sábado, julho 31, 2010

A TOY AND A BOY STORY

"Todo menino é um rei;
Eu também já fui rei"
Roberto Ribeiro

"Hoje, aonde está aquele menino
Que, em minha alma era um rei?"
Gê Marques

Saio do cinema, pensando nos brinquedos que eu tive na minha infância, tentando lembrar o que aconteceu com eles. Não lembro se os doei, se os dei para outro menino; nem lembro direito do formato daquele robôzinho que era febre nos anos 80 e todo moleque queria um; nem sei se consigo ainda recordar as curvas do fliperama ou as notas do banco imobiliário. Que fim levaram os meus playmobils? Eu tinha a coleção dos astronautas e morria de inveja do Ricardo, aquele gordinho rico do segundo andar, que possuia a fazenda, a empresa, a construção, os piratas e pelos menos outras dezenas de coleções daqueles bonquinhos com cabelo dos Beatles que Lego nenhum consegiu imitar. Ah, mas eu lembro dos meus gibis, muito bem, pois ainda carrego eles comigo.

Termino de assistir o Toy Story 3 e sou o Andy, o menino crescido do filme, tentando guardar para sempre a infância nas formas do Woody, o cawboy amigo e valente; sim, ainda guardo comigo os meus Woodys, na forma dos gibis dos meus heróis favoritos. Minha esposa nunca entendeu porque eu os coloco lado-a-lado com os meus livros de literatura, explico: dentro de cada gibi, posso ver a fotografia do menino que habitava em mim e que ainda mora em minha alma, apesar de fisicamente ter crescido ter mudado, passado a pensar em outras coisas, outros valores; e esses gibis são o meu jeito de lembrar para o meu eu-adulto: não se esqueça desse menino!

Nos gibis aprendi valores que carregarrei comigo por toda a eternidade. Aprendi sobre a amizade, o bom senso e bondade humana que resiste contra todos os ventos contrários. Sim, um dia, terei que doar essas lembranças vivas para outra criança, quem sabe, nas formas dos meus futuros filhos.

Até lá, cultivo esse egoísmo inofensivo de carregar comigo os meus gibis, os meus brinquedos, e acordando, de vez e sempre, o menino da minha alma.




Reencarnar é Bom

Eu mesmo já fiz isso três vezes, na mesma vida
Ivan Martins

Está na moda falar em reencarnação. Vira e mexe, vejo alguém se referindo às suas “vidas passadas” como se fosse o tempo do colégio – e sempre me surpreende a naturalidade com que as pessoas relatam experiências impossíveis. Elas realmente acreditam ter sido príncipes assírios ou feiticeiras gaulesas antes de serem o que são? Eu teria dificuldade.

Dito isso, também tenho a sensação de ter reencarnado – mas nesta única vida, e já um monte de vezes.

É fácil perceber, por exemplo, que a minha primeira encarnação terminou por volta dos 35 anos, quando eu, simultaneamente, voltei do exterior, me separei e comecei, pela primeira vez na vida, a morar sozinho.

Aquele sujeito não era, nem remotamente, o mesmo rapaz que se casara ao final da faculdade. Entre um e outro se interpunha uma quantidade imensa de experiências boas e más. Algumas delas profundamente transformadoras, como a paternidade. Os fatos e o tempo fizeram com que eu não mais me reconhecesse no que costumava ser. Tinha reencarnado.

Essa metáfora parece exagerada? Talvez seja, mas ela me ocorre seguidamente.

Olho para trás e percebo períodos existenciais muito bem delimitados. Eles são definidos por eventos emocionais que encerram um ciclo e dão início a outro. A percepção dessas fronteiras, claro, nunca é instantânea. O tempo passa, os acontecimentos se sucedem e você, um dia, nota que não é mais a mesma pessoa – seus sentimentos mudaram, suas ideias mudaram, seu mundo mudou. Você reencarnou.

Seria por acidente que esses momentos notáveis estão ligados a enlaces e rupturas afetivas? Duvido. O fim de um casamento, o início de uma grande e duradoura paixão, o começo de uma vida nova com outra pessoa... Esses são os eventos que marcam, para mim, a transformação interior.

O amor e seus derivados – as grandes paixões e as relações suaves, mas duradouras – deixam, ao terminar, um gosto de morte. Não é por outro motivo que se fala em luto amoroso. É esse ponto final, essa morte simbólica, que dita os limites das reencarnações existenciais. A gente desce fundo na mistura com o outro, sofre como diabo quando a fusão termina e percebe, lá na frente, tempos depois, que, no processo, deixou de ser a pessoa que era – e está pronto para começar de novo

O homem de cinco anos atrás não seria capaz de se apaixonar pela pessoa de hoje – e, aos olhos do homem de hoje, o amor de 10 anos atrás parece incompreensível. Esse é um sinal: quando você já não entende o amor antigo, quando se pergunta, genuinamente, “como eu fui gostar dessa pessoa?”, já reencarnou.

Talvez para outros as marcas sejam diferentes.

Alguns talvez se mirem na experiência do trabalho para medir a própria evolução. Outros terão as etapas escolares como referência. As tribos urbanas ou políticas a que uma pessoa pertenceu, as relações dentro da família, os amigos de cada época - todos esses são marcadores de mudança importantes.

Mas as grandes relações amorosas, pela sua intensidade e singularidade, e pelos sinais indeléveis que deixam em cada um de nós, são, para mim, uma espécie de carbono 14 existencial – é com base nelas que eu volto no tempo e percebo como estava de verdade e às quantas andava a minha cabeça. Quem eu era, enfim.

Talvez a ideia de mudar constantemente incomode algumas pessoas, mas a mim dá um enorme conforto. Às vezes tenho um pesadelo no qual estou no mesmo emprego, na mesma casa e na mesma relação de 20 anos atrás – e acordo apavorado.

Ao mesmo tempo, rejubilo ao perceber quantas coisas novas e quantas caras novas entraram na minha vida nos últimos anos. Cada reencarnação em vida, cada início, permite agregar mais gente, descobrir novos interesses, reciclar convicções.

Pelas minhas contas, estou na terceira reencarnação. Na mesma vida. Nunca tive a chance de ser um guerreiro persa, nem um dos primeiros discípulos de Sidarta Gautama (o Buda) ou, quem sabe, o amante da mais bonita duquesa de York. Mesmo assim, não é o caso de reclamar.

Outro dia, estava almoçando com uma amiga - que me deu, aliás, a ideia para uma coluna sobre rejeição - e me veio um contentamento imenso, simplesmente por estar ali, por perceber que aquela pessoa, que não parava de falar, era capaz de dividir suas inquietações comigo, e que isso me convidava a falar das minhas próprias inquietações.

A presença de novas pessoas, com aquilo que elas trazem de inédito e inesperado à nossa vida, é um marca profunda de renovação. E a gente nem precisa morrer para obter isso. Não deve, aliás. Dizem que a chance de se conhecer uma cara nova depois de morto é mínima. Melhor reencarnar 20 vezes nesta vida.

Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI158311-15230,00-REENCARNAR+E+BOM.html

sexta-feira, julho 30, 2010

O Fim das Touradas ou Um Mero Teste

Por Márvio dos Anjos
Jornal Destak


Amo touradas. Quando a TV a cabo trouxe a TVE espanhola, esbarrei num programa chamado Tendido Cero, que destacava os melhores combates da temporada taurina. O espetáculo brutal me encantou: é a destreza e a arte vencendo a fúria do animal formidável.

Eu sei, é feio admitir isso. A maioria nascida fora da Espanha é contra e mesmo parte dos espanhóis se opõe - tanto que a região da Catalunha a proibiu nesta semana. Mas eu gosto.

Convido agora o leitor a se perguntar se as próximas hipóteses ocorreram com você.

Provavelmente entre mim e você estabeleceu-se um abismo, pela minha opinião. Como você discorda de mim e tem certeza de que jamais aceitará o que eu acabo de admitir, talvez você nem consiga ler qualquer argumento meu. Dependendo do meu azar, você já virou esta página e me legou ao limbo das leituras inúteis.

Se prosseguiu até aqui, é possível que, a partir de agora, você me subestime. Minha inteligência, minha hombridade, meu altruísmo.

Sem ter lido um único argumento meu, você já pode ter me achado uma pessoa sanguinária, que deve ser calada. Que absurdo dar espaço num veículo de massa a um homem que defende práticas abomináveis e crueldades! O senhor leitor, ciente de que tem valores melhores, crê que poderia ler com atenção caso eu prosseguisse argumentando por que gosto de touradas? Conseguiria, por dois minutos, se colocar no meu lugar e pensar comigo, mesmo que o resultado disso fosse seguir discordando - o que lhe é perfeitamente liberado? Discordar sinceramente em um tema muitas vezes nos rouba a capacidade da empatia. Quando não conseguimos nos colocar no lugar do outro, podemos interpretar todas as colocações feitas pelo nosso "oponente" como ofensas pessoais, as quais combateremos sem possivelmente nos darmos conta de que não, não é contra nós, é só uma discordância. Podemos discordar de alguém sem o reflexo primitivo de desqualificá-lo, a ponto de nem o entender? Só assim uma civilização deixa de ser primitiva e discute tudo. Das touradas ao casamento gay.



Fonte: http://www.destakjornal.com.br/readContent.aspx?id=18,68594

REFLEXO

“ A ironia do reflexo
é se perceber ainda luz”

Quando eu olho para trás
Te vejo!
Estrela brilhante
de mim mesmo,
Reconheço!
Que sou seu reflexo
Luz!
Que se demorou a chegar
Brilha!
Como um sol
Criando nova luz
Lá na frente!
Olhando para aqui
E percebendo
Também,
Que já foi
Mim!

quinta-feira, julho 29, 2010

EL MATADOR

O duelo começara.

EL Matador se movia graciosamente e se desviava do touro com rapidez e habilidade, levando a multidão ao delírio.

O touro era valente e forte, mas EL Matador com a experiência de anos de arena, driblava o animal com facilidade, enquanto sua capa vermelha balançava pelo ar.

Ele oferecia a luta ao filho, futuro toureiro que continuaria a tradição que começara com seu bisavô e o fizera conhecido de costa-a-costa da Espanha.

No outro lado da batalha, o touro também cumpria uma tradição. O seu bisavô morrera na arena, assim como seus filhos um dia também estariam ali, frente-a-frente com um toureiro, cumprindo a sina de todo touro por ali: morrer nas mãos de um matador treinado.

Milhares de pessoas assistiam àquela última luta da temporada e vibravam de alegria a cada lança atingida no touro, e a cada vez que EL Matador se desviava do animal.

Porém, aquela tarde, algo inesperado ocorreu. Talvez por excesso de confiança ou descuido, EL Matador ao tentar se desviar, perdeu o equilíbrio e caiu no chão... erro fatal à frente de um touro feroz e ferido.

Seus ajudantes tentaram ajudá-lo, mas também foram atingidos pelo animal que parecia ter enlouquecido. Ele até tentou levantar-se, mas o touro o acertou, jogando-o de encontro ao chão.
A multidão silenciara, enquanto outros toureiros e ajudantes tentavam se aproximar para ajudar, mas durante um breve momento, animal e homem se olharam profundamente.

O touro assumia o controle da luta; o toureiro, no chão, esperava a morte.

Esse momento pareceu durar uma eternidade. Era como se o duelo agora continuasse pelo olhar. E EL Matador viu nos olhos do animal algo que nunca percebera antes...

Talvez tenha sido o cansaço ou os ferimentos, mas o touro desistiu de lutar e deitou-se no chão, esperando sua morte nas mãos dos que vieram ajudar EL Matador.

O toureiro continuou parado, traumatizado por ter enxergado através dos olhos do animal a mesma luz que habita em cada ser humano: o brilho da vida.

Ele levantou-se, caminhou até o touro e o cobriu com sua capa e pediu perdão a Deus por nunca ter enxergado.

Naquela tarde, a multidão que assistia à luta nas arquibancadas, e milhares de outros espanhóis que assistiam pela televisão ao duelo, viram algo que nunca ocorrera antes na história da tourada: as lágrimas de um toureiro abatido pelo animal abatido.

Ninguém entendeu, mas no silêncio de seu coração EL Matador chorava mesmo era de agradecimento; não só pela vida que o touro lhe poupara, mas também porque o animal lhe ensinara, pelo olhar, que mais importante e poderoso do que ser um matador era se tornar um campeão da vida.

- Frank - Londres, Fevereiro de 2003.

quarta-feira, julho 28, 2010

A FAVOR DA CAÇA AS BALEIAS

Por favor, não proibam a caça as baleias, gosto delas, adoro sentir a suavidade da carne delas, um sabor totalmente diferente, uma experiência majestosa, grandiosa, única na vida. Adoro-as, não me condenem, tem homem que preferem as sereias, eu, desde pequeno, prefiro-as baleias!

Chamo-as de baleia, sem maldade, na verdade, é uma homenagem a essas mulheres que não se escondem atrás das tendências da moda, não devoram revista de regime, não está nem aí para a balança, pois são bonitas por natureza, com todas as suas curvas e todas as suas certezas.

Essas mulheres não cairam na armadilha da ditadura da beleza e mesmo quando sofrem preconceito, nadam mais bonito, e cantam em um só grito: não somos mulheres palitos, somos mulheres de peito.

Elas são mulheres Plus Size e navegam por nossos mares, sem ter medo de ser feliz, e mais feliz ainda é o homem que diz: amo a minha mulher baleia, se você gosta de sereia ou de peixinho, não descrimine o meu amorzinho!!! Termino essa homenagem, postando um texto que rola por aí, pela internet sobre esse tema, quem souber o autor, por favor, use a pena:

Mulheres baleia ou sereia

"Baleias sempre estão cercadas de amigos.
Baleias têm vida sexual ativa, engravidam e têm filhotinhos fofos.
Baleias amamentam.
Baleias nadam por aí, singrando os mares e conhecendo lugares legais como as banquisas de gelo da Antártida e os recifes de coral da Polinésia.
Baleias têm amigos golfinhos.
Baleias comem camarão à beça.
Baleias esguicham água e brincam muito.
Baleias cantam muito bem e têm até CDs gravados.
Baleias são enormes e quase não têm predadores naturais.
Baleias são lindas e amadas.

Sereias não existem.
Se existissem, viveriam em crise existencial:

Sou um peixe ou um ser humano?

Runner, querida, prefiro ser baleia. "

Para mais informações sobre a beleza das gordinhas, acesse:
http://www.gordinhaslindas.com/

BONITO É...

O que é a beleza
Se não o sorriso inteiro,
Tão imenso,
Que transborda em contentamento;
Faz verão do inverno,
E torna a aparência externa,
Brilho de estrela;
E contagia até
Quem acha que sorrir é bobeira!

O UNIVERSO EM TEU CORPO HUMANO

Por Mauricio Santini

(escrito em 2004)

Teus cabelos foram feitos para abrigar idéias criativas.
Para receber os afagos de mãos carinhosas.
Para armazenar os pensamentos mais lúcidos.
Jamais prenda seus fios em formas sórdidas.
Nunca penteie as ilusões, nem tonifique seus lampejos tristes.

Teus olhos foram feitos para abrir as janelas da alma.
Para deitar as lágrimas de compaixão aos homens.
Para brilhar sob a luz do sol e refletir seu brilho.
Jamais os feche às dores do mundo.
Nunca use as sombras para ornar seus contornos.

Teu nariz foi feito para respirar o hálito das flores.
Para inalar o perfume e o alento da vida.
Para sorver o prana que vem da brisa do mar e das montanhas.
Jamais sufoque os bons ares que vêm da alegria.
Nunca perca o fôlego por paixões fugidias.

Teus ouvidos foram feitos para ouvir a canção do Senhor.
Para escutar a voz do silêncio e meditar naquilo que não ouve.
Para auscultar as palavras serenas e até verdades mais duras.
Jamais os tampe com as mãos da indiferença.
Nunca os feche aos apelos dos necessitados.

Tua boca foi feita para cantar a melodia do Universo.
Para degustar o maná dos deuses em Um só.
Para dizer o indizível, para alastrar as boas novas.
Jamais diga o que o teu peito destoa.
Nunca maldiga e nem amaldiçoe a quem quer que seja.

Tuas mãos foram feitas para aninhar as outras.
Para cumprimentar todo o ser com o aceno da paz.
Para estendê-las aos que precisam de amor.
Jamais cruze os dedos para os atos mais puros.
Nem as lave com as águas do descaso e da soberba.

Teu coração foi feito para bater por nós todos.
Para pulsar com os ritmos do coração da Terra.
Para reparti-lo com a humanidade.
Nunca o parta com emoções mais tolas.
Nem o maltrate com a arritmia do ódio e do ressentimento.

Teu sexo foi feito para dar luz ao mundo.
Para juntar o separado, unir o desunido.
Para a mescla de corpos que se amam.
Jamais beba das orgias de uma fonte sádica.
Nem tampouco o vicie com a energia do outro.

Teus pés foram feitos para trilhar os caminhos da sabedoria.
Para andar na retidão e marchar pela paz.
Para fincar suas obras no solo do destino.
Jamais caminhe com os passos violentos.
Nem os descanse nos escalda-pés da ignorância.

Tua alma nasceu para ser livre!
Voa, solta pelo ar a espargir luz pelos tempos.
Ganha corpo. Eleva o espírito e leva a Deus.
Aliás, tua alma não nasceu, porque sempre existiu.
E irá se juntar às estrelas. Para ser orbes e galáxias.
Para ser breve num átimo de cometas.
Para ser sempre e compor o que chamamos de Deus!

Fonte: http://mauricinico.blogspot.com

terça-feira, julho 27, 2010

EUNATE

No Caminho de Santiago...

Era um casal de alemãs e Luiz conhecia um deles. O senhor franzino e falante, fizera o Caminho com Luiz anteriormente. Fui apresentado e falamos em inglês, expliquei quem eu era e de onde vinha, e os dois sorriram. Hans já tinha estado no Brasil há muito tempo atrás e tinha uma enorme carinho pelo povo brasileiro. Luiz e Hans se conheciam desde o ano passado, quando se encontraram em um albergue em Santo Domingo de la Calzada , e caminharam alguns dias juntos.

Enquanto os dois conversavam sobre as coincidências do Caminho, bati um papo com sua mulher, seu nome era Joan, e ela revelou-me porque razão seu marido voltava ao Caminho e dessa vez junto com ela.

“Hans estava com câncer e procuramos os melhores médicos da Alemanha para encontra-mos um cura, mas só ouvíamos que não havia nada mais a fazer. Ele tinha um Tumor em uma região do cérebro que tornava impossível a remoção. Eu não tinha tanta fé assim para orar e pedir por cura, mas meu marido tinha fé pela família inteira e enquanto eu chorava, ele nutria esperança que havia uma chance de cura. E mesmo doente, contra tudo e contra todos, Hans veio para a Espanha e decidiu fazer o Caminho de Santiago. Eu fui a primeira a condenar a sua decisão, achando que essa viagem o mataria, mas nada poderia fazê-lo mudar de idéia.

Ele fez o Caminho e voltou para Colônia, transformado. Não sentia mais dores e estava mais saúdavel do que antes. Fomos ao médico e fizemos novos exames, pois Hans afirmava que não tinha mais o tumor. E para a nossa surpresa, um milagre aconteceu, pois não havia mais sinal algum do tumor. Refizemos os exames, trocamos de médicos e o diagnóstico era o mesmo. A fé em Deus e a certesa que ficaria curado salvou o meu marido da morte.

E aqui estamos caminhando juntos. Estou aqui por Hans, por seu amor e pela minha fé que renasceu através desse milagre. Não sei o que houve com o Hans por aqui, mas seja o que for, curou o meu marido.”

Foi com as palavras de Joan na cabeça, que saímos de Eunate e os deixamos para trás, com a certeza de que mais uma vez o Caminho mostrava o seu poder. Seguimos em direção a Puente la Reina, onde todas as rotas do Caminho se encontram e se tornam uma única trilha. Existe diversas rotas para chegar a Santiago, e essas rotas podem começar em qualquer lugar; para Joan, o Caminho começara quando o seu marido lhe provou que valia a pena acreditar no Universo e na magia de cura que a fé em Deus pode trazer à vida de qualquer um que decide acreditar.



Trecho do livro "O Peregrino", de Frank Oliveira, sobre o Caminho de Santiago.

VÓ GERALDA

Ontem foi Dia da Vovó, esqueci de lembrar da minha, você lembrou da sua? Espero que sim, até anotei na minha agenda, mas a mídia dessa vez não me ajudou, não senti vontade de comprar uma linha de tricô, nem um celular, nem qualquer desses presentes de revista que nos ajudam a comprar qualquer coisa menos aquilo que deveríamos presentear de verdade, por isso, mesmo atrasado, ofereço a minha lembrança de amor e a melhor coisa que eu posso te dar, minha Vó, são as minhas letras.

O problema é que Vovó Geralda não consegue ler, devido a um pequeno probleminha de falta de entendimento de letras, porém, ela consegue interpretar coração como ninguém e tenho certeza que ela vai compreender cada uma das minhas letras e saberá que o seu netinho se tornou uma pessoa muito feliz na vida, em parte, por causa dela. Vovó Geralda foi, e é, e sempre será minha segunda mãe, e muito embora, isso possa parecer clichê, repeteco bobo, tenho que dizer que essa é a melhor definição de uma vovó, afinal, ela veio primeiro.

Para que essa crônica se torne prosa e não apenas uma homenagem com letras à toa, tenho que compartilhar com vocês esse pedaço do meu passado: quando morava com a minha vó, eu era um moleque de 12 anos, revoltado e rebelde, danado e louco para provocar todos a minha volta, por pura carência de ter mãe por perto ( minha mãe estava em Sunpaulo, eu no internato da Paraíba); daí, um dia sai de casa, prometendo que fugiria dali, fugi...pelo menos até a fome apertar, daí voltei com a cara suja e as roupas ainda lavadas numa trouxa. Quando cheguei em casa, minha vó só observou a cena, serviu o jantar, não disse nada, mas deu uma risada que jamais vou esquecer, risada que parecia dizer:

"menino, tenha calma, pois um dia você vai fugir de casa para valer, mas dessa vez será para crescer."

THREE LITTLE BIRDS - Gilberto Gil Version

segunda-feira, julho 26, 2010

CAMINHO DAS LETRAS

Sobre o Dia do Escritor:

Desde criança eu brincava com as letras,
Cresci meio besta
E tornei-me um escritor perneta
Meio torto, meio mambembe,
Escrevendo essas coisas
Que a gente
gosta,
Mas dizem os críticos,
Não é literatura!
É só prosa...
E daí?
Ainda assim gosto dessa aventura...

Ps: pensando nesses versos tortos, lembrei-me de Clarice Lispector:

A PALAVRA
"Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.
Quando essa não-palavra – a entre-linha- morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alivio jogar a palavra fora. Mas aí, cessa a analogia. A não-palavra, ao morder a isca, incorpora."

ESPELHO VIRADO

Quando meu pai morreu, viraram o espelho grande da sala contra a parede. Curioso, eu observei, que a melhor explicação para aquilo era a crença dos meus avós em espíritos, e foi nesse dia, que eu aprendi que eu era feito de corpo e alma, e um deles dava medo as pessoas que diziam que em casa de finado, deve-se evitar os espelhos, pois diziam os mais velhos, refletia a imagem do defundo, que ficava perambulando pela casa até o enterro.

Eu, moleque teimoso, por certo, não temeroso de ver o meu velho de novo, esperei até a hora em que todo aquele povo fosse embora, para curiar no espelho e quando só havia o caixão e o velho Tio Bastião vigiando o corpo, virei o espelho e para o meu desapontamento, tudo o que vi, foi a mim mesmo.

- Povo bobo! – falei – Acredita em tudo – daí, virei-me pro tio Bastião para contar que aquilo tudo era bobagem, e levei um susto, quando vi que o caixão que ele vigiava não era o do meu pai, mas um caixão bem menor, do meu tamanho...

domingo, julho 25, 2010

VIBRAÇÕES DA MADRUGADA

Acordo no meio da noite, parece que estou sonhando, mas percebo o meu quarto ampliando, vibrando em puro amor; paredes etéreas se confundem com a janela, e ouço a rizada do Velho Preto, curvado e com cachimbo na boca, desejando comunicação.

Eu o conheço, ele acompanha a minha esposa faz um tempo. O recado é para ela, eu sou o passarinho mensageiro.

- O que devo fazer? - pergunto mentalmente, ainda inexperiente nas comunicações de lá para cá. Ele dá uma rizada gostosa e responde:

- Ora, só comunica!

Obedeço, e sinto vibrações em todas as partes do meu corpo, especialmente na região da minha garganta e ouvidos. Minha testa explode em brilho, com círculos coloridos e meu peito é pura paz.

- Qual é a mensagem? - pergunto novamente mentalmente.

Ele ri uma vez mais e nem precisa responder, eu já sei que a mensagem foi passada.

sábado, julho 24, 2010

GUERREIRO DA PAZ



Eu chamo a força, eu chamo a força, eu chamo a força,
Força das pedras para me firmar,
Eu chamo a terra, eu chamo a terra, eu chamo a terra,
Eu chamo a terra para me enraizar,

Eu chamo o vento, eu chamo o vento, eu chamo o vento,
Eu chamo o vento vem me elevar,
Eu chamo o fogo, eu chamo o fogo, eu chamo o fogo,
Eu chamo o fogo para me purificar,

Eu chamo a Lua, chamo o Sol, chamo as estrelas,
Chamo o universo para me iluminar
Eu chamo a água, chamo a chuva e chamo o rio,
Eu chamo todos para me lavar,

Eu chamo o raio, o relâmpago e o trovão,
Eu chamo todo o poder da criação,
Eu chamo o mar, chamo o céu e o infinito,
Eu chamo todos para nos libertar,

Eu chamo o Cristo,
Eu chamo Bhuda,
Eu chamo Khrisna,
Eu chamo a força de todos orixás,

Eu chamo todos com suas forças divinas,
Eu quero ver o universo iluminar,

Eu agradeço pela vida e a coragem,
Ao universo pela oportunidade,

E a minha vida eu dedico com amor,
Ao sonho vivo da nossa humanidade,

Sou mensageiro, sou cometa, eu sou indígena,
Eu sou filho da nação do Arco Íris,
Com meus irmãos eu vou ser mais um guerreiro,
Na nobre causa do Inka Redentor,

Eu sou guerreiro, eu sou guerreiro e vou lutando,
A minha espada é a palavra do amor,
O meu escudo é a bondade no meu peito,
E o meu elmo são os dons do meu senhor,

Eu agradeço a nossa Mãe e ao nosso Pai,
E aos meus irmãos por todos me ajudar,
A minha glória para todos eu entrego,
Porque nós todos somos um nesta união,

Ñdarei a sã, ñdarei a sã, ñdarei a sã,
Desde os principio todos nós somos irmãos,
Orei ouá, Orei ouá, Orei ouá,
Viva o poder de todo o universo!

sexta-feira, julho 23, 2010

A DANÇA COM SANDRA

"Quando eu era criança, meu pai aplaudia
quando eu cantava:
Você é a Sandra Rosa Madalena..."


Eu que sou duro como pedra, reflexo lento de hipópotamo em corrida de coelho, coordenação meia-tigela, fui conduzido, lá no Reino, por Sandra, que não era nem Rosa, nem Madalena, mas dançava como uma cigana, bailava como folha caindo ao vento, e por uma meia volta, volta e meia, dançamos pelo salão sem paredes com teto de bandeiras e telhas.

Ela pegou na minha mão e perguntou: Você aceita dançar essa canção?

Sorri que sim, e no próximo instante, já estava rodopiando pelo salão com ela, querida amiga, Sandra da Dança Perfeita, que conduziu-me pelo ritmo do tambor em giros do mais puro amor. Minha amiga era pura poesia em movimento, e eu não sabia, se ficava ali vendo, ou sorria, mas decidi, entre o ficar e o ir, voar com a minha amiga, e por alguns segundos, senti que estavámos em pleno ar, e tentei ao máximo, não pisar no seu pé, nem na sua asa.

Dançamos forever! Eu em mim, ela nela, os dois assim, copiando os passos um do outro até a dança acabar num abraço duradouro que ainda carrego comigo feito moeda de ouro para todo o sempre do meu bolso que espera a nossa próxima dança.

EDUCANDO AS NOSSAS CRIANÇAS

quinta-feira, julho 22, 2010

COVEIRO RAIMUNDO

Era um coveiro com cara de difunto
Era um coveiro que se chamava Raimundo

Raimundo, Raimundo levanta vagabundo
Raimundo, Raimundo Chegou mais um difunto


Agora Você pode Manda Ver...

Era um coveiro com cara de difunto
Era um coveiro que se chamava Raimundo

Raimundo, Raimundo levanta vagabundo
Raimundo, Raimundo Chegou mais um difunto

Dedilhando...

Até as Caveiras já o conheciam
Até as Caveiras já diziam todo dia

Raimundo, Raimundo levanta vagabundo
Raimundo, Raimundo Chegou mais um difunto


Manda Ver...

Até as Caveiras já o conheciam
Até as Caveiras já diziam todo dia

Raimundo, Raimundo levanta vagabundo
Raimundo, Raimundo Chegou mais um difunto

Dedilhado...

Mais um belo dia Raimundo adoeceu
E de repente Raimundo morreu

Raimundo, Raimundo bem vindo ao nosso mundo
Raimundo, Raimundo vem pra esse buraco fundo

Manda Ver...

Mais um belo dia Raimundo adoeceu
E de repente Raimundo morreu

Raimundo, Raimundo bem vindo ao nosso mundo
Raimundo, Raimundo vem pra esse buraco fundo

Dedilhado...

E no cemitério Raimundo se enturmou
Pela sua Vizinha Raimundo se Apaixonou
Era uma Caveira alta e desdentada
Pelo tal Raimundo ficou louca Apaixonada

Raimundo, Raimundo teu olhar, é tão profundo
Raimundo, Raimundo vem fundo vagabundo


Manda Ver...

E no cemitério Raimundo se enturmou
Pela sua Vizinha Raimundo se Apaixonou
Era uma Caveira alta e desdentada
Pelo tal Raimundo ficou louca Apaixonada

Raimundo, Raimundo teu olhar, é tão profundo
Raimundo, Raimundo vem fundo vagabundo


Dedilhado...

E dona Caveira que era uma gracinha
Com o tal Raimundo teve várais Caveirinhas
Mamãe, Mamãe eu quero mamadeira
Cala a boca não chateia, não tenho peito sou caveira

Manda ver...

E dona Caveira que era uma gracinha
Com o tal Raimundo teve várais Caveirinhas
Mamãe, Mamãe eu quero mamadeira
Cala a boca não chateia, não tenho peito sou caveira


E agora manda Ver, repetindo várias vezes a parte:

Era um coveiro com cara de difunto
Era um coveiro que se chamava Raimundo

Raimundo, Raimundo levanta vagabundo
Raimundo, Raimundo Chegou mais um difunto

REPETECO DO SENHOR

" Menininho não entende o mundo,
mas acha que sabe tudo"


Eu sei que você sabe, sei que não tenho ainda idade para formular respostas, nem tão pouco meia-verdades, pois ainda sou só perguntas e sei que essa inquietação é até um tanto imatura, vai passar, é fase; mas aprendi algo, não sei se é exato, pois minhas frases estão cheias de vírgulas, nem sei ao certo usar a crase; porém, dentro do que me é permitido compartilhar contigo, quero dizer, mesmo correndo o risco de você não querer ouvir, nem querer me ler; que as suas verdades valem apenas para você.

Dentro de mim, de cada um de nós, giram órbitas que só fazem sentido no nosso sistema, pois quem olha de fora, só vê um nó; muito embora ocupamos o mesmo palco, igual não somos, pois na peça que representamos, somos diferentes no advento da interpretação do mundo em que vivemos.

Se não posso negar que verdade há na sua certeza da gravidade do planeta, você não tem que duvidar que veracidade há no avoar das minhas asas de moleque borboleta; e se fomos espertos, e esperto somos, não deixaremos de lembrar que você aprenderá muito comigo perto, assim, como aprenderei tanto perto do senhor, mas por favor, não fique irritado, se eu não estiver engolindo a comida que você mastiga, cujo arroto, você diz aos outros, é a única coisa que tem valor; e nisso, discordo de ti com todo o carinho e um tanto de fervor, pois a informação que ensina e liberta, respeita e opinião forma, e não é apenas um repeteco do senhor.

De clone, basta o meu nome, que todo o resto se torne diversidade, pois é na diferença da nossa interpretação de realidade, que podemos juntar a nossa visão de mundo, você com a sua, eu com a minha, e cada um com a sua parte.

DEAR PRUDENCE

Dear Prudence:
Devo desistir de você?
Ou devo insistir em continuar
A te ajudar a crescer,
a amadurecer,
e se descobrir você?

Dear Prudence:
Olhe a sua volta
E perceba,
O tempo passa,
As oportunidades rareiam,
Cresça junto com os outros,
Não se sacrifique demais,
Pois quem vai na frente
Não olha para quem está atrás;

Dear Prudence:
Venha brincar,
Abra os olhos!
O sol lá fora espera por você
E você...dormindo!

quarta-feira, julho 21, 2010

VOCÊ NÃO SABE

Tradução livre de "You Don´t know"

Esquerda ou direita?
Para frente ou para trás?
Menino, medita!
Você não sabe o que faz!
Você deveria ter mais cuidado
Seguir como cego
É caminho torto, por certo!

Você não sabe ao que pertence,
Deus tenha piedade de nós!
Que ainda acreditamos
Que tu, um dia, perceberá que não está só;

Estamos contigo,
E você segue fugindo,
Das suas responsabilidades
Pense, menino!
Você já não sabe o que faz!

Que preço quer pagar
Para encontrar
A sua idendidade?
Fugindo desse jeito
Você vai acabar na encruzilhada
Da imaturidade,
De nunca ter um lugar
para viver;

Você precisa pertencer
Para ser
E crescer;
E pertencer
Não é prisão,
É libertar-se
Das picuinhas do prazer,
De fugir diante do seu dever,
Talvez um dia
Quando você perceber
Descobrirá
Que você estava sendo todos
Menos você!

((()))



"You Don't Know"
(Cyndi Lauper, Jan Pulsford)

You don't know where you belong
You should be more careful
As you follow blindly along ...
You just need to belong somehow.

Relying on rhetoric ...
Not well versed on topics ...
Any idea what you're talking about ?
Revisions of history
Fair well in some company
But don't shove that bullshit down my throat

You don't know where you belong ...
You should be more careful
As you follow blindly along ...
To find something to swear to ...
Till you don't know what's right from wrong
You just need to belong somehow.

Left suppresses right
Right suppresses left
So what's the left, and what's right ?
You're told what to wear,
You're told what to like
I'd be nice if you'd think for yourself sometime,
But you don't.

Now you don't know where you belong ...
You should be more careful
As you follow blindly along ...

Mix sheer hypocrisy with mediocrity
You'll play it safe every time -
So life turns up empty
And you're so dissatisfied
Who are you blaming this time ?
Don't you know ?

Sintaxe À Vontade

O Teatro Mágico
Composição: Fernando Anitelli

Sem horas e sem dores
Respeitável público pagão
a partir de sempre
toda cura pertence a nós
toda resposta e dúvida
todo sujeito é livre para conjugar o verbo que quiser
todo verbo é livre para ser direto e indireto
nenhum predicado será prejudicado
nem tampouco a vírgula, nem a crase nem a frase e ponto final!
afinal, a má gramática da vida nos põe entre pausas, entre vírgulas
e estar entre vírgulas pode ser aposto
e eu aposto o oposto que vou cativar a todos
sendo apenas um sujeito simples
um sujeito e sua oração
sua pressa e sua verdade,sua fé
que a regência da paz sirva a todos nós... cegos ou não
que enxerguemos o fato
de termos acessórios para nossa oração
separados ou adjuntos, nominais ou não
façamos parte do contexto da crônica
e de todas as capas de edição especial
sejamos também o anúncio da contra-capa
mas ser a capa e ser contra-capa
é a beleza da contradição
é negar a si mesmo
e negar a si mesmo
pode ser também encontrar-se com Deus
com o teu Deus
Sem horas e sem dores
Que nesse encontro que acontece agora
cada um possa se encontrar no outro
até porque...

tem horas que a gente se pergunta...
por que é que não se junta
tudo numa coisa só?

terça-feira, julho 20, 2010

O AMIGO DA ONÇA E O AMIGO PASSARINHO

Ah, que nesse dia dos amigos, cá estou repleto deles, dos mais belos, dos mais unidos, e olha que eu nem queria isso; pois já levei tanto tapa nos ombros e faca nos ouvidos; eu que já confiei tanto, nem teria motivos para acreditar novamente, mas sou metido a gente que nunca se esquece, que embora por aí, tenha muito amigo da onça, também tem amigo passarinho, que ajuda a gente a voar, avoar, avuá e quando a gente pensa que não, já estamos os dois, além do chão, na alegria de ter alguém ao nosso lado para chamar de amigo, irmão, xará, meu chapa, minha alegria, minha contra-copa.

Não tenho um milhão de amigos, nem quero, pois não sou político, nem astro de futebol; porém, todos os amigos que tenho, apesar de eu contá-los numa palma de mão, valem por mil, e se isso é clichê, clichê é também cronicar e dizer que esse amigo é você, pois como sou escritor, a minha mão é gigante, e não conto os amigos pelos dedos, conto por aperto de mão que dou e recebo, conto por abraço gostoso de quem não quer se largar mais e conto por aqueles telefonemas e e-mails, de gente distante de espaço ou gente distante de tempo, mas que está sempre presente e se importa, ao menos, em entrar em contato com a gente, só para perguntar:

"oxente, como vai você? Bem? Quem bom! Agora estou bem também!!!"

penúltimo ato do Teatro

O Teatro Mágico lança seu primeiro DVD oficial e prepara uma pausa sem data para retornar

O primeiro DVD de O Teatro Mágico era uma realização caseira. Foi feito com uma câmera amadora por seu Odácio, o pai de Fernando Anitelli, líder da trupe indie que mistura música, poesia e circo. O segundo DVD, que chega agora às lojas, dá a dimensão do crescimento do grupo. Segundo Ato , uma realização do Itaú Cultural, funciona como o primeiro DVD oficial e, ao mesmo tempo, uma espécie de penúltimo ato do grupo.

Inventor do movimento MPB (Música Para Baixar), que defende a distribuição gratuita de música, o grupo coloca todo o seu conteúdo para download na web. Será assim com o DVD, no site oteatromagico.mus.br. É esta briga que mantém O Teatro Mágico até hoje longe das gravadoras, apesar de ter público fiel e shows invariavelmente lotados.

"Se as gravadoras começarem a aderir ao nosso propósito de tornar a música cada vez mais acessível para todos, porque não agregá-los? Essa é a maneira de fazer uma revolução", disse Fernando Anitelli ao Destak.

É provável, porém, que O Teatro Mágico não tenha tempo de ver a tal revolução. Desde seu início, em 2003, a trupe já sinalizava que o projeto tinha data para acabar. Depois da divulgação do novo DVD, o grupo começa a gravar o terceiro disco. Serão mais dois anos para uma turnê do novo trabalho e, então, uma pausa sem data para retorno.

"O Teatro é uma bola gigante, que engole todo o nosso tempo", disse Anitelli. O período em que o projeto será interrompido, no entanto, não impede que, mais para frente, o grupo volte a se reunir. "O George Lucas [cineasta responsável por Star Wars] fez isso, por que não podemos? Quem sabe não voltamos com O Retorno do Palhaço Jedi?", brincou o músico.

Conheça mais sobre o Teatro Mágico em:
http://oteatromagico.mus.br

Fonte:http://www.destakjornal.com.br/readContent.aspx?id=17,67150

A garota se diverte até com blues

Precursora do pop performático ousa apostar no gênero que ninguém imaginava que ela poderia cantar

Será lançado hoje no Brasil um dos CDs de blues mais bem cotados do ano. Memphis Blue estreou há duas semanas nos EUA e já está em 26º lugar nas vendas. O curioso é que este é o novo trabalho de um ícone pop dos anos 80: Cyndi Lauper.

Acostumada a revolucionar padrões, dessa vez Cyndi foi além. Lançou mão de seu melhor recurso, a sua voz, e conseguiu provar que as meninas também se divertem com o blues.

Em entrevista ao Destak, ela revela que sua paixão pelo gênero não é novidade. "Escuto blues desde criança e queria fazer esse CD desde 2004", diz a cantora americana.

Em plena era Lady Gaga, Cyndi Lauper resolveu deixar as performances extravagantes de lado e teve coragem de se recriar, aos 57 anos.

Mesmo assim, ela não poupa elogios à nova geração de moças do pop. "Lady Gaga e Beyoncé são fantásticas! Assisti a um show da Pink, recentemente, e também achei incrível".

Não foi à toa que o resultado agradou. Cyndi escolheu a dedo parceiros como B.B. King, Allen Toussaint, Charlie Musselwhite, Ann Peebles e Jonny Lang, todos craques do gênero.

Para a edição brasileira de Memphis Blue, a cantora nascida no Brooklym, em Nova York, convidou o saxofonista brasileiro Leo Gandelman, com quem gravou uma faixa especial para o disco lançado hoje nas lojas brasileiras, pela gravadora Lab 344.

"A música brasileira é tão rica e única que eu quis gravar com um grande artista brasileiro, e mostrar o quanto eu admiro e respeito a cultura do país", diz.

"Eu amo dançar, e não existe melhor música para dançar do que a brasileira", conclui.

TURNÊ VEM AO BRASIL Os shows do novo CD de Cyndi Lauper também virão ao país. A turnê ainda não tem datas definidas, mas é certo que a cantora vai se apresentar por aqui ainda no fim deste ano ou no início de 2011.

Fonte: http://www.destakjornal.com.br/readContent.aspx?eid=1038&id=17,67326

REVELAÇÃO E RAZÃO

A morte chegou
E veio avisar:
Acabou-se o espanto
A vida vai continuar
Lembre-se de tudo
Que estava escondido
Na ponta da língua
Da vigília!


Compreenda o sentido
Da visão ampliada
Não saber nada
Era parte do jogo da vida
É claro que ela não acaba
No encerrar da matéria;

Independente
Das certezas da Terra
Duvidar é preciso
Mantém nossa reta,
O que é evidente
É que a mente
Não sabe
Das artimanhas
Do espírito
Nela encrostado
,
E segue dando
Sua própria versão dos fatos
E se perguntando:
- Não seria melhor, sabermos o que há no oculto
e por a ilusão de lado?

Daí, é só na passagem
Que vem a resposta
Exclarecendo
O conteúdo da nossa viagem:
" Só a prática poê a teoria em ação
E o aprendizado da manifestação
Só ocorre de fato,
Quando
Mesmo esquecidos
De quem somos
Nos tornamos
!"

segunda-feira, julho 19, 2010

QUANDO O AMOR DESPERTA A CONSCIÊNCIA, TUDO MUDA!

- por Wagner Borges -

Ninguém escapa do Amor. Mesmo naqueles espíritos empedernidos no ódio e na teimosia, ele opera sutilmente na casa secreta do coração. Docemente, com grande habilidade, o Amor faz sua morada silenciosa no ser.

O Amor é inevitável! Ele não vem. Já está!

Ao longo das eras, inexoravelmente, sob a ação de muitas experiências e suas repercussões cármicas*, todos os seres o encontrarão em si mesmos. Mesmo no seio das trevas conscienciais, ele está!

Silenciosamente, nos bastidores conscienciais, ele opera pacientemente, pois sabe que as coisas mudam, e sempre há chances de eterno recomeço e aprendizado.

Sim, todos estão destinados ao Amor. E não há como alguém mensurar a magnitude do seu poder de transformação no ser. Só se sabe que, quando o Amor é percebido, tudo muda! E nada mais será como antes. E isso não tem tempo ou lugar.

No passado, no presente ou no futuro, no infinito do tempo - Eons? Tempo algum? Quem sabe? -, é o Amor que sempre dá as cartas e bate o jogo.

Ninguém o vê, e, nos momentos de crise – que também suscitam mudanças de paradigmas antigos e desgastados e permite novos aprendizados -, muitos se fecham e até mesmo o negam solenemente. Contudo, ele é paciente e sabe que tudo muda.

Eles surfam no infinito e no céu dos corações, docemente, com grande habilidade. Não há como detê-lo!

Ele conhece tudo e, inexoravelmente, será percebido no momento certo do despertar de cada um. E, quando alguém o descobre viajando pelo céu de seu coração, passa a vê-lo nos demais também. Então tudo muda, e nada mais será como antes.

Um jorro contínuo de bem-aventurança percorrerá todas as fibras de seu ser, dos pés à cabeça, iluminando todos os seus chacras**. E energias maravilhosas serão exteriorizadas silenciosamente de sua aura para todos.

Esse é o destino de todos os homens, de todos os lugares. Mesmo que eles ainda não saibam disso e se permitam pensar e agir egoisticamente, o Amor estará neles.

Quem descobre isso, mesmo que de forma parcial e ainda sem ter despertado plenamente, é tomado de grande assombro. Sente que um pouco desse Amor é mais do que tudo já experimentado antes.

Percebe que até mesmo os espíritos empedernidos nas trevas conscienciais sentem um pouco disso em si mesmos.

Por isso, eles lutam tanto contra o despertar da consciência; têm medo das inevitáveis transformações que o Amor causa nos corações.

Sabem que as paredes trevosas que construíram em torno de si mesmos não conseguirão impedir o “big-bang consciencial” de acontecer.

Têm medo de que apenas uma centelha desse Amor se torne uma super-nova no céu de seus corações. Então, como autodefesa, dizem-se das trevas. Porém, como todos os seres, eles são do Amor.

Sim, sentir um pouco desse Amor já vale tudo! Faz pensar que mesmo quem carrega trevas nas intenções e nos atos, também carrega um tesouro secreto no coração.

Faz pensar que todos os homens são irmãos, mesmo que a maioria ainda não perceba isso adequadamente. Não importa! O despertar é inevitável, e o Amor é paciente.

Lá no meio das trevas do ego está surgindo uma super-nova consciencial. Feliz daquele que já viu essa luz amorosa eclodindo perenemente em seu coração.

Como ensinava o mestre Ramakrishna: “Sem Amor ninguém segue...”

P.S.:

Escrevi essas linhas por inspiração de um Amor sutil que não se explica, só se sente... Não sei como ou por quê. Só senti e escrevi!

Talvez outros também se sintam contentes ao ler essas linhas. E, aí, mais super-novas brilharão em seus corações.

- Notas:

* Cármicas - do sânscrito “Karma”: “Ação”, “Causa” - toda ação gera uma reação correspondente; toda causa gera o seu efeito correspondente. A esse mecanismo universal, os hindus chamaram “carma”. Suas repercussões na vida dos seres e seus atos podem ser denominados de conseqüências cármicas.

** Chacras - do sânscrito – são os centros de força situados no corpo energético e que têm como função principal a absorção de energia – prana , chi – do meio ambiente para o interior do campo energético e do corpo físico. Além disso, servem de ponte energética entre o corpo espiritual e o corpo físico.

Os principais chacras, que estão conectados com as sete glândulas que compõe o sistema endócrino, são sete: coronário, frontal, laríngeo, cardíaco, umbilical, sexual e básico.

Obs.: Segue-se abaixo um outro texto que apresenta correspondências com esses escritos de hoje.




CÉU LEGAL

- por Wagner Borges -

O Céu não escuta lamentações egoístas nem cede às pressões e chantagens emocionais dos homens.

Há muita ilusão na maneira como os homens tentam se ligar ao Divino.

Há preces que mais parecem evocações de climas violentos contra os outros – principalmente se o alvo mental da pessoa é alguém de outra religião ou ideologia.

Neste mesmo instante, em lugares variados do mundo, há pessoas orando com bombas amarradas na cintura; e outras, vigiando e condenando a conduta alheia – de preferência, olhando aqueles “infiéis” e materialistas que pensam de forma diferente.

Porém, o Céu não compactua com qualquer espécie de radicalismo, seja de que tipo for.

O Céu só escuta aquilo que brota diretamente do coração, em espírito e verdade. Pois só aquilo que é verdadeiro e luminoso é que sobe aos planos celestiais.

Preces e evocações radicais, de nível egoístico, somente criam formas mentais cinzentas* que, em lugar de subir aos céus, apenas gravitam em volta da aura** da própria pessoa.

E isso é o óbvio: como se elevar aos céus carregando, ao mesmo tempo, o peso das intenções escusas? Como falar com o Divino, se os pensamentos estão cheios de cargas psíquicas projetadas ocultamente contra os outros? Como falar de paz, sem ter paz em si mesmo?

A Luz do Céu não se degrada atendendo aos pedidos engendrados pela arrogância dos homens. A Luz procura a Luz!

O discernimento dissolve as ilusões, e o amor transforma tudo e todos, sem violentar ninguém. O Céu não força a barra, pois o Divino conhece bem o que se passa em cada coração. A Luz respeita o momento de cada um.

Por isso, o Céu não segue essa ou aquela doutrina criada pelos homens da Terra. “Lá em cima”, quem manda é o Amor incondicional, que ama todos, naturalmente. E esse Amor está em tudo.

Sim, o Céu é infinito, mas conhece cada partícula que faz parte do Todo. É eterno, mas compreende o transitório e o interpenetra completamente.

A manifestação celeste é silenciosa; é pura compreensão serena e lucidez amorosa; é luz e amor integrados.

O Céu é de onde viemos e para onde vamos...

Que esse Céu inspire a jornada de todos nós, na Terra e além...*

- Notas:


* Enquanto passava a limpo esse material, lembrei-me de um texto inspirado, que pode acrescentar algo bem legal nesses escritos. O seu autor é um ocultista anônimo, iniciado nas artes do espírito e do coração. Vamos à luz de seus escritos.

RETA MEMÓRIA

- por S. G. E.: -

Esqueçamos as coisas tristes que nos vexaram e humilharam,

As esperanças que, embora há muito acalentadas, nos foram negadas;

Esqueçamos.



Esqueçamos as pequenas banalidades que nos atormentaram,

Os erros maiores que por vezes ainda nos pungem;

O orgulho com que algum soberbo nos desdenhou;

Esqueçamos.



Esqueçamos as faltas e falhas de nosso irmão,

O ceder às tentações que o assediam

E que ele, quiçá, embora inúteis sejam as mágoas,

Não pode esquecer.



Mas bênçãos múltiplas, e passados merecimentos,

Palavras amáveis e atos caridosos – uma multidão incontável,

O pecado vencido, a retidão triunfante,

Recordemos sempre.



O sacrifício do amor, o generoso dar,

Quando os amigos eram poucos, o aperto de mão quente e forte,

A fragrância de cada vida de santo viver,

Recordemos sempre.



Todas as coisas que foram boas, verdadeiras e graciosas,

Todo bem que haja triunfado sobre o mal,

Tudo quanto o amor de Deus ou do homem haja tornado precioso,

Recordemos sempre.


Para mais informações sobre o Professor Wagner Borges e as palestras do IPPB, acesse:
www.ippb.org.br

Leviatã


" É bom não esquecer
Que o inventor do alfabeto
foi um analfabeto"
Millôr


No princípio
tudo era dito,
Pois não existia
Palavras;

Tudo era claro,
O pouco que se falava
Era sílaba mágica,
No som, o canto,
Feito melodia encantada,
Onde tudo era compreendido
Em sua mais direta forma;

Daí, surgiu
A necessidade explicada
E o simples passou
A ser derivado,
E nos perdemos
No meio da frase
Ao tentar criar significados
Para aquilo que apenas era
O que sempre foi
Sem tempo e nem espaço,
E hoje já não conseguimos
Lembrar como era o começo do parágrafo
E nem muito menos sobre o que, no início,
Conversavámos...

domingo, julho 18, 2010

TOC, TOC

Deixa eu te dar um toque,
Se ao sair de casa,
Você tranca a porta
E mesmo assim,
Retorna,
Para checar
Se a porta foi mesmo
Trancada,
Cuidado:
Começa com a porta
E termina com o ferro!

Oração dos Médiuns

Deus, Todo Poderoso, permiti que nas comunicações que solicito, eu seja assistido por bons espíritos;

Preservai-me da presunção de me julgar isento da influência dos maus espíritos;
Do orgulho e vaidade que me cegariam, iludindo-me quanto ao valor das comunicações que obtenha;

De todo e qualquer sentimento contrário ao espírito de caridade para com todos os meus irmãos e, especialmente, para com os outros médiuns;

Se eu for induzido ao erro inspirai a outrem o pensamento de me avisar e, a mim, a humildade para aceitar, com reconhecimento, a advertência e tomar, para mim mesmo,
os conselhos e instruções que me ditarem os vossos bons espíritos.

Assim seja.

sábado, julho 17, 2010

Iemanjá Rainha do Mar - Maria Bethânia

Composição: Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro

Quanto nome tem a Rainha do Mar?
Quanto nome tem a Rainha do Mar?

Dandalunda, Janaína,
Marabô, Princesa de Aiocá,
Inaê, Sereia, Mucunã,
Maria, Dona Iemanjá.

Onde ela vive?
Onde ela mora?

Nas águas,
Na loca de pedra,
Num palácio encantado,
No fundo do mar.

O que ela gosta?
O que ela adora?

Perfume,
Flor, espelho e pente
Toda sorte de presente
Pra ela se enfeitar.

Como se saúda a Rainha do Mar?
Como se saúda a Rainha do Mar?

Alodê, Odofiaba,
Minha-mãe, Mãe-d'água,
Odoyá!

Qual é seu dia,
Nossa Senhora?

É dia dois de fevereiro
Quando na beira da praia
Eu vou me abençoar.

O que ela canta?
Por que ela chora?

Só canta cantiga bonita
Chora quando fica aflita
Se você chorar.

Quem é que já viu a Rainha do Mar?
Quem é que já viu a Rainha do Mar?

Pescador e marinheiro
que escuta a sereia cantar
é com o povo que é praiero
que dona Iemanjá quer se casar.

sexta-feira, julho 16, 2010

POR ACIDENTE

Num momento tudo esta em ordem, em outro instante, o caos invade e o encanto da dualidade acerta as contas, e te pega, te derruba e se você aguenta, você se levanta, dança um pouquinho, samba e compreende que tudo não passou dum balanço do ritmo da vida. Gosto de ter controle sobre as minhas coisas, prefiro ser auto-suficente, cuidar da minha vida de forma independente, sem precisar pedir ajuda de ninguém, sem necessitar dos outros para me auxiliar. Sou uma Águia, costumo afirmar, num eterno voo solo nesse caminhar na Terra. Sim, nesse continente, costumo atuar como se eu fosse uma ilha, até o mar balançar...

Vinha eu com os meus livros dentro de um ônibus, seguindo em direção a um aluno nessa terça chuvosa que passou; aperto a campainha, a condução parou no mesmo ponto que desço sempre, sem novidades, tudo muito repetitivo, aparente, como manda a rotina, como dita o tempo; algumas pessoas descem na minha frente, sou o último, preparo com um braço o guarda-chuva, com o outro me seguro; estou descendo e pensando já no outro ônibus que me levará da Avenida Santo Amaro para o Broklin, quando, o motorista fecha a porta e acelera com a metade de mim dentro, metade já lá fora; despenco!

O pé fica preso na porta, o corpo balança em direção ao asfalto, e para não bater a cabeça na quina da calçada, escoro-me com o braço, apoiando toda a queda em meu ombro que faz crack e creck e da minha boca sai um urro de dor. O ônibus segue me arrastando, lama, água, asfalto no rosto, vento; a chuva caindo, o povo gritando, outros carros buzinando, um alvoroço, e finalmente, o ônibus parando há tempo. As portas se abrem, ganho o meu pé de volta, o resto do corpo se encontra com o asfalto e vem ao chão. O braço que apoiou a queda está fora de lugar, uma dor maior do que eu achava que poderia aguentar me pede grito, choro, mas respiro, pois acabei de virar pão para todo o circo que se forma ao meu redor. Alguns tentam me ajudar, seguram-me pelo braço quebrado, só fazem piorar.

- Não me toquem! - eu grito, sabendo que em acidentes assim, a melhor ajuda é não tentar levantar a pessoa caída, teoria que vira prática comigo na pista, mas surrealmente, o ombro faz creck e crack novamente e naturalmente volta para o lugar; coloco-me de pé, a multidão abre alas para eu passar, sento no banco do ponto, a multidão quer quebrar o ônibus, o motorista sai de lá assustado e vem na minha direção.

- Por favor, me perdoe - seus olhos são puro desespero, ele sabe o que fez e que a multidão furiosa vai mostrar a que veio. Quero gritar com ele, quero que ele pague pela dor que me causou e que nunca mais repita aquilo - O senhor escorregou ao descer, não foi? - ele diz e eu gritando mentalmente, respondo:

- Como assim escorreguei? Ficou louco? Você e a sua pressa quase me mataram!!! Circo pegando fogo, eu rosno com o olhar, a multidão grita, e ele suplica novamente:

- O senhor caiu, não foi? Respiro uma vez, uma segunda e enfim, jogo água no fogo e respondo:

- Sim, escorreguei! Não foi culpa dele! O motorista agradece com um olhar e a multidão enfurecida volta ao seu lugar; lição para ele aprendida, talvez por toda a vida; para mim, que lição há?

Tudo parece no lugar, meu ombro queima nervos, respondo "estou bem" umas mil vezes a todo mundo que se oferece a me conduzir até um hospital, chamar um taxi ou ao menos telefonar para alguém que venha me pegar. Recuso, agradeço, e sigo; o circo se disperza, sei que preciso cuidar do ombro, é meu braço direito, o meu ganha-pão, o meu faz-crônica.

Penso em ligar para minha esposa, para a minha irmã ou um amigo, mas não faço nada disso; e já me sentindo seguro e bem de tudo, pego outro ônibus e volto para casa, sem aprender a lição que o acidente me contava : saber pedir ajuda na hora certa era a moral da história.

quinta-feira, julho 15, 2010

'Playboy' portuguesa é fechada, após publicar Jesus com mulher nua em homenagem a Saramago

'Playboy' portuguesa é fechada, após publicar Jesus com mulher nua em homenagem a Saramago
Qui, 08 Jul, 02h13


RIO - A intenção da "Playboy" portuguesa era causar polêmica com a capa ilustrada por Jesus Cristo e uma mulher nua, mas a repercussão foi longe demais. A Playboy Entertainment anunciou, nesta quinta-feira, que vai rescindir o contrato com a versão de Portugal por causa da edição que homenageia o livro "Evangelho segundo Jesus Cristo", de José Saramago.

"Não vimos nem aprovamos a capa e as fotografias do número de Julho da 'Playboy' Portugal. Trata-se de uma violação chocante das nossas normas e não teria sido permitida a publicação, se tivéssemos conhecimento antecipado", declarou Theresa Hennessy, vice-presidente da Playboy, ao site Gawker.

A duração da versão portuguesa da revista foi curta. O primeiro número saiu em março de 2009, com a cantora Mônica Sofia na capa.

Fonte: http://br.noticias.yahoo.com/s/08072010/83/playboy-portuguesa-fechada-apos-publicar-jesus.html

GANHEI O DIA

Ela disse que queria me apresentar à alguém que tinha lido uma crônica minha e queria muito me conhecer. Sou levado até essa mulher sorridente que me recebe de braços abertos e sorriso amplo, do tamanho do universo, que diz assim para mim:
" Obrigado!"

****

Pergunto ao meu aluno se ele compreendeu corretamente a lição, se tem alguma dúvida, ele sorri e me diz:
" Não se preocupe, teacher, você já fez um grande milagre: eu que odiava aprender inglês, hoje, estou apaixonado"

****

A aluna esperou a aula acabar e veio falar comigo:

- Esperei por 10 anos e finalmente encontrei o que eu procurava?
- Você conseguiu um emprego novo?
- Que nada! Melhor que isso. Agora eu sei o que é ser ensinada.

****

Recebi um comentário no blog de um leitor que dizia assim:
" Obrigado por escrever essa crônica para mim!"

Eu é que deveria agradecer a leitura, mas ele não deixou o nome.

quarta-feira, julho 14, 2010

CONVERTENDO A SI MESMO

Por que me irrita tanto a sua ignorância, a sua fé, a sua venda nos olhos, o que diz e o que faz?

Por que não te deixo em paz, não te deixo seguir, e tento sempre te mostrar a maneira correta, como agir e como pensar?

Por que quero tanto te salvar?

Será que eu sou aquele que deveria aprender que o que os seus olhos vêem só diz respeito a você?

Será que o ignorante sou eu?

terça-feira, julho 13, 2010

A SUA ATENÇÃO

Vivo...
Pulso vida por todos os poros do meu corpo. Pura intenção da luz em mim em se realizar humano.

Estou vivo, nada de novo, sei disso, mas ando esquecido e caminho dormindo, quase entorpecido e decido acordar, para tanto, realizo um pequeno exercício de meditação dinâmica; quero estar presente, quero estar ciente do poder da minha concentração em uma só ação, no presente.

Olho para a minha mão em total atenção e percebo toda a minha consciência se movendo em concentração para esse simples gesto de olhar a minha mão. Então, desvio o olhar em direção ao mundo ao meu redor, e novamente observo que cada parte de quem eu sou me acompanha nesse gesto de observação. Sou um com o que eu observo, não estou em outro lugar, estou aqui mesmo.

Vivo, sinto que todo o meu ser pulsa em direção dessa minha intenção. Sei que quanto mais atento estou, mas presto atenção ao que gira ao meu redor e não preciso mais temer o outro, ou algo, pois sei da importância de saber quem eu sou.

Continuo em concentração, respiração profunda, desviando os pensamentos vagamundos e acalmando a ansiedade e observo a multidão, outros tantos estão dormindo, entorpecidos com a ilusão. Não sou diferente, além dessa meditação, sei que se eu não prestar atenção voltarei a caminhar adormecido em um mar de sentidos controlados por minhas emoções.

Já fui esquecido disso, hoje tento sempre me lembrar que é fácil desistir de caminhar em direção a uma atenção maior do meu ser. É muito mais cômodo mergulhar no entorpecer do não ser. Deixar para amanhã o renascer de uma consciência mais atenta, plena e segura. A luz requer esforço, a escuridão só exige o nosso conforto dentro do seu calabouço.

Quanto mais seguro estou desse exercício de atenção, mas percebo que o que era difícil vai se tornando cada vez mais confortável. Pensando nisso, noto um mendigo se aproximando ao meu lado, com a mão estendida e olhos famintos pela minha pena. Ele fala qualquer coisa, parece saudável, só não esta consciente, pelo cheiro que exala e por seu bafo, percebo que suas intenções com os meus trocados não são outras que permanecer bêbado, mesmo assim, dou o meu dinheiro, ele segue feliz com o seu objetivo, e eu fico com a minha reflexão, tento evitar o julgamento, mas sem que eu consiga evitar, sigo com ele, caminho até o bar, ele pede uma “branquinha”, o atendente evita olhar para ele, se concentra em só pegar o que lhe interessa: as moedas; o mendigo segura o copo, sorri satisfeito, e o álcool desce queimando a sua garganta e por alguns instantes, acordando todo o seu ser, que brilha radiante.

O mendigo lembra quem é e o que pode ser, o que deveria fazer, mas não fez, e o que ainda pode fazer, percebendo sua própria luz; mas isso dura apenas alguns segundos, um instante, pois a bebida pede o seu preço, e atenção dele se dissolve num esmorecimento, como se cada sentido se alongasse, dando inicio a um entorpecimento, um sentir-se satisfeito para sempre.

O mendigo então caminha, como se flutuasse, como se nada mais importasse. Seus reflexos cada vez mais lentos, sua vontade cada vez mais tomada pelo efeito da bebida que se alia ao seu desejo de não se importar em construir, em pertencer, em amar e trabalhar para merecer; e em nome de uma falsa liberdade, ele toma novamente a decisão de permanecer " livre" e não precisar pertencer a sociedade, a uma família, e nisso, ele se entrega a vultos coletivos que devoram a sua consciência, lhe cobrando uma obediência que ele confunde como sendo apenas uma decisão do seu livre ser; e tomado pela bebida, já sem conseguir permanecer em pé, ele não sente condições de nada mais a fazer do que se escorar na parede de uma escola, onde vai perdendo os sentidos lentamente e caindo no sono calabouço onde não se descansa, e enquanto isso, da escola, sai um grupo de crianças, correndo e brincando, em atenção plena, cientes de que precisam apenas viver e crescer.

Volto a mim, e um insight vai tomando conta do meu exercício de observação; e algo em mim me conta que viver é um exercício de atenção constante, e morrer é apenas a nossa atenção se dissipando, se ausentando, perdendo o foco, até que nada resta além de um corpo escuro,vazio, um ser...
Morto.

segunda-feira, julho 12, 2010

O mistério do Big Bang e o Nascimento da Consciência

Ah, não vai ser eu que vai te explicar o que havia antes do Big Bang - é mistério que nem Sherlock Holmes ou Dr. House consegue desvendar; mas mente é tudo curiosa, é homem é sempre abelhudo, e topei essa peleja com um insight que ficou zanzando na minha mente, enquanto eu fazia a barba, numa manhã de segunda-feira; e esse insight veio com cara de charada, obrigando-me a investir mais do que uma pensada no assunto e enquanto eu devia estar pensando na rush hour, lá eu estava, tomando pingado com pão na chapa misturado com essas questões universais que nos atormentam, como se esperassem que tivessemos uma outra mentalidade capaz de resolver esses enigmas; eu que não sou nem um gênio, mesmo assim, dei uma de Einstein e comecei a elaborar uma teoria que diz assim:

" Junto com o Big Bang, surgiu também a nossa consciência se expandindo, desenvolvendo e criando, mantendo e destruindo formas; num jogo de sombra e luz, matéria e vazio, para todo o sempre amém!

Assim como o universo se expande, expande-se também a nossa consciência em busca de seus limites e da sua origem, sem se dar conta que a lógica da matéria não engole tamanho mistério que veio antes, contudo, se ampliarmos as ondas da nossa percepção, dentro das órbitas do sol criado que demos o nome de "nosso coração", vamos começar a perceber pequenas pistas, dicas de que não estamos á toa na Terra e a cada dia nela ocorre um Big Bang quando acordamos."

Baseado nessa viagem de ideia, junto com o ônibus e com o cobrador babando, perguntei-me: que universo eu estarei criando?

Daí, sentei, abri o jornal e esqueci completamente o que eu estava pensando...

Então, a charada voltou e eu fiquei entre um balanço e um solavanco, pensando novamente em Big Bangs diários que explodem desapercebidos, mas que criam universos paralelos dentro das nossas vidas, e veio a segunda parte da minha teoria que se você ainda está lendo, vai aprender que era assim:

" E se ao invés de estarmos nos aproximando, na verdade, estivermos nos afastando da fonte original, caixa de pandora das respostas universais, morada do Senhor, Graças a Deus!

Será que enquanto estamos vivos, somos matéria prensada, luz condesada, se ampliando, se afastando e se esquecendo, perdida em seus próprios pigmentos? Como podemos lembrar de algo que ficou lá atrás, bem distante, longe, bem longe, no reino do ontem, se estamos tão amanhã?

Será que ao morrermos, retrocederemos, voltando a origem de tudo e descobriremos em nossa consciência, onde sempre estivemos e ainda estamos?

Será que esse é o tal "Presente Divino": Ele, eu, você tudo juntinho, feito um SÓ, farinha do mesmo saco, tudo irmãozinho, como contam as lendas, os livros sagrados em suas parabólas, estórias das histórias, guardadas em nossas memórias individuais que formam uma realidade coletiva palpável, que só se faz real, quando estamos encarnados, e acreditando DE FATO que nada mais existe além do que o que percebemos com os nossos sentidos limitados."

Eureka! Pensei e me imaginei ganhando o Nobel, por ter descoberto o segredo do Universo, mas não prossegui na terceira parte da tese, pois havia uma ladra muito linda a minha frente, e ela roubou todos os meus pensamentos e meus olhos, minha mente, meus sentidos acordados e os que estavam até então dormentes não fizeram outra coisa além de observar as curvas daquela matéria e desejar que o meu BIG fizesse BANG com ela para todo o sempre, aleluya, hosanas e nós dois nas alturas.

domingo, julho 11, 2010

O Santo que não acreditava em Deus

Por João Ubaldo Ribeiro


Temos várias espécies de peixe neste mundo, havendo o peixe que come lama, o peixe que come baratas do molhado, o peixe que vive tomando sopa fazendo chupações na água, o peixe que, quando vê a fêmea grávida pondo ovos, não pode se conter e com agitações do rabo lava a água de esporras a torto e a direito ficando a água leitosa, temos o peixe que persegue os metais brilhantes, umas cavalas que pulam para fora bem como tainhas, umas corvinas quase que atômicas, temos por exemplo o niquim, conhecido por todas as orlas do Recôncavo, o qual peixe não somente fuma cigarros e cigarrilhas, preferindo a tálvis e o continental sem filtro, hoje em falta, mas também ferreia pior do que uma arraia a pessoa que futuca suas partes, rendendo febre e calafrios, porventura caganeiras, mormente frios e tantas coisas, temos os peixes tiburones e cações, que nunca podem parar de nadar para não morrer afogados.

É engraçado que eu entenda tanto de peixe e quase não pegue, mas entendo. Os peixes miúdos de moqueca são: o carapicu, o garapau, o chicharro e a sardinha. Entremeados, podemos ferrar o baiacu e o barrigame-dói, o qual o primeiro é venenoso e o segundo causa bostas soltas e cólicas. De uma ponte igual a essa, que já foi bastante melhor, podemos esperar também peixes de mais de palmo, porém menos de dois, que por aqui passam, dependendo do que diz o rei dos peixes, dependendo de uma coisa e outra. Um budião, um cabeçudo, um frade, um barbeiro. Pode ser um robalo ou uma agulha ou ainda uma moréia, isto dificilmente. O bom da pesca do peixe miúdo é quando estão mordendo verdadeiramente e sentamos na rampa ou então vamos esfriando as virilhas nestas águas de agosto e ficamos satisfeitos com aquela expedição de pescaria e nada mais desejamos da vida.

Ou quando estamos como assim nesta canoa, porém nada mordendo, somente carrapatos. Nesses peixes miúdos de moqueca, esquecia eu de mencionar o carrapato, que não aparece muito a não ser em certas épocas, devendo ter recebido o nome de carrapato justamente por ser uma completa infernação, como os carrapatos do ar. Notadamente porque esse peixe carrapato tem a boca mais do que descomunal para o tamanho, de modo que botamos um anzol para peixes mais fundos, digamos um vermelho, um olho-de-boi, um peixe-tapa, uma coisa decente, quando que me vem lá de baixo, parecendo uma borboletinha pendurada na ponta da linha, um carrapato. Revolta a pessoa.

E estou eu colocando uma linha de náilon que me veio de Salvador por intermédio de Luiz Cuiúba, que me traz essa linha verde e grossa, com dois chumbos de cunha e anzóis presos por uma espécie de rosca de arame, linha esta que não me dá confiança, agora se vendo que é especializada em carrapatos. Mas temos uma vazante despreocupada, vem aí setembro com suas arraias no céu e, com esses dois punhados de camarão miúdo que Sete Ratos me deu, eu amarro a canoa nos restos da torre de petróleo e solto a linha pelos bordos, que não vou me dar ao desfrute de rodar essa linha esquisita por cima da cabeça como é o certo, pode ser que alguém me veja. Daqui diviso os fundos da Matriz e uns meninos como formiguinhas escorregando nas areias descarregadas pelos saveiros, mas o barulho deles chega a mim depois da vista e assim os gritos deles parecem uns rabos compridos. Temos uma carteira quase cheia de cigarros; uma moringa, fresca, fresca; meia quartinha de batida de limão; estamos sem cueca, a água, se não fosse a correnteza da vazante, era mesmo um espelho; não falta nada e então botamos o chapéu um pouco em cima do nariz, ajeitamos o corpo na popa, enrolamos a linha no tornozelo e quedamos, pensando na vida.

Nisso começa o carrapato, que no princípio tive na conta de baiacus ladrões. Quem está com dois anzóis dos grandes, pegou isca de graça e a mulher já mariscou a comida do meio-dia pode ser imaginado que não vai dar importância a beliscão leve na linha. Nem leve nem pesado. Se quiser ferrar, ferre, se não quiser não ferre. Isso toda vez eu penso, como todo mundo que tem juízo, mas não tem esse santo que consiga ficar com aqueles puxavantes no apeador sem se mexer e tomar uma providência. Estamos sabendo: é um desgraçado de um baiacu. Se for, havendo ele dado todo esse trabalho, procuremos arrancar o anzol que o miserável engole e estropia e trataremos de coçar a barriga dele e, quando inchar, dar-lhe um pipoco, pisando com o calcanhar. Mas como de fato não é um baiacu, mas um carrapato subdesenvolvido, um carrapatinho de merda, com mais boca do que qualquer outra coisa, boca essa assoberbando um belo anzol preparado pelo menos para um dentão, não se pode fazer nada. Um carrapato desses a pessoa come com uma exclusiva dentada com muito espaço de sobra, se valesse a pena gastar fogo com um infeliz desses. Vai daí, carrapato na poça d'água do fundo da canoa e, dessa hora em diante, um carrapato por segundo mordendo o anzol, uma azucrinarão completa. Foi ficando aquela pilha de carrapatinhos no fundo da canoa e eu pensei que então não era eu quem ia aparecer com eles em casa, porque com certeza iam perguntar se eu tinha catado as costas de um jegue velho e nem gato ia querer comer aquilo. Pode ser que essa linha de Cuiúba tenha especialidade mesmo em carrapato, pode ser qualquer coisa, mas chega a falta de vergonha ficar aqui fisgando esses carrapatos, de maneira que só podemos abrir essa quartinha, retirar o anzol da água, verificar se vale a pena remar até o pesqueiro de Paparrão nesta soalheira, pensar que pressa é essa que o mundo não vai acabar, e ficar mamando na quartinha, viva a fruta limão, que é curativa.

Nisto que o silêncio aumenta e, pelo lado, eu sinto que tem alguma coisa em pé pelas biribas da torre velha e eu não tinha visto nada antes, não podendo também ser da aguardente, pois que muito mal tomei dois goles. Ele estava segurando uma biriba coberta de ostras com a mão direita, em pé numa escora, com as calças arregaçadas, um chapéu velho e um suspensório por cima da camisa.

— Ai égua! — disse eu. — Veio nadando e está enxuto?

— Eu não vim nadando — disse ele. — Muito peixe?

— Carrapato miúdo.

— Olhe ali — disse ele, mostrando um rebrilho na água mais para o lado da Ilha do Medo. — Peixe.

Ora, uma manta de azeiteiras vem vindo bendodela, costeando o perau. É conhecida porque quebra a água numa porção de pedacinhos pela flor e aquilo vai igual a muitas lâminas, bordejando e brilhando. Mas dessas azeiteiras, como as peixas chamadas solteiras, não se pode esperar que mordam anzol, nem mesmo morram de bomba.

— Azeiteira — disse eu. — Só mesmo uma bela rede. E mais canoa e mais braço.

— Mas eles ficam pulando — disse ele, que tinha um sorriso entusiasmado, possivelmente porque era difícil não perceber que a água em cima como que era o aço de um espelho, só que aço mole como o do termômetro, e então cada peixe que subia era um orador. Aí eu disse, meu compadre, se vosmecê botar um anzol e uma dessas meninas gordurentas morder esse tal anzol, eu dou uma festa para você no hotel — ainda que mal pergunte, como é a sua graça?



Assim levamos um certo tempo, porque ele se encabulou, me afirmando que não apreciava mentir, razão por que preferia não se apresentar, mas eu disse que não botava na minha canoa aquele de quem não saiba o nome e então ficasse ele ali o resto da manhã, a tarde e a noite pendurado nas biribas, esperando Deus dar bom tempo. Mas que coisa interessante, disse ele dando um suspiro, isso que você falou.

— É o seguinte — disse ele, dando outro suspiro. — É porque eu sou Deus.

Ora, ora me veja-me. Mas foi o que ele disse e os carrapatinhos, que já gostam de fazer corrote-corrote com a garganta quando a gente tira a linha da água ficaram muitíssimo assanhados.

— É mais o seguinte — continuou ele, com a expressão de quem está um pouco enfadado. — Está vendo aqui? Não tem nada. Está vendo alguma coisa aqui? Nada! Muito bem, daqui eu vou tirar uma porção de linhas e jogar no meio dessas azeiteiras. E dito e feito, mais ligeiro que o trovão, botou os braços para cima e tome tudo quanto foi tipo de linha saindo pelos dedos dele, parecia um arco-íris. Ele aí ficou todo monarca, olhando para mim com a cara de quem eu não sou nem principiante em peixe e pesca. Mas o que aconteceu? Aconteceu que, na mesma hora, cada um dos anzóis que ele botou foi mordido por um carrapato e, quando ele puxou, foi aquela carrapatada no meio da canoa. Eu fiz: quá-quá-quá, não está vendo tu que temos somente carrapatos? Carrapato, carrapato, disse eu, está vendo a cara do besta? Ele, porém, se retou.

— Não se abra, não — disse ele — que eu mando o peixe lhe dar porrada.

— Porrada dada, porrada respostada — disse eu.

Para que eu disse isto, amigo, porque me saiu um mero que não tinha mais medida, saiu esse mero de junto assim da biriba, dando um pulo como somente cavacos dão e me passou uma rabanada na cara que minha cara ficou vermelha dois dias depois disto.

— Donde saiu essa, sai mais uma grosa! — disse ele dando risada, e o mero ficou a umas três braças da canoa, mostrando as gengivas com uma cara de puxa-saco.

— Não procure presepada, não — disse ele. — Senão eu mando dar um banho na sua cara.

— Mande seu banho — disse eu, que às vezes penso que não tenho inteligência.

Pois não é que ele mandou esse banho, tendo saído uma onda da parte da Ponta de Nossa Senhora, curvando como uma alface aborrecida a ponta da coroa, a qual onda deu tamanha porrada na canoa que fiquemos flutuando no ar vários momentos.

— Então? — disse ele. — Eu sou Deus e estou aqui para tomar um par de providências, sabe vosmecê onde fica a feira de Maragogipe?

— Qual é feira de Maragogipe nem feira de Gogiperama — disse eu, muito mais do que emputecido, e fui caindo de pau no elemento, nisso que ele se vira num verdadeiro azougue e me desce mais que quatrocentos sopapos bem medidos, equivalentemente a um catavento endoidado e, cada vez que eu levantava, nessa cada vez eu tomava uma porrada encaixada. Terminou nós caindo das nuvens, não sei qual com mais poeira em torno da garupa. Ele, no meio da queda, me deu uns dois tabefes e me disse: está convertido, convencido, inteirado, percebido, assimilado, esclarecido, explicado, destrinchado, compreendido, filho de uma puta? E eu disse sim senhor, Deus é mais. Pare de falar em mim, sacaneta, disse ele, senão lhe quebro todo de porrada. Reze aí um padre-nosso antes que eu me aborreça, disse ele. Cale essa matraca, disse ele.

Então eu fui me convencendo, mesmo porque ele não estava com essas paciências todas, embora se estivesse vendo que ele era boa pessoa. Esclareceu que, se quisesse, podia andar em cima do mar, mas era por demais escandaloso esse comportamento, podendo chamar a atenção. Que qualquer coisa que ele resolvesse fazer ele fazia e que eu não me fizesse de besta e que, se ele quisesse, transformava aqueles carrapatos todos em lindos robalos frescos. No que eu me queixei que dali para Maragogipe era um bom pedaço e que era mais fácil um boto aparecer para puxar a gente do que a gente conseguir chegar lá antes que a feira acabasse e aí ele mete dois dedos dentro da água e a canoa sai parecendo uma lancha da Marinha, ciscando por cima dos rasos e empinando a proa como se fosse coisa, homem ora. Achei falta de educação não oferecer um pouco do da quartinha, mas ele disse que não estava com vontade de beber.

Nisso vamos chegando muito rapidamente a Maragogipe e Deus puxa a poita desparramando muitos carrapatos pelos lados e fazendo a alegria dos siris que por ali pastejam e sai como que nem um peixe-voador. No meio do caminho, ele passa bastante desencalmado e salva duas almas com um toque só, uma coisa de relepada como somente quem tem muita prática consegue fazer, vem com a experiência. Porque ele nem estava olhando para essas duas almas, mas na passagem deu um toque na orelha de cada uma e as duas saíram voando ali mesmo, igual aos martins depois do mergulho. Mas aí ele ficou sem saber para onde ia, na beira da feira, e então eu cheguei perto dele.

— Tem um rapaz aqui — disse Deus, coçando a gaforinha meio sem jeito — que eu preciso ver.

— Mas por que vosmecê não faz um milagre e não acha logo essa pessoa? — perguntei eu, usando o vosmecê, porque não ia chamar Deus de você, mas também não queria passar por besta se ele não fosse.

— Não suporto fazer milagre — disse ele. — Não sou mágico. E, em vez de me ajudar, por que é que fica aí falando besteira?

Nessa hora eu quase ia me aborrecendo, mas uma coisa fez que eu não mandasse ele para algum lugar, por falar dessa maneira sem educação. É que, sendo ele Deus, a pessoa tem de respeitar. Minto: três coisas, duas além dessa. A segunda é que pensei que ele, sendo carpina por profissão, não estava acostumado a finuras, o carpina no geral não alimenta muita conversa nem gosta de relambórios. A terceira coisa é que, justamente por essa profissão e acho que pela extração dele mesmo, ele era bastante desenvolvidozinho, aliás, bem dizendo, um pau de homem enormíssimo, e quem era que estava esquecendo aquela chuva de sopapos e de repente ele me amaldiçoa feito a figueira e eu saio por aí de perna peca no mínimo, então vamos tratar ele bem, quem se incomoda com essas bobagens? Indaguei com grande gentileza como é que eu ia ajudar que ele achasse essa bendita dessa criatura que ele estava procurando logo na feira de Maragogipe, no meio dos cajus e das rapaduras, que ele me desculpasse, mas que pelo menos me dissesse o nome do homem e a finalidade da procura. Ele me olhou assim na cara, fez até quase que um sorriso e me explicou que ia contar tudo a mim, porque sentia que eu era um homem direito, embora mais cachaceiro do que pescador. Em outro caso, ele podia pedir segredo, mas em meu caso ele sabia que não adiantava e não queria me obrigar a fazer promessa vã. Que então, se eu quisesse, que contasse a todo mundo, que ninguém ia acreditar de qualquer jeito, de forma que tanto faz como tanto fez. E que escutasse tudo direito e entendesse de uma vez logo tudo, para ele não ter de repetir e não se aborrecer. Mas Deus, ah, você não sabe de nada, meu amigo, a situação de Deus não está boa. Você imagine como já é difícil ser santo, imagine ser Deus. Depois que eu fiz tudo isto aqui, todo mundo quer que eu resolva os problemas todos, mas a questão é que eu já ensinei como é que resolve e quem tem de resolver é vocês, senão, se fosse para eu resolver, que graça tinha? É homens ou não são? Se fosse para ser anjo, eu tinha feito todo mundo logo anjo, em vez de procurar tanta chateação com vocês, que eu entrego tudo de mão beijada e vocês aprontam a pior melança. Mas, não: fiz homem, fiz mulher, fiz menino, entreguei o destino: está aqui, vão em frente, tudo com liberdade. Aí fica formada por vocês mesmos a pior das situações, com todo mundo passando fome sem necessidade e cada qual mais ordinário do que o outro, e aí o culpado sou eu? Inclusive, toda hora ainda tenho de suportar ouvir conselhos: se eu fosse Deus, eu fazia isto, se eu fosse Deus eu fazia aquilo. Deus não existe porque essa injustiça e essa outra e eu planejava isso tudo muito melhor e por aí vai. Agora, você veja que quem fala assim é um pessoal que não acerta nem a resolver um problema de uma tabela de campeonato, eu sei porque estou cansado de escutar rezas de futebol, costumo mandar desligar o canal, só em certos casos não. Todo dia eu digo: chega, não me meto mais. Mas fico com pena, vou passando a mão pela cabeça, pai é pai, essas coisas. Agora, milagre só em último caso. Tinha graça eu sair fazendo milagres, aliás tem muitos que me arrependo por causa da propaganda besta que fazem, porque senão eu armava logo um milagre grande e todo mundo virava anjo e ia para o céu, mas eu não vou dar essa moleza, está todo mundo querendo moleza. A dar essa moleza, eu vou e descrio logo tudo e pronto e ninguém fica criado, ninguém tem alma, pensamento nem vontade, fico só eu sozinho por aí no meio das estrelas me distraindo, aliás tenho sentido muita falta. É porque eu não posso me aporrinhar assim, tenho que ter paciência. Senão, disse ele, senão... e fez uma menção que ia dar um murro com uma mão na palma da outra e eu aqui só torcendo para que ele não desse, porque, se ele desse, o mínimo que ia suceder era a refinaria de Mataripe pipocar pelos ares, mas felizmente ele não deu, graças a Deus.

Então, explicou Deus, eu vivo procurando um santo aqui, um santo ali, parecendo até que sou eu quem estou precisando de ajuda, mas não sou eu, é vocês, mas tudo bem. Agora, é preciso que você me entenda: o santo é o que faz alguma coisa pelos outros, porque somente fazendo pelos outros é que se faz por si, ao contrário do que se pensa muito por aí. Graças a mim que de vez em quando aparece um santo, porque senão eu ia pensar que tinha errado nos cálculos todos. Fazer por si é o seguinte: é não me envergonhar de ter feito vocês igual a mim, é só o que eu peço, é pouco, é ou não é? Então quem colabora para arrumar essa situação eu tenho em grande apreço. Agora, sem milagre. Esse negócio de milagre é coisa para a providência, é negócio de emergência, uma correçãozinha que a gente dá. Esse pessoal não entende que, toda vez que eu faço um milagre, tem de reajustar tudo, é uma trabalheira que não acaba, a pessoa se afadiga. Buliu aqui, tem de bulir ali, é um inferno, com perdão da má palavra. O santo anda dificílimo. Quando eu acho um, boto as mãos para o céu.



Tendo eu perguntado como é que ele botava as mãos para o céu e tendo ele respondido que eu não entendia nada de Santíssima Trindade e calasse minha boca, esclareceu que estava procurando um certo Quinca, conhecido como Das Mulas, que por ali trabalhava. Mas como esse Quinca, perguntei, não pode ser o mesmo Quinca! Pois esse Quinca era chamado Das Mulas justamente por viver entre burros e mulas e antigamente podendo ter sido um rapaz rico, mas havendo dado tudo aos outros e passando o tempo causando perturbação, ensinando besteiras e fazendo questão de dar uma mão a todos que ele dizia que eram boas pessoas, sendo estas boas pessoas dele todas desqualificadas. Porém ninguém fazia nada com ele porque o povo gostava muito dele e, quando ele falava, todo mundo escutava. Além de tudo, gastava tudo com os outros e vivia dando risadas e tomava poucos banhos e era um homem desaforado e bebia bastante cana, se bem que só nas horas que escolhia, nunca em outras. E, para terminar, todo mundo sabia que ele não acreditava em Deus, inclusive brigava bastante com o padre Manuel, que é uma pessoa distintíssima e sempre releva.

— Eu sei — respondeu Deus. — Isto é mais uma dificuldade.

E, de fato, fomos vendo que a vida de Deus e dos santos é muito dificultosa desde aí, porque tivemos de catar toda a feira atrás desse Quinca e sempre onde a gente passava ele já tinha passado. Ele foi encontrado numa barraca, falando coisas que a mulher de Lóide, aquela outra santa, fingia que achava besteira, mas estava se convencendo e então eu vi que aquilo ia acabar dando problema. Olha aí, mostrei eu, ele ali causando divergência. É isso mesmo, disse Deus com olhar de grande satisfação, certa feita eu também disse que tinha vindo separar homem e mulher. Não quero nem saber, me apresente.
E então tivemos um belo dia, porque depois da apresentação parece que Quinca já tinha tomado algumas e fomos comer um sarapatel, tudo na maior camaradagem, porque estava se vendo que Quinca tinha gostado de Deus e Deus tinha gostado dele, de maneira que ficaram logo muitíssimo amigos e foi uma conversa animada que até às vezes eu ficava meio de fora, eles tinham muita coisa a palestrar. Nisso tome sarapatel até as três e todo mundo já de barriga altamente estufada, quando que Quinca me resolve tomar uma saideira com Deus e essa saideira é nada mais nada menos do que na casa de Adalberta, a qual tem mulheres putas. Nessa hora, minha obrigação, porque estou vendo que Deus está muito distraído e possa ser que não esteja acostumado com essas aguardentes de Santo Amaro que ele tomou mais de uma vintena, é alertar. Chamei assim Deus para o canto da barraca enquanto Quinca urinava e disse olhe, você é novo por aqui, pelo menos só conhecíamos de missa, de maneira que essa Adalberta, não sei se você sabe, é cafetina, não deve ficar bem, não tenho nada com isso, mas não custa um amigo avisar. Ora, rapaz, você tem medo de mulher, disse Deus, que estava mais do que felicíssimo e, se não fosse Deus, eu até achava que era um pouco do efeito da bebida. Mas, se é ele que fala assim, não sou eu que fala assado, vá ver que temos lá alguma rapariga chamada Madalena, resolvi seguir e não perguntar mais nada.

Pois tomaram mais e fizeram muito grande sucesso com as mulheres e era uma risadaria, uma coisa mesmo desproporcionada, havendo mesmo um serviço de molho pardo depois das seis, que a fome apertou de novo, e bastantes músicas. Cada refrão que Quinca mandava, cada refrão Deus repicava, estava uma farra lindíssima, porém sem maldade, e Deus sabia mais sambas de roda que qualquer pessoa, leu mãos, recitou, contou passagens, imitou passarinho com perfeição, tirou versos, ficou logo estimadíssimo. Eu, que estava de reboque bebendo de graça e já tinha aprendido que era melhor ficar calado, pude ver com o rabo do olho que ele estava fazendo uns milagres disfarçados, a mim ele não engana. As mulheres todas parece que melhoraram de beleza, o ambiente ficou de uma grande leveza, a cerveja parecia que tinha saído do congelador porém sem empedrar e, certeza eu tenho mas não posso provar, pelo menos umas duas blenorragias ele deve de ter curado, só pelo olhar de simpatia que ele dava. E tivemos assim belas trocas de palavras e já era mais do que onze quando Quinca convidou Deus para ver as mulas e foram vendo mulas que parecia que Deus, antes de fazer o mundo, tinha sido tropeiro. E só essa tropica e essa não tropica, essa empaca e essa não empaca, essa tem a andadura rija, essa pisa pesado, essa está velha, um congresso de muleiros, essa é que é a verdade.

É assim que vemos a injustiça, porque, a estas alturas, eu já estou sabendo que Deus veio chamar Quinca para santo e que dava um trabalho mais do que lascado, só o que ele teve de estudar sobre mulas e decorar de sambas de roda deve ter sido uma esfrega. Mas eu já estava esperando que, de uma hora para outra, Deus desse o recado para esse Quinca das Mulas. Como de fato, numa hora que a conversa parou e Quinca estava só estalando a língua da cachaça e olhando para o espaço, Deus, como quem não quer nada, puxou a prosa de que era Deus e tal e coisa.

Ah, para quê? Para Quinca dizer que não acreditava em Deus. E para Deus, no começo com muita paciência, dizer que era Deus mesmo e que provava. Fez uns dois milagres só de efeito, mas Quinca disse que era truques e que, acima de tudo, o homem era homem e, se precisasse de milagre, não era homem. Deus, por uma questão de honestidade, embora o coração pedisse contra nessa hora, concordou. Então ande logo por cima da água e não me abuse, disse Quinca. E eu só preocupado com a falta de paciência de Deus, porque, se ele se aborrecesse, eu queria pelo menos estar em Valença, não aqui nesta hora. Mas ele só patati-patatá, que porque ser santo era ótimo, que tinha sacrifícios mas também tinha recompensas, que deixasse daquela besteira de Deus não existir, só faltou prometer dez por cento. Mas Quinca negaceava e a coisa foi ficando preta e os dois foram andando para fora, num particular e, de repente, se desentenderam. Eu, que fiquei sentado longe, só ouvia os gritos, meio dispersados pelo vento.

— Você tem que ser santo, seu desgraçado! — gritava Deus. — Faz-se de besta! — dizia Quinca.

E só quebrando porrada, pelo barulho, e eu achando que, se Deus não ganhasse na conversa, pelo menos ganhava na porrada, eu já conhecia. Mas não era coisa fácil. De volta de meia-noite e meia até umas quatro, só se ouvia aquele cacete: deixe de ser burro, infeliz! cale essa boca, mentiroso! E por aí ia. Eu só sei que, umas cinco horas mais ou menos, com Gerdásia do mercado trazendo um mingau do que ela ia vender na praça e fazendo a caridade de dar um pouco para mim e para Deus, por sinal que ele toma mingau como se fosse acabar amanhã e não tivesse mais tempo, os dois resolveram apertar a mão, porém não resolveram mais nada: nem Deus desistia de chamar Quinca para o cargo de santo, nem Quinca queria aceitar esse cargo.

— Muito bem — disse Deus, depois de uma porção de vezes que todo mundo dizia que já ia, mas enganchava num resto de conversa e regressava. — Eu volto aqui outra vez.

— Voltar, pode voltar, terá comida e bebida — disse Quinca. — Mas não vai me convencer!

— Rapaz, deixe de ser que nem suas mulas!

— Posso ser mula, mas não tenho cara de jegue!

E aí mais pau, mas, quando o dia já estava moço, aí por umas seis ou sete horas da manhã, estamos Deus e eu navegando de volta para Itaparica, nenhum dos dois falando nada, ele porque fracassou na missão e eu porque não gosto de ver um amigo derrotado. Mas, na hora que nós vamos passando pelas encostas do Forte, quase nos esquecendo da vida pela beleza, ele me olhou com grande simpatia e disse: fracasso nada, rapaz. não falei nada, disse eu. Mas sentiu, disse ele. Se incomode não, disse ele, nem toda pesca rende peixes. E então ficou azul, esvoaçou, subiu nos ares e desapareceu no céu."


O conto acima, publicado em "Já Podeis da Pátria Filhos e Outras Histórias", Editora Nova Fronteira, 1991, foi selecionado por Ítalo Moriconi e consta do livro "Os cem melhores contos brasileiros do século", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2000, pág. 478.

O filme "Deus é brasileiro", dirigido por Cacá Diegues, produzido em 2002, foi baseado no conto acima.
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