sábado, dezembro 31, 2011

NOVAS ASAS

" We made it"

Que ano! Passou tão rápido e houve tanta coisa que demorou uma eternidade. Sim, esse foi um ano surreal, ainda não sei se passou num instante ou durou uma vida; afinal, quando no mesmo ano, tanta coisa nos transforma, fica difícil definir o que passou num instante ou o que ainda está passando e talvez não passará jamais.

Passou num instante, todas as derrotas que sofri, os desgostos que tomei, as ilusões que desfiz, as amizades que se foram pois nunca tinham sido amizades mesmo, os estudantes que exigiram tanto de mim sem exigir nadica deles.

Não passará jamais ser pai da Jureminha, o olhar da minha esposa amamentando pela primeira vez, as duas pisando na areia da praia nessas vitórias do dia-a-dia, o sorriso dos meus "learners", os meus escritos e o carinho dos meus leitores.

Sim, 2011 foi uma montanha-russa de emoções: deu vontade de sumir, de xingar e de jogar pedra na Geni e no Gênio que não entendeu quando eu pedi: "transforma a minha vida, mas pega leve...sem muita emoção!!!"

Não, 2011 não foi tão ruim assim, teve você, meu amigo-minha amiga, perto de mim, compartilhando o seu universo e me ensinando a crescer e a me tornar um ser melhor.

Eu não tenho dúvidas que 2012 será muito melhor - sempre é - mesmo quando não parece ser. Só vou ter cuidado com o que pedir para o Gênio, pois palavra não tem só poder não, palavra sempre trás junto MUITA transformação.

Pés no chão, mas haja asas para transformar e voar!!!

FELIZ 2012, PESSOAL!!!

sexta-feira, dezembro 30, 2011

As Melhores Crônicas de 2011

Queridos leitores;

Gostaria de oferecer a vocês as 12 melhores crônicas de 2011, escolhida por vocês via e-mail, blog, facebook e twitter. Obrigado a todos por acompanharem o "Crônicas do Frank" esse ano de 2011.

Chegamos a 154 seguidores oficiais e mais de 500 visitas ( via Google e Facebook) por dia.

Obrigado de coração!!!

10. A Varinha
Perdi a minha varinha de condão, como vou fazer minha mágica? A magia estava na varinha ou nas minhas mãos?
http://cronicasdofrank.blogspot.com/2011/11/varinha.html

9. Cachoerismo
Batizamos minha filha, aos pés da Cachoeira dos Pretos, entre Minas e São Paulo, com quatro gerações presente: bisavô-padrinho, avós, mãe e Pai, madrinhas e sobrinhos...
http://cronicasdofrank.blogspot.com/2011/10/cachoerismo.html

8. O Menino e o Leão
Era uma vez quando os terrenos baldios não eram invadidos por sem-terras e sim por circos; circos desses antigos, com mulher barbada, gordo fingindo ser forte e leão.
O leão! Há um leão na crônica, mas fiquem primeiro com o menino...
http://cronicasdofrank.blogspot.com/2011/12/o-menino-e-leao.html

7. A Um Palmo do Nariz
Penso, no que faria se o mundo acabasse agora, resposta: sorriria! Agradeceria a Providência ou ao acaso por ter tido a vida que eu tive, pela minha esposa, minha filha, minha família, meus alunos e amigos...
http://cronicasdofrank.blogspot.com/2011/08/um-palmo-do-nariz-ou-entrega.html

6. Cara de Um, Fucinho do Outro
Desde que a Vitória nasceu, todo mundo arrisca palpites que ela tem a cara da Auri ou o fucinho do Frank - Sim, aqui e ali, um sorriso lembra o Frank, outro olhar lembra a Auri, mas desconfio que essa semelhança está muito mais nos olhos de quem enxerga isso que no rosto da minha filha...
http://cronicasdofrank.blogspot.com/2011/09/cara-de-um-ou-fucinho-do-outro.html

5. O Que Se Apresenta
Há coisas que controlamos, outras tantas se apresentam. Aprendi que quando algo se apresenta, precisamos prestar bastante atenção...
http://cronicasdofrank.blogspot.com/2011/07/o-que-se-apresenta.html

4. A Lenda do Povo que Virou Barro
Era uma vez um menino, que nasceu meio cometa, meio rebelde; e quis correr o mundo, para descobrir o que havia de verdade, além da lenda, além do mito, além do que estava escrito; e deixou o seu povo para tráz, mas prometeu voltar, e voltou...
http://cronicasdofrank.blogspot.com/2011/03/lenda-do-povo-que-virou-barro.html

3. O Primeiro Chute
Um toque, dois; foi um chute? Não foi!
O que se passa na cabeça dela? O que sente? O que pensa?
http://cronicasdofrank.blogspot.com/2011/02/o-primeiro-chute.html

2. A Síndrome da Mulher Elefante
Ela não sabe dizer quando perdeu o rumo da sua vida; tantos sonhos, tantos planos e tudo se foi, jogado pela janela de um relacionamento que só lhe trouxe sofrimento, e ainda assim, ela não consegue largar ele...
http://cronicasdofrank.blogspot.com/2011/01/sindrome-da-mulher-elefante.html

1. Vitoriosa
Nasce Vitória...
Tudo o que eu queria era viver finalmente aquela cena normal; cena essa que todo homem experimenta na vida... ninguém espera que o seu filho venha ao mundo e saia direto para a UTI...
http://cronicasdofrank.blogspot.com/2011/05/vencedora.html

segunda-feira, dezembro 26, 2011

O Primeiro Natal da Jureminha

Com seu vestido de Joaninha, protegida do sol e da chuva, Jureminha cruzou o deserto para encontrar o Menino Jesus que se escondia na vila da minha Mãezinha que preparou a sua casinha para mais um ano de festa natalina.

Chegamos, Jureminha, a mãe dela e eu, num jumentinho moderno, seguindo a Estrela de Belém e o cheiro de peru assado.

Lá na casa da minha Mãezinha já havia chegado, uns quinhentos pastores, outros quinhentos Reis Magos, para celebrar a chegada do Jesuzinho que diziam os meninos, já estava lá dentro, mas estava escondido.

Escondido, pois ele só gosta mesmo de aparecer, quando antes da ceia, do comê e do pavê, aquele povo todo reza para ele; e ele sente vontade de crescer e virar luz no coração de todos.
Natal na casa da minha Mãezinha tem amigo secreto, ceia farta e "Feliz Natal", mas, dessa vez, teve também coral de menino e menina, mulher bonita e talentosa tocando harpa, e Papai Noel com ajudante palhacinho. Tem tudo isso, porém, esse Natal foi diferente um pouquinho, pois foi o primeiro Natal sem a minha vózinha, mas Jesus, que já havia virado luz no meu peito, me disse:

"Não seja bobo, menino, ninguém morre; por isso,
tenha fé quando eu digo que ela está assistindo a tudo
"on line" pelas ondas da intercéu;
além disso, sem tristeza, meu filho! Esse é o primeiro Natal com a sua bebê.
Se preocupe apenas em manter a alegria de estar vivo,
pois é tudo muito certinho,
Papai do Céu leva um e manda outro rapidinho,
nesse intercâmbio da vida entre os planos infinitos."

Sim, a alegria reinou a noite toda.

Ninguém falou de vovó; se pensou, pensou calado. Já do meu avô, muito se falou, pois na hora da oração, fiz questão de lembrar de São José e da energia dos "patriarcas" ali presente na figura dele " O Primeiro Pai"; e Vixi Maria, quase me esqueci que eu era papai também, só lembrei quando a minha filha gritou algo assim:

" Adádá, papápá, blum blum blá!"

Que eu traduzo como: "vamos parar com a falação, papai, eu quero é saber o que eu ganhei!"

Minha filhinha ganhou uma "ruma" de presentes, mas o presente maior e melhor, ganhou foi eu. Como fui um bom menino, Papai do Céu (ou foi o Véio Noel?) deu a Jureminha para mim, e para a mãe dela também, mas insisto no "pra mim", pois a gente é um pouco egoísta com quem amamos, por isso, a gente fala "minha mãe", ao invés de "nossa"; e eu agradeci, dizendo:

" Obrigado, meu Deus Secreto, pelo meu presente
Bem melhor que seriguela, paçoca;
doce de amendoim ou Pau-de-chuva;
É receber bebê do céu ( é claro, com um "cadinho" da nossa ajuda)."

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Congelando o Natal ( Uma Crônica Natalina)





Se eu pudesse parar o tempo para segurar um momento, eu congelaria o Natal.

Congelaria o sorriso das crianças ao abrir seus presentes para que elas nunca conhecessem o gosto de perder o aqui e o agora.

Congelaria a alegria dos adultos sentindo " lá sei o quê" ao se reunir com as suas famílias para comemorar essa data tão especial.

Data tão especial por reconhecermos um no outro um bocadinho de Cristo e desejar presentear esse irmão com um abraço, como se ele fosse o próprio Jesus refletido.

Sim, Jesus se reflete no rosto dos homens no Natal, não porque é dia 25 de Dezembro, não porque os homens repetem que "Ele" nasceu assim ou assado nessa data; ele se reflete no rosto dos homens, pois a data convida a uma reunião com a família e não há nada mais Divino na Terra do que estar com quem se ama e desejar:

Feliz Natal!

Frank Oliveira

quinta-feira, dezembro 22, 2011

Hitler Foi Para o Céu



Muitas são as estradas para chegar ao Divino, e a maldade é uma delas.

Aprofundar-se na espiritualidade requer uma flexibilidade constante para que possamos ter coragem de rever nossos conceitos e ficar atentos para os nossos pré-conceitos.

- Hitler foi para o céu - contou-me o mentor, prevendo minha cara de espanto.

- Não pode ser! - respondi incrédulo.

- Pode ser e é! - ele respondeu e riu como se caçoasse da minha ignorância ou da minha falta de preparo para compreender que os caminhos para o Divino não são tão "branco no preto" como as escrituras pregam e os fanáticos interpretam.

- Há iluminação espiritual também no "mal". Os que escolhem esse caminho, também possuem direito a libertação. E a eles não será negado a chance do " despertar espiritual", porém, para aqueles que caminham nessas bandas, o que perguntamos é : a que preço?

Por mais que tenhamos descoberto algumas respostas, as perguntas continuam a aumentar, e a jornada que parecia tão linear se faz complexa, porém rica em caminhos e formas de alcançar o destino certo. Já diziam os apóstolos do Mestre que Jesus dizia " Haverá de ocorrer tragédias, mas reze para que ela não ocorra por suas mãos".

A tragédia ensina, a dor gradua e a morte liberta. Nem tudo são flores nesse jardim da dualidade, mas quem semeia espinhos, colhe tempestade. E até essas " tempestades" elevam. Isso é o que dizia o Mentor para mim, enquanto eu teimava, segurando-me na minha verdade do " não pode ser assim".

- Mas eles precisam pagar! - retruquei - Ter o céu como recompensa é um incentivo para esses bandidos. Onde está a justiça divina?

- Você já provou da cartilha do remorso? - perguntou o Mentor - Já tomou do remédio da consciência despertada em meio ao caos provocado por atos seus? Você tem ideia da dor que se sente quando o criminoso descobre que o estranho morto era gente próxima a ele? Você tem capacidade para imaginar a angústia dilacerando a alma de um ser que acorda em meio as navalhadas da sombra? Sim, a maldade é escola espiritual também, mas é apenas uma escolha entre tantas outras, haja vista tantos outros caminhos, tantas outras trilhas. Contudo - concluía o Mentor - a escolha é de cada um e tem a ver com aquilo que aquele ser decidiu sintonizar. Naquele momento, o mal, talvez, fosse o melhor que ele poderia fazer.

Definitivamente, mais difícil do que aceitar que Hitler foi para o céu é lidar com os demônios que constroem castelos de verdades absolutas.

O Que Ocorreu Com a Minha Vida?


Depois de tudo o que vi, de todos os livros que li, das experiências que tive, das revelações que descobri; isso é o que resta de mim, uma sombra de todos os sonhos que não vivi.

Sempre acreditei que tinha uma missão, por isso, estudei tanto as religiões, viajei o mundo, escrevi até alguns livros, mas hoje, mal consigo pagar as minhas contas; o mundo me aperta, e não sou laranja, já não consigo produzir sumo, e o tempo vai passando e tento, agarrá-lo com o ralo da minha esperança que talvez algo mude, mas nada muda... se ao menos eu pudesse voltar a ser criança.

Sim, se eu pudesse voltar a ser criança, faria tudo de novo, mais tentaria me afastar das crenças alheias, e assim que idade eu tivesse para dizer não, se vontade eu tivesse, e só se vontade tivesse, eu estudaria tudo aquilo que estudei, mais não levaria tão a sério essa necessidade inútil de ser iluminado, afinal, se estou na Terra é porque tenho que trabalhar um bocado aqui, construir uma vida decente agora, para que eu possa continuar, do céu crente, mas com as contas pagas e com um rumo mais definido, para que ao menos, eu chegasse aos 64 menos ferido e mais realizado por ter vivido de fato.

Talvez saber toda essa espiritualidade possa me ajudar no céu, porém, aqui na Terra, infelizmente, não consegui tornar cotidiano toda essa teoria, e nisso, acho que perdi a chance de aprender a grande lição da espiritualidade que nos ensina tudo o que aprendemos sobre o Divino não serve para nada se não conseguirmos, na prática, ter uma vida melhor.

quarta-feira, dezembro 21, 2011

A Lua Grávida


Qual é a sua primeira lembrança da vida? A barba do papai Noel caindo e você descobrindo a identidade secreta do seu pai? Sua mãe tirando do forno um bolo de chocolate cheiroso e quentinho? Crianças brincando na rua?

A minha primeira memória dessa vida é a lua grávida.

Era uma noite de verão sem nuvens. O clima quente combinava com sorvete e minha família estava passando o Domingo no Parque Píton Farias em Brasília. Foi lá que me dei conta que era gente; foi vendo a lua que despertei para a vida.

Estranho, o alcance da nossa memória. Até onde naturalmente conseguimos recordar nossas experiências? Conheço pessoas que se lembram dos tempos em que engatinhavam; outros juram de pé junto, que se lembram da época em que o mundo tinha o tamanho e o formato de um útero, e com essa onda de regressão, tem gente até lembrando que era a Carlota Joaquina ou Dom Sebastião. Eu só me lembro da lua gigante e cheia no céu. A partir desse primeiro luar, percebi que era menino; que meu pai era tão grande quanto os pinheiros do parque, que meu irmão era um pentelho e que minha mãe estava tão cheia quanto à lua. Desse momento em diante, meu mundo se tornou cronológico: ano por ano, fui começando a contar idade e experiência.

Dias depois vi a lua de novo, mas ela estava magrinha, pela metade. Corri pro meu pai e perguntei o que houve com ela. Ele olhou a lua pela janela, suspirou e respondeu:

- A lua estava grávida igualzinho a sua mãe, filho; e seu bebê virou luz!

Soraya de Assis


Ela mudou para uma casa grande por causa dos seus oito cachorros.

- Oito? - eu pergunto.

- O que eu posso fazer, Frank? - ela diz - Não consigo ver esses cachorrinhos abandonados. Quero dar colo, quero dar cuidado!

Soraya não sai por aí catando cachorros; eles se apresentam para ela: abandonados, sujos, doentes e maltratados; ela não consegue deixá-los de lado.

Não são apenas vira-latas, há muito cão de raça abandonado por seus donos na beira da estrada, nas marginais e muitos deles acabam atropelados e mortos; poucos são salvos por " Anjos do Chiquinho de Assis", essa gente, que imitando o santo, considera bicho tão importante quanto gente.

- Sei que não posso salvar todos - diz ela, depois de contar que o mais recém resgatado foi um Pit-Bull gigante e muito ferido - mas para esse que eu salvei, sei que faço a diferença.

terça-feira, dezembro 20, 2011

ESQUECIDO


Quando se é pequeno, se é um pouco de tudo.
Artista, cientista, palhaço ou sábio.
Tudo é permitido!

Crescemos e esquecemos de tudo.
Parece até que crescer é se especializar em se esquecer
do que nunca deveríamos ter esquecido!

Acredito que todos nós
nos arrependemos de algo
que foi esquecido
e que deveríamos ter sido!

Pode até não fazer sentido,
mas tem dias que acordamos
e percebemos que algum sonho
ficou perdido!

Por isso, sempre que posso
converso com o menino;
menino que fui
e continua falando
basta dá-lhe ouvidos!

E ele diz, bem atrevido:
"Tudo o que quero ser quando crescer
é não ser esse você tão esquecido!"

Um Recado "Diferente" da Mãe Divina


Em profunda concentração, ele orou a Mãe Divina.




- Oh, Minha Mãe Universal. Dai-me força e atitude para chegar até o seu reino. Fazei com que eu não esqueça de orar a ti, te agradecendo por tudo aquilo que eu tenho e sou...

Ele continuou em sua meditação, desejando a graça de ser ouvido. E naquela manhã, pela primeira vez, percebeu algo além de suas palavras, pois começou a ouvir um sussurro em seu ouvido, que aumentava cada vez mais, até que ele escutou:

" Vai viver!"

Em principio, ele achou que estava ouvindo algum pensamento seu. Dai, tornou a tentar se conectar e novamente escutou o sussurro:

" Vai experimentar a vida!"

Da onde vinha aquela voz? Ele se perguntou. Seria a Mãe Divina conversando com ele mesmo?

- Mãe? É a Senhora?

" Claro! Você não me chamou? Eu vim!"- Já não era mais sussurro, e sim uma voz clara e forte.

Tomado pela emoção, ele começou a chorar copiosamente e a agradecer:

- Obrigado, Mãe! Que honra! Que graça!

" De nada!" respondeu a Mãe Divina. " Bem, eu poderia estar, agora, ajudando milhares de pessoas que passam fome ou ajudando outras milhares que sofrem as mazelas dessa dimensão, mas eu estou aqui, ouvindo um chorão! Mais tudo bem!"

Ele não acreditou no que ouviu.

- Mãe? É mesmo a Senhora?

" Além de chorão, é surdo? Claro que sou eu! Você não me chamou? Veja, o trabalho de uma Mãe ou de um Pai é poder criar um filho e dar a ele, liberdade, livre-arbítrio, saúde e força de vontade para ele se virar sozinho; e veja o que acontece? A invés de viverem, aproveitarem ao máximo essa existência; eles ficam, toda hora, chamando, clamando, gritando o nome da gente. Dai-me é paciência!"

- Mas...

" Mas nada! Vai viver! Não precisa ficar toda hora chorando por mim, seu bebê chorão! Vocês pedem tanta liberdade e emancipação e veja o que ocorre? Não tomam responsabilidade pelos seus atos! Ao invés de me ligar toda hora, liga para a sua mãe aí na Terra. Há quanto tempo você não fala com ela? Você fica aí, todo cheio de rosários com o Pai Criador, e continua desprezando seu pai na Terra. Vai cuidar dos seus, menino! E me deixa orientar, cuidar, pegar no colo quem realmente precisa!"

Ele nunca mais rezou. Ficou com raivinha e virou " ateu".

segunda-feira, dezembro 19, 2011

O Mistério da Galinha Pintadinha


Não, eu não conhecia o segredo da "Galinha Pintadinha"! Minhas alunas Larissa e Lidiane me deram o DVD e disseram: " temos certeza que a Jureminha vai gostar".

Gostar?

Minha filha ficou hipnotizada. Quando eu ponho o DVD, ela não desgruda o olho da tela. Parece o tio dela vendo o jogo do Palmeiras ou a mãe assistindo novela ( ok! Parece o pai dela quando assiste Doutor House). Já tentei distrai-las com mil brinquedos, dança do pintinho amarelinho, até com os "Backyardigans"; mas não tive efeito!!!

É assustador, se não curioso, observar a pequena tão entretida com as canções e com aquela animação tão tosca, mas tão instigante para as crianças.

Aparentemente, esse DVD surte o mesmo efeito em todas os bebês e nenéns de 0 a 10 anos. Conversando com outros pais, todos dizem a mesma coisa: "há alguma coisa nesse DVD além das canções."

Concordo com eles: só pode!

Bebês assistindo TV não é algo recomendável por 10 entre 10 pediatras. Eles dizem que até os 18 meses, os pequenos não aprendem nada com esses desenhos, que o tempo deles seria mais bem utilizado se eles estivessem mexendo com seus brinquedos. Faz sentido, porém, tem mãe acalmando o filho com cólica ao som da Galinha Pintadinha; tem pai que só consegue fazer o bebê parar de chorar, se cantar com o rebento: Ha! Ha! Ha! Ho! Ho! Ho! Ela vai é de busão!".

Não é recomendável, mas funciona.

O problema é que pior que os avisos de fim de mundo dos pediatras, é o fato que as canções ficam na cabeça dos adultos tocando o dia inteiro. Já tive que interromper minhas aulas, pois não conseguia parar de cantar" um, dois, três, quatro, cinco indiozinhos...".

Será que tem alguma versão da Galinha Pintadinha em inglês?

sexta-feira, dezembro 16, 2011

O Menino e o Leão



A cidade era Cajazeiras, no mundo agreste da Paraíba. O menino era eu, ou acho que era, pois já estou na idade em que as memórias reais se misturam com as memórias criadas, influenciadas pelos antigos filmes de matinês e pelas propagandas de coca-cola; porém, se era eu ou se era um outro, pouco importa, uma vez que é a mensagem da crônica que vale a prosa. A mensagem é que importa pois essa é uma crônica sobre a maldade com os animais, se bem que será uma crítica bem indireta, pois não darei nomes, mas direi quando; foi em algum mês que não me lembro de 1986, quando os terrenos baldios não eram invadidos por sem-terras e sim por circos; circos desses antigos, com mulher barbada, gordo fingindo ser forte e leão.

O leão! Há um leão na crônica, mas fiquem primeiro com o menino...

Eu era um menino bem pobrezinho desses bem Chaplin, desses molequinhos que mal tem dinheiro para comprar pão, quanto mais chocolate; daí, meus leitores, cabe a vocês compreenderem que um doce de amendoim, que muitos chamam de paçoca ou pé-de-moleque na minha mão era chocolate suíço. Um dia, após muita espera, eu consegui comprar um desses doces e sai pelas ruas escondido, me escondia, pois evitava encontrar algum amigo que pedisse um pedaço. Pobreza tem disso. Ficamos egoístas e ponto. Não queria dividir, nem iria; afinal, tudo o que eu queria era comer pedacinho por pedacinho, desejando que aquele doce durasse para sempre...

Agora o leão!

Aquele som não parecia ser da minha barriga. Doce não enche pança, mais eu reconhecia aquele urrarrrr dos filmes do Tarzan e de uma vez há muitas infâncias quando tinha ido ao zoológico dar pipocas às ariranhas.

Urrarrrr!!!!

Fui seguindo o som e dei de cara com aquela tenda cinza gigante que prometia macacos, gorilas e elefantes, tudo pelo preço de dez doces de amendoim. O "urrarrr" continuava e fui andando entre caminhões e trailers, até que vi aquele gato gigante entre grades: magro, fedorento, com moscas pousando em seu rosto e juba caída; não havia nada naquele felino que lembrasse o "Rei da Selva". Daí, senti dó, dó de menino que olha cachorro ferido e sente vontade de querer ajudar. Olhei para ele e ele rosnou para mim, tinha fome, só podia. Eu não entendia nada de leões, mas de fome, eu sabia.

Eu queria ter um bife, não tinha; tudo o que eu tinha era a outra metade do meu doce de amendoim guardado no bolso.

Acho que naquele momento nascia qualquer sentimento que se parecia com compaixão, pois tirei o pedaço de doce do bolso, o pedaço que restara, e joguei para o leão que avançou sobre o doce; como se fosse um almoço delicioso; e era!

De repente, um susto:

- Ei moleque! - gritou um homem que deveria trabalhar no circo e cuidar do leão - Venha cá! - disse ele e eu saí correndo de lá. Do leão, eu não tinha medo, desses homens que deixam animais definhando, eu tenho pavor até hoje.

Acho que naquele momento, nasceu também um defensor dos bons tratos aos animais, que jurou para si mesmo que não entraria mais em circos que tivesse qualquer animal como atração ( não inclui a mulher barbada, of course!).

Acabei cumprindo a minha promessa, talvez por não ter mesmo o dinheiro ou talvez porque com o tempo, os circos mudaram e de uma década pra cá, sei que eles já não usam mais esses animais. O que me leva a uma pergunta: o que foi feito desses bichos? Será que existe algum asilo para animais aposentados? Animais que trabalharam a vida inteira para fazer graça, como os pobres dos macacos domesticados ou para causar medo, como os coitados dos tigres e leões de circo; o que ocorreu e ocorre com eles?

Será que algum dia o ser humano deixará de pagar para ver animais sendo mal-tratados ou ainda continuaremos a lotar cidades como Barretos para ver os seus rodeios e bois massacrados, perpetuando nas nossas crianças o nosso gosto por espetáculo às custas do sofrimento alheio?

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Pontos, Hinos, Melodia e Gritaria




Amante da música. Adoro as giras de Umbanda e os rituais do Santo Daime, especialmente por serem ritos religiosos onde a canção e a melodia desempenham papel importante, se não principal; neles, a música é essencial para que o trabalho espiritual aconteça.

Durante o trabalho, quando estão todos bem afinados, o canto te leva as mais altas dimensões; quando, porém, surge um desafinado ou dois, ao invés do canto coral, o que se ouve é uma gritaria destoante do resto do grupo. E o pior é que o desafinado nem percebe isso e segue berrando, ao invés de cantar.

Isso acontece em qualquer lugar onde se reúna duas pessoas ou mais para cantar ao "Senhor". Já fui em missas católicas e em templos evangélicos, onde o que mais se ouvia era gente fora do tom. Fico imaginando o Criador se perguntando se valeu mesmo a pena dar o "Dom do Canto" para esses humanos, se eles não sabem usar.

"A intenção é que vale" uma ova!

Cantar em uníssono não é para qualquer um, ainda mais num trabalho espiritual. É lindo assistir uma missa em que todos cantam afinados. Maravilhoso estar num ritual em que a música ajuda o dirigente a fazer a sua pregação, sua preleção; porém, não tem nada mais apavorante do que está num ritual, ouvindo o irmão do lado, cantando em pleno pulmão, sem a menor consideração pelo resto do grupo. Sim, sem a menor consideração, pois o sujeito está mais preocupado em fazer o seu show particular do que realmente colaborar com o ritual.

O conselho é: vamos treinar o ouvido, minha gente!!!

O canto coral deve dar suporte ao trabalho, como no termo em inglês: " backing vocal" significando estar atrás, servindo de apoio. Ora, se o grupo vocal não conhece bem a letra, a melodia, ou canta a melodia de maneira errada, como irá apoiar o dirigente?

Daí a importância do ensaio antes dos trabalhos. Quanto mais treino, mais afinado fica o ouvido e mais harmoniosa fica a voz. Não é questão de talento e sim de treino.

Por isso, no próximo trabalho espiritual, amigo macumbeiro ou amiga protestante, quando for puxar o ponto ou o hino, se pergunte: minha voz está sintonizada com o resto do grupo? Ou estou fazendo mais um showzinho particular?

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Palavras e Silêncio


By Nielda

Na impossibilidade de dizer algo útil, não diga nada.

Na impossibilidade de falar algo com responsabilidade e arcar com as consequências, não fale nada.

Se for falar algo para pedir desculpas na sequência, pense duas vezes.

Se for falar algo e não tiver coragem de pedir desculpas nunca, nem termine a frase.


Muitas vezes é melhor guardar os nossos pensamentos para nós mesmos se eles não podem acrescentar nada. A palavra hoje em dia está banalizada. Falar é uma capacidade inata do ser humano, mas saber usar as palavras de uma forma útil, linear, limpa e verdadeira parece ser uma arte perdida.


A comunicação tem se perdido em meio a um rio de palavras sem significado. Cada palavra tem um sabor, uma intenção, um toque. Toda palavra esconde um universo por trás dela quando sabemos usá-la com responsabilidade.


Usar bem da fala não é falar muito, não tem haver com grau de formação ou nacionalidade.

Usar bem da fala é saber falar na hora certa, é saber calar para ouvir o outro. Quem fica muito preocupado em falar, esquece de ouvir e fica preso em sua própria orbita. Agora, se é para ficar preso na própria órbita para que vale o diálogo?


Usar bem a palavra é saber calar, é saber ouvir, é saber limpar as impurezas e transparecer a intenção é purificar os ouvidos para captar a intenção do outro.

O dom da fala, da escrita e da música são dons da Comunicação; estão ai para comunicar algo, para ensinar, para aprender. Não foram feitos para voar sem destino, para cair no esquecimento.


Teve uma época, a muito tempo atrás, onde a palavra era mágica, onde a pronúncia fazia toda a diferença.


Falar é o dom de mudar os padrões de pensamentos do outro que te escuta, então muito cuidado com o que fala, muito cuidado com o que pensa, muito cuidado com o que você deixa mudar na sua programação mental.

Sua mente é um santuário, a sua oratória deve ser seu jardim.


Um dia um mago disse para todos ouvirem:


"Não esqueçam que o amor verdadeiro não prende, o amor verdadeiro não segura, o amor verdadeiro liberta."


Atenta a suas palavras, queria retê-las, decorar suas frases e queria escrever no caderno, mas notei que quanto mais escrevia menor eram as forças das palavras. Então reduzi...


"Não esqueçam que o amor verdadeiro não prende, o amor verdadeiro não segura; o amor verdadeiro liberta. "

"O Amor verdadeiro não prende, não segura; liberta"

"O Amor verdeiro não prende, liberta"

"O Amor verdadeiro liberta"


Então escrevi:

"O Amor Liberta!"

Puxa vida, é tão simples. Tão poucas palavras, que para tantos pode até confundir por ser tão pouco.

O pouco confunde porque é simples, mas nele reside a verdade porque o simples dá espaço para que o nosso eu se manifeste. Não é o que tá escrito que se manifesta, mas sim a interpretação e o sentimento que damos a ele. O significado das palavras somos nós, simples em sentimento, se estivermos prontos para simplesmente ser.

terça-feira, dezembro 13, 2011

Morrer para Nascer ou Nascer para Morrer?


Uma alma bebê faleceu essa manhã no astral e sua consciência foi enviada a Terra para mais um período embrionário.

A família do astral lamenta a viagem perdida, mas já se conformaram com a perda e esperam ansiosamente que nessa próxima gestação, essa alma bebê tenha um período menos conturbado e que não lhe falte os nutrientes de auxilio ao próximo e as vitaminas da compaixão, tão necessárias para que a alma desenvolva força e coesão suficiente para se manter manifestada no nosso plano sutil.

Sabe-se que os abusos egóicos causaram parte do estrago que impossibilitou que o bebê pudesse permanecer vivo no astral. De acordo com os especialistas, a falta de exercício intelectual e a preguiça mental também repercutiram na causa mortis.

Espera-se que essa nova gestação seja mais saudável e sustentável para que essa alma bebê tenha uma nova chance de conseguir permanecer viva no astral sem precisar reencarnar tanto.

domingo, dezembro 11, 2011

A Formatura da Jureminha

Participei da primeira festa de formatura da Jureminha. Sim, minha filha já está se arriscando na jornada do “learner”: faz natação todo sábado.

Lembro que quando a Auri me falou sobre o curso de natação para bebê, tive um flashback da capa de um álbum da banda Nirvana na minha cabeça junto com a lembrança de, pelo menos, uns cinqüenta artigos que li que diziam que a natação é para o bebê tão natural quando é para um adulto engordar vendo TV no sofá. Porém, mesmo assim, a idéia da minha filha numa piscina não era muito confortável, mas como eu poderia dizer “não”? Logo eu que vivo dizendo que é preciso correr riscos e tal...

Então, lá foi Jureminha e a mãe dela para a primeira aula, e a segunda, e a terceira. O resultado foi acompanhando no dia-a-dia: a coordenação motora da minha filha aumentou consideravelmente.

Fui pesquisar sobre isso, e descobri que até os cinco anos de idade, a criança passa por um processo intenso de desenvolvimento e maturação, preparando-se, pouco a pouco, para o futuro como adulto. Ou seja, até essa idade, tudo conta e modifica quem ela virá a ser. Todo esse desenvolvimento, de acordo com os especialistas é estimulado com a natação.

Ainda assim, confesso que toda vez que imaginava minha filha, mergulhando numa piscina, meu instinto de proteção ia à mil.

- Confia, pai – eu repetia a mim mesmo. De certa forma, funcionava. De outra forma, era melhor não pensar muito sobre isso. Porém, certa feita, eu decidi ir assistir uma das aulas, só para sentir que todos esses meus temores eram mesmo à toa.

Jureminha tem aula na Associação “Vem Ser” é uma entidade sem fins lucrativos que tem como missão integrar na sociedade, indivíduos de qualquer faixa etária e que possuam necessidades especiais. Além desse projeto, eles desenvolveram um curso de natação para bebês que visa não apenas a natação em si, mais também um curso voltado a ensinar as crianças a respirar melhor, aumentando sua capacidade broncopulmonar, o que lhes será útil pela vida afora.
Além disso, eles possuem um objetivo pedagógico, promovendo uma aprendizagem desse esporte segundo as regras da psicomotricidade, isto é, colocar o aluno em contato com o meio líquido, através de vivências e experiências lúdicas, proporcionando-lhe bem-estar físico e emocional, tanto no processo de aprendizagem, como de aperfeiçoamento das técnicas de cada nado. Tudo isso soava maravilhoso, porém, não passaria de um blá, blá, blá sem um professor competente. Daí, minha curiosidade em conhecer quem estava educando a minha filha.

- Frank, essa é a Professora Flor, instrutora da nossa filha – disse minha mulher, apresentando essa mulher de cabelo curto com um sorriso contagiante, cuja voz, de imediato, me transmitiu uma confiança tamanha que até eu que morro de medo d’água, pensei seriamente em aprender a nadar.

A Professora Flor é uma dessas professoras que não se encontra facilmente em escolas. Educadora por natureza, ela transmite conhecimento com naturalidade, além de um trato com os bebês
que muito me emocionou.

- Vou colocar uma música de fundo e quero que vocês, pais, brinquem com suas crianças. Façam isso com toda a atenção que elas merecem, pois enquanto vocês estão fazendo isso, os pequenos vão se preparando psicologicamente para essa experiência única que é fazer uma atividade física com os seres que elas mais confiam no universo: o papai e a mamãe dela. Brinquem com seus filhos, pais, pois brincar é a melhor forma para uma criança aprender.

Virei fã da Flor e da natação para bebês.

Descobri mais tarde, que a natação ajuda a desenvolver a memória, estimula o apetite, aumenta a resistência cardio-respiratória e muscular, tranqüiliza o sono e também previne várias doenças respiratórias. E razão pela qual a associação estimula que as aulas sejam feitas com os pais é para assegurar que as crianças aprendam com segurança; transformando o medo do desconhecido em um ambiente alegre e prazeroso.

Daí, o meu orgulho ao subir no palco e receber as honras em nome da minha filha que, apesar de ainda não compreender que era ela que recebia a homenagem, entendeu bem que aquele pacotinho cor de rosa que recebia da professora, era perfeito para ela brincar.

Brincar ! E existe melhor forma de aprender?


Para saber mais sobre a Associação Vem Ser, acesse:
http://www.associacaovemser.org.br/quem_somos.html

sexta-feira, dezembro 09, 2011

No Dos Outros É...


Ele era gente das antigas, respeitava a todos, um gentleman que torcia o chapéu para a falta de boas maneiras dos seus, dos outros e de todo aquele que via por aí, exercendo a falta de educação e solidariedade.

Ficava triste por ser um dos únicos que dava o lugar no ônibus as donzelas, se deprimia ao ver o quanto os outros homens cuspiam no chão e cultivavam comportamentos que nem animal costumava praticar.

Geralmente, tentava corrigir o que via : ao ver pessoas jogando lixo no chão, as abordava explicando sobre os malefícios das enchentes causadas por bueiros entupidos; entregava fones de ouvido aos meninos funkeiros que ouviam música alta nos ônibus e trens; educava motoristas sobre dar passagem aos pedestres; porém, quanto mais ele tentava consertar o que via, mais aparecia o que deveria ser concertado.

Um dia, talvez por descuido ou quem sabe por rebeldia, deixou cair um pedaço de papel no chão, e mesmo notando o ocorrido, seguiu viagem; o que foi parado por um senhor, tão educado quanto ele, que lhe avisou sobre os malefícios do lixo jogado na rua. Ao notar que outro lhe dizia o que fazer, uma fúria sem igual tomou conta do seu ser e ele pegou um pedaço de madeira que estava jogado no chão, ao lado de um saco de lixo, e acertou na cabeça do homem que lhe apontara o deslize ocorrido.

Ninguém sabe ao certo o que ocorreu, alguns contam que aquele senhor aparentemente do " bem " enlouqueceu e matou um outro senhor que apenas tentara lhe dizer que lixo no chão provoca tragédias. Outros contam que os dois já tinham desavenças antigas. Só o que sabe é que ninguém mais derruba lixo no chão naquela região, afinal, tem cada louco por aí...vai quê...

quinta-feira, dezembro 08, 2011

A Lenda de Atotô



" Se você ver um velhinho
no caminho,
pede a bênção a ele..."


Certa noite, tive um sonho, em que estava dentro de uma casa de barro. Pensei em sair da casa, e descobrir onde eu estava, mas senti uma intuição me dizendo que eu deveria esperar, esperei, então!

E para a minha surpresa e medo, surgiu pela porta, um homem vestido com um manto coberto por palha.

Diante dessa presença toda coberta, senti muito medo; medo de tolo diante do desconhecido; medo de gente com medo do diferente. Ao perceber o meu temor, esse Ser começou a desaparecer; daí, percebi, que aquele Ser Espiritual era Omulu, o Orixá da Cura, e falei:

- Perdoe-me, Atotô, Pai da Cura! Esse vagamundo ainda demora um pouquinho para permanecer consciente no astral. Volta, meu Orixá, e me revele o motivo da sua visita.

Então, Obaluê foi retornando e tirando o seu manto de palha, e acordei ainda com os olhos cobertos de luz.

" Obaluaê é bonitinho
Obaluê é diferente
Acorda quem está dormindo
Levanta quem está doente"

Notas: Na cosmologia dos Orixás, Omulu ou Obaluaê, é o orixá da humildade, senhor da doença e da cura, médico dos médicos. Durante o dia vem em forma de cura, sanando todos aqueles que necessitam, à noite vem como a morte, recolhendo os que de alguma forma chegou a hora. É representado com o rosto coberto de véus de palha por causa de sua associação, na África, com a varíola que dá feridas no rosto: ao dançar, se contorce como se tivesse dor ou fraqueza.

Na mitologia africana, ele é filho primogênito de Oxalá com Nanã. Sendo dotado de uma grande criatividade e timidez, foi o precursor da caridade, da humildade e do desapego material. Foi um grande pensador que andava pelos reinos semeando a sabedoria.

Médico dos pobres, senhor absoluto de todas as doenças de pele e infecciosas. Protetor dos desamparados, humildes, doentes e médicos.

Dentro de uma nova visão espiritual umbandista, é o orixá da energia cósmica que, ao penetrar em nossa atmosfera, recai sobre diversos habitats, como Oxum e as águas doces, etc. Ele é um dos sete orixás (puros) tendo como desdobramento a orixá Nanã. Ele vive na Calunga pequena (cemitério), aí se dando a concentração maior de sua energia (positiva ou negativa). Seus sensitivos, ao manifestarem a presença de Omolú, curvam seu corpo a terra, ficando o mais perto possível dela. Representa também a grande transformação do ser, ter que morrer para o pequeno e renascer para o grande, sem precisar deixar a matéria (morte).

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Neurociência Para Cris

Texto original escrito pelo Lázaro Freire e postado na lista Voadores:

http://br.groups.yahoo.com/group/voadores/message/107148


Em voadores@yahoogrupos.com.br, "Cristina Ferraz" escreveu:

- Láz, sei que não se trata de assunto que possa ser discutido aqui na lista, somente esclarecido por especialistas. Eu pediria, se possível, apenas um breve comentário sobre essas duas perguntas:

1 - Alguns receptores podem já nascer com defeito, ou então ser danificado, após um parto a fórceps ?

Não sei se chamamos a mesma coisa pelo mesmo nome.

Eu sou um psicanalista neo-kleiniano transpessoal, além de estudante de neuropsicanálise dentro do paradigma biopsico sócioespiritual e compreensãointegrada numa visão neuropsicoimunoendocrinológica, portanto tenho meus motivos para crer na formação psíquica impactante já a partir do primeiro momento de vida, com forte participação do primeiro ano, antes das fases clássicas de Freud. Mais ainda, temos bons argumentos para a influência da vida intra-uterina e psiquismo da gestante - de modo determinante - nos conflitos psíquicos que podem influenciar a criança décadas e décadas depois. Mas isso é outra história.

O que chamei de "receptores" para neurotransmissores na fenda sináptica, me parece, é outra coisa diferente do que você compreendeu.

Vou tentar simplificar, correndo o risco do reducionismo:

Prmeiro lembre de um neurônio:


Lembrando que são células, e que há neurônios em TODO o sistema nervoso central,
certo?

Note que os neurônios tem "bracinhos", axônios. Que se comunicam com os demais. Seu movimento, pensamento, sensibilidade, etc, ocorre a partir desta comunicação. Lembre-se que certas lesões na medula, por exemplo, podem implicar em perda de movimentos. E que "derrames" cerebrais (AVC) e outras lesões podem trazer perdas cognitivas.

Pois bem, na comunicação entre os "bracinhos" dos neurônios há um "espaço" que chamamos de "fenda sináptica". Já ouviu falar em sinapses? Elas andam na moda ultimamente... Nelas ocorrem as "comunicações" dos neurotransmissores. Ou seja, de um bracinho de um neurônio para outro.

O que emite o sinal, chamamos de pré-sináptico. Antes da sinapse. O que recebe, chamamos de pós-sináptico. Ou seja, o que está depois da fenda da sinapse. Aquilo que chamei de "receptores", portanto, são conexões no bracinho do neurônio que está depois da sinapse. Aquele que vai receber o neurotransmissor emitido.

Creio que a figura abaixo ajude a compreender a explicação:


Caso não seja suficiente, procure no Google Imagens por "fenda sináptica", que outras boas ilustrações legendadas aparecerão.


No artigo anterior, falávamos em particular dos receptores dos neurônios de uma parte específica do cérebro, o núcleo accumbens, uma espécie de central de estímulos e recompensas. Quando você acha algo gostoso, ou importante, ou prazeroso (sexo e alimentaçao, por exemplo - ou principalmente, do ponto de vista evolutivo), o núcleo accumbens está envolvido. Nos jogos compulsivos e no uso de drogas alucinógenas, também.

Dá pra gente ver em neuroimagem (ressonância, tomografia, PET Scan, essas coisas) a quantidade de receptores S2 do núcleo accumbens em determinadas situações. E assim descobrimos que, tanto no jogo compulsivo quanto no uso de drogas, a sensibilidade desses receptores pós-sinápticos (bracinho do neurônio de depois) diminui com o estímulo. Mais ou menos como um perfume que, quando você usa demais, não sente mais tanto. Ou seja, em resumo, muito estímulo de neurotransmissor (no circuito de recompensas) por muito tempo seguido e de modo forçado e exagerado (drogas, jogo) fazem com o que o mesmo estímulo não gere mais o mesmo prazer. Os receptores diminuem, e aí você precisará de mais e mais estímulo para conseguir a mesma coisa. Em outras palavras, jogo compulsivo vicia, maconha vicia, daime vicia, sexo compulsivo vicia, comida compulsiva vicia. Sério. Digam isso para o pessoal que espalha o mito de que maconha e daime não trazem prejuizos nem causam tolerância. Impossível. Porque os princípios ativos destas substâncias fazem uma inundação de neurotransmissores naquela fenda da última ilustração, entendeu?

Cabe duas explicações menores. Primeiro a má notícia. Estímulos exagerados, patológicos ou artificiais podem danificar esta comunicação. Bye bye sinapse. Bye bye axônio. Bye bye neurônio. Tudo bem, você tem zilhões deles. Mas quero os meus muito vivos. Lembra daquelas lendas de que maconha afeta a memória? Pois é. Mas não é só maconha e daime não. Álcool é um dos que mais provoca perdas neuronais. Até café em excesso. Estímulos demais, do tipo prejudicial.

Não usar o cérebro que se tem, também gera perdas. Pensar sempre do mesmo jeito. Tarefas repetitivas. Visões de mundo estreitas. É como você ter um mapa cheio de estradas (as sinapses) interligando várias cidades (neurônios) via diversos tipos de transporte e veículos (neurotransmissores) mas você usar apenas uma estradinha, deixando as cidades distantes antes prósperas sem alimento, sem visitantes, sem tráfego... As estradas esburacam, as cidades morrem. Bye bye. Mente pequena é caminho para o Alzheimer, seja lá como se escreva isso.

A boa notícia é que estímulos adequados fazem com o que o neurônio pós-sináptico aloque mais receptores, mais receptores, mais receptores... e quando o estímulo é bastante, o axônio (bracinho do neurônio) se abre em mais um, para haver mais neurotransmissão adequada, gerando o que chamamos de NEUROPLASTICIDADE. Mais bracinhos, mais sinapses, multiplicando-se exponencialmente. Talvez por isso alguns homens sábios e inovadores parecem ficar mais e mais inteligentes com o tempo (Freud, Platão, Jung, tantos outros); enquanto os de mente pequena e presos a paradigmas parecem caminhar para a demência com a idade.

Uma das coisas que geram neuroplasticidade é psicoterapia. Espiritualidade e filosofia também ajudam, e muito. A turma que resiste à voadores e segura a onda aqui certamente está revendo paradigmas, tendo insights e portanto modificando seu cérebro para melhor a cada nova ficha que cai. Modificando FISICAMENTE. E nem vou entrar agora em neurogênese, a criação de novos neurônios.

Outra coisa que parece facilitar a neuroplasticidade é o uso de algumas medicações "antidepressivas" que aumentam o nível de serotonina na fenda sináptica. Só a medicação não faz milagre, mas em conjunto com psicoterapia e novos pensamentos, o nível aumentado de serotonina ajudado pelo medicamento permite que novas conexões sinápticas apareçam. Por isso quem faz psicoterapia, com ou sem medicamento, parece mudar de vida depois de algum tempo, e enxergar o que não via. Literalmente, eles tem um cérebro (fisicamente) diferente. E
melhor.

2 - Seriam os sentimentos e emoções as principais causa do funcionamento ( adequado ou não) desses receptores?

Não, a relação não é bem essa, conforme já deve ter percebido a partir da explicação do que são os receptores do núcleo de recompensa.

Mas sentimentos e emoções passam, é claro, pelos neurônios. Assim como medo, desejo, instinto, espiritualidade, e até o movimento dos meus dedos neste teclado. Ou a visão que tenho dessa tela.

Eu entendo sentimentos como algo mais elaborado, cognitivo, e aí associado a regiões talvez do córtex frontal do cérebro (ali atrás de sua testa, área da inteligência, etc).

Emoções eu entendo como algo mais límbico, mais de dentro da caixola, outras áreas e neurônios envolvidos. Todos mamíferos tem emoções. Elas são indispensáveis para a preservação da espécie.

O que tem a ver é que as emoções são também fundamentais para a memorização. O neurotransmissor DOPAMINA também, e este passa pelas tais sinapses e receptores. Quando o macaquinho transa, isso é fundamental para que a espécie sobreviva. Então ele recebe uma dose de SEROTONINA no núcleo accumbens (o centro de recompensas), para dizer pra ele que isso é PRAZEROSO. E recebe também uma dose de DOPAMINA e outros neurotransmissores menos falados ali nos receptores do mesmo núcleo, para ele saber que é IMPORTANTE E GOSTOSO. A emoção é importante nisso. Ele vai lembrar da experiência, e tender a repetir. Vale para outros prazeres e coisas importantes.

A coisa é bem mais complexa. E receptores e neurônios estão em tudo.

Agora, o que talvez tenha a ver com sua pergunta, sem precisar entrar em tanto detalhe de neurotransmissores, é que:

a) Sim, existem diferenças cerebrais e neuronais explicadas pela genética, ou pela epigenética, e até mesmo pelos estímulos recebidos (ou não) pelo feto na gestação. Sem contar em más formações, efeitos de medicamentos, alimentação da gestante, etc. Não nascemos todos iguais, cerebral e neuronalmente falando.

b) Não preciso já ter cérebro desenvolvido para ter problemas neuronais. Lembre-se que os estímulos ali nas fendas são também químicos, e que noradrenalina é um neurotransmissor. Importante. Em outras palavras, tudo me leva a crer que gestantes desequilibradas, tensas, neuróticas, etc (muitas vezes devido ao pai, para dividir a culpa) geram bebês com circuitos neuronais - e posteriormente cerebrais - diferentes.

c) Traumas físicos e emocionais de qualquer época da vida são, evidentemente, registrados em algum nível. Consciente ou inconsciente. Vale para o parto. Vale para a gravidez. Vale para a infância. Quanto mais cedo, a meu ver, mais impactante - pois a neuroplasticidade futura será construída a partir daí. O cérebro de uma criancinha tem poucas "estradas" e "cidades" de minha metáfora anterior. Se uma delas já começa com um bloqueio, o desenvolvimento vai para outro lado, onde suas defesas funcionarem melhor. Em outras palavras, o que o Freud chamaria de "traumas", a meu ver, não é só lógico como ele talvez pensasse, mas FÍSICO. O cérebro vai por outro caminho.

d) Por outro lado, nascer por si só já é um filme de terror. Traumas todos temos, o importante é se tivemos suporte para fazermos a neuroplasticidade adequada. Se a mãe foi "suficientemente boa". Se tivemos o afeto e cuidados adequados. Nascer é traumático, o bebê está quentinho é é jogado numa sala refrigerada, ele nunca se mexeu direito e em seguida abrem seus braços e pernas em uma posição inédita como se o rasgasse, ele nunca respirou e terá que abrir alvéolos pulmonares na marra e sob tapas para não morrer (dói, mas se não respirar, morre), nunca viu luz e de repente sai numa sala híper iluminada (lembre-se dos mineiros do Chile), nunca teve contato com a pele e então até um cobertor parecerá uma lixa, nunca esteve em outro lugar e agora se vê separado, nunca sentiu fome nem mamou, não tem músculos desenvolvidos para sucção, sentirá a dor de 30 aulas de musculação, mas se não fizer esforço para mamar morrerá de fome... Então TRAUMAS todos temos. Viver dói. A primeira coisa que aprendemos no primeiro instante de vida é que para ter prazer teremos custos e sofrimento - e mudar esse momento masoquista para alguns leva a vida toda e muita terapia. O importante é como aprendemos a lidar com esses traumas, que cuidado tivemos nos primeiros momentos. Ou como reconstruimos nossas mentes e neurores depois de crescidos.

- Elas são muito importantes pra mim.
bjs da cris

- Espero ter ajudado você de algum modo... ou pelo menos ter ensinado alguma coisa
útil aos demais.

Láz

terça-feira, dezembro 06, 2011

Não é uma Questão de Luz


Se a consciência expandida fosse remédio para encarnação e solução para encrenca de karma, todo mundo já nasceria com o terceiro olho aberto e não com os dois olhos fechados. Não é questão de luz, é de vergonha na cara, mesmo. Religião só cura assassino fingindo estar arrependido, meditação não garante lavagem da alma.

Por isso nascemos pelados, para vestir consciência limpa e solidária. De que vale uma padaria recheada de pães de sabedoria, se não distribuímos na prática?

Tem gente por aí, fazendo fila para sair do corpo e aprender sobre chakras, outros gastam uma fortuna indo para Santiago de Compustella ou para algum ashran na Índia, mas não erguem um punho para doar sangue, jogam Big Mac no lixo olhando gente com fome na rua.

Espiritualidade não é recitar a Bíblia ou o Baghvata Gita, qualquer papagaio consegue fazer isso.

Espiritualidade é estar presente nesse momento e não viajando na maionese do x-tudo Divino.

Tem gente por aí que se entope de mantra, sabe os salmos de cor, vive no terreiro, vai a Aparecida toda semana, reza a Maomé cinco vezes por dia, mas é incapaz de mudar de atitude

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Sentar

Você se senta direito? Quero dizer, quando você está sentado, a sua coluna está ereta? Seus pés tocam o chão?

Jureminha aprendeu a sentar : maravilha da natureza, fogos de artifício, a mãe dela e eu comemorando, tirando fotos, mostrando para os parentes o avanço da nossa moleca. É claro, cada passo para a frente da minha filha, mas percebo os passos que eu dou para trás. Tenho dores nas costas, a causa é pura má postura.

Não sento mais, deito.

Mesmo quando almoço, percebo que meu corpo vai para a frente. As costas reclamam, ensaio ainda uma disciplina que nunca cumpri. Daí, nada como observar a minha filha aprendendo a sentar para lembrar do valor que as pequenas coisas possuem.

Aos 38, não tenho mais tempo para cultivar erros de postura, sei que tudo o que faço com o meu corpo, logo depois, terei que pagar o preço. Ainda bem que estou tendo essa segunda chance para reaprender a viver direito. E eu que pensei que os filhos aprendiam com os pais...


sexta-feira, dezembro 02, 2011

O Dia Em Que Acordei Sem Palavras


Um dia, como num pesadelo kafkiano, acordei sem palavras. Eu não só apenas havia me esquecido como dizê-las, como eu também não as pensava.

Eu existia. Vivia o sonho do místico que almeja um silêncio meditativo continuo, porém, para mim, aquela experiência era puro tormento, pois escritor sem palavra é bailarina sem pé, escultor sem mãos.

Eu existia, assim como um animal existe, apenas sentindo, respirando e continuando, mas sem o sabor da experiência narrada, acumulativa, que nos faz ser humano, experiência pensada para ser com o outro compartilhada.

Eu existia. E sabia que aquela mulher que falava comigo, me era querida, mas eu não conseguia sequer formular o pensamento: "ela é minha mulher!"

Eu tentava dizer " ela", mas não conseguia formular o som, nem pensar como se escrevia mentalmente a palavra.

Queria pedir ajuda, mas não conseguia juntar o a, o ju e o da. E quanto mais tentava formular palavras, mas cansado ficava. Senti, enfim, que talvez fosse melhor apenas mergulhar no silêncio.

Mergulhei...

Mergulhei no lago aonde as palavras fluem, vi as ilhas de idiomas, árvores que frutificavam gramática com troncos de estrutura. Ouvi o som, a pronúncia, percebendo como cada palavra formada pelo ar dançando pela nossa garganta é capaz de produzir.

Sem palavras , eu existia, e percebia que lá fundo na mente, existimos mesmo sem pensar que existimos. As idéias, os símbolos, as crenças e certezas está tudo lá em casas de símbolos, edifícios construídos para dar significado ao mundo que vivemos e as coisas a nossa volta.

Tudo embalado por ruas e avenidas, por onde correm Mercúrios, esses mensageiros de pés alados que associam um símbolo num outro, para que tudo pensado possa ser dito e tenha um sentido e se faça uma união chamada: linguagem! Contudo, de que vale ver a coisa mais bonita do mundo e ficar mudo. Nem " uau" eu sabia dizer, nem " caramba" eu conseguia pensar.

Então, como já devidamente revelado, afinal essa é uma crônica escrita sobre a experiência de não conseguir pensar em palavras, notei que as silabas e seus sons começaram novamente a circular em minha mente, como se elas tivessem retornado do lugar em que se esconderam; e fui unindo pen com sar e consegui lembrar da fórmula para criar pensamentos, podendo finalmente sentir que saia da minha boca, uma frase: bom dia!

Como é bom reconhecer a alquimia que ocorre quando pensamento vira magia saindo da boca e entrando no seu ouvido como minha opinião. Que responsabilidade é reconhecer o poder do falar e do bem dizer.

A mal dicção é não poder falar. Maldição é usar as palavras sem uma voz que construa, que una, que compartilhe algo que valha a pena ser dito, bem dito, falado.

Que bom poder palavrear...

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Padilhas


" De vermelho e negro
vestindo a noite o mistério trás
De colar de cor de brinco dourado a promessa faz
Se é preciso ir você pode ir peça o que quiser
Mas, cuidado amigo ela é bonita Ela é mulher"


O perfume é forte, exagerado; a gargalhada ecoa, distoa; no cruzar de pernas, ela mostra e não mostra; o sorriso encanta e esconde. Há no olhar um saber que não se pode falar; no girar um fazer que não se revela; porém tudo que vem dela parece ensaiadamente orquestrado, ora para atrair, ora para espantar. Ela é a voz da rua, o vento que destranca o caminho, ela é doce canto e armadilha; acenda o cigarro e sirva a melhor bebida, chegou Maria Padilha!

- Sirva-me, macho! - ela ordena. No olhar um domínio e fascínio. - Eu não sou só Maria, sou Ana, sou Pomba, sou Gira. Sou a mulher sem nome, a prostituta, a esposa espancada, a estrupada, a mulher agredida, a imunda... É claro, sem perder o charme e a elegância.

Ela gargalha mais um pouco e fala alto sobre sedução e sexo; o povo se distrai, não reflete sobre o que foi revelado; eu quietinho, vou assistindo essa força feminina, pura luz fluída, resgatando mulheres perdidas nas trevas da dor e da solidão. Vejo lugares medonhos, onde anjos não entram e mestres não pisam; não por falta de tentativa, mas por causa das leis de sintonia e vibração, o contato não se fixa; vejo essa legião de Mulheres Bonitas girando aqui e girando acolá, abrindo suas asas vermelhas e cinzas, acolhendo, transferindo mulheres sofridas dos ambientes mais densos para os mais sutis. Vejo essa legião de Ciganas batendo suas castanholas de luz e expulsando os maus espíritos; vejo tudo isso, enquanto o povo canta:

" E nos cantos da rua

Zombando, zombando, zombando está

Ela é Moça Bonita

Girando, girando, girando lá

Oi girando lá oiê

Oi girando lá oiê

Oi girando lá oiê

Oi girando lá..."

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