sexta-feira, agosto 31, 2012

A sexualidade segundo Reich



Por Célia Musili



Para Reich, a história de um indíviduo está no seu corpo 

A sexualidade segundo Reich


Fui a uma palestra do terapeuta Edson Galrão de França* e retomei o contato com as teorias de Wilhelm Reich (1897 – 1957), o precursor das pesquisas sobre a energia primordial a que ele chamou “orgone”, referência às palavras “orgasmo” e “organismo”. 

Reich foi discípulo de Freud e rompeu com o mestre no momento em que passou a estudar o corpo e a energia vital para compreender o comportamento e as neuroses humanas. Nos seus pacientes, ele observava não só a mente, mas os tipos físicos e aquilo que chamou “musculatura do caráter”. Em linhas gerais, percebeu, por exemplo, que os baixinhos e atarracados tinham queixas comuns (ai, como a vida é dura pra mim, carrego o mundo nas costas...”), enquanto os altos e magros pareciam viver no mundo da Lua. Embora sem sacramentar a linearidade, Reich percebeu que os tipos agiam em conformidade e a partir da observação e do estudo do corpo traçou teorias e escreveu  um livro importante: Análise do Caráter, obra fundamental para se compreender as neuroses a partir da rigidez estampada no corpo.

Reich foi mal compreendido em sua época, mas forma com Freud e Jung o tripé da modernidade para a investigação do corpo e da mente humanas, labirintos onde se assentam nossas experiências marcantes e, sobretudo, os traumas que vão determinar o nosso modo de ser e agir. A energia primordial estagnada, particularmente a energia orgástica ou sexual, propicia a formação de doenças como o câncer, as cardiopatias e os derrames cerebrais. Ao passo que uma vida livre com o restabelecimento das funções vitais e sem tensões e censuras opressivas, é o caminho para a saúde e, por decorrência, para a felicidade.

Atuando como médico e cientista no início do século 20, Reich já enfatizava a necessidade de mudanças para o restaurar a saúde sexual individual e coletiva.  O que não é pouco, uma pesquisa indica que 90% das pessoas têm neuroses. 
Em pleno século 21, quando o Papa Bento 16 ainda vem a público para dizer sandices que invadem o campo da sexualidade, considerando, por exemplo, o segundo casamento “uma praga”, os apelos de Reich são de uma modernidade  gritante. Entre outras coisas, ele preconizava:
1. Livre distribuição de anticoncepcionais para qualquer pessoa e educação intensiva para o controle da natalidade.
2. Completa abolição das proibições com relação ao aborto.
3. Abolição da distinção legal entre casados e não-casados; liberdade de divórcio.
4. Eliminação de doenças venéreas e prevenção de problemas sexuais através da educação sexual.
5. Treinamento de médicos, professores etc., em todas as questões relevantes da higiene sexual.
6. Tratamento, ao invés de punição, para agressões sexuais.  

Judeu, nascido no território hoje considerado a Ucrânia, Wilhelm Reich morreu em 1957 e foi um terapeuta revolucionário para sua época, tendo sido preso por razões políticas e científicas tanto na Alemanha, como também nos EUA, onde morreu numa penitenciária da Pensilvânia. Por conta de todas as perseguições e falsas interpretações de que foi vítima, ele determinou que algumas de suas teorias fossem lacradas e trazidas ao conhecimento público 50 anos após a sua morte. Pois a hora chegou e, este ano, a Fundação que leva seu nome , sediada nos EUA, deverá abrir a “Caixa de Pandora” onde há documentos que mostram as últimas descobertas de Reich no campo da investigação humana. Sua esperança era que os avanços científicos nas áreas da biologia, da física, da medicina, da sociologia, da psicologia , da antropologia e outras áreas  por onde  “circulou” traçando a interdisciplinaridade, pudessem amparar suas descobertas meio século depois. A comunidade científica internacional aguarda com ansiedade estas revelações.

A palestra de Edson Galrão de França, que veio a Londrina convidado pela psicóloga Adelaide Rotter, foi  sobre as terapias corporais, a sexualidade e, sobretudo , a afetividade, em contraponto às tensões, doenças e neuroses. Falando sobre Paixão, Desilusão e Amor, ele demonstrou o que os terapeutas ressaltam como um elemento insubstituível na cura física e psíquica: a afetividade. E incursionou pelo território do que chama de “afetividade madura” que compreende a relação do amor e do sexo sem barreiras, mas com responsabilidade. Edson Galrão de França é um dos nomes importantes da Psicologia no Brasil. Sua especialidade é a Psicologia Empresarial onde imprime a marca da humanização das relações como fator de “saúde coletiva”. Ele dá cursos de extensão em vários países como a Rússia, a Alemanha, a Tchecoslováquia e o Japão. E prepara os terapeutas chamados neo-reichianos – das novas correntes originadas pelas pesquisas de Reich – num espaço conhecido como Cochicho das Águas, em São Paulo. O endereço éwww.cochichodasaguas.com.br

Vale a pena passear por lá, mesmo que por pura curiosidade. Cursos e palestras têm programação anual. Quem participa diz que sai de bem com a vida. Não duvido. A liberdade de expressão emocional é um fator de cura. Saber colocar o dedo nas feridas e se dar o direito de fazer uma catarse equivale a um “descarrego” psíquico dos conflitos. Nada envenena mais o homem do que a opressão social , familiar e no ambiente de trabalho. Não somos máquinas apartadas da emoção. Ninguém pode renegar sentimentos, em função dos preconceitos ou do seu “papel social”, achando que, ainda assim, será saudável e, muito menos, feliz.




quinta-feira, agosto 30, 2012

Lutar com palavras


Ivan Angelo 



A cena do quadro é impressionante: um velho alquebrado, seminu, de longas barbas, ombros e pernas cobertos por um manto vermelho, coteja grossos livros com uma pena na mão; uma luz de fonte invisível o destaca da escuridão; um crânio sobre um livro faz contraponto com sua calva.
Assim Caravaggio (1571-1610) retratou um dos primeiros doutores da Igreja no extraordinário quadro “São Jerônimo que Escreve”, exposto no Masp junto com outras obras suas e de seus imitadores até 30 de setembro. (Por coincidência, Dia do Tradutor.) Ver essa mostra é obrigação cultural. O jovem e tormentoso artista italiano é apenas um dos maiores pintores de todos os séculos.
O quadro me remete ao retratado, ao seu trabalho de tradutor e ao dos tradutores em geral. Entre os séculos IV e V, o dálmata Jerônimo foi encarregado pelo papa Dâmaso de fazer uma tradução definitiva da “Bíblia” para o latim, a partir do hebraico, cotejando-a com as versões gregas e latinas existentes, que circulavam no Ocidente com textos conflitantes. A fim de aprimorar seu conhecimento do hebraico, mudou-se para a Palestina, onde viveu por 35 anos, quinze dos quais traduzindo a “Bíblia”. Quinze anos! Morreu em Belém. Passaram-se alguns séculos até sua versão receber o título oficial de Vulgata, a única autorizada em latim.
Traduzir tem algo de dramático. Momentos de indecisão, angústia e desafio. Você se divide entre os papéis de destruidor e de criador. Intenções, sons, matizes, características, cacoetes, jargões, metáforas e aliterações do texto se perderão, e outro tanto será criado, procurando compensar a perda. É como fazer uma feijoada na Holanda: vai faltar metáfora.
Não que as línguas em si não tenham recursos. Têm. Mas serão sempre substituições, só eventualmente equivalentes. Quando um autor escreve “lindo” em vez de “belo” ou de “bonito”, ele tem intenções que vão mais longe do que graduar a beleza que descreve. Há entre as palavras relações de som, de oposição, de acomodação, de fricção ou de regionalidade que é difícil traduzir. Isso quando se percebe a intenção. E quando não se percebe?
Se dentro de uma mesma língua as palavras adquirem um matiz diferente quando se associam a outras, que dirá na tumultuada viagem de uma língua para outra? Se as palavras não fossem assim tão ricas, um clássico moderno como o americano Raymond Carver não escreveria um conto com o nome de “What We Really Say When We Say Love”, o que dizemos na verdade quando dizemos amor. Palavras muitas vezes são armadilhas. Pasta, em português, pode ser macarrão, posto de ministro, bolsa, dentifrício, substância pastosa... Pena pode ser de ave, caneta, dó, sofrimento, condenação... Até mesmo corriqueiras expressões do dia a dia oferecem dificuldades, e nem sempre as soluções satisfazem.
Por exemplo, um personagem de nome Omar de Moura, que um bajulador chama de doutor Omar. Nos Estados Unidos esse “doutor Omar” vai virar “Mr. De Moura”. Ganha-se formalidade, perde-se a bajulação. Uma tradutora me perguntava: que que eu faço com “mãe de santo”, “quebrei a cara”, “dar tempo ao tempo”, “é o fim da picada”? Empacou no nome de uma antiga revista de cinema, “A Cena Muda”. Me perguntava: “A cena é silent ou changing, silenciosa ou que muda, que se move?”. Expliquei que era as duas coisas. E aí, para traduzir?
Imagino as inquietações do velho Jerônimo na Palestina. A sua responsabilidade de passar para os povos, com exatidão, a essência do livro: a poética e a fé, a história e os mitos, o mistério e a realidade, a parábola e o fato, a palavra e a substância, a evolução e a permanência. Santo homem.

quarta-feira, agosto 29, 2012

Paraíso na tua porta


Ah, se eu pudesse te mostrar as maravilhas de um certo lugar, tão próximo que muita gente não consegue enxergar.
Ah, se eu pudesse te fazer escutar as doces melodias que ecoam pelo ar, você entenderia que as  flores estão sempre a cantar, e que uma sinfonia é entoada pelas pétalas de uma rosa ao desabroxar.
Ah, quantas coisas bonitas que fazem sorrir e chorar de alegria e gratidão a cada despertar e as vezes passam desapercebidas na pressa em caminhar e na ilusão de querer chegar a nenhum lugar.

Ah, e ainda dizem que paraíso você só vai encotrar depois de desencarnar, mas o que estou aprendendo é que o paraíso está aqui mesmo, no aqui e agora para gente experimentar.

E esse paraíso é tão fácil de adentrar, de sentir, de olhar, de cheirar; tudo o que se precisa fazer para nele chegar é parar de procurar e perceber que está á sua porta, nas coisas simples do dia-a-dia a te esperar.

terça-feira, agosto 28, 2012

Encosto

Números que se repetem misteriosamente; coincidências que desafiam a lógica; a sincronicidade é uma realidade na vida de todos nós – e contam os místicos que quanto mais lúcidos estamos que somos borboletas sonhando que somos sábios chineses, mais percebemos esses acontecimentos se repetindo e aparentemente não há uma explicação. Por isso eu sabia que algo muito estranho estava ocorrendo comigo quando aquela mulher sentou no banco ao meu lado no trem.

Ela embarcou na Estação Santo Amaro e de todos os bancos vazios do vagão, ela decidiu sentar ao meu lado. Não a notei a principio, só percebi que quando ela sentou do meu lado, fui esmagadoramente imprensado contra a barra de ferro, próxima a porta. Não liguei, isso ocorre nas melhores linhas de transporte urbano público do mundo, mas quando ela começou a cochilar e se inclinar para o meu lado, comecei a evocar todos os orixás para que eu tivesse a paciência de Oxossi para não acordá-la com uma cotovelada. 


Contive a minha fúria, e apesar de continuar esmagado até a Estação Osasco, onde eu iria descer, nada de extraordinário parecia ter acontecido. Era ela me esmagando ou nadar contra um mar de sovacos até a estação final.



No dia seguinte, fiz o mesmo trajeto e em Santo Amaro, adivinhem quem entrou no vagão e sentou do meu lado. Minha tolerância foi zero, cada vez que ela se inclinava, levava uma cotovelada, mas ela parecia estar num estado alterado de consciência, pois quanto mais porrada eu dava, mas pesado ficava seu sono e consequentemente seu corpo me esmagando. Fiz minha prece a Maomé, bendito seja o seu nome, mas nem me virando para Meca, eu conseguia ficar confortável com aquela mulher em cima de mim.



No terceiro dia, mudei de vagão e quando as portas da Estação Santo Amaro se abriram e ela não entrou, respirei aliviado. Minha tática funcionara! Fechei os olhos e agradeci a São Judas, santo de todas as causas impossíveis pelo milagre; mas quando abri os olhos novamente, a vi correndo pela plataforma enquanto a campainha de fechar as portas tocava. Torci para que não desse tempo, fiz promessas a todos os santos milagreiros para que a porta fechasse, mas ela entrou no vagão e para o meu desespero, o único banco vazio estava...ao meu lado.



- Nãaaaaoooooo!!!!! – gritei, mas já era tarde. 



Em momentos como esse, sempre me pergunto: o que preciso aprender com isso?



Nada contra pessoas que estão um pouco acima do peso. Tenho vários amigos “gordinhos” e já sai com meninas fofinhas. Nada contra esses nossos trabalhadores que acordam antes do galo cantar, para as suas duplas ou triplas jornadas; mas entendam, era o terceiro dia em que isso acontecia comigo, naquela altura do campeonato, eu já estava xingando a mãe do Juiz e queria que o jogo acabasse.



Talvez eu tenha sido um travesseiro numa outra encarnação e tudo isso seja apenas o pagamento de uma ação equivocada do passado, mas karma à parte, como não tenho a escolha de usar o carro e sobreviver ao trânsito da hora do rush na marginal, vou continuar usando o trem para chegar até a escola que dou aulas de inglês em Osasco, mas decidi vou enfrentar o rio das axilas mal cheirosas de agora em diante e seja o que Krishna quiser. Lição? Acho que não aprendi nada com isso, mas quer saber, ela que faça de travesseiro, o ombro de outra pessoa.

segunda-feira, agosto 27, 2012

Segunda Vez



Tamiris ficou grávida pela segunda vez. 

“Na primeira foi descuido, agora foi o quê?”, cochicham na rua que ela mora. A mãe está inconformada – “A minha menina só tem 18 anos” – chora pelos quatro cantos. Lamentando pela menina que mal acabou o 2º grau e trocou o cursinho universitário pelo supletivo maternal.

Tamiris chorou dia e noite, noite e dia; o pequeno Gabriel de dois anos, não entendia porque a mãe estava tão triste e triste ficava. 

Todo mundo apontava o dedo, toda a família reclamava, comentava e julgava.

Esses dias o celular tocou, Tamiris pensou duas vezes antes de atender, tudo que menos precisava era outro amigo chorão, outro parente discriminando; mas era a sua irmã que morava além do mar:

“Oi maninha – disse a irmã – liguei para te parabenizar e dizer que você pode contar comigo para o que você precisar.”

Os parentes se revoltaram – “Não é hora de parabéns, é hora de enfiar juízo nessa menina” – diziam pelos cantos. A irmã, anos luz de discernimento e lucidez, sabia que cada um de nós tem a sua história pessoal e não precisamos de ninguém tornando ainda mais pesada a cruz que carregamos.

Tamiris está mais calma e já contou a Gabriel que em breve, ele ganhará um irmãozinho. A mãe ainda chora pelos cantos, mesmo sabendo que em um mundo onde há mais clinica de aborto do que padaria, é necessário ter muita coragem para ser mãe antes do tempo que os outros julgam ser o mais correto.


sexta-feira, agosto 24, 2012

Conhecimento, Dinheiro e Valor

Era uma vez um homem que vendia conhecimento. Tarefa árdua, num mercado de produtos caros, onde tudo tinha um custo, mas ele acreditava em seu produto, por isso atribuiu um valor ao seu estudo e concluiu que os anos de pesquisa e cursos, os custos de tantos livros comprados, revistas e jornais, que o levaram a se tornar um profissional especialista daquele assunto, mereciam ser oferecidas por um preço justo, e pôs seu conhecimento no mercado.

Foi difícil! Foi duro!

Quem comprava no mercado dizia que aquele tal de conhecimento, não valia o preço ofertado. Três moedas valiam um tomate, outras cinco um par de botões, mil compravam um carro; mas ora só, conhecimento deveria ser de graça e se recusavam a pagar por algo, que de acordo com eles, deveria ser livre de custos.

O que elas não sabiam era que o homem que vendia conhecimento até tentou trabalhar por caridade, mas tal atitude saiu muito caro, por ser livre de custo, ninguém dava ao conhecimento, o devido valor, e por acharem que tinham direito ao que recebiam, poucos se esforçavam para aprender e muitos deles, acabaram se afastando dos estudos.

Surpresa: bastou ele começar a cobrar uma moeda por lição, e quem não dava valor a educação que recebia sem pagar, passou a prestar atenção nas aulas, e o homem do conhecimento, então, compreendeu que o seu ensino tinha valor e precisava ser pago pelo aluno interessado, para que ele reconheça o esforço do professor para aprender a ensinar.

Foi difícil, e ainda é duro vender conhecimento naquele mercado de produtos caros, onde tudo tem um custo, e não deveria ser diferente com o conhecimento, que dos produtos, é o que tem mais valor.

terça-feira, agosto 21, 2012

A DISTÂNCIA ENTRE OS NOSSOS OLHOS



Sabe do que sinto falta?

Sinto falta da magia da primeira vez, quando as canções diziam coisas sobre você e mim. Havia aquele nervosismo de não saber se você vinha para ficar; o medo de você partir no ritmo do primeiro vento a soprar, desencadeado pelo som de alguma besteira falada - e acredite: os homens são especialistas em falar a coisa errada na hora equivocada - sim! Havia um controle bobo do que saia da boca e um descontrole tolo do meu corpo que ansiava por fazer parte do seu.

Daí, eu te pedi para casar comigo e você disse sim; e os sinos tocaram, os grãos de arroz voaram, e olha nós dois aqui, dez anos depois, unidos por um inocente juramento de ficarmos juntos para sempre.

Eu pensava sobre isso ontem à noite, quando você chegou, e eu liguei o rádio, na esperança de ouvir a nossa melodia, mas não havia canções sendo tocadas que falassem de nóis dois. Fiquei nervoso comigo mesmo, pois acreditando que a magia tinha se ido, desejei em silêncio que você também tivesse partido, sendo levada por um segundo vento; encantada por algum outro amor que também te pedisse para ficar - e como você voltou para casa, falei todas aquelas coisas erradas, na esperança que alguma briga trouxesse o romance de volta, ao invés, dessa idéia de divórcio.

Você não brigou comigo, nem eu quis prolongar o jogo infantil de te perder só para te ter novamente. Porém, quando fomos dormir, e você chateada, não me abraçou, nem disse "bom noite", percebi que casamento é um namoro diferente; o romance não está no bater de joelhos adolescente ou na mão suada inocente, e sim no deitar abraçadinho; no acordar bem juntinho; no bom dia com amor que a gente ouve ao sair de casa, e tem muito mais valor durante todo a jornada de sair e voltar para o lar do encontrar, nos esperando, aquele alguém que já não conseguimos imaginar a vida sem.

Se com o tempo, perdemos a espontaniedade e a surpresa de não saber o que vai acontecer; ganhamos o conforto de um amor maduro num compromisso sadio com alguém que está ao nosso lado para valer; e que insiste em ficar com a gente, mesmo tendo descoberto que por trás da máscara daquele príncipe encantado que a conquistou, há, muitas vezes, apenas um sapo assustado, inseguro do seu próprio amor.

Hoje quando você acordou e sorriu para mim, dei-me conta, enfim, que não é o tempo que aumenta a distância entre os nossos olhos; o que os separa é a tentativa inútil e juvenil de olhar para a árvore que vimos crescer e ficar com saudade de quando ela era apenas uma semente; e perder com isso, os melhores frutos dessa colheita que é uma vida em conjunto chamada casamento.

segunda-feira, agosto 20, 2012

Jureminha e a Tampa da Laranja

 Vocês pensavam que uma laranja é simplesmente uma laranja! Não é não. Laranjas do mesmo pé podem ser nobres ou plebéias. Depende do jeito como são comidas. A família de minha mãe chupava laranja de gomo, a família do meu pai chupava laranja de tampa. Você pode imaginar uma senhora da alta sociedade chupando laranja de tampa num jantar? Jamais! Chupar laranja de tampa é coisa de plebeus: a laranja enfiada entre os beiços e os dentes, comprimida pelas mãos para lhe extrair o caldo, as sementes enchendo a boca para serem cuspidas para o lado..." 
Rubem Alves


De acordo com Rubem Alves, minha princesinha Jureminha é uma plébeia, afinal, ela não consegue chupar laranja em gomos; para a Jureminha, laranja se chupa enfiando os beiços e os dentes na tampa.

Aliás, os modos vão por água à baixo com as crianças. 

Qualquer tentativa de ensinar as crianças a se comportarem ou a manter uma certa fineza acaba numa sensação de que estamos ensinando algo ridículo para os pequenos e se pensarmos mesmo a fundo, compreenderemos que toda essa norma culta de termos certos comportamento à mesa ou na sociedade é um tanto quando patética.

Agora, é claro que essa crônica não é um levante à revolução dos "plebeus" contra a conduta dos "nobres", uma vez que qualquer forma de expressão e cultura é válida, mas escrevo apenas como reflexão sobre  a maneira natural que as crianças reagem em relação ao mundo que estão descobrindo e em como, nós, os que chegaram antes, tentam ( muitas vezes, em vão - ainda bem) transformarem elas em clones dos nossos comportamentos.

" Laranjeira carregada de laranja boa,
assim é alguma pessoa"
Mestre Irineu

sexta-feira, agosto 17, 2012

Por Que a Galinha Cisca?

Eu não sei; mas aprendi com ela que ao chegar na porta de casa, é importante dá uma ciscadinha e deixar para trás tudo aquilo que eu estiver carregando e não quero que entre em minha casa.

quinta-feira, agosto 16, 2012

Sobre a Fome e as Verdades Servidas



A vida, meus irmãos e irmãs, é coisa a ser curtida, degustada e digerida até o momento em que, naturalmente, desperta na gente  essa fome do Divino. 

Essa fome será saciada com o alimento adequado ao nosso corpo espiritual, a tal da alma; daí, a virtude da paciência e a minha bronca com quem tenta enfiar na minha garganta, comida estranha, verdades religiosas a la foie gras. Pardon, monsieur, mas não posso lhe dar esse prazer às custas da minha dor.  

No seu restaurante das verdades, você diz que sua receita é exclusiva e única. Quanta bobagem, basta o sujeito ter uma melhor idade mental e um certo grau de discernimento para compreender que o seu pão francês não veio da França. 

E as respostas todas estão ai; monsieur, para quem quiser ver, para quem quiser ouvir. O que nos falta é prestar atenção; um certo brincar;  é juntar as peças, seguindo o fio de Ariadne que deveria nos guiar para fora do labirinto. Sem medo do escuro ou de bicho papão  inventado para nos colocar para dormir -  Tem gente com medo do Minotauro, sem saber que o monstro é reflexo de nós mesmos.

Sim, estou citando a mitologia grega, mas poderia estar mencionando a Bíblia, o Alcorão ou o Baghvda Gita, poderia usar qualquer estórinha da carochinha, até mesmo o Decreto de Bastilha, pois a mensagem se repete o tempo todo nas entrelinhas do nosso contexto, mas  a gente se confunde pensando que esses livros são mapas pro céu; quando na verdade, eles são apenas guias para a vida. 

E esses guias para a vida, por mais que usem uma linguagem coletiva, exigem uma leitura refinada, interpretativa, individual - isso quer dizer que o seus olhos não podem ler pelos meus e a sua conclusão é só sua; não adianta revesti-la de autoridade, pois cada pessoa é seu próprio autor, não importa a idade. 

Idade, monsieur, é coisa engraçada, pois não depende do corpo, depende da graça com que se vê a vida e as coisas nela embutida; por isso que o Rabi da Palestina dizia que o Reino do Céu era o reino das criancinhas, e ele dizia isso não pela inocência dos miúdos, mas porque sabia que era na
simplicidade dos pequenos que se escondia a chave para despertar em nós mesmos, uma visão madura de quem vê em tudo e em todos, o mistério revelado; e esse mistério se revela na forma da alegria e é com alegria, monsieur, e um certo toque de beleza e poesia, que o Divino se manifesta todo dia e toda hora para quem desperta e consegue tecer a sua própria experiência. 

terça-feira, agosto 14, 2012

Escolhemos Nascer?

- Onde e Como você quer nascer?

- Ué? Tenho escolha?

- Claro! Você é sempre quem escolhe. Inclusive é você quem escolhe colocar a culpa nos outros pelas suas escolhas!!!

A Terra é uma escola mágica, a natureza uma pedagoga bem criativa; portanto, o recebimento das suas pendências e conquistas vão ser sincronicamente e proporcionalmente bem ajustados a qualquer contexto que você nascer.

Essas pendências e conquistas são reflexos das suas escolhas, portanto você vai optar se deseja continuar com suas metas pendentes ou se vai apenas saborear as recompensas das suas vitórias.

Seja rico ou pobre, nasça no Brasil ou na Suíça, tudo se sintoniza com os seus propósitos e metas a serem alcançadas.

A liberdade não é optar pela luz ou pela escuridão, pelo prazer ou pela dor - isso é fácil e você pode experienciar isso em qualquer contexto - ser livre é escolher o que fazer com qualquer uma dessas escolhas.

segunda-feira, agosto 13, 2012

Jureminha e o irmãozinho

Algumas vezes, eu me pergunto se esse presente era o futuro que eu sonhara. A resposta vem no sorriso da minha filha Jureminha e nos primeiros chutes do meu filho Krishna David.

Construir e manter uma família é o maior desafio de um Peregrino da espiritualidade e a mais incrível viagem para esse Paraíba Vagamundo!

segunda-feira, agosto 06, 2012

Aviso

Caros leitores,

Obrigado pela visita, mas essa semana não será publicado as crônicas e textos do Professor Frank.

Atenciosamente

Time A Frank Experience

sexta-feira, agosto 03, 2012

O Coelho e a Tartaruga


Minha vida é como aquele famoso conto: O Coelho e a Tartaruga. Por vezes sou a tartaruga, mas na maioria das vezes, corro e vivo como o coelho.

Quero chegar mais rápido ao destino; quero a casa pronta antes do primeiro tijolo; quero ouvir "eu te amo" antes do primeiro beijo e quero pra ontem o que comecei a fazer hoje. O irônico é que quanto mais eu corro, mas a vida me dá evidências que preciso diminuir a velocidade e que se eu continuar nesse rítmo, não passarei da próxima curva.

Sob o meu comando, a tartaruga sorri pacientemente no banco e espera o momento de eu deixá-la participar dessa corrida, mas luto, ignoro, teimo e deixo-a aguardando, afinal sigo o rítmo do mundo; as demandas da cidade grande. Vivo a "filosofia do coelho" no mundo profissional, no beijo rápido em quem amo por estar sempre atrasado, no telefonema da minha mãe que nunca tenho tempo para atender, no convite dos amigos que sempre deixo a esperar. Quando deixo a tartaruga atuar, e isso só ocorre por alguns instantes, percebo com lucidez que por quase todo o tempo, sou o coelho branco da Alice sempre com um relógio à mão, sempre indo para algum local e chegando à lugar nenhum.

Esses dias, no meio de mais uma corrida diária, senti uma dor bem forte no peito. Pressionado, o coração gritou: pare!

Senti o mundo rodando mais rápido que o sangue que corria em minhas veias, mais rápido que os carros que passavam na avenida com seus passageiros coelhos que nem perceberam outro coelho tropeçando, caindo e se segurando numa árvore, como se ela pudesse devolver o ar que lhe faltava aos pulmões. Em meio a dor, notei a tartaruga no banco de reservas, pedindo para assumir, mas o coelho ficou gritando: "O chefe vai nos matar se nós o fizermos esperar. Esquece a tartaruga! Se recupera logo! Estamos atrasados; temos mais um prazo para alcançar, mas um serviço para finalizar".

Talvez por causa da dor ou por ter me dado conta do quanto o coelho não estava me ajudando naquela situação, deixei a tartaruga assumir a posição e coloquei o coelho no banco. Respirei fundo e a deixei conduzir o ar de volta aos meus pulmões. Com a sabedoria milenar de quem aprendeu a esperar, a tartaruga acalmou meu coração, encheu de paciência o meu sangue e fez minha mente ficar serena, tranquila e limpa.

 
Não demorou muito e eu estava me sentindo melhor, então, arrumei a gravata e sorrindo voltei a pista: estava de volta à corrida novamente. Agradeci a tartaruga, mas injustamente a substitui pelo coelho, que assumiu sua posição titular, já ordenando: corre, estamos atrasados!

Como já disse, minha vida é uma corrida entre o Coelho e a Tartaruga. Por vezes sou a tartaruga, mas na maioria das vezes, mesmo com a vida me ensinando que preciso diminuir o ritmo, sou teimoso e vivo escalando o coelho; contudo a vida é mais esperta e não vai demorar muito para ela me mostrar novamente que a tartaruga sempre vence no final.

quinta-feira, agosto 02, 2012

Sem Capa e Sem Espada


 
 
Certo dia, percebi que não estava sozinho. Como eu não me via mais como uma ilha, entendi que, se fizesse um pouquinho, poderia fazer alguma contribuição para esse grande continente humano. Não que o mundo precisasse da minha ajuda (ele sempre esteve muito bem, obrigado), mas não falta trabalho para quem quer dar uma mãozinha.

Aprendi algumas técnicas. Estudei um pouquinho, aqui e acolá, e não tardou para que eu passasse da teoria à prática.

Assim, vesti minha capa, coloquei uma máscara e saí voando para o alto e avante, em busca dos fracos e oprimidos, sempre com a melhor das intenções. Sabia que tinha o Universo do meu lado, os poderes de Grayskull, a espada com o olho de Thundera e as bolas de fogo do Dragon Ball para me auxiliar nessa heróica jornada e, como um Homem Aranha ou Super-Homem, viciei-me em auxiliar o próximo.

Toda vez que o auxilio era necessário, lá estava o Super-Frank, o Zorro Hindu, pronto para o trabalho.

Mas, o herói foi amadurecendo...

Aprendendo que nem sempre precisaria usar as mãos ou os poderes especiais que tinha à disposição, pois tudo o que precisava eram boas palavras, um pouco de luz e muito amor.

Ainda estou aprendendo a trabalhar, cada vez mais sutilmente, mas, confesso que demorei a perceber que o auxilio maior se faz silenciosamente, sem capa nem espadas.

Depois de certo tempo, mais uma ficha caiu: existem pessoas que querem ajuda, e outras não.

Isso me chocou a princípio, pois costumava acreditar que, se existisse um inferno, ele estaria cheio de anjos por lá, tentando ajudar, e eles tinham a obrigação de ajudar, afinal as pessoas precisavam ser ajudadas, mesmo que não entendessem que precisavam de auxílio.

O pior de ajudar é entender que há casos em que a melhor ajuda é não intervir.

Há realmente um inferno, e nós o carregamos dentro de nós mesmos. Os anjos estão ao nosso redor, mas eles sabem que, em certos casos, boas intenções não são o bastante, pois a ajuda tem que partir de dentro.

Nesses casos, a melhor ajuda vem da Nave Mãe Universal, e é só uma questão de tempo (tempo do Universo, e não tempo do homem) para a vida se encarregar de auxiliar e ensinar.

Contudo, é duro não poder ajudar. Pior ainda, é saber que não há palavras, bolas de luzes, feitiços e mandingas que lhe ajudem a auxiliar as pessoas a enxergarem que existe uma saída, uma luz para a sua escuridão. Normalmente, nos sentimos impotentes e tentamos barganhar com os “Poderes Celestes” um auxílio para fulano ou sicrano e, em silêncio, eles lhe respondem que é hora da não-ação.

O vento explica o silêncio que o homem não consegue escutar. A água explica as mudanças que não tardam a chegar. Mudanças sutis que embora não possam ser perceptíveis aos olhos humanos, acabam sendo captadas pelos olhos da alma.

Basta ter paciência para entender que, no fim, tudo se resolve. Que quem está no escuro e não entende o poder da luz, acabará enxergando-a por conta própria.

Não dá para explicar discernimento para quem é fanático. Nem se consegue explicar a beleza da vida para quem não enxerga sentido na mesma. Mas dá para desejar o melhor para essas pessoas e enviar o nosso carinho para todas elas, na esperança de que um dia elas se abram e voltem a viver plenamente de novo.


quarta-feira, agosto 01, 2012

As Noticias e o Espelho



 
Uma curiosidade quase mórbida toma conta de mim toda manhã. Aproximo-me da banca de revistas e escaneio furtivamente as manchetes dos jornais como quem olha um acidente procurando corpos. Sei que boa coisa não iria ler, mesmo assim insisto na leitura, querendo saber o que esta ocorrendo de podre no reino tupiniquim; sabendo também que o efeito daquela noticia será similar à imagem de um corpo acidentado num desastre imbecil que poderia ter sido evitado por um drink a menos.

O anjinho e o diabinho brigam por essa decisão matinal que terá efeito pelo resto do meu dia, mas acabo dando ouvidos à curiosidade e mando para o inferno a precaução, o discernimento em saber que ler tudo aquilo não me ajudará em nada, pelo contrário, dependendo da noticia, ficarei o resto do dia comentando-a com os colegas, disseminando minha insatisfação com o mundo e distorcendo ainda mais o que li para convencer-los que o mundo está, estava e sempre estará à beira de um colapso.

- Bom dia, Frank! – diria alguém no escritório.

- Bom dia Fulano. – eu responderia, para em seguida comentar: Você viu que soltaram a assassina... Você ouviu a última de Brasília...

Se toda essa corrupção e violência que pinga dos jornais e revistas me embrulham o estômago, isso deve ser um bom sinal: devo estar mesmo no caminho menos egoísta; onde se não consigo evitar as besteiras que faço pelo menos esses atos medonhos do meu dia-a-dia não prejudicam tanto as pessoas ao meu redor. Contudo, meus comentários sobre o que leio nos jornais e absorvo pela TV, distorcidos pelo meu ponto de vista, ajudam ainda mais a propagar essa sensação de indignação que deveria deixar de ser teoria e obra prima para as minhas lamentações e passar a prática através do ato de votar em um candidato decente ou no drinque que deixaria de tomar, por saber que cada gesto meu, por menor que seja, acaba afetando a todos.

Se não consigo evitar essa “curiosidade” todo dia, ao menos estou tentando evitar o comentário inútil sobre esses assuntos desagradáveis de manchetes de jornais e que dão audiência aos tele noticiários e viram comida para os urubus de plantão. Nem sempre consigo. Ninguém quer saber se a sua sobrinha começou a andar ou se as pessoas finalmente pararam de passar fome no Sudão. Notícias boas não dão mesmo audiência, ibope e nem atenção. No fundo gostamos de ler e comentar sobre a desgraça alheia para nos dar conta o quanto a nossa vida é “maravilhosa e perfeita”. Precisamos dos políticos corruptos para que possamos declarar aos quatro cantos o quanto somos honestos, mesmo comprando produtos piratas que financiam essa mesma corrupção que tanto nos embrulha o estomago, mesmo sonegando impostos e etc. Como diria a sabedoria popular: apontar um dedo para o outro é apontar ao mesmo tempo três outros para nós.


Se alguém está fazendo algo que é o oposto que faríamos, precisamos pagar o preço de enxergar o reflexo desse espelho que é o rosto do outro. Não podemos exigir que esse reflexo se torne semelhante e nem muito menos julgar os seus atos com os nossos, como se fossemos o único modelo perfeito. Todos nós somos iguais (se acreditamos que fomos feitos à imagem e à semelhança de um Criador que não tem rosto e tem todos ao mesmo tempo), mas o nosso ego não. A imperfeição que gera essa distorção na imagem do espelho é a melhor prova que temos de que cada um de nós precisa trabalhar a sua imagem (o ego) de acordo com aquilo que precisamos experimentar para evoluirmos e nos tornarmos pessoas melhores nesse planeta.

Se você odeia morango, não posso forçá-lo a gostar por mais que acredite que essa fruta é a mais nutritiva e a mais saborosa. Se você vier a gostar de morango algum dia, será por conta própria, por meio das suas próprias escolhas e mesmo gostando das mesmas coisas, a experiência é diferente para cada um de nós.

Por isso que um certo Rabi á 2000 anos atrás dizia que o maior mandamento que existe é “amais uns aos Outros” e não sei quanto a vocês, mas acredito que se há uma lista de sinônimos que ajude a descrever o amor, “Respeito” está no topo dela. Contudo, respeito pela mulher que te colocou no mundo não é o mesmo que submissão; respeito pela pessoa amada não significa escravidão; respeito pelo teu próximo não é ser um poço de reclamação; respeito por si mesmo não é chafurdar no lixo alheio para perceber o quanto o seu quintal é mais verde e nem tão pouco apontar a sujeira ou o mau cheiro. Pense a respeito, talvez o quintal do outro esteja sujo só para te mostrar o que o seu quintal pode se tornar se você parar de limpar.


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