sexta-feira, agosto 30, 2013

PAULISTA DESVAIRADA*


Caminho pela Paulista como quem caminha pela vida. Por vezes sou absorvido pelo que vejo, sinto, ouço ou cheiro; outras vezes, observo e é observando que eu me vejo em todas as pessoas e em mim mesmo.


O HOMEM QUE FALAVA FLORES

Ele falava ao telefone, quando cruzei com seu olhar na esquina da Paulista com a Consolação.

- Não me venha com espinhos – disse ele ao celular – Quando me ligar, fale sobre orquídeas, tulipas, até aceito ouvir sobre as violetas, mas por favor não me venha com mais ervas daninhas.


O VENDEDOR DE TAPIOCAS

- Quero a minha com coco e leite condensado! – pedi ao vendedor de tapioca que lembrava um barman acrobata em frente à Fiesp. O coco voava sob o carrinho, o leite condensado jorrava sob a massa que dançava na frigideira.

Pergunto se vou pagar extra pelo show, ele sorri e como sou freguês, ele só me cobra pela tapioca.


*Titulo baseado na obra Paulicéia Desvairada – Mário de Andrade

quinta-feira, agosto 29, 2013

O ESCRITOR E A PENA


Amoça no restaurante ensaia um sorriso. O escritor, homem bobo, já pensa que é flerte; mas a verdade é que ela não quer nada comigo, nada além de uma conversa:

- O que você escreve tanto? – pergunta ela, rompendo a barreira que nos chama de estranhos.

- Escrevo sobre você! – respondo. Ela não acredita e espia as letras que desenho, tentando se achar nos meus garranchos.

- Como você pode escrever algo sobre mim, se nem sabe quem eu sou ou ao menos o meu nome? – pergunta novamente.

Gostaria de conseguir explicar, que não sou dono da pena, ela que é dona de mim; e quando toma de conta, ela é capaz de escrever coisas belas, ainda que eu nem perceba o que estou escrevendo.

- Escrevo sobre o seu sorriso – respondo – E sobre esse papo amigo entre desconhecidos. Talvez não faça o menor sentido para você e nem faz tanto para mim; mas escrever é um ato assim meio louco, onde o escritor tenta descrever o nada e acaba por letrar tudo que vê à frente. – explico e ela olha para mim, como se eu fosse um lunático - Eu te avisei, todo escritor é maluco!

- O meu nome é Lúcia! – responde ela, rindo e se despedindo, indo atender outra pessoa em outra mesa. Quanto ao escritor maluco, ele ficou brigando com a pena: “Você e essa maldita mania de escrever sobre todo mundo”.

quarta-feira, agosto 28, 2013

A BIBLIOTECA QUE NÃO TINHA TETO

- Zé, chegou livro novo! – grita Mané, carregando uma carroça recheada de papelão, pela Avenida Prestes Maia, no centro de São Paulo.


- Chegou meu Garcia Marques? – pergunta Zé, no outro lado da avenida, aproveitando o farol vermelho, para vender água e refrigerante no semáforo.

- Chegou esse não, Zé. Mas tem um novo Jonh Lee Carre e aquele livro que você estava esperando o Seara...

- Qual? – pergunta Zé correndo para a calçada, o farol abriu.

- O Seara Vermelha do Jorge Amado.

- Legal! – responde satisfeito Zé – Onde você achou?

- Numa lixeira lá nos jardins, encontrei também toda a coleção do Harry Potter. A molecada vai adorar.

- Sei, não, Mané – diz Zé, correndo de novo para o Semáforo – Essa molecada deveria ler mais Monteiro Lobato.

- Sossega, Zé! – diz Mané, ajeitando um dos papelões que começava a cair – Deixe eles lerem a J. K. Rowling, quem sabe eles não esbarram logo, logo num Mark Twain. Você começou lendo Paulo Coelho. Lembra?

- Fala baixo, Mané!- grita Zé - Pega mal, meu.


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Notas: Esse texto foi baseado nas historia de Severino Manuel de Souza,56, morador do edifício Prestes Maia 911, uma das principais favelas verticais de São Paulo que montou uma biblioteca com livros achados no lixo e doados por entidades assistenciais no subsolo desse prédio invadido pelo movimento dos sem teto em 2002. É nessa biblioteca que centenas de crianças, moradoras do prédio, passam o dia inteiro lendo e se divertindo; lugar também, bastante especial para Lamartino Brasiliano, 38, que abastece o seu acervo cultural, pegando emprestado os últimos “lançamentos” que Manuel traz para a biblioteca. Lamartino adora Jorge Amado, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa e não vê a hora de reler Cem Anos de Solidão pela segunda vez. Ele só não assume que leu todos os livros do Paulo Coelho.


segunda-feira, agosto 26, 2013

Obra Consciencial


Maturidade é ter consciência; é saber que, muitas vezes, ao invés de produzir um bom trabalho com as suas mãos, você decide produzir sua obra pelo seu rabo.

Consciência é saber se a obra que você esta produzindo é estrume (que servirá para plantação) ou nada mais que excremento.

É preciso ter maturidade para ter consciência  que se tudo o que você faz é cocô, pelo menos não jogue no ventilador. 

sexta-feira, agosto 23, 2013

O SOL NÃO VAI ACREDITAR


Acordei cedo, com esse desejo obsessivo de vencer a preguiça e fazer algum exercício. Luto contra a cama, com seu canto de sereia, tentando me seduzir; mato o sono e enterro a vontade de ficar deitado “só mais 05 minutos”. Estou lúcido, sem sono e visto o meu uniforme: moletom, tênis e coragem.

Sinto que agora estou pronto para a vida.

Nos últimos tempos, tenho me arrastado. Vivo cansado, não tenho forças para escadas. Na última vez que corri para pegar o ônibus que já saia do ponto, quase tiveram que chamar os paramédicos.

Enfim, a vida anda tentando estabelecer contato comigo. Esperta, ela usa todo tipo de médiuns: jornais, revistas, médicos, amigos e avisos por todos os lados, que dizem sempre a mesma coisa – Faça Esportes!

O elevador chega ao térreo. Faço um alongamento, enquanto percebo que o sol ainda não apareceu para trabalhar. Só quero ver a cara dele quando me ver correndo... nem eu mesmo acredito que estou fazendo isso.

quinta-feira, agosto 22, 2013

A TAPIOCA



Hoje à tarde, eu comi uma tapioca. Que coisa mais gostosa é o sabor e o som: ta pi o ca! O quê? Você não gosta?  Chamem o capitão, atire esse homem ao mar! Joguem essa mulher que não gosta de tapioca aos tubarões e o menino que torce o nariz, o deixe sem brincar. Onde já se viu que desrespeito! Tapioca tem gosto de Brasil, cheiro de terra, quem nunca provou de uma tapioca, não sabe o que lhe espera.

Adoro parar nessas barraquinhas e observar, a farinha e água numa bacia se misturar, enquanto a frigideira pacientemente fica a esperar. Então a artesã da tapioca vai jogando a massa e moldando-a como se fosse uma panqueca. Tudo é muito rápido, massa vira tapioca, como se tivesse pressa, de receber o recheio de leite condensado, goiabada, doce de coco, chocolate, manteiga ou nata. Doce ou salgada, a tapioca chega à boca como se fosse um“beiju”. Que goma mais linda, que refeição dos deuses. Comer tapioca é tão mágico quanto um Déjà vu.

Sempre como tapioca como se fosse a minha ultima refeição. Como um detento a um passo da sua execução, saboreio a tapioca, pedaço por pedaço, com apreciação. Comer tapioca é pura meditação: tapioca dissolvendo na boca, consciência em expansão; eu sou cada pedaço, sou o próprio sabor, cada sensação eu caço, cada mordida, uma explosão, uma cor. Eu amo tapioca como quem ama o próprio amor.

Quando chego ao fim, surge o desafio: a tentação de pedir um pedaço a mais, mas resisto, calo a gula e vou me embora sempre querendo mais; e como Deus é tão bom, sei que sempre haverá essas barraquinhas de tapioca po ronde eu for nesse Brasil do meu coração. Agora me diga a verdade: deu vontade de comer ou não?

quarta-feira, agosto 21, 2013

A MULTIPLICAÇÃO DAS LETRAS


Escrevo como quem quer compartilhar. Não quero tudo para mim, quero dividir, te dar uma fatia, multiplicar.

Escrever é um milagre, mas nada de santo tenho. Se faço multiplicar as letras é porque jorra de dentro. Como dizia o poeta Bandeira, eu não as possuo, elas que possuem a mim. Não as escrevo como eu quero, elas são assim e por serem assim, jorram de mim com o vento: tudo vira rima de letra, o menino, o espaço e o tempo.

Se me tirarem as mãos, corro risco de ainda assim expressá-las pelo falar; se me tirarem a boca, elas saltarão pelo olhar e se me tirarem os olhos, vocês verão, como as letras sabem dançar.

E elas dançam e dançam no papel, na tela. Entram por debaixo das portas, pelas frestas das janelas. Contudo, elas não te invadem, apenas se oferecem. Ler é sempre um convite, nunca algo que se deve. Por isso, cabe a você aceitar ou não, o que se serve; e ainda assim, ao comer do pão e beber do vinho, filtre, use o discernimento, sempre que possível.

Um multiplicador de letras não quer de nada te convencer. Ele apenas escreve sobre como vê o mundo e oferece a você e se o convite for aceito de coração, aliança eterna, quando visões de mundo unem-se no mais belo espetáculo da terra: a união de pensamentos entre escritor e leitor por meio da interpretação.

terça-feira, agosto 20, 2013

5 SEGUNDOS

Preciso de 5 minutos para lhe falar. Sei que tem pressa, mas você precisa me escutar. Há tanta coisa a dizer e agora só me resta 4 , por isso confia em mim, larga as malas, vem aqui no quarto.

Sei que muita pouca coisa se faz em 3 minutos, vou tentar ser breve, pois agora só me resta 2 e meio para pedir perdão e 2 e 15 para explicar a razão pela qual ferimos sempre quem mais amamos. 2 minutos escorrem por nossas mãos, por isso, mais uma vez te pergunto: você ainda me ama?

Não! Não precisa responder, nem preciso de 1 minuto para perceber que não posso amar por mim e por você; e você precisa ir e eu esperar para ver, se a liberdade é a maior prova de amor que um casal deve receber.

30 segundos de abraço nesse tão curto se despedir, 15 segundos para olhar nos seus olhos e 10 segundos para te ver sorrir e só me resta agora 5 segundos para te dizer uma última vez: EU AMO VOCÊ!

segunda-feira, agosto 19, 2013

MAR DE GENTE


O mar segue cheio de fúria; as ondas avançam e açoitam a terra. Sentado na praia de Swadhistana, olho a água em guerra e finalmente aceito mudar. A mudança vem a duras penas, quem eu pensava que era quer ser e voltar, faz convites sedutores e ameaças plenas, sabe que já não consegue me dominar.

Quando fui dado luz, virgem de mundo nasci; com a cultura e a crença de um povo me revesti. Aprendi a andar, como caminha os outros, aprendi a ver somente o aparente, nunca a alma, só o rosto. Recebi de presente, um pacote da língua local, fui instruído a virar anjo, mesmo mal sabendo ser um animal. Pegadas segui, caminhos percorri, mestres descobri e quando já me achava, pleno de mim, a verdade veio a tona: eu não era assim!

Cortei os cabelos, rasguei as roupas; lavei-me das certezas e da fé fiz sopa; digeri tudo o que aprendi a ser e o que ficou foi o que sempre havia, mesmo antes de nascer: muita vontade de aprender.

Já não há mais fúria, acabou essa guerra; a paz avança astuta nessa luta eterna. Já não luto contra, respeito a morada do eu; prazer vira criatividade, essa casa já não me afronta, faz parte de mim, um presente meu.

Finalmente sei quem sou, apenas mais uma gota d’ água velha. Ancião do mundo; do mar, apenas uma perna, e nesse oceano eu entro e saio, e o que vejo: teoria e prática. Opostos que só conseguimos experimentar verdadeiramente, quando caímos do céu e brincamos de gente.

sexta-feira, agosto 16, 2013

ATENÇÃO


Ele vai se matar!

Já decidiu. Suicidar: não havia verbo mais reflexivo e maldito. Era a única opção. Passara toda uma vida, cabisbaixo e deprimido. Acabar com a própria vida era o mais correto a fazer – só a morte o libertaria da dor.

Dor? – disse certa vez um amigo, quando ele se lamentou – Você é saudável, caminha direito, não tem nada no peito que te impeça de respirar. Que dor é essa que tanto te aflige?

Ele nem tentou explicar. Dor da alma não se explica com palavras, pois tudo lhe doía, conversar com as pessoas, trabalhar, pagar suas dividas, acordar e continuar.

Não iria fazer a menor falta. Ninguém o notava mesmo. Sabia que não passava de um objeto para as pessoas. Ninguém realmente lhe entendia ou o tratava bem. Para o mundo, ele não era gente, era sempre isso ou aquilo, nunca amigo, nunca parente. Ele era sempre o objeto descartável, parte da estante, ausência de reflexo no espelho, pedra no meio, um eterno retirante, migrando para lugar nenhum.

Só havia uma coisa a fazer: tornar o seu último ato, algo memorável. Jogaria seu corpo na via do metrô. Era preciso que a sua morte fosse um evento, uma ocasião em que todos finalmente o notassem e o respeitassem. As pessoas lhe dariam atenção e finalmente ele seria tratado como alguém e não como algo.

Era 18:30 da segunda-feira no metrô Sé, quando ele se atirou na linha do trem. Sua morte chocou a todos e repercutiu até em quem não estava presente.

 São Paulo parou na hora do rush. Um silêncio se fez ouvir, enquanto todos os auto falantes de todos os trens parados em diversas estações noticiaram:

“Atenção!  Paramos momentaneamente devido a necessidade de retirar objetos da via. Voltaremos a operação assim que for possível.”

quinta-feira, agosto 15, 2013

A PIRATA


- DVD hoje? - Pergunta a moça. Mochila nas costas, uma coleção de filmes piratas nas mãos: Indiana Jones, Homem de Ferro, Speed Racer e outros mais que não consigo identificar. Ela é bonita. Sua beleza me chama mais a atenção que os filmes que ela oferece. Quero dizer não para ela – nada contra ou a favor da pirataria – mas estou curioso e lanço perguntas no ar, enquanto a observo, vendendo seus produtos naquele balcão de padaria:


- Quem é ela? Como chegou a conclusão que venderia mais DVDs se largasse abarraca, fosse para a rua e se tornasse uma real ambulante? Terá sido o “rapa”? Será a necessidade?


Ela é bonita e seus olhos fortes contam algo a mais que batom, perfume, chapinha e conjuntinho preto; eles dizem que ela tem filho carente ou mãe doente; alguém assim, que a empurre para a rua, para o ramo do Barba Azul, do Jack Sparrow, do Willy Caolho, mas não vejo caveira e espadas em sua bandeira, apenas um moça precisando de dinheiro.


- Tenho os últimos lançamentos – insiste e até baixa o preço. Possui uma voz suave e ao mesmo tempo firme. Deve vender muitos filmes, ou do contrário, não estaria na rua, de bar em bar, padaria em padaria, oferecendo diversão de qualidade duvidosa e apelo certeiro: ela sabe que a sua beleza auxilia as vendas. Na padaria, ela só aborda os homens. Vai ver mulher não compra DVD pirata.


- Obrigado, mas hoje não – respondo. Ela sorri, vai embora, fingindo que acredita que eu comprarei seus filmes num outro dia e eu finjo que acredito que aquele cara que acabou de comprar um dos seus DVDs, o fez, por qualquer outro motivo do que não por sua beleza.

quarta-feira, agosto 14, 2013

CONTENDA


Sou o último dos meus. Não haverá mais deles. Olho por olho, bala por bala, sangue por sangue. Nem sei como fui parar ali, mas estou eu, aqui, com a espingarda na mão, pontaria na testa do maldito que matou meu pai, meu irmão.

Tudo começou com João. Briga de bar por causa de rabo de saia, bebida demais, juízo de menos. Um tiro no peito o fez defunto; outro tiro do meu pai começou a contenda.

Nunca fui de dar tiros, sempre carreguei livros embaixo de braço. Se peguei em arma de fogo, foi para espantar onça e cobra que ameaçava meu povo, tentando roubar os anjinhos. Se estou armado é porque não tenho escolha: ou eu mato ou morro.

Por isso troquei as letras pela pólvora quando Fonseca matou meu pai. Meu irmão caçula, Sebastião, matou Messinho, pois errou Fonseca que não errou meu irmão. Bastião morto com um tiro covarde pelas costas; eu escapei por pouco, Fonseca quis matar dois coelhos com uma só bala, sabia que eu era o último e não queria sofrer emboscada. 

Na minha terra, só ficou viúva chorando, minha mulher já veste preto. Eu sou um morto vivo, um moribundo, por isso, Fonseca precisa morrer, preciso recuperar meu mundo, meu eixo.

Enfim, crio coragem e atiro, enfio dois tiros no maldito, mas ele não cai. Terei errado o tiro? Atiro uma vez mais e ele não morre, virou invencível. Acerto mais um nas suas costas, dou um tiro bem no seu olho do ouvido e o desgraçado continua vivo. Será o Benedito? Será que minhas balas são de fumaça? Por que não consigo transformar o bandido em finado?

Oque está ocorrendo?

Contenda!

Sou o último dos meus. Não haverá mais deles. Olho por olho, bala por bala, sangue por sangue. Nem sei como fui parar ali...

terça-feira, agosto 13, 2013

COMER,COMER - PARTE FINAL

Eu sei que você se recorda, não preciso repetir, mas não custa lembrar que essa não é uma crônica vegetariana. Parei de comer carne vermelha, mas ainda como coxinha de frango e paella. O motivo pelo qual, deixei de saborear um churrasquinho de lombo, foi a visita de um fantasma chamado Prático, que eu ajudei a matar em 1980.

Prometo que essa é a última crônica sobre esse assunto. Se toda essa narração lhe deu sono, peço desculpas, sou ainda um escritor enfadonho; agora se você sentiu fome: vá comer, caro leitor! Pois, o que você estará prestes a ler, vai lhe tirar todo o apetite.

Para comemorar o nascimento da minha irmã, meu pai preparou um banquete e trouxe um convidado, que em pouquíssimo tempo ganhou meu carinho. Prático era o nome quedei a esse porco com cara de nervoso que lembrava um dos três porquinhos. Contudo, não importava o tamanho do meu afeto, Prático estava condenado a morte, afinal, ele seria o prato principal.

Estávamos nesse terreno entre o Cruzeiro Velho e o Novo, longe dos olhares dos curiosos. Prático gritava, gruinha como se adivinhasse o que estaria por vir. Meu pai amolava um facão, enquanto Eugênio, nosso vizinho, retirava uma marreta da caminhonete, e por ele não ser Thor, o Deus do trovão, mal conseguia segurá-la; outros dois homens amarraram e seguravam o porco gigante. Já assistira Tom e Jerry o suficiente para adivinhar que algo sinistro iria ocorrer.

Quando Eugênio deu a primeira marretada, meus olhos se encheram de lágrimas, enquanto a testa de Prático foi amassada e sua cabeça virou uma fonte de sangue. Jatos vermelhos jorravam pelo ar, manchando o verde do mato, a camisa branca dos homens e o cinza da terra.  Prático era forte e permaneceu  gritando; o que exigiu uma segunda marretada, houve sangue e choro, mas o bravo suíno não caiu e continuou firme por algum tempo, até que já sem tanta força para resistir, o animal praticamente ofereceu o pescoço para o facão do meu pai, que o cortou, como se tivesse feito aquilo a vida inteira. O pobre animal, enfim, despencou como se fosse uma manga madura aos pés dos homens.

Eu já não conseguia chorar. Meus olhos permaneciam abertos em choque, sem piscar, enquanto observava aqueles homens desmembrando o bicho infeliz e pouco a pouco, o transformando em carne de açougue. Engraçado ou trágico, mas eu não me lembrava mais disso – trauma de infância, talvez – até que num certo domingo, Prático veio me visitar. Se foi sonho ou pesadelo, devaneio ou lembrança, não sei te explicar; mas vi o porco elefante na minha frente. Não houve ruído, grunhido, nem ele falou comigo – vai ver ele não nasceu mesmo para ser um porco falante – ele apenas me olhou por alguns segundos; o suficiente para que eu recordasse o crime; o suficiente para que eu lembrasse que esquecera um dos momentos mais terríveis da minha vida.

O fantasma do porco se foi e com ele, a minha vontade de comer carne vermelha. Se hoje evito a salsicha e a calabresa, não é porque tenho pena de todos os pobres suínos do mundo que são sacrificados para a nossa alimentação (somos o topo da cadeia alimentar e cada um com o seu prato). Se não consigo mais comer carne vermelha é porque algo ocorreu comigo, uma mutação, uma peia, sei não, mas não consigo deixar de associar a carne vermelha à lembrança de Prático e talvez essa foi a maneira que meu corpo escolheu e minha alma decidiu para reparar o assassinato que assisti e somente agora, consigo escrever a respeito e revelar.

Agora, desculpem-me, mas preciso interromper a sua leitura, é hora do almoço, preciso comer algo.

sexta-feira, agosto 09, 2013

COMER,COMER PARTE II


Como expliquei na ultima crônica, não consigo mais comer carne vermelha. Respeito quem o faça, tenho até inveja de quem come tudo o que lhe é posto a mesa, mas exclui a carne vermelha do meu menu e a decisão foi tomada graças a visita de um fantasma, que não era meu pai, ou o Rei da Dinamarca; e sim o fantasma do meu porco de estimação.

Fui criança de prédio, quando morei em Brasília. Cresci sem quintal e sem horta, mas meu pai, nordestino arretado, não ligava para o espaço apertado em que vivíamos – quarto, banheiro e cozinha na zeladoria dos prédios em que morávamos - e transformava os arredores do prédio em extensão da nossa casa. O espaço entre dois prédios virava terreno para festa junina e palco de aniversários. Havia entre os zeladores, uma amizade e um companheirismo que resultava em grandes celebrações. O nascimento da minha irmã, então, foi um grande evento que reuniu todos os zeladores, suas famílias e também centenas de moradores do Cruzeiro Novo. Meu pai quis fazer um grande banquete e naquela manhã de 16 de abril de 1980, Prático foi entregue em casa. Não era um porco com cara de amigo, nem lembrava o Baby, o porquinho falante; pelo contrário, ele era gordo, grande e fazia um barulho que assustava até os cachorros que queriam se aproximar. Talvez porque eu nunca tive um animal de estimação para enfeitar minhas memórias de infância, eu adotava todos os animais que vinha a ter contado e com Prático não foi diferente, até porque a sua cara de pouco humorado lembrava um dos porquinhos do conto do lobo mau. Ficamos pouco tempo juntos: ele chegou ás 09:00, foi amarrado no portão do prédio ( para espanto dos moradores que não estavam acostumados a animal que não fosse gato, passarinho e cão) e às 11:00, um amigo de meu pai, ele e mais dois outros conhecidos, colocaram Prático dentro de uma caminhonete. A tarefa levou quase uma hora – eu avisei: Prático era um porco elefante – e quando enfim, o porco estava dentro do veículo, entrei também junto e seguimos para um destino desconhecido. O que iriam fazer com o porco era um mistério para mim.

Algum tempo depois, a caminhonete parou em um terreno rodeado de mato e pequenas árvores, na fronteira entre o Cruzeiro Velho e o Cruzeiro Novo. Todos saíram do carro, incluindo Prático.

Eu tinha apenas 06 anos e morando na cidade, não entedia certas coisas do mundo: carne para mim era comprada em açougue e na certa caia do céu, como os peixinhos, que caiam quando chovia. Eu não sabia por que meu pai havia me levado (talvez fosse o fato que minha mãe ainda estava no hospital se recuperando do parto e não houvesse mais ninguém com quem ele pudesse me deixar), mas eu não só estava prestes a testemunhar um assassinato, como carregaria por toda a minha vida, a culpa da cumplicidade.

Continua...

quarta-feira, agosto 07, 2013

COMER,COMER ...Parte I

Não consigo mais comer carne vermelha. Não caio em tentação, não salivo mais quando penso em feijoada, picanha no alho e pastel de feira; foi-se o apetite, perdi a vontade. Esses dias até tentei devorar uma almôndega, mas foi como mascar chiclete sem sabor, tinha gosto de borracha e até pensei que era culpa da cozinheira, mas meu parceiro em crime, sentado ao meu lado no restaurante, repetia que jamais havia comido almôndegas tão deliciosas na vida.

Por favor, não fujam da leitura, pois essa não é uma crônica vegetariana, afinal se há algo que aprendi a não discutir em hipótese alguma é política, religião, futebol, Banda Calipso e gosto por comida, além disso, posso não ser mais uma amante de picadinho, mas não fujo de um espeto de frango e adoro uma boa pescada. Se insisto no assunto, é por puro desejo de compartilhar a experiência. Sim, tenho notado que desde que parei de comer carne vermelha, meu corpo anda mais leve, minha mente mais lúcida e límpida, contudo, precisei pagar o preço, minha vida social está em ruínas: não consigo explicar para minha mãe que não posso mais comer aquele “cozido de carne, batata e cenoura” que ela faz com tanta dedicação para mim; estou evitando churrascarias e já recusei quatro convites para churrascos dominicais com os amigos.
Outra mudança alimentar ocorreu para colaborar com esse novo eu que agora anda pelas ruas: não leio mais quando estou comendo, nem assisto TV ou faço qualquer outra coisa, que não seja apenas comer. Parece simples, mas não é. Não sei quanto a vocês, mas nunca dediquei o devido tempo e atenção ao ato de comer. Sem pre-engoli o alimento goela abaixo, sem ter tempo para saborear o tempero no arroz ou do caldo do feijão. Minhas refeições agora são pura meditação. Mastigo a alface e o tomate, como se estivesse vendo cada verdura, cada fruta sendo semeada, colhida e entregue a mesa; misturo o arroz com o sabor da batata e minha mente voa pelas plantações de arroz do mundo inteiro, grão por grão, semeadura por semeadura; vejo as batatas sendo arrancadas da terra, ensacadas, lavadas e enviadas para as nossas saladas ou fritas e purê. Saboreio o peixe com a mesma alegria com que o menino o pescou quando passou toda a tarde com o pai lhe ensinando os segredos da pescaria. Enfim, cada refeição tem sido uma viagem e por dar mais tempo a alimentação, já não consigo comer demais ou comer de menos. Ponho para dentro, somente aquilo que eu preciso. O corpo agradece, amente permanece sã. Só lamento, ter muito tarde, despertado para isso e não só pensando nisso, mas praticando essa meditação em cada refeição, percebo o quanto é maravilhoso comer bem e saudavelmente. Não há nada de errado com o lombo do porco ou com a alcatra, mas certos alimentos já não me fazem tão bem.Talvez seja a idade ou talvez tenha sido os efeitos da visita de Prático, um porquinho de estimação, que tive quando era moleque e reapareceu há duas semanas para me assombrar.

Continua...

sexta-feira, agosto 02, 2013

Canção de Quem Não Voltará


Na minha terra tem palmeiras
Mas onde foi parar o Sabiá?
A laranjeira já não tem mais fruta
Alguém roubou o pomar

Tenho saudade do país do futuro
Que nunca chegou para me presentear
Nem em memórias da minha infância
Há coisa boa que valha a pena lembrar

Já fui exilado por conta própria
Pensei que os pássarinhos que voavam por lá
Eram diferentes dos que voam por cá

Talvez seja culpa de São Paulo
Que nunca chegou a me encantar
Afinal, não há mesmo diferença
Entre a manga de lá e o cranberry de cá

Mas não há árvore que resista
Ao preço do plantar
Nem pássarinho que escape
Das arapucas na mata

Voltar????
Lá???
Ah tá!!!!
Nem pensar!!!

Não vou voltar!!!

Não quero mais ouvir o Sabiá
Nem sentar sob a sombra da Palmeira
Nem da Laranjeira quero os gomos provar

Não vou voltar
Não fiz tantos planos
Para apenas voltar
Não vou me deixar enganar

Qualquer lugar é meu lar
Cante o Pássaro Preto ou o Sabiá
Qualquer lugar é minha casa
Pois para ouvir a canção, tanto faz estar lá como cá

quinta-feira, agosto 01, 2013

ATOR OU PERSONAGEM

Você é um ator, atriz?

Todos nós somos atores e atrizes, não somos?

Somos muitos bons e poderíamos ganhar prêmios, até o Oscar pela nossa atuação. E eu vou lhes provar que falo a verdade. Estão preparados? Hora da verdade!

Vamos lá!

Quem é você?

“João”? “Maria”?

Eu perguntei quem é você e não o nome que lhe deram, pois nem o seu nome você escolheu, talvez tenha escolhido o seu apelido ou mudado o nome de Orostáquio para Astrogildo, por causa daqueles apelidos que a gente não quer no ouvido. Mas voltando a questão: quem é você?

“José, 32 anos, casado, pai de dois filhos, católico, apostólico romano, bancário.”

Pois bem, Josés e Marias, e não esqueçamos dos Joãos. Quem criou, você, José? Quem criou você, Maria? Quem criou quem você é José, ou melhor, quem você pensa que é?

Xiii, como diria Drummond: “e agora José?”

Você? Mesmo? Acho que não! Foi Deus? A sua família? A sociedade? Religião? Ambiente?

Bom, se houve criação, participação na construção de quem você se tornou, estamos falando então de um autor, ou vários. Se houve uma criação, algo planejado, podemos dizer que você não nasceu José, casado, pai de dois filhos, católico, apostólico romano, bancário. Você nasceu você, o José é só um personagem!

Confundi você? Desculpe, citando o Chacrinha “ Não vim aqui para explicar, vim para confundir”.

A pergunta é: Você é só o José ou você é mais que isso? Será que há mais de você do que o que você pensa que há?

Vamos brincar de “eu acredito”.

Só por agora, vamos imaginar que acreditamos que você pensa que é o que diz ser. E eu quero fazer uma analogia com a terra. Vocês já ouviram falar de um lugar chamado Via Láctea? Isso mesmo, bom, ainda lembram das aulas de geografia. Qual o tamanho dela? Algo assim né, gigante, imenso, um Saara de deserto, onde o Sol é só um grão de areia. Certo? Agora, imagina o tamanho da  terra? Agora, lembre de você e imagine o seu tamanho comparado com a galáxia? Ficou pequenininho, né?

Estamos acostumados com a ilusão de que só existe aquilo que podemos perceber com os nossos cinco sentidos. Se só o que você consegue ver, sentir, tocar, cheirar é esse planeta, esses cientistas devem estar malucos: afinal, a Terra é só o que existe.

Assim pensava a sua tatatataravó! Então ela um dia, ou o seu tatatataravô olhou para  as estrelas á noite e depois de ter certeza que as estrelas não eram um bando de vagalumes, ele se deu conta que esse planeta não era tudo que existia, ou melhor, esse planeta era parte de algo BEM maior.

O que quero dizer, é que há MUITO mais do que o que vocês podem perceber, imaginar, mensurar, e Shakespeare já dizia: “ Há muito mais coisas entre o céu e a terra, do que possa sonhar a sua vã filosofia tomando pingado e comendo pão na chapa na padaria”.

Baseado nisso, vamos voltar a falar de você. Qual é mesmo o seu tamanho comparado com a nossa galáxia, (que também não passa de um grão de areia no universo). Pequeno? Agora, vamos ao paradoxo... você consegue imaginar a Via Láctea? Sim ou não? Ela cabe na sua cabeça? Caramba, você consegue não só imaginar a galáxia, como ela
também cabe dentro da sua cabeça!!!

Se cabe uma Via Láctea dentro da sua cachola, o que será que você tem mais ai dentro?

Para Jung e Freud e tantos outros estudiosos da psique humana, quem você pensa que é não passa de um grão de areia, uma pequena parte do seu inconsciente ( por favor mantenham em mente que não sou psicólogo, psiquiatra, psicanalista, nada parecido, talvez apenas meio louco, e tudo que sei desses caras vieram dos cursos de alguns amigos e das revistas que eu leio).

Permitam-me explicar rapidamente, o que eu compreendo por ser a diferença entre consciente e inconsciente. Consciência é olhar uma menina bonita e estar ciente de que você gostaria de sair com ela.
Inconsciência é olhar a mesma menina e em questão de micro-segundos, analisar se ela será uma boa mãe para os seus filhos, baseado no tamanho do quadril dela, os cheiros que ela emite, se a química do seu corpo combina com a química do corpo dela; é avaliar se os seus amigos a acharão tão bonita quanto você pensa que ela é; afinal, você quer que todos vejam o quanto você tem bom gosto e só sai com mulheres bonitas; é observar todos os defeitos que ela tem e decidir que nesse momento isso não é importante ser ressaltado; é imaginar toda uma vida com ela, incluindo pensão e Faustão aos domingos; é pensar tudo isso, sentir tudo isso e nem sequer se dar conta que fez isso tudo.

Em outras palavras a sua consciência é uma azeitona numa salada. Mas agora vem a mágica, o que está no seu inconsciente, volta e meia, se reflete no personagem que você está vivendo. Talvez, você tenha ido perguntar o telefone do cachorrinho da menina bonita baseada em algo aparente e imediato no seu consciente, ou você acabou deixando para lá, pois algo lá dentro de você falou: sai fora, é fria!

Dentro da sua mente ( ou alma, sei lá, vai que alguém ai acredita em espíritos e associa o que carregamos na mente com o que levamos na alma) há vários outros personagens: o ciumento e o possessivo, o apaixonado e o amigo, o velho e o menino, etc, etc, etc. Centenas de personagens que fazem parte de você, te influenciam, mas mesmo sendo ingrediente da sopa que forma você, ainda assim, você é muito mais que isso.

Você é o ator, não a personagem!

Perceba: vocês poderiam ganhar tanto dinheiro quanto o Brad Pitt ou a Angelina Jolie...ou melhor, vamos ser mais brasileiros: Antônio Fagundes e Claudia Raia.

Agora mudo as perguntas: Vocês têm controle sobre essas personagens, ou melhor, qual delas está em controle do seu corpo nesse momento? Será que uma delas não está no controle o tempo inteiro?

Quem eu conheço é só uma personagem, é você mesmo, ou só uma pequena parte de você que você decidiu mostrar em público?

Você é ou não é um ator desempenhando vários papéis?

Analogias com o teatro, devidamente encerradas. A verdade é que você é muito maior do que o que pensa ser, do que os personagens que você está interpretando.

Se você conseguiu chegar até aqui, vivo, alfabetizado, sadio, conseguiu fazer amigos, amores, sacou que é preciso respeitar os outros, não jogar papel de balinha no chão, nem bituca de cigarro no esgoto, se está empregado, parabéns! Mas há muito mais que isso e honestamente, se você já conseguiu alcançar tudo isso, qual a distância que você pode chegar? Qual são os seus limites?

Se você consegue visualizar tudo isso, e ainda consegue ver, dentro da  sua cabeça, o tamanho da terra, do sol, da Via Láctea com você incluído, tudo isso dentro da sua mente.  Uau!!!!!!!

Qual será mesmo o tamanho do seu potencial?

INFINITO!!!!!
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