quinta-feira, fevereiro 28, 2008

É Proibido - Pablo Neruda


É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas,
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,

Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor,
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos,

Não tentar compreender os que viveram juntos,
Chamá-los somente quando necessita deles.
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,

Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,

Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,

Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se
desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,

Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,

Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,

Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

AMOR - SOL E LUA NA ALMA DOS HOMENS

- Por Wagner Borges -



Quando se ama, o mundo ganha novas luzes.

Tudo fica luminoso.

Porque o amor ilumina o coração e a luz brota pelos olhos.

O amor não se explica, mas é o que dá sentido à vida.

O prazer de viver se intensifica e tudo muda!

As canções ficam mais lindas.

E um por de sol vira uma festa maravilhosa.

Tudo ganha motivo nos olhos que brilham.

Tudo muda! Tudo brilha!

O amor é clarividente, vê além...

É telepático, compreende sem palavras.

Sente a vida, escuta as canções, inspira os poemas e faz tudo vibrar.

Faz o olhar ganhar o brilho da aurora. Faz viver.

Ao amanhecer, é o sol nos olhos e a gratidão pela vida.

Ao anoitecer, faz a lua descer no coração.

Quando se ama, tudo é possível.

E quem poderá explicar os seus mistérios?

Não, não é coisa daqui.

Vem do céu e encanta o Ser.

É o sol nos olhos e a luz no coração.

Faz ver além...

Sente, sem palavras. Compreende.

Quando se ama, o mundo ganha novas luzes.

Isso não se explica, só se sente*.



Paz e Luz.



São Paulo, 22 de fevereiro de 2008.



- Nota:

* Enquanto passava a limpo essas linhas, lembrei-me de Fernando
Pessoa, o grande poeta português, que, em 1919, escreveu a seguinte pérola:



"Pastor do Monte, tão longe de mim com as tuas ovelhas.

Que felicidade é essa que pareces ter - a tua ou a minha?

A paz que sinto quando te vejo, pertence-me, ou pertence-te?

Não, nem a ti nem a mim, pastor.

Pertence só à felicidade e à paz.

Nem tu a tens, porque não sabes que a tens.

Nem eu a tenho, porque sei que a tenho.

Ela é ela só, e cai sobre nós como o sol,

Que bate nas costas e te aquece,

E tu pensas noutra coisa indiferentemente,

E me bate na cara e me ofusca, e eu só penso no sol."



- Fernando Pessoa -

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

JESUS, A AURORA DE UMA NOVA ESPERANÇA


Uma aurora dessas dois mil anos atrás.

No silêncio do deserto, ele viu os primeiros raios de sol. A aurora o saudava com as mais belas cores que uma manhã poderia oferecer.

Ele sorriu e mesmo tendo estado em profunda concentração por toda a madrugada, não parecia cansado, aparentava apenas preocupação.

Havia um trabalho a ser feito. O momento chegara.

A beleza do amanhecer fora pouco a pouco substituída por uma grande nuvem cinzenta que cobrira rapidamente todo o céu. O ar começava a ficar cada vez mais denso. Ele podia sentir todo o ódio emanado pelo mundo.

Como veneno, se ele não trabalhasse rápido, a humanidade sentiria os efeitos nefastos de seus próprios atos, o que seria fatal para muitos.

Com toda a energia que o seu corpo físico poderia trabalhar, ele respirou profundamente e ergueu as mãos para o céu em direção as nuvens e com movimentos circulares começou a absorver a energia maligna.

Absorveu cada pensamento de ódio, morte, terror, dor e qualquer outro que era emanado naquele momento em todas as partes do mundo e juntava-se àquela gigantesca egrégora.*

Então, o Rabi começou a suar sangue e chorou pela humanidade. E tal qual uma árvore que absorve o gás carbônico e produz oxigênio para o homem na presença da luz, ele começou a transformar cada energia absorvida e de seu peito uma luz esmeralda foi emanada, tão intensa e tão brilhante que poderia cegar qualquer pessoa que estivesse ali por perto.

Essa luz cruzou o planeta com uma velocidade impressionante, tocando cada ser vivo que estava ali encarnado.

Por alguns segundos, não houve mais dor ou medo na terra. E todos os seres humanos sentiram uma estranha sensação, porém familiar, de que todos faziam parte de um único Ser e a ilusão de separação dissolveu-se por alguns momentos, pois só o que havia no coração de cada um era o Amor.

Exausto, porém sorridente, o Rabi sentou-se e descansou.

Um pássaro pousou suavemente em seu ombro para em seguida partir; tão rápido quanto a paz e o amor que os seres humanos sentiam naquele momento.

Ele sabia que a sensação de Unicidade seria esquecida tal qual um sonho bom que se lembra ao acordar, mas que se esquece rapidamente ao longo do dia.

Não importava, pois o trabalho fora concluído. Não poderia ser feito de seu verdadeiro lar, era preciso um corpo físico para lidar com energias tão densas e transformá-las em Amor.

Parte da sua grande missão estava concluída, não importava o fato de que suas palavras seriam mal interpretadas por séculos. O mais importante era poder ajudar milhares de partes dele, perdidas e iludidas, que ainda levariam milênios para se darem conta do presente maravilhoso que é estar vivo e principalmente tendo livre arbítrio para co-criar e preservar e não apenas destruir.

Há muitas outras coisas que podem ser faladas sobre esse Cara maravilhoso, mas milhares de mensagens ainda seriam poucas para descrever os passos luminosos que ele deixou.

SOMOS TODOS UM SÓ!

- FRANK -**

Londres, 03 de agosto de 2001.

Notas: * Egrégora: Atmosfera psíquica coletiva; Campo espiritual resultante dos pensamentos, emoções e energias de um grupo.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Espiando o Infinito



Era uma noite, como outra qualquer, quando espiei o infinito.




Era 23:55, quando fui para cama, fiz minhas preces, agradeci o Todo pelo tudo que tinha e olhei para a minha companheira que deitava ao meu lado. No vai e vem da segunda respiração, justamente quando achei que a falta de sono me tocara, fui lançado para fora de mim.




Estava dentro e fora, de tal maneira, que observava o mundo e ao mesmo tempo sentia meu corpo em profundo relaxamento na cama. Não tive medo, já experimentara isso tudo antes, porém dessa vez, era mais que perfeito; todas as sensações vinham ao mesmo tempo de forma equilibrada e eu podia sentir essa familiaridade tão comum como quando você encontra, depois de muito tempo, um amigo do peito.




Minha consciência não tinha forma, apenas me fazia presente e atravessava paredes e árvores; concreto e céu. Como se observasse a velha São Paulo da janela de um trem, via seus prédios passando por mim, como se o cenário estivesse em movimento e não eu. Vi pessoas, na calada da noite, ainda indo para casa e notei os animais noturnos que saem de suas tocas e enchem a noite de sons e vida. Num vôo de sonhos, que era mais real que a última lembrança que tinha. Percebi que jamais conseguiria explicar essa experiência sem parecer loucura ou imaginação.



Tão rápido quanto fui, voltei; e abri os olhos assustado por dar-me de conta que não mais que dois minutos havia passado, enquanto eu jurava que estava fora por horas.




Era 23:57, quando tentei falar, explicar para a minha companheira que me olhava confusa, mas não consegui. Não saia palavras e sem conseguir me expressar, vi luzes explodindo na minha testa. Eram como fogos de artifício numa festa de reveion supresa, em que eu era o único convidado. Fiquei quieto, observando aquele show de cores, tentei ao máximo não deixar a mente atrapalhar com perguntas, pois o importante era o que eu experimentava e não entender a razão pela qual sentia aquilo. E justamente, quando comecei a sorrir, curtindo o espetáculo como se fosse criança, é que vi o infinito.




Percebi o toque gentil do vento nos meus ouvidos, como se quisesse me contar algo; tentando ouvir, escutei algo que só posso descrever como canto do infinito. Chovia estrelas na minha cama; quando segurei a eternidade nas minhas mãos. Mexi os dedos e toquei a própria manifestação. Era como se tudo fosse maleável; como se tudo pudesse ser moldado para a nossa própria satisfação.




Ouvi conversas, descobri segredos, tive insights que dariam mil livros, ou ainda, milhares de canções. Sabia que não consegueria assimilar tudo aquilo; e desejei ardentemente guardar tudo o que senti no meu coração; era como se eu sonhasse que achara um baú cheio de ouro e soubesse que não consegueria levá-lo comigo, quando o sonho virasse areia escorrendo nas mãos.




Não sabia o que ocorreria em seguida e isso era fantástico; foi então que percebi que todas as vezes em que nos deixamos levar pela vida, sem se preocupar com o que há escondido na próxima esquina; tudo vira festa, cada passo se torna uma conquista. Cada experiência, um presente; cada pessoa, uma vida a ser descoberta e vivida.




O infinito não é o espaço sem fim, nem muito menos o alcance do brilho das estrelas; o infinito se reflete no olhar do vizinho, do amigo, do filho; no meu caso, nos olhos da pessoa que mais amava.




Era 23:58, quando percebi os olhos mais cintilantes que já vi. Não eram estrelas, era apenas o olhar de uma parceira de jornada, que em silêncio, observava as idas e vindas do companheiro, nessas viagens para o infinito que começam e terminam dentro de um olhar.








segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Recado do seu Bebê


Mamãe, obrigada por eu ter nascido.


Eu sei que foi difícil me carregar por nove meses na barriga e ainda ter que cuidar da sua vida; mas eu queria que você soubesse que sou muito grata a Deus por ser Você a minha mamãe na terra e ter permitido que eu viesse.

Papai, obrigada pela sua paciência. Sei o quanto foi difícil esperar por mim.


Você sabe que tudo que é especial vem no tempo certo (olha como já sou convencida! Quem manda ter uma mãe tão bonita).


Agora brincado no berço; e lembrando de onde vim, percebo o quanto é maravilhoso o processo da vinda, e estar aqui na terra é a possibilidade perfeita para eu colocar em prática, tudo aquilo que eu prometi por lá.


Eu vim aqui para aprender com vocês pois sei que vocês são mais que minha mamãe e meu papai; vocês são meus Professores da Vida, e ao lado de vocês, sei que vou tirar nota dez.


Se eu me esforçar bem, ainda consigo lembrar direitinho o rostinho do Papai do Céu e tudo o que prometi pra ele que eu ia fazer, mas o esquecimento vai vir mais rápido que meus dentes; e só assim eu vou puder crescer livre para experimentar e criar uma vez mais.


Não se preocupem, eu prometo que vou tentar ser bem calminha e não bagunçar muito, mas agora que eu estou por aqui, ninguém vai me segurar.


Valeu mesmo


Sua Filha


********************

Frank Oliveira


Dedicado a todas as minhas amigas grávidas, que aguardam ansiosas pela chance de trazer uma nova estrelinha para brilhar na terra.

domingo, fevereiro 17, 2008

Quando o Coração fica Um Pouquinho Frio


Uma hora acaba, disse ela, nada é eterno.


Ele não entendia, achava que seu romance duraria para sempre. Acreditava que o amor tinha vindo para ficar.


Não havia algo errado. Não houve briga. O coração apenas ficara um pouquinho frio.


Essas coisas acontecem. Antigamente, os casais ficavam juntos, mesmo quando não mais se amavam, pelos mais variados motivos: filhos, religião, sociedade, medo,etc. Nos dias atuais, dependendo do grau de maturidade do casal, se não há mais razão para que eles permaneçam juntos, cada um segue o seu caminho.


Eles sabiam disso, mas ela estava a um passo a frente. Sabia que a liberdade era a saída. Melhor acabar com respeito e amizade, que em brigas e discussões causadas pelo desgaste natural da relação. Ele, por mais que tentasse, não conseguia ainda assimilar e aceitar. Para ele, o fim da relação era algo mais sério: era o fim da sua crença no amor.


Ele soube então que o amor tinha realmente prazo de validade e não precisava de motivos para acabar.


Algum tempo depois, ele encontrou outra pessoa e se apaixonou novamente. Mesmo sabendo que tudo poderia acabar de uma hora para outra, mesmo sabendo que nada duraria para sempre. Reconheceu que nascemos para amar e que não deixamos de viver, mesmo sabendo que a morte no aguarda no fim da jornada.


Frank


Nota: texto baseado na canção When the heart gets a litle cold ( Cindy Lauper)

A Flauta Perdida

Estava caminhando pelas trilhas de Vrindavan*, quando encontrei ás margens do rio Yamuna**, uma flauta dourada. Nunca tinha visto uma flauta tão bonita e confesso que o primeiro pensamento que tive foi guardá-la comigo, mas por mais bonita que a flauta fosse, deveria ter um dono, então decidi procurá-lo e não demorou muito para que eu ouvisse o choro de um menino.

Era um pequeno pastor que embaixo de uma árvore chorava, enquanto as vacas que cuidava, não mais pastavam e permaneciam deitadas ao seu lado, como se pelo olhar, tentassem confortar o menino desolado. Não tinha certeza, mas compreendi que aquele menino chorava porque tinha perdido aquela flauta dourada.

- Menino Pastor, enxugue suas lágrimas, acredito que essa flauta tão bonita que encontrei, pertence a você.

Ao entregar-lhe a flauta, do choro o menino passou ao riso, enquanto pulava de alegria, tocando a flauta não mais perdida. E a flauta dourada como se fosse encantada, ecoava pelo ar a mais bela melodia que já tinha ouvido e não pude segurar as lágrimas, não demorando muito para ser eu quem chorava e não mais o menino.

Sentia meu coração repleto de um azul tão sereno, que em minha mente foi aparecendo imagens de um lugar que apesar de não mais lembrar, já chamei de lar. Vi rostos amigos, até então esquecidos, surgindo á me saudar. E tal qual o menino, passei do choro ao riso, quando percebi o olhar sereno e amoroso do Senhor Vishnu *** que me dizia numa linguagem sem palavras, que o menino não chorara pela flauta perdida e sim porque suas vaquinhas temporariamente não escutaram a sua melodia. Ele também mostrou que a música pelo menino tocada era o som do amor que pelo universo se espalhara, tocando a todos, não somente os homens, mas todo ser vivo que nele habitara.

Como se eu pudesse ver o espaço, vi as estrelas e as galáxias surgindo em minha mente e pude entender que o amor que unia e preservava, como se fosse leite se derramava pelo lar que chamamos de Via Láctea. E esse leite alimentava a alma de todos os seres e eternamente ecoaria dentro de cada pessoa que se conectava, a lembrança da única e verdadeira casa.

Enquanto via esse amor se esparramando pelo espaço e criando vida, o Senhor Vishnu novamente falou ao som da melodia:

- O amor é o leite da vida e quem dele bebe tornar-se forte e dele sacia toda sua fome de experimentar ser um com o outro. Enxerga que o mesmo brilho que há nos olhos humanos está também nos olhos dos animais, pois todos possuem a mesma centelha divina.

A imagem do Senhor do Amor foi sumindo, enquanto novamente eu voltara a enxergar a floresta e as margens do rio; percebendo que as vaquinhas serenamente me olhavam e o menino ainda dançava e tocava a sua melodia com a flauta dourada. Fiquei observando aquela cena tão linda, enquanto lembrava o que experimentara e compreendia que o Senhor Preservador estava manifestado em tudo que há vida, em tudo a nossa volta.

Pensando nisso, notei que o menino se aproximara e me olhava agradecido por ter lhe retornado a sua flauta.

- Senhor, não sei como lhe agradecer, disse o menino humildemente, sem saber que a melodia que tocava já fora recompensa suficiente para a minha alma.

- Sou eu quem lhe agradeço, pastorzinho. A sua melodia está gravada no meu coração de andarilho e eu já não caminho sozinho, porque carregarei o amor do Senhor Vishnu e sua música, meu amigo, eternamente comigo.

E voltei a caminhar, deixando o garoto a celebrar o reencontro com a sua flauta perdida, e sigo em direção a onde meu coração me levar, mas já não me sinto triste ou perdido, porque a melodia do pastorzinho ainda ecoa em meus ouvidos e não há um despertar, sem que eu acorde cantarolando a melodia a qual me fez enxergar que o universo e cada ser que nele habita, não é um espaço vazio, e sim um oceano de leite da vida, manifestado na centelha de amor que cada um carrega consigo.

Frank


Notas:
* Vrindavan: cidade a beira do rio Yamuna** onde teria vivido Krishna, que segundos as escrituras sagradas hindus, foi a encarnação do Deus Vishnu.
*** Vishnu : O conservador. É para os hindus, uma das três faces do Deus universal: Brahman. A figura de Vishnu trás quatro símbolos: um disco, um búzio, uma maçã e uma flor de lótus. Os hindus acreditam que sempre que a humanidade precisa de ajuda, esse deus benévolo aparece na Terra como um avatar ou reencarnação, Krishna foi o avatar mais importante de Vishnu e o mais querido, representado no mundo inteiro pela imagem do pastor que sempre em volta de suas vacas, encanta e seduz o coração das mulheres e devotos.

sábado, fevereiro 16, 2008

O PEREGRINO E O DIABO

Queria desistir do Caminho de Santiago.

Já havia caminhado por vales, cidades e montanhas; experimentado sensações maravilhosas, descobertas incríveis, mas depois de andar tanto tempo em silêncio, eu comecei a ouvir meus pensamentos de tal forma, que não conseguia parar de escutar o medo que havia dentro de mim. Esse medo dizia que eu morreria naquela estrada no meio do nada; que nunca voltaria a ver quem eu amava; que tudo aquilo era uma bobagem; que eu não tinha forças para caminhar tanto. No meio da cidade, em meio ao barulho e o caos urbano, era fácil não escutar esse medo, essas inseguranças, esses pensamentos que sempre vêm a tona quando tentamos algo novo e duvidamos da nossa capacidade de concluir o que buscamos; mas ali no caminho, apenas com a companhia do meu cajado e do som dos meus passos; o pior que havia em mim se manifestava ao meu redor.

Foi quando percebi que todo aquele medo e sensação ruim poderia ter uma outra causa e como se já esperasse por esse encontro, fui até essa "causa" na próxima cidade que entrei. Nunca o tinha visto antes, mas sempre notara sua presença por todo lugar. Contudo, jamais imaginei encontrá-lo naquela igreja de São Domingo de La Calzada.

Ele parecia como qualquer outro homem; usava um paletó branco, uma gravata preta com bolas vermelhas estampadas. Quando notou-me, seguindo em sua direção pelo corredor , sorriu e estendeu-me a mão.

- Caro Peregrino, pensei que nunca chegaria.

- Acho que conheço você - falei, percebendo que a sua fisionomia me era bem familiar.

- Claro que me conhece. Todas as pessoas me conhecem.

- Não acho que elas gostem muito de você.

- Não me importo, a verdade é que eu sou o que vocês chamam de “mal necessário”.

- Eu não acho que a sua presença seja obrigatória em nossas vidas. Podemos aprender sem sofrimento.

- Não creio que seja fácil, e talvez você possa aprender a viver dessa maneira, mas a simples lembrança que eu existo, fará com que você saiba que estou nas sombras, esperando o seu fracasso. Porém, não fique surpreso com a revelação, mas apesar de alimentar esses pensamentos de fracasso, a minha função é ajudar você a continuar, seja qual for a maneira que eu tenha que utilizar. Um colega meu, certa vez, definiu muito bem a minha função: “Não importa os meios, o mais importante é alcançarmos o resultado final”.

- Então, cabe a você, usar todos os métodos para nos manter na linha.

- O Todo reservou-me a parte suja do seu trabalho. Confesso que no começo, eu odiava fazer o que faço, mas depois aprendi a gostar. Acredite...há empregos piores que o meu por aí; mas o meu emprego só existe, porque vocês através do livre-arbítrio que Deus lhes deu, não conseguem evoluir e se tornarem melhores seres humanos pelo caminho do amor. Vocês criaram a ilusão que precisam perder algo, para sentir falta. Culpam o Diabo por todos os males, mas são vocês mesmos que causam guerras, fome, mortes e todo tipo de mal. E o criador ainda assim, tenta ajudá-los. Tomara que Ele nunca perca a paciência. Vocês não se dão conta que não precisam sofrer para conseguirem realizar o que sonham.

- Não vai me dizer que você é o diabo?

- Não vai me dizer que você acredita nisso?

- Eu não sei mais de nada. Mas se você for o diabo ou algo parecido não vejo como você consegue gostar de manter um lugar como o inferno.

- Ora, vamos. Você não acredita nisso, não é? Não vai me dizer que você acredita nessa história de inferno, gente ardendo em chamas, dominados por um diabinho de chifrinho e rabinho. Olha, essa imagem não fica bem para mim.

- Afinal, o que você é?

- Eu sou tão real quanto você, porém, aprendi alguns truques. Estou aqui com você, mas posso estar em qualquer lugar ao mesmo tempo. Em alguns casos, não ajo diretamente, acabo por enviar algum mensageiro no meu lugar.

- Sua legião?

- Por favor! Eles são apenas colaboradores.

- Quantos trabalham com você?

- Quantos eu precisar.

- São demônios como você?

- Se prefere nos tratar dessa forma, respondo que sim, são tão capetinhas quanto eu, mas todos estão sob o meu comando e controle.

- Não tem medo de uma rebelião, se não me engano, sua origem tem alguma relação com uma revolta contra o criador.

- Mais folclore. Eu e o homem somos parceiros. Não trabalho contra ele, estamos do mesmo lado. Ele é o chefe. O folclore até que ajuda o meu trabalho. Sempre soube que nunca seria compreendido. Eu não ligo, não espero agradecimentos por isso, o mais importante para mim é o resultado final do meu trabalho.

- Então, o DIABO existe para ajudar as pessoas...

- A idéia do “DIABO” existe para ajudar. Para algumas pessoas, o aprendizado só é absorvido, através do sofrimento e da dor. Eu sou o ultimo recurso e só existo, porque essas pessoas precisam de mim. Eu atendo por outros nomes como : morte, desgraça, dor, injustiça e uma série de denominações que recebo, dependendo do grau de aprendizado de cada um.

Conheço cada um dos quase sete bilhões de pessoas que vivem na terra. Conheço as suas fraquezas e medos, e tenho a função de trabalhar essas emoções que só enfraquecem a sua evolução nessa escola azul. Como fiz com você, quando decidiu desistir do caminho. Agora, me diz, você precisa mesmo que eu apareça e grite: " Cria coragem e vai até o final, rapaz!". Não! Você não precisa disso, mas ainda assim me chama. Vocês são especialista em começar algo e deixar pela metade. Quer saber? Vocês adoram um drama!

- Você nunca me ajudou, pelo contrário, nunca me senti tão amedrontado e tão fraco como esses dias.

- Por essa razão, você decidiu me encontrar em carne e osso, ou melhor, quase carne e osso. Somente uma conversa franca com o seu diabo interno para apagar o seu medo e a sua insegurança. Por isso estamos aqui conversando. Alguns preferem um confronto do tipo medieval, outros preferem me encontrar na forma de um cachorro, outros ainda na forma de uma bela mulher. Tanto faz, o importante é o combate, porque ao confrontar-se com o pior que há em você, você acaba por vencer os seus medos e inseguranças. Eu existirei, Peregrino, enquanto cada homem tiver medo em seu coração. Eu irei te tentar, até que você elimine o seu medo.

- Isso quer dizer que você nunca nos deixará em paz.

- Se você estiver em paz, com certeza, eu não estarei tão perto e atuante, e de certa forma, o meu trabalho com você terá terminado.

- Como posso eliminar o medo, se ele parece fazer parte de mim?

- O medo não faz parte de você, ele está refletido no seu exterior. Medo de ouvir não, receio de não ter sucesso na vida, os outros sempre serão melhores que você e blá, blá, blá. Esqueça essas bobagens, o mundo e concentra-se em você, na sua busca pessoal e espiritual. O medo só existe quando você o reflete no mundo. Não viva com medo, o medo, assim, como o diabo só existe quando se acredita nele.

- Você parece muito bonzinho...

- Vocês gostam de me atribuir funções que não exerço. Eu já falei. Não existe um inferno, onde eu vivo espetando um bando de pecadores. Deus não seria tão mal assim com seus filhos. E eu tenho mais o que fazer. Minha tarefa é árdua e ingrata, já é bastante difícil, sem que vocês compliquem ainda mais. Aliás, esse mundo que você co-criaram anda tão infernal, que já nem preciso descer para minha casa.

- Por quê deus permite a violência e tanta coisa ruim?

- Vocês é que permitem a violência! Deixam o Criador fora disso. Deus é o todo. Ele não erra. Ele criou um plano tão perfeito que mesmo sabendo do potencial de vocês para a destruição, planejou uma forma de guiar vocês para o caminho da luz, mesmo com a insistência de vocês em experimentar a escuridão.

Tudo é equilibrio nessa jornada humana na terra. A guerra leva a paz. As "coisas ruins" restabelecem a harmonia e transformam acontecimentos desagradáveis em lições proveitosas de amadurecimento.

É preciso aprender que você cria seu destino. O pensamento é o verdadeiro Caminho e você deveria ser dono dele, pois basta modificá-los, para que toda a sua vida mude. Preste atenção a sua volta, aos seus passos, tudo ao seu redor é um reflexo do seu universo e o seu pensamento modifica isso. Você pode controlar a sua mente, escolher pensamentos melhores e mais verdadeiros, acreditar e perceber novos e elevados valores; são esses pensamentos que geram a energia que transforma, que cria. Estamos sempre movendo o mundo com essa energia criativa. A experiência demonstra que sempre conseguimos o que desejamos de acordo com a energia que emitimos e com as idéias que assimilamos. Para harmonizar nossa vida, ser feliz, alcançar a paz, o equilíbrio e a alegria, só há um meio: encher nossos pensamentos com AMOR. Essa é a palavra chave.

- O diabo falando de amor. É até engraçado. Então, me diz por que existe a guerra?

- A guerra foi invenção do homem, assim como a sua ambição, sua ânsia de poder e o seu egoísmo. O homem tem livre arbítrio, pode optar, escolher o seu caminho. Você mesmo, se decidir pegar uma arma e matar alguém, nada o impedirá. Contudo, ao escolher um caminho, você provoca uma resposta, uma reação da vida, das pessoas, das coisas ao seu ato e perceberá suas conseqüências, sentindo os resultados. Numa guerra morrem inocentes. Até o soldados estão obedecendo ordens. Só os governos são responsáveis, mas todos pagam e sofrem. É verdade também que todos amadurecem e ganham experiência. Numa guerra, o homem é provocado em fé, em seu amor, pelo próximo e em sua dignidade. Aparecem os assassinos e os heróis, os passivos, os líderes e os sanguinários. É como uma prova difícil, que o próprio homem escolheu.

- Não sei o que dizer...

- Vamos lá, não vai querer saber agora de onde viemos, para onde vamos e qual a razão da existência humana na Terra?

- Você têm essas respostas?

- Tenho, mas não é da sua conta! - ele disse e começa a rir sem parar - Descubra primeiro quem VOCÊ é, como veio a se tornar quem é VOCÊ e onde VOCÊ quer ir. Faça isso e estará perto, ao menos, de descobrir milhares de razões para não fazer tanta bobagem. Tem tanta gente por aí louco para matar o ego para chegar ao mundo espiritual, nem desconfiam que é justamente compreendendo e equilibrando o ego que o levará até o chefe.

- Não sei o que dizer mesmo.

- Vou aceitar isso como um obrigado. - ele disse e se levantou - Ainda acha que eu sou o mau na Terra e que Deus permite que eu só faça maldade por ai?

- Você sabe como as coisas funcionam. Desde cedo, somos condicionados a acreditar que você é o capeta...

- Você deve ter ficado surpreso ao perceber que não tenho rabo, nem chifre. Estou um pouco vermelho, por causa do sol de Andaluzia. O que posso dizer, adoro a Espanha, mas tenho uma queda pelo Brasil, principalmente no carnaval.

- Então o seu trabalho é fazer com que nós seres humanos, possamos aprender algo através de nossos erros. Todos precisamos te enfrentar para aprender.

- Basicamente é isso, mas precisar é uma palavra muito forte, digamos que vocês escolhem assim.

- E se um dia aprendermos a nos amar e a viver na terra em paz, sem medos e preconceitos, você não ficará sem emprego?

- De forma alguma. Finalmente, eu teria a minha missão pessoal concluída e quem sabe, eu poderia voltar a exercer a minha antiga e verdadeira função. Seria bom, voltar a ser chamado pelo meu verdadeiro nome.

- E qual é o seu verdadeiro nome?

- Anjo de Luz!



Frank Oliveira

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Should I stay or Should I go?

Eu quero partir.

Quero voltar para o País que tanto amo e tenho saudade. Só tem um único problema: se partir, vou acabar voltando para cá.

Deixa-me explicar melhor. Moro em Londres há quatro anos e todos os brasileiros que conhecia que voltaram para o Brasil, retornaram para cá depois de alguns meses; em certos casos, depois de dias.

Será que sentiram falta do “fish and Chips”?

Será que sentiram falta do clima inglês?

Ou será que sentiram falta da rainha, ou melhor, do rosto da rainha estampado nas cédulas dos pounds ganhados e supervalorizados de cada dia?

Não sei responder, só sei que estou com medo de ir embora e acabar voltando.

Depois de quatro anos fora do País, criamos raízes, ganhamos novos amigos, construímos família e pensamos até em mortgage. Depois de um certo tempo passamos a reclamar do lugar que vivemos do mesmo jeito que os nativos reclamam: morrendo de amor pelo lugar que se odeia morar.

Vamos ficando e se tornando um pouquinho do lugar em que vivemos e quando vemos, já estamos dando informação na rua; já conhecemos bem o indiano da lojinha e até sabemos o nome do carteiro. Porém, um dia bate a saudade num telefonema da mãe; num churrasco com toda a família naquele domingo ensolarado; no gosto do pão de queijo ausente ou ate mesmo no pão na chapa com cafézinho preto que a gente jura ainda sentir bem o cheiro.

- Vou voltar! – gritamos triunfantes, só para nos darmos conta que a mochila virou guarda-roupa e que a Londres temporária foi ficando assim permanente.

O “vou voltar” vai ficando mais enfraquecido e num ato de maturidade e segurança do que queremos, decidimos numa roda de pint no Pub: - Quer saber? Eu vou é ficar! – mas o que fica mesmo é a indecisão.

Ficar ou partir? Should I stay or Should I go?

Sei lá. I don’t know!

Vou deixar para decidir depois do Bank Holliday; mas se até lá alguém poder me aconselhar, por favor, atire a primeira carta ou e-mail. E se alguém souber de algum companheiro que voltou para o Brasil e ainda esta por lá sem fazer planos de voltar, envie meus parabéns ao fulano e diga ao sicrano que se ele escrever um livro contando como fez isso, eu serei o primeiro a comprar.

Frank

Notas: Texto escrito em Dezembro 2004/Janeiro 2005, quando eu ainda morava na Inglaterra. Estou enviando ele pela primeira vez para o blog em resposta a um amigo-irmão ou seria um irmão-amigo que me fez essa pergunta esses dias. Se você deve ficar ou partir, só seu coração sabe. Se eu pudesse mandar um recado para meu eu do passado, eu diria: Ei, velho Frank, ainda não achei esse companheiro!

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

DIA DE SÃO VALENTINO


Hoje é Dia dos Namorados em toda parte do mundo ( no Brasil temos que esperar até Junho, por causa do dia de Santo Antônio, o Casamenteiro, que ocorre um dia depois)e ao contrário do que muito gente pensa, nos dia de São Valentino, é muito comum a troca de presente e de cartões não apenas com namorados.

Segundo o Wikipédia, São Valentim viveu durante o governo do imperador romano Claudius II, este proibiu a realização de casamentos em seu reino, com o objectivo de formar um grande e poderoso exército. Claudius acreditava que os jovens se não tivessem família, se alistariam com maior facilidade. No entanto, um bispo romano continuou a celebrar casamentos, mesmo com a proibição do imperador. Seu nome era Valentine e as cerimónias eram realizadas em segredo. A prática foi descoberta e Valentim foi preso e condenado à morte. Enquanto estava preso, muitos jovens jogavam flores e bilhetes dizendo que os jovens ainda acreditavam no amor. Entre as pessoas que jogaram mensagens ao bispo estava uma jovem cega: Asterius, filha do carcereiro a qual conseguiu a permissão do pai para visitar Valentine. Os dois acabaram-se apaixonando e milagrosamente recuperou a visão. O bispo chegou a escrever uma cart.a de amor para a jovem com a seguinte assinatura: “de seu Valentine”, expressão ainda hoje utilizada. Valentine foi decapitado em 14 de Fevereiro de 270 d.C.

Apesar de não comemorarmos essa data no Brasil, ela é bem familiar para mim. Quando vivia em Londres, ocorreu algo engraçado. Recebi um cartão no dia dos namorados de uma amiga de trabalho. Fiquei constrangido: achei que ela estava interessada em me namorar. Como era casado, disfarcei e acabei dizendo para ela que embora sentisse uma grande afeição por ela, eu tinha compromisso com outra pessoa. Ela me olhou como se eu fosse um alien e disse:" é só um cartão, não estou pedindo a sua mão!!!".

Depois percebi que trocar cartões entre amigos era algo bem comum em outras culturas no Dia dos Namorados. Somente aqui no Brasil a data é exclusivamente voltada para namorados, pessoas envolvidas fisica e amorosamente.

Micos á parte, é curioso ver como uma tradição pode ser mantida em alguns países, adulterada em outros, supercomercializada como aqui no Brasil; mas seja em 14 de Fevereiro ou em 12 de Junho, o mais importante é lembrar dos grande amigos. Sejam eles enamorados ou não, vale a pena recordar que existe verdadeiros amigos que nos presenteiam todos os dias com respeito e carinho, que em minha opinião, são os melhores cartões que podem ser entregues a quem gostamos.

Frank

O TERCEIRO LADO DA MOEDA

- Cara ou coroa? - diz ele.
- Não há outra alternativa? - pergunto.

Por quê precisa ser preto e branco? Por que tenho que escolher um lado imposto? Por que questionar é tão perigoso?

- Sou seu amigo, voce aprecisa acreditar no que eu digo!
- Sou seu pastor, não seja a ovelha negra!
- Sou seu pai, sei o que é melhor para você!
- Sou sua mulher, esse é o melhor caminho para o nosso amor!

Será? Tenho dúvidas, mas esse questionamento não é tipíco de pessoas que ficam eternamente na ponte. Sei qual é o meu lado: lado algum!

Já comprei briga por motivos banais e perdi amigos que eram irmãos. Já acreditei em tudo o que me disseram e perdi irmãos que eram amigos. Hoje não acredito em tudo, nem considero que seja mentira. Dou a tudo que ouço e leio, o benefício da dúvida. Meu coração filtra o que julga ser verdade, minha mente descarta o que julga ser bobagem, e assim sigo o caminho do terceiro lado da moeda.

Como disse uma amiga, ás vezes, questionar demais pode ser uma doença, um descontrole; mas como disse também outro amigo, questionar ajuda a tornar o filtro do bom senso cada vez mais apurado. Fico com a opinião dos dois e com a minha experiência que me diz: questione sempre que necessário e acredite, mas nunca cegamente, pois as verdades de hoje podem ser parte daquelas bobagens que sempre deixamos para trás.

Frank

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

SOU SINCERO


Honestidade é moeda rara nos dias de hoje, sinceridade então, mais difícil ainda, em um mundo em que os comportamentos são ditados pela política e pelo interesse. Usamos máscaras, mentimos e dissimulamos para conseguir um emprego, conquistar alguém e até para agradar amigos e conhecidos. Nunca ficou claro para mim, quando exatamente, passamos a ser assim; mas observando meu sobrinho Vitor, começo a perceber que perdemos a vergonha em algum lugar entre a infância e a pressa de nos tornarmos adultos.

Meu sobrinho é, digamos, sincero. Como aquela personagem do Luis Fernando Guimarães, ele fala o que lhe vem a cabeça e constantemente deixa muita gente em saia justa, com as suas frases honestas e a suas declarações sinceras, expressadas baseado em seus sentimentos e não nas opiniões alheias.

Recentemente ele completou nove anos e em sua festa de aniversário, para a surpresa de todos, ele começou o ritual do primeiro pedaço de uma maneira original. Ao invés de entregar os primeiros pedaços para as pessoas mais importantes da sua vida (para o choque dos pais, essas pessoas eram respectivamente, a avó e o tio/padrinho), ele começou oferecendo o bolo para as mais chatas, o que fez com que pela primeira vez numa festa de aniversários, ninguém desejasse ser o primeiro a comer o bolo.

Difícil prometer algo para o Vitor. Sabe aquelas promessas furadas que os tios fazem do tipo: “qualquer dia desses, levo você até o cinema?” Esqueça! Antes que você saia pela tangente, ele te pergunta: Quando? E se você disser uma data, não se preocupe em marcar na agenda, um dia antes do “evento”, você receberá um telefonema do Vitor te lembrando.

Acostumado a promessas por educação que nunca serão cumpridas ( típica de brasileiro: um dia passo na sua casa; vamos combinar um almoço qualquer dia, etc), sempre penso duas vezes antes de prometer algo ao garoto, o que me faz lembrar, o quanto agimos no automático com promessas de visitas aos amigos que nunca ocorrerão; de telefonemas aos parentes que nunca se realizarão.

O gosto pela sinceridade é algo que realmente perdemos ao longo da jornada para nos tornarmos adultos. Na maioria das vezes, não somos sinceros com quem gostamos, e em muitos casos, isso ocorre, justamente por não querermos magoá-los. Ao nos tornarmos adultos, aprendemos que certas verdades podem destruir relacionamentos e por medo de perdermos uma amizade, acabamos engolindo muitos “não” que precisavam ser ditos no momento certo; e acabamos deixando de dizer o que pensamos e essa verdade não dita acaba virando uma bola de neve que transforma grandes amizades em relacionamentos distantes, se não perdidos.

Gostaria muito de agir como o Vitor, não sei se vou conseguir, mas vou tentar a partir de agora, ao menos parar de prometer aos meus amigos e parentes, visitas ou encontros que sei que nunca ocorrerão; e vou tentar ser sincero ao menos para reconhecer que não é que não tenho tempo de revê-los, é que não quero mesmo.

Frank Oliveira

domingo, fevereiro 10, 2008

PEGADAS NO CORAÇÃO

Sonhei que caminhava com Cristo na areias de uma praia. No começo, pensei que caminhava sozinho, até que ouvi a sua voz e senti que estava acompanhado e protegido, mesmo que eu não conseguisse identificar suas pegadas junto as minhas.

- Que bom que está comigo! – falei com o coração explodindo em raios de devoção e agradecimento – Cheguei a achar que não caminhava ao meu lado.

- Sempre caminhei contigo, meu amigo – disse ele sorrindo – Você não me sentia, porque procurava enxergar meus passos na areia junto aos seus; quando quiser me encontrar, procure minhas pegadas em seu coração.

Frank
http://cronicasdofrank.blogspot.com/

07 de Fevereiro 2008
Notas do autor: mensagem baseada no belo texto “Pegadas na Areia” que é enviado pela internet sem autoria, mas em pesquisa descobri ser um texto da autora Margareth Fishback Powers, do livro "Pegadas na areia" - Ed.Fundamento.

sábado, fevereiro 09, 2008

EXTREMA BELEZA

O significado de paraíso para um
Pode ser bem diferente do que é para outro
Para um é um céu limpo e estrelado
Para outros é o Pico do Lopo

Alguns preferem à beleza das águas
Outros, a energia das florestas
Uns querem andar, correr e voar
Outros querem meditar em cima das pedras

E fico me pergutando:
Qual é a minha visão de paraíso?
É aquela que é tal feito uma perita
Aos meus olhos totalmente energizado
Ou a montanha a qual chamam de Sagrada
Quem tem no alto uma Sacerdotisa

Savitri


Ps: dedicado à Áurea, uma perita em nosso caminho.

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Auréa
Conhei Áurea há poucos dias, mas a impressão que tenho é que a conheço á anos. Ouvindo ela falar sobre as suas viagens e experiências, fiquei sensibilizado quando a escutei contar sobre como laçou uma poesia pronta no ar.

Ela é uma laçadora de poesias. Pessoas assim, são tocadas por uma súbita inspiração e escrevem textos belissímos, canções maravilhosas, mesmo sem nunca terem feito nada disso antes.

Ela me recitou a poesia de amor e fiquei louco de vontade de compartilhar com vocês essas palavras tão maravilhosas.

Aproveitem a viagem!!!


Pétala a Pétala
By Áurea Eres

A saudade dói
Ouço ecos do meu grito que o teu nome chama
É a minha alma precisando da tua.

Sonhava com uma estrela
Não cadente, mas carente
Olhei para você e não tive dúvida
Brilhaste, brilhaste como uma estrela em minha vida
Conseguindo atingir um brilho impar, único e sem igual

Surgistes feito um raio de sol
Secaste o meu orvalho
Então floresci
Pétala a pétala
Linda
Só pra você

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

ZUMBIS NO ELEVADOR

Moro num prédio cheio de zumbis. Eles estão por toda parte, todos os lados; mas os encontro frequentemente no elevador. Tenho medo; sei que eles podem me contaminar e não quero me tornar um zumbi.

É fácil identificar um zumbi, basta observar as seguintes características: não há sorriso no rosto, nem brilho no olhar e eles são completamente surdos e nunca respondem um “bom dia” quando você fala.

É claro, ninguém é obrigado cumprimentar vizinhos, falar com os colegas de trabalho ou ser gentil com estranhos; afinal, há dias que acordamos com o pé esquerdo, que conhecemos todas as leis de Murphy antes do meio-dia e nem todo mundo tem tanto motivo assim para sorrir a toa; mas zumbis são aqueles sujeitos que ignoram que existem outros seres humanos e só saem de suas cavernas e estabelecem contato quando há um genuíno interesse em ganhar algo com essa aproximação. Suas conversas tem teor de segunda intenção; seus sorrisos são tão ilusórios quanto miragem no deserto.

Se você acha exagero; olhe para o lado. Não se assuste, mas garanto que há um, agora mesmo, pertinho de você. Embora não haja cura a curto prazo para essas pessoas e o zumbicionismo seja contagioso, podemos evitar contrair essa doença seguindo os seguintes passos:

• Não mude quem você é por causa dessas pessoas, quero dizer, zumbis;
• Não deixe de tratar gentilmente outras pessoas porque acabou de cruzar com um zumbi no elevador que fingiu que você não existia;
• Por fim, lembre-se sempre do mantra*: “Eles são muitos, mas não podem voar”.

Frank


* Frase que faz parte da letra da canção do Ednardo “O Pavão Misterioso”, tema da novela Saramandaia (anos 70) da TV Globo.

Pavão Misterioso


Pavão misterioso
Pássaro formoso
Tudo é mistério
Nesse teu voar
Ai se eu corresse assim
Tantos céus assim
Muita história
Eu tinha prá contar...(2x)

Pavão misterioso
Nessa cauda
Aberta em leque
Me guarda moleque
De eterno brincar
Me poupa do vexame
De morrer tão moço
Muita coisa ainda
Quero olhar...

Pavão misterioso
Meu pássaro formoso
Tudo é mistério
Nesse teu voar
Ai se eu corresse assim
Tantos céus assim
Muita história
Eu tinha prá contar...

Pavão misterioso
Meu pássaro formoso
No escuro dessa noite
Me ajuda, cantar
Derrama essas faíscas
Despeja esse trovão
Desmancha isso tudo,
Que não é certo ou não...

Pavão misterioso
Pássaro formoso
Um conde raivoso
Não tarda a chegar
Não temas minha donzela
Nossa sorte nessa guerra
Eles são muitos
Mas não podem voar...

Eles são muitos
Mas não podem voar!...

CAIÇARA

Olhando de cima, Trindade possui as curvas do meu amor. Suas praias claras lembram a sua pele; suas montanhas verdes lembram o seu coração esmeralda de bondade infinita; as rochas lembram a sua força e chegar até Trindade lembra o esforço que tive para encontrá-la, pois parecia que jamais a encontraria. Foram muitas subidas e descidas nessas voltas da vida até encontrar seus olhos cintilantes no escuro da noite da solidão e seu toque foi como ás águas do mar de Trindade batendo contra a rocha do meu peito, quebrando todas as muralhas e abrindo uma trilha que a levou direto ao meu coração.

Por vezes, estar ao seu lado é como flutuar nas águas do Cachadaço; outras vezes é como o mar bravio da Praia do Meio. Que Deus me livre e perdoe, se eu estiver exagerando, mas embora haja milhares de praias no mundo, assim como Trindade, meu amor é única e especial.

Raul estava errado quando dizia que todas as maçãs são iguais; pois estar com meu amor é deixar-se cativar; assim como a Trindade dos viajantes mais atentos, que se deixam encantar.

Faz 10 anos que a conheci, assim como faz 10 anos que coloquei meus pés nas praias de Trindade pela primeira vez, e mesmo que amanhã eu venha a banhar-me em outras águas, nunca esquecerei essa terra desse povo caiçara valente e dedicado; assim como não esquecerei meu amor, essa caiçara do céu cintilante, que a cada ano sempre surge com algo novo para me enfeitiçar e ensinar.


08 de Fevereiro de 2008

Sabedoria de Esquina

Os Profetas são estrelas na imensidão
O Salvador é o ar que se respira
Lê a Bíblia impressa no seu coração
Repete o salmo do discernimento e medita

O inferno é tristeza, solidão é medo
O céu é a alegria, amor é perdão
O purgatório é vazio no peito,
Julgamento é mente em confusão

Nossa Senhora, todas as mulheres, o nascer
Nosso Senhor, todos os homens, o viver
Deus está na criança brincando de crescer

Come a hóstia do bom humor
Toma o cálice do sorriso
Não dá risada é um pecado mortal,
é um grande risco

Paga o dizímo de ajudar o próximo
Visite a Igreja da natureza
Cante o hino de louvor à vida
Troque a fé pela certeza

A cruz é escolha, encruzilhada da vida
Sacrifício é dar a outra face ao inimigo
Ressurreição é despertar a cada dia
Vendo Cristo na face do amigo

A Sabedoria páira na esquina
O Conhecimento está em toda parte
A teoria encanta quando lida
A prática assusta tanto quanto a verdade

O Evangelho é poesia sem doutrinação
O Pai nem isso, nem aquilo
O Filho se expressa na manifestação
E a Mãe flui o amor para o seu espírito

sábado, fevereiro 02, 2008

Carnaval e Espiritualidade

Já se tornou um hábito no meio das pessoas que se dizem espiritualizadas a máxima de comparar o carnaval ao umbral ou ao inferno. São muitos os entendidos do assunto que afirmam que essa festa é a oportunidade perfeita para que assediadores, obsessores, demônios e afins façam a festa com o descuido da galera, sem contar outras tantas explicações baseadas em estatísticas, onde se explica que essa é a época em que mais ocorrem acidentes em estradas, proliferação de doença sexuais e outras dezenas de provas afirmando que o carnaval deveria ser extinto do calendário brasileiro.

Ok, já sabemos de tudo isso, mas alguém já parou para pensar que ao mesmo tempo em que existe o lado negro do carnaval , existe também um lado bom nessa festa popular; afinal posso estar errado, mas acredito que tudo na natureza ( e no mundo dos homens) resulta em equilíbrio.

Sabemos que as sombras criam vida nos salões, mas não estaria a luz também presente na alegria, na dança, na energia das pessoas que por alguns dias esquecem a dureza do dia-a-dia e vai a avenida sambar? Por todo o país um show de cores dá lugar ao cinza do suor pelo pão que nunca custou tanto. E eu aqui fico me perguntando: não seria isso um aspecto positivo de uma festa que já foi considerada pagã pelas igrejas, por justamente considerar pecado pessoas rindo, cantando e dançando, quando deveriam estar ocupadas rezando?

Antes que alguém me acuse de defensor do carnaval, queria deixar bem claro que não sou tão chegado assim a samba, pulei carnaval quando era criança, mas não dá para deixar de admirar um povo que transforma queda em passo de dança, que transforma o grito diário num canto de alegria, e nada melhor que o carnaval para representar isso.

Quando penso nesses salões em dias de carnaval, não dá para deixar de pensar que as trevas estarão por lá, assim como os ventos da obsessão e do assédio, mas tenho certeza que também por lá estarão os anjos da alegria e os amparadores do sorriso que não perdem uma oportunidade de ver gente feliz. E tudo isso pra mim não
passa de puro EQULIBRIO á brasileira.

Eu não sei sambar e prefiro um bom vídeo com pipoca a ver escolas de samba na avenida, mas ainda me emociono ao pensar que talvez num morro desses qualquer, um traficante trocou o som da metralhadora por um batuque, e somente por um dia ou quem sabe dois, ele tem a oportunidade de dançar com a vida e deixar a morte que não sabe sambar esperando a festa acabar.


Frank
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