na mochila, o cabo fica pra fora, e é parecendo alguém que saiu de um filme de terror, que entro no ônibus lotado. Procurando o meu passe, derrubo o
machado no chão; o pego de volta, mas é tarde, algo está ocorrendo com a multidão, pois enquanto passo o bilhete pela catraca, noto que o cobrador e dezenas de passageiros me olham assustados.

- Alguém chame a polícia! – comenta uma moça.

- Alô, é do 190? – fala um sujeito no celular - Tem um homem com um machado dentro do ônibus!

A ficha cai e percebo que eles estão se referindo a mim. O motorista para o ônibus em frente a um quiosque policial. Todos continuam olhando assustados, temerosos e quando finalmente, eu abro a mochila e mostro o machado de brinquedo, o pânico toma de conta, o motorista abre a porta, os passageiros tentam sair todos ao mesmo tempo.

- É de brinquedo! – explico para um ônibus vazio.O cobrador percebe o mico e dá risada, o motorista acena para a polícia e diz que não houve nada. Sento no melhor banco vazio com janela, aquele no alto, onde o sol não queima a testa.

Acabei de encontrar uma "arma" contra ônibus lotado...

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Na palestra...

Ouço com satisfação a palestra do Professor Wagner, onde humor, canção e espiritualidade, são unidos em um mix que faz transbordar o coração de qualquer estudante das coisas de lá e de cá. Vejo rostos tão conhecidos e outros nem tanto, o IPPB está lotado e percebo que alguma coisa bem especial está rolando nos bastidores do local aquela noite.

Wagner fala de um mantra que lembra a quem o usa sobre a Verdade do Espírito. Começo a escrever em meu bloco de notas o que ele diz...


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Em espírito e verdade¹...

A verdade não é dita, é uma lembrança. É algo que só podemos entender com o silêncio, com um respeito sincero pelo estudo. Essa verdade é a profundidade do espírito; não é uma palavra falada ou escrita; essa verdade é o que fala, o brilho dos olhos.

A verdade não se ouve; ela mora dentro; é um mantra que toca no peito; é a linguagem da alma, pois somente em espírito, percebemos essa verdade que Jesus falava.


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Festa do Nada

Não é natal, nem aniversário; mas eu levo um presente para a minha esposa. Não é páscoa, nem ano novo, mas preparo um jantar e abro a garrafa de vinho. Não é dia dos namorados e nem dia dos casados, mas trago também flores e um cartão com palavras sinceras.

Auri chega em casa e olha surpresa a festa:

- O que estamos comemorando? – ela pergunta.

- Estamos celebrando a gente; não é preciso seguir nenhuma data para celebrarmos o prazer de termos ao nosso lado, a pessoa amada.

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Estudar Sempre


- Quando serei graduado nos estudos da espiritualidade, mestre? – pergunta o discípulo.

- Nunca! – responde o mestre.

- Como assim? Estou aqui estudando para nada?

- Pelo contrário, você está estudando para tudo, por isso mesmo que esse estudo dura para sempre.



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Assassinato do Eu²


Um beija-flor veio me avisar que aceitei o convite fácil e vendi a
minha alma. Achava até então, que era somente com o Diabo que
podíamos a alma negociar.

Negociei meu dom da vida por uma pista dourada. Ofereci em troca a minha saúde e o sonho do meu espírito.

Não culpem o diabo, beatas! Eu quis a troca.

Procurando riqueza, acabei matando meu eu; o beija-flor não fala mais nada...

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Firmeza


Você tem firmeza para manter o que busca? Aceita pagar o preço do compromisso assumido com as regras do infinito? Ou você busca apenas o fenômeno, um passatempo, uma fuga da vida que você nem ao menos estuda, muito menos vive?

Você é caminhante de passo firme ou andarilho de passadas quase? Quando você pisa no chão, o faz com os dois pés firmes ou pisa tropeçando, se segurando em escoras ou em amigos com ouvidos e ombros de penico?

Quanto tempo você vai levar para desistir desses estudos? Quanto tempo você vai levar para virar a cara e renegar essa estrada?

Vai continuar? Mas está disposto a pagar o preço?

Comece tendo respeito pela verdade do espírito. Aceite o desafio: respeite o grupo onde você estuda e tenha firmeza, não largue a estrada, no meio da caminhada.


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A palestra acaba com novas crônicas escritas em meu caderno de notas, baseada nas lições que o Professor Wagner ensinou e com as palavras de Fernando Pessoa, esse escritor português, que pouca gente sabe ler direito, entender menos ainda:

" Viajar assim é viagem
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu. "

Cancioneiro, Fernando Pessoa³



30 de outubro de 2008
Frank Oliveira
http://cronicasdofrank.blogspot.com/

Notas do autor:
1. Palavras de Jesus Cristo
2. Frase do Upanishadis, livro sagrado hindú.
3. Esse fragmento pertence a poesia "O Cancioneiro" de Ricardo Reis, um dos heterônimos criados por Fernando Pessoa.

As crônicas acima, com excessão da primeira " O Paraíba com Um Machado", foram baseadas nos temas apresentados pelo Professor Wagner Borges na palestra para o Grupo de Estudos do IPPB - Inst. Pesq. Projeciológicas e Bioenergéticas, localizado no Ipiranga. Para mais informações sobre as palestras e cursos, acesse o link abaixo:
http://www.ippb.org.br/

Imagem: www.osvigaristas.com.br

quarta-feira, outubro 29, 2008

A PEDRA DO SAPO

Depois da chuva que caiu ontem á tarde, enquanto eu atravessava a rua da faculdade; notei um sapinho assustado, com olhos arregalados feito faróis que iluminavam um bueiro, assistindo o mundo dos humanos lá fora.

O sapo curioso me curiava, enquanto o menino escritor curiava o sapo lá dentro; menino surpreendido, pois lembrava nunca ter visto, na cidade grande, sapo algum; o contrário do rio de sapos que invadia as ruas da Paraíba, quando eu morava por lá.

Em Cajazeiras, a cidade que me adotou e me assistiu virar gente, a seca reinava o ano inteiro, mas quando chovia, caia torrentes de lágrimas por horas, por dias. Potes eram cheios, vales secos criavam vida, as vacas magras ruminavam de felicidade ao ver o pasto vasto, e os sapos, pulavam de alegria, ouvindo o canto dos pássaros. As meninas corriam com medo dos cururus, das pererecas, dos sapinhos miúdos, dos sapinhos sapecas que ousavam invadir casas, mesas e pular em cima das carecas dos vovôs que dormiam nas calçadas em suas cadeiras de balanço.

Em meio a esse “Pantanal Nordestino”, havia também um sapo gigante vigiando a Rua Luis Paulo Silva. Era um sapo de pedra, em rochas dispersas de tal forma que escultor humano nenhum conseguiria reproduzir. Quando fui morar com os meus avós na Paraíba; mas que a Montanha do Cristo ou Açude Grande; a Pedra do Sapo era o que havia de mais fascinante e atraente na cidade.

Toda vez que eu me sentia triste ou com saudade da minha mãe, que estava batalhando para recomeçar a vida em São Paulo, eu subia as rochas para conversar com o Sapo Rei. Lembro que ele sabia muito sobre o mundo ( vai ver, de tanto observar ali de cima) e ele dizia para eu ter paciência, pois logo logo, minha mãe teria condições de reunir todos os seus filhos em São Paulo e a Paraíba seria apenas uma lembrança, um nostálgico cenário de meus escritos e devaneios.

Não acreditava muito naquilo, afinal Cajazeiras me parecia durar para sempre; mas respeitava a opinião do Sapo Rei. Conversávamos por horas, até ouvir a minha Vó lá da rua embaixo, começar a gritar:

- Desce já daí, Neguinho!!! Se você cair daí, além de se arrebentar todo, vai ainda levar uma surra.

Não cai nem levei surra; minha Vó com o tempo compreendeu que as visitas a Pedra do Sapo, deixava aquele neguinho rebelde mais tranqüilo. E de certa forma, jamais esqueci a minha terapia na Pedra dos Sapos, e aquela noite, ao ver o sapinho curioso, imaginei por um instante, que talvez ele tivesse sido enviado para descobrir como o Neguinho adulto estava indo. Contudo, há tempos deixei essas coisas de criança de lado, afinal, um sapo é apenas um sapo, mesmo quando ele trabalha para o Rei dos sapos.

terça-feira, outubro 28, 2008

Terça Calada ( Crônicas Dispersas)

Nome de Cidade, Nome de Rio

O trem me leva de um canto ao outro. Vou de Santo Amaro a Barra Funda, troco trens, mudo universos, cruzo com pessoas que não me enxergam, outras que enxergam o meu bolso, mendigos calados e mendigos pedintes.

Vou do Sul ao Norte, subo a Casa Verde, converso com alguém sobre emprego. Ele poderia ser eu, eu poderia ser ele. Falamos sobre liderança, sobre desenvolver pessoas, ele me conta que ouviu esse frase em algum lugar

" O que você é grita tanto, que não consigo ouvir o que você diz"

Ou algo assim, ele tem nome de cidade americana, eu, nome de rio. Sinto, que mesmo embora nunca mais venhamos a nos ver, conheci um amigo.

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História dos Subúrbios

O ônibus me leva pela Rio Branco e Machado de Assis me conduz pelo mundo de Bentinho e Capitu.

- Você está lendo Dom Casmurro? - alguém pergunta - É para o vestibular?

- Não, estou lendo por lazer mesmo! - respondo, a pessoa olha estranho. No Brasil, não lemos os clássicos por prazer, que pena!

Chego no capítulo final, aos pés do Paissandú:

" (...) que a minha primeira amiga e meu melhor amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me...A terra lhes seja leve! (...)"

Ando pelas ruas do centro, pensando no "Bruxo" e lembrando da narração do livro, da maneira como ele-autor engana os leitores com seu eu-personagem, e mesmo assim, adoramos e torcemos por Bentinho.

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Filhos da Terra¹

Passo pela Praça da Sé e um cartaz num prédio da Caixa Econômica acaba atraindo a minha atenção. É uma exposição chamada "Filhos da Terra", feita por grupo artístico formado por membros das comunidades carentes de Petrópolis.

Leio no mural:

" Eles vieram de comunidades simples e pobres de Petrópolis. Aos poucos, aprenderam e desenvolveram uma técnica ecológica que trabalha apenas ocm o que a natureza disponibiliza generosamente: areias coloridas, pétalas de folhas caídas, cascas conchinhas, fiapos de penas de pássaros, bambus, papel reciclado... e muita imaginação! Os temas são também variados - Lances da cultura popular, várias com roupas expostas ao vento, favelas, mulheres lavadeiras, colchas de retalhos e crianças brincando. Os cartões também se transformam em quadros, cujas molduras, de bambus, são confeccionadas por eles. Dos bambus vêm também as luminárias únicas, os abajures com cúpulas trabalhadas, as fontes e os mensageiros do vento."

A exposição eco-artesanal é uma festa para os olhos, e me conduz pelo mundo da imaginação e da espiritualidade. Sou arremessado para um mundo, onde objetos simples que desprezamos ao vermos pelo chão, viram matéria prima para as mais lindas obras de arte.

Tudo é muito belo, mas um quadro em especial chama a minha atenção:

VIDA E IMAGINAÇÃO
O mágico encontro literário
De Fabiano Bittencourt

Onde personagens saem de um livro aberto. É isso que vi em Machado, é isso que ví no amigo da escola, que me ofereceu o trabalho. Arte que transborda, mágica que transparece. Tudo é mesmo uma coisa só!

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A Máscara Neutra

No mesmo lugar, também sou atraído por outra exposição chamada "A Máscara Teatral: Na arte do Santori"² , onde o mundo das máscaras e do teatro, me convida a inspiração e ao deleite visual.

Cada máscara é um show de criatividade e mágica. Vejo a máscara do Arlequim, que transporta o visitante as máscaras medievais e ao teatro grego:

" O arlequim é uma personagem da Commedia dell'Arte, cuja função no início se restringia a divertir o público durante os intervalos dos espetáculos. Sua importância foi gradativamente afirmando-se e o seu traje, feito de retalhos multicoloridos geralmente em forma de losango, mais ainda o destacava em cena.

Existe contudo, ainda, uma versão igualmente famosa, com origem napolitana no Polichinelo.

O Arlequim foi um personagem disseminado no Brasil principalmente através dos blocos carnavalescos de rua. O carnaval nordestino e baiano soube transferir o fenótipo típico do bobo-da-corte para o artista brasileiro, malandro brincalhão cujas peripécias e aventuras sempre acabam prejudicando as pessoas que se relacionam com ele e, vez ou outra, resultam em lições de moral. No Carnaval, o arlequim procura pelas ruas encontrar seu par, Colombina, e, assim como o Saci, adora fumar tabaco e atrapalhar a festa dos ambiciosos, aventureiros e homens de boa educação."

Contudo, a máscara neutra que mais me chama a atenção, pois não é um personagem, é um rosto sem emoção. Sereno e meditativo, num eterno estado que se apoia na calma e na percepção.

" É a máscara de base, que pilotará depois as diferenças das outras máscaras. É com ela que se saberá como usar todas as outras"
Jacques Lecoq³

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Diwali

Chego em casa e a Camilla, diretamente do Reino Voador, lembra que hoje é dia de Krishna. É Diwali, o natal hindu. Conhecida também como o festival das luzes. Celebrado uma vez ao ano, as pessoas estreiam roupas novas, dividem doces e estouram rojões e fogos de artifício. Esse festival celebra o assassinato do malvado Narakasura, por Krishna, o avatar Hindu, o que converte o Diwali num evento religioso que simboliza a destruição das forças do mal.

"O Diwali é um grande feriado indiano, e um importante festival no Hinduísmo, Sikhismo, o budismo, e Jainismo. Muitas lendas são associados com Diwali. Hoje em dia é comemorado pelos hindus, sikhs e Jains em todo o mundo como o "Festival das Luzes", onde as luzes ou lâmpadas significar vitória do mal sobre o bem dentro de cada ser humano."(4)

No ritmo do Diwali, desejo a vocês, caros leitores, muitas luzes em seus caminhos!!!

Hare, hare OM!!!

Notas do autor:
¹ A exposição "Filhos da Terra" segue até o dia 23 de Novembro de 2008, no Caixa Cultural, localizado na Praça da Sé. Entrada franca.
² A exposição "A Máscara Teatral: Na arte do Santori" vai até a mesma data.
³ Descubra mais sobre Jacques Lecoq em: http://www.cialuislouis.com.br/tf-lecoq.htm
(4)Informação tirada do site: http://en.wikipedia.org/wiki/Diwali

Namoro, Casamento, Romance‏

Sempre acho que namoro, casamento, romance, tem começo, meio e fim. Como tudo na vida. Detesto quando escuto aquela conversa:

- Ah, terminei o namoro...

- Nossa, estavam juntos há tanto tempo.....
- Cinco anos...que pena...acabou....
- é... não deu certo...

Claro que deu! Deu certo durante cinco anos, só que acabou. E o bom da vida, é que você pode ter vários amores.

Não acredito em pessoas que se complementam. Acredito em pessoas que se somam.

Às vezes voce não consegue nem dar cem por cento de você para você mesmo, como cobrar cem por cento do outro? E não temos essa coisa completa.

Às vezes ela é fiel, mas é devagar na cama.

Às vezes ele é carinhoso, mas não é fiel.

Às vezes ele é atencioso, mas não é trabalhador.

Às vezes ela é muito bonita, mas não é sensível.

Tudo junto, não vamos encontrar.

Perceba qual o aspecto mais importante para você e invista nele.

Pele é um bicho traiçoeiro.

Quando você tem pele com alguém, pode ser o papai com mamãe mais básico que é uma delícia.

E as vezes você tem aquele sexo acrobata, mas que não te impressiona...

Acho que o beijo é importante... e se o beijo bate...se joga...se não bate...mais um Martini, por favor...e vá dar uma volta. Se ele ou ela não te quer mais, não force a barra. O outro tem o direito de não te querer.

Não brigue, não ligue, não dê pití.

Se a pessoa tá com dúvidas, problema dela, cabe a você esperar.... ou não.

Existe gente que precisa da ausência para querer a presença.

O ser humano não é absoluto. Ele titubeia, tem dúvidas e medos, mas se a pessoa REALMENTE gostar, ela volta.

Nada de drama.

Que graça tem alguém do seu lado sob pressão?

O legal é alguém que está com você, só por você. E vice versa.

Não fique com alguém por pena.

Ou por medo da solidão.

Nascemos sós.

Morremos sós.

Nosso pensamento é nosso, não é compartilhado.

E quando você acorda, a primeira impressão é sempre sua, seu olhar, seu pensamento.

Tem gente que pula de um romance para o outro.

Que medo é este de se ver só, na sua própria companhia?

Gostar dói.

Muitas vezes voce vai sentir raiva, ciúmes, ódio, frustração.....

Faz parte.

Você convive com outro ser, um outro mundo, um outro universo.

E nem sempre as coisas são como você gostaria que fosse....

A pior coisa é gente que tem medo de se envolver.

Se alguém vier com este papo, corra, afinal você não é terapeuta.

Se não quer se envolver, namore uma planta.

É mais previsível.

Na vida e no amor, não temos garantias.

Nem toda pessoa que te convida para sair é para casar.

Nem todo beijo é para romancear.

E nem todo sexo bom é para descartar... Ou se apaixonar... Ou se culpar...

Enfim...quem disse que ser adulto é fácil ??


Autória Duvidosa ( um desses textos que rolam pela net, sem autor, quem souber...avise-me)

"Autobiografia em Cinco Capítulos"

1)
Ando pela rua
Há um buraco fundo na calçada
Eu caio
Estou perdido...sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a saída.

2)
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada
Mas finjo não vê-lo
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.

3)
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada
Vejo que ele ali está
Ainda assim caio...é um hábito.
Meus olhos se abrem
Sei onde estou
É minha culpa.
Saio imediatamente.

4)
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada
Dou a volta.

5)
Ando por outra rua.


³O Livro Tibetano do viver e do morrer²
Sogyal Rinpoche

segunda-feira, outubro 27, 2008

POVO VERDE

Era qualquer domingo de outubro de 2008, quando fomos para Monte Verde, sul de Minas, em busca da natureza. Dia frio, mas céu seguro; sem nuvens e sem perigo da chuva impedir a caminhada. Auri e eu planejávamos alcançar o topo da Pedra da Vista Prometida, de onde teríamos uma visão completa dos montes que fizeram o nome da cidade e saciaríamos a nossa sede de coisas bonitas para se fazer a dois.

Nunca tinha visto tanto beija-flor, na certa, eles foram atraídos pela nossa aura de amor ou por nosso entusiasmo em subir a montanha, cantando e celebrando, mesmo com o suor descendo testa abaixo e pingando nas pedras do caminho.

Fizemos uma breve pausa, para tomarmos água, e percebemos que estávamos sendo observados por olhos curiosos, quase invisíveis, que se disfarçavam de folhas no mato,galhos nas árvores , e cinza do chão.

- Será real ou nossa imaginação? - perguntou Auri, parecendo também ver o que aparentemente não poderia ser visto.

- Real ou não - respondi - se nós estamos percebendo, deve ser alguma coisa então.

Os outros caminhantes que passavam por nós, apressaram os passos, pois não queriam ficar perto daqueles andarilhos loucos que saudavam o povo da mata; os elementais da floresta. Eles devem ter achado a coisa mais estranha, ouvir aquele casal cantando canções de índios, de Umbanda, de filmes da Disney; qualquer canção que pudesse dizer ao povo verde, que se deixara ver, que eles os respeitavam; e talvez tenha sido por isso, que eles responderam de volta com canto de passarinho, galhos das árvores acenando e desfile de formiguinhas dançantes no chão.

- Amigos da floresta - disse a minha companheira - Obrigada pela saudação em forma de festa. Prometemos caminhar com cautela; não levar nada além de nossas lembranças e só deixar aqui a nossa satisfação por ter percebido que não somos os únicos indivíduos a habitar essa linda esfera chamada Terra.

domingo, outubro 26, 2008

CRÔNICAS DOMINICAIS

Olá amigos,

É domingo. Está quente lá fora, e começo a pensar em cerveja e feijoada, mas fico mesmo com o miojo ( minha mulher foi votar beeemmm longe e não sei cozinhar), não faz mal, estou mesmo em dieta alcoólica e não como carne de porco há um tempão. Por favor, não atirem pedras e flames, estou apenas comentando o que faço, nada tenho contra quem “tomas loiras” e come regularmente “ os três porquinhos”. Cada um com seus torresmos!

É que estou aqui com esses pensamentos na cabeça, e como sou um demente metido a escritor, compartilho regularmente, alguns pensamentos e palavras, e eis a minha contribuição dominical para vocês:


PIADA PRONTA

Já podemos fazer piada do caso de Santo André? Não! Como assim não? Quando é que vence o prazo de comoção? É que um amigo, que trabalha como ambulante, comprou um carro novo.

- Subiu na vida, Zé! – falei quando ele estacionou o carro em frente ao bar do Janduí. – Assaltou um banco?

- Deixe de piada, seu Frank. Comprei esse bichinho com muito trabalho – explicou Zé e continuou - Vendi tanto hot dog e caipirinha no enterro dessa menina, que tá ai nos jornais, que até tive que contratar um ajudante. Nunca vi tanta gente, nem no enterro do Senna e da mulher do ex-presidente.

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Piada Pronta II

O que mais gosto nesse nosso país é a nossa capacidade de rir do sério, de fazer piada com tudo. Piadistas e sábios são ( ou foram) os nossos músicos Renato Russo e João Bosco, que em suas respectivas canções Faroeste Caboclo e De Frente pro Crime, descrevem bem o circo que se forma, ao redor das cenas horripilantes, que vez ou outra, acontecem em nossas ruas, no nosso dia-a-dia:

“E o Santo Cristo não sabia o que fazer
Quando viu o repórter da televisão
Que deu notícia do duelo na TV
Dizendo a hora e o local e a razão

No sábado então, às duas horas,
Todo o povo sem demora foi lá só para assistir
Um homem que atirava pelas costas
E acertou o Santo Cristo, começou a sorrir”

Renato Russo, Faroeste Caboclo (Álbum “Que País é Este?” 1987)


“Tá lá o corpo
Estendido no chão
Em vez de rosto uma foto
De um gol
Em vez de reza
Uma praga de alguém
E um silêncio
Servindo de amém...

O bar mais perto
Depressa lotou
Malandro junto
Com trabalhador
Um homem subiu
Na mesa do bar
E fez discurso
Prá vereador...

Veio o camelô
Vender!
Anel, cordão
Perfume barato
Baiana
Prá fazer
Pastel
E um bom churrasco
De gato
Quatro horas da manhã
Baixou o santo
Na porta bandeira
E a moçada resolveu
Parar, e então...”

João Bosco e Daniela Mercury, De Frente pro Crime. Álbum de mesmo nome, 2007.


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VOTE!!!

Em dia de eleição e como tem muita gente que deixa para votar depois do almoço, e está em dúvida se vota em branco ou não, segue esse pequeno pensamento:

“ Se você não tem candidato, se você não tem partido; ainda há tempo, não jogue seu voto no lixo, faça uma escolha: vote!

Não fique em branco, não permaneça nulo; não finja que vive na Líbia ou em Cuba, estamos no Brasil, somos livres para escolher, somos livres até para votar branco ou nulo; mas não deixe nas mãos alheias à decisão de escolher quem administrará a nossa cidade, faça a sua parte: vote!

Lindo é viver na democracia e mesmo que os candidatos não sejam exatamente quem você queria, eles representam o rosto da multidão, tenha discernimento, dê atenção à eleição, no próximo domingo: vote!”

A SEMANA ( Crônicas Perdidas)

NO ÔNIBUS

O ônibus cheio fede, transpira, sinto falta do meu carro, mas é dia de rodízio em São Paulo, e utilizo o transporte público para ir trabalhar; preciso agüentar o aperto, preciso agüentar o cotovelo em meu rosto, a mochila nas costas do rapaz, que acerta pancada em quem passa, que acerta pancada em que está sentado, toda vez que ele se mexe, e muda a música que ecoa rave de seus ouvidos.

O ônibus é velho, as pessoas são rostos sem face. Se eu pudesse, tinha vindo caminhando. Se eu pudesse, desceria, mas do que adiantaria, se o relógio já me diz que estou atrasado e meu chefe não vai compreender que passei quarenta minutos no ponto, e que o motorista parou o ônibus por mais cinco, para que o cobrador
comprasse café e jornal. Bebida quente e informação são sempre uma boa pedida, até ai tudo normal, mas e o relógio com isso? E o meu compromisso?

Finalmente sento, mas uma senhora aparece e por um momento, juro, só por um momento, pensei em fingir que dormia, mas a consciência é madrasta, não deixou e a mulher se sentou, sem nem ao menos agradecer o meu gesto, sem nem ao menos se oferecer para segurar meus pertences.

Sigo em pé entre um sujeito fedendo a cigarro e uma mulher gritando no celular. Uma outra come algo, cujo cheiro chega até as minhas entranhas; um outro sujeito grita para cada mulher que vê na rua: pelo visto e pelo sotaque, acabou de chegar à cidade; e é meu conterrâneo. Quero sair dali, quero respirar, quero sumir, mas ainda
faltam muitas ruas, avenidas e alguns bairros para o fim da minha jornada.

"O que eu fiz para merecer isso?" pergunto a outro sujeito dormindo, cuja cabeça bate-bate no vidro, bate-bate na janela; e ele roncando me responde: "E eu que todo dia passo por isso, meu caro poeta!"


¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*¨*

CATARSE

Leio o jornal do passageiro mais a frente, e novamente, notícias sobre o crime de Santo André...

Um preto-velho ao meu lado, diz assim, esse algo:

" Outra catarse, outro crime, outra chance de romperem o padrão, de não sintonizarem com a maldade, de não desejarem o pior para o outro, outra chance de terem mais compaixão...

Outra catarse, outra decepção. Quantas catarses serão necessárias para moldar o espírito dessa nação?"

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BEM E MAL: LÁ DE CIMA É TUDO IGUAL

Pego o lápis e rabisco algo assim parecido:

" A mesma intensidade tem as ondas do mau e as ondas do bem; pois tudo é equilíbrio, tudo vai e tudo vem;

Todas as forças trabalham para a construção da nossa manifestação nessa dimensão;

Todos nós somos vitimas e algozes, pois há diversas vozes ecoando em nossa mente e que se juntam com as ondas da sintonia; por isso é preciso discernimento e alegria;

É preciso ter compaixão na mente e no coração, principalmente quando vemos a nossa frente o rosto do outro acusado e o rosto do outro acusante, pois é nesse instante que colocamos em prática, tudo aquilo que aprendemos na escola; toda a teoria da sala de aula que não serve para nada, se não usarmos nessa hora;

Caros amigos tenham compaixão pelo seu irmão que cair; pois se amanhã, de você, algo nefasto também sair, compaixão será o seu retorno, compaixão terá o seu irmão"

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Que semana mais sem graça, bendita inspiração!

sábado, outubro 25, 2008

BABEL

A língua segue viva
Eruditos põe amarras,
Se cria muitas normas,
Mas a língua segue vira.

A língua segue e vira
Pidgins, crioulo e dialetos,
O povo cria falas,
O léxico sempre muda.

A língua sempre muda
Nos palácios e nas vilas,
Nesse mundo de Babel,
Que é a jornada de uma língua.

sexta-feira, outubro 24, 2008

LÚCIDO

O dourado solar acordou-me aquela manhã com a ternura que o despertador nunca usou. Despertei diferente, era a mesma pessoa, mas era gente mais lúcida. Com o sono foi-se a confusão habitual que povoa o reino da minha vigília. Eu estava lúcido, desperto, atento, focado, estava perto. Minha mente não estava presente no futuro, nem perdida no passado, eu era eu imediato, o que me deu uma sensação maravilhosa de estar acordado.

Percebi a conexão sutil e suave das coisas; notei pequenos detalhes que passariam despercebidos, e que além da ilusão de vivermos separados, há um laço que nos une, peito a peito, chacra a chacra, e nos conduz, mesmo quando estamos, cada um no seu lado.

Estando lúcido, consegui sentir nitidamente, que passo boa parte do tempo dormindo. Sou uma espécie de sonâmbulo, esbarrando em outros sonâmbulos nesse mundo de sonhos.

Estando desperto, meus olhos enxergavam com nitidez a linguagem do mundo ao meu redor. Vi as coisas falando comigo, cada uma com um significado que fazia grande sentido para a minha caminhada. Percebi Deus cochichando no ouvido do outro, que nem percebendo isso, fala comigo, dizendo a coisa certa, no momento em que preciso escutar.

Que pena que amanhã, acordarei dormindo...

quinta-feira, outubro 23, 2008

Um Mergulho no Rio Pinheiros

O trem sai da estação Rebouças rumo a Santo Amaro. A viagem é confortável, a música clássica acalma o viajante estressado com o mundo lá fora; os vagões são limpos, ar condicionado, poltrona acolchoada, ausência de ambulantes, pastores protestantes e outros dantes, tão comuns em outras linhas. Abro o livro, tento ler entre as estações, o trem para, a porta se abre: Estação Berrini! O mau cheiro me interrompe. Fecho o livro e olho pela janela, o cheiro de esgoto lembra que á minha direita jaz um rio que já transportou vida. Olho novamente e meus olhos recriam as margens do rio com Pinheiros gigantes...

Vejo centenas de pássaros, aves de todos os tipos, batendo asas pelos ares, dando vôos rasantes na água, onde botos rosas nadam e capivaras se espreguiçam; vejo barcos cheios de turistas, que tiram fotos das belas pontes ornamentadas com estátuas de nossos grandes escritores e poetas. Vejo alguns pescadores, fazendo coisa proibida: não é possível pescar no rio. O rio tem cheiro de rio e o passeio em suas curvas, inspira atletas a correr por suas marginais, atrai estrangeiros assombrados com a recuperação do leito e fascina as crianças que matam aulas para aprender ao ar livre o que não está escrito nos livros.

São Paulo nunca esteve tão bonita e tão cheia de vida.

“ Estação Santo Amaro!” - Diz a voz gravada, as portas se abrem, meus olhos de poeta se fecham e o mau cheiro revela que nunca terei em vida, a chance de ver minha visão imaginada, se tornar visão vivida.

quarta-feira, outubro 22, 2008

JOVEM APRENDIZ

Sessenta olhos estudantes e curiosos, sessenta bocas que jogam perguntas petecas e eu respondo, jogando experiência de volta; pois não tenho respostas, apenas minhas estórias para contribuir para os seus estudos; ou com as suas vidas.

Fui convidado pela Nurap*(Núcleo Rotary de Aprendizagem Profissional), para fazer uma palestra em sua sede, no Broklin, e falar sobre a minha vida, minha carreira profissional, para sessenta jovens que participam de um projeto chamado Jovens Aprendizes. Meu currículo profissional e de vida, foi entregue a cada um deles, para que fosse estudado e que para que eles formulassem perguntas e saciassem as suas dúvidas durante a palestra.

Palestra? Não sou palestrante, sou apenas um falante, contente em contar estórias sobre as minhas caminhadas pelo Brasil e por outras tantas estradas. Estórias sobre as pessoas que conheci, as lições que tive; e que ficariam em algum lugar, perdidas em mim, se não tivessem virado crônica, conto que eu conto e desconto, pois cada uma dessas estórias contadas ficam encantadas e se transformam em borboletas sorrisos nos ouvidos de quem tem ouvido.

Meu currículo são essas crônicas, que volta e outra, presenteio a vocês. Meu resume são essas estórias que eles desejavam saber em mil perguntas sobre o que vi, por que parti, por que voltei ou se partiria de novo.

- O senhor parece ser tão decidido. Parece ter tanta certeza que fez a escolha certa;mas me diga, nunca teve dúvidas? Nunca se questionou se o caminho que o senhor escolheu foi mesmo o melhor caminho? – perguntou uma moça, potencial de estrela brilhando em seus olhos.

- Se tive dúvidas? Ainda as tenho! E todos os dias! – respondi, todos riram. – Todos os dias, me pergunto se os passos que estou tomando, são realmente em direção ao destino certo. Pode parecer insegurança, mas prefiro não ter certeza de nada. Quando questiono meus passos, valido cada um deles e renovo os meus sapatos da força de vontade. Sei que a qualquer momento, posso optar por outras estradas, mas se continuo nessa, é porque aprecio cada passo dessa jornada.


Notas do autor: o NURAP (Núcleo Rotary de Aprendizagem Profissional) é uma entidade sem fins lucrativos fundada em 1987 pelo Rotary Clube São Paulo Brooklin e Rotary Clube São Paulo Morumbi.

Para saber mais sobre a instituição e seus projetos sociais:


PÁSSAROMEM

As lendas falam sobre homens que viram lobos e mulheres que viram serpentes. Nunca conheci esse tipo de gente que vira cobra ou lobisomem, mas, não se assuste, caro leitor, com a minha confissão: a noite, enquanto o meu corpo dorme, desconfio que viro pássaromem.

Desconfio porque essa manhã, notei vestígios de asas em minha mente, e ainda há lembranças do céu cintilante ecoando em meus ouvidos. Há um perfume divino preenchendo todos os meus sentidos; um azul sutil refletido em minhas retinas; uma certeza que tudo que estou vendo agora, não é só isto, há algo além dessa cortina que chamamos de vida.

Há uma desconfiança que se eu esfregar esse plano com muita vontade e força, aparecerá um gênio que perguntará:

- Diga lá, o que você quer enxergar? Está preparado para ver o além das coisas?

E eu responderei, mas por respeito que medo:

- Quero ver nada, não, Seu Gênio! Tô contente com o que vejo. Sei que vôo a noite além do leito, mas também sei que o ajuste do astral é muito fino e direito. Já percebi que as lembranças dos meus passeios noturnos ecoaram no meu caminhar. Não quero ver nada além do que consigo enxergar.

terça-feira, outubro 21, 2008

Ai, se sêsse

Se um dia nóis se gostasse

Se um dia nóis se queresse

Se nóis dois se empareasse


Se juntim nóis dois vivesse

Se juntim nóis dois morasse

Se juntim nóis dois drumisse

Se juntim nóis dois morresse


Se pro céu nóis assubisse

Mas porém se acontecesse

de São Pedro não abrisse

A porta do céu e fosse

lhe dizer quarquer tolice


E se eu me arriminasse

E tu cum eu insistisse

pra que eu me arresorvesse


E a minha faca puxasse

E o bucho do céu furasse

Távez que nóis dois ficasse

Távez que nóis dois caísse


E o céu furado arriasse

E as virgi toda fugisse



Texto: Zé da Luz, Severino de Andrade Silva, nasceu em Itabaiana, PB, em 29/03/1904 e faleceu no Rio de Janeiro-RJ, em 12/02/1965. O trabalho de Zé da Luz, como era chamado, ficou conhecido pela linguagem matuta presente em seus cordéis.

AS DUAS PRIMAS

Duas rosas nasceram no jardim da Rua Luis Paulo Silva. Duas rosas parecidas e ao mesmo tempo distintas que a Jardineira Nivalda trouxe ao mundo para cuidar. Embaixo do pé de Cajazeiras, sob a sombra da Pedra do Sapo, vi crescer essas meninas sabidas e bonitas.

Rosa é bicho frágil, cuidar é desafio, e a Jardineira, as levou consigo para outros canteiros, cuidando sempre com carinho desses dois brotinhos, cujas pétalas foram pouco a pouco se abrindo, desabrochando bichinho cada vez mais lindo e se transformando pétala a pétala em lindas mulheres.

Sim, nos meus contos de fadas, as rosas são parentes e viram mulheres...

segunda-feira, outubro 20, 2008

TUDO É O QUE É ( Reflexões sobre o que ocorreu em Santo André)

Escrevo essas notas em folha em branco, enquanto ouço um CD da Constance Demby que lembra cantos angelicais. Não sou cristão, mas a melodia que evoca a presença dos anjos transborda meu coração de êxtase e minha mente, feito barquinho, vai navegando pelo sorriso de Cristo, que surge como se fosse um porto seguro no meio do mar turbulento.

- Ás vezes, eu tenho medo, Senhor - eu digo, mas ele nada diz – então lembro que tudo é perfeito, mas para que essa lembrança retorne, sei que preciso me conectar com a poesia, com a música e com a arte do sorriso, daí tudo fica bem mais bonito - eu digo, mas ele continua sorrindo, na certa, por eu ter criado e dado uma solução a minha lamentação no mesmo parágrafo ou por saber que estou falando tudo isso da boca para fora, pois ainda continuo com medo.

Saio da sala e vou para o quarto. Como moro no centro, basta abrir os olhos para ver o mar turbulento, além da janela, com os seus carros gritando, os prédios se contorcendo em gente mal morada e sinto vontade de ficar em minha casa-templo e completamente me isolar.

- A quem você engana? – diz o vento que bate em minha cara com palavras frias de primavera inverno - Seria tão fácil, não é? Morar no Tibet, viver só de oração. Estar enclausurado, não ter nenhum contato com essa população. Seria tão mais fácil não correr risco de ser assaltado, ser morto ou seqüestrado, ou ter alguém querido levado da vida por um desequilibrado... Seria tão mais fácil. A quem você engana?

Volto para a sala, o discurso do vento não ajudou, só piorou a minha sensação de saudade de algum lugar onde as pessoas não briguem por nada. A música continua tocando, não a ouço direito, estou ocupado com os meus pensamentos de desolado em terra estrangeira. Eu sou amor, não gosto de ver gente vestida de ódio. Eu sou luz, a escuridão me deprime e corrói a minha vontade de estar aqui.

Olho para Jesus e peço ajuda, quero ter esperança que tudo se resolverá, que um mundo melhor nascerá amanhã, sem violência, sem manchete explodindo em sangue na camisa, na vista, e em todo lugar. Ele continua sorrindo, mas fala pela música que entra pouco a pouco no meu peito, finalmente me tocando e limpando todas as janelas que foram abertas pelos jornais, revistas, rádio e toda sorte de mídia que polui o ar com o sensacionalismo da morte do vizinho.

A música e Jesus me dizem: “tudo é o que é”.

Estou sujo! Sujo de lamentações, reclamações, pessimista não com os fatos da minha vida, mas com o que querem que eu permita que tome conta de meus pensamentos. Já passei por isso antes, deveria ter aprendido, mas uso a desculpa de não ficar alienado, sem notícias, para abrir a porta da sintonia e acabo com a lama em minhas pegadas e com o lixo em meus escritos.

Tudo é o que é!

A música me limpa, vai dissolvendo lentamente o que deixei sujar, quando estive dormindo, achando que o que aconteceu com o vizinho é culpa do mundo em que vivo. Não existe culpado! Tudo é o que é; da maneira que precisa ser feito, da maneira que é. A grande pergunta, não é onde estava Deus que deixou tudo isso ter acontecido, e sim, faria eu, o mesmo destino? Minhas mãos seriam capazes de conduzir o que tinha que ser feito? Teria eu a fraqueza de ser o agente de tanta maldade?

Não! Mas essa resposta negativa, não faz com eu me sinta melhor do que esse pobre coitado que foi a força por trás do assassinato da menina do ABC que já tinha dia marcado. Nada disso. Ele não é um monstro, ele é apenas humano, sujeito a certas ondas que fluem pelo mundo e que canalizamos para o lado escuro da nossa alma. Somos todos farinha do mesmo saco. Sujeitos a todo tipo de sintonia e descontrole de emoção. Somos todos algozes e vítimas das ilusões que vedam as nossas vistas e amarram as nossas mãos. Somos todos iguais e se eu não sou capaz de cometer algum delito que envolva prejudicar o meu vizinho; não há nada do que se orgulhar disso. Na bíblia, a qual respeito, mas não considero ser o único livro sagrado (todos os livros o são), há uma passagem que diz “orai e vigiai". Nada a ver com a imagem pecaminosa e adulterada do diabo, mas tudo a ver com o que deixamos guiar as nossas emoções, com as ondas que sintonizamos em nossos corações, e com as sombras que por vezes, incorporamos; sombra esta que tem pouco do coletivo e muito de nós mesmos.

Tudo é o que é. A diferença está no que deixamos dentro da nossa casa morar...

Vou deixando a música me limpar. Cada onda sonora vai envolvendo partes do meu corpo, girando ao redor da minha aura. Cada nota tocada vai pouco a pouco limpando a minha casa, me levando a um estado de leveza, trazendo de volta a minha lucidez, a minha consciência, de que não há lugar melhor no mundo para eu estar, do que aqui mesmo; pois foi aqui que vim parar e é essa estrada que preciso agora caminhar, mas com cuidado para que eu não confunda as pedras com a própria trilha da vida.

Há muita coisa boa a ser vivida e espero sempre contar com a música, com a arte, com a poesia e com uma little help divina, para me dar forças, luz e sobriedade para entender que tudo é perfeito, e que depois da tempestade, o sol sempre volta a ocupar o seu lugar, no seu reino.


Notas: o CD da Constance Demby que eu escutava é "O Faces of the Christ". Trilha sonora de um documentário de mesmo nome. Para mais informações sobre a cantora:
http://www.constancedemby.com/

O Amor e a Pira

Quando o amor chegou
Não escolheu quando e nem que forma;
Mais ele jamais imaginou,
Que seria por aquela senhora.

Ela era tão formosa e tão bonita,
Que poetas inspirava.
Tão bela e forte como a vida,
Era para ele, a mulher que sempre esperara.

Mais o destino com seus próprios planos,
Agia em segredo e bem enigmático;
Aproximara os dois sem engano
Num evento cruel e trágico.

Ela acabara de enviuvar,
E conforme os costumes de seu povo
Ao seu marido deveria se juntar,
Sendo queimado viva na pira* junto ao corpo.

Por toda a sua vida ela sabia,
O que deveria ser feito;
E a morte já não era sua desconhecida,
Desde que o marido sofrera no leito.

O que ela desconhecia
Era que a vida tinha outros planos;
E novamente se apaixonaria,
Tendo que optar pela morte ou pelo amor de um estranho.

E o estranho lhe pedira,
Que optasse pela vida e não por seguir seu esposo;
E ela confusa não sabia,
Se seguia o coração ou pulava no fogo:

- Não posso mais viver doce estranho!
Se vivo, Kali me condena pelo resto da minha vida,
Não posso viver em desonra e remorso.
Reconheço que te amo, mais devo seguir a minha sina.

- Doce Senhora! Estranho não sou mais a sua pessoa.
Nem ao coração de quem me ama.
Continue viva e embora Kali rejeite a sua escolha,
Parvati abençoara a nossa chama.

E conta a lenda que a Senhora
Olhando o marido na pira em brasa
Mesmo contra a opinião de todos que a cercava
Optou pelo estranho por quem se apaixonara



Nota do autor:
* Era muito comum na Índia até o fim do século 19, que a esposa se matasse quando o marido morria. Muitas delas se atiravam na pira, onde era cremado o marido, por tradição e por crença que elas perderiam a honra se permanecessem vivas. A honra e a virtude até os dias atuais é muito importante para as mulheres na Índia, e era mais ainda no passado. Essa pratica foi proibida pelos britânicos que dominavam o pais naquela época, e o caso de um soldado inglês que se apaixonara por uma viúva que estava prestes a morrer, se jogando no fogo onde cremava o seu marido, tornou-se um símbolo em Calcutá e até hoje essa estória é contada de vila em vila, mais infelizmente essa prática continua sendo feita pelo interior da Índia, mesmo com todo o esforço do governo para evitar que isso continue ocorrendo.

** Shiva é uma dos principais deuses no hinduísmo.Juntamente com Brama e Vishnu. Parvati é a consorte de Shiva, e uma de sua faces é representada por Kali, segue abaixo uma boa definição tirado do site : www.eclubbers.net/mat_shiva.asp :

¨Os deuses Hindus são sabiamente representados em diversas formas, assim como os humanos mortais possuem diversos estados psíquicos e manifestações de personalidade. Estes estados são demonstrados através de personagens. Kali é uma das manifestações de Parvati, esposa de Shiva. Kali é Parvati enfurecida. É muito parecida com o próprio Shiva, pois representa a destruição e renovação da energia estagnada, aquilo que deve ser eliminado. Possui uma expressão feroz, é de coloração cinza, pois mora num campo de cremação, atividade muito comum na Índia. Tem quatro braços, demonstrando muita agilidade e força. Segura uma cabeça decapitada em uma das mãos e uma variedade de armas nas outras mãos. Usa uma guirlanda de cabeças, representando os demônios que conseguiu dominar, ou seja, nossos próprios medos. Assim como Shiva, Kali aparece para eliminar a ignorância, a falta de verdade e do bom senso que está dentro de nós, e que devemos retirá-los para equilíbrio e fortalecimento da nossa personalidade.¨

ACORRENTADOS

No elevador, cruzo com robôs murmurando frases repetitivas. No serviço, vejo condenados com os pés acorrentados na mesa. Onde estou? Por que estou desperdiçando a minha vida? Quero qualquer coisa nova, seja lá o que seja.

Quero gritar, me libertar, quero ar, quero fugir.

Por favor, alguém me tire daqui! Estou preso pelas contas que ainda estão por vir. Fui sentenciado para viver eternamente o cotidiano do estar aqui.

Socorro!!! Não quero virar andróide de gesto repetitivo e carinho programado. Alguém me ajude!!! Help!!!Quero ser libertado.

Quero ser gente, não quero ser máquina. Não sei se tenho mente ou se ela é apenas um programa corrente, mas quero pular essa etapa; pois não vou aprisionar o amor, mesmo com o risco do meu coração quebrar; não vou desistir dos meus amigos, porque outra pessoa me contou que eles não são perfeitos, (também não sou!); não vou abandonar os meus sonhos, sejam eles de qualquer tamanho em nome das prestações do carro, da hipoteca, dos presentes aos parentes que nunca ficarão totalmente contentes ou das prestações no cartão que prometem liquidar o saldo devido se os meus sonhos forem esquecidos.

Quero sol agora em meu peito e mesmo que eu tenha que pagar o preço, vou respirar o ar fresco de viver do meu jeito.

domingo, outubro 19, 2008

ALQUIMIA DE LETRAS

Sou aprendiz de feiticeiro das palavras, alquimista das frases, minha caneta é canto de sereia, atraindo, seduzindo e encantando as letras; para que eu consiga mostrar para os meus leitores as belezas de aqui estar.

Quero conduzir o meu leitor por esse universo mágico; da leitura, quero lhes dar; a alegria da ternura de desvendar, o prato pleno de perceber o mundo.

Por isso, faço versos, escrevo prosa, sobre o nosso cotidiano, sobre o nosso tempo. Não ouso grandes verdades tentar mostrar; se encontrei algo verdadeiro, somente é verdade para mim e pode nem ser colorido no olho amigo, portanto, faço do meu canto, a melodia de revelar a maravilha do outro, esse outro que passaria por você ou por mim, e seria apenas um outro e não esse ser tão maravilhoso com suas estórias e conquistas que tanto pode valor nos compartilhar; por isso sou cronista da poesia e tento retratar em letras a sua vida, a minha, a de todos que em meu mundo passar.

Cara de Domingo

Caem gotas de chuva na janela, nesse dia com cara triste. Tenho duas escolhas: ou eu fico com essa cara de domingo chuvoso ou coloco um sol no sorriso, para iluminar e aquecer as crianças brincando no parque do meu peito...


ESCRAVOS DA MINHA ALMA

Essa manhã, despertei com as vozes e rostos de milhares de consciências que estavam escondidas dentro de mim. Pensei que ouvia espíritos, que via rostos de antepassados, mas não era nada disso; o que via e ouvia eram meus rostos do passado: tudo o que eu poderia ter sido e nunca tive a chance de presente ter tornado.

Não eram rostos de vidas passadas, nem vozes do futuro. Eram palavras engasgadas que nunca foram ditas; o Frank que teve medo de manifestar a sua arte por medo do que “esse povo” pensasse; era o “eu te amo, amor” que ficou esquecido; foi o mentiroso que se escondeu com medo de encarar a verdade.

Foi preciso muita coragem para libertar esses “eus” escravos, mas assinei a Lei Áurea e libertei da minha alma, tudo aquilo que estava reprimido e condenado. Para isso, apenas bastou, reconhecer com muito respeito e amor, que não vou mais manter por medo de crescer, a escravidão dentro da minha alma.


A CORRIDA

Fiz-me carne para sentir o poder de manifestar o meu pensar no agir, o meu prazer no criar.

Esse cavalo que tenho montado, está preparado para correr certas distâncias, alcançar certas vitórias e durar o tempo certo; basta que eu aja correto, equilibrando o tempo de ver e o tempo dos olhos fechar.

O que sou não é uma ilha, por isso, ganhei uma família que me ensinou a arte de me relacionar; mas essas águas não são feitas apenas de rostos amigos, daí a bandeira do perigo, se eu não aprender a me sintonizar.

Fiz-me medo para preservar, adrenalina para reagir e saudade para querer aqui estar e ao mesmo tempo sentir falta de lá; mas assim como vim, hora dessas, vou partir, basta a minha corrida terminar.

sábado, outubro 18, 2008

ESCONDE- ESCONDE DO SENHOR MENINO

Aprendi desde cedo, que Deus era um velhinho, porém quanto mais caminho pela estrada do Divino; mas tenho certeza que se Deus tem cara de gente, só pode ser a face de um menino.

Dele, temos apenas o verbo e o verbo muda constantemente; foge que nem água pelas mãos da gente, toda vez em que teimamos segurá-lo.

Estudá-lo é sempre um passo a frente e dois para trás. Avançamos casas quando nos sentimos parte de tudo; regressamos duas casas quando tentamos rotular esse Menino.

Esse Deus-Menino se desfaça de vento, pois não cabe em gaiolas, faz pit-stop nos templos, mas prefere mesmo o ar livre dos parques, onde passarinhos cantam a sua glória; sem pedir nada em troca.

Estar próximo de Deus-Menino é não pensar sobre ele, como ensinava o poeta Alberto Caiero; é preciso ter coração ligeiro; pois o raciocínio é lento. A mente pensa duas vezes se o vento que tocou seu rosto é mesmo vento; o peito sente o carinho do ar é não perde tempo, sabe que é presente.

Ser inteligente é ter em mente que sempre haverá um segredo a desvendar; e não importa o quanto a arrogante mente tente ; pois para cada pista certa descoberta, sempre haverá outras tantas falsas, pois esse Deus-Peralta, sabe muito bem como esconder suas pegadas.


Imagem: Salvador Dali - The Book Tree

sexta-feira, outubro 17, 2008

ERA UMA VEZ...UMA Polícia

Era uma vez um país onde a Polícia atirava na própria Polícia e a bandidagem ficava cada vez mais unida. Sem recursos do governo e sem mesmo dinheiro para pagar as contas, a Polícia fazia greve que durava semanas e a bandidagem sabida, se armava e aproveitava a fragilidade da Polícia, para continuar tomando terreno nos morros, nas periferias, nas portas das escolas e até mesmo nas delegacias, onde as contas eram pagas e o leite das crianças dos carcereiros estava em dia, com a graça do dinheiro que fluía do tráfico nosso de cada dia.

Era um país engraçado, onde a Polícia feria a própria Polícia e a bandidagem soltava fogos nas favelas, dançando a dança do quadrado; fazendo a festa, rindo a toa da Polícia atrapalhada que sem o devido preparo nem sabia lidar bem com o rapaz maluco que encarcerou a ex-namorada no ABC e a exibia pela janela.

País onde a população desprotegida não sabia se temia mais o bandido ou a própria Polícia. País que é lindo de morar, mas a cada dia que passa se torna cada vez mais perigoso de viver.


Imagem: http://ricardojacob.org/?p=75

Foi ? Não! É ...

Não foi, é...

Jurei que era ela, o meu amor; mas amor sempre foi, o que não foi, era o meu amor por ela, pois depois que ela se foi, o amor ainda estava lá. Nunca foi por ela, o amor era pelo amor.

O amor indenpende de rosto, dele ou dela; o amor é... apenas é...toda essa novela mexicana, esse drama americano, essa comédia romântica tupiniquim são apenas cenários, onde esse amor se manifesta em você ou em mim.

Chore o que for, ria o que der; o amor sempre será amor, não importa o rosto do seu homem ou da sua mulher.

RELÓGIO

Cada trabalho é necessário
Para edificar o cenário

Cada roupagem é uma peça
Mecanismo da Misteriosa Engrenagem

Ponteiro de mim, minuto, segundo e fim
Ponteiro de você, hora e meia, meia e hora a tecer

Peças vivas do Grande Relógio

Cada um com a sua função
Cada um com a sua sina
Cada um com o seu som
Nesse tic tac da vida

quinta-feira, outubro 16, 2008

DIETA ESPIRITUAL

Ele achou que indo ao templo uma vez por mês, resolveria as suas questões existenciais; que se contasse ao terapeuta, como estava a sua vida, tudo se resolveria como num passe de mágica. Tanto uma coisa quanto a outra ajuda, não há dúvida; mas do que vale perder um quilo no spa e de volta a vida, ganhar dois quilos a mais?

Estudar espiritualidade exige firmeza. Não basta se alimentar de tudo que há fartamente na mesa, e depois ficar uma semana sem comer nada. Espiritualidade é prática diária, começa no momento em que você acorda, até o momento em que você desperta.

Cadê a certeza profunda? Cadê a prática do fazer? Ficou para a próxima segunda? Isso é preguiça de agir ou medo de crescer?

Cadê o equilíbrio, menino que deseja saber tudo e não pratica nada? Cadê o ritmo dessa caminhada que exige os dois pés constantemente na estrada?

Caminho espiritual é compromisso, não é piada!

Firmeza, homem! Clareza, mulher!

Enxergar é para quem pode e não para quem quer.

quarta-feira, outubro 15, 2008

CONTATO IMEDIATO

Ele caminhava na solidão da noite, acompanhado por um cachorro vadio, que teimou em segui-lo, como se confundisse o rosto do andarilho com o de um dono perdido. Eles andavam por uma rua escura e suspeita, dessas em que qualquer sombra movendo-se ou silhueta faziam bater mais rápido o tum tum do peito; mas não tinha outro jeito, aquele era o único caminho até o ponto de ônibus, que nunca esteve tão longe.

Foi nesse espaço entre o caminhar até lá e o já ter chegado, que ele notou algo surgindo no céu que o deixou assustado. Não conseguiu seguir adiante e o cachorro, também assombrado, latiu e se dispôs a uivar.

Paralisado diante daquela presença, tudo o que ele conseguiu fazer foi olhar; pois por de trás de uma nuvem, ela surgiu prateada; parecia um disco, toda iluminada.

Encontro como esse nunca se viu igual: a lua, o moço e o cachorro em contato de diversos graus.

Ele começou a recitar uma poesia, ela encabulada, permaneceu calada; o cachorro não quis segurar vela, e partiu; não teve dúvida, inspirado, foi procurar uma cadela.

Obrigado Professor!

Dedicado ao Professor e amigo Wagner Borges


Por todas essas lições de amor e de discernimento. Você foi, é e sempre será as bases para o meu fundamento espiritual, pois sempre ensinou que é preciso firmeza, mas ao mesmo tempo carinho nos estudos do mistério do Divino.

Ainda lembro a primeira aula sobre os fascinantes chacras, quando você brincava com os nomes errados que davam para a aura e entre piadas, canções, arte e muita boa vontade; dividia conosco, todo o aprendizado que você trazia, das muitas caminhadas dessa e de outras vidas, apenas pelo prazer de compartilhar com alegria.

Aprendi com você, que nos estudos espirituais temos que sempre manter o bom humor e que solos de guitarras progressivas podem ser mais projetivas que músiquinha de elevador.

Você me ensinou que muitos são os caminhos para o Senhor, e que eu não me surpreendesse, se ao invés de encontrar um velhinho sisudo, topasse com um menino sorrindo, brincando de construir mundos ou uma mulher linda e protetora, cujos cabelos formam o mar, as estrelas e a nossa roupa; sim, foi com você que aprendi, que usamos uma roupa para entrar e nos despimos dela ao sair; pois somos mais do que o corpo fisíco, aliás, não somos nem isso ou aquilo, somos neti neti.

Professor, você é o cara, pois tinha tudo para criar religiões, seitas e ter uma centena de "irmãos" te seguindo; mas optou por nos ensinar o outro caminho, aquele que um Professsor, é acima de tudo, um grande amigo.


Para conhecer um pouco mais sobre o trabalho do Professor Wagner Borges:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Wagner_Borges
http://www.ippb.org.br/

terça-feira, outubro 14, 2008

BÊBADO DE POESIA

Para Paulo Bomfim

Desculpem-me se escrevo essas linhas com letras embriagadas. É que bebi a noite em copos de lua* e como aperitivo, comi estrelas.

Não sei onde vou parar, nem o que vou escrever; só sei que quero também te embriagar, toma aqui um copo de poesia pra você.

Venha cantar comigo pelas ruas da vida, a alegria de estar bêbado de poesia.

Venha celebrar a vida, que eu seja letras e você leitura sabida; leia nas entrelinhas, esses soluços de amor que são ecoados dos confins do universo. Xiii...acho que bebi Deus também!


Notas:
1. Para conhecer um pouco mais sobre Paulo Bomfim, esse grande poeta paulista, autor da frase "bebi a noite em copos de lua":
http://www.academiapaulistadeletras.org.br/cur_35.htm
http://www.jornaldepoesia.jor.br/pbonfim.html

2. Imagem: http://www.repoetas.blogger.com.br

segunda-feira, outubro 13, 2008

ENCANTADOR DE PENSAMENTOS

Estou tentando permanecer com a mente vazia. Explico, tento navegar com lucidez pelo meu mar turbulento de pensamentos e quanto mais longe avanço, maiores são os meus ganhos. Parece loucura? Que nada! Insanidade é essa confusão de pensamento que não me deixa pensar direito.

Casa limpa é casa vazia. Até gosto das visitas, mas aparece cada coisa, que ás vezes me assusta. Principalmente antes de dormir...

Há uma propaganda na televisão sobre um jornal para executivos que mostra um executivo sendo abraçado por sua esposa na cama, enquanto sua mente pensa em gráficos, números e valores. A música em inglês de fundo diz: "we´ve got no time". Eu hein? Nem pensar! Como na canção do Kleiton e Kledir, ficar pensando em outras coisas na cama, que não em dormir ou fazer amor? Nem pensar!

Contudo, é assim que nos ensina a cartilha do mundo moderno: Desocupado é vagabundo; ocioso é doido; mente vazia é oficina do cão. Do cão??? Acho que não!

Mente vazia é morada de passarinho, pois somente sem os entraves dos mil pensamentos, que podemos bater as asas e ir além do tempo, do espaço, rumo a quem somos de verdade. Sim, tenho feito isso e tem funcionado. Antes de dormir, tenho meditado. Nada parecido com aquela coisa meio zen futuro, de pose de yogue e OM absoluto. Sou cabra macho e não faço essas coisas ( pelo menos não mais agora). O que faço é observar o balanço do pensamento, sem tentar domá-lo. Sim, já tentei dominá-lo e levei na cabeça. Pensamento é cavalo brabo, quanto mais força fazemos para laçá-lo, mas o bicho fica danado e dá coice para tudo que é lado. Por isso, vou meio de mansinho, tentando encantá-lo. Observo o bailado, meio que se eu estivesse desligado, pensando em outra coisa e quanto menos dou bola, mais ele fica calmo, sereno e dentro do seu cercado. Sim, há encantadores de cavalos e eu sou encantador de pensamentos, pois tendo esses moleques pirracentos controlados, posso soltar os meus pássaros e voar sossegado.

Confesso que a primeira vez que os encantei, fiquei sentindo um vazio danado. Achei esquisito e até senti medo. Cadê aquele pensamento bobo, Meu Deus? Cadê aquela preocupação sem futuro? Cadê aquele pensamento mortal? Em princípio, fica mesmo um buraco na mente, pois acostumado com o barulho da mente, a casa vazia nos causa certo receio. Afinal, toda aquela enxurrada de pensamentos nos dá uma falsa sensação de segurança e conforto. Porém, é somente com a casa vazia que conseguimos pôr as contas em dias, investigar cada quarto, perceber coisas que pareciam não estar por lá antes e nos darmos conta que se a nossa casa é bem maior do que pensávamos, imagina o que há além do quintal...

domingo, outubro 12, 2008

SALVE RAINHA APARECIDA

Havia um quadro que eu não conseguia entender e uma oração que eu não conseguia decorar.

Havia mil Nossas Senhoras, muitas das quais, eu não sabia o nome, nem porquê. Porém, havia Aparecida, a Nossa Senhora que tinha a minha cor.

Sei lá, ela pareceu mais perto de mim; não sei se pelo quadro, ou pela oração, ou pela cor...vai saber o que cativa o nosso coração.


Salve Rainha

Salve, Rainha,

Mãe misericordiosa,

vida, doçura e esperança nossa, salve!

A vós brandamos os degregados filhos de Eva.

A vós suspiramos, gemendo e chorando

neste vale de lágrimas.

Eias pois, advogada nossa,

esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei,

e depois deste desterro mostrai-nos Jesus,

bendito fruto de vosso ventre,

ó clemente,

ó piedosa,

ó doce sempre Virgem Maria.

Rogais por nós Santa Mãe de Deus.

Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Amém.

VAGAMUNDO KID EM: O DIA DAS CRIANÇAS

Um dia desses, eu era bem pequenino, correndo pelas ruas da Paraíba, já ensaiando ser um andarilho.

Foi em um doze de outubro que ganhei um presente que me transformaria no Vagamundo Kid, a semente do viajante que viria a ser um dia.

Família pobre não comemora Dia das Crianças, assim, eu não sabia o que estava perdendo, só quando a escola me lembrava que nesse dia, todas as crianças ganhavam brinquedos; e eu não era uma dessas crianças.

Eu era menino sem brinquedo, mas com imaginação multiforme. Minhas caminhadas pela cidade eram jornadas épicas, onde meus heróis de papel salvavam o mundo dos grandes vilões. Não precisava de playmobil ou de miniaturas dos meus heróis favoritos; se eu podia com um papel, um lápis e alguns riscos, criar o herói que quisesse, bastava ter uma imaginação sem limites.

Meus heróis de papel cabiam todos no meu bolso, ou dentro do meu caderno; ninguém os desejava, assim, não corria risco de furto de olhos invejosos de menino, coisa comum entre meninos que não eram criativos; e como eu não esperava presente algum, não entendia a razão pela qual meu amigo da classe reclamava do presente que ganhou:

- Meu pai me deu um Atlas! Um Atlas! Como posso brincar com um Atlas? - reclamou Helânio, segundo ele, tinha razão, afinal já havia ganhado os bonecos dos Comandos em Ação, do He-man, banco imobiliário, e centenas de cartuchos para o seu Atari - Vou jogar essa droga fora! Qué procê?

O Atlas era lindo. Tinha uma capa preta, com a imagem do planeta, era grosso e pesava uns dois quilos, achava eu; e era grande, maior que os livros da escola.

- Última chance? Qué?

Ninguém notou em casa, que aquela tarde, eu cheguei com um livro novo. Não era costume de meus familiares repararem em meus livros ou cadernos. Após o almoço, coloquei "meu" Atlas novo sobre a mesa e pela primeira vez, viajei pelo mundo.

Já havia visto um Atlas anteriormente na escola, mas não contava, pois tudo o que fazemos por obrigação, a memória não cativa e guarda. Fui de uma América a outra, como na música do Toquinho, em um segundo. Atravessei o Atlântico e invadi o velho mundo, como um pirata dos sete mares. Viajei pela Europa e atravessei a Rússia, indo parar no frio da Sibéria; caminhei pelas muralhas da China, e surfei com os aborígines nas ondas da Austrália. Pequei carona com uma gaivota e atravessei o Pacifico, voltando para casa, mas antes passando e ficando um pouco, lá pelo fim do mundo, em Ushuaia, a Terra do Fogo.

Jurei sob aquele livro aberto na mesa, que um dia, faria essa viagem de verdade. Conheceria todos esses continentes, oceanos, culturas e sociedades; e fechei o livro, com os olhos brilhando de sonhos a serem realizados. Palavra de Vagamundo Kid!

Ficaria a tarde toda, pensando no Haiti ou nas praias de Goa, se não ouvisse alguém batendo na porta da casa da minha vó. Era o pai de Helânio, com o moleque arrastado pela orelha, perguntando para a minha vó, se o tal amiguinho neguinho do seu filho querido estava em casa.

Antes não estivesse.

Minha orelha sofreu a mesma pena, mas punição não merecida; afinal eu não havia pedido nada; e agora sofria o castigo dos presentes dados entre meninos, sem um adulto aprovando.

Entreguei o livro, com muito custo, dado não era roubado; mas meu amor a minha orelha esquerda era maior que o meu amor iniciante pelo mundo.

Helânio teve de volta o seu livro; e eu fiquei a semana inteira de castigo; mas era tarde demais; o Vagamundo Kid já havia nascido. Era só uma questão de tempo entre o sonho desejado e o sonho cumprido.


F.O

Nota do autor: eu havia me esquecido dessa lembrança do Atlas e do Vagamundo Kid, até essa tarde, quando ouvi num antigo CD, a canção "Amigo do Sol, Amigo da Lua" do cantor Benito di Paula. Essa canção era trilha sonora da novela global "A Gata Comeu" de 1985, e naquela epóca, tocava no rádio sem parar.

Incrível como algumas canções são máquinas do tempo...

Abaixo, a letra dessa canção:



Amigo do Sol, Amigo da Lua
Benito Di Paula
Composição: Benito Di Paula / Márcio Brandão

E ê criança presa ê, brinquedos de trapaças
Quase sem história pra contar
Você criança tão liberta me tire dessa peça,
E assim ter história pra contar
Estrela que brilha em meu peito e me leva pro céu
Em cantos cantigas canções de ninar
Me deixa no galho no galho da lua
No charme do sol pra me despertar

Estrela que brilha em meu peito e me leva pro céu
Encantos cantigas canções de ninar
Me deixa no galho no galho da lua
No charme do sol pra me despertar

Vem amigo nadar nos rios
Vem amigo plantar mais lirios
No vale no mato e no mundo vamos brincar
Vem amigo nadar nos rios

Vem amigo plantar mais lirios
No vale no mato e no mundo vamos brincar


Nota do autor:
1. Mais informaçôes sobre o cantor Benito de Paula e a sua discografia:
http://cliquemusic.uol.com.br/artistas/benito-di-paula.asp

2. Imagem: http://www.fabiocampana.com.br/
Abaixo, informação colhida no site sobre o autor da fotografia:
Foto de Araquem Alcântara. Segundo Rubens Fernandes, crítico de fotografia: " Araquém é andarilho, viajante, pioneiro na documentação ambiental contemporânea. Ele faz poemas visuais e usa a fotografia como arma de conhecimento e prazer. Seu trabalho é um dos primeiros a criar uma memória e uma identidade visual para o país, transportando-nos para espaços desconhecidos e de raríssima beleza. Um olhar politizado e esclarecedor, necessariamente exaustivo e paciente, marcado pelo encantamento de revelar a dignidade do povo brasileiro e a exuberância de nossa natureza. Araquém é um colecionador de mundos”.

Os Doze Trabalhos

- Quantos caminhos, caro oráculo, eu devo ainda percorrer? Já realizei os doze trabalhos, já atravessei as sete rodas; já abri diversas portas e não há sinal que percorro o caminho da luz.

- Há muitos outros caminhos, novas rodas, misteriosas portas o aguardando, poeta, até que você compreenda que o destino da sua jornada é a própria estrada.

Imagem: Oráculo de Delfos, Grécia.

sábado, outubro 11, 2008

THOR

Eu nasci com vontade de plasmar universos, conquistar tesouros, construir castelos sob o poder da minha espada letras. Nasci meio torto. Não era Drummond, mas um anjo nervoso veio dizer a minha mãe:” esse neguinho poeta, nasceu para martelar versos”.

Sou um martelador de versos, pois não sigo as regras da poesia; só escrevo o que me dá vontade; só poeto o que me dá alegria. Se eu tivesse que seguir as normas, não faria poemas nuvens, estaria fazendo portas; e talvez essa inspiração torta, morreria na praia do texto interrompido e nunca compartilhado, por não ter um formal estilo. Não quero isso!

Gosto de dar cor aos olhos do leitor amigo; quero ele saboreando cada palavras, desde o principio até o fim; por isso, desculpem-me os críticos, sou escritor apenas de mim.

sexta-feira, outubro 10, 2008

ODE AS FORMIGUINHAS

Segue firme a formiguinha, carregando a folhinha, sem se importar com os meteoros pés-gigantes; sem se preocupar com o que haverá depois ou com o que houve antes.

Segue firme a formiguinha, carregando a sua folhinha; segue pequenina tão desprotegida, seguindo a sua vida, que pode durar anos, horas ou dias; mas segue feliz em sua sina, sendo refletida nos olhos do menino crescido que ainda vê graça em observar a jornada das formiguinhas.

Uma formiguinha sozinha não faz inverno; duas formiguinhas não formam um formigueiro; uma gotinha é assunto sério, duas é aguaceiro.

Vida dura é ser formiga, mas nunca ouvi falar na vida de uma formiguinha suicida...

ENTRE-MUNDOS

Que coisa triste é não fazer parte da festa; olhar a celebração pela janela, não ser convidado para entrar.

Aqui fora faz tanto frio, há ausência de abraço amigo, falta permanência, tudo tem cara de perigo.

Bato na porta em busca de abrigo.

Grito: mãe, joga a chave!

Mas nada do que eu faça, importa. Meu perfume tem cheiro de inimigo; insisto, mas minha sombra é meu próprio entrave.

Valei-me papai do céu! Mãezinha, por favor, salva o seu filho. Tenho fome de mel, tenho sede de vinho. Quero bailar com os meus amigos, quero provar novamente da vida sem frio.

Estou tão cansado de ficar sozinho, nessa jornada de estar desencarnado do corpo e perdido do espírito.


Imagem: http://www.salves.com.br

quinta-feira, outubro 09, 2008

RETRATOS


Quando eu penso, formam-se imagens que são quadros para os que estão vivos.

Quando eu falo, formam-se livros que só podem ser lidos por quem tem ouvidos.

Quando eu finalmente ajo, minhas atitudes viram melodias em ondas sutis e finas que só podem ser percebidas por quem está em sintonia com o que há de mais belo na vida.


GERAÇÕES EM MIM

Ontem fui dormir criança e hoje acordei adulto.

Valei-me Nossa Senhora!

Se amanhã eu despertar velho, que eu seja adulto o suficiente para me manter criança.


INDIGESTÃO ESPIRITUAL

Estudar espiritualidade é alegria de confeitaria, pois descobrimos que muitos são os doces.

Contudo, o Ministério do Discernimento e dos Pães de Mel adverte:“ Equilíbrio, menino! Coma um doce por vez. Dê ao sabor, o tempo certo, não engula, deguste.”

A doceria do Senhor, fica em uma ponte: de um lado, o gosto doce da teoria, do outro a indigestão da falta da prática.

PONTO SEM RETORNO

“Amigos e inimigos estão, amiúde, em posições trocadas. Uns querem mal, e fazem-nos bem. Outros nos almejam o bem, e nos fazem tão mal”
Rui Barbosa

Quando atravessei a ponte para o outro lado, vi uma placa, que dizia:

“ Caminhante, aqueles que atravessam essa ponte, não podem mais retornar ao seu lugar de origem. Deseja ainda assim atravessar?”

Senti medo. De um lado da ponte, ficava a casa de onde vim, onde deixei sossego, segurança e conforto. Além da placa, havia um lugar desconhecido, que não tinha cara de bom amigo, que assustava, preocupava, inseguramente me deixava.

Percebi que tinha a escolha de prosseguir ou voltar. Não havia nada de errado em desistir, nem nada tão certo que valesse a pena continuar. Era a minha decisão, e a ninguém eu devia explicações sobre os meus caminhos.

Poderia desistir... mas não o fiz, e segui a ponte até o começo da outra estrada.

Ainda caminho, ainda estou descobrindo.

Não sei o que me espera além da curva, nem sei que mistérios serão revelados além da montanha, mas estou preparado para experimentar o novo a cada dia.

Para frente e avante, asas que ousam!!!


Imagem:

quarta-feira, outubro 08, 2008

INCORPORANDO O ANIMAL DE PODER

Era um ritual xamânico, onde deveríamos descobrir e incorporar o nosso animal de poder. Já havia visto médium incorporando médicos, arquitetos, escritores, orixás e preto-velhos, mas jamais pensei que fosse possível incorporar um animal, a moça que conduzia o trabalho dizia que sim, que era até normal.

- “Fechem os olhos, respirem fundo!” dizia a moça, bem bonita por sinal, vestida de índia, com roupas compradas na Rua Vinte e Cinco de Março. – “Imaginem o seu animal de poder”.

Quando o assunto é visualização, sou cego de nascença; daí a minha dificuldade: pelejei, lutei, afastei todos os pensamentos, mas tudo o que eu conseguia visualizar era a minha frustração.

“ Esse animal sempre está perto de você.” – dizia ela, voz macia, de quem fazia aquilo o tempo inteiro – “ Não tenha medo. Incorpore o seu animal”

- Iaaaaáaaaaaaaa!!! - Alguém gritou do meu lado, me dando um susto danado. Pelos gestos e gritos, o sujeito que lembrava uma pomba no cio, parecia ter incorporado uma águia.

- Aaaauuuuuuuuu!!!!! - Uivou um lobo do outro lado. Era um sujeito gordo, de pochete vermelha na cintura. Pelos grunhidos que ele começou a fazer, juro que pensei que ele tinha incorporado um porco.

- Rooouurrrrrr!!!! - Rugiu um urso, na fila da frente, que de tão magro, mas parecia um louva-deus.

Frustrante aquela festa na floresta. Constrangido pela minha incapacidade de médium de animal de poder, fiquei olhando aquele cenário do Rei Leão, bem contrariado, mas para tornar as coisas piores ainda, fui repreendido pela moça que conduzia o trabalho, que havia notado que há tempos, meus olhos observavam tudo ao meu lado.

Fechei os olhos, e tentei novamente me concentrar, e surpresa: senti que havia um animal do meu lado. Minha cabeça começou a mover para cima e para baixo, senti que um longo rabo balançava para os lados, só podia ser o meu animal do poder me incorporando, só podia ser uma serpente, esse animal tão poderoso que representa o perigo do veneno e a renovação da vida, que é o símbolo da medicina e da sabedoria.

Que legal, pensei, enquanto minha visão ia ficando verde e a minha língua começava a falar serpentês.

- Sssssssserpeeeeenteeeeee!!! Tentei falar, mas nada saiu.

Tentei uma vez mais, mas minha língua parecia presa, nada de fluência em serpentês; onde estava a serpente, a cobra? Não estava, pelo contrário, comecei a sentir que incorporava outro réptil. Se não era a serpente, eu só poderia estar incorporando a multiplicidade do camaleão, ou a força do crocodilo, mas não, não era nenhum desses bichos não. Inconformado, decidi acabar o transe e ir embora...

- O que houve? Aonde você vai? – perguntou a índia do Paraguai, quando me viu levantar, pegar as minhas coisas e ir à direção da porta.

- Pó, de todos os animais que eu poderia incorporar, tinha que ser o Calango, meu? – respondi irritado com meu orgulho de médium ofendido - Tô fora!!!


Imagem: http://www.prac.ufpb.br/projetocalango/img/calango_na_prancheta.gif
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