quarta-feira, dezembro 25, 2013

Festa do Divino na Casa da Graça

Dona da Casa - Canto Popular



Dona da casa seu terreiro alumiou        

Dona da casa seu terreiro alumiou
Foi no terreiro que meu boi chegou        

Foi no terreiro que meu boi chegou


O sol entra pela porta                             

O sol entra pela porta
E a lua pela janela                                  

A lua pela janela


Eu vim foi pedir licença                          

Eu vim foi pedir licença

Não saio daqui sem ela                          

Não saio daqui sem ela


O sol entra pela porta                              

O sol entra pela porta
E a lua pelo portão                                 

A lua pelo portão


Dona da casa seu terreiro alumiou        

Dona da casa seu terreiro alumiou
Foi no terreiro que meu boi chegou        

Foi no terreiro que meu boi chegou


O sol entra pela porta                             

O sol entra pela porta
E a lua pela janela                                  

A lua pela janela


Eu vim foi pedir licença                          

Eu vim foi pedir licença

Não saio daqui sem ela                          

Não saio daqui sem ela


O sol entra pela porta                             

O sol entra pela porta
E a lua pelo portão                                 

A lua pelo portão

Canto para Oxalá  - Rita Ribeiro



Oni saurê                                 Aul axé
Oni saurê                                Oberioman
Oni saurê                                Aul axé babá
Oni saurê                                Oberioman                         

Oni saurê                         

 

Babá saurê                             Aul axé                             

Baba saurê                             Oberioman

Baba saurê                             Aul axé babá
Baba saurê                             Oberioman                        
Baba saurê                           


Oxalá é Rei                             Meu pai Axé
Oxalá é Rei                             Nessa CAsa
Oxalá é Rei                             Nessa casa santa
Oxalá é Rei                             Eu vou afirmar                 
Oxalá é Rei

Baba é o Rei                           Meu pai Axé
Baba é o Rei                           Nessa CAsa
Baba é o Rei                           Nessa casa santa
Baba é o Rei                           Estou a afirmar               
Baba é o Rei


Cristo é o Rei                          Jesus Axé
Cristo é o Rei                          Nessa CAsa
Cristo é o Rei                          Nessa casa santa
Cristo é o Rei                          Volto a afirmar                
Cristo é Rei

Ah, ah, ah...                               Ah, ah, ah... ( para baixo)
Ah, ah, ah...                               Ah, ah, ah... ( para cima)


 Oxalá é Rei... ( repetir)

Folia de Rei



Ai, andar andei! 
Ai, como eu andei! 
E aprendi a nova lei: 

Alegria em nome da rainha 
E folia em nome de rei!
Alegria em nome da rainha 
E folia em nome de rei!


Ai, mar marujei! 
Ai, eu naveguei! 
E aprendi a nova lei: 

Se é de terra que fique na areia 
O mar bravo só respeita rei!
Se é de terra que fique na areia 
O mar bravo só respeita rei!
Ai, voar voei! 
Ai, como eu voei! 
E aprendi a nova lei: 

Alegria em nome das estrelas 
E folia em nome de rei!
Alegria em nome das estrelas 
E folia em nome de rei!


Ai, eu partirei! 
Ai, eu voltarei! 
Vou confirmar a nova lei: 

Alegria em nome de Cristo 
Porque Cristo foi o Rei dos reis!
Alegria em nome de Cristo 
Porque Cristo foi o Rei dos reis!
Alegria em nome de Cristo 
Porque Cristo foi o Rei dos reis!
Alegria em nome de Cristo 
Porque Cristo foi o Rei dos reis!


sexta-feira, dezembro 20, 2013

BASTIDORES DE UMA ENTREVISTA


- Boa noite, senhoras e senhores, hoje à noite, com EXCLUSIVIDADE, entrevistaremos em nossos estúdios, dois SOBREVIVENTES das TRAGÉDIAS que abalaram não apenas dois países, mas todo o MUNDO – diz a repórter, depois de ter escutado em seu fone, as ordens do diretor para intensificar a voz nas palavras exclusividade, sobreviventes, tragédias e mundo.

A câmara desvia do rosto da repórter e aponta para o rosto das duas mulheres asiáticas que serão entrevistadas.

- Ching Ying e Naingngandaw são sobreviventes dos dois grandes desastres que abalaram a Ásia: Ching do terremoto que matou 8.000 pessoas na China e Naingngandaw do Ciclone que segundo estimativas já causou a morte de 32.000 pessoas na Birmânia ou Miamar.

Em um rápido flash, imagens das duas tragédias surgem na tela da TV: crianças subnutridas, parentes chorando suas vitimas, casas destroçadas, corpos boiando nas águas, tudo sob uma trilha sonora instrumental melancólica, que aumenta o tom, toda vez que a imagem se centraliza no rosto de um pobre desafortunado.

- Entrevista primeiro a Miamense ou a Birmanense. Sei lá! – ordena o Diretor – Entrevista a mulher com os olhos menos puxados.

A repórter obedece, e o cinegrafista aproxima a lente do rosto da mulher.

- Senhora Naingngandaw – diz a repórter – Como foi assistir IMPOTENTEMENTE a sua FAMÍLIA ser LEVADA pelas ÁGUAS?

Close no rosto da mulher. Não há lágrimas, apenas uma ira pulsante em seus olhos.

- Pior foi assistir o meu governo recusar ajuda internacional em nome da política. – diz a mulher, quase gritando. - Tragédia não foi o Ciclone, pior é a ignorância humana!

- Corta! – ordena o Diretor.

- Estamos ao vivo – revela o cinegrafista.

- Muda para a outra asiática. AGORA!!!- grita o Diretor. - Ninguém quer saber de política. O ibope desceu dois números. Pula para a outra entrevistada!

- Senhora Ching – diz a repórter, improvisando e sentando-se ao lado da Chinesa – Como foi para a senhora, a experiência de ver toda A SUA FAMÍLIA ser enterrada VIVA durante o TERREMOTO?

A chinesa segurava um tigre de pelúcia em suas mãos e começa a contar sua estória com tristeza:

- Esse tigre pertencia a minha netinha – diz a mulher emocionada.- Ela era tudo pra mim.

- Close no tigre! - ordena o Diretor para o cinegrafista. - A audiência está subindo de novo.

E a entrevista continua...

- Só Deus sabe de onde preciso tirar forças para continuar – diz a mulher e a imagem vai subindo do tigre para o seu rosto que ameaça virar uma cachoeira.

- Isso mesmo! – grita o Diretor – Faça as perguntas que fazem chorar!

- Como é chegar em casa e não ENCONTRAR NINGUÉM, nem mesmo a sua CASA? – pergunta a repórter e o rosto da mulher vira mar de tanto chorar. Quanto mais ela chora, mas a audiência vai aumentando - Dói, não? – complementa a repórter que também desata a chorar.
- Continua – manda o Diretor - vamos bater o recorde de público!!! Agora, faça a pergunta para fazer a audiência chorar.

- E você em casa?- diz a repórter, olhando para a câmera. - Olhe bem seus parentes ao seu redor, aqueles que você ama, e medite nisso: essa tragédia poderia ter ocorrido com você!

Naquele momento em milhares de casas; cada indivíduo que assistia a entrevista, começa a chorar e as lágrimas aumentam ainda mais, quando a mesma música triste é tocada, as mesmas imagens da tragédia são mostradas, os mesmos closes nos rostos das pobres vitimas,numa exposição interminável desses desastres que diminuem a vida de uns e aumentam a fortuna de outros.


quinta-feira, dezembro 19, 2013

A Primeira Estrela



Não tenho luneta, mas me considero um caçador de estrelas. Adoro procurá-las, mesmo que o céu nublado e poluído da cidade grande, muitas vezes não permita. Vibro com as novas descobertas; conto as que consigo ver sem medo da ameaça das verrugas nas pontas dos dedos e com um pouco de conhecimento de astronomia, meus olhos viajam pelas imagens das constelações com os nomes de heróis e seres da antiguidade. Tento imaginar em qual constelação, essas poucas estrelas que vejo pertence e nessa brincadeira noturna, vou dormir com a imagem de um Frank virando um Surfista Prateado, deslizando pelo espaço. Nesses devaneios, termino sentindo uma saudade de casa, da verdadeira casa, o lugar de onde eu vim e para onde retornarei, afinal somos todos feitos de poeira estelar.

Esses dias tive a oportunidade de passar três dias em Itatiaia no estado do Rio de Janeiro. O Parque e o famoso pico das Agulhas Negras dispensam explicações e é um destino obrigatório para qualquer um andarilho da terra ou das estrelas. Fui para lá para descansar por um fim de semana, e apesar de mal poder esperar pelas caminhadas, cachoeiras e pelo descanso merecido, confesso que estava ainda mais ansioso pelas estrelas. O dia ensolarado e o céu sem nuvens, prometiam uma noite tapeada de estrelas.

A tarde passou correndo e a noite ameaçava chegar. Deitado na varanda da pousada em que estava, fiquei olhando as cores do horizonte mudarem rapidamente de azul claro para laranja e vermelho e o sol se esconder por trás das montanhas que tinham o formato de uma índia. Não pensava em nada, apenas observava o dia se misturando com a noite e de repente, surgiu a primeira estrela. Era a primeira vez em que observava o surgimento das estrelas no céu. Nunca tive tempo para isso, apenas sigo correndo para o trabalho durante o dia e voltando pra casa durante a noite. Ali, eu tinha todo o tempo do mundo, não havia pressa de chegar ou partir, apenas estar presente.

Mas estar presente não é nada fácil. Nunca estamos 100 % num momento. Não sei quanto a vocês, mas tenho um terrível problema de aproveitar totalmente o meu aqui e agora. Perco momentos maravilhosos em minhas horas livres, pensando se não estou desperdiçando o meu tempo ou se consegui fazer tudo aquilo que planejei fazer nessas “horas livres” que na teoria eu deveria usar para fazer nada. Às vezes, precisamos apenas fazer nada para curtir tudo por completo; se ao menos não estivéssemos tão preocupados em fazer algo...

Naquele momento nada mais importava para mim do que caçar as minhas estrelas. Vi a primeira, contei a segunda, fui pego de surpresa pela terceira e quando a décima apareceu, eu já estava além da terra e meus olhos viraram cometas pelo céu que apresentava o seu show estelar.

De acordo com um artigo* que eu estava lendo, o céu estrelado foi a primeira grande atividade especulativa do homem (inscrições e construções em pedra datam de até 30.000 anos atrás). Naquela época, o céu era observado com espanto, admiração e respeito, provocando profundo sentimento de idolatria, daí os nomes das constelações terem sido nomeados com seus deuses, heróis e mitos. Os astros eram divinos e o céu sagrado servia de morada aos deuses. 

Contemplando o céu em noites extremamente límpidas e sem iluminação artificial, os homens inventaram as constelações: figuras imaginárias de seres mitológicos, animais e objetos nos alinhamentos estelares. Cada povo ou tribo tinha as suas próprias constelações e, para memorizá-las criavam mitos.

Vivendo da caça, da pesca e da agricultura, precisavam conhecer detalhadamente o clima, épocas de plantio e de colheita e o céu constelado ajudava imensamente neste sentido. Além de servir como calendário, lembrando épocas do ano, explicava fenômenos naturais.

Atualmente as constelações não possuem a expressiva significação que tinham na antiguidade. São utilizadas pela Astronomia para indicar direções do Universo e facilitam o reconhecimento do céu.

Para o homem comum da cidade grande, tendo toda a informação impressa e a disposição, poucos param para observar o céu ou mesmo admirar as estrelas. O mesmo não ocorre no interior, onde o homem do campo ainda se baseia no céu para muitas coisas que faz.

Lembro que meu avô costumava confiar mais na posição do sol no céu do que em seu relógio quando o assunto era saber as horas: “ O relógio pode estar atrasado ou adiantado, o sol não!”, dizia ele quando eu era pequeno e morávamos no interior da Paraíba.

Foi nessa época que me apaixonei totalmente pelas estrelas e pelos desenhos dos deuses que os livros diziam que as estrelas formavam no céu. Foi sob o céu estrelado que comecei a contar minhas primeiras estórias e elas eram muitas vezes baseadas  em Órion o gigante guerreiro, que vivia sob nossas cabeças ou nas aventuras em que eu fingia ser Perseu e montava em Pégaso, o cavalo alado, e lutava contra o monstro marinho Cetus, para salvar minha amada Andrômeda.

Em Itatiaia, naquela noite em que caçava as estrelas, tornei a ser menino e continuaria a noite toda ali, se não tivesse um jantar a minha espera e alguém me aguardando, afinal, eu não podia perder a chance de cumprir todas as mil coisas planejadas.

Frank


* Nota do autor: parte do texto que se refere a história das constelações foi baseada no artigo "As Constelações" da autora Edna Maria Esteves da Silva. Coordenadora do Planetário da Universidade Federal de Santa Catarina.Maio/1999

terça-feira, dezembro 17, 2013

A Mulher que Odiava Flores


Ela odiava ganhar rosas ou flores, tinha deixado bem claro para o namorado, para a família, para os amigos: Nem pensem em me dar algo que deveria estar em um jardim ou nos campos.

Ela era mesmo diferente. Não Era feminista, mas odiava qualquer coisa que a reduzisse a uma menina delicada, um ser frágil ou alguém que precisasse ser protegida. Ela sabia se cuidar. Sempre se virou muito bem em um mundo dominado por homens. Quando pequena, jogava futebol com a meninada, enquanto as suas amiguinhas brincavam de boneca.

Era feminina, mas acreditava que uma mulher deveria ter algo a mais pra mostrar que uma bunda, um par de peitos siliconizados ou um rostinho clonado de uma modelo de capa de revista.

No dia Internacional das Mulheres faltou ao trabalho. Não queria passar pela humilhação de agradecer a florzinha mixuruca que o chefe lhe daria pelo “dia especial” mesmo tendo a desprezado o ano inteiro.

No fim da tarde, enquanto centenas de mulheres saiam de seus escritórios com suas rosas, ela empunhava uma bandeira e parava a Avenida Paulista, junto com milhares de outras pessoas, em protesto contra a presença do presidente americano George W. Bush no Brasil.

A caminho de casa, já não agüentava olhar tantas outras mulheres carregando seus “presentinhos”. Queria gritar fugir, acordar num mundo onde as mulheres fossem menos fúteis, mas ela precisava ir pra casa e o metrô e aquela multidão de “Amélias” não iriam impedi-la de chegar em casa.

Olhando essas mulheres carregando as suas rosas com tanto orgulho, ela tentou se lembrar de onde vinha a sua “repulsa” por flores e rosas, mas não conseguiu se lembrar.

-Afinal o que havia de errado com as flores? – ela pensou e algo começou a perturbá-la profundamente. Lá no fundo, enterrado sob camadas de opiniões, discursos superficiais e atitudes defensivas, estava um desejo incontrolável de ser como as outras. Ela era a única mulher no vagão que não carregava uma rosa, que não tinha sido parabenizada e isso a estava incomodando profundamente.

-Ridículo – disse – Isso é pura hipocrisia! Todo dia é dias das Mulheres!

Chegou em casa arrasada, triste e solitária. Pensou no elevador em ligar para o namorado, mas recordou-se que ela mesmo havia ligado pra ele e pedido para não ser tratada como uma “mulher” só por causa do 08 de Março.

Então, ela abriu a porta, acendeu a luz e notou que em cima da mesa no corredor, entre o Buda dourado que comprara no Nepal e o espelho, havia uma rosa e um bilhete:

“Eu sei que você odeia
Mas não pude evitar
Feliz Dia das Mulheres!”“


Ela chorou, quando a máscara caiu e o espelho refletiu o rosto feliz de uma mulher.

segunda-feira, dezembro 16, 2013

SILÊNCIO

Essa semana tentei trabalhar com o silêncio, mas tudo o que consegui foi gritar, fazer um dos barulhos mais terríveis que já produzi, com isso, feri ouvidos, abalei amigos por não saber respeitar que a melhor solução para certas situações é mesmo o silêncio.

Descobri com isso que é muito difícil calar a mente, silenciar o ego gritante que tenta a todo momento ser ouvido. Percebi que o silêncio é uma força bem mais forte que o som e por não ser verbalizado, produz um efeito muito melhor que mil discursos, que milhares de parábolas ou defesas desenfreadas, onde se cospe palavras e acabamos não falando nada.

Enquanto o som corre o risco de ser mal interpretado ou ser equivocadamente ouvido; o silêncio faz pensar, cultiva a dúvida, flui em correntes de reflexão, cai feito a mais fina chuva, e acalma a necessidade de uma resposta imediata a uma provocação.

O silêncio é a melhor resposta para certas perguntas e a melhor explicação para as grandes questões da vida: de onde viemos, quem somos e para onde vamos, só podem ser explicadas com o silêncio.


Sábio é o homem que escuta e só fala, como diz o escritor Rubens Alves, quando o silêncio pode ser substituído por algo maior e melhor.

sexta-feira, dezembro 13, 2013

Tricksters - Sexta-feira 13


Os piores Tricksters são aqueles com curvas que surgem nas penumbras para o deleite daqueles que acham que receberam um presente de Natal, mas estão recebendo a tal pegadinha de sexta-feira treze.

terça-feira, dezembro 10, 2013

A GREVE DO LIXO

( ou a fantástica estória da mulher que transformou lixo em dinheiro)

Sofia nunca havia se interessado por reciclagem antes, achava uma perda de tempo. Toda essa estória de preservação do meio ambiente, para ela, não passava de uma grande bobagem. Pagava os seus impostos e era mais que justo que gastasse a água quente que quisesse em seus banhos, deixasse a torneira aberta enquanto escovava seus dentes ou lavava os seus pratos e talheres. Separar o lixo que ela produzia, era um luxo para alguém que corria contra o tempo; alta executiva de uma empresa financeira, Sofia estava sempre em eterna correria; por isso nem empregada tinha, pois não queria se preocupar com nada a mais que o seu trabalho. Além disso, acreditava que era justamente o lixo que ela criava que dava emprego a tantos garis e pessoas empregadas nessas centenas de empresas de coleta de lixo em São Paulo.

Porém, certo dia, os lixeiros não vieram e os sacos começaram a se acumular á sua porta. Uma semana depois, para piorar a situação, o rádio anunciou que a greve das empresas de coleta continuaria. Ela entrou em pânico: onde jogaria tanto lixo que estava empilhado em sacos na cozinha? Ela não separava os restos de comida das latas, os plásticos dos jornais velhos e revistas folheadas; tudo ia para o mesmo saco de lixo. Para ela, era obrigação dos lixeiros cuidarem do resto.

Com o odor ficando cada vez mais insuportável, Sofia pensou até em pagar alguém para remover aqueles sacos, mas na mesma semana da greve do lixo, ela foi mandada embora do banco em que trabalhava.

Deprimida pelo desemprego, pelas dividas que chegavam e incomodada com tanto lixo parado; ela começou a perceber que se tivesse separado a comida do vidro, o papel do plástico, não teria tanto lixo acumulado; afinal, volta e meia, passava um catador de papelão e latinhas pela porta da sua residência.

Entre a busca de um emprego e outro; ela começou a pesquisar sobre reciclagem. Em principio por não ter mais nada a fazer, depois com uma crescente curiosidade; e percebeu que isso poderia ser uma boa fonte de negócios. Aprendeu que vidros poderiam ser transformados em potes de alimento, garrafas; que os papéis poderiam ser reutilizados para a impressão de novos jornais, revistas, caixas de papelão, embalagens; que o metal poderia ser usado para latas, tubos de pastas; e o uso para o plástico era quase infinito: potes, garrafas, sacos, embalagens, sacolas, entre outros tantos utensílios. Até o lixo perecível poderia ser reutilizado e virar adubo.

Para Sofia foi a descoberta do segredo da vida. Com os olhos de alguém que sempre busca oportunidade de negócios, ela enxergou que a reciclagem poderia transformá-la em uma alquimista do lixo, ensinando empresas a transformar desperdício em negócios. Bastou uma rápida pesquisa, para ela descobrir que as grandes empresas poderiam economizar muito dinheiro se ensinasse seus funcionários a reciclar.

Reciclar era o novo filão no mundo empresarial, que ainda não tinha tido a devida atenção no Brasil, mas ela agora estava disposta a mudar essa situação.

- Vocês sabiam que 50 quilos de papel reciclado evitam que se corte uma árvore? – perguntou ela, em sua primeira palestra em uma empresa em São Paulo – E que 76% do lixo no Brasil é lançado a céu aberto? E que a sua empresa pode economizar milhões, se cada funcionário, dos altos executivos ao porteiro, souber reciclar?

Entre outros dados alarmantes, Sofia leva atualmente suas idéias de reciclagem para várias empresas, contando a estória da mulher que passou de plantadora de lixo á semeadora de reciclagem.

quinta-feira, dezembro 05, 2013

Pai de Brincadeira


Quando eu brinco de esconde-esconde com a minha filha, 
acho sempre além dela, 
uma certa alegria 
que só quem é pai 
de brincadeira 
encontra 
numa 
real 
família.

quarta-feira, dezembro 04, 2013

O conto de fada numa abordagem Junguiana


A cada dia me encantam mais e mais as histórias dos contos de fadas, talvez porque adoro ler entrelinhas e descobrir pontos de vista diversos. Com eles desato nós, desfaço (pré)conceitos. Aprendo que as histórias têm outras feições, outros jeitos, outras formas. Aprendo sob uma ótica diferente a reescrever a minha história ou histórias.

Para Jung os contos de fada têm origem nas camadas profundas do inconsciente, comuns à psique de todos os humanos, “dão expressão a processos inconscientes e sua narração provoca a revitalização desses processos restabelecendo assim a conexão entre consciente e inconsciente”.

Pertencem ao mundo arquetípico. O arquétipo é um conceito psicossomático, unindo corpo e psique, instinto e imagem. Para Jung isso era importante, pois ele não considerava a psicologia e imagens como correlatos ou reflexos de impulsos biológicos. Sua asserção de que as imagens evocam o objetivo dos instintos implica que elas merecem um lugar de igual importância.

Os arquétipos são percebidos em comportamentos externos, especialmente aqueles que se aglomeram em torno de experiências básicas e universais da vida, tais como nascimento, casamento, maternidade, morte e separação. Também se aderem à estrutura da própria psique humana e são observáveis na relação com a vida interior ou psíquica, revelando-se por meio de figuras tais como anima, sombra, persona, e outras mais. Teoricamente, poderia existir qualquer número de arquétipos.

Os mitos seriam como sonhos de uma sociedade inteira: o desejo coletivo de uma sociedade que nasceu do inconsciente coletivo. Os mesmos tipos de personagens parecem ocorrer nos sonhos tanto na escala pessoal quanto na coletiva. Esses personagens são arquétipos humanos. Os arquétipos são impressionantemente constantes através dos tempos nas mais variadas culturas, nos sonhos e nas personalidades dos indivíduos, assim como nos mitos do mundo inteiro.

Histórias representativas do inconsciente coletivo, oriundas de tempos históricos e pré-históricos, retratando o comportamento e a sabedoria naturais da espécie humana.

Os contos de fadas apresentam temas similares descobertos em lugares muitíssimo separados e distantes em diferentes períodos. Lado a lado com as idéias religiosas (dogmas) e o mito, fornecem símbolos com cuja ajuda conteúdos inconscientes podem ser canalizados para a consciência, interpretados e integrados.

São histórias desenvolvidas em torno de temas arquetípicos. Jung tinha como hipótese que sua intenção original não era de entretenimento, mas de que viabilizavam um modo de falar sobre forças obscuras temíveis e inabordáveis em virtude de sua numinosidade, que arrebata e controla o sujeito humano, e seu poder mágico. Os atributos dessas forças eram projetados nos contos de fadas lado a lado com lendas, mitos e, em certos casos, em histórias das vidas de personagens históricas. A percepção disso assim levou Jung a afirmar que o comportamento arquetípico poderia ser estudado de dois modos, ou através do conto de fadas e do mito, ou na análise do indivíduo.

Por isto seus temas reaparecem de maneira tão evidente e pura nos contos de países os mais distantes, em épocas as mais diferentes, com um mínimo de variações. Este é o motivo porque os contos de fada interessam à psicologia analítica.

Os contos de fadas, os mitos, a arte em geral, são formas simbólicas pelas quais a psique se manifesta e que podem contribuir para a formação harmoniosa da criança. Apesar das contingências externas, das conjunturas sócio-político-económicas, há saídas para o ser humano, não somente a partir da coletividade, mas, sobretudo, a partir das metamorfoses de cada um – o caminho a que Jung chamou o “processo de individuação”.

Para Jung, “individuação” significa tornar-se um ser único, dar a melhor expressão possível às nossas características pessoais e intrínsecas.

A criança ouve a história e ela pode levá-la a uma mudança pessoal, não porque a entenda (usando, portanto, o intelecto), mas sim porque as imagens que ela contém vão diretas ao seu inconsciente, vão “trabalhar” os seus conteúdos e resolver algum problema eventual.

Apesar das suas características ditas “universais”, o conto de fadas tem sofrido alterações ao longo do tempo, de acordo com os gostos conscientes ou inconscientes de cada geração. Tal como o mito, também o conto de fadas apresenta seres e acontecimentos extraordinários, mas, em contrapartida e tal como a fábula, tende a desenrolar-se num cenário temporal e geograficamente vago, iniciando-se e terminando quase sempre da mesma forma: “Era uma vez…” e “Viveram felizes para sempre.”

Devido ao poder e à simplicidade das suas imagens, são formas de nos ajudar a despertar e operam a diversos níveis da consciência. A análise do conto propõe-nos um atalho atraente para o interior de nós mesmos, e convida-nos a efetuar um verdadeiro trabalho de auto-conhecimento e de transformação.

Os contos são mais do que ensinamentos, são uma verdadeira iniciação, misteriosa e mágica, quase sagrada. Como todas as obras de arte tradicionais, eles são sóbrios, em meios, mas ricos em símbolos e arquétipos. Os contos são um enigma cuja resolução deve ser procurada no nosso interior e não neles mesmos.

No conto A Bola de Cristal, por exemplo, o príncipe parte em busca de sua princesa que espera ser libertada. Mas quando a encontra, ela parece-lhe abominável. Então ela diz: “O que vês não é o meu verdadeiro rosto. O Grande Mágico tem-me em seu poder. Por causa dele, os homens só podem ver-me sob esta forma horrível. Se quiseres contemplar a minha verdadeira aparência, vê-me no espelho. O espelho não se deixa enganar e mostrar-te-á a minha verdadeira face”. O herói olha para o espelho e vê nele o rosto, cheio de lágrimas, da moça mais bela do mundo.

O conto é um espelho mágico no qual somos convidados a mergulhar, a fim de nos reconhecermos. Não no sentido de nos afogarmos numa auto-contemplação estéril, como Narciso, mas antes no de nos observarmos tal e qual somos, para além das aparências.

Existe em cada um de nós uma princesa encantada que achamos feia e abominável: são os nossos recalques, que vivemos sob a forma de vergonha, inveja, cólera e desencorajamento, entre outros. Se aprendermos a ver esses instintos nesse espelho de verdade que são os contos, poderemos contemplar as verdadeiras belezas que habitam em nós e que choram enquanto aguardam a sua libertação.

Essas princesas só têm um herói: nós mesmos. É a nós que compete libertar o nosso reino interior e a princesa belíssima que nos espera. É a parte mais íntima do nosso ser que encontramos no espelho dos contos e que nos conduz à libertação e ao desabrochar pleno. Existe uma identidade perfeita entre nós e o conto. O conto é a nossa história. É a encenação metafórica de aspectos nossos que ignoramos, recusamos, ou que não sabemos ver tal e qual são. Se conseguirmos penetrar no espelho e reconhecer a nossa imagem, se escutarmos o conto para nele encontrarmos aspectos concretos da nossa existência, bastar-nos-á pôr em prática as suas propostas e viver a nossa vida segundo esse modelo de verdade.

Somos feitos da mesma maneira que os contos são feitos e a função dos contos é lembrar-nos isso mesmo. Se não nos lembramos, é porque estamos sob o feitiço de um Grande Mágico, que nos subjuga, seja através de condicionamentos mentais, seja através das representações falseadas da realidade.

O conto tem por fim acordar a nossa estrutura de verdade profunda, levar-nos a experimentá-la e a pô-la em movimento, a fim de que possamos harmonizá-la com o arquétipo ideal. É ele a chave de acesso a um maior auto-conhecimento.

* Marilene Tavares de Almeida pós-graduanda em literatura infantil.


terça-feira, dezembro 03, 2013

O Surfista da Escuridão



Diga que energia vem de você e direi quem tu és...nem sempre é tão simples assim. 

Se não há duvidas em relação ao perfume de sândalos nas aparições dos Devas ou na fragrância das mirras nas festas do divino dos Santos Reis, eis que numa meditação muita intensa, senti que minha tela mental se abria e ao invés do verde-esmeralda com tons dourados das freqüências do astral alto, surgiu cores vermelhas e pretas tão umbralinas quanto as ondas de funk vindo do quintal do vizinho. 

Junto com tais cores de animar flamengueses e fazer tremer evangélicos, veio também um cheiro podre e uma onda de sentimentos muitos ruins, bem malévolos; que arrepiava a alma e me fez abrir o evangelho de preces memorizadas para me defender do perigo de atrair sem querer, com as minhas práticas, energias densas, cobras mal-criadas que viessem atrapalhar meu trabalho de luz, meu estudo da luz da alvorada. 

Se não era o diabo em pessoa, era o emissário; armei-me com tudo o que pude, escudos dos mais diversos levantei e gritei: " Auto lá, eparrei! Que esse corpo é fechado e essa casa segue a lei dos trabalhos espirituais do Cristo, meu Rei." 

E a criatura olhou me do alto da sua envergadura, olhos em chamas e peito nú, parecia um negrão, mas era um escuro para lá de hindu. Trazia um tridente nas mãos, mas não era Shiva nem tão pouco o tal do danado do " Cão"; nos pés, além de sandálias, havia uma espécie de tábua, onde ele apoiava os pés, como se surfasse naquelas ondas do mal. Ele, então, falou: " Pensei que você era espiritualista, buscador de todas as esferas, incluindo as cinzas. Mas percebo que me enganei, você ainda é um frangote, não sabe ver além das aparências, nem filtrar o que percebe além do que te dizem as suas ventas."

A voz dele tinha som de trovão e era tão ou mais ameaçadora que os esturros de um tigre. Dava medo de ouvir, mas eu precisava escutar: 

" Os anjos estão nas alturas onde estão, os santos em seus altares; aqui embaixo é exu que libera as almas dos corpos, é exu que tira a desarmonia dos lares. Não nos vestimos de águia, nem nos disfarçamos de sábias corujas; somos os urubus da vida, rasgando as carnes do ego que não enxerga a verdade mais pura. Se engana quem passa pelas portas e não vê nada mais que madeira e ferro, pois estamos em cada porta e nesse plano, somos quem revela os mistérios. Então, vagamundo da Terra, se você quiser mesmo descobrir o que há além dela, terá que ter a nossa permissão ou nunca conseguirá sentir nada além daquilo que você carrega entre as pernas." 


E assim, o Surfista da Escuridão se foi deixando um rastro de luz na minha consciência, além de uma vergonha danada por não reconhecer quem trabalha para a luz, mesmo com tantos anos de estudo de estrada. 

segunda-feira, dezembro 02, 2013

Viveka - O Discernimento Consciencial


:: Wagner Borges ::

Se eu citar Jesus e seus ensinamentos e até pregar em seu nome, mas não respeitar a crença dos outros, tudo isso de nada adiantará.

Se eu admirar Krishna e cantar mantras e louvores ao divino, mas não tiver amor pela vida, então estarei perdido em mim mesmo.

Se eu meditar profundamente e falar dos ensinamentos dos rishis, mas não ver o divino em tudo, nada serei realmente.

Se eu seguir os ensinamentos de Buda e, até pregar em nome do iluminado, mas não praticá-los nas lides da vida cotidiana, então tudo continuará em trevas dentro do meu coração.

Se eu falar dos ensinamentos dos mestres, ou dos mentores espirituais, mas não viver com alegria e nem me apaixonar pelo Todo, com certeza terei perdido o tempo de vida e suas experiências.

Se eu falar de Shiva, mas não transformar o meu ego em servidor da luz, de que adiantará?

Se eu falar dos santos, dos boddhisattvas, dos avatares, ou mesmo dos anjos, mas ainda carregar violência em meu coração, tudo permanecerá estranho dentro de mim.
Se eu falar da luz, mas carregar maldade em meus anseios e portar as faixas escuras do ódio no coração, então andarei em trevas.

Se eu falar da Mãe Divina e de sua doçura incondicional, mas projetar as farpas do egoísmo e da maledicência sobre os outros, estarei em miséria consciencial.
E se eu estudar os temas conscienciais, mas permanecer cheio de medo diante do invisível e ainda temer as provas do caminho, então só restarão as cinzas de minha ignorância diante do meu olhar de impotência.

Mas, se, mesmo diante das dificuldades, eu assumir o comando de minha consciência e melhorar o que penso, o que sinto e o que faço, então serei eu mesmo melhorado.
E essa é a grande riqueza que alcançarei: eu mesmo melhorado!
Não é o que acredito, que faz o que eu sou. É o que eu sou, realmente, que me faz como sou.

Por todo tempo, por onde eu for, seja com quem for, que seja eu mesmo, sempre melhorado, sempre aprendendo...

Maravilha das maravilhas, eu mesmo, sempre feliz.

PS.: De que adiantam as vitórias efêmeras no mundo, se, por dentro, na casa do coração, reinam a desordem e a agitação?

De que adianta ter um corpo lindo, se a alma é pequena e cinzenta?

De que vale encher a cara de bebida, se, por dentro, tudo está ressecado e sem brilho?

De que adianta deitar com alguém na cama, se o coração não chama e o pensamento/sentimento voa para longe, para outro coração?

De que adianta ser arrogante por fora, se, por dentro, o medo de viver corrompe os melhores potenciais do ser?

De que adianta falar de amor, sem amar realmente?

De que adianta viver sem viver, só se arrastando, sem outros horizontes?

De que adianta a um homem ganhar o mundo, se ele perder sua alma?

Paz e Luz.
Wagner Borges – sujeito com qualidades e defeitos, mestre de coisa alguma e discípulo de coisa nenhuma, que sempre agradece ao Todo, por tudo.
São Paulo, 02 de maio de 2007.

* Enquanto passava esse material a limpo, lembrei-me de um texto do poeta Walt Whitman. Reproduzo o mesmo na seqüência.

CANTO A MIM MESMO
por Walt Whitman

Estão todas as verdades
À espera em todas as coisas:
Não apressam o próprio nascimento
Nem a ele se opõem;
Não carecem do fórceps do obstetra,
E para mim a menos significante
É grande como todas.
Que pode haver de maior ou menor do que um toque?

Sermões e lógicas jamais convencem;
O peso da noite cala bem mais
Fundo em minha alma.

Só o que se prova a qualquer homem ou mulher,
É o que é;
Só o que ninguém pode negar,
É o que é.

Um minuto e uma gota de mim
Tranqüilizam o meu cérebro:
Eu acredito que torrões de barro
Podem vir a ser lâmpadas e amantes;
Que um manual de manuais é a carne
De um homem ou de uma mulher;
E que num ápice ou numa flor
Está o sentimento de um pelo outro,
E hão de ramificar-se ao infinito,
A começar daí,
Até que essa lição venha a ser de todos,
E um e todos possam nos deleitar
E nós a eles.
- Texto extraído do livro Folhas das Folhas de Relva; Editora Ediouro.
Walt Whitman – 1819-1892 - grande poeta e escritor norte-americano.

Wagner Borges é pesquisador,
conferencista e instrutor de cursos de Projeciologia e autor dos livros Viagem Espiritual 1, 2 e 3 entre outros.

Visite seu Site e conheça a área de áudio e vídeo.

Ocorreu um erro neste gadget

AmazingCounters.com
Overtons Marine Supply