quarta-feira, dezembro 31, 2008

BAILANDO

Há anos que passam pela gente, há outros que ficam como presente, dentro do nosso peito.

Quando dois mil e oito começou, jamais imaginei o quanto a minha vida mudaria e em como o destino me faria rever e recaminhar velhas trilhas e ao mesmo tempo começar novos rumos.

Nesse ano de resgate, recuperei minha irmâ Umbanda, fiz minhas preces a Cristo, aos Devas, Santos, Deuses indianos e Orixás. Nunca fui tão Namastê.

Minha bela esposa voltou a ser a minha musa, amigos se foram e outros tantos reapareçeram em minha estrada, como se brotassem em árvores, após um longo inverno da ausência da verdadeira amizade.

Foram tantos as "Festas da Vida", tantos textos, tantas poesias, tantas músicas, tanta alegria, que mesmo diante das pedradas que levei e das rochas no caminho, fiz sopinha de pedrinhas, extrai o melhor de cada situação e segui em frente, experimentando o feio e o bonito, na dualidade de todas as coisas que a Vida me deixa experimentar.

Saudades tenho de muitos parentes ( outros tantos, queria mesmo era distância); e como todo fim-de-ano acaba em enumeração de realizações, cito duas: Comecei 2008 como aluno e termino como professor; comecei 2008 com pequenos ensaios no chuveiro e termino como cantor. Fui graduado nas letras e na música! Quem diria? Ele disse, Ela fez ser.

Por isso agradeço ao Jesus menino, ao Budinha Guri, ao Menino Dourado e todos os erês que me fizeram ver "que para ser homem, é preciso ter a grandeza de um menino*".

Feliz 2009 a todos, que todos vocês sigam voando e bailando essa nossa vida maravilhosa, que a cada ano que passa, fica mais bonita, mais bonita e mais bonita.



* Girassol: canção do Cidade Negra

terça-feira, dezembro 30, 2008

O MANTO DE MAMÃE OXUM II

Em cada movimento dos braços, em cada mexer dos dedos; cachoeiras de pedidos saem do seu manto e Yansã faz chover cada um deles em nossos rios.

Em cada movimento dos braços, em cada mexer dos dedos; arco-iris de desejos cruzam o céu que eu vejo e noto Nanã distribuindo cada presente sem cobrar passado e nem exigir futuro.

Em cada movimento dos braços, em cada mexer dos dedos; vejo a Mãe Yemanjá limpar e iluminar; e eu pergunto:

- Mãe, o manto colorido que eu vi agora a pouco, era mesmo de Oxum?

E a Mãe Divina vira Erê e sai correndo, sem dizer nada.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

O Vazio e o Espaço Preenchido

Estou em uma das praias de São Paulo. Vejo carros cruzando as avenidas deixando um rastro de som; as pessoas falam alto; os bares atraem clientes com as mais variadas batidas eletrônicas; procuro, tento, mas não consigo escutar o mar.

A praia está lotada, no lugar da areia, os guarda-sóis com seus milhões de banhistas. Todos os espaços estão preenchidos, não insisto, desisto do mar, vou em busca do vazio, estou precisando de uma dose disso, de silêncio, de quietude, do descanso merecido.

Por um momento, penso que estou ficando velho: percebi que tenho tolerância zero para o barulho; evito nadar no mar de pessoas das ruas de São Paulo ou qualquer outro lugar; mas sinto que a questão não é a idade e sim a seleção. Tornei-me mais seletivo. Tenho selecionado melhor os lugares que me dão prazer, os sons que ouço, as pessoas com quem converso e aprendo; tenho filtrado melhor o que absorvo dos outros, do mundo.

Sou um observador, sou cronista, adoro estar entre a nossa gente, ouvindo as suas estórias, aprendendo com a vida de cada um; mas as vezes é preciso estar só; as vezes é preciso cultivar o silêncio; as vezes é preciso esvaziar os bolsos da matéria, para alcançar o que guardamos na alma.

Nesse processo coletivo que é viver nesse mundo, muitas são as vezes, em que ocupamos todos os espaços vazios da nossa praia com guarda-sóis, quarda-tranqueiras, guarda-coisas que não valem mais nada.

Eu percebi, na minha busca para escutar o silêncio, que na minha jukebox toca canções sem parar. Melodias ultrapassadas que atraem emoções estranhas e já experenciadas, nessa rádio da minha alma, ecoando músicas distorcidas no volume mais alto. Ocupo a minha mente com qualquer coisa, na tentativa de expulsar o silêncio, livrar-me do vazio, combater a quietude; sem perceber que é no espaço entre duas palavras, no vazio entre dois sons, que EU SOU pleno.

Quem EU SOU de verdade reside no espaço vazio entre o que eu penso e o que eu faço. Quem EU SOU em essência reside na quietude da alma que tudo vê e tudo sabe. Para perceber esse SER EU, é preciso calar-me, silenciar os pensamentos e perceber o vazio entre as letras. Como escritor, eu deveria já ter compreendido que uma frase não é feita apenas de palavras e sim também com os espaços vazios entre elas. Sem esse espaço, as palavras ficariam todas coladas uma as outras, não existiria pausa, não existiria nada.

Ao prestarmos mais atenção as pausas, ao vazio, ao espaço que não precisa ser preenchido; educamos os olhos e os ouvidos e limpamos o caos que criamos e que nos distrai do que realmente interessa ser ouvido, lido e aprendido. Ao dedicarmos mais tempo aos momentos de solitude, de harmonia com o mundo a nossa volta e ao silêncio, somos capazes de perceber que o que buscamos fora, sempre habitou dentro; e por trás do que aparenta ser nada, está tudo.

ENCANTAMENTO

Onde estava a Grande Verdade que estava aqui? Para onde foi o Caminho do Criador que eu acabei de mapear? Onde está a escada para o céu, formada de estrelas, que eu acabei de usar? Onde está o tesouro que acabei de desenterrar?

Assim não dá! Toda vez que eu descubro os mistérios do Divino, eles mudam de forma, voltam a ficar ocultos. Será que é mesmo preciso guardá-los no Segredo do não tentar revelar? Será que é um encanto que muda o céu de lugar, antes mesmo que eu consiga aos outros apontar e dizer onde está? Será que quando conseguimos interpretar e colocar em palavras, a experiência fica pobre, disforme e some para não mais voltar?

Quero compor uma canção que consiga descrever as maravilhas que vivi. Quero escrever um poema que consiga palavrear as coisas bonitas que senti. Porém, tudo o que consigo fazer é sombrear a luz que acabou de me iluminar.

Talvez essas coisas sejam assim mesmo, talvez, tudo deva mesmo permanecer em segredo, mas como sou teimoso, vou continuar a tentar escrever sobre o que não pode ser escrito e quem sabe assim, você possa perceber, depois de ter lido, que também teve um vislumbre do Divino, através do Menino Deus que passou rapidinho pelo nosso pensar, apenas para nos dar vontade de continuar a brincar desse esconde-esconde do religar.

domingo, dezembro 28, 2008

O Manto de Oxum

Eu vi Mamãe Oxum em algum lugar entre o aqui e Aruanda. Ela ouvia os nossos pedidos com a atenção de quem escutava as gotas d'água descendo pela cachoeira e seus braços se moviam como se fossem correntezas de um rio.

Eu vi Mamãe Oxum dançando em algum lugar entre o aqui e Aruanda. Suas mãos subiam e desciam, iam e vinham, como se ela estivesse a bailar e estivesse pegando algo do alto que meus olhos não conseguiram ver, mas meu coração sabia, era amor, era amor, era amor, e do manto branco que cobria seus braços, caiam cores, e cada cor era um pedido que ela enviava para seus filhos de fé.

Eu vi Mamãe Oxum nos enviando prosperidade, amor, saúde e esperança de algum lugar entre a Terra e Aruanda. Nenhum esforço ela fazia para nos abençoar; mas a medida que eu via os milhares de pedidos cairem do seu manto; fiquei com vergonha de pedir tanto. Eu sei que a Mãe Divina não cansa de nos dar suas benções, mas eu tenho muito mais o que agradecer, e cedo a minha vez a quem precisa mais do que eu, a quem ainda não consegue enxergar que há um poço inesgotável dos desejos dentro de cada um de nós, basta querer trabalhar para transformar esses sonhos em matéria.

sábado, dezembro 27, 2008

Papai Noel do Lixo

Eu vi Papai Noel remexendo uma lata de lixo. Ele estava magro e tinha cara de gente cansada, sua roupa vermelha estava suja de barro e ele fedia o cheiro de quem mora nas ruas.

Perguntei se podia fazer algo por ele, quem sabe chamar as suas renas ou alguém da sua família lá do Polo Norte para vir lhe buscar. Ele agradeceu a minha preocupação e disse que se eu pudesse lhe ceder alguns trocados já lhe faria grande ajuda.

Achei melhor não; desconfiei que o Papai Noel usaria os meus trocados para comprar algo menos sagrado que alimento e quando lhe ofereci o pagamento de uma refeição no restaurante ao lado; ele mandou-me ao inferno das boas intenções.

Sei não, acho que não acredito mais em Papai Noel.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Uma Crônica de Natal

Um brinde ao peru assado!

Um viva ao presente embrulhado!

Um brinde a cerveja gelada!

Um viva a fartura na mesa!

Um brinde a Jesus?

Um Viva a Cristo?

Como assim? Quem é esse tal Jesus Cristo?

Cidade Alagada

Carros que viram barcos, ruas que viram rios; pessoas que se tornam peixes. Eu vejo o futuro ou este é mesmo o meu presente?

Escadas que viram cachoeiras. Bairros que viram ilhas. Prédios que se tornam torres. Será o dilúvio do fim dos tempos? Ou será simplesmente a natureza mostrando que é mais forte que o homem?

Noé, meu velho, ainda tem vaga na sua arca?

sábado, dezembro 20, 2008

LEIAM: VAI CAIR NA PROVA!

Olha aqui,
Não foge com esse olhar;
Olha pra cá,
Volta para mim,
Para as letras que criarão significados em sua cabeça,
Para a leitura que te seduz,
Que te norteia,
Vai cair na prova,
Leia:
SÓ O AMOR VALE A PENA!!!

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Templo Olhar Divino

Bê com o, é o bo
Ene e i, é o ni
Tê com o, é o to

BONITO de se vê
BONITO de cantar
BONITO de viver
BONITO de olhar

É o OLHAR DIVINO
É o OLHAR DIVINO
É o OLHAR DIVINO

Que o DAIME faz ver
Que faz ser UMBANDA
JAY JAY SHALOM
IshALÁ o OLHAR


Canção escrita no metrô da Sé, São Paulo, enquanto eu esperava a minha musa chegar.

Toda a Tragédia do Mundo

Você já se perguntou o que as tragédias do mundo tem a ver com a sua vida?

Alguma vez você já leu as notícias nos grandes jornais ou assistiu na TV os assuntos do mundo como um reflexo profundo do seu ser?

Eu sei. São tantas as tragédias, que a vontade que temos é vivermos isolados numa ilha distante ou irmos embora de vez para a Parságada do poeta Bandeira.

Sim, eu te entendo. São tantas as mortes sem motivos, as consequências da crise, os sinais dos Cavaleiros do Apocalipse, que sentimos vontade de sermos cegos para as imagens tristes do mundo e surdos para os ecos de nossas mazelas que se espalham feito vírus nas bocas dos outros em conversas de elevadores.

Contudo, os macaquinhos que nada vêem, nada escutam, nada dizem e nada fazem precisam evoluir e tornar-se homens que sabem discernir, seres com um olhar de peneira que filtram tudo aquilo que é besteira, manipulação da mídia, choro coletivo, ameaças de castigo divino e transformam tudo isso em algo a mais que "aquilo" que digerimos, engolimos e deixamos para lá.

Se há uma razão pela qual ocorrem tragédias refletidas em nosso olhar é por elas terem a finalidade de nos mostrar que sempre ocorrerão "tragédias" no mundo, mas que elas não precisam ocorrer pelas nossas mãos, pelos nossos atos, pelos nossos pensamentos e pelo nosso ignorar.

O mundo não precisa de heróis, de salvadores. O mundo não precisa que façamos grandes ações. Basta um pensamento, uma mudança de atitude, para que o efeito repercute em toda a gente.

Vivemos num mundo de dualidade, num plano que segue com o seu bailado de luz e sombras, amor e dor; a escolha de que lado vamos ficar, depende apenas de nós. É isso que a tragédia vem ensinar, é isso que a tragédia vem trazer.

Há sim uma relação entre toda a tragédia do mundo e o nosso olhar, pois é aceitando o mundo com todas as suas diferenças, coisas belas e coisas que aparentam ser feias, que fará com que compreendamos cada vez mais o nosso papel nesse palco, nesse show do Divino que é a vida na Terra.

Uma gota de amor pode matar a sede de uma multidão que só precisa de um pouco de atenção para se reerguer e voar. Um pouquinho de carinho pode saciar a fome de milhares que vivem de escuridão, e para tanto, basta um ponto de luz numa sincera oração, numa meditação no cantinho do seu quarto, a qualquer momento, a qualquer hora que você sinta vontade de ser luz e queira doar algo a mais que o seu olhar.

Imagens: http://poesiastheodoro.blogspot.com/

quinta-feira, dezembro 18, 2008

A Menina e o Acordeão

Menina pequena, acordeão gigante. Que música sairá dos dois? Que melodia encantará meus ouvidos de pescador perdido?

Tânia ri baixinho e me pede ajuda para lembrar o ritmo de uma canção. Sei não, Tânia! Só me lembro de algo assim:

- Hum, hum, tan, tan, tan... - resmungo no que era para cantarolar.

- Fum, fum, fan, fan, fan... - canta o arcodeão ou será que foi a Tânia?

Tenho medo que ela descubra que sou novo na banda e só sei mesmo cantar no chuveiro, mas desconfio que Tânia olha para a minha alma como quem encara um espelho e vê o reflexo de si mesmo. Um dia ela deve ter sido assim como eu, um analfabeto musical que não distingue um SOL de um LÁ; quem sabe tenho chances em me tornar um músico, acho que já passou da hora de aprender a tocar aquela gaita do Paraguai. Devaneio e volto, tudo o que preciso fazer é cantar...

Continuamos o nosso estranho dueto e o som do arcodeão chama a atenção de todo o salão. Penso nas ruas de Cajazeiras, no sertão da Paraíba, ao mesmo tempo que sou arremessado para as esquinas de Paris. Oxente, Monsieur! Sei lá onde vou, Mon Chérie, mas vou lá,anyway, pois tudo tem cara de Déjà vu. Já vivi isso antes, um ensaio para a música e o outro ensaio para a escrita. Não sou nenhum, nem outro ainda, mas sei que sou da arte de fazer poesia em flor, como diz Auri, quando recebo um poema caindo do céu.

A música continua...

Somos o arroz da festa, quero dizer, ela é, eu só seguro a letra, e fico morrendo de vontade de fazer crônica, mas não cronico nada, pois é hora da música. Esse é o momento do laríngeo, dos ouvidos, das batidas do tambor do cardíaco e do ritmo de cada pulsar do meu corpo para acompanhar a Tânia tocando as belas canções de um certo
Mestre seringueiro.

Cada canção é uma porta para a festa da alma e por toda a jornada, observo, enquanto canto, a relação de amor entre a menina e o acordeão. E quando finalmente, parece que Tânia tirou todo o som que podia do seu instrumento musical, o acordeão começa a entoar os acordes de uma canção para a Deusa da Cachoeira e dos rios. Oxum, não poderia ter mais bonita homenagem. Não dá mais vontade de cantar, somente ficar quietinho e escutar aquela canção belissíma que meus ouvidos tiveram a honra de ouvir, e observar o riso baixinho de Tânia, riso de felicidade que se propaga nos aplausos. O seu acordeão bem que quis também agradecer, mas coitado, exausto, ele descansava em seus braços agora em silêncio.

Imagem: Loreena McKennitt - grande cantora e multi-instrumentista.
http://www.quinlanroad.com/

Uma Certa Escola do Ipiranga

Numa certa rua do Ipiranga

Há uma vela que permanece sempre acesa

Ela é um ponto de luz na grande São Paulo

Onde estudantes da vida, celebram

O saber, a música e a bem aventurança


Por ela corto o silêncio

Por ela eu verso e falo

Pois esse ponto de luz

É a minha escola do Ipiranga


Já percorri o mundo todo

Caminhei pelas grandes cidades sagradas

Meditei nos templos hindús da Índia

Firmei meu ponto no berço da Umbanda, na África



Todos esses lugares possuem

As belezas mais variadas

Mas nenhum deles me trouxe tesouros

Tão profundos

Quanto essa escola no Ipiranga



Escola do Professor amigo

Que não gosta da palavra Mestre

Pois mestrado faz bem para o ego

E professar faz fluir o amor celeste


E professsando ele faz surgir a esperança

Que todos os alunos se graduem

Para além do mundo do apego e da maia que engana

E lembrem sempre com carinho

Do Abc da espiritualidade

Que eles aprenderam

Nessa certa escola do Ipiranga


De um autor anônimo para um professor anônimo de uma escola anônima.

terça-feira, dezembro 16, 2008

Duas Canções do Richard

A Lua e o Passarinho

Irmã, ontem a lua me acordou
no meio do sono e queria que
eu voasse.

Eu expliquei para
ela, irmã, que eu não tinha asas.
Ela insistiu que eu tinha.

Acho que a Lua ficou doida, irmã,
ela pensa que eu sou passarinho.

*****************************************

Deus que Brinca

- Deus brinca de dormir e todo dia desperta em meu coração.

- Para de falar isso, menino, é blasfêmia! É insulto! Deus te castiga.

- Castigar por quê? Eu só disse que esses dias acordei e vi Deus dormindo no meu peito.

domingo, dezembro 14, 2008

O CÉU DO BEIJA-FLOR

Você já perguntou qual imagem sua é refletida na retina das suas pessoas queridas? Como elas te vêem quando você se aproxima, quando conversa com elas, quando as visita?

Quando essas pessoas pensam em você, o que elas sentem? Alegria? Paz? Harmonia? Ou uma vontade inquietante de te esquecer?

Quando você passa pelos outros? Que perfume fica? Que energia você troca? Quais são os frutos que você trás consigo e entrega para os que estão compartilhando contigo esse lindo planeta Terra?

Ah, você não liga para os outros...Desculpe, esse texto não é para você. Essas palavras são para quem está indo no caminho oposto, para quem se importa com o coletivo, com o olhar amigo, com o outro.

Minhas desculpas, mas essa crônica é para os que voam no céu do beija-flor, para aqueles que carregam onde for, coisas boas, coisas bonitas, pois não há coisa melhor na vida do que sentir que somos queridos, não pelas coisas que possuímos, mas simplesmente pela nossa presença.

Dentro é Fora

Primeiro precisamos mudar dentro, para depois transformar fora. A cor do mundo é espelho do que carregamos no peito. O cheiro de dentro é a fragrância de fora.

A prosperidade começa com a quantidade de beija-flores que voam em nosso jardim interior. O rastro de luz dos nossos vaga-lumes é a luz que salta dos nossos olhos, mostrando ao mundo do que somos feitos.

Se há algo errado e estranho no nosso mundo, basta olhar para o nosso interior e ver a cor que pintamos a parede da nossa alma. Daí, basta mudarmos a cor de dentro, para surgir um arco-íris lá fora.

sábado, dezembro 13, 2008

A VOLTA

Coisa gostosa é viajar, cair na estrada, prosseguir e não parar; não precisar ficar.

Ser passageiro do mundo e de mim mesmo; ver os quatro cantos pela janela do trem, pelo lombo do camelo, e lá de cima do avião ou lá do meio do mar, no sobe e desce do navio, ver o mundo e contar.

Porém tão bom quanto ir é voltar, rever a sua terra que ficou pra trás, brincar de " bom filho a casa retorna", encontrar amigos, reencontrar parentes; comer a comidinha única e especial da mamãe, o bolo de cenoura e chocolate com cafézinho bem cheiroso e quentinho feito pela vovó.

Voltei ao Brasil, como quem não queria ficar e fui ficando, brigando com o Vagamundo que queria voltar a estrada e com o Vagamundo que desejava viajar para dentro. Fui ficando e tentando não querer partir e não desejar ficar. Acabei plantando sementes e criando raízes, e vou ficando por aqui, até que alguém pergunte: "cadê o Frank que estava ali?"

A verdade é que nunca na história desse país surgiu um Paraíba assim, tão metido a vagamundo, neguinho inxirido que pulou muros, atravessou fronteiras, sempre adiante, descobrindo, conhecendo os quatro cantos desse mundo lindo e transformando tudo em crônicas, por puro desejo de contar a todos que se ele foi para o mundo, todos podem ir, mas tudo na vida é equilibrio: tudo que sobe, desce; tudo que vai, volta; nesse eterno ciclo da vida de quem não tem medo de conhecer o novo.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

A Escrita Invisível

Respeitável público, tenho o orgulho de apresentar " O Paraíba Vagamundo e seu fantástico Circo de Pulgas¹". Com vocês: as famosas pulgas malabaristas e trapezistas, pulgas cospe-fogo, pulgas palhacinhas e pulga que coça tanto que faz caroço.

Como assim vocês não enxergam? Faz um esforço e vocês verão tudo aquilo que há de bonito que tento expressar em meus escritos. Compreenda que ser escritor do invisível é literatura nua de provas e vestida de símbolos; e cabe a vocês, caros leitores, um mergulho profundo nas minhas verdades que parecem mentira e nas minhas mentiras que parecem verdades.

Sou o poeta fingidor do Pessoa, sou a pedra no caminho do nunca será Drummond. De esotérico, só tenho o buraco no terno e na meia não tenho nada de culto; sou mambembe na escrita e manco de versos, tateando letras no escuro, pois quero mostrar a todos o mundo que vejo: nossa gente, que mundo mais belo!

Sou passarinho da flor, sou calango do agreste. Sou voador sem asas, sou animal sem pastas, sou homem querendo ser anjo, sou anjo querendo continuar a ser homem. Sou escritor na arte, no engenho e no amor, sou um simples escritor de letras miúdas, que muita gente acha que faz literatura de pulga, mas que arranca sorrisos, lágrimas e um tantim de conhecimento na mágica arte da prosa que já virou doença crônica.



¹Circo de Pulgas: peguei o termo e o circo emprestado de uma piada de um certo amigo xamâ.

Última Chance

Ainda lembro do meu primeiro beijo, do coração partindo e da despedida que ainda me trás lágrimas aos olhos, por isso quem não é romântico, quem nunca teve um primeiro alguém, não siga adiante, essa estória é para quem tem ou já teve coração sangrando por amor.

Era a última chance de falar com Eliane. Quatro anos se passaram e passou também a coragem de declarar o meu amor; de lhe mostrar minhas poesias, minhas canções e minhas declarações.

O que pensaria Eliane de mim? Jamais saberia, pois a última chance que eu tinha fugiu ao som do último sino que escutei naquela escola. Dali a dois dias, eu deixaria Cajazeiras para sempre para morar com meus parentes em algum lugar além de Brasília.

Fui covarde, confesso! Não quis ser rejeitado, não quis ouvir não, mas ó destino ingrato, partiu meu coração novamente, quando justamente eu já aceitava que não existia nada além do não.

Dois dias depois, quando eu estava já dentro do ônibus para ir embora da cidade, em meio a amigos, conhecidos, estranhos e familiares, notei o par de olhos brilhantes que tanto amava, gritando meu nome e eu achando que ela buscava um outro Francisco, mas ela procurava mesmo esse Chico; e disse que sempre quis se aproximar, mas esperava que eu desse o primeiro passo – como é que eu poderia fazer isso, se meus joelhos tremiam? Mas ela dizia que quem tinha medo era ela de eu não dizer sim e ficamos os dois, um olhando para o outro, bem pertinho, quase juntinho, com o silêncio convidando o próximo ato que não envolve palavras, mas tem tudo a ver com a boca; mas o povo foi entrando, o motorista se sentando, São Paulo me chamando e Eliane me olhando e dizendo com o olhar – Não vai não!

Foi quando eu disse ao motorista: “Seu Dirijidor, espera! Essa é a mulher da minha vida, dai-me três minutos para eu me despedir do meu amor”.

E na rodoviária de Cajazeiras nunca se viu despedida igual, um garoto pretinho beijando uma menina branquinha num café com leite juvenil amoroso.

Para tornar tudo ainda mais doce, Roberto Carlos cantava “Amor Perfeito” no autofalante, os outros passageiros e seus parentes aplaudiam, o motorista enxugava os olhos com um lenço, as moças pensando em casamento, os moços em suas amadas, os anjos abençoando, Deus do céu graças enviando e um coral de jumentos relichando a maior cena musical desse meu conto de amor matinê.

E é assim que termina a minha última lembrança de Eliane, como numa canção brega, como uma visão de uma imaginação fértil de um quase adulto, de um adulto ainda meio criança.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Elefante Dourado

Denise danada, você me deu esse elefantinho dourado que eu não paro de admirar.

Não precisava, menina, mas não consegui te dizer não, nem fingir que não queria - e como é linda essa divina ironia - quando justamente eu esperava um sinal do Deus Ganesha, (a deidade hindú com cabeça de elefante), você aparece, dizendo que tinha uma surpresa e revela que foi você que ele escolheu para me lembrar que estava me ouvindo e é sempre por meio dos amigos que os mais variados Deuses, santos e mestres falam.

Aprende e Ensina

Todo mundo tinha medo do Professor Hêndricas, sua fama de reprovador e de durão corria nas mil bocas de seus estudantes antigos que diziam aos novatos estória de horror sobre a sua antipatia, a sua intolerância a atrasos, erros em trabalhos. As suas provas, diziam eles, nos faria perder o sono, que nos preparassemos para o próximo ano com as aulas do Professor Hêndricas.

Quem conta um conto é como quem fofoca; o boato aumenta, estórias se dirtorcem; a má fama circula como serpente que leva a culpa do bote que só foi dado por causa da bota que pisava, mas ficava a dúvida: como seriam as sua aulas?

Ora, seriam aulas!

Aulas como uma aula deve ser dada. Um ponte para o mestrado do "aprender e ensina".

- O verbo não é fala, é falar. Ora, terminem de pronunciar as palavras. - Dizia o Professor que por dois semestres mudou a idéia que tinhamos dele; e o que se viu, foi um homem com mais de oitenta anos revelando-se uma montanha de sabdoria. A classe que geralmente era uma feira, em suas aulas, viravam missa.

Perdi o medo que tinha de conhecer os mistérios e a ciência do estudo da minha própria língua com o Professor de nome difícil que aprendi a respeitar e jamais vou esquecer.

- Professor, todas essas novas mudanças na língua portuguesa. Nunca vou aprender...- reclamei, certa vez.

- Ora, não reclame! Aprende e ensina...

segunda-feira, dezembro 08, 2008

DANÇA DA FORMOSURA

Ela dançava como se as notas musicais fossem extensões dos seus braços; dançava como se fosse a última dança, como uma sereia que encanta e envolve em ondas de sedução o pescador.
Seus braços eram tormentas de amor, inudando o barco dos olhos miúdos desse escritor observador.

Ao som do tambor, ela fazia o caminho inverso da água, subindo a cascata e fluindo contra a correnteza do rio do meu sorriso.

Ela não tem a menor idéia do quanto meu barco balançou em suas ondas, mas tudo o que posso fazer é aplaudi-la em palavras e riscar alguns versos, na esperança que uma dia a sua dança volte a me arrancar sorrisos de menino encantado.

E eu ainda nem a tinha visto inteira, só lua pela metade...

CANTO DE OLHO

Canto de olho, canto de boca, canto de canto; passarinho abre o bico e canta; e pelo canto do olho vê Oxossi, o Rei da Floresta.

O passarinho não é bobo e continua o seu canto, ao mesmo tempo que enxerga na sutileza do canto do olho o Deus da Mata fazendo festa.

É a festa no canto do olho, é a festa do Rei da Floresta; e o passarinho que não é bobo continua cantando ao mesmo tempo que observa o Deus das Matas e toda bicharada da floresta cantando a música divina que faz girar a terra.

JARDIM DO RUBEM ALVES

Esses dias caminhei pelo Jardim do Rubem Alves e colhi algumas flores que gostaria de compartilhar o perfume e a beleza com vocês:

Em um canto do seu jardim, vi essa bromélia:
" O home tem dois olhos, com um ele vê as coisas que passam no tempo. Com o outro, ele vê o que é eterno e divino"
Angelus Silésius

Depois senti essa orquídea:
"O amor foge a dicionários e regulamentos vários. Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. Porque amor não se troca, não se conjuga..."
Carlos Drummond de Andrade

Logo após, percebi essa violeta:
"Existe no intervalo das palavras um ser qualquer alheio anós"
Ricardo Reis

E quanto achava que já tinha visto todas as rosas:
"No centro da teia, reside a aranha cósmica, tecendo, tecendo milhares de linhas, conecções, relações, conjunções que une todos nós. Todas as linhas são iguais"
Rubem Alves

E não pude sair do Jardim do Rubem Alves, sem deixar as minhas sementes de poema em flor por lá:
" Se eu pudesse entrar dentro da sua cabeça, teria com certeza, uma nova visão de mundo, daquilo que nos rodeia, pois ninguém vê o mundo da mesma maneira. É claro que uma mesa não deixará de ser mesa por mais que eu queira, mas talvez você tenha outras ideías do que fazer com a mesa que nem ao menos passam pela minha cabeça"

sábado, novembro 29, 2008

O Pagador de Promessas

Nunca paguei a promessa que minha tia fez por mim. Para começar, não prometi nada; ela que negociou com o Divino ( por intermédio do Padim Ciço) para que eu me curasse de uma apendicite agúda. Quase morri, escapei por pouco do hospital que também era um abatedouro, localizado em uma dessas esquinas onde roubaram as botas do Judas do sertão paraibano.

Não sei se escapei pelas graças do milagreiro do Juazeiro do Norte, ou foi outro tipo de sorte, mas anos depois da promessa feita e quebrada; fui parar no Ceará, nas curvas de Juazeiro. Era uma época em que eu estudava as diversas formas de espiritualidade, e estava eu lá pelas bandas da terra do padim milagreiro, registrando em minhas notas aquela religiosidade tão forte e bonita daquele povo sofredor e valente nordestino, quando uma peregrina chamou a minha atenção.

Era gente vindo de todos os cantos do sertão, era a véinha toda de preto com o rosário na mão, era o véinho com os joelhos em sangue subindo o monte, era o menino vestido de paletó e gravata e segurando a estátua do Cristo; era uma rezadeira que se ouvia a distância, em meio ao choro, em meio as rezas, em meio aos cantos de "Ave Maria", de quem peregrina para pagar um promessa, para fazer outra ou apenas para agradecer a ausência de qualquer promessa. Em meio a tantas lágrimas de devoção, de tanta gente com a reza na mão com um olhar perdido entre o sofrimento de Cristo e o próprio sofrimento, ví essa mulher dançando e sorrindo, contrastando com o sentimento de pesar coletivo.

"Para falar com Deus é preciso comer o pão que o diabo amassou", já cantava Gilberto Gil, mas aquela mulher tinha muita felicidade no peito para chorar ou para lamentar, estava em seu rosto, ela carregava na cara, uma grande alegria, nos ombros uma grande felicidade.

Aproxime-me dela e perguntei: "A senhora está pagando alguma promessa?"

- Sim! A promessa de estar aqui. Sempre sonhei em conhecer a terra do meu padinho. A minha vida não é um mar de flores, mas para mim todo encontro com o meu Padinho é uma festa, as lágrimas só são bem vindas, se forem lágrimas de felicidade. Se for choro de tristeza, só depois da festa!

sexta-feira, novembro 28, 2008

Cheiro de Médium

Sou médium de cheiro. Não tenho clarividência, nem escuto “dead people”; só cheiro algo que não é daqui.

Pesquisei o assunto no Google, conversei com Umbandistas, Candoblezistas, Daimistas, Espiritualistas, e fui de lista em lista, atrás de explicações para o “meu dom” e só levei balde d’água na minha fogueira, gente dizendo: “E no astral tem odor? Perfume ou catinga? Você é médium de meia-tigela!”

E lá eu quero ser médium de tigela inteira; só escrevo o que eu sinto e não minto; sou médium de olfato, só assim para explicar o cheiro de cachimbo que me persegue desde janeiro passado. Não fumo, mas sei que não é apenas cheiro de tabaco queimado, é uma fragrância que lembra lavanda, que desconfio estar sendo soprado lá de Aruanda e apesar de saber quem é o espírito que me cerca, infelizmente não posso revelar o nome pelo qual vocês o reconheceriam, pois depois do último Dia da Consciência Negra, estou com receio de usar palavras que possam ser consideradas racistas. Tudo o que posso revelar é que estou recebendo constantemente a visita de um Afro-descendente da Terceira Idade.

quinta-feira, novembro 27, 2008

Peixes Dourados

É noite serena de novembro e saio da cama com o meu barquinho astral. É madrugada de pescaria, por isso preparei os instrumentos, ajustei meu barco e saio do Porto Beta, seguindo rumo ao Mar Alfa, navegando nas ondas cerebrais.

As águas estão agitadas e o meu barco parece estar furado, mas não é água que entra, é lucidez que sai. Ergo as velas da luz que ecoam Om, Om, Om e sigo tapando os buracos da consciência que escapa. Estou aprendendo ainda a ser marinheiro da experiência e é com muita paciência que vou cobrindo furo por furo e mantendo-me desperto nesse mar da inconsciência.

Com firmeza no leme, concentro a minha atenção nas ondas á frente, ignorando o que vejo ao lado. Com o canto do olho esquerdo, vejo sereias, terras prometidas, lindas donzelas e outros tantos tesouros escondidos. Com o canto do olho direito, vejo monstros, peixes gigantes, dragões de sete cabeças e todo tipo de horror que me repulsa e atrai. Contudo, resisto a tentação de dialogar com essas seduções e sigo fortalecendo o meu barquinho que avança cada vez mais pelas ondas desse mar de ilusões, oceano com seus significados dos mais variados, e a medida que prossigo, percebo que as visões que as ondas carregam se dissolvem nas mais intensas cores, e já não estou navegando num mar bravio, barqueio por um mar colorido. Cada onda representa uma mensagem, formando um arco-íris marítimo das lições do divino. Para navegar por esse arco-íris aprendi faz pouco tempo, que é preciso usar a bússola do amor e a vara da força de vontade para trabalhar.

Pescador, ofereço como isca a boa sintonia e o mar reage, oferecendo-me peixe-dourado, peixe-firmeza, peixe-espada, peixe-harmonia e peixe-palhaço, pois pescaria divina sem alegria é totalmente sem graça. Com o barco cheio, antes que retorne ao Porto da Vigília, agradeço a Janaina, Rainha do Mar e das Ondas Mentais, por ter entrado em suas águas e não ter naufragado pescando o que parecia ser peixe, mas não passava de pneu furado. Ela sorri e canta uma melodia que diz algo assim:

“ Volte para o seu mundo, meu pescador do amor, e compartilhe esses peixes dourados do mar do arco-íris com todos que tiverem olhos para te ler e discernimento para compreender que somente com o barco da sintonia fina e sutil, os marinheiros da projeção da flor conseguirão entrar no mar do primeiro vôo com a Mãe Divina e perceber que esse mar do amor cada um carrega dentro de si”

quarta-feira, novembro 26, 2008

Outros Assuntos

O Papa perdoou o John Lennon por ter dito que os Beatles eram mais famosos que Cristo - será que o poeta inglês finalmente vai entrar no céu?

Michael Jackson achou que os sete milhões de dólares que recebeu de um xeque árabe era um presente e não um contrato de trabalho - Michael, eu faço o serviço por meio milhão, você fica com o resto. Não é que eu seja barato, mas é que a conta do telefone aumentou e eu vou precisar cortar a TV a cabo...onde mesmo que eu assino?

Caro leitor, perdoe-me essa crônica sobre outros assuntos, é que qualquer coisa ando lendo, que não sobre a crise...

Está chovendo muito em Santa Catarina; estão atirando em vans escolares na favela do Alemão ou foi na do Japonês? Mais um vereador foi preso pedindo propina...oh Deus!!!

E o mundo segue estrume, onde está a minha amiga Elizângela, que dizia que "embora o mundo não fosse um mar de flores, pelo menos não cheirava mal"? Tapa o nariz, amiga Eliz, está tudo estrume...socorro!!!

Rasgo o jornal, fecho a janela; não quero mais saber da net, não quero mais ler notícias.

Abro a janela, não vejo nenhuma estrela...ai que saudade das noites em que eu seguia vaga-lumes ou dos dias em que eu seguia o voar dos beija-flores.

Respiro fundo, a noite me acalma. Além do dia, com as suas mazelas, o ar noturno acorda os sonhadores e uma estrela brilhante que pulsa mais que mil sóis surge em meu peito; e limpo o céu nublado com todo o amor que tenho direito e sorrio: apesar de tudo, é muito bom estar vivo, e consciente que há nesse mundo outras tantas belezas que não rendem manchetes de jornais e nem conversas de elevadores.

terça-feira, novembro 25, 2008

CLUBE DA BRIGA CONSIGO MESMO

Ele era da paz, vivia falando em amor, em conversa ao invés da guerra; mas uma hora explodiu e pegou-se de porrada consigo mesmo.

Acertou-se no olho, na boca; coisa maluca; quiseram levar ele para o Juqueri; ele prometeu se comportar; mas o que se passava ali?

Doutor de louco não explicava, nem doutor de gente sã saberia dizer como foi que naquela sexta-feira antes da noite molhar com sombras a cidade da garoa; ele voltou a brigar consigo mesmo, saindo na tapa com todas as coisas erradas que insistia em cultivar na alma.

Quem via a briga, não entendia por qual motivo, aquele jovem paraibano apanhava tanto de si mesmo. Ninguém conseguia mesmo compreender quem estava ganhando, nem quem estava perdendo, afinal nessas brigas de self com self, ninguém deve mesmo meter a colher.

A luta durou até que ele pedir arrego a si mesmo.

Nada ainda mudou de fato, mas ele já está ficando bom nessas brigas com a sua sombra e hora dessas, acerta uma direita nela de tal forma que ou ela se ajeita ou desiste da briga de uma vez por todas.

domingo, novembro 23, 2008

DONZELA GUERREIRA¹

A indiazinha acordou no meio da noite, com o luar refletido em seu rosto; encantada, saiu da oca, e sob a sua cabeça, caiu uma chuva de estrelas pequeninas que começaram a tocar uma canção tão familiar que fazia tumtum em seu coração. Olhou para o céu, e viu outras tantas estrelas tocando no vai e vem musical daquele mar da noite que batia ondas sonoras em seu peito. A lua, que a havia acordado, iluminava o palco, onde a indiazinha dançava e as estrelas cantavam a mais bela das canções.

No céu não havia distinção; todas as estrelas tocavam em comunhão, e mesmo que para a indiazinha Surya, todas elas, de longe, parecessem iguais, bastava observar um pouco mais, para ela perceber que cada uma tinha um ritmo, cada uma tinha sua função musical naquela apresentação celeste: Havia estrelas que tocavam tambor, estrelas que tocavam harpas; havia estrelas que tocavam flautas, estrelas que tocavam violão; outras que tocavam violino e tinha até estrelas que tocavam solos de guitarra; todos os instrumentos em união para tocar a canção do amor verdadeiro.

Surya queria cantar, mas pensava não ter voz tão bonita que pudesse acompanhar aquele coral de estrelas cadentes ao seu redor; queria tocar, mas não tinha o dom dos instrumentos; tudo o que ela sabia fazer era bailar e bailando, completou o show das estrelas, contribuindo para o grande espetáculo da natureza, sem saber que ela também era estrela que se fez gente para brilhar na terra, mesmo feita de barro; e o deuses que eram um e ao mesmo tempo tantos, brincavam de esconde-esconde em suas tranças que balançavam ao sabor dos seus movimentos.

Os outros índios, que estavam todos dormindo, despertaram com o perfume do divino que se espalhou por toda a aldeia; fragrância sutil e intensa que trouxe suas almas de volta ao corpo e fez com que cada um deles saísse de suas casas com seus maracás em mãos para se juntar a festa.

Surya não acreditou quando viu toda a sua tribo dançando com ela e tocando com as estrelas. Logo, toda a floresta entrou em festa, e até mesmo os animais diurnos se uniram com os noturnos, para piar e rosnar o canto da natureza. A indiazinha recebeu todos com um grande sorriso que refletia uma lua magnânima, tão cheia de alegria, que se multiplicava no espelho do lago, na risada do riacho, nos olhos de cada bicho e índio, nas folhas das árvores e no coração de todos os seres da terra, mesmo aqueles que não estavam na floresta, mas em sintonia, bailavam em corpos celestes nos quatro cantos da terra.



Frank Oliveira
23 de novembro de 2008
Texto escrito durante a apresentação musical do Grupo Anima no espaço Cachuera, em Perdizes, São Paulo.

¹ Donzela Guerreira é o nome do novo espetáculo do grupo ANIMA – Musica Mundana Humana et Instrumentalis. “A música do Grupo ANIMA é o reflexo das estreitas afinidades existentes entre a música realizada pelas sociedades brasileiras afastadas do processo de industrialização, as chamadas sociedades tradicionais, e entre o legado escrito da música da Idade Média, da Renascença e do Barroco europeus.”
Para conhecer um pouco mais sobre o trabalho desse grupo maravilhoso:
http://www.animamusica.art.br/index_br.html

sábado, novembro 22, 2008

CHANDRA LACOMBE

As cortinas da minha consciência se abriram e a luz da harmonia invadiu cada janela, abrindo cada porta, passando por cada fresta, de tal forma, que cada cômodo da minha alma foi invadido por uma cor diferente, magnânima , intensa e pulsante. Era o canto das esferas superiores, o amor manifestando-se em melodia na voz divina de Chandra Lacombe.

Em um confortável salão que lembrava um Ashram indiano, Auri e eu, e outros tantos amantes da boa música, fomos conduzidos por uma jornada sonora que nos levou das montanhas da Índia com o Deus elefante Ganesha aos braços da Mãe Divina vestida com as cores da nossa terra. Uma estrada recheada de mantras, canções devocionais aos deuses, ao amor mais puro e sobre a alegria de estarmos vivos nesse plano de tanta beleza.
O Dom de Cantar de Chandra com o seu tom de voz único e sua kalimba ( um instrumento musical africano usado para acalmar crianças) transcende a idéia que temos de música. Ouvi-lo é uma experiência que atinge todos os nossos sentidos. As notas musicais pulam dos instrumentos e dançam diante de nosso olhar maravilhado, as ondas da mais pura melodia da sua voz cristalina invadem a nossa pele, penetrando em nosso peito, abrindo chacra por chacra com o doce néctar do amor.

Não sou um grande conhecedor da arte musical, mas aprendi a gostar daquilo que ressoa no ouvido e repercute na alma, e confesso, fui pego de surpresa ao achar que iria assistir apenas mais uma apresentação de uma banda que tocava música indiana e mantras, e de fato, assisti algo mais, que ainda não consegui assimilar por completo e nem converter em palavras. Esperava algo bom, mas assisti e ouvi algo muito melhor e a minha alma ficou de portas e janelas abertas e o que escuto lá dentro é uma das coisas mais lindas que um ser humano pode produzir: a música.

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Notas do Autor
Conheça o trabalho de Chandra Lacombe e sua banda no link abaixo. E possível ouvir suas canções e conhecer mais um pouco sobre a sua música tão singular:

quarta-feira, novembro 19, 2008

A ÚLTIMA MENTIRA

Hoje contei a minha última mentira. Juro que não vou mentir mais.

Chega de tanto esconder a verdade. Chega de tanto manipular.

Quero me libertar. Quero ser um homem que só diz a verdade!!!

Chega de ser prisioneiro das minhas mentiras! Quero liberdade, alforria, quero minha cara limpa!

Nunca mais vou contar uma mentira!!!!

Mas só depois dessa mentirinha que acabei de contar para vocês...

A CASA DO OLAVO

Vinho, pão, queijo e abraço. Sem beijo! Sai pra lá, rapaz, sou paraíbano, não sou mineiro.

Que coisa mais grata é receber carinho em forma de olhar, é ser recebido com todo o gosto do mundo. Na Casa do Olavo não somos visitas, somos um só.

Não dá para recusar o convite e dizer que estou cansado demais para sair de casa. Não dá para dizer não. Um convite do Olavo é uma obrigação, pois na sua casa descobrimos que não somos apenas mais um nome não, somos amigos, somos irmãos.

terça-feira, novembro 18, 2008

CEM PRECONCEITO - UMBANDA 100 ANOS

A Umbanda é uma preta-velha abençoando seus filhos de fé, fazendo chover luz de Aruanda. É caboclo gritando na mata; lançando flechas de discernimento no coração dos seus devotos. É erê "brincando para dar conta da viagem", como disse o sábio. É cada Orixá, é nosso pai Oxalá, é exu mensageiro, que todo mundo pensa que é demônio.

A Umbanda é a cara do Brasil. É sincronia, é sintonia, é sincretismo. É umbandista que diz que é católico. É macumbeiro, catimbózeiro, é baiano, é marinheiro, sou eu, é você, é todo mundo inteiro.

A Umbanda fez cem, mas só aqui na terra; em outros planos, ela já fez mil, já fez um milhão, já nem é mais não; pois a Umbanda, é acima de tudo união.

sábado, novembro 15, 2008

TENTAÇÃO


Tentando, tentando e nunca sendo.

Tentando, tentação, embromando, enrolando, ficando, tentando e nunca sendo.

Tentando é tentação, tentação é nunca sendo.

Tentando?

Sendo!

sexta-feira, novembro 14, 2008

CRÔNICAS DA SEXTA DE NOVEMBRO

True Colors


Acompanho a carreira da Cindi Lauper desde os anos 80. Ouvir as suas canções é uma dessas coisas que guardo só pra mim; não preciso compartilhar as melodias que adoro com ninguém e nem tento convencer outrem sobre o meu gosto musical. Enquanto as Marias e Zés ouvem Madonna e Britneys, baseado ou não, pela moda musical; sigo ouvindo a transloucada autora de Time After Time, Girls Just Wanna Haven Fun e outros clássicos comerciais dos anos 80 e outras canções, estas sim, rentes ao meu coração, que ninguém jamais ouviu falar ou tocar: Boy Blue, You Don´t Know e Hot Gets A Little Cold.

Ontem à noite, assisti pela segunda vez, a Cindi Lauper cantando no Brasil. Show curto demais (Tudo sempre é curto demais quando gostamos de algo para valer). A casa de show Via Funchal estava repleta de fãns trintões, quarentões, mas também havia muita gente que deveria estar no show do “High School Musical 5”. Carismática, Mrs Lauper tentava a todo custo, entre uma canção e outra, falar português com a ajuda de um livro. Não conseguiu! O que ela conseguiu, porém, foi a proeza de lotar a casa de show e fazer com que o público reunido ali entrasse em profunda comoção quando ela cantou “True Colors”, uma das canções mais bonitas de todos os tempos.

O show poderia ter terminado nesse momento com chave de ouro, mas Cindi quis deixar uma mensagem de esperança e força para o povo brasileiro:

- Power to the people! – disse ela, antes de desejar feliz natal para seu público.

Mensagens do John Lennon á parte, faltou a minha cantora preferida, um estudo maior sobre o nosso país. Estamos bombando com crimes e corrupções, mas até onde é possível se iludir, não estamos na Venezuela. Ao invés de desejar “poder ao povo”, ela poderia ter deixado uma mensagem mais brasileira, tipo “Books on the table!”. Frase que não tem nada a ver com a incapacidade das nossas crianças em progredir em suas lições de inglês; mas tudo a ver com o fato de que o nosso povo precisa aprender a gostar de ler. Mrs Lauper, é na leitura que mora o poder para mantermos longe do poder qualquer governo totalitário, esse tipo de governo que a senhora acha que temos no Brasil. Na educação mora o poder para que nossas crianças compreendam que destruir escolas, bater em professores é machucar a si mesmo. Na educação que está a chave para sermos o país do futuro hoje!


EDUCANTO

Enquanto alunos destruíam uma escola na Zona Leste em São Paulo; em algum lugar da Zona Sul, um professor de inglês reunia dezenas de crianças para cantar num coral. A idéia era que elas se apresentassem em um evento cultural, e cantassem uma canção dos Beatles, para representar o ensino da língua inglesa na escola.

- Não acredito que você vá conseguir manter essas crianças paradas. – disse um dos professores do local.

- Cantar em inglês então, pode esquecer. – disse outra professora.

O professor pagou para ver e colheu uns frutos bem interessantes. O primeiro dia foi um caos, o segundo dia foi um pouco melhor, no terceiro dia fez-se a luz, ou melhor, a música. Sim, as crianças podem ser educadas com arte. Sim, as crianças podem ser guiadas para o lado do bem do aprendizado. Sim, é possível realizar um trabalho com uma escola localizada em uma região carente e ainda assim, sair vivo de lá e com um sorriso no rosto, ou melhor, com uma canção na mente e na boca.

quinta-feira, novembro 13, 2008

PEDINTE

Eu sou um pedinte, mendigo de mim mesmo. Ando pra lá e pra cá, sem direção, com os pés descalços e segurando nas mãos três sacos de lixo, onde está escrito: orgulho, mentira e egoísmo.

Já tentei jogar fora cada um dos três sacos, mas embora o lixo seja pesado, os carrego a tanto tempo que os sinto como parte de mim e que sem eles, algo faltaria. Vai que o orgulho seja útil, o egoísmo me salve de algum perigo e a mentira...como viver sem a mentira?

Pago o preço da minha decisão de mendigar, mas a que custo? De que vale a pena, viver com os pés descalços no chão e vestindo trajes que enxergo como roupas e todos vêm como trapos?

Sem teto, falta-me o telhado da alegria e as paredes da harmonia. Sem terra, não tenho onde plantar um trabalho baseado em compaixão, nem tenho sombra, e nem colho os frutos do amor.

Já tentei parar de pedir, mas quando penso que estou curado, percebo que estou usando o disfarce do agradecimento para fazer um novo pedido.

Sou pedinte da eterna ajuda; falta-me a firmeza da prática do meu potencial; por isso mendigo sou e sigo mendigo, buscando tratamento especial dos céus, pena divina e alguma garantia de receber sem trabalhar, de colher sem plantar, de me religar sem compromisso com o crescer.


Imagem: www.alexkoti.com/.../en

quarta-feira, novembro 12, 2008

TEIA DE LETRAS

O que será que pensa a Aranha Artista?

Será que pensa na linha que fia?

Será que mal diz as outras linhas?

Terá consciência que a teia que ela tece é apenas uma das tantas outras teias tecidas por tantas outras artistas aracnídeas?

Não sei o que se passa em sua cabecinha; só sei que suas tantas perninhas escalam o fio prateado tecido por sua linha, e como outras tantas teias, outras tantas linhas, juntas elas fazem parte da Teia Cósmica do Grande Tecedor.

Não sei para onde ela vai, nem porquê tece; só sei que ela segue tecendo em seu ritmo, mata adentro, árvore acima e nem imagina que dediquei essa teia de letras para descrever a sua linha.

terça-feira, novembro 11, 2008

CAPA


Menino, toma atento! Procurar menina só pela beleza de fora é capa com chuva dentro.

Encontrar alguém é conteúdo, é não escolher o livro pela capa, é assunto para conversa; é muito mais importante que boca beijada, é amizade encontrada, além da divisão e do desejo sexual.

Colorir esse encontro com desejo é só um passo para uma união que deve ter algo a mais que vento.

Oxóssi é Quem manda na banda de meu coração

Oxóssi é Quem manda na banda de meu coração
O Caçador de uma flecha só)

By Tom Lobo Vermelho


Aquela noite foi muito inquietante.
Refletia sobre algumas coisas que tinha ouvido de alguns amigos espiritualistas.

Sempre havia percebido e agora havia confirmado: um preconceito enorme contra os seres da floresta. Como esses seres não usam turbante nem fazem posição de lótus, eram desprezados - mas de maneira velada - sob uma capa de um universalismo que, muitas vezes, não se sustenta por conta própria. Também me perguntava, de mim para mim mesmo, se eles não percebiam que na Floresta há toda uma hierarquia espiritual, e que todos viemos de lá...

Estava, no meio dessas reflexões, já em decúbito dorsal. A música com o som das águas curativas fazia um gostoso convite para a emancipação da alma. Suave e pacificamente saí girovagando pelo centro da barriga. E, em questões de instantes, voava para muito longe de minha casa e meu corpo. Uma força muito amorosa me guiava e eu não discutia, ia ao seu encontro.

Pousei, delicadamente, em um solo da floresta do interior do Estado de Goiás. E interessante é que eu sabia o que fazer. Deitei-me debaixo da Sagrada Árvore da Jurema. E deitei-me, novamente em decúbito dorsal, por inspiração de uma sábia e amiga voz. Mais uma vez sai do corpo. Desta vez, pelo cardíaco. Para minha surpresa, ele estava lá: Seu Ubirajara, Grande Mentor de outras plagas do Universo. Que emoção encontrar, novamente, esse Professor.

Como sempre, falava pouco. Percebi que havia estudo e trabalho pela frente.

Num átimo, estávamos num lugar que posso dizer: era puro Amor. O Sol Verde refletia cura, muita cura. Ao seu fundo, o céu azul claro piscava para nós.

Então, percebi: estávamos em Aruanda, mais precisamente no Jardim de Oxóssi.

Muitas Árvores Sagradas da Jurema rodeavam aquela Jardim. Animais que conhecia e desconhecia vieram me receber. Guerreiros-Caçadores vieram me abraçar, como se eu fosse um deles. Reconheceram em mim um Filho da Floresta, apesar da minha infantil idade sideral.

Seu Ubirajara tocou, suavemente, meu ombro para tirar-me daquela embriagues cósmica que começava a me tomar contar. Senti que o estudo e o trabalho deveriam começar.

Caminhando, através de uma pequena mata recheada por lindas Cachoeiras de Águas Cristalinas que exalavam cheiro de cura, chegamos a uma espécie de planície. Observei no céu azul claro uma grande nave que pairava uns duzentos metros do solo. Com uns mil metros de cumprimento e cinqüenta de largura, formato de uma FLECHA, saiam dela filamentos em direção ao solo. Caminhando rumo a uma depressão daquela planície, vi milhares de corpos espirituais ligados aos filamentos que vinham daquela nave. Eram espíritos de pessoas que morreram vítimas da HIV. Tiveram muito sofrimento físico em sua última encarnação e precisavam da energia das matas para a recomposição energética de seus corpos.

Fico paralisado e, patrocinado pela Sabedoria de Seu Ubirajará, sou conectado a
todos os doentes dali. Sinto cada uma de suas aflições e revoltas. Tomado por uma Grande Onda de Amor, uno minha essência a uma Causa Superior. Neste momento eterno, SOU Estrela de Aruanda. Ajudo, sem saber explicar com meras palavras, a todos os meus irmãos vítimas de uma doença tão terrível.

Após terminar essa ajuda, não pude conter meu lado humano e me lembrei de uma egrégora da Terra que nega a Presença da Espíritualidade, isto é, dos espíritos, seres que eles, na sua "enorme sabedoria", os denominam "ex-personalidades". Ah, quando desencarnarem vão realizar em suas faces o famoso sorriso amarelo da ignorância.

___ Não julgue seus irmãos, amigo. Cada um tem sua hora da verdade. ---foi o que Seu Ubirajara me disse, acordando-me daquela reflexão.

Visitei outros lugares daquele Jardim Verde.

Senti que o momento mágico estava acabando. Observei a face matreira de Seu Ubirajara. Quando ia perguntar o que estava acontecendo, senti sendo lançado pelo espaço, numa velocidade infinitamente superior a da luz. Era uma flecha minha essência... Passando pelo pelo segundo corpo, voltei para o primeiro. Acordei e ainda tive tempo de ver a imagem do Sol Verde se desmanchando, pois o cérebro véio queria o esquecimento.

Uma fina e perfumosa nuvem de névoa verde espraiava-se pelo meu quarto.

Não abri os olhos, pois não queria deixar de saborear aquela sensação amiga.

Minha gatinha Fofa pula no meu colo.

É hora de acordar e ir para o trabalho.

Mas, de uma certa maneira, meus olhos continuam fechados e minha percepção sobre a vida aumentou, pois deixei para trás muitas coisas que já não me serviam.

Quando Oxóssi atira Sua Flecha, é uma vez só.
Tiro certeiro e mortal.
Você cai, levanta-se, e nunca mais é o mesmo.

Salve a Linha de Oxóssi.
Salve todos os Orixás.
Salve todos os Trabalhadores da Umbanda.


Tom Lobo Vermelho - 03/10/08

TÔ DE MAL

Eu cumpri a minha parte; Ele não cumpriu a parte Dele.

Fiquei bonzinho, fiz a cama, tratei todo mundo com carinho. Lavei os pratos, enxaguei a roupa, tomei banho a semana inteira, e fiquei esperando que Ele notasse o quão limpinho fiquei, e nem sinal Dele.

Só vou esperar mais um pouquinho; se ele não fizer a parte Dele, eu disfaço tudinho e volto a ficar sujinho.

Imagem: Mauricio de Sousa

segunda-feira, novembro 10, 2008

UMA FESTA VOADORA

Aniversário de um amigo, vejo outros tantos reunidos num bar que parece uma chácara, ou será uma chácara que parece bar?

Auri e eu, chegamos quase no fim da festa, mas ainda havia bolo, boas piadas, risadas, alegria de sobra, abraço para dar e vender.

Que cansaço poderia me impedir de ver o sorriso do amigo que vê parente em nosso rosto; que outro compromisso seria mais importante que vê aquele povo todo reunido: bruxas, xamãs, projetores, hindús, caboclos, ciganos, índios, gente que voa e que pensa que bate asas, além do computador, do nick, além do Yahoo, além do receio de mostrar a cara num encontro que era mais que festa; uma festa que era mais que um aniversário, pois era a celebração desse povo voador que um dia já foi apenas um nome em uma lista, e hoje, já é mais que uma família.

Não podia acabar em outra coisa: aliança!

domingo, novembro 09, 2008

EU CRESCI

Em algum lugar entre os mundos de lá e dentro de mim, há um erê que não para de gritar: "eu cresci, papai, eu cresci!"

Não sei o nome do moleque; a última vez que vi esse Ibeji, ele engatinhava e balbuciaca somente alguma palavras; e ficava muito feliz quando eu o deixava brincar.

Esses dias, quando eu andei lá pelas bandas de Aruanda, o vi caminhando, e quando ele me viu, veio correndo em minha direção, e foi logo dizendo:

- Eu cresci, papaizinho, eu cresci!

- Como assim, guri? - perguntei - Esses dias, você era assim, um tintin de gente, mal sabia andar, quanto mais falar assim.

- Não sei explicar, papaizinho, só sei que cresci! - ele me respondeu e voltou a brincar.

Quando voltei para casa, ainda podia ouvir o erêzinho celebrando e fiquei pensando - E quanto a mim? Ainda estou engatinhando ou também cresci um tintin?

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CANTIGA DE BEM-DIZER

Em algum lugar na Paraíba...

- Bom dia, Seu Manoel!

- Bom dia, seu João!

Os dois velhinhos se cumprimentam. Seu João em cima da carroça, cujo burrinho passou do prazo de validade, e Seu Manoel, sentado numa cadeira que balança o mundo para frente e para trás.

Vizinhos, Seu João e Seu Manoel são bem distintos; um caminha, ainda que devagarinho; o outro não se move, apesar do vai e vem.

Seu João com seu burrinho some na distância e Seu Manoel fica balançando sozinho, até Dona Geralda entrar em cena, abrindo a janela e se debruçando sobre ela.

- Esse véio fica pra cima e pra baixo; num aqueta o facho! - maldiz Seu Manoel.

- Ele pelo menos se mexe e tú, homem, que não sai do lugar - responde Dona Geralda sem pensar duas vezes.

- Oxi, Geralda, e isso é lá jeito de falar comigo? - reclama Seu Manoel.

- Oxente, homi, e isso é lá jeito de falar dos outros?

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Notas:
Imagem do velhinho e do burrinho: http://img.olhares.com/data/big/74/741304.jpg
Imagem do velhinho na cadeira de balanço: http://static.hsw.com.br/gif/how-to-draw-cartoons-102.jpg

sábado, novembro 08, 2008

Mestiçagem


"Me casei com uma mestiça
Eu mestiço por inteiro,
Tivemos muitos mestiços
Cada vez mais verdadeiros,
Cada vez mais misturados,
Cada vez mais brasileiros."

Autor: Antônio Nóbrega

sexta-feira, novembro 07, 2008

CONSCIÊNCIA EXPANDIDA

A expansão da consciência é descobrir o que mora escondido em toda gente; é perceber que não há fala no mundo que descreva; é saber que não há pena no mundo que faça letra do que se sente.

A expansão da consciência é "aquilo que vou saber sem saber eu já sabia"¹; é algo tão simples que muito livro sério acha que é brincadeira; é descobrir a razão pela qual Jesus dizia que só entra no céu quem for criancinha.

A expansão da consciência é parecer bobo ao querer convencer o outro do que sentiu; é música que só a gente gosta; é pedra mole que só a gente viu; é livro que só a gente lê; é tudo isso e tantas outras coisas que só fazem sentido quando acontece com você.

Notas: ¹ palavras de Guimarães Rosa.

PRIMEIRAS PALAVRAS

O mundo era só berço, peito e braço. Todos faziam tudo por mim, dos banhos ás fraldas, bastava um tintin de lágrimas e um tantan de berros e eu tinha tudo o que queria, sem precisar dar nada em troca, até que começaram a exigir que ao menos, eu os pagassem com a primeira palavra.

- Fala papai! –dizia o homem que pelo cheiro, cara e boca, eu reconhecia ser meu pai.

- Fala mamãe – dizia a mulher que pelas olheiras no lugar de óculos, só podia ser a minha mãe.

Queria agradá-los, por isso, trabalhei na palavra. Sentindo o som formar-se na minha garganta, a idéia pré-concebida na alma, fiz dos meus grunhidos fala:

-Pa-pa-pa – eu disse, não era gago entendam, mas bastou três “pa” para o meu pai, gritar triunfante e ligar para os amigos para marcar a cervejada, contudo, minha mãe, mais atenta e de certa forma, para se vingar, notou que o “pa” que eu falava tinha um outro significado e tratou de avisar ao papai “vitorioso”.

- Ele não falou pai, nem papai! – respondeu ela – Ele disse outra coisa...

- Como assim? – duvidou meu pai – Vamos, filhão, fala de novo: PAPAI!

Tratei de obedecer e novamente, fiz a mágica das palavras e disse;

- Pa...

- Não te disse ! – comemorou meu pai, interrompendo as minhas primeiras falas. Desde cedo, eu já aprendia que as pessoas não gostam de escutar e só ouvem o que querem. - Fala mais uma vez, filho, para convencer essa sua mãe...

- Pa-pa... - obedeci - Pel - finalizei -Papel! Papel! Papel!

- Pa PEL? – repetiu meu pai, sem acreditar no que ouvia – Papel?

- Isso mesmo, amor! – disse minha mãe, já conformada, o filho não seria médico, nem doutor das leis, o menino seria paciente das letras, pois estava condenado ao papel e a tinta, seria escritor.


Imagem: http://img.olhares.com

quinta-feira, novembro 06, 2008

Crônicas Das Quintas do Céu

FUI ROUBADO

Eu fui roubado, mas por uma boa causa. Não levaram a minha carteira, nem levaram meu carro, roubaram-me um livro de crônicas. Fará falta, pois sou mesmo apegado aos meus livros velhos com frases em amarelos, mas acredito que se o ladrão, ao menos, tentar ler o livro, ao invès de trocá-lo imediatamente por uma bituca de cigarro, ele será tomado pela magia da leitura; e quem sabe as letras sejam o beijo encantado que transforma sapos miseráveis em príncipes da vida.

BARAKA

Não acredito em julgamento pela cor da pele; se Barack Obama foi eleito, conseguiu por seu próprio mérito. Sim, a sua vitória entrará para a história, assim como entrou a de Mandela, mas não há dúvida que ele é antes de ser o "presidente negro", um político nato, grande orador, presença carismática e promessas ditas para ouvidos carentes. Se ele será Bush ou não, só o tempo dirá...

RECOMEÇO

Já encrenquei comigo mesmo por certos ciclos de recomeço, que volta e meia, volta dá e vou parar no recomeçar. Hoje pela manhã, aceitei um convite para voltar a trabalhar numa empresa que jurei que nunca mais iria trabalhar.
Moral da estória: adoro estar errado!

STANISLAW E A COISA AINDA ESTÁ PRETA

Comecei a ler as crônicas de Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo do escritor Sergio Porto(1923- 1968). Que coisa deliciosa é redescobrir os clássicos da literatura brasileira. O humor de Stanislaw é contagiante e não consigo evitar o riso e as gargalhadas em minhas caminhadas sem emprego por São Paulo.

Desempregado, Stanislaw, tem me feito companhia nas entrevistas de emprego, nos ônibus e trens dessa saborosa vida paulista.

Surreal foi a cena, em que em meio ao mar de rostos tristes da Rua Barão de Itapetininga, Sampa; esse Paraíba começa a rir, enquanto ele estava em plena fila na rua. O pessoal não sabia se eu ria do que lia ou da fila para entregar um curriculum que nunca será lido.

quarta-feira, novembro 05, 2008

FOGO AMIGO


O pato foi atacado, ferido, olhou para o lado, buscou caçadores, não viu; procurou raposas, lobos; só o que viu foi o sorriso do ganso, que deveria ser o seu aliado.

- Até tu, ganso!!!

Sim, dessa vez, eu fui o pato, mas já brinquei de ganso; já ataquei amigos, já fui atacado. Ganha a experiência, mas perde a amizade, pois laços foram quebrados, a confiança e o respeito que deveriam ser preservados, foram se esvaindo, ralo á baixo.

Conheço o rosto do meu inimigo, sei as suas táticas, sei como me defender; mas no fogo amigo, é que mora o verdadeiro perigo.

O fogo amigo é inevitável, assim como o coração partido; mas mesmo ferido pela amada ou por um amigo, não deixarei de tê-los; nem de confiar em outros rostos; pois sou adepto do caminho do sorriso. Reconheço que coração partido tem raíz, tem motivo; fogo amigo é ataque de surpresa, por isso mesmo, fere mais fundo. E tudo o que é profundo, ressoa na alma e mais depressa, vira escola. Aprendizado rápido, mas a que preço?

Sendo ganso atacante, aprendi que o fogo amigo pode ser evitado; sendo pato atacado, percebi que o fogo amigo deve ser combatido; pois no lugar do tiro, mas vale um café, um chá, um bate papo, quem sabe até um cinema no domingo...

terça-feira, novembro 04, 2008

O MENINO E O PASSARINHO

Há pessoas que plantam árvores e poesias, há outras que semeiam a discórdia e derrubam a vida. Em um mundo, onde a palavra “destruição” parece ser mais forte que “ecologia”, surgem meninos e passarinhos, que contra tudo e contra todos, plantam esperança e colhem alegria.

O menino tinha ouvido a estória do passarinho que trás água no bico para salvar a floresta em chamas. Enquanto todos os bichos correm, fugidos; o passarinho faz o caminho inverso, voa na direção do perigo, e como se tivesse enlouquecido, volta diversas vezes à floresta incendiada, carregando água e jogando no fogo, tentando apagar o incêndio.

Se o passarinho ficou doido, louco também ficou o menino, quando um dia, deixou de comprar seu gibi preferido e comprou um punhado de sementes. Ele havia enfiado na cabeça, depois de ter assistido um documentário sobre as queimadas na Floresta Amazônica, que não ia permitir que o verde virasse cinza, e deixasse de existir. Feito o garoto do conto “João e o Pé de Feijão”, enquanto carregava o saco de sementes em suas mãos, ele desejou ardentemente, que aquelas sementes fossem mágicas e pudessem povoar os desertos com matas; transformar terrenos baldios em parques, reverter às queimadas, e como se saciasse a própria sede, chegou em casa, jogou sua mochila na sala e correu para plantar as sementes no seu quintal.

Seu irmão, feito os bichos fujões, observando a plantação, aproximou-se e perguntou:

- O que você está fazendo?

- Plantando árvores! - respondeu o menino.

- Para quê?

- Para salvar o mundo - explicou o menino - As árvores estão desaparecendo e depois de tudo o que elas nos deram, o mínimo que podemos fazer é replantar.

- Você é bem burro, guri! - criticou seu irmão - Acha mesmo que o seu punhado de sementes fará diferença em um mundo, onde se derrubam mil árvores por minuto?

O menino, encarnado de passarinho, olhou para o irmão e falou:

- Eu pertenço ao time que acredita que “cada um deve fazer a sua parte”. E você, a que time pertence?

segunda-feira, novembro 03, 2008











Mais um Começo e Fim de Semana

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Caminhada Noturna (Sexta)

Era Samhin ou Beltane? Naquele momento, pouco importava a data, eu queria mesmo era pisar na mata, tocar meu maracá e ouvir o som do tambor.

Fazíamos uma caminhada noturna no Parque do Ibirapuera, em Sampa. Auri andava ao meu lado, nós dois, envolvidos naquele cardume de gente estranha com tambores, cantos e uma intenção sincera de homenagear a natureza.

Éramos guiados por uma moça que representava uma escola pagã e a idéia era celebrar os Celtas, esse povo guerreiro, segundo ela, os índios da Europa. Não importava a data, pensei comigo, o importante era a proposta de lembrar dos Celtas na prática de caminhar no bosque, no parque ao som de tambores e cantos indigenas.

Era surreal, caminhar e cantar no parque á noite. As árvores assumem formas humanas, os bichos noturnos fazem algazarra, quando a gente passa. Não havia estrelas, nem lua cheia, apenas uma garoa que ameaçava a brincadeira acabar, mas mesmo assim, ousamos continuar no ritmo dos nossos passos e das batidas do nosso coração.

Refletidos nos olhos dos outros usuários do parque, éramos um bando de malucos; refletidos nos olhos do verde, éramos humanos estranhos que poderiam estar do outro lado na selva de pedras, mas decidiram, fazer festa no escuro do parque.


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Estranho (Sábado)


Que dia mais estranho.

Tentei matar o sábado com mil atividades, o sábado durou uma eternidade.

Tentei pular para o domingo, como quem fura fila, voltei ao começo da fila.

Tentei fingir que o sábado não existia, eu que deixei de existir, perdi todo o meu dia.

Que dia mais estranho.

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Festa do Divino (Domingo)

Outra festa regado a vinho, música e êxtase do Divino. Outras revelações, outras tantas promessas feitas, outras tantas formas de mudar o que está em minha mesa. Será que conseguirei cumprir o que as palavras disseram que eu iria?

É esperar para ver o que vai acontecer?

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Láz! Láz! Láz ( Segunda)


Que as ondas da amizade se propaguem aos quatro cantos em sorriso, amor e cantos.

Que você, caro professor, possa colher em sorrisos, todo o saber que compartilha conosco.

Que você, caro amigo, possa colher em amor, todo o sabor que através das letras nos ensina.

Que você, caro aprendiz, possa transformar em música, todo o conhecimento que busca.

Pois basta observar para perceber que você não aprende para saciar o ego; você aprende para compartilhar.

Basta discernir para perceber que você não estuda para virar mestre, doutor ou sacerdote; estuda para servir e ajudar.

Basta limpar a vista, para ver que você poderia estar ganhando rios de dinheiro com a manipulação coletiva; mas continua insistindo nessa lista e na sua sina de sorriso, amor e canto.

Obrigado, Swamicarecananda, por toda a sua ajuda em minha caminhada e por cuidar da nossa lista de cada dia.


Namastê e Feliz Niver para você!!!


F.
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