sexta-feira, abril 30, 2010

Noite Cheia de Estrelas

Letra de Evaldo Braga
Versão de Jessé

Noite alta, céu risonho
A quietude é quase um sonho
O luar cai sobre a mata
qual uma chuva de prata
de raríssimo esplendor
Só tu dormes, não escutas
o teu cantor
revelando à lua airosa
a história dolorosa
desse amor

Lua, manda tua luz prateada
despertar a minha amada
Quero matar meus desejos
Sufocá-la com meus beijos
Canto e a mulher que eu amo tanto
não me escuta, está dormindo
Canto e por fim
nem a lua tem pena de mim
Pois ao ver que quem te chama sou eu
entre a neblina se escondeu

Lá no alto a lua esquiva
está no céu tão pensativa
As estrelas são serenas
qual dilúvio de falenas
andam tontas ao luar
Todo o astral ficou silente
para escutar
o teu nome entre as endeixas
As dolorosas queixas
ao luar

Lua, manda tua luz prateada
despertar a minha amada
Quero matar meus desejos
Sufocá-la com meus beijos
Canto e a mulher que eu amo tanto
não me escuta, está dormindo
Canto e por fim
nem a lua tem pena de mim
Pois ao ver que quem te chama sou eu
entre a neblina se escondeu





Nota do autor: mais uma canção encontrada que me perseguiu na lembrança por toda a vida. Escutei essa canção na infãncia e jamais a esqueci, e hoje a ofereço, com toda a sua breguice e poesia para quem compreende o que senti, sinto e sentirei sempre.

Adoção é doação

Por Fábio Santos
Publicado pelo jornal Destak


As pessoas que são contra a adoção por casais gays têm o coração mais duro do que a cabeça

Algumas pessoas se manifestaram violentamente contra a decisão do Superior Tribunal de Justiça que, na prática, legalizou a adoção de crianças por casais gays. Quem quer que pense assim sofre não apenas de preconceito contra homossexuais, mas principalmente de ignorância sobre o que é viver num orfanato. É gente cujo coração é mais duro que a cabeça.

O principal argumento desse pessoal é dizer que a condição sexual dos pais adotivos poderia influenciar os filhos. É inegável que crianças criadas por pais do mesmo sexo têm um aspecto da vida sobre o qual terão de dar mais explicações. Basta, porém, orientação e cuidado paterno para que esse desafio seja ultrapassado. Tenho certeza de que tais dificuldades são muito menores do que viver num orfanato e ser tratado como um número, à espera de tornar-se um indivíduo.

Mas a turma do contra não se refere apenas aos problemas que a criança enfrentará diante dos outros. O ponto de boa parte dessa turma é que os filhos poderiam ser levados a também serem gays por conta do exemplo dos pais. Ai, quanta estupidez! Ninguém nasce heterossexual e vira homossexual. Homossexualidade "não pega", não é uma opção, é uma realidade natural. Também não existe essa história de "curar" gays. Há, sim, pessoas que evitam viver a própria homossexualidade, mas jamais abandonam essa condição, mesmo quando são casados e têm filhos. Mas essas, em geral, são pessoas infelizes consigo próprias e que eventualmente acabam não resistindo a seus próprios desejos.

Há os que argumentam que a homossexualidade é contra a natureza. Bem, se é antinatural, por que ocorre entre vários mamíferos e aves? Outros lembram que a Bíblia condena o sexo homossexual. A esses pergunto: você vive exatamente como determinam os autores bíblicos? Duvido. Ou ainda: a mensagem do Novo Testamento não é a do amor universal? Por que excluir os gays desse universo? Por que excluí-los da possibilidade de ter e amar seus filhos? Eis aí o fundamental: o amor. Adoção é doação. Claro que quem adota busca satisfazer o desejo de ser pai ou mãe. Mas não há nenhum egoísmo aí. Esse é o desejo de atender o outro, ajudá-lo, amá-lo.

Hoje há cerca de 80 mil crianças vivendo em abrigos e orfanatos no país. Dessas, infelizmente, apenas alguma coisa entre 4 mil e 8 mil pode ser adotada. Mesmo assim, por diversos motivos, muitas são deixadas para trás. É nelas que se deve pensar.

Adoção é doação



(Fábio Santos*
Diretor editorial (fsantos@destakjornal.com.br))

quinta-feira, abril 29, 2010

O RELÂMPAGO, O SEQUESTRO E O TROVÃO

Voltando para casa, tudo era igual a qualquer dia: trânsito, rádio ligado, gente estressada, criança pedindo no farol, tudo na mesma correria da Rush Hour, então, ouvi, no vidro, uma batida - ignorei até notar que quem batia era o cano de uma arma - e quando percebi, ter esquecido a porta destravada, tornou-se um pesadelo, dois vampiros da cidade grande, invadiram a minha casa sem ser convidados.

A mente, nessas horas, é céu em tempestade. O que fazer? ela pergunta, e antes mesmo que eu pudesse responder, ela atira: reaje, faz alguma coisa, não reage, fica parado, cadê o governo? cadê a polícia?

Sou dominado! Um deles assume o volante, um outro aponta a arma para a minha cabeça. Não é cena de filme, mas estou preso numa cena Tarantinesca; onde eles falam mil besteiras, essas coisas que todo mundo tem medo de ouvir ou não quer que aconteça. Não tenho ouvidos para as ameaças, eu só quero que aquilo tudo desapareça e eu volte, são e salvo para casa. Não volto!

Era para ser relâmpago, transforma-se em trovão; fui vedato, levado para qualquer canto. Piedade, eu peço; misericória, eu rogo, nada! Sou amarrado e jogado em um buraco, em cima de um colchão molhado com cheiro de mofo, barata e rato. Quanto tempo mais? Eternidade?

Oração que é bom? Deus saiu de férias, não me ouve, deixou no lugar a minha desgraça. Meu coração parece que vai explodir, tudo em mim treme. Penso na minha família, esqueço de mim. O tempo? Que tempo? Há o tempo da vida, e o tempo do sequestro. Inferno é viver em cativeiro. Pensando nisso, lembrei dos pássaros que eu tenho engaiolados lá no sítio - imagino libertando-os e essa sensação me enche de alívio.

Lá pelo segundo dia, eu acho, ou pelo quinto, não sei, estou cego para o mundo, enterrado em meus próprios excrementos, lágrimas e alimento que nem cachorro sarnento quer; penso em minha mulher, sinto saudades! Fico imaginando se ela pode me ouvir, daí, desisto, não acredito em telepatia, mas quando a agonia é grande, até ateu lembra de Deus; e quando pensei nisso, rí, acho que pela primeira vez desde que começou o meu pesadelo, desde que aquela onda me envolveu. A partir daí, começou uma nova vida, eu não era mais humano, era bicho estranho que tinha um dono. Se eu recebia comida, eu comia; se era para fingir de morto, eu morria.

Percebia, vozes, algumas eram nervosas, outras um tanto calmas, ouvi até voz de criança; sabia que era dia, quando ouvia lá fora os pássaros cantando; que era noite, quando o silêncio tornava tudo ainda mais desesperador.

Em meio ao " não posso fazer nada", a escuridão daquela situação foi se amenizando, e enfim, consegui sentir algo, uma quase-presença ao meu lado, me pedindo calma e paciência; e percebi que quando o homem cessa, Deus aparece; quando o mal-pensar cala, a luz fala.

Chorei, dessa vez, de alegria; pois voltei a acreditar que tudo daria certo no final.

Foi por essa razão, que eu estava calmo, sereno, quando a policia me libertou do cativeiro. Eles disseram que passaram 90 dias desde que eu havia sido preso, para mim, foi uma vida; mas o que eu sentia, não era tranquilidade; na verdade, era apenas uma reação de alguém que descobriu o poder da prece e o quanto preciosa é a vida, e mais valiosa ainda, a liberdade.

O fundamentalismo dos novos ateus

Por MÁRVIO DOS ANJOS
Publicada no jornal Destak


Um ateu determinado a prejulgar qualquer religioso é perigoso e preconceituoso como um homem-bomba

A crise dos pedófilos na Igreja e as recentes manifestações sobre o papel de Deus nas tragédias ambientais - que ecoam na seção de cartas deste Destak - opõem de novo a fé e seus críticos. O debate é saudável, desde que sem fundamentalismos, seja religioso... ou ateu.

Foi após Nietzsche que o ateísmo encontrou sua face mais triunfante e ganhou terreno como parte indispensável de um mundo em que Razão e Conhecimento, filhos gêmeos do Questionamento, impuseram-se como os caminhos rumo à Sabedoria.

Chegamos faz pouco ao ateísmo militante de Christopher Hitchens e Richard Dawkins, de vasta cultura e argumentação demolidora, determinados a expor a inutilidade da religião. Depois, nasce a espécie que chamo de "ateu fundamentalista": quem não vê qualquer valor na religião e opta por combatê-la, como se fosse a raiz de todos males da humanidade. Pior: virou moda.

Que o fundamentalismo religioso é uma praga todos sabemos. De que uma educação religiosamente rígida pode ser extremamente destrutiva poucos duvidam. E a intolerância é mais gritante quando surge dos que seguem um líder cujo principal ensinamento era "amar o próximo" e até o inimigo.

Nada disso, porém, justifica ser intolerante com toda forma de religiosidade. Um ateu truculento é tão perigoso quanto um homem-bomba.

Por mais revolta que causem a Igreja que acoberta pedófilos e os favelados que proclamam confiar em Deus para encurtar o papo e continuar a viver em áreas de risco, não se pode jogar tudo no mesmo saco.

Seria desonesto negar que há milhões que usam crenças religiosas como uma via pacífica para alcançar uma vida mais sábia, mais justa e, sim, mais feliz.

O mal não vem da crença. Mas é óbvio que acobertar crimes ou justificar imprudências num manto de sacralidade torna tudo duplamente condenável. Este é o problema: à sombra das religiões, abrigam-se diferentes humanos - dos mais respeitáveis aos mais abomináveis e aproveitadores. Como em qualquer lugar.

Invalidar filosofias que pregam amor ao próximo, respeito à vida e busca honesta pela sabedoria - e, pior, acusar todos os seus adeptos de indivíduos irracionais - é impor uma tirania míope, baseada num preconceito tão vilão quanto a homofobia e o racismo.

Intolerância não é aceitável. Nem travestida de "justa vingança" nem de modernidade obrigatória.



(MÁRVIO DOS ANJOS*
Editor do Destak Rio (marvio@destakrio.com.br))

quarta-feira, abril 28, 2010

Os segredos dos Bons Professores

Por Camila Guimarães,
Revista Época, de 26 de abril de 2010.

O que todos nós temos a aprender com os mestres dedicados, capazes de transformar nossas crianças em alunos de sucesso


CONTROLE
A professora Carolina Maia, em sua classe da 2ª série. Em suas aulas, tudo o que não tem relação com aprender fica para fora da sala De uma carteira na penúltima fileira da sala de aula, relembro alguns conceitos de matemática que tanto me assustavam anos atrás. A minha volta estão cerca de 30 alunos do ensino médio de uma escola de primeira linha de São Paulo. O professor João (o nome é fictício, e você já vai entender por quê) dá uma boa aula. As fórmulas, as equações, os problemas se sucedem. Minha intenção não é reaprender matemática, e sim entender como atua um bom professor. João foi indicado pela direção da escola como um dos melhores.

Prender a atenção de um bando de adolescentes às 8 horas da manhã, com esse tema, já pode ser considerado um feito. E João conquista a quase unanimidade dos olhos grudados no quadro verde, onde resolve um exercício. Só dois grupos pequenos travam conversas paralelas (sobre a própria matéria) – e uma menina dá uma cochilada, a três carteiras de mim. Estou ali, tentando perceber os segredos de uma boa aula, quando escuto um diálogo cochichado:

– Não consegui fazer a maioria dos exercícios, acho que vou passar o resto da semana no plantão de dúvidas.

– Você já teve aula com o professor Fernando?

– Ainda não.

– Ele é demais, o melhor professor que eu já tive.

– Ele é legal?

– Não é isso. É que ele explica tudo de um jeito que a gente consegue entender.

A diferença entre esses dois professores – um bom, o outro ótimo – é o fator de maior impacto na educação. Não é que não seja importante ter computadores, visitar pontos históricos ou culturais, adotar bons livros e apostilas ou manter poucos alunos nas salas de aula. É. Mas, como revela um conjunto de estudos recentes, nada tem tanto efeito sobre o aprendizado quanto a qualidade do professor.

Fatores genéticos podem ser responsáveis por diferenças notáveis no desempenho de uma criança na escola. Mas eles só se manifestam se o professor for bom, diz um estudo da Universidade da Flórida, publicado na edição deste mês da revista Science. (O estudo analisou os níveis de leitura de gêmeos que estudavam em classes diferentes. Os que tinham professores piores – medidos de acordo com o resultado geral da sala – não atingiam o nível dos irmãos, com carga genética idêntica.) Esse resultado põe em xeque o mito de que bons alunos se fazem sozinhos.

Outro mito – a existência de alunos para quem o conteúdo é impenetrável – cai por terra diante das experiências de instituições de ensino nos Estados Unidos expostas em dois livros recém-lançados: Teaching as leadership: the highly effective teacher’s guide to closing the achievement gap (Ensinar como um líder: o guia do professor supereficiente para diminuir o déficit de aprendizado), de Steven Farr, e Teach like a champion: 49 techniques that put students on the path to college (Ensine como um campeão: 49 técnicas que colocam os estudantes no rumo da universidade), de Doug Lemov. (Mais detalhes sobre eles e seus autores daqui a cinco parágrafos.) Para que o conteúdo seja aprendido por todos, porém, é preciso haver professores excelentes. Não apenas bons. Excelentes.

Uma análise do economista Eric Hanushek, da Universidade Stanford, revela que os professores entre os 5% melhores ensinam a seus alunos, a cada ano, o conteúdo de um ano e meio. Na outra ponta, os professores do grupo dos 5% piores ensinam apenas metade do que deveriam.

Avaliar o desempenho individual dos professores permitiria não só premiá-los de forma
mais justa, mas também fazer algo mais importante: entender como eles trabalham
A discussão sobre a qualidade dos professores já está instalada no Brasil. É o cerne de uma batalha entre os sindicatos de professores, que exigem melhores salários e condições de trabalho, e algumas secretarias estaduais, que tentam implementar um sistema de meritocracia, similar ao vigente naqueles países que mais se destacam nas avaliações internacionais de ensino, como Finlândia e Coreia do Sul. Tal sistema já apresenta bons resultados. São Paulo adotou, em 2008, um programa de bonificação para escolas, diretores e professores cujos alunos melhoram o desempenho em provas. Em apenas um ano, o número de alunos da 4ª série que não conseguiam fazer contas básicas de soma e subtração caiu de 38% para 31%.

“Medir o resultado e premiar os melhores é o caminho certo para tornar a carreira de professor mais atraente”, diz Fernando Veloso, economista e especialista em educação. Mas o sistema é ainda incompleto. “Nenhuma das avaliações considera a ação do professor em sala de aula”, diz Paula Louzano, especialista em educação e consultora da Fundação Lemann, organização dedicada à melhora do nível do ensino.


MOTIVAÇÃO
Rogério Chaparin, professor de matemática. Ele incentiva os alunos a encontrar mais de uma solução para o mesmo problema Avaliar o desempenho individual dos professores permitiria não apenas premiá-los de forma mais justa e eficiente, mas também fazer algo ainda mais importante: entender como eles trabalham – e estender sua experiência aos demais. Porque, se é verdade que todo aluno pode aprender, é lógico acreditar que todo professor tem condições de tornar-se ótimo.

Premiar os bons professores e punir os ruins é essencial. Mas fazer apenas isso não basta para chegar a um ensino de qualidade. É aí que entram em cena os dois livros recém-lançados nos Estados Unidos. O primeiro, Teaching as leadership, foi escrito por Steven Farr, o responsável pela difusão de conhecimento da organização Teach for America, que dá aulas em escolas públicas para crianças de comunidades carentes. Em duas décadas de atuação, a Teach for America formou 25 mil professores, que deram aulas a 3 milhões de alunos. Mais do que apenas ensinar, a Teach for America vem colecionando dados sobre os professores mais eficientes. Suas técnicas, seus métodos, sua formação, como se preparam para o trabalho. Dessa análise surgiram o que Farr chama de seis pilares do ensino:

1) traçar metas ambiciosas com a turma, como “este ano vamos avançar dois níveis em um” ou “todos os alunos desta sala vão tirar mais que 9 no exame nacional” (não metas vagas, como “vamos aprender o máximo”);

2) envolver alunos e famílias, a ponto de traçar com os pais planos de incentivo individualizados para as crianças;

3) planejar com cuidado as aulas;

4) dar aulas com eficiência, aproveitando cada minuto e cada oportunidade;

5) aumentar a eficiência sempre;

6) trabalhar incansavelmente, porque cada um dos itens anteriores dá muito, muito trabalho.

Na mesma linha, o educador Doug Lemov lançou no início deste mês o livro Teach like a champion. Lemov dirige a Uncommon Schools (Escolas Incomuns), uma associação de 16 escolas que ensinam crianças principalmente de famílias carentes. “Uma de nossas missões é diminuir a distância na taxa de aprendizado entre ricos e pobres”, diz Lemov. Eles têm conseguido. Em 2009, 98% dos alunos da Uncommon tiraram notas acima da média estadual de Nova York em matemática. Na avaliação de inglês, foram 80%.


O livro de Lemov nasceu de uma inquietude dos tempos em que trabalhava como consultor e era chamado por diretores aflitos com a qualidade ruim de suas escolas. Por que alguns professores conseguiam ensinar tão mais que outros a alunos de mesma condição social? O primeiro passo para responder a essa pergunta foi identificar os professores de sucesso. Para rastreá-los, Lemov cruzou as notas de alunos em avaliações nacionais com o índice de pobreza e violência das comunidades em torno das escolas. Fez isso classe por classe, até localizar as maiores notas entre aqueles que todos acreditavam que fracassariam. “Esses são os professores campeões”, afirma (leia sua entrevista). São o equivalente do técnico de futebol que seguidas vezes pega um time no intervalo perdendo de 4 a 0 e empata o jogo. Durante cinco anos, Lemov gravou suas aulas e os entrevistou. O livro é um apanhado de suas técnicas (algumas delas estão no quadro na última página desta reportagem).

À primeira vista, as técnicas podem parecer banais, como circular pela sala de aula ou olhar os alunos nos olhos. Assim como as técnicas de Farr, que incluem elogiar o esforço (“Você prestou atenção”), em vez do talento (“Você tem boa memória”). A professora Carolina Maia passou a ganhar dez minutos a cada aula depois que descobriu um método para garantir a disciplina da classe da 2ª série na Escola Estadual Guilherme Kulmann, de São Paulo. Para duas meninas que discutiam por causa de um lápis de cor, Carolina apenas aponta a porta e pede que elas resolvam o problema no corredor. “Tento deixar o que atrapalha a concentração deles fora da sala”, diz. “Não posso me dar ao luxo de perder tempo.”

Muitos professores lidam com esse tipo de situação dez, 15 vezes por aula. Nesse tempo, 20% do total, não conseguem ensinar. “O universo da sala de aula é constituído por uma infinidade de pequenas ações”, diz Guiomar Namo de Mello, uma das mais respeitadas educadoras do país. “É a execução dessas ações naquele espaço, naquele tempo da aula e com aqueles alunos que distingue o bom professor.” Essas pequenas ações incluem a forma como o professor faz perguntas para a classe, o modo de passar instruções, seu grau de controle sobre as conversas paralelas. E podem ser aprendidas.

No caso dos professores brasileiros, não há como aferir objetivamente quais sejam ótimos. Na falta de estudos como os de Lemov e Farr, dependemos de percepções de diretores e educadores, às vezes de alunos. Contaminada pelo livro de Lemov, percebi diferenças entre o professor João, do início da reportagem (apontado como exemplo pela direção da escola), e o professor Fernando (indicado como excelente por um aluno). João conseguia a atenção da maioria dos alunos; Fernando, de todos. João, até onde percebi, não usava técnicas; Fernando tinha alguns macetes. João deixava transparecer o esforço para explicar o conteúdo; Fernando demonstrava mais empatia com os alunos, parecia entender a origem de suas dúvidas. João explicava os exercícios mais importantes; Fernando tirava dúvidas individuais. Estaria minha percepção correta, com base em apenas uma aula? Será que essas diferenças garantiriam um aprendizado melhor para os alunos de Fernando?

Há outra crítica às receitas de Farr e de Lemov. Ambos se basearam em crianças carentes, cujo grande sucesso é chegar ao nível das demais. Nessas condições, muitos colégios estão dispostos a tentar qualquer coisa. Até a subornar os alunos para tirar boas notas. O economista Roland Fryer Jr., da Universidade Harvard, fez exatamente isso, com resultados mistos. A pesquisa gastou US$ 6,3 milhões, distribuídos para 18 mil alunos. Quando pagava por “notas melhores”, o resultado foi pífio. Mas pagar para ler livros levou os alunos de várias escolas a melhorar sua leitura e, consequentemente, suas notas.

Várias pesquisas mostram que aprimorar os métodos de ensino dos professores, como sugerem Farr e Lemov, é mais eficaz que incentivar os alunos de outros modos. A questão é: esses conselhos que parecem funcionar para crianças carentes seriam válidos para colégios de classe média e elite? Provavelmente sim, a julgar por algumas práticas de alguns dos melhores colégios do Brasil, como o Vértice, de São Paulo, e o São Bento, no Rio de Janeiro, primeiros colocados no ranking do Enem do ano passado. Ambos adotam uma das estratégias que Lemov considera essenciais: seus professores são treinados por outros professores, na própria escola.

Alexandre Simonka, de 35 anos, professor de física do Vértice, foi contratado há quase dez anos. Acabara de se formar pela USP. Antes de bater o sinal da primeira aula em que assistiu o titular da disciplina (e dono do colégio), compreendeu que toda a física quântica que dominava não serviria para nada. “Eu não tinha a linguagem para passar conteúdo aos meninos de 14 anos”, diz. Por três meses, teve de rever os fundamentos básicos da física. O dono da escola serviu como seu tutor. Simonka diz ter aprendido com ele suas duas principais técnicas: nunca deixar que os alunos anotem no caderno enquanto ele explica (“não dá para dividir a atenção deles com nada”) e sempre, no final da aula, apontar o que é preciso memorizar.

Também é notável que os professores indicados como exemplares pelos colégios que procurei tenham chegado, por aprendizado próprio, a algumas das técnicas descritas por Lemov e Farr. Eis alguns exemplos.

■Todos os dias, no começo da aula, Carolina aquieta as crianças com a seguinte frase: “Vou contar até três, e uma mágica vai acontecer”. Na primeira vez, não funcionou. Nem na segunda. Em algum momento, os alunos aprenderam a se sentar em silêncio antes de ela chegar ao três.


■O estudante Leonardo Basile, de 17 anos, começou a competir em olimpíadas de matemática entre a 5ª e a 8ª séries, inspirado pelo professor Rogério Chaparin. Basile concluiu o ensino médio em 2009 e no início de abril estava nos Estados Unidos, escolhendo em qual das quatro universidades nas quais foi aceito vai estudar. “O Rogério sempre foi muito empolgado com o que ensinava”, diz. “E me contaminou.” Chaparin, que dá aulas de matemática no ensino médio de uma escola técnica estadual de São Paulo, não dá aulas shows. O que seu ex-aluno enxergou como paixão é uma técnica. “Nunca passo um exercício que não tenha mais de uma solução”, diz ele. Incentivar os alunos a buscar um jeito diferente de resolver um problema é, para Chaparin, a receita de mantê-los motivados e concentrados.


■Professor há 25 anos, Carlos Oliveira diz que suas aulas se tornaram melhores depois que ele mudou o jeito de fazer perguntas. Em suas aulas para o ensino médio do Colégio Bandeirantes, de São Paulo, Oliveira se dirige a cada aluno, em vez de dar a palavra apenas a quem levantar a mão. Segundo ele, isso cria uma tensão positiva nos alunos. “Eles sabem que podem ser chamados a participar da aula a qualquer momento e acabam prestando atenção na maior parte do tempo.” Para Lemov, isso é parte da receita de manter as expectativas altas em relação aos alunos. O fracasso do ensino começa quando o professor não acredita que seus alunos possam aprender. Em pelo menos duas ocasiões durante a aula que observei, Oliveira não se conformou com um “não sei”. Repetiu a pergunta aos mesmos alunos, até fazê-los dar a resposta certa depois de chegar a ela, com toda a classe.


■Em suas aulas de redação, a professora Irinéia Scota apresenta cada tema de um jeito diferente. Para escrever sobre o culto à forma física, os alunos da 8ª série do Colégio Positivo tiveram de trazer suas próprias pesquisas de casa. Reportagens, depoimentos de familiares, músicas. Ao serem apresentados ao gênero teatral, leram um trecho de O auto da compadecida, assistiram a um vídeo com seu autor, Ariano Suassuna, e ao longa-metragem homônimo. A classe discute tudo. Só então os alunos fazem o texto. Nessa hora, ela circula entre as carteiras, tira dúvidas individuais ou dá orientações gerais. “Eles têm chance maior de pedir ajuda e tirar dúvidas”, diz. “É impressionante como quem pede ajuda vai melhor, no médio prazo, do que quem não pede.”



■Todos os professores observados para esta reportagem também cumprem outra recomendação de Lemov e de Farr. Suas aulas são meticulosamente planejadas. Irinéia Scota, de Curitiba, vai além. O passo a passo de seu plano de aula de redação é transparente para a classe. Os alunos sabem que primeiro vão debater, depois escrever, por fim reescrever, corrigindo os erros. Ao estabelecer etapas, fica mais fácil para o aluno entender por que um recorte de jornal que ele precisa providenciar para amanhã é importante para tirar nota 10 na redação do vestibular. “Nossos melhores professores perceberam que, antes de conseguir fazer o que queremos que eles façam, os alunos têm de conseguir dizer essas ações”, escreveu Farr. “Por isso, essas ações e expectativas têm de ser ensinadas, explicadas e constantemente revistas.”
O mais impressionante nos trabalhos de Lemov e de Farr é que seus segredos do sucesso têm pouco a ver com as grandes teorias da educação. Que faculdade de pedagogia ensinaria Fabrícia Lima, professora de português da rede estadual do Recife, que circular pela sala funciona mais do que ficar parada na frente da lousa dizendo “pssssssiu”? Fabrícia perdia quase dez minutos da aula. Ao passear entre as carteiras, pede a um aluno que guarde o boné, a outro que desligue o MP3. Os alunos mais distantes percebem a acomodação e naturalmente também se preparam. “Nenhum estágio que fiz durante a faculdade me preparou para isso”, diz.

Bernadete Gatti, chefe da área de pesquisa em Educação da Fundação Carlos Chagas, investigou os cursos de pedagogia de todo o país. Descobriu que 70% da carga horária é teoria pura – psicologia, sociologia, filosofia. “Isso afeta diretamente a capacidade do professor formado de lidar com a prática em sala de aula.” Quem sofre é o aluno – e o país, que desperdiça seus talentos do futuro.

As aulas dos campeões
Algumas técnicas dos melhores professores observadas pelo educador Doug Lemov

É certo só se estiver 100% certo
• Continuar perguntando a mesma coisa para o aluno até que ele dê uma resposta 100% certa. O que acaba acontecendo na maioria das classes é algo parecido com o descrito neste diálogo:

– Como era a convivência entre as famílias de Romeu e Julieta? – pergunta a professora.

– Eles não se gostavam – responde um aluno.

– Certo. Eles não se gostavam e disputavam terras havia anos, acrescenta a professora, que ainda dá parabéns ao aluno pela resposta que ele não deu.

Ao não apontar para o aluno que a resposta dele poderia ser mais completa, a professora passa a mensagem de que ele pode estar certo até quando não está – e, obviamente, isso não vai funcionar em uma prova ou no vestibular. A dica é ter paciência e insistir na pergunta, até chegar ao 100% certo. Um excelente professor sairia assim dessa situação: “Foi um bom começo, mas dizer apenas que eles não se gostavam realmente revela qual era a relação entre as famílias?”. Dessa forma, ele deixa claro que não aceita nada menos do que uma resposta completamente correta, sem deixar de demonstrar confiança na capacidade de seus alunos.


Olho no professor
• Os alunos não podem anotar nada enquanto o professor explica a matéria. Todos os olhos devem estar voltados para ele. Isso é mais eficiente para controlar quem está prestando atenção do que repetir 1 milhão de vezes “prestem atenção agora, isso é importante”. Pelo simples fato de que o professor enxerga os olhos dos alunos. Ou se as canetas estão descansando sobre a carteira. Um dos maiores problemas enfrentados no dia a dia por professores é que nem todos os alunos seguem suas orientações. Podem ser orientações de como executar um exercício. Os que ficam para trás estão deixando de aprender e ainda podem tumultuar a aula. Para os bons professores, só há uma porcentagem aceitável de alunos que obedece ao que foi pedido: 100%. Menos que isso, o desempenho da classe toda estará comprometido.


O lado positivo da bronca
• Usar frases positivas na hora de chamar a atenção do aluno. Faz uma tremenda diferença dizer “por favor, eu preciso que você olhe para a frente”, em vez de “não olhe para trás”. Pessoas se motivam muito mais por fatores positivos do que negativos. No geral, elas agem para buscar o sucesso, e não para evitar fracassos. A técnica do enquadramento positivo pode ser aplicada durante a aula ou em uma conversa reservada com o aluno. Se outros estudantes assistem ao diálogo entre o professor e o aluno que está sendo repreendido, o ideal é sempre assumir, a princípio, que o mau comportamento não é intencional. É mais produtivo dizer algo como “classe, só um minuto, parece que alguns se esqueceram de empurrar suas cadeiras”, do que “classe, só um minuto, alguns decidiram não empurrar suas cadeiras como eu pedi”. Isso ajuda o professor a ganhar a confiança do aluno, o que é fundamental para o aprendizado.


Circulação pela sala
• Enquanto explica a matéria ou como resolver um exercício, o professor circula pela sala. Ao quebrar a barreira imaginária que existe entre ele e os alunos, demonstra proximidade. Durante a caminhada, aproveita para fazer perguntas individuais, corrigir ou elogiar um caderno. Circular pela sala é ainda uma boa oportunidade para descobrir o que acontece quando o professor está virado de costas para a turma, ao flagrar um álbum de figurinhas aberto ou um celular ligado.


Para fisgar o aluno
• Apresentar um novo tópico da matéria de um jeito diferente. Esse é o primeiro passo para aprender aquela lição. Para fisgar os alunos, a técnica é usar iscas como uma história, trechos de um filme ou um pequeno desafio. Por exemplo: antes de ensinar o conceito de frase completa, uma professora pede aos alunos que formem uma frase com cinco palavras dadas por ela. Depois de poucos minutos, eles percebem que é impossível executar a tarefa – porque não havia entre as palavras o sujeito da frase. A surpresa do problema sem solução manteve os alunos atentos o resto da aula.


Não vale não tentar
• Não aceitar “não sei” como resposta e conduzir o aluno à resposta certa – ou à melhor possível – é uma das técnicas mais simples para motivar o aluno a aprender. Uma professora pergunta a um aluno qual o sujeito da frase “minha mãe não estava contente”, ele diz que não sabe. Então, ela se volta para a turma e pergunta qual a definição de sujeito. Depois de ouvir que o sujeito é quem pratica a ação, ela volta para o primeiro aluno e repete a pergunta inicial. Ele então consegue responder: a mãe. A cultura do “não sei” é nociva principalmente porque passa a impressão de que alguns alunos não são capazes de aprender. Manter a expectativa alta em relação ao aluno é fundamental para seu sucesso.


A hora certa de elogiar
• O elogio só deve vir quando o aluno fizer mais do que lhe foi pedido. Os professores excelentes fazem uma distinção precisa entre o que o aluno aprendeu dentro das expectativas e quanto ele as superou. Se um aluno cumpre uma tarefa corriqueira, como manter sua carteira limpa, o professor pode dizer “obrigado por fazer o que eu pedi”, em vez de “excelente trabalho!”. A banalização do elogio tem um efeito destrutivo no longo prazo. O elogio por atitudes banais acaba minando a confiança do aluno de que ele possa fazer algo extraordinário.


O jeito certo de fazer perguntas
• Em vez de fazer uma pergunta para toda a classe responder ou chamar apenas os alunos que levantaram a mão, escolher quem vai dar a resposta, chamando o aluno pelo nome ou apenas apontando para ele. Essa técnica não só permite que o professor cheque o que cada aluno aprendeu, como também é uma forma de mantê-los atentos – afinal, a qualquer momento, alguém pode ser chamado para responder a alguma coisa. Se esse tipo de atividade acontecer todos os dias, os alunos passarão a esperar por isso e, no médio prazo, mudarão seu comportamento. Muitos professores acham que chamar um aluno para responder a uma pergunta é “expô-lo” ao resto da turma. Mas, se a técnica for feita da maneira correta, é o jeito mais eficiente de ouvir aqueles alunos que gostariam de responder, mas hesitam em levantar a mão.

Fonte: Revista Época - 26 de abril de 2010

PONDERAÇÕES CONSCIENCIAIS SOBRE A VIDA E A CONSCIÊNCIA

(Texto postado originalmente na lista interna do Grupo de Estudos e Assistência Espiritual do IPPB)

Ao longo da vida, passamos por muitas coisas.
As experiências se sucedem...
Boas ou ruins, elas fazem parte do viver.
Podemos sofrer vários reveses, traições e calúnias.
Também podemos aprender algo com isso, ou não.
Tudo depende de como enxergamos as coisas.
E isso está relacionado diretamente com a consciência que temos.
Diante de algo ruim, alguns odeiam; outros perdoam...
Alguns aprendem; outros desabam. Faz parte do jogo da vida.
Contudo, mesmo diante de situações complicadas, há sempre lições.
Então, que tal olharmos as situações e pessoas com outros olhos?
Com aqueles olhos do espírito, que todos nós somos, e que vêem algo a mais...
Para tirarmos lição de tudo, e crescermos... Sempre!

* * *

Tudo que você é está em seus olhos!
Máscaras enganam o mundo, mas não o coração.
Amor não se vende e nem se compra; é estado de consciência.
E legal é quando o olhar está cheio de estrelas.
E isso só acontece quando há amor real.
E isso não tem tempo ou condição; simplesmente, é!

* * *

Nesse mundo, nada nos pertence; nem mesmo o corpo, que é transitório.
Inclusive, podemos ser chamados ao plano espiritual hoje mesmo, definitivamente.
Não sabemos nossa hora final, mas sabemos que estamos de passagem por aqui...
Então, por que perdermos tempo acalentando emoções estranhas dentro de nós?
Mágoa e apego não fazem ninguém crescer... E nem reclamações descabidas!
E desejar o mal de outro é sintoma de mediocridade braba.
Todos nós podemos ser bem melhores do que imaginamos.
Sim, podemos melhorar bastante... Mas não basta só querer.
É preciso estudar e trabalhar. E, mais do que ter, SER.
Porque não há nenhuma técnica de crescimento baseada na preguiça!

* * *

Muitas pessoas choram pela perda de um amor.
Outras choram porque um ente querido partiu para a Pátria Espiritual.
E algumas porque sofreram diversos reveses da vida.
Porém, quem chora pela perda do próprio espírito nas ilusões do mundo?

* * *

Não há nada pior do que caminhar igual a zumbi pelo mundo.
Sem sentir e sem viver... Só se deixando levar ao sabor das ilusões.
Essa é a pavorosa satisfação dos incautos: viver só por viver.
Por isso os rishis* sempre alertavam quanto às armadilhas de Maya**.
Suas correntes parecem doces, mas são viscosas; e, quem se ilude, fica preso nelas.
Ah, o lance nunca foi ter; mas, simplesmente SER!

* * *

Existem entidades trevosas especializadas em vampirismo psíquico.
Elas não olham condição social, sexual ou cultural; só vêem as energias das pessoas.
E, por essas, sabem identificar o que se passa dentro de cada uma delas.
Mapeiam os interesses e o foco mental e emocional de suas possíveis presas.
E, se encontram coisas mal resolvidas nelas, é por ali que elas se aproximam.
Então, se instalam sorrateiramente na aura das pessoas e se locupletam ali mesmo.
E elas riem tanto do que fazem ocultamente... Parecem até ratos num lixão.
E por que elas acham essas brechas psíquicas? Por que as pessoas dão tão mole?
E que integridade alguém poderá alardear sobre si mesma, se sua aura tem ratos?
As pessoas choram tanto, por dinheiro e por amor; enquanto os ratos riem delas.
O semelhante atrai o semelhante. Enquanto elas se iludem, os ratos as devoram.
E Jesus sempre esteve certo, quando ensinava o “Orai e Vigiai!”
Ele sabia que os devoradores espirituais não suportam a limpeza que a Luz faz.

* * *

Quem estuda temas espirituais, precisa agir no mundo de acordo com o que sabe.
Nem mais, nem menos. Quem quer mais luz, que seja luz. É sintonia espiritual.
Não precisa ser anjo e nem fingir ser o que não é. Basta fazer o seu melhor...
E melhorar, todo dia um pouquinho... Jamais se esquecendo da própria luz espiritual.
Porque perder a luz é dar campo para os ratos, além de ser uma grande humilhação.
Tem muita gente que se acha boa precisando de uma “desratização consciencial”.

* * *

Somos bem melhores do que imaginamos; isso é certo.
Então, vamos melhorar mesmo? Realmente, com discernimento e amor?
Não somos anjos nem demônios; somos espíritos vivendo uma experiência humana.
E há uma Luz fantástica em nós. Os ratos não gostam dela, mas as estrelas adoram.
Essa Luz é nossa Fiadora real. E onde Ela está, o Amor também está!

* * *

Finalizo esses escritos com um ensinamento de Paramahamsa Ramakrishna***:
“De que adianta ter uma vestimenta luxuosa, se o coração é miserável?”

P.S.:
A maior festa é aquela que acontece nos salões do coração.
É a festa do Amor. E o traje não é a rigor, é de Luz.
Quem ama, sabe.

Paz e Luz.

- Wagner Borges – seu companheiro de jornada...
São Paulo, 19 de dezembro de 2009.

- Notas:
* Rishis – do sânscrito – sábios espirituais; mestres da velha Índia; mentores dos Upanishads.
** Maya – do sânscrito - ilusão; tudo aquilo que é mutável, que está sujeito à transformação por diferenciação.
*** Paramahamsa Ramakrishna: mestre iogue que viveu na Índia do século XIX e que é considerado até hoje um dos maiores mestres espirituais surgidos na terra do Ganges. Para se ter uma idéia de sua influência espiritual, posso citar que grandes mestres da Índia do século XX se referiram a ele com muito respeito e admiração, dentre eles o Mahatma Ghandi, Paramahamsa Yogananda e Rabindranath Tagore.

Obs.: Enquanto eu passava essas linhas a limpo, lembrei-me de um texto antigo do grupo dos Iniciados, que poderá enriquecer em muito a compreensão desses escritos de hoje. Segue-se o mesmo logo abaixo.


LUZ NA ALMA

Viver não é brincadeira, pois crescer não é fácil.
Ganhos e perdas são circunstâncias do jogo de viver.
O importante é saber o que fazer.

* * *

Não há como receber a sabedoria se não houver uma sintonia adequada.

* * *

Certas situações são difíceis, mas quem disse que evoluir é simples?

* * *
A Natureza ensina: tudo é causa e efeito.
Portanto, tenha consciência correta do que pensa, do que sente e do que faz!

* * *
As idéias elevadas não são facilmente digeridas pelas mentes medíocres!

* * *
Use a guilhotina do bom senso, corte a cabeça do seu ego!

* * *
A mágoa é verdadeira erva daninha a grassar no terreno do coração orgulhoso.

* * *
A aura é a vestimenta espiritual do ser.
Não a obscureça com sua amargura.
Erga a mente ao infinito e mergulhe na luz.
Afinal, HÁ SOL TODO DIA!

* * *
O objetivo da evolução é sempre levar o ser adiante.
É por isso que a autoculpa é um grande problema para a consciência, pois a remete ao passado mal resolvido, enquanto a evolução quer levá-la adiante.
Logo, toda autoculpa é estagnação evolutiva e deve ser combatida sob essa ótica.

* * *
O OM* nos olhos é a melhor terapia para os males do coração.

* * *
Os três binômios da alma esclarecida são:
1. Lucidez e Brilho;
2. Amor e Perseverança;
3. Paz e Luz!

- Os Iniciados** –
(Recebido espiritualmente por Wagner Borges – Texto extraído do livro “Viagem Espiritual – Vol. III” – Editora Universalista – 1998.)

- Notas:
* OM - do sânscrito – no contexto clássico do Hinduísmo é o mantra da vibração interdimensional; o Verbo Divino. A concentração mental desse mantra nos olhos reforça a energia da pessoa.
** Os Iniciados - grupo extrafísico de espíritos orientais que opera nos planos invisíveis do Ocidente, passando as informações espirituais oriundas da sabedoria antiga, adaptadas aos tempos modernos e direcionadas aos estudantes espirituais do presente.
Composto por amparadores hindus, chineses, egípcios, tibetanos, japoneses e alguns gregos, eles têm o compromisso de ventilar os antigos valores espirituais do Oriente nos modernos caminhos do Ocidente, fazendo disso uma síntese universalista. Estão ligados aos espíritos da Fraternidade da Cruz e do Triângulo. Segundo eles, são “iniciados” em fazer o bem, sem olhar a quem.


Para ler mais textos do Professor Wagner Borges e saber mais sobre o IPPB, acesse:
www.ippb.org.br

Chandra Lacombe - Budha Que Ri

From the Youtube:

Chandra Lacombe canta no Sangha do Prem Baba, Rishikesh 2010.


terça-feira, abril 27, 2010

ANIVERSÁRIO DA MANINHA

No último dia 17 de Abril, comemoramos o aniversário da minha querida maninha Cris Cris, em sua casa com tambores, bumba-meu-boi, teatro, arte e muita festa e homenagem a essa cabocla linda que Deus me deu como irmã.

BANHO DE ANJO

Abro os trabalhos,
Que venham os anjos!!!
Mas o que é isso?

****

Pingos dourados
Caem do céu,
Não é chuva
Nem tinta de prédio,
Não deve ser engano
Esses pingos
É mijo de anjo!!!

****

Eu vi anjos tocando trombetas
Vi Serafins,
Os mais belos Seres Divinos
Me olhando,
E os mentores espirituais
Torcendo por mim,
E
Me orientando;

Sim, é verdade
Há todo um time nos bastidores!
Nos cuidando,
Atuando,
Inclusive anjo mijando!

****
Contei uma piada aos anjos
Eles não riram,
Pois não tinham boca;
Mas ví em seus olhares
O riso!
Ahh! O mijo, a piada e o riso!
****

Com a ajuda de Eu, Zeus e Deus,
Estão encerrados os trabalhos desse aqui e agora.

Sigam para daqui a pouco com a benção de mim, Jah e Jeová!

Até que enfim, é hora de almoçar.

Valeu, meu Pai Alah!!!

As Quatro Nobres Verdades

Prof. de Dharma Rodney Downey (do Zen coreano)
Tradução: Ricardo Sasaki & Rosana Lucas
Editor da palestra oral: Ricardo Sasaki



Gostaria de começar falando sobre alguns enganos que temos a respeito do Dharma do Buddha, os quais são muito comuns em todo o mundo ocidental, e mesmo no Oriente. A causa desses enganos tem a ver com palavras e com aquilo que elas significam.

Hoje, no café da manhã, eu comi bolo. E ontem eu aprendi que existe uma expressão em português: Quando você vai se encontrar com uma pessoa e ela não comparece, diz-se que você "ganhou um bolo". Imaginem que daqui a 500 anos, um arqueólogo encontre um diário de anotações de um brasileiro. Lá é dito: "Eu fui encontrar com Paulo e ganhei um bolo". O tradutor diria que eles comeram um bolo juntos! Esta é a armadilha das palavras, as quais têm um significado para uma época e cultura em particular. O mesmo se dá com alguns dos ensinamentos do Buddha.

Consideremos as Quatro Nobres Verdades, as quais estão no centro do ensinamento do Buddha. A tradução usual das Quatro Nobres Verdades é: "A vida é sofrimento; a causa do sofrimento é o desejo; a cessação do sofrimento é se ver livre do desejo; o modo de fazê-lo é o Caminho Óctuplo".

Isto está correto? De modo algum! Isto não é o que o Buddha falou. Este é o problema! Vamos começar com a Primeira Nobre Verdade, que é sempre traduzida como "A vida é sofrimento". Mas que coisa horrível! Veja a vida! É uma força excitante e de grande diversidade, de inacreditável deleite. Por que, então, é traduzido como a vida é sofrimento?

Vamos examinar a língua em que o Buddha falava. O Buddha disse, de fato, que a vida é dukkha. Esta palavra sempre é traduzida como sofrimento, mas isso não é de modo algum o que significa. A raiz de dukkha é duk, e significa "eixo". Veja a época do Buddha: A forma mais complexa de transporte era uma carroça; era uma carroça de madeira, como é na Índia ainda hoje, com um eixo de madeira unindo duas rodas também de madeira, e puxada por búfalos.

A palavra dukkha significava o eixo que está fora do prumo, que está fora de alinhamento. Imaginem o sofrimento de uma pessoa sentada nessa carroça, a força que os búfalos devem fazer e, ao invés da carroça seguir suavemente, ela está fora do eixo, desalinhada.

Então, Buddha fala sobre a vida - a vida de todos nós - usando o exemplo da carroça que tem seu eixo fora de alinhamento. Ele diz que nossas vidas estão fora de equilíbrio. E é esse desequilíbrio que leva ao sofrimento. Ele nunca disse que a vida é sofrimento. Este é um ponto muito importante. Nossas vidas estão fora de equilíbrio, ou, como os chineses falariam, não está fluindo junto com o Tao. Ambas as expressões significam a mesma coisa. Esta é a Primeira Nobre Verdade.

A Segunda Nobre Verdade se refere à razão da vida ser assim, e isso é geralmente traduzido como desejo. Mas nós teríamos uma vida muito estranha se não tivéssemos desejos. Não é o que o Buddha falou. A palavra que o Buddha usou foi trishna e significa 'sede'. Nas palavras do próprio Buddha isso foi descrito: "É como um homem vagando no deserto por muitos dias, sedento por água". Isso também é a sede do 'eu quero' e do 'eu não quero', e é por isto que todos nós sofremos.

O que é este 'eu quero' e 'eu não quero'? O que isso indica? Significa que não estamos satisfeitos com este momento, 'agora'. Porque se estivéssemos 'aqui' (Rodney bate no chão), não haveria 'querer' nem 'não querer'. Simplesmente haveria este momento, agora. O Buddha, utilizando-se deste exemplo, estava dizendo: "Esteja com este momento". O momento em que você quer ou não quer é o momento em que você deixa o agora, o momento presente, e aí, então, isso leva ao sofrimento.

Então, esse desequilíbrio que temos faz com que nunca estejamos no momento e, não estando no momento, isso leva ao sofrimento. É muito simples. Agora você pode examinar a sua própria vida a partir dessas palavras.

Mas o Buddha não parou por aí. Ele nos deu uma cura para este 'não estar no momento', este sofrimento. Esta cura é a Terceira Nobre Verdade, que é a verdade mais mal entendida de todas.

Ele fala do Nirvana ou Nibbana, que é uma palavra que é usada em todas as línguas nos dias de hoje, mas ninguém sabe o que significa. A palavra é muito simples. Significa expirar, apagar - como apagar uma vela. Muito simples! O Buddha apenas usava palavras simples, mas mesmo assim elas foram totalmente mal compreendidas, porque geralmente ela é traduzida como extinção do desejo. Correto? Não significa de modo algum isto.

No tempo do Buddha, a palavra nirvana, apagar, significava simplesmente isto: apagar. Mas havia uma grande diferença. De acordo com a ciência e a filosofia do Vedanta, quando você apaga uma chama, como em uma vela ou em uma lâmpada de óleo, você diz que a chama ficou livre. Quando você acende uma vela, você captura a chama, como se a colocasse numa gaiola. Então, em 'nossa' idéia de apagar uma vela nós dizemos 'extinguir' ou 'matar'; mas, na época do Buddha, apagar uma chama significava libertá-la. Da mesma forma como seu "bolo"; coisas completamente diferentes!

Então, o Buddha nunca disse algo como matar os seus desejos; ele falava da libertação ou liberdade deste apego ao 'eu quero' ou 'eu não quero'. Quando você abandona isso, então a sua vida entra num equilíbrio. Aí, então, você está completamente livre. Este é um ensinamento maravilhoso, porque ele é prático e você pode vê-lo em sua própria vida.

Se você sempre está no momento, você não pode sofrer, você está livre para ir para o próximo momento, livre para seguir para o próximo momento, sempre totalmente livre, sem estar preso no 'eu quero' ou 'eu não quero'. E é isso que o Buddha ensinava. Ele, então, nos deu o Caminho Óctuplo como uma forma de alcançar isso. Da mesma forma como as pessoas dizem hoje: "Como eu posso levar esta prática para a minha vida?", o Buddha nos deu a resposta. É o Caminho Óctuplo: A Compreensão Correta, o Pensamento Correto, a Linguagem Correta, a Ação Correta, os Meios de Vida Correto, o Esforço Correto, a Vigilância Correta, a Concentração Correta. Mas cuidado com a palavra 'correto', porque 'correto' implica que há um 'errado', e o Buddha não usava a palavra desta forma; o Buddha não falava desde um ponto de vista dualista.
Uma palavra melhor do que 'correto' é 'apropriado'. Linguagem Apropriada, Pensamento Apropriado, Compreensão Apropriada, etc. Vamos, então, apenas examinar um desses fatores, utilizando a palavra 'apropriada' ao invés de 'correta'. Linguagem Apropriada significa não falar mal de uma outra pessoa, não utilizar palavras para se mostrar, não utilizar palavras para sugerir algo que não é correto. Há muitos exemplos em suas vidas. Simplesmente falar demais é uma linguagem inapropriada. Podemos falar que ler demais também é uma linguagem inapropriada, ou ver televisão demais também seria linguagem inapropriada.

O que o Buddha quis fazer ao ensinar sobre essas várias ações não apropriadas foi nos dar um instrumento para examinarmos as nossas próprias vidas. O que significa 'apropriado' em termos de nossa vida? Significa Linguagem, Ação e Pensamento que nos ajudam a nos livrarmos de nosso desequilíbrio, de nosso dukkha.

O Caminho Óctuplo usado apropriadamente irá nos ajudar a colocar a nossa vida em equilíbrio. Isso não é algum ensinamento esotérico, nem aquilo que freqüentemente acontece no ensinamento mal compreendido sobre o que o Buddha ensinou.

As Quatro Nobres Verdades são muito práticas, baseadas na vida real. É um ensinamento sobre como viver a sua vida. E posso assegurar a vocês, que se lerem qualquer ensinamento do Buddha que parecer muito distante de sua vida agora, isso é uma tradução ruim. Porque o Buddha era um homem prático e inteligente, que olhava profundamente para o que fazemos conosco. A partir daí, ele nos ofereceu um modo de sair disso. Espero que isso que falei sobre as Quatro Nobres Verdades tenha lançado um pouco de luz. Muito obrigado!

Mestre Sibamba

" Ô Sibamba, Ô Sibamba,
que vida é essa tua?
Vive tomando cachaça,
e caindo no meio da rua!"

Não sei em que momento caí de cabeça no mundo dos Orixás ou como minha família inteira migrou das missas católicas de Domingo para os terreiros de Umbanda, mas tenho uma dívida de respeito e confiança com um Mestre Espiritual cujo nome é Sibamba. Antes mesmo que eu soubesse a diferença entre quem está na carne e quem só está em espírito, eu conheci essa entidade que a minha Tia Irismar incorporava no terreiro que fazíamos parte.

Havia qualquer coisa em seu olhar que dizia para o menino que eu era: " moleque, você não tem a menor idéia do que te espera!"

****

Para quem deseja pesquisar mais aprofundamente a linha dos mestres da Umbanda, há, infelizmente, poucos registros, textos e fontes que nos informem um pouco mais sobre as origens e os mistérios envolvendo essas entidades tão iluminadas pela graça da caridade. Pesquisando sobre o Mestre Sibamba, deparei-me com raros registros, alguma coisa escrita, impressa e on line sobre as linhas dos baianos e boiadeiros, e muita desinformação também, especialmente a respeito do Mestre Zé Pilintra, que é, das linhas dos mestres, a entidade mais conhecida no Brasil inteiro.

O que causa tanta incompreensão nessa linha específica é a possibilidade desses mestres incorporarem em qualquer banda, gira, inclusive na vibração das linhas da esquerda dos exus. Não sendo eles nem caboclos, nem exus, essa linha não se adequa a organização dos terreiros e de suas nomenclaturas. O que se sabe, portanto, é que tanto Zé Pilintra quanto o Mestre Sibamba, são mestres da Jurema e vibram nas emanações de Aruanda, esses lugares míticos que fazem parte da mitologia da espiritualidade da Umbanda e de outros tantos ritos afrobrasileiros.

"Quem já chegou lá da Jurema foi Sibamba,
Quem já chegou lá da Jurema foi Sibamba,

São Sebastião levantou bandeira branca,,
É na paz, é na paz do Senhor,

Alegria do Reino Sibamba chegou"

Se eu era pequeno demais para compreender que havia um mestre do astral à minha frente; eu já era até bem entendido da vida, quando abandonei os ritos da Umbanda e neguei qualquer relação com Sibamba. Adolescente rebelde, não queria me vincular a nada que fosse diferente do que acreditava a massa; porém, a espiritualidade latente em mim, sempre me perseguia e não importava onde eu ia, acabava dando de cara com um terreiro, com um rito ou ouvindo algum chamado para retornar para casa.

Ignorei o quanto pude na vigília, mas o mesmo não ocorria quando eu dormia, pois eu sentia que alguém me visitava em sonhos, e ria, como ria...

****

Contam as lendas e os casos que a história do Mestre Sibamba remete a época do Brasil Império, provavelmente em algum tempo do século XIX, onde o Mestre veio de Portugal para o Ceará, ainda criança. Ao chegar aqui no Brasil, durante um período de longa seca, ele perdeu a sua mãe, e acabou sendo criado pelo pai, que era dono de um bar.

Alcoólatra, o pai do menino, descontava a frustração no garoto, e na intenção de matá-lo, diariamente embriagava Sibamba; porém ao invés de morrer, Sibamba se adaptou ao álcool e, acabou se tornando um bebedor de primeira. Já Adulto, o pai faleceu, e ele assumiu o bar.

Por costume, Sibamba bebia muito, mas nesta altura já era um grande catimbozeiro, culto fortemente enraizado no Nordeste, trazido pelos negros e agregados aos cultos indígenas e outros costumes, da miscigenação cultural do nosso país. Ele sabia usar as ervas para banhos de cura, fazia partos, benzia as crianças contra mal olhados e fazia outras tantas curas; e foi, pouco a pouco, tornando-se o maior juremeiro do Ceará.

Com toda a fama que fizera, despertou em alguns, inveja e despeito; e não demorou muito para que Sibamba caísse numa cilada armada por esses zombeteiros. Como ele gostava de beber, nem desconfiou que aquela festa em sua homenagem num cabaré era uma armação, e o embebedaram a noite inteira até ele cair. Forte e destemido, Sibamba resistiu o quanto pôde, mas bastou o primeiro tombo, para que o atacassem; e conta a voz do povo, que foi preciso muitos homens para lhe tirar a vida.

"É com seu garrafão de cana,
tomba aqui, tomba acolá
'Seu' Sibamba é beberrão
mas sabe trabalhar..."

Demorou um certo tempo até que eu pudesse compreender que eu não tinha escolha: a espiritualidade era parte de mim, assim como era a escrita. Por mais que eu tentasse, eu jamais conseguiria "desacreditar" por muito tempo. Daí, trilhei vários caminhos espirituais, fiz pergrinações, caminhadas, viagens pelos mais diversos planos em busca de respostas, querendo provas, até perceber que no plano da matéria nunca teremos certeza absoluta que há algo além, pois assim manda a Lei Divina que rege os planos; o que é segredo, continuará segredo, não importa a peleja do homem ou suas teorias; e olha que eu tentei, descrever, poetizar, revelar, mas toda vez que eu chegava perto, eu me atrapalhava, perdia a fala, sumiam as letras. Entendi, por fim, que se não era possível ter a certeza que eu buscava, era preciso ter fé, afinal, eu já tinha visto e sentido coisas demais para duvidar da existência de algo a mais.

****

Dentro da evolução espiritual dos reinos espirituais, e na linha da Jurema Sagrada, Sibamba foi designado pelos mentores superiores para trabalhar na linha dos Mestres, sendo considerado naquela epóca e até hoje, uma das maiores e mais respeitadas entidades espirituais.

Atuando em vários terreiros no Brasil e em outros países, onde a linha da Jurema é evocada, o Mestre Sibamba passou a ser conhecido por sua pisada forte e firme, sua risada estridente e gostosa, seu gosto pela cachaça, pelo vinho, o mesmo álcool que o matou, como se o uso da bebida fosse mesmo uma forma de nos mostrar que ele dominou o elemento nocivo do seu passado e o transformou num símbolo de cura durante os ritos feitos sob a sua orientação.

"Meu mestre me chamou
Eu venho trabalhar
é com seu garrafão de cana
Tomba aqui tomba acolá
Seu Sibamba é beberrão
mas sabe trabalhar
Na direita ele é bonzinho
e na esquerda é de amargar..."

Depois de conhecer tantos mestres ascensionados, deuses hindús, guardiões celtas, amparadores orientais e ocidentais dos mais diversos e ter trabalhado nas linhas da Cabala, dos mantras, das meditações transcendentais; parecia um retrocesso espiritual, voltar para a Umbanda, que com o passar do tempo, passou a significar para mim, um caminho espiritual atrazado e de fundo de quintal, onde não havia uma preocupação de formar estudantes espirituais e sim apenas "cavalos" de entidades do astral.

Durante quase 10 anos, tentei fugir da Umbanda e do estudo sobre os Orixás como um filho que se afasta dos pais por vergonha da família. Até que a Umbanda me pegou. Fui participar de um ritual do Santo Daime, e acabei numa gira de Umbanda.

De lá para cá, mergulhei num resgate do meu passado e das minhas origens e percebi, que sou mesmo fundo de quintal, mas com muito orgulho; eu sou terra, sou esse barro que forma o Brasil e criou essa linha tão temida pelos ignorantes das maravilhas que ocorrem dentro dessa doutrina.

Sim, canto mantras, grito pelos anjos, evoco os mestres ascensionados e bato tambor celta; mas também canto meus pontos aos Orixás, bato a cabeça no Congá de Oxossi e, para a minha surpresa, o destino, no último Domingo, reservou-me um encontro com um Mestre que me acompanha desde que eu era menino, e quando esse metre me viu, ele riu, bateu o pé firmemente no chão e falou:

" moleque, eu não te falei que você não tinha a menor idéia do que te esperava!"


"Oh Sibamba do auê
Oh Sibamba do auá
Se vc não me queria
pra que mandou me chamar?

Eu vou embora pra Bahia
VÊ as bainas de la
na Bahia tem macumba
e aqui so tem patuá..."

segunda-feira, abril 26, 2010

Passos

Se dar conta
Que você deu um passo para trás,
Pode fazer
Com que você dê um passo
Bem maior
Para a frente;
Veja!
Se você for capaz...

Faça o que você AMA! Os 7 passos para começar

Faz apenas o que amas e serás feliz. Aquele que faz o que ama, está benditamente condenado ao sucesso, que chegará quando for a hora, porque o que deve ser será, e chegará de forma natural.

Não faças coisa alguma por obrigação ou por compromisso, apenas por amor. Então terás plenitude, e nessa plenitude tudo é possível sem esforço, porque és movido pela força natural da vida.

7 passos para você fazer o que ama (o mundo precisa disso)

As grandes mudanças ocorrem quando as pessoas estão profundamente apaixonadas, e tem um grande amor pelo que fazem.
Se deseja fazer alguma diferença no mundo, a única e mais importante coisa que você pode fazer é escolher conscientemente e deliberadamente trabalhar naquilo que você é apaixonado.
Nenhuma outra escolha terá um maior impacto no planeta, ou em sua vida.

Se o seu trabalho é chato, você provavelmente não causará muito impacto. Você pode até oferecer algum valor para as pessoas. Suficiente para pagar seu aluguel, suficiente para sobreviver. Mas não provocaria mudanças. E certamente não inspiraria outras pessoas. Se o seu trabalho é chato, as chances são de você fazer só o suficiente para não ser demitido.
Mas se o seu trabalho instiga você, o mantém motivado até tarde da noite, e te completa, você fará mais. Você se entregará completamente. Investirá todo seu tempo nisso, com mais energia, mais paixão. Porque vale a pena. É gratificante.

As grandes mudanças ocorrem quando as pessoas estão profundamente apaixonadas, e tem um grande amor pelo que fazem.


No fim do dia pensará: “Meu tempo foi bem gasto hoje.”

Portanto, a verdadeira questão não é se deve ou não fazer o trabalho chato ou passional. A questão é como começar.

Os 7 passos para começar a ser pago para fazer o que ama:

1. Encontre sua paixão
Isso é sobre o seu grande amor, e que o faz vivo. Para começar, pergunte: “Pelo que eu sou louco?” “Sobre o que eu poderia falar por horas?” e “O que eu faria de graça?

2. Encontre seus pontos fortes
O que estamos procurando são coisas em que você é naturalmente bom, e que te acompanham desde o nascimento. Isto é sobre a contribuição dos seus dons para o mundo. Pra começar, procure seus amigos, família ou colegas e pergunte a eles três coisas em que você é naturalmente talentoso.

3. Encontre seu valor
Encontrar a intersecção entre o que você é bom e o que as pessoas estão dispostas a pagar a você é o que fará toda a diferença. Se você não encontrar uma forma de ser pago para fazer o que ama, os próximos passos não serão muito úteis. Então vale a pena gastar algum tempo para descobrir isso. Pra começar, pense sobre os benefícios que você dará as pessoas contribuindo com seu valor. Procure por necessidades reais das pessoas, e que tenham relação com o valor que você está oferecendo.

4. Comprometa-se
Eu acredito, que mais do que qualquer outra razão, as pessoas falham no caminho do sucesso quando não se comprometem. Pensar “eu não sei” ou “talvez um dia” não levarão você ao ponto de fazer o que ama para viver. É preciso um forte comprometimento para fazer essa mudança em si mesmo. Em vez de pensar “Eu não sei”, pense “Eu vou descobrir”. Lembre-se, grandes jornadas começam com o primeiro passo.

5. Permita que aconteça
Por mais que você queira fazer essa mudança em si mesmo, pode ser difícil abandonar velhos padrões de pensamento e comportamento. Geralmente pensamos que “trabalho não deve ser divertido” ou que “devemos suportá-lo”. Derrubar estas crenças pode ser difícil, mas avançar em uma nova direção com certeza vale a pena.

6. O que você abandonará?
Você pode estar pensando que não tem tempo para encarar uma nova empreitada, e você está certo. Você não terá tempo até que você arrume tempo. Há muitas coisas que colocamos em nossas agendas que achamos que temos que fazer. Mas na verdade, nosso mundo não desmoronaria se escolhessemos fazer outra coisa. Faça uma lista de todas as atividades que consomem seu tempo e que serão abandonadas para que você tenha o tempo suficiente para a nova jornada.

7. Você dirá Sim a si mesmo?
Você pode querer se tornar um escritor, dentista, conselheiro, pintor ou palestrante. Se você sabe que é isso que pretende fazer e que dará significado a sua vida, então permita ser assim chamado, mesmo não estando ainda estabelecido. Mesmo se você não faça disso uma profissão em tempo integral. Abrace sua paixão, completamente e sem reservas.

Embora haja mais em sua jornada do que esses sete passos, este será um grande começo. Clareza e compromisso são os maiores passos, o resto é fácil. Um passo de cada vez.
Você chegará lá. Ninguém poderá impedi-lo se você realmente desejar algo.
E lembre-se, o mundo precisa que você faça o que ama. Nada mais pode gerar mudança, ou ter um impacto maior.

Dê-se permissão. Precisamos de seus dons.


(Este artigo foi publicado no Blog Zumk de Robson Zumkeller e posteriormente publicado no Blog de meus amigos do Pto de Contato. Este artigo foi traduzido e adaptado do post The World Needs You to Do What You Love de Jonathan Mead. Fonte: http://www.superempreendedores.com/empreendedorismo/7-passos-para-voce-fazer-o-que-ama-o-mundo-precisa-disso )

sábado, abril 24, 2010

ALGO MAIS... UMA LUZ, UM AMOR – III*

(Toques Espirituais Para Corações Que Cantam)

Eu fui lá em cima e peguei uma estrelinha.
Carreguei-a em meu colo, como um bebê-luz.
E ela me perguntou: “Para onde você me leva?”
E eu lhe disse: “Para o céu do meu coração.”
Então, ela riu e me pediu uma canção de ninar.
E eu cantei para ela, como cantam as estrelas.
E, assim, viemos juntos do céu, num raio de luz.
E, agora, ela está dormindo dentro de mim.
Sim, ela entrou em meu coração... E ambos se fundiram.
Ah, eu tenho uma estrela-bebê em meu peito.
E um Grande Amor brilhando tanto...

P.S.:
Por amor, semeamos estrelas.
E elas vão por aí... Brilhando e rindo.
Às vezes, elas entram em outros corações.
E pedem canções de ninar, em espírito.
E quem canta para elas, sente algo mais.
Sim, algo mais... Um Amor. Uma Luz.
Ah, isso não se explica, só se sente...

(Dedicado a Fernando Pessoa**, e a todas as pessoas que carregam estrelinhas em seus corações, sem jamais deixarem de sonhar e cantar o Amor e a Luz.)

- Wagner Borges – sujeito com qualidades e defeitos, espiritualista, 48 anos de “encadernação”, e cada vez mais se sentindo criança diante do infinito...***
São Paulo, 30 de março de 2010.

- Notas:
* As duas partes anteriores desse texto estão postadas no site do IPPB – www.ippb.org.br – e podem ser acessadas nos seguintes endereços específicos:
Parte I – http://www.ippb.org.br/modules.php?op=modload&name=News&file=article&sid=6898
Parte II - http://www.ippb.org.br/modules.php?op=modload&name=News&file=article&sid=6905
** Fernando Pessoa (1888-1935) - simplesmente, ele e Camões são os maiores poetas nascidos nas terras de Portugal. E há um texto em que falo de um encontro espiritual com ele, também postado no site do IPPB, no seguinte endereço específico:
http://www.ippb.org.br/modules.php?op=modload&name=News&file=article&sid=3175
*** Enquanto eu escrevia essas linhas, rolava aqui no som o CD “October Road”, do bardo americano James Taylor. Trata-se de um trabalho lançado no ano de 2002. Na verdade, é um disco regular e nem se compara aos seus grandes trabalhos das décadas de 1970/1980. No entanto, eu gosto muito de duas músicas desse CD: “Carry Me On My Way” e “Caroline I See You” (respectivamente, faixas 9 e 10).
E eu fiquei ouvindo essas duas canções, simples e singelas, e repetindo-as várias vezes, enquanto escrevia. Então, elas são a trilha sonora desses escritos.
(E que o Grande Arquiteto Do Universo abençoe ao bom e velho James Taylor por me embalar em suas canções há tantos anos.)

********

QUEM SABE...?*

1. Quem é velho?
R. Aquele que não sabe rir de si mesmo.

2. Quem é jovem?
R. Aquele que se renova a cada instante e olha o infinito com a curiosidade e a alegria da criança.

3. Quem é pobre?
R. Aquele que nunca fica contente.

4. Quem é sábio?
R. Aquele que sabe que é um eterno aprendiz do Todo.

5. Quem é tolo?
R. Aquele que se acha o máximo e menospreza os demais.

6. Quem é traidor de si mesmo?
R. Aquele que deixa as trevas rondarem o próprio coração.

7. Quem é forte?
R. Aquele que não renega a luz do próprio espírito, mesmo sob a forte pressão do ceticismo do mundo.

8. Quem é o grande guerreiro?
R. Aquele que vence a si mesmo.

9. Quem é o professor?
R. Aquele que também aprende enquanto ensina, e que se sente honrado por isso.

10. Quem é o músico real?
R. Aquele que escuta a canção da vida universal em seu próprio coração.

11. Quem é o Grande Amor?
R. O Todo. A Primeira Luz.

12. Quem é o grande ladrão?
R. Aquele que rouba a luz dos outros e os leva para o mau caminho.

13. Quem é o grande curador?
R. O Amor.

14. Quem é o bom comunicador?
R. Aquele que age de acordo com o que fala.

15. Quem é o bom pintor?
R. Aquele que pinta as telas da vida com atitudes sadias.

16. Quem é o grande escultor?
R. Aquele que esculpe o próprio caráter com o cinzel da sabedoria.

17. Quem é o iniciado espiritual?
R. Aquele que vê o Todo em tudo.

18. Quem é o guia do caminho?
R. O discernimento.

19. Quem anda com os olhos brilhando e com os seres de luz ao seu lado?
R. Aquele que perdoa realmente.

20. Quem é o mestre de todos?
R. O Todo. O Primeiro Amor.

21. Quem se quebra facilmente?
R. Aquele que é rígido demais nas posturas e que tem dificuldade em compreender os outros.

22. Quem é o fanático?
R. Aquele que não consegue ver o divino nos outros.

23. Quem ama realmente?
R. Aquele que sabe que o Amor não é uma pessoa, mas um estado de consciência.

24. Quem é feliz simplesmente?
R. Aquele que sabe que o Todo está em tudo.

P.S.:
“O que está no alto,
É como o que está embaixo.
E o que está embaixo,
É como o que está no alto...
No milagre de uma só coisa.
E tudo isso é dentro do coração do homem.
Ah, feliz é quem agradece ao Todo, por tudo.
E sábio é quem ri de si mesmo...

Paz e Luz.

- Wagner Borges –
São Paulo, 09 de março de 2010.

- Notas:
* Esses escritos foram feitos de improviso, dentro dos estúdios da Rádio Mundial de São Paulo – 95.7 FM -, enquanto eu aguardava o horário do programa “Viagem Espiritual”, que apresento todos os domingos, das 12h30 às 13h.
Obs.: Enquanto eu passava essas linhas a limpo, lembrei-me de um texto muito legal do grande pensador e escritor brasileiro Rubens Alves. Segue-se o mesmo na sequência.

*************


O FOGO QUE NOS TRANSFORMA

- Por Rubem Alves -

Como o milho duro, que vira pipoca macia, só mudamos para melhor quando passamos pelo fogo: as provações da vida.
A transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação por que devem passar os homens, para que eles venham a ser o que devem ser.
O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, mas que, pelo poder do fogo, podemos, repentinamente, voltar a ser crianças!
Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. O milho de pipoca que não passa pelo fogo, continua a ser milho de pipoca. Assim acontece com a gente.
As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira.
O fogo é quando a vida nos lança em uma situação que nunca imaginamos. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre.
Pode ser fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão - sofrimentos cujas causas ignoramos.
Há sempre o recurso dos remédios que apagam o fogo. Sem fogo, o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação. Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro, ficando cada vez mais quente, pense que a sua hora chegou: "vou morrer".
De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Mas subitamente, a transformação acontece: pum! - e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado.
Mas existem pessoas PIRUÁS que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.
Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida, perdê-la-á."
A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira.
Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém.
Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás, que não servem para nada. Seu destino é o lixo.
Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

- Nota de Wagner Borges: Rubem Alves (1933-) - é escritor, pedagogo, teólogo e psicanalista. Para mais detalhes sobre o seu trabalho e seus diversos textos e livros inspirados, de alta reflexão consciencial, ver o seu site: www.rubemalves.com.br

Vira-latas

Por Fábio Santos
Publicado no jornal Destak

A cena se passa num ônibus em São Paulo. Com esforço, ajudada por alguns passageiros, a mulher consegue entrar no veículo com uma enorme e, pelo visto, pesada mala. Ouço um "obrigada" com sotaque estrangeiro. A mulher se dirige ao cobrador dizendo "porrr favorrrr" e algumas palavras em inglês.

O sujeito abana as mãos. Ela gesticula, aponta para a mala e para a saída. Nada. Ofereço-me para ajudá-la. "Do you speak English?", pergunta. "Yes". Ela me pede que explique o que me parecia óbvio: que pagaria a passagem, mas não passaria pela catraca. "Obrigada", diz ela de novo.

Ela se vai e o cobrador puxa papo. "Ainda bem que o senhor estava aí", diz. Sorrio e continuo minha leitura. "Esse pessoal vem lá de fora e não aprende a nossa língua", emenda ele, com desagrado. "Talvez ela esteja aqui para aprendê-la", respondo, querendo voltar ao meu livro.

O cobrador não se dá por convencido e continua: "Nós não somos mais coitadinhos, o Brasil agora é importante. Eles deviam aprender português", diz, para emendar um discurso sobre a nova posição do país no mundo. Minha parada chega e o sujeito ainda segue dizendo que agora ninguém mais deve ter "complexo de vira-lata" diante de gringos.

Fui trabalhar pensando no episódio. Pareceu-me apenas mais um caso de mau humor, comum em quem têm de trabalhar longas horas num trânsito infernal, lidando com um público nem sempre gentil. Depois, pensei: "Mas por que exigir que estrangeiros tenham domínio da língua de um determinado lugar para que eles possam visitá-los? Por que não saber português seria sinal de desprezo com o Brasil?" Não sei, mas acho que pensar assim é um sinal do tal "complexo de vira-lata" rejeitado pelo meu interlocutor.

Sim, o Brasil tem ganhado relevância no cenário internacional. Mas outros países, como Índia e África do Sul, também. Isso tem mais a ver com uma transformação do nosso país ou do cenário global? Pelo que sei, o Brasil continua sendo um lugar em que, num único dia, mais de 200 pessoas morrem num soterramento porque suas casas estavam construídas sobre um aterro sanitário ou em que o sistema de saneamento básico é comparável, segundo a ONU, ao dos territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia. E mesmo que o Brasil venha a ser o que ainda não é não creio que o português vá um dia se tornar uma língua global. Nem é preciso que seja.

(Fábio Santos*
Diretor editorial (fsantos@destakjornal.com.br))

sexta-feira, abril 23, 2010

O Acidente, O Anjo e Jorge

Eu que não tinha pensamento para Jorge; nunca brinquei de cavaleiro; da lua, apenas extraia o brilho e as poesias; da Umbanda, cantava só para Oxossi; de repente, encontrei no meio da rua de uma meditação, aquele caboclo com asas de anjo e armadura de guerreiro.

Pensei que era apenas uma ilusão, saí pelos cantos, achando que não era comigo; mas no minuto seguinte, em que lhe dei as costas, ouvi o seu chamado: acorda!

Abri os olhos bem a tempo de sentir que o motorista perdia a direção; sem cinto no carro, segurei-me no que pude antes da colisão. Batemos!



Com o impacto, machuquei a minha cabeça e senti o câmbio atingir a minha barriga; faltou-me ar, faltaria a vida, se eu não tivesse despertado antes do tempo da batida, antes de ver o outro carro avançando em direção ao nosso.

Com a dor, perdi a consciência por alguns segundos, e também a lembrança daquele cavaleiro me avisando e protegendo.

Eu tinha 10 anos, quando esse acidente ocorreu. E aos 36, lembrei numa meditação daquele encontro que tive quando criança e sorri, ao me dar conta, que aquele anjo que me guardava, ainda deve estar ao meu lado, e se eu me esforçar, consigo até falar com ele, basta dizer: Ogum Yê!!!

Canto pra Ogum (Part. Jorge Ben Jor)

Zeca Pagodinho
Composição: Claudemir / Marquinho PQD


Eu sou descendente zulu
Sou um soldado de ogum
Um devoto dessa imensa legião de Jorge
Eu sincretizado na fé
Sou carregado de axé
E protegido por um cavaleiro nobre

Sim vou na igreja festejar meu protetor
E agradecer por eu ser mais um vencedor
Nas lutas nas batalhas
Sim vou no terreiro pra bater o meu tambor
Bato cabeça firmo ponto sim senhor
Eu canto pra Ogum

Ogum

Ogum
Um guerreiro valente que cuida da gente que sofre demais

Ogum
Ele vem de aruanda ele vence demanda de gente que faz

Ogum
Cavaleiro do céu escudeiro fiel mensageiro da paz

Ogum
Ele nunca balança ele pega na lança ele mata o dragão

Ogum
É quem da confiança pra uma criança virar um leão

Ogum
É um mar de esperança que traz abonança pro meu coração

Ogum

Ooogum
(Jorge Ben Jor)

Deus adiante paz e guia
Encomendo-me a Deus e a virgem Maria minha mãe ..
Os doze apóstolos meus irmãos
Andarei neste dia nesta noite
Com meu corpo cercado vigiado e protegido
Pelas as armas de são Jorge
São Jorge sentou praça na cavalaria
Eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia
Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Para que meus inimigos tendo pés não me alcancem
Tendo mãos não me peguem não me toquem
Tendo olhos não me enxerguem
E nem em pensamento eles possam ter para me fazerem mal
Armas de fogo o meu corpo não alcançará
Facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar
Cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar
Pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Jorge é da Capadócia.

Salve Jorge!

Corintiano, graças a Deus ou "Como o Corinthians salvou São Jorge!"

Por Orlando Fedeli

Esperando um amigo no aeroporto, passei por uma livraria. Livraria de aeroporto, na qual os livros em voga são vendidos ao público muito característico dos vôos internacionais.

Como ao final das feiras se vendem os restos dos frutos e verduras a baciadas, em livraria de aeroporto, na primeira banca, — e em ambiente muito higiênico, oposto ao dos finais de feiras — se expõem os últimos livros de sucesso num mundo intelectualmente decadente.

Os sucessos na decadência...

Os sucessos do momento. Que, depois de amanhã, estarão destinados ao esquecimento absoluto.

Os títulos eram fúteis. Por vezes lúbricos, com fotos escandalosas. Baboseiras esotéricas ou orientais, para madames donas de lulus, aficionadas de Paulo Coelho, comprarem, fingindo que crêem em alguma coisa.

Alguns títulos políticos. Livros sobre ídolos esportistas. E daí para baixo, numa mixórdia pseudo intelectual deprimente.

Não era fim de feira.

Era fim de cultura.

In Tertium Millenium inneuntem. No advento do terceiro milênio. Do Novo Advento. Na Civilização do Amor. Com Bin Laden, homens-bomba, e guerra do tráfico na favela do Esqueleto.

Em meio a essas obras primas da literatura atual, deparei-me com um livro de um Cardeal da Santa Romana Igreja, como se dizia solenemente, nos tempos de solenidade, quando havia Cardeais solenes.

O livro era a última produção do Núncio de Fidel Castro no Brasil, o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, graças a Deus, já aposentado, mas ainda produzindo obras de alto nível teológico. O título o fazia merecedor de destaque... em livraria de aeroporto: “CORINTIANO, GRAÇAS A DEUS” (Ed. Planeta, São Paulo, 2004).

Sem dúvida, “l´exemple est rare et digne de mémoire” (“O exemplo é raro e digno de memória) que um Cardeal da Santa Romana Igreja escreva um livro sobre futebol!

Pior ainda: sobre sua preferência clubística! E atribuindo essa qualidade de ser torcedor de um clube de futebol à graça de Deus!

E como o Cardeal Arns sempre fez “opção pelos humildes”, não faltam, no livro, fotos dele mesmo, até como seminarista, um rapazelho com cara de indigestão amarga e já revoltada, antes mesmo de passar pela iniciação marxista do seminário.

Claro que não comprei o livro. Já havia cometido, tempos atrás, o erro de gastar meus parcos reais do salário — muito irreal — de professor aposentado, adquirindo um livro de memórias desse Cardeal. A decepção intelectual foi tão grande que me prometi não jogar fora nunca mais nem um centavo sequer com obras dessa sumidade cardinalícia. (Sumidade aí não vem de sumo, mas do verbo sumir).

E folheando o livro, deparei-me, à página 99, como um trecho saboroso e inacreditável, indicativo da profundidade teológica com que Dom Paulo Evaristo Arns e Paulo VI tratavam altas questões da Igreja. Vejam se não é incrível. Mas, antes de dar a citação, convém recordar o que aconteceu há poucas décadas, que para os vertiginosos tempos em que sofremos, parece ser já a era arqueozóica.

Pois naquela era “arqueozóica”, Paulo VI resolveu dar um escândalo, para o miúdo povo de Deus, como se dizia na Idade Média: repentinamente cassou vários santos.

Como cassou santos?

Cassou, sim!

E por que?

Porque, segundo Paulo VI, não havia documentação histórica suficiente para embasar a existência desses santos cultuados, alguns deles, há quase dois mil anos pela Igreja Católica.

Deles, dizia-se que tinham existido. Dizia-se que haviam sido santos, mas...

Cadê a certidão de nascimento deles?

Não tinham certidão de nascimento. Não possuíam provas históricas de que tinham existido. Pouco adiantava que fizessem milagres estupendos—como era o caso de Santa Filomena — não tendo certidão de nascimento, nem atestado de óbito, Paulo VI punha em dúvida a sua historicidade.

Giovanni Battista Montini sabia bem da necessidade e da importância de ter documentos em ordem, ele que recebera o Doutorado em Direito Canônico em tempo recorde, por dispensa de muitas matérias. [“Monsenhor Pizzardo lhe tinha pedido que terminasse “no mais breve tempo” seus estudos de direito canônico (...) Graças a dispensas de exames em certas disciplinas, Dom Battista pode pois inscrever-se na Faculdade de Direito de Milão no dia 21 de novembro, e desde o dia 9 de Dezembro, pode obter um Doutorado em Direito Canônico (com 32 sobre 40 nos exames escritos e orais” ( Yves Chiron, Paulo VI, o Papa dilacerado, Ed. Perrin, Paris, 1993, p. 42)

Mas o diploma ele tinha.

Santa Filomena que fizesse o milagre de arranjar sua certidão de nascimento, caso contrário, ela seria cassada do rol dos santos. E como ela não arranjou nenhuma certidão de que havia existido, Paulo VI a cassou do rol dos santos junto com uma penca de outros.

Eram os tempos em que, no Brasil, se cassavam deputados. E contra essas cassações, o Núncio de Fidel no Brasil, Dom Evaristo Arns protestava com voz firme e melíflua: era absurdo, segundo ele, cassar deputados comunistóides, certo, mas eleitos pelo povo!

Contra as cassações de santos, porém, Dom Paulo não protestou. Ou melhor, recorreu apenas para que Paulo VI não cassasse São Jorge.

Dom Paulo Evaristo Arns conta, nesse livro fantástico por ser escrito por um Cardeal, que escreveu um bilhete a Paulo VI, rogando pela continuação do culto a São Jorge.

Eis o texto do bilhetinho teológico de um Cardeal a um Papa tratando do porquê se deveria continuar cultuando São Jorge.

Copio o texto do bilhetinho do livro de dom Arns:

“Santo Padre, nosso povo não está entendendo direito a questão. São Jorge é muito popular no Brasil. Sobretudo ante a imensa torcida do Corinthians, o clube de futebol mais popular de São Paulo”.

[Paulo VI] respondeu-me assim:

”Não podemos prejudicar nem a Inglaterra, nem o Corinthians” (Dom Paulo Evaristo Arns, CORINTIANO, GRAÇAS A DEUS, Ed Planeta, São Paulo, 2004, p. 99).

E, por causa do Corinthians, São Jorge não foi cassado!

Dessa vez, não foi São Jorge que salvou o Corinthians, mas foi o Coringão quem salvou São Jorge.

Milagres da nova Igreja, nascida do Vaticano II.

***

Se isso não tivesse sido publicado em livro, por uma Cardeal, dir-se–ia que era uma calúnia integrista para denegrir Paulo VI e Dom Evaristo. Não é calunia integrista. É relato modernista.

É com essa profundidade teológica—corintiana —que na Igreja nascida do Vaticano II se permite cultuar ou deixar de cultuar um santo nos altares.

Parece brincadeira!

Mas não é.

É tragédia.

Tragédia que, como diz o Catecismo — o velho Catecismo — tragédia que clama aos céus vingança.

Exsurge, Domine, Domine, quare obdormis?

Exsurge !

Itapetininga, 7 de Julho de 2004.
Orlando Fedeli



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Para citar este texto:
Orlando Fedeli - "Corintiano, graças a Deus ou "Como o Corinthians salvou São Jorge!""
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=cronicas&artigo=corintiano&lang=bra
Online, 23/04/2010 às 07:27h

Jô Soares entrevista Wilson Gonzaga da Costa 20/04/2010

Wilson Gonzaga da Costa - conhecedor e usuário há vinte e sete anos da ayahuasca, planta utilizada nos cultos do Santo Daime, participa do processo de legalização e legislação do uso da bebida. Detalhe: ele é médico psiquiatra e psicoterapeuta especializado em tratamento de dependência química. Wilson integra atualmente o Grupo Multidisciplinar de Trabalho do CONAD - Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas.




Wilson Roberto Gonzaga da Costa, conhecido como Wilson GonzaGa é médico psiquiatra, psicoterapeuta, conferencista e consultor de empresas na área de desenvolvimento humano há mais de 15 anos.

Tem como cliente empresas de grande porte como, por exemplo: Petrobras, Intel, Embratel, Elevadores Atlas Schindler entre outras. É também, coach executivo com formação e certificação pela Omnis Mind, credenciado pelo International Coach Federation - ICF em coaching integrado.

Como comunicador de radio conduz de forma criativa, alegre e bem humorada, um programa chamado RELIGARE – Religando você a você mesmo, na Rádio Mundial – FM 95,7 e AM 660, transmitido todas as segundas-feiras as 07h30min, programa este que em junho completará dois anos de vida.

Neste programa leve e descontraído, Dr. Wilson busca passar a toda a gama de ouvintes desta radio, um pouco de sua extensa experiência na área de desenvolvimento humano, transmitindo dicas e ensinamentos que visam promover o crescimento profissional e pessoal dos ouvintes, com uma visão que vai muito além do desgastado conceito de auto-ajuda.

Como escritor é autor do romance “A Senhora e o menino” publicado pela Editora Marco Zero e em andamento uma segunda obra intitulada “O executivo que executou sua execução”.

Colunista do Jornal Mogi News da cidade de Mogi das Cruzes, no caderno Indústria e Comércio, com artigos voltados ao mundo corporativo é também autor de diversos artigos e publicações na área de desenvolvimento humano.

Como presidente do Instituto Hermes de Transformação Humana, fundou e dirige a ABLUSA – Associação Beneficente Luz de Salomão, que tem por objetivo resgatar a dignidade de pessoas em situação de rua do centro da cidade de São Paulo e famílias em situação social critica. www.ablusa.org.br

É um profundo conhecedor da alma humana e dedica a sua vida a ajudar as pessoas a se realizarem tanto no campo profissional quanto no pessoal.



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