segunda-feira, janeiro 31, 2011

O Caminho da Realização


"Qualquer caminho é apenas um caminho, e não há ofensa para si ou para outro em... abandoná-lo se é isto que o seu coração diz a você...
Olhe para cada caminho bem de perto, estudando-o cuidadosamente.
Experimente-o quantas vezes achar necessário.
Então pergunte a voce mesmo, e somente a voce mesmo uma questão:
"Esse caminho tem coração? Se ele tem, é um bom caminho; se não tem, é inútil".
D. Juan

domingo, janeiro 30, 2011

ALMA QUE AMA MINHA ALMA

(Recebido por Sandra S. do grupo de estudos do IPPB)

Alma que ama minha alma; que busca e me encontra nos recônditos do infinito, sei que me sentes como eu te sinto!

Quando perto de ti me encontro teu coração carnal bate forte como fazia desde a primeira vez que nos encontramos... sei que sentes minha presença e sentes no teu peito o pulsar de meu coração cósmico batendo junto na cadência do peito em que agora moras.

Amada luz de meu caminho agora só posso velar por ti e cuidar para que cures a dor do que poderia ter sido e não foi pois triste é a inveja humana que não consegue amar e não ama aos que amam, só destroem aquilo que não possuem, vivem da ilusão impura de que são donos de tudo e até mesmo do que pensa o coração...

Não, não mais, nesta vida se foi o agora e quizá um dia, na conta do tempo infinito consigamos nos encontrar novamente ó alma que ama minha alma e que por ela é tão amada...

Plena luz do meu caminho deixo contigo a melhor parte que tenho em mim, deixo-te meu carinho querido e um caminho novo a ser seguido, de luz e de paz. Deixo-te a luz que pulsa intermitente, infinita e plácida, a luz que cura e que ata, a ti deixo a luz da minha vida já que tu és tão amada...

Ó alma que ama a minha alma e por ela é tão amada, sigo agora por onde não poderás me seguir ainda, vou além do além, mas quero deixar-te a sorrir mesmo que chore meu coração, mas é um choro de alegria não é dor e por isso deixo para ti o que de melhor tenho em mim...

Deixo-te com o pulsar do meu tempo no teu peito e parte do meu coração ficará eternamente em ti ó alma que ama minha alma e por ela é tão amada para que a cada batida que se der na carne em que habitas por hora, sintas no fundo de tua alma o pulsar de meu amor eterno que sempre habitará em ti...

Eternamente minha luz, digo: até um dia, vôo agora em um grão de poeira cósmica e parto em silêncio com plenitude de vida!

Vou na paz e deixo-te na paz, na luz de Krishna que tanto te apraz e assim numa explosão de alegria sei que em algum lugar, em algum tempo que não temos como contar os grãos que se perdem ao vento possamos a vida juntos novamente amar...

Desconheço o autor

sexta-feira, janeiro 28, 2011

DISTORÇÕES

Ele foi para a Índia para pesquizar os mantras e cantos devocionais. Aprendeu que os mantras eram formados por sons sutis, recebidos no astral, para abrir certos portais; compreendeu que os cantos, se entoados adequadamente, poderiam levar o fiel a outros planos celestiais.

Estudou muito, mais não quis se aprofundar; tinha outros planos, assim que voltasse , ele mesmo criaria uma banda que tocasse as canções e a melodia que tanto o encantara naquele país.

O fez!

Como ele não tinha estudado a fundo, usou os sons que conseguia lembrar e o que não se recordava, adaptou à sua maneira ao som local.

No ínicio o som parecia quase o mesmo, ele só mudou uma sílaba aqui, outra palavra lá; nada em sua opinião que pudesse alterar as portas que aquelas melodias divinas abriam; nem mudar a sintonia que aquelas palavras celestiais provocavam dentro de quem as entoava.

E fez assim do seu som, uma cópia distorcida; e quanto mais tempo foi passando, mais diferente do original, os seus cantos foram ficando.

O povo que ouvia, por não conhecer o original, o canto repetia, e cada vez mais, o canto ia se modificando e os levando a diferentes portais.

Os estudantes dos cantos indianos e do sânscrito tentaram lhe avisar:

" Cuidado! Esses cantos não devem ser entoados dessa forma. Eles foram recebidos lá nos planos mais sutis; e não podem ser alterados, precisam ser cantados com a harmonia certa; pois do contrário, eles podem te levar para dimensões que parecem ser as mesmas dos cantos originais, mais não passam de mundos distorcidos, cópia enganosa do real"

Porém, já era tarde; ele não quis mudar o que fizera, e a forma como ele modificara os sons originais permaneceu. O que foi uma pena, pois se usasse a sua criatividade para estudar mais a fundo os sons originais, ele poderia não só abrir as mesmas portas, mas também, conhecer os lugares donde nasce a fonte dos mantras e das canções devocionais, e voltar de lá, com o seu próprio canto e fazer a sua própria música.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

CANÇÃO SUFI

A terra do nosso supremo lar
È uma terra de flores sem espinhos;
Não se permitem ali as atrás florestas do medo
Nem se semeia jamais a Dor.

O riacho do amor corre ali sem cessar,
A criação é um deslumbramento
E visões celestiais consolam a terra
Enquanto torrentes imemoriais alegram os olhos.

Ali toda oração é auto-suficiente,
Ninguém regateia dádivas,
A vida é deita de Verdade,
E desconhece a máscara da ilusão.

Proscrito está o egoísmo,
E vedados os pensamentos personalizados,
Senhor algum governa, servo algum obedece,
Sombra alguma empana a Divina Luz.

Não é um arroubo poético
Esse mundo de amor e êxtase
Que, no fundo de cada coração,
Espera apenas ser descoberto.

Alguma Coisa

Alguma coisa nos afasta da luz,
Alguma coisa nos distrai,
Alguma coisa nos prende na cruz,
Alguma coisa nos trai;

Alguma coisa nos atrai feito fome,
Alguma coisa nos cataculpa
Alguma coisa tem muitos nomes,
Um desses nomes é desculpa...

quarta-feira, janeiro 26, 2011

GEOFFREY

VERISSIMO - O Estado de S.Paulo


Bárbara levava para a praia: um guarda-sol, uma cadeira portátil (na verdade, meia cadeira, apenas um encosto para poder sentar confortavelmente na areia), óculos escuros, chapéu e uma bolsa de pano com protetor solar, batom umidificante, telefone celular, lenços de papel e um livro policial. Sempre um policial. Gostava de ficar lendo embaixo do guarda-sol.

Naquele dia, estava mais ou menos na metade do livro quando notou que um homem sentara na areia perto dela. Perto demais. Bárbara não gostou da sua proximidade. Viu que era um homem mais moço do que ela, bonito, e que - ao contrário dela - viera para a praia apenas com uma sunga e nada mais. Nem chapéu, nem óculos, nem protetor, nem celular. Nada. E ele a examinava com divertida curiosidade. Como um nativo nu examinando as vestes pesadas e os paramentos de um explorador recém-chegado ao Novo Mundo.

Fora devolver às crianças uma eventual bola que invadisse seu território, Bárbara não tinha nenhum contato com os outros frequentadores da praia. Preferia assim. Não queria falar com ninguém. Queria ficar sozinha. Com seus livros policiais.

0 0 0

- Geoffrey - disse o homem.

- O quê? - perguntou Bárbara.

- O assassino. No livro que você está lendo. O assassino é o Geoffrey.

- Mas, mas...

Bárbara não se continha de indignação.

- Você estragou a minha leitura! Você é um, um...

Bárbara não encontrava a palavra certa. Onde já se vira aquilo? Alguém entrar na vida de outra pessoa assim e, deliberadamente, estragar a sua leitura.

O homem estava sorrindo. Disse:

- Desculpe. Eu só quis poupar você de ter que ler o resto do livro. Assim você já sabe como termina e pode parar de ler para conversar comigo. Podemos começar um relacionamento. E quem sabe dizer como termina um relacionamento? Sua vida pode ser muito mais excitante do que um livro policial. Jogue fora o livro e fale comigo. Pare de ler e descubra a vida.

Mas Bárbara estava inconsolável.

- Só porque você já leu o livro não tem o direito de...

- Eu nunca li esse livro.

- Mas então, como...

O homem estendeu a mão para Bárbara apertar e disse:

- Eu sou o Geoffrey.

0 0 0

Uma bola rolou para baixo do guarda-sol e bateu na perna de Bárbara, que acordou. Por uns instantes ficou atordoada. Onde estava? Na praia, claro. O livro caíra das suas mãos e pousava, aberto, sobre seu peito. Ela chutou a bola de volta para as crianças e pegou o livro. Que sonho estranho, pensou. E ficou indecisa. Deveria olhar o fim do livro, para saber se Geoffrey era mesmo o assassino, ou continuar a leitura sem espiar o final, agora com o suspense redobrado? A história do livro se passava em Londres. Geoffrey era um personagem fascinante, um cavalheiro. Bárbara jamais imaginaria que o assassino fosse ele. Mas também nunca o imaginaria de sunga numa praia. Decidiu continuar a leitura sem olhar a última página. A leitura teria outro sabor, agora que conhecia o Geoffrey, por assim dizer, pessoalmente. A vida podia esperar.

terça-feira, janeiro 25, 2011

Ser Daqui e Não Ser: Viva São Paulo

Hoje acordei feliz de morar aqui,
pois vi em mim
que sou realmente daqui;

Sou daqui,
Pois não sou daqui,
Sou de todos
Lugares,
Daì, não há lugar mais perfeito to be
Que aqui!

Parabéns Sampa!!!

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Presentes Pelo Chão

Que belo presente, esse momento sublime, único, que me leva ás alturas, mostrando todo o poder da criação num único instante, onde a minha alma radiante emite sorrisos que se refletem no corpo e se propaga para todo mundo. Ali, sentindo toda a extensão da união com o universo, recordo quem sou, não tenho mais dúvidas, só resta a certeza absoluta de que sou filho do Dono da Criação; e diante de tal imensidão, prometo que dali em diante, eu...eu o quê mesmo?

Esqueci!

Qual será mesmo a graça dessa ironia? Vivenciamos certos momentos que parecem ser inesquecíveis, mas só parecem; pois tão logo esse momento passa, o milagre se torna vulgar, o comum toma de conta, e a gente nem mais se lembra do que era tão importante para a nossa jornada.

Há pessoas que passam a vida toda, procurando esses momentos, um intante de epifania, que possa iluminar a sua vida, lhe tirando do lago da inércia. Porém, quando essas pessoas finalmente encontram o que procuravam, o tesouro vira ouro de tolo; o que demonstra que é preciso um selecionar, pois nem todos estão preparados para adentrar esse rio de mistério e desembocar na cachoeira da vida cotidiana com essas lições que não deveriam ser esquecidas.

Se esquecemos facilmente algo que foi extraordinário, talvez esse algo não tenha sido realmente o que pensamos que ele foi; ou somos mesmo, bichos estranhos, que choram pedindo tanto, e depois deixam os presentes caídos pelo chão.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Boy ou Girl?

Será Boy ou Girl?

"Será menino ou menina?" era uma pergunta que pairava no ar. Natural para pais grávidos, típica indagação de quem espera um bebê nascer.

Sendo " Pai de Primeira Viagem", tinha minhas expectativas, porém, toda vez que precisava responder a outra pergunta:" você prefere boy ou girl?", eu me deparava com a lição que aprendi com a minha amiga, Mônica Allen: " isso não importa, afinal, eles são todos pura luz!"

Sim, eles eram luz. Eu acreditava nisso também, daí, a minha tranquilidade, durante o exame de ultrasom. A situação era "win-win", fosse moleka ou guri, saíriamos ganhando de qualquer jeito. Contudo, Auri,tinha uma expectativa, todos os seus sentidos diziam: menino! Menino!

- Olha tá bem difícil de descobrir - disse a médica - O bebê não abre as perninhas.

Enquanto a médica usava sua experiência para "bigbrodar" o meu neném; minha consciência voou longe, e se o ultrasom mostrava o corpo que esse serzinho usaria; fiquei imaginando qual era a cor da sua alma, do que era revestido o seu espírito.

Pensando nisso, vi dentro da minha mente, um lugar cheio de flores, com dois arco-íris no céu, as àrvores eram feitas de algodão doce, e corria um rio de chocolate, onde mihares de estrelinhas multicores banhavam e brincavam. Elas não tinham rostos, nem sexo; eram apenas seres brilhantes, irradiando alegria e harmonia.

Percebi por intuição que aquele lugar era o local de onde vinham os bebês, daí uma voz me contou:

- Essa é a Terra dos Erês!

Senti vontade de sair pulando e brincando, pois pouco a pouco, a criança em mim, foi acordando e queria se divertir, mas a Voz me falou:

- Você está aqui só para assistir.

Daí, eu ví, entre um arco-íris e outro, surgir um portal no céu, e dentro dele, eu vi o sol, a lua, as estrelas, e a Terra, brilhando tão bela. Então, observei que uma daquelas criaturas brilhantes, que estava se banhando no rio, começou a gargalhar( e era gargalhada de bebê), pois, ela via lá de dentro do portal, surgir um pássaro gigante; e ele foi descendo, pousando perto desse serzinho, que subiu no dorso do pássaro, e os dois voaram em direção ao portal.

Senti que ia chorar, por testemunhar momento tão lindo.

Continuei observando os dois subindo, e não percebi que um outro desses seres brilhantes estava bem pertinho de mim e gritou no meu ouvido: " PAPAI!"

Levei um susto grande, e ele ao perceber isso, começou a gargalhar. Eu fiz o mesmo!

Então, ele parou de rir, novamente se aproximou, e falou baixinho no meu ouvido:

"Fui eu quem te trouxe aqui. Minha irmã foi primeiro, mas eu sou o próximo. Não se esqueça de MIM!"

Daí, senti, que apertavam a minha mão, e era a Auri me chamando e dizendo:

- É menina! É menina!





quinta-feira, janeiro 20, 2011

Antônio Prata: O aeroporto tá parecendo rodoviária

Por Antônio Prata

Se o Brasil continuar crescendo e distribuindo renda, quem é que vai empacotar nossas compras?


O funcionário do supermercado empacota minhas compras. A freguesa se aproxima com sua cesta e pergunta: "Oi, rapazinho, onde fica a farinha de mandioca?". "Ali, senhora, corredor 3." "Obrigada." "Disponha."

A cena seria trivial, não fosse um pequeno detalhe: o "rapazinho" já passava dos quarenta. Teria a mulher uma particularíssima disfunção neurológica, chamada, digamos etariofasia aguda? Mostra-se a ela uma imagem do Papai Noel e outra do Neymar, pergunta-se: "Quem é o mais velho?", ela hesita, seu indicador vai e vem entre as duas fotos, como um limpador de para-brisa e... Não consegue responder.

Infelizmente, não me parece que a mulher sofresse de uma doença rara. Pelo contrário. A infantilização dos pobres e outros grupos socialmente desvalorizados é recurso antigo, que funciona naturalizando a inferioridade de quem está por baixo e, de quebra, ainda atenua a culpa de quem tá por cima.

Afinal, se fulano é apenas um "rapazinho", faz sentido que ele nos sirva, nos obedeça e, em última instância, submeta-se à tutela de seus senhores, de suas senhoras.

Nos EUA, até a metade do século passado, os brancos chamavam os negros de "boys". Em resposta, surgiu o "man", com o qual os negros passaram a tratar-se uns aos outros, para afirmarem sua integridade. No Brasil, na segunda década do século XXI, o expediente persiste.

Faz sentido. Em primeiro lugar, porque persiste a desigualdade, mas também porque todo recurso que escamoteie os conflitos encontra por aqui solo fértil; combina com nosso sonso ufanismo: neste país, todo mundo se ama, não?

Pensando nisso, enquanto pagava minhas compras, já começando a ficar com raiva da mulher, imaginei como chamaria o funcionário do supermercado, se estivesse no lugar dela. Então, me vi dizendo: "Ei, "amigo", você sabe onde fica a farinha de mandioca?", e percebi que, pela via oposta, havia caído na mesma arapuca.

Em vez de reafirmar a diferença, reduzindo-o ao status de criança, tentaria anulá-la, promovendo-o ao patamar da amizade. Mas, como nunca havíamos nos visto antes, a máscara cairia, revelando o que eu tentava ocultar: a distância entre quem empurra o carrinho e quem empacota as compras.

"Rapazinho" e "amigo" -ou "chefe", "meu rei", "brother", "queridão"- são dois lados da mesma moeda: a incapacidade de ver, naquele que me serve, um cidadão, um igual.

Não é de se admirar que, nesta sociedade ainda marcada pela mentalidade escravocrata, haja uma onda de preconceito com o alargamento da classe C, que tornou-se explícito nas manifestações de ódio aos nordestinos, via Twitter e Facebook, no fim do ano passado.

Mas o bordão que melhor exemplifica o susto e o desprezo da classe A pelos pobres, ou ex-pobres que agora têm dinheiro para frequentar certos ambientes antes fechados a eles, é: "Credo, esse aeroporto tá parecendo uma rodoviária!". De tão repetido, tem tudo para se tornar o "Você sabe com quem está falando?!" do início do século XXI. Se o Brasil continuar crescendo e distribuindo renda, os rapazinhos, que horror!, ganharão cada vez mais espaço e a coisa só deve piorar. É preocupante. Nesse ritmo, num futuro próximo, quem é que vai empacotar nossas compras?

Para twittar:
Antônio Prata: O aeroporto tá parecendo rodoviária. http://bit.ly/ggvsAx (via @aleportoblog)

Fonte: Folha de S. Paulo

Nossa vergonha musical


HUMBERTO WERNECK - O Estado de S.Paulo

Os dois autores, mortos já faz tempo, adorariam saber que a parceria deles pode ter sido a mais executada no País neste primeiro de janeiro. As sociedades arrecadadoras de direitos autorais não contabilizaram, mas não deve haver dúvida; afinal, não houve cerimônia de posse de político, e foram tantas, em que os acordes do Virundum não tenham reboado.

Virundum, caso você não saiba, é como a molecada de outrora se referia ao Hino Nacional Brasileiro, transformando nesse quase palavrão o "Ouviram do..." da letra que Joaquim Osório Duque Estrada bolou para a música de Francisco Manuel da Silva. Com a mesma irreverência, aliás, com que se fez da retumbante introdução do hino esta musical salada de frutas: "Laranja da China, laranja da China, laranja da China / Abacate, limão doce e tangerina..." Ou, ainda, tomando-se liberdade com o homônimo bairro paulistano, o "Já podeis da Pátria filhos..." do Hino da Independência virou "Japonês tem quatro filhos..." Brincadeirinha que parece ter saído de moda, talvez porque ninguém mais, japonês muito menos, tenha prole tão grande.

Já que estamos no assunto: me lembro de uns gaiatos que no colégio se divertiam cantando o Hino à Bandeira, aquele do "Salve lindo...", com a letra do samba Ai, que saudades da Amélia - e vice-versa. Não é que os encaixes são perfeitos? Experimente. Com essa não contavam o maestro Francisco Braga e o poeta Olavo Bilac quando compuseram o Salvelindo, faz mais de cem anos. Nem o Ataulfo Alves e o Mário Lago, ao criarem Amélia em 1941. Ou será que esses dois fizeram de propósito, mas sem dar bandeira?

Voltando ao Virundum. No dia da generalizada posse, um suprapartidário arrepio cívico percorreu da cabeça aos pés nosso Gigante Adormecido. Emocionante! A tristeza foi constatar, uma vez mais, quão poucos brasileiros têm no gogó, na ordem certa, as 250 palavras do Hino Nacional. Vergonha! Não, não vou posar de exceção. Até hoje não decorei a letra, e durante anos, menino, me perguntava quem diabos seria aquele "Herói Cubrado" que não estava no gibi. Ou o intrigante "filho deste Solesmãe", expressão que me soava a xingamento.

Como você e todo o pessoal, eu me limito a dublar o palavrório, sobretudo quando, na segunda parte, a letra mergulha naquele mar encapelado de "a terra mais garrida" e "o lábaro que ostentas estrelado". Numa prova de leitura labial, quantos filhos da Pátria se sairiam a contento? Fico pensando se não seria o caso de instituir - para os representantes do povo, pelo menos - um teste vocal eliminatório. Algo como a prova a que submeteram o deputado Tiririca. Desafinar, tudo bem - só privilegiados têm ouvido igual ao seu; mas encarapitar-se num dos Poderes da República sem ter de cor o Hino Nacional?

Em parte, é culpa do Duque Estrada e suas tortuosidades estilísticas. Alguma coisa, por certo, o autor de A aristocracia do espírito quis nos dizer com aquelas 250 palavras. Talvez as tenha embaralhado de cabeça pensada: sem as curvas do Duque Estrada, o hino resultaria compreensível, isto é, prosaico, incapaz de causar arrepios à nacionalidade. Sim, há quem goste de se perder em brumas retóricas. Um pouco como a turma nostálgica da missa em latim, amparada no argumento de que Deus, embora saiba, não fala português.

O falecido jornalista maranhense Lago Burnett, no livro A língua envergonhada, deu-se à pachorra de tornar inteligível a catastrófica estrofe que abre o nosso hino. Na primeira tentativa, ficou assim: "As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico no instante em que o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da Pátria."

Burnett foi adiante: "O brado retumbante de um povo heroico foi ouvido pelas margens do Ipiranga no instante em que, no céu da Pátria, o sol da liberdade brilhava em raios fúlgidos."

E por fim se deu por satisfeito: "O imperador Pedro I proclamou a independência do Brasil às margens do Ipiranga, em São Paulo, tornando o País, a partir desse instante, liberto de compromisso para com a Corte de Portugal."

O problema é que assim não dá samba - nem hino.

quarta-feira, janeiro 19, 2011

As Três Sereias

Eram três sereias, belas e encantadas, que nadavam ao redor do meu barco, cantando as mais lindas canções, querendo chamar a minha atenção...e desviar a minha direção.

A primeira que vi no mar, foi a Sereia do Preconceito, que veio naturalmente, nadando por meus devaneios e quando vi, já estava julgando outros pescadores, apontando suas fraquezas e imperfeições. Eu percebi a sereia chegando, mas não vi em que ponto, ela me dominou, porém, tive ainda forças, e a expulsei do meu barco; seguindo a minha viagem para o alto do mar, a procura dos meus peixes.

Contudo, logo depois, fui encantado pela Sereia da Inveja, justamente por ver tantos outros barcos voltando para o porto, tão cheios, e o meu tão deserto. Porém, tão logo, percebi que ao invés de pescar, estava perdendo o meu tempo, cego por essa sereia, a expulsei do meu barco também, e prometi a mim mesmo, que teria mais cuidado.

Não tive, pois, assim que a Sereia da Inveja se foi, outra mais forte pulou no meu barco, era a Sereia da Raiva; e com essa, reclamei, esbravejei e culpei todos os deuses, o vento, a terra, o mar, por meus problemas; e me senti poderoso, pronto para provar para todos que eu era o Rei do Porto; então, no auge da minha cólera, vi a sereia sorrindo em meio ao meu ódio; e a expulsei do meu barco; mas dessa vez, sem prometer nada; pois eu sabia, que as sereias dos sentimentos daninhos eram tão naturais no mar quanto Iemanjá; porém, a escolha era minha, em aceitar o seu convite para comigo navegar.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Filme ALÉM DA VIDA - e a questão do DESTINO

Por Yubertson
Postado originalmente na Lista Voadores

Nessa 6a.feira, fui com a Cris (e com meu primo Chiao Sheng e minha cunhadinha Lu) assistir o filme "Além da Vida" (HereAfter). Fui no escuro, sem nem ler a sinopse. Meu primo havia falado que era sobre Experiência de Quase Morte. Tema que eu gosto. E a Cris me dissera que o Diretor é o Clint Eastwood - de quem sou fã. Então, às 18:30h, lá estávamos nós.

Gosto de estórias em que há várias tramas (de vários personagens), principalmente quando há uma bela conexão entre elas no final. É o que ocorre neste filme. Mas o que mais me chamou a atenção foi a "imposição do destino." Há certos caminhos que PRECISAMOS percorrer: um relacionamento a estabelecer, uma vocação a cumprir, uma profissão a seguir, uma postura existencial a desenvolver.

Eu vejo pessoas que não assumem sua vocação. Procuram um emprego que lhes ofereça dinheiro. Escolhem seu emprego com base no status, no que podem obter de grana mais facilmente ou mesmo por opção familiar. Já fui assim. Sei bem como é. E muitas dessas pessoas, inclusive, adquirem uma bela posição por meio de tal trabalho. Porém, em determinada época da vida, o destino se faz presente. Vem com mão de ferro, quase nos empurrando para uma determinada - e diferente - trilha profissional, por exemplo.

Nesses casos, pessoas que resistem a seguir essa alteração de rumo sofrem demais. Quanto mais colocam resistência para cumprir com determinado sonho profissional ou vocação, mais a vida delas trava. E a tristeza, depressão, melancolia e insatisfação se tornam cada ano maiores.

O bonito é ver o poder de decisão desencadeando uma série de "coincidências positivas" quando a gente opta por, enfim, parar de resistir. Quando a gente faz a escolha de dar uma banana para a sociedade, para os padrões familiares, para as cobranças sociais e para a incompreensão que receberemos das pessoas mais próximas por termos decidido fazer o que REALMENTE amamos, putz, uma cacetada de circunstâncias vão sendo apresentadas a nós de um modo muito favorável. Parece que a Vida diz SIM - e PARABÉNS - pela decisão tomada.

Isso ficou bem visível pra mim na vida de dois dos três protagonistas do filme (não posso dizer quais são, porque estragaria o prazer dessa descoberta quando você assistir).

O detalhe é que o que chamo de DESTINO, essa mão impositiva que nos empurra para o caminho de nossa alma, é nada mais nada menos do que nosso Self/inconsciente ganhando a batalha contra a natural resistência egóica. Quando as vozes do ego (comodismo, medo, resistência, falta de confiança) são sobrepujadas pela voz do Self/Inconsciente, tomamos um novo rumo na nossa vida. E esta ganha um colorido muito mais atrativo, prazeroso e satisfatório.

Acaba que, pra mim, o tema da experiência de quase morte (vida além da vida) ficou como pano de fundo. Ainda mais que o filme aborda esse tema de um modo NEM UM POUCO SENSACIONALISTA, ESQUISOTÉRICO, EXAGERADO. Clint Eastwood dá o tom certo, sutil e poderoso. Nosso inconsciente capta. E isso é o suficiente para driblar as defesas de nosso ceticismo e de nossa árida intelectualidade, os quais costumam erguer barreiras contra a existência após a morte...


Beijãozão nocês...
Yub

(((()))

Notas:
1. O filme 'ALÉM DA VIDA", do cineasta Clint Eastwood está em cartaz nos cinemas.

2. Para ler mais sobre os textos e o trabalho de Yubertson:
http://yub-universosimbolico.blogspot.com

segunda-feira, janeiro 17, 2011

VIAGEM FORA DO CORPO É EXPLICADA

"Sonhos lúcidos explicam experiência de quase morte - segundo o Dr. Kevin Nelson, professor da Universidade de Kentucky, EUA - Já sabemos que ao " desligar" a região temporoparietal do cerébro, ligada à percepção espacial, podemos tirar a pessoa do corpo. Essa è a mesma área do cérebro que é " desligada" durante o REM(rapid eye moviment)" *

Todas as sensações de espiritualidade que sentimos ocorrem na mente. Os cientistas já provaram esse fato, e afirmam que isso tudo não passa de reações químicas, falta de oxigênio ou qualquer outro distúrbio mental que provoca alucinações, sensações de expansão da consciência, e outras variedades dos chamados " fenômenos espirituais; sendo assim, a viagem para fora do corpo poderia ser explicada como um fenômeno mental....também!

Tudo só existe na mente, porque é com ela que percebemos o mundo; experimentando através dos nossos sentidos, o externo, o que há fora, o exotérico; e graças ao nosso cérebro, magnifíco instrumento, podemos analisar, arquivar, deletar, explicar ou sejá lá o que quisermos fazer com as nossas experiências.

Tudo tem uma explicação...que bom! Podemos compreender, assim, como ocorre o processo de captação dessas experiências e como podemos ativar esses processos novamente, se quisermos. Sim, ciência e religião, lado a lado, essa deveria ser o projeto dessa tal "Nova Era". União! O coração sente, a mente explica; sempre foi assim, sempre será; processos distintos com uma única ligação: o nosso raciocínio em acompanhar e vivenciar essas experiências e lhe dar nomes, tentar explicar; discutir e levar a idéia que há outras coisas por ai, além daquilo que imaginamos, e que também toda explicação tem um período de validade. Mudamos sempre, e nesse evoluir, também mudam as nossas explicações!

A ciência não derruba as nossas convicções espirituais, pelo contrário, só amplia, é claro, sabe disso quem as teve de verdade.

Não precisamos mais separar esses dois caminhos. Isso é o que já está sendo discutido nos meios científicos.

Sim, todo estudante de espiritualidade precisa ler e descubrir o que esta sendo discutido sobre o que ele vivencia no mundo cientifíco, e não! Os cientista continuam mais céticos que nunca; aceitar as experiências espirituais como algo além das reações do corpo, never! Nada mais longe disso! Porém, eles sabem que o que se estuda é como o cérebro reage a essas experiência e não se elas são apenas e puramente reações cerebrais. Baseado nisso, todas essas experiências (viagens para fora do corpo, experiências-de-quase-morte, etc) nunca foram tão estudadas, debatidas e quanto mais teorias, quanto mais descobertas; mas ganha quem estuda, quem se aprofunda; e quem faz isso, sabe que essas descobertas não possuem o poder de abalar a sua fé ou fazê-lo esquecer o que foi sentido; pelo contrário, é bom saber que não estamos sozinhos e outras tantas pessoas no mundo, passam pelas mesmas experiências que tivemos; e a cada nova descoberta sobre o cérebro, mais percebemos o quanto maravilhoso é esse instrumento que recebemos.

Já ouvi muitos espiritualistas dizendo que preferem fugir da leitura dessas reportagens, pois acham isso tudo uma grande bobagem; mas o que eles não admitem, é que na verdade, morrem de medo de mudar de opinião sobre o que juram ter sentido.

Ora, quem já experimentou uma saída do corpo, ou teve uma experiência espiritual genuína, sabe que não há dúvida sobre o que ocorreu e nada nesse mundo é capaz de lhe colocar dúvidas sobre a existência desse "algo" que só é possível sentir dentro da alma e nunca poderá ser provado cientifícamente, justamente, por ser muito óbvio que essas experiências não podem ser reproduzidas em laboratório sob o prisma da nossa vontade.

Como diria a Neurocientista, Dra. Jill Bolte Taylor, autora do livro " A Cientista que Curou o Seu Próprio Cérebro": " Não existe um cérebro igual ao outro no mundo. As experiências espirituais são de quem as tem, e só quem as viveu, sabe se elas foram reais ou não." E ela conclui dizendo: " Posso não ter o controle total do que ocorre em minha vida, mas certamente estou no comando de como escolho perceber minha experiência de vida"


((((()))))

*Sonhos lúcidos explicam experiência de quase morte
GUILHERME GENESTRETI - Folha/Uol


Túneis iluminados, espíritos e a sensação de que o corpo está levitando. As experiências de quem ficou entre a vida e a morte são o material de trabalho do neurologista Kevin Nelson. Para entender melhor o fenômeno, Nelson fez um estudo com 55 pessoas que relataram essas experiências e descobriu que, nelas, os limites entre os estágios da consciência são mais tênues. É o que ele relata em "The Spiritual Doorway in the Brain", livro lançado em dezembro nos EUA. O médico concedeu entrevista à Folha, por telefone.

Kevin Nelson, professor de neurologia na Universidade de Kentucky e autor da obra "The Spiritual Doorway in the Brain"

Folha - Qual a explicação para o fenômeno da quase morte?


Kevin Nelson - Há no cérebro uma espécie de "interruptor" que alterna entre os estágios da consciência. Ao dormir, passamos pelos estágios de vigília, sono não REM e sono REM. Em algumas pessoas, a fronteira entre esses estágios não é tão marcada e, em momentos de crise, o estágio REM invade a vigília e causa os efeitos descritos nas experiências de quase morte.

Quais são esses momentos de crise?

Uma parada cardíaca, por exemplo. O "interruptor" que modula entre a vigília e o REM é uma parte essencial do sistema de reflexos do sistema nervoso. Quando o fluxo sanguíneo diminui no cérebro, acionamos esses reflexos, localizados numa área bastante primitiva do cérebro. É quando ocorrem as experiências de quase morte e nos movemos em direção às fronteiras entre a vigília e o REM. Em algumas pessoas, isso pode ficar misturado.

Essas experiência só ocorrem em situações extremas?

Sabemos que desmaios também podem desencadear a experiência de quase morte, pelos mesmos mecanismos: as pessoas se sentem em perigo e ocorre alteração da pressão sanguínea na cabeça. O fato fascinante é que um terço das pessoas desmaia em algum momento da vida, o que pode fazer dessas experiências algo mais comum do que se pensa.

Há algo diferente no cérebro das pessoas que têm essas sensações?

Em 2005, comecei a estudar pessoas com um histórico de quase morte. Depois de comparar 55 pacientes nessa situação com 55 outras pessoas que nunca passaram por isso, descobrimos que o primeiro grupo era mais suscetível a ter essa intromissão do sono REM na vigília.

Pessoas relatam luzes e a sensação de levitar. Por quê?

Se o fluxo sanguíneo está diminuindo na região da cabeça, diminui também nos olhos, deixando a visão borrada nas bordas e criando a impressão de que há um túnel com luzes. Já quanto às experiências extracorpóreas, sabe-se que ao "desligar" a região temporoparietal do cérebro, ligada à percepção espacial, podemos tirar a pessoa do seu corpo. Essa é a mesma área do cérebro que é "desligada" durante o REM.

E as alucinações?

Quando entramos no estágio REM, o cérebro ativa o mesmo mecanismo que produz os sonhos. Mas as alucinações da quase morte não são sonhos propriamente ditos, parecem mais sonhos lúcidos, porque ocorrem enquanto estamos conscientes.

Você já recebeu críticas por estudar cientificamente o que alguns julgam ser uma experiência espiritual?

Não estou interessado em saber por que o cérebro age de alguma forma ou por que esse "momento espiritual" ocorre, mas em como o cérebro trabalha. Se separamos o "por que" do "como", muito do conflito entre ciência e religião desaparece.

THE SPIRITUAL DOORWAY INTHE BRAIN
Kevin Nelson
EDITORA Dutton
QUANTO US$ 16,77 (R$ 28,31), na Amazon (336 págs.)

sexta-feira, janeiro 14, 2011

O homem indigno, prazos e tragédias

Por Mávio Santos

A indignidade é uma incrível commodity para o sistema político brasileiro. Ela faz com que o eleitor baixe seu piso de exigências ao nível do que é emergencial. Não se pode falar em cidadão ou cidadania neste momento. Trata-se apenas de um mero indivíduo votante, que precisa continuar sobrevivendo porque deu o azar de estar vivo. Ele mora perigosamente em áreas de encostas e margens de rios, ele se alimenta com o que é possível ter, seu ir e vir é precário, desconfortável e torturante, ele tenta aprender com um sistema que não o educa. Por fim, ele não sabe o que é seu por direito e finda por votar em alguém que lhe dê a ilusão de alívio imediato.

O que nós estamos vendo na Região Serrana do Rio e em SP, em mais um verão de lama e sangue, tem definições que já se tornaram tão antigas quanto as origens dos problemas. As remoções esquecidas, porque são impopulares; as obras que não são executadas, porque a máquina é inchada e incompetente; as prefeituras coniventes, porque não têm urgência em ordenar seu espaço. É útil. Afinal, quanto mais indigno é o homem, mais facilmente ele se impressiona com qualquer migalha e mais barato ele direciona o voto - e até agradece.

Esse homem que vive em estado de indignidade não quer ser removido de onde está. Remoção para ele é um problema maior do que o risco, porque terá de se adaptar a uma nova localidade, reordenar sua vida - e ele nunca tem confiança de que a autoridade pública vai transferi-lo para um lugar decente. Enquanto não chover forte, não será transtorno, diante da gama de dificuldades com as quais ele tem de lidar diariamente.

O homem indigno vive o hoje e planeja o dia seguinte. Futuros mais distantes como "o próximo verão" obviamente são considerados por ele, mas ao homem indigno não é dada a chance de decidir soluções a longo prazo.

Quando morrem mais de 400 pessoas numa tragédia como a desta semana, não se trata de culpar o índice pluviométrico de algumas horas, mas de responsabilizar todas as horas que as gestões municipais, estaduais e a federal perderam negligenciando sua tarefa de ordenar o espaço público, mesmo que isso significasse perda de popularidade.

Prometo, leitor, que vou guardar esta coluna. Tenho certeza de que terei de republicá-la, quase sem alterações, no próximo verão.


Fonte: Jornal Destak

Vamos Falar de Desgraça?

Mais uma tragédia: vamos falar de desgraça? Você viu na TV? No jornal? Que coisa feia, não? Acho que foi castigo, morreu pobre, morreu rico; vamos culpar o governo, dar tiro pro ar, acertar São Pedro...essa chuva tem que parar. Onde já se viu? O homem já foi a lua e nâo consegue a chuva controlar...

Esses dias, joguei um papel na rua e esse cidadão veio chamar a minha atenção, dizendo que aquele papelzinho ia entupir o bueiro e causar inundação...essa gente tem uma imaginação. Só falta dizer que o que causa esses acidentes de estrada é a minha cachaça e não os buracos.

Falando de desgraça, teve mais um acidente de carro, aqui pertinho, vamos lá ver os corpos? Vou tirar uma foto e mandar para você e você repassa para todos, afinal, todo mundo tem que saber...

É bom saber que isso só ocorre com essa gente, ainda bem que eu sou diferente...mas por que será que Deus deixa acontecer tanta tragédia?

Deve ser mesmo o fim do mundo, 2012, o apocalipse...quem sabe, isso tudo acontece para que quem assiste, possa se dar conta da vida que tem e de como ela é preciosa. Estranho, quando penso sobre issso, até parece que tudo isso faz sentido, que há perfeição até no caos, na morte...quem sabe, isso tudo não seja uma grande lição...sei não! É melhor pular essa parte, não gosto de pensar em morte ou nessas coisas do espírito; dá até calafrio...falando nisso, você viu a novela? Hoje é o último capítulo...

quinta-feira, janeiro 13, 2011

O CAMINHO DOS FRACOS

Demorei para chegar, mas quando eu já estava me aproximando; vi ele voltando, e não parecia feliz. Com certo receio de não estar no caminho direito; perguntei a ele por que voltava:

- O preço é muito alto! Não estou disposto a pagar tanto!

- Mas você caminhou até aqui! Não foi por isso que você participou de tanta palestra, leu todos aqueles livros, fez todas aquelas práticas? Todos temos que subir, uma hora o outra...

- Sim! Mas quanto mais você se aproxima de cima, mais claro vai ficando as razões pelas quais você demorou tanto para chegar lá, e à medida que você vai reconhecendo as suas falhas e percebendo que precisa mudar tudo aquilo que você sempre teimou em manter, nos damos conta que é muito mais fácil voltar e esquecer todo esse caminho. A "ignorância é uma benção" já diziam os sábios.

quarta-feira, janeiro 12, 2011

A SÍNDROME DA MULHER ELEFANTE

Ela não sabe dizer quando perdeu o rumo da sua vida; tantos sonhos, tantos planos e tudo se foi, jogado pela janela de um relacionamento que só lhe trouxe sofrimento, e ainda assim, ela não consegue sair dele. Sua criatividade foi sacrificada, em algum momento, entre o se entregar totalmente a esse homem e o sonho do perfeito matrimônio que ela espera, ainda um dia, conseguir atingir e ver chegar. Mas toda vez que pensa em trabalhar, estudar ou fazer qualquer coisa que possa a sua situação mudar, melhorar, ouve do esposo:

- Você não precisa trabalhar, princesa, eu cuido de tudo!

Ás vezes, ela se olha no espelho, com faíscas de vaidade; pensa em fazer um regime, comprar novas roupas, colocar uma maquiagem. O espelho lhe conta que ela era tão bonita, curvas delineadas, cabelo bem tratado, mulher de fino trato, que chamava a atenção onde quer que fosse; agora, ela quase não sai do portão, só vai ao supermercado e a feira; quase não consegue achar calças para o seu tamanho, por isso, só usa vestido, o que parece agradar o seu marido, que diz:

- Você não precisa se arrumar, princesa, você é linda por natureza!

- Tudo o que uma mulher quer ouvir, nada mais longe da verdade - disse uma amiga dela, esses dias, na padaria - Abre o olho - disse ela - Homem adora mulher bonita, se ele te elogia, mesmo quando você está descabelada, lavando roupa na pia; isso é um sinal da "Síndrome da Mulher Elefante".

- Como assim? Ele esta doente?

- Não exatamente, querida! Vocês dois estão! Há homens que são tão inseguros com as suas mulheres, que preferem que elas engordem como elefantes, fiquem burras como mulas; pois assim, elas nunca serão interessantes para outro homens; nunca sairam de casa, para ter outras experiências. E há mulheres que ouvem somente aquilo que elas querem, e são iludidas no começo do relacionamento a acreditar que estão seguras e felizes, agindo assim como elefantes de circo, que quando filhotes são amarrados num poste e não possuem força suficiente para fugir; e quando adultos, continuam amarrados no mesmo poste, com a mesma corda, mas não acreditam que possuam forças suficiente para escapar. Cuidado, amiga, relacionamento assim, é uma das piores prisões. Você pensa que é livre e esta feliz, mas está presa e manipulada por um homem que não investe em seus sonhos, pois morre de medo do seu voo e que você nunca mais possa voltar e o que é pior: fazer mais sucesso que ele.
...

Ela não concordou com a amiga. Que loucura! Que homem faria isso com a sua companheira? E ela não era burra, saberia se estivesse sendo presa; e para provar que a sua amiga estava errada, ela não voltou direto para casa, pois decidiu ir num salão e arrumar o seu cabelo, fazer as suas unhas, comprar um belo vestido e fazer uma surpresa para o seu marido. Tinha certeza que ele adoraria, além disso, iria dizer para ele também como ela se sentia, e contar que queria voltar a estudar. Ela tinha certeza que ele aprovaria.

Foi o que fez.

Quando o marido chegou em casa, ela o esperava, toda bem vestida e perfumada. Ele estranhou e com a cara amarrada, perguntou:

- O que está ocorrendo? Aonde você foi?

- Quis me arrumar para você, meu amor! - ela respondeu.

- Não precisava, minha princesa, gosto de você como você é. Promete para mim que você não vai fazer isso de novo...

- Mas eu sou assim!

- NÃO É! - disse ele gritando - Você é minha princesa...- disse ele, logo em seguida, diminundo o tom da sua voz.

- E eu estou pensando em voltar a estudar... - disse ela, voz tremida, assustada.

- O QUE ACONTECEU COM VOCÊ HOJE? - ele tornou a gritar - Com quem você conversou?

- Eu só falei com uma amiga...

- Viu? Tem sempre alguém querendo destruir o relacionamento dos outros. Princesa...eu te amo...

E ele a abraçou e eles fizeram amor, bem ali na sala, e ao ver o seu homem tão feliz com ela do jeito que ela era, percebeu que era bobagem mudar, o seu relacionamento não era perfeito, mas ela tinha alguém ao seu lado; e afinal, ela realmente nem precisava estudar e trabalhar, pois tudo o que ela precisava e o que mais queria, era se sentir amada, protegida, cuidada...coitada, continua amarrada!

terça-feira, janeiro 11, 2011

A ROUPA DA MÃE VELHA

Vou compartilhar com você um segredo, mas é preciso que você me prometa que ele só vai ficar entre a gente, pois tem pessoa, nesse mundo, que se assusta fácil e se não escutar ou ler sobre esse segredo direito, pode até achar que a visão que eu tive é obra do "coisa-ruim"; e por mais medo que eu tive, e tive muito medo, tudo do que eu me recordo é o que eu vou lhe contar agora: Eu vi a "Mãe Velha"!

Ela se revelou para mim e se eu ainda consigo lembrar disso, deve ser porque ela me deixou, ao menos, manter parte da lembrança; se bem que essa memória pode ter sido distorcida por símbolos antigos inebriados pela minha fé em qualquer coisa; daí, já de ínicio, fica o meu sincero pedido de desculpas, se por alguma aventura, você for conduzido a acreditar em algo do que eu acredito; a minha esperança é que você, leitor seletivo e inteligente, possa usar o seu discernimento para ir além dos meus escritos, ler nas entrelinhas o que se está sendo dito e os revista com os seus próprios símbolos, porém, peço que mantenha, ao menos, o respeito pela idéia original, esse arquétipo da "Mãe Velha", a Vó, a Preta-Véia, Mata Kali Jai Mata, Nanâ Buroquê, seja qual for o nome que você dê...

Eu, talvez em voo, talvez em sonho, lembro ainda que a minha consciência escapuliu da minha mente e foi parar bem distante, no meio de uma floresta, dar de cara com uma cabana de madeira, donde uma fumaça saia da chaminé, e os cheiro das folhas da mata se misturava com um cheiro de café. O cheiro de algo tão forte me deu conta que eu não estava pelado de corpo, e logo em seguida, o som das folhas sendo pisadas, denunciava que eu estava vestido com alguma espécie de corpo, que me permitia também ouvir o canto das cigarras, os grilos e o piado da "Mãe da Noite", um pássaro do cerrado brasileiro com fama de bruxa. Confesso que fiquei com medo, deu vontade de correr; mas ao mesmo tempo, lembrei que tinha ido parar naquelas bandas por algum motivo; daí, criei coragem e bati na porta, e a porta rangente se abriu e vi, lá dentro sentada, uma velhinha, cujos cabelos prateados se derramavam de sua cabeça e se espalhavam pelo chão, e ao chegarem no chão, os fios de cabelo se transformavam em raízes que entravam pelas frestas do assoalho de madeira. Sentada numa cadeira-de-balanço, ela balançava para aqui e paraculá, e a cadeira cantava, nhã iá-nhã iá sem parar, sustentando o peso dessa senhora que era do tamanho do mundo. Vestida num belo tecido cor de rosa brilhante, ela tinha nos cabelos, uma tiara de diamantes, mas seus pés estavam descalços e sujos de lama; e em suas mãos, ela tecia uma malha com duas agulhas de tricô, enquanto seus óculos caiam eternamente pelo seu nariz, porém, acima deles, havia um par de olhos brancos, cegos como um caminho coberto de névoa e neve.

- Olá! - ela disse, daí, senti vegonha de lhe estar olhando, mas ainda deu tempo de observar no seu rosto as rugas do tempo que pareciam contar a origem das estrelas e as experiências das Terras todas em uma só face.

- Oi! - respondi, sem saber o que dizer, nem como reagir, daí, notei que os seus olhos brancos tomaram cor, e em cada um deles, havia uma banda de uma lua que ficava cheia quanda ela sorria, e ela sorria muito. E cada vez que ela piscava, um pássaro lá fora, gritava: Salubá! Salubà!

Eu quis logo me ajoelhar; ela acenou que não; ela disse que existe uma diferença entre respeito e submissão; que um viajante deve aprender a se ajoelhar com o coração, não com os joelhos, para poder pisar em todo lugar; daí, em algum ponto aonde corre a nascente da minha intuição e quem eu sou, eu ouvi ela me contando a história do mundo em que vivemos; e vi uma fila de espíritos esperando ela tecer a malha da matéria que eles usariam na Terra.

Ela me contou outras tantas coisas, mas disse que tudo aquilo só faria sentido lá naquela cabana, pois tão logo, eu saísse dalí, toda aquela conversa viraria pó de lembrança como o corpo que se desfaz ao fim da nossa existência no mundo da matéria.

Perguntei se poderia guardar, pelo menos, a recordação de tê-la visitado; ela riu e sua gargalhada tinha o som de uma queda d'água batendo nas pedras do rio, e disse:

- Você não veio me visitar, eu é que estou te visitando! Você vai esquecer boa parte daquilo que estamos conversando, mas a medida que você for trilhando o seu caminho, o que eu te disse, vai intuir em você, como chuva caindo...

Daí, caí ou levantei do meu sono, lembrando que eu jamais poderia esquecer aquele encontro, afinal, eu trouxe comigo algo desse sonho: a malha da "Mãe Velha" nesse corpo que estou usando.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Um conto fajuto... sem fadas.

Por Nanda

Ela se olhou no espelho e viu mais que um vestido de festa amarrotado, uma maquiagem borrada e uma sandália de salto alto nas mãos... Ela viu uma princesa fracassada. Todos os contos de fada que escolhera pra ser personagem principal acabaram sem final feliz. Ou pior, sem final.

Sentou –se na cama adornada por um edredon de florzinhas que era a única presença da primavera naquele quarto e lembrou-se do seu príncipe que assim como ela, também era do avesso. Ele não chegou em um cavalo branco e nem tão pouco usava uma roupa clássica e tinha pele branca e lisa. Ele chegou trazido pelos desejos antigos dela, tinha a pele morena, usava calça jeans e tinha a barba por fazer.

E antes que ela pudesse se dar conta que vivia um conto de fadas as avessas ele a beijou e de repente o mundo não se fez mais necessário, tudo que ela tinha vivido até ali deixou de existir...quando ela sentiu as mãos dele percorrer-lhe os desejos, fechou os olhos e quando abriu, viu projetado na sua frente aquilo que ela sempre sonhou.

E isso não era de todo bom, porque sonhos nem sempre condizem com a realidade e pesadelo também é uma forma de sonhar. Quando ela pensou que tinha conseguido todas as respostas pra suas dúvidas, já era tarde demais, já era toda feita de amor por aquele príncipe ordinário.

E em madrugadas como essa que perde o sono pensando nele, se dá conta que nem tem história perfeitinha com duas pessoas perfeitas... e ele ta mais pra bandido do que pra príncipe. É com brutalidade que ele a ocupa, passeia por entre suas coxas e a transforma naquilo que princesa nenhuma jamais poderia ser, porque não tem glamour, não tem classe, tem respiração ofegante, tem suor, tem palavras que nem constam no dicionário.

Ela se deita na cama e sorri ao passear com a ponta dos dedos sobre sua barriga... imagina a barba dele arranhando-a e pensa que ela precisa parar de querer viver uma história da Disney.

Se assume plebéia, vai pra frente do computador e manda um recado pro seu príncipe fajuto: Ei criminoso que me rouba de mim, este texto louco, é pra você.



Fonte: A Nanda tem vários outros textos maravilhosos e um blog bem delicioso:
http://nanda-gregorio.blogspot.com

sexta-feira, janeiro 07, 2011

A OUTRA FACE DA GRANDE DAMA

No meio da chacina,
a última vítima escondida
em meio a carnificina,
viu a face da morte;

E a morte não usava
nem a capa preta,
nem a foice,
nem a caveira
que tanto a vitíma ouvira falar;

No lugar,
viu uma senhora,
a Grande Dama!
Ela tinha um olhar de compaixão
que a todos levava,
e a levou,
acolhendo-a nos braços
e cantando uma melodia
que dizia assim:

" Nana, Neném
Que tudo vai se revelar..."

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Viva o Dia dos Santos Reis!

Ainda dá tempo de celebrar:
Vamos prosperar!
Dançando e cantando:
Viva o Dia dos Santos Reis!
Viva os três Reis Magos!
Viva os Santos Reis!
Viva a Boa Nova!

"ARTE DA CELEBRAÇÃO ”

Por Lya Luft

A passagem do ano não deveria pedir projetos ( e posteriores remorsos), mais projetos ( e mais futuros arrependimentos), e sim , abrir a portinhola de algum alívio, alguma alegria . Mas talvez a gente goste de sofrer.

Lembrei-me agora da deliciosa historinha do monge muito velho , quase centenário , que num remoto mosteiro pede a um monge bem moço que o ajude mais uma vez a ir à biblioteca que guarda preciosos alfarrábios. Pela última vez , ele quer folhear uma enciclopédia ou ecíclica papal, algo assim – a princípio – , o moço não entende direito. O jovem monge instala, então o velhíssimo velhinho junto a uma mesa imensa, tudo lá é muito grande e muito antigo. Mesa de carvalho, claro .

É um aposento secreto no fundo da biblioteca, onde só os monges iniciados entram. O rapaz consegue o livrão , coloca-o na mesa diante do velhíssimo velhinho e sai, dizendo: ” Qualquer coisa , toque esta sineta que eu venho acudí-lo ”.

Passa-se o tempo, o jovem monge se distrai com seus afazeres, até que se lembra: e o ancião, como estará? Preocupa-se com o longo silêncio – será que ele morreu? Corre até o fundo da biblioteca, até a sala secreta, e encontra o velho monge batendo repetidamente a cabeça no tampo da mesa .

– Mestre , o que houve? O senhor vai se machucar!

O monge centenário chora e repete certas palavras que o moço custa a entender :

– Imagine, imagine! A palavra de ordem, a recomendação, a essência, não era ” celibate ”, mas ” celebrate ”!

Lógicamente, em inglês a coisa tem mais graça, mas mesmo quem lê aqui há de entender : desperdiçamos tempo, vida e energia sofrendo por bobagens, arruinando as alegrias, ignorando afetos, trabalhando mais do que seria necessário para a nossa dignidade, curtindo mais o negativo do que o positivo, quando afinal a ordem divina metafórica é que não precisamos fazer o sacrifício do celibato, mas celebrar a vida.

Pessoalmente, sempre acreditei que a melhor homenagem que que se faz a uma divindade, se nela acreditamos, é celebrar – respeitando , amando , curtindo , cuidando – a vida, natureza, a arte, o enigma de tudo .

Mas nós, humanos, nem sempre espertos ( embora a gente se ache , e muito ), em vez de celebrar a passagem de ano, passamos boa parte dela nos enrolando. As providências excessivas , as compras , as comidas, as dívidas em dezenas de prestações … os planos .

Mas para que planos, quando o melhor é ter só um? Ser mais feliz, mais alegre, mais amoroso, mais honrado, mais pacífico. Mas a gente coloca aspectos prosaicos da vida acima de tudo: perder 10 quilos, tratar melhor a sogra , ser menos puxa-saco da sogra, da cunhada, da nora, do patrão. Ganhar mais dinheiro, o que nem sempre representa a conquista da felicidade ou algo que o valha , e por aí vai .

Para um lado ou outro, para o sim ou para o não, nessa hora nos enchemos de preocupações , acumulamos propósitos, e nos amarguramos porque quase todos aqueles objetivos elencados na passagem do ano passado não foram cumpridos ( e ainda por cima a gente sabia que ia ser assim ) .

E daí? E daí que poderíamos aproveitar o momento para pensar no que realmente vale a pena. E o que vale a pena, não importam a biografia ou a latitude, é celebrar. Para tanto, basta que sejamos, em casa, no trabalho, na escola um pouquinho mais agradáveis e menos tensos. E que, pelo menos , isso se manifeste na forma de um abraço vindo do fundo mais fundo do mais cansado – mas ainda amoroso e celebrante – coração .

NOTURNOS

Por Octávio Paz

Sou homem: duro pouco...
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.

Octávio Paz nasceu na Cidade do México em 1914. Em 1990 obteve o prêmio Nobel de Literatura. Morre na Cidade do México, em abril de 1998.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

De Body e Soul

O que tem de religião por aí, pregando que o nosso objetivo é o cultivo da alma, alcançar o Reino do Céu; ora, a alma já esta cultivada e se há alguma coisa que precisa ser alcançada é um profundo estudo em relação as razões pelas quais ganhamos um corpo.

Por que raios, a nossa consciência, um dia acordou dentro de um corpo?

Em que momento nos esquecemos que o corpo que vestimos é um sacro instrumento?

Em que momento, começamos a culpá-lo pelos nossos pensamentos e as consequências dos nossos atos?

Em que momento deixamos de perceber que vestir esse instrumento nos permite ver coisas, provar sensações, abrir portas que só a matéria possibilita?

Em que momento, perdemos a noção que viver bem aqui é a razão de estarmos aqui em primeiro lugar...

Somos almas eternas, peregrinando por vários caminhos, viagens; sendo um deles, uma delas, apenas uma delas, a aventura de ter um corpo; e sendo essa aventura, uma experiência tão única, foi nos dado um tesouro, um aparelho que nos permite provar o peso desse mundo antes de alçarmos voo para a leveza do céu; um cavalo que nos permite cavalgar a densidade da matéria para que possamos, com muito treino, encontrar a força e a delicadeza de pilotar as asas de uma outra roupagem muito mais sutil; daí a importância de preservar esse aparelho, cuidar desse cavalo; se dar conta que esse corpo que usamos é por um tempo nosso, emprestado pela Mãe Natureza, para que possamos espiar, tentar e ousar; e ele nos foi dado para que possamos tocar esse mundo, cheirar o seu perfume, ouvir essa canção ou ler esse texto, enfim, usar todos os nossos sentidos para ter experiências que só existem nesse mundo.

A natureza nos ensina a reconhecer essa obra prima que é o nosso corpo, mas o dogma e a manipulação religiosa nos ensina a largá-lo. Qual desses conselheiros é o mais sábio? Qual deles lhe conhece realmente por inteiro? Qual deles ouvir?

Para chegar até a sua Divindade, seja ela que nome tiver, não é preciso passar a sua vida inteira tentando deixar o corpo; o primeiro passo para um contato com o Divino é reconhecer em si mesmo, a semente do Criador e no outro o seu Amor.

terça-feira, janeiro 04, 2011

QUANDO FICAR...

" Amar significa ficar
quando cada célula nos manda fugir

Clarissa Pinkolas Estés
Mulheres que Correm com Lobos
"


É muito fácil abandonar o barco, deixar o amor encontrado, só porque o tempo levou a paixão que lavava o corpo; a experiência conta que o amor esfriou o fogo, mas não acabou a chama, que ainda faísca, pois tudo se transforma, viu quem ficou, nunca soube quem abandonou seu grande amor por qualquer distração que parecia ser um novo relacionamento; nisso se foi o grande momento de ter amadurecido o seu caminho ao lado de alguém, e com ela, ter crescido.

Saber renovar o olhar é um processo que exige de quem se relaciona, coragem e vontade de investigar o que nos trará essa nova fase, onde os interesses são outros; diferente idade, nova visão que renasce na constatação que se quer estar com alguém para valer, e não apenas parecer.

Parece que boa parte dos homens carece de um foco maior sobre o que busca em uma mulher; pois ao invés da quantidade, que tanto leva olhares, destrói lares por valores vulgares que se corroem facilmente, tendo passado os desejos realizados. Parece que boa parte dos homens carece de um objetivo ao construir o seu ninho, estabelecer uma família; pois não é qualquer dia que temos a chance de construirmos um símbolo que nos traga afeto, que nos forneça, de fato, carinho.

Saber quando ficar é difícil, pois requer não só entendimento das nossas emoções, mas extremo raciocínio para que possamos, homens, avaliar se vale a pena trocar a chave da nossa casa por um bilhete que nos levará a uma viagem que talvez, não tenha volta e seja uma outra grande bobagem que fizemos em nome do ego de sermos eternamente atraentes e traídos.

segunda-feira, janeiro 03, 2011

Rio do Medo

Preparei-me para o pior! Perdoem-me, amigos e leitores cariocas, mas confesso que a idéia de passar o reveillon no Rio despertavam os piores temores em mim. Memórias de reportagens sensacionalistas sobre a cidade maravilhosa vinham à minha mente; e, minha mulher grávida e Copacabana lotada não pareciam uma boa combinação; e não eram! Mas fomos assim mesmo; e contra a opinião de todos, e do meu próprio bom senso, embarcamos para o Rio naquele dia 31 de dezembro. Loucura?

Há mulheres, quando grávidas, que desejam pratos estranhos, frutas exóticas; minha mulher desejou algo bem diferente: uma viagem para o Rio! Não deveria ter ficado surpreendido, afinal, eu sabia que Auri não desejaria algo muito normal; eu sabia que viria algo inesperado, só não imaginava que seria esse tipo de jornada; mas, como qualquer bom marido, tratei de correr atrás do desejo dela, afinal, eu não queria que meu filho nascesse com cara de vagamundo...

Com a ajuda do meu amigo Gérson, os arranjos foram feitos, passagem e hotel confirmados; tudo parecia muito tranquilo e seguro, mesmo assim, eu estava desconfiado: estou indo para o Rio, oras, na virada do ano. Sei que algo vai acabar ocorrendo.

Viajamos no última dia do ano. Auri estava trabalhando até o meio dia. Quando chegamos no aeroporto, tudo estava muito calmo...estranho! Até enbarcamos mais cedo... mais estranho ainda! O voo durou menos que o nosso tempo na fila da cafeteria do aeroporto. Tudo muito tranquilo, tudo muito qualquer data menos o fim do ano.

No Rio, facilmente conseguimos um taxi, mais rápido ainda chegamos no hotel, muito mais fácil ainda, chegamos algum tempo depois, em Copacabana, e quando o relógio estava quase marcando meia-noite, tive que me beliscar, nada de ruim tinha ocorrido, nenhum imprevisto, nada inesperado tinha atrapalhado a nossa jornada.

Ao ver os fogos refletidos nos olhos da minha mulher, percebi que tinha me preocupado à toa; ao fazer parte daquela festa, me dei conta que milhares de pessoas não vinham até o Rio naquela data em vão; a festa era inesquecível, os fogos, talvez, o melhor espetáculo que eu tinha assistido na vida.
Sim, eu estava reformulando os meus conceitos. O Rio não era apenas lindo, a cidade também estava organizada, preparada para toda aquela gente, que avançava, numa onda de idiomas diferentes, faces estrangeiras e brasileiras, massa de sorriso no rosto e satisfação no olhar.

É claro, que eu sabia, que em algum lugar daquela cidade, havia pessoas que, talvez, não estariam tendo a mesma experiência que eu; pessoas que ajudariam a contar mais uma das histórias que alimentam o estereótipo que o Rio é uma cidade extremamente perigosa. Pode até ser, mas para nós, pelo menos ou pelo mais, aquela viagem estava sendo "maravilhosa".

Nos dias sequintes, fizemos todos os passeios turísticos que tinhamos direito: fomos ao Pão de Açúcar, andamos no bondinho que sobe do centro ao bairro de Santa Tereza, tomamos banho em Ipanema, e por lá foi e por aí vai. E fui, pouco a pouco, percebendo que sim, o Rio continua lindo, apesar da má propaganda, apesar da criminalidade, apesar de nossos políticos; e que os cariocas tem razão ao terem orgulho de sua cidade, pois não há no mundo local mais encantador.

Voltei a São Paulo, convertido! Agora rio do medo que eu tinha, pois mudei a minha opinião sobre viajar para fazer turismo na cidade maravilhosa, e recomendo a todos que nunca foram ao Rio que façam o mesmo. Não esperem até ter um bom motivo para ir... seja janeiro, julho ou dezembro, coloquem o Rio em sua lista de locais que merecem ser visto.

Só espero que o próximo desejo da minha esposa não seja ir para Bagdá...
Ocorreu um erro neste gadget

AmazingCounters.com
Overtons Marine Supply