sábado, maio 31, 2008

UMA EXPERIÊNCIA ELEMENTAL OU O FANTÁSTICO HOMEM COBRA

Um amigo, amigo de um amigo meu teve uma experiência elemental, será que é assim que se descreve esse fenômeno? Não importa, nem dó bola mesmo para essa vontade besta humana de dar nomes a tudo, mas vamos voltar a estória que é o que realmente interessa...Estava ele em transe meditativo, quando se tornou uma cobra. Sim, isso mesmo, uma dessas peçonhas, bicho que queremos distância.

Ele disse que sentia o verde da sua pele em contato com um verde maior que fazia parte de todas as criaturas. Se havia Deus barbudão para os homens, natural que houvesse um Deus verdão para as cobras.

Enxergava mal (daí vai ver que não havia qualquer relação com a experiência de cobra, pois o sujeito é míope), mas contou ele, que percebia movimentos, cheiros que nunca até então havia sentido. O veneno, segundo ele, não era lá grande problema, perto dele, a sua sogra era uma cascavel.

A experiência foi incrível, disse ele, pois também caminhou (ou rastejou) como cobra no meio da multidão e descobriu outros tantos bichos que inconscientemente se esbarravam sem perceber isso.

Agradeceu ao Pai das Cobras por não ter sentido fome, ficaria triste se tivesse que engolir algum outro bicho que entrasse em seu caminho.

Um tempo depois, voltou a ser humano, mas ele gostou tanto da experiência que já comprou uma fantasia de jibóia para o próximo carnaval. Ele disse que aprendeu várias coisas como cobra, só precisa passar depois no Butantã, para tentar traduzir cobrês pro português.

Da experiência ficou muitas dúvidas, finalizou ele, mas também uma certeza: há mesmo mais coisas entre os humanos e os bichos do que sonhava Darwin.

sexta-feira, maio 30, 2008

STF E AS PESQUISAS COM CÉLULAS-TRONCO

Eu não queria ser jogador de futebol, nem queria ser pagodeiro. Sempre fui assim meio impulsivo quando o negócio era ajudar outra pessoa. "Tem jeito pra Dotô" dizia minha vó, mas meu tio jogava água gelada: "cala boca, véia, ondi já se viu favelado virar médico, se muito vira gari".

Cresci com aquelas conversa na cabeça. Lutei muito para acabar o colegial e fazer o vestibular, sempre lembrando da minha vó, e quando o sono era muito e a vontade de desistir vinha com tudo, lembrava do meu tio: não iria dá esse gostinho pra ele. Nada contra os Garis, que efetuam uma das funções mais vitais da sociedade; mas eu queria algo mais, queria salvar vidas.

Pelejei para conseguir uma vaga em medicina, tentei três vezes entrar, mas sempre ficava atrás daquela lista de nomes japoneses - afinal, será que eles eram mesmo mais inteligentes ou o fato de terem seus cursos preparatórios financiados pelos pais e não terem que trabalhar das 8 ás 5 ajudou?

Foi pensando nisso que me deparei com os mistérios do cerébro, dos neurônios, do sistema nervoso e li pela primeira vez um artigo sobre as células-tronco. Fiquei apaixonado, e se aquilo tudo fosse verdade, um monte de gente que estava em cadeira de roda, poderia voltar a andar e todos aqueles vélhinhos com tremedeiras voltariam a ter uma vida mais digna. Até a minha vó, que começou a ter alzheimer seria beneficiada.

Finalmente descobrira o que queria ser: NEUROCIENTISTA!!!

Estudaria o sistema nervoso, a cabeça das pessoas, com todos os seus impulsos cerebrais e ajudaria, por meio das pesquisas, a encontrar uma forma de ajudar a Deus fazer esse povo voltar a andar e até pensar direito.

Passei em primeiro lugar no vestbular e apesar de, mesmo depois de formado, não conseguir fazer as pessoas entenderem o que é ser um neurocientista, sinto que estou no caminho certo. Esses dias, grata surpresa: fiquei sabendo que aquele curso de pós-graduação em células-tronco finalmente seria aberto. Fui um dos primeiros a me escrever, mas fiquei com receio que o curso não seguisse adiante por falta de pessoas. O coordenador explicou que muitos neurocientistas não queriam investir suas carreiras em uma área que corria o risco de se tornar ilegal: o governo e alguns padrecos ameaçavam proibir de vez, qualquer pesquisa relacionado a essas células. Ontem, recebi um e-mail do coordenador, dizendo que as incrições aumentaram, pois o Supremo Tribunal Federal liberou finalmente a pesquisa. Ufa!!! Quem sabe, eu e outros colegas, consigamos agora descobrir algo que possa ajudar a minha vó e outras tantas pessoas.

Maio 2008
Frank Oliveira

Notas do autor: As células-tronco embrionárias são consideradas esperança de cura para algumas das doenças mais mortais. Elas podem se converter em praticamente todos os tecidos do corpo humano. Entretanto, o método de sua obtenção é polêmico, já que a maioria das técnicas implementadas nessa área exige a destruição do embrião.
Para saber mais sobre a polêmica dessas pesquisas, consulte o link abaixo:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u378546.shtml
Foto: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u406896.shtml

2012 Apocalipses Recursivos - A profecia é "Maya"

Com 43 anos de vida e discernimento, já enfrentei uns 2012 fins do mundo e datas marcadas para contato extraterrestre. O primeiro deles, marcado para o interior do Rio de Janeiro, teve até transmissão do Fantástico. Uma verdadeira histeria coletiva. Se bobear, alguns leitores mais antigos estavam lá esperando as naves chegarem.

Como na minha infância não havia internet, o apocalipse passou a vir de Nostradamus. Estavamos condenados, me provaram com as centúrias. E havia até data, para alguns: Outubro de 1999, começando um fim no ano 2000. Deus usava o sistema decimal e gostava
de números grandes e redondos.

Só mais tarde vim a descobrir que as centúrias eram uma espécie de Bíblia: Dependendo da intenção de quem as manipula, podem ser interpretadas isoladamente para justificar qualquer coisa, inclusive as contraditórias entre si: Pode ser Napoleão ou Hitler, pode ser a queda da Bastilha ou a do Corinthians. Maktub reciclável: O atentado do World Trade Center estava lá. Na mesma profecia que em 1980um livro "provava" prever outra coisa bem diferente.

Lembro também de uma época em que o Fantástico mostrava uma garota que dizia ver Nossa Senhora. Fátima Reloaded, com transmissão ao vivo. Eu não sabia nada de mediunidade, mistificadores e psicopatologia - e pelo jeito, a Globo da época
também não. Numa das visões, a menina garantiu, e o Lázaro também menino nunca se esqueceu: O mundo ia acabar numa quinta-feira.

Nossa Senhora é quem disse, numa obra prima de concisão e utilidade de informação. Para muitos, a informação era vaga. Para mim era precisa: Havia poucas quintas-feiras em Outubro de 1999. Li o Apocalipse de cabo a rabo, para saber tudinho que ia ocorrer. Mas esqueci de aplicar a mim mesmo, pois distraidamente me casei em uma
quinta-feira, no Outubro de 1986. A separação se deu em 1999, e, tenho certeza, o Livro da Revelação de João retrata apenas parte dos horrores que passei na ocasião.

Quando pensei que ainda teria alguns anos de vida, novamente o Fantástico me advertiu, em plena década de 80: Jesus não nasceu no ano 0. Na minha visão religiosa de então (onde o mundo todo girava em torno da interpretação que o povo do deserto da Palestina fez de seus mitos de milênios atrás), isso significava que o ano 0
era antes do que eu pensava. Logo, o mundo se acabaria, segundo minhas contas, em alguma quinta do começo da década de 90. Com o que eu passava no casamento, o adiantamento seria bem vindo. Aguardei, mas foi em vão. Pelo jeito, Nostradamus usou o calendário errado, também.

Quando eu já me conformava com Outubro de 1999, e aproveitava meus últimos meses de vida, veio a bomba, em todas as listas de astrologia: Em Agosto daquele ano haveria um eclipse gigantesco, e o mapa astral do momento configuraria uma dupla cruz, em signos de elementos fixos, lotada de quadraturas. Era o mapa do anticristo,
disseram. A informação correu a internet. Ele estava nascendo, ou seja, era o fim do mundo. Acreditei, como não? Era um sinal no céu, justamente no ano de 1999. Mas raios, logo agora que eu me separei?

Quando eu estava quase me convertendo à Universal, aguardando o fim, alguém me mandou em anexo o mapa do tal eclipse, o tema astrológico natal do anticristo. Segundo diziam, o mais terrível mapa astral que alguém poderia ter. Achei estranhamente familiar. Quando coloquei a data, hora e local no meu software de astrologia, o traçando com símbolos e ângulos que eu estava mais acostumado,
tive a suprema revelação: Era muito igual ao meu, que também tem uma dupla cruz fixa (Araxá, MG, 3/11/64, 15:30). Peraí! Eu era o anticristo? E que raio de evento astrológico único é esse que ocorre de tempos em tempos? E porque o mundo não acabou também quando eu nasci?

Na lista de astrologia que eu frequentava, já com Liege, Nina, Wagner Borges, Paulo Coelho, Márcia Frazão, Olavo Borges, Ivan Freitas, Denise Moon Raven e muita gente mais de sarcasmo e discernimento, resolvemos aguardar o tal eclipse de 1999 com uma festa, muito vinho e violão. Encontro de fim do mundo. Quase fomos excomungados da
internet por heresia e desrespeito, pois, naquela época, as pessoas aqui na rede eram muuuuuuuuuuito mais crédulas e esquisotéricas do que hoje em dia. Acreditem! Havia vigília virtual pra todo lado, mestre gnóstico-ufológico alertando, gurus das comunidades de minas gerais e goiás em polvorosa, e recebiamos flames por estarmos
marcando diversão para aquele momento tão importante do planeta.

Nòs iriamos nos arrepender, diziam. As naves não nos resgatariam, parece que os ET´s só queriam preservar a humanidade mais triste. Pra facilitar o trabalho de Ashtar, acendemos uma fogueira na festa. Mas se ele veio naquela noite do eclipse, nos ignorou. E aos ufólogos místicos também.

Mas era só uma questão de dois meses, em outubro haveria a data de Nostradamus. Nada aconteceu. Mas aí disseram que o século não havia acabado, e que a data era 31 de Dezembro de 1999, exatamente à meia noite. Que baita sacanagem divina, em pleno revellion. Fora o trabalho de fazer um fim do mundo para cada fuso horário. Fazia
sentido, se o Deus de todo o universo usar o calendário gregoriano e gostar de contas redondas. Além do mais, seria uma economia dos sinais nos céus, já que os fogos facilitariam o clima apoteótico. Mas confesso que nâo sei se o mundo acabou ou não naquela passagem de ano: eu estava bêbado.

Mais tarde, alguém de ressaca lembrou que o novo século só começaria em 1/1/2001. E a data também tinha sua aura mística, graças à ficção científica, que explica muito bem a fé dessa gente - ou falta dela. Tinhamos uma nova data apocalíptica, mas
ninguém levou tão a sério dessa vez, já que outros ufólogos místicos e gurus comunitários já haviam feito várias outras previsões de contato, arrebatamento, chegada das naves e fim do mundo no período. Todas furadas.

Alguns falaram dos alinhamentos de planetas que ocorreram no começo deste milênio. Novamente, alguns mapas astrológicos. Mas depois do tal eclipse de Agosto de 1999, ninguém mais acreditava que seria o mapa do fim. Precisavamos de algo com maior credibilidade, para anunciar a data e hora da chegada de Jesus e João Batista em uma nave espacial. E aí veio Jan Val Ellan e a revista Ufo, em matéria de capa. Ufa!

Quase fomos excomungados da internet pela segunda vez, ao aventarmos a possibilidade de que essas vozes que falavam dentro da cabeça do tal Profeta INRI Elias reencarnado só falassem... dentro da cabeça dele. Espiritualistas sérios nos lembravam da possibilidade do homem estar certo. Não custava confiar. E além do mais - falácia da autoridade - a revista falou! Lembrei do Fantástico. Aí veio a
notícia de que o homem era não só Elias, mas também Kardec reencarnado. Um profeta nato, sempre incompreendido em seu tempo. Maktub, quem ousaria duvidar? Alguns percorreram o país ouvindo os ensinamentos de Ellan, que vendeu muitos livros reinterpretando o apocalipse e suas trombetas. Amém, Kardec Sheran.

No dia marcado por Ellan, marcamos um encontro voador em Belo Horizonte,lá no Stadt Jever. Vai ver o mundo já acabou, e eu novamente estava bêbado na ocasião. O fato é que naquela noite, realmente vimos hordas nas ruas, gritando e babando, aos milhares. Mas não vi as naves no céu, e Ellan havia garantido que seriam visíveis a
todos. Como explicar aquela multidão nas ruas, boa parte trajada de preto, e gritando mantras em coro? E os carros desordenados, piscando faróis e buzinando sem parar? E os gritos histéricos? Será que metade de Minas Gerais havia lido a UFO e aguardava o arrebatamento? Será que o chopp caseiro daquele bar alemão provocava
alucinações? Quando saí do bar, já quase nascendo o dia, comprei o jornal para ver as fotos das naves, e li a manchete: "Galo, campeão da segunda divisão".

Mais tarde, Ellan esclareceu seu equívoco. Os deuses e ET´s haviam o enganado, para que se cumprissem as profecias. Gostei: os marcianos tinham senso de humor. Jan Val Allan Kardec marcou uma outra data, essa sim certeira, poucos meses depois. Dessa vez, o mundo se acabou - pelo menos o dele, como profeta apocalíptico no sudeste do país.

Estudando história, vi que a mania não é nova. Os palestinos já tinham certeza do fim no ano zero, com a invasão romana. Erraram por 1960 anos, quando Israel e os EUA lhes fizeram ter saudades de Júlio César, que não os confinava numa faixa dentro de seu próprio país. Mais tarde, no ano 1000, nova histeria coletiva. E novamente o mundo não se acabou. Mas imaginem o que deve ter falado a igreja nos tempos da grande fome seguida da peste negra, em que a Europa viu sua população se reduzir drasticamente em apenas um século?Foi o fim do mundo mesmo, para o sistema feudal: Mão de obra escassa e valorizada, decretando o fim da servidão, o começo do
renascimento, e mais tarde as revoluções.

Agora, começa a histeria do Calendário Maia. Já a previamos no começo do milênio, há várias mensagens antigas no histórico da Voadores falando dos profetas de email que surgiriam no fim da década, com a proximidade de 2012.

Não que o calendário original não possa ser sério - já o que se fala dele numa neoreligião brasileira está mais para astrologia e esquisoterismo, que mistura runas, hexagramas, signos e cálculos que os povos antigos da América Central jamais
utilizariam.

De fato, os antigos tinham grande conhecimento de astronomia. De fato, vivemos uma época de transformação. De fato, o calendário deles termina em 2012. Outros, não. Mas há outras coincidências, como a mudança da era de Aquário, e o próprio milênio do
calendário ocidental.

Com tantos apocalipses reincidentes nos últimos 2000 anos, e tantas guerras e danos ao planeta causados pelo próprio homem, uma hora algum Edir Macedo, Ellan Kardec, Juscelino, Ergon, Argüeles, Nostradamus ou Trigueirinho vão acertar. O próprio papa Ratzinger, que não é nada bobo, já escolheu o nome de Bento XVI propositalmente para confirmar uma teoria apocalíptica de milênios atrás.

O aquecimento global pode ser uma boa ocasião. E a vocação militar e imperialista de uma China que o mundo todo faz enriquecer, também. Uma voz profético-racional me diz que ainda vamos ter muitas saudades do imperialismo norte-americano, e de quando os inimigos mundiais eram apenas os russos e alemães. Podem estar certos que no dia seguinte a qualquer catástrofe dessas, um profeta aparecerá em programa popular com uma carta falsificada registrada em cartório, em que já previa a tragédia há muito tempo atrás. E, garanto, na madrugada anterior à desgraça, havia um pastor na TV anunciando o fim. O detalhe é que em todas outras noites de minha vida, também.

Ou seja, muitos dos que sacam o Calendário Maia para explicar o fim são os mesmos que em outras épocas anunciavam a chegada das naves. Ou os mesmos que frequentavam comunidades de resgatáveis, ou que procuravam eclipses e alinhamentos nos céus, ou que faziam vigília às 02:02 de 2/2/2002, ou que estudavam as centúrias de Nostradamus. Alguns até já escutaram as palavras apocalípticas do pastor, seja o da igreja do bairro, seja a do guru da nova era. Pouco importa qual seja o calendário, qualquer data serve, desde que fale de fim dos outros e do resgate "dos bons e escolhidos", a saber, aqueles que divulgam datas apocalípticas via internet.

No fundo, estes apocalípticos não são tão espiritualistas assim, e carregam dentro de si um baita medo de morrer, que justifica tanta fé na ascenção aos céus em vida. Sua morte não pode se dar num dia qualquer, em que milhões nascem e deixam o planeta - precisam levar consigo todos os outros bilhões, uma vez que não pensam o mundo sem a presença de seu umbigo. Seu fim precisa ser o de toda a humanidade, por mando divino, e não mais um evento natural, a que todos estamos sujeitos um dia.

O bom de viver assim pensando na morte é que um dia acertam. O que não entendo é que diferença faz, quando o prédio cair, se cairam ou não todos os outros da cidade, ou mesmo os do planeta. Parece coisa de criança, só paro de brincar se o filho da vizinha for pra casa também.

Por essas e outras, tenho certeza de que pelo menos uma dessas profecias estará certa: Em 2012 será o fim... do CALENDÁRIO Maia!!! Ele acaba nessa data, o mundo não - e nossa presença no planeta, lamento, não há calendário ou email que possa dizer.

Fim do mundo é "Maya", a do sânscrito: uma ilusão. Em 2013, continuaremos a existir, encarnados ou não, e Deus estará conosco onde estivermos. Pelo menos para aqueles que não dependem de profecias para enxergá-lo no agora e aqui.

Mas, cá entre nós, espero que estejamos na Terra mesmo, já que em 2014 temos Copa do Mundo no Brasil, e Deus - como um bom brasileiro que dizem ser - não perderá a oportunidade de ver os argentinos perdendo, na final, em pleno Maracanã.

Lázaro Freire
http://www.voadores.com.br/lazaro

quinta-feira, maio 29, 2008

LEITORES FUNCIONAIS

Minha mãe leu o meu livro esse ano. Tudo bem, dirão alguns, nada mais normal que uma mãe leia o livro do filho. "Normal"? Não exatamente! Perguntem a ela, quantos livros ela leu no ano passado ou no retrasado e a resposta será: nenhum!

Ela saber ler e escrever, mas como boa parte dos brasileiros, ela não gosta de leitura e prefere a televisão. Nenhuma novidade, afinal, todos sabem: Somos sempre destaque nas manchetes internacionais sobre educação, com o nosso índice cada vez mais alto de alfabetismo funcional. Somando quase 70% da população economicamente ativa, os alfabetizados funcionais estão por todos os lados e muitas vezes, ocupam cargos vitais para o sucesso do nosso país ( qual será o último livro que o Presidente leu?). Eles são pessoas que foram à escola, sabem ler e escrever, mas não conseguem compreender a palavra escrita, ler bons livros, jornais ou revistas e interpretá-los.

Pelo menos sobra 30% de leitores por ai. Ledo engano! Em recente estudo feito pelo Instituto Pró-Livro e desenvolvido pelo Ibope, foi constatado que o brasileiro que não é um alfabetizado funcional, apenas lê 1.3 livros por ano ( o número sobe para 4.3 livros por ano, quando se leva em conta os estudantes, mas todos nós sabemos, 99% dos estudantes só lêem por obrigação).
As desculpas são inúmeras: falta tempo, não tem interesse, dor de barriga ou só leio a Bíblia ( fico pensando: se a Bíblia viesse com bibliografia, será que os leitores do Senhor, consultariam outros livros para agregar conhecimentos a sua fé cristã?).

O mais triste é que estou terminando o meu curso de Letras e a maioria dos alunos ( futuros professores da língua portuguesa ou literatura)não gostam de ler e apenas conhecem as obras de Machado de Assis, Manoel Bandeira e outros autores clássicos, porque a leitura dos mesmos cairão nas provas e eles precisam "passar de ano". Fico imaginando: com professores interessados e informados assim, como serão os seus alunos?

Por essa razão fico muito "bravo" quando leitores do Paulo Coelho, Zibia Gaspareto, Sidney Sheldon, Dan Brown, J.K. Rowling e outros "autores pops" são criticados por professores de literatura e estudiosos. Seria maravilhoso que esses leitores estivessem lendo Castaneda, Fernando Pessoa, Sir Arthur Conan Doyle, Richard Barber ou Tolkien; mas no mundo real brasileiro, onde ler livros se torna cada vez mais uma raridade, é sempre bem vindo, qualquer leitura, desde que desperte novos leitores.

Tudo é uma questão de tempo e gosto. O leitor do Caçador de Pipas vai acabar se interessando em conhecer um pouco mais ( e a face real) sobre o povo afegão. A leitura de romances espíritas talvez guie seus leitores para um estudo sobre as obras da teosofia, Bhagavad Gita e outros tantos livros que influenciaram o "celta" francês Hippolyte Léon. Por isso, acredito, cabe aos mais instruídos informar ao leitor de literatura pequena que se houver interesse, há outros tantos autores que ele deveria conhecer, ao invès de afirmar que eles estão lendo lixo literário.

Depois que leu meu livro, minha mãe perguntou se eu tinha mais livros de crônicas para ela ler. Quer melhor final para essa crônica?

Frank Oliveira
http://cronicasdofrank.blogspot.com

NARADA E O COPO D' ÁGUA

Durante as sua práticas espirituais, o sábio Narada recebeu a visita de Vishnu. O Deus do amor apareceu a sua frente na eremita em que ele se encontrava e começaram a conversar sobre o mundo espiritual e o mundo fisíco.

- Por favor, Sr Vishnu, mostre-me o poder mágico da sua Maya, pediu Narada.

- Eu o farei, venha comigo.

Da escuridão da caverna, Vishnu levou Narada através de uma terra sem vegetação, que parecia mais um deserto, pela maneira como o chão refletia o brilho do sol do
meio dia. Eles não tardaram a sentir sede, e após uma certa distância, avistaram uma pequena vila com algumas plantações e Vishnu falou:

- Você poderia ir ate lá e trazer água para mim?

- Claro Senhor. O sábio respondeu e se aproximou da pequena vila.

Os ocupantes da casa, logo vieram lhe receber com todas as honras, como se ele fosse um grande amigo. Narada, impressionado com a calorosa recepção, foi se sentindo
inteiramente em casa. Ninguém perguntou o que ele fora fazer lá, ele apenas era visto como alguém da familia. O carinho era tão grande que Narada foi ficando por lá e com o tempo acabou pedindo a mão da filha mais nova em casamento. O que era exatamente o que a familia queria. Doze anos se passaram, ele teve três filhos.

Quando o seu sogro morreu, ele se tornou o chefe da familia, e cuidava do sustento de todos com a pequena colheita que tinha em sua casa e com muito trabalho, mas ele era feliz.

No ano seguinte, a temporada de chuva foi violenta e toda a vila foi inundada, as casas foram sendo levadas,e as pessoas tambem. No auge do desespero, Narada teve
que segurar a sua familia para não ser levada pela água, mas não adiantou, a correntesa levou primeiro a sua mulher, depois os seus filhos. Por fim, acabou levando ele tambem, que se entregou a correntesa em direção a um penhasco.

Quase inconsciente e desistindo de lutar, Narada ouviu uma voz familiar:

- Criança? Era a voz de Vishnu - Onde esta a minha água? Estou esperando a mais de meia hora.

Narada se virou e sorriu ao ver o Grande Mestre e no lugar da água, o deserto escaldante ao meio dia. Visnhu tocou o seu ombro e disse:

- Compreende agora o segredo da minha Maya?

Essa historia foi narrada por RamaKrisnha, e faz com que a gente pense a respeito.

Como esta o nosso copo de água?

Fomos tragados pela Maya ou ainda temos alguma consciência do que viemos realmente fazer aqui?

E o seu copo de água esta vazio, pela metade, cheio ou você se esqueceu completamente dele?


Frank Oliveira

quarta-feira, maio 28, 2008

BALÕES COLORIDOS

Faça uma prece pelos que vivem no escuro.

Eles não são seus parentes, nem muito menos seus amados, mas solte essa noite pela sua janela balões azuis e dourados.

Não queira saber quem são ou entender os caminhos que os levaram a escuridão.

Não deseje compreender porque optaram pelo mundo das sombras; apenas abra a caixinha de ferramentas do seu coração e utilize sua compaixão.

Eu sei que você já ouviu isto antes, mas eles são seus irmãos, pessoas como você que um dia erraram a mão e vazios de oportunidades, avançaram no farol da sociedade e foram parar no muro das lamentações.

Nesse momento, eles estão sozinhos e precisam da sua luz, antes que as emoções pesadas de seus familiares e a opinião nociva na crítica de quem nem os conhece, aumente ainda mais a distância que os separam do seu crescimento, do discernimento e da razão.

Lembre-se, ao abrir sua janela, do que Ghandi dizia: “Olho por olho vai deixar o mundo cego”. E só por essa noite, solte seus balões coloridos na direção dessas crianças de JESUS, moleques que vão adorar o seu presente de luz e jogarão bola novamente ao sentir que essa noite alguém não os julgou, não os condenou e ao invés de pedras, jogou balões coloridos de boa aventurança para eles brincarem no parque dos seus corações.

Frank

terça-feira, maio 27, 2008

COMO EINSTEIN JÁ DIZIA

Ônibus lotado, semáforo fechado e eu atrasado. Combinação perfeita naquele dia cinzento de quarta-feira que estava poluída de gente com cara feia se movendo de um lado por outro, como zumbis sem rosto. Podia estar fazendo algo mais proveitoso, mas atrasado e ocioso, fiquei ali na janela de olho no trânsito de carros, no trafégo do povo.

Einstein estava certo, o tempo era mesmo relativo. Pro mendigo na rua, horas duravam séculos, para mim, cada minuto se esvaia como segundos, de semáforo em semáforo, na corrida do tempo, nas curvas do mundo.

E foi ali entre o verde e o vermelho, no intervalo de um piscar de olhos, que enxerguei um outro “eu” num espelho, ocupando o meu lugar. Ele lia um livro e não parecia se importar com o trânsito dos carros e do povo pela janela a passar.

Mas quem era esse cara? Meu "Eu Superior" ? Um fantasma? Meu espírito?

O ônibus seguiu em frente e a imagem desapareceu, mas eu lembrava do livro que nunca tinha lido; do título e de cada capíulo.

De onde aquela experiência veio? Não havia livro na minha mochila, nem muito menos eu lembrava já ter visto aquele livro com aquele título, mas era como se no intervalo entre o vermelho e o verde, eu tivesse saciado a minha sede com a água que outra pessoa havia bebido.

Seria aquele cara um “outro eu”? Vivendo num universo paralelo ao meu?

Estaria Einstein novamente certo ou tudo não passava de uma brincadeira do Menino-Deus? Multiversos dentro de mim...

Cheguei atrasado ao serviço, o chefe brigou comigo, mas eu só pensava no tal do livro que meu alter ego havia lido e compartilhado comigo. Procurei, pesquisei, mas não encontrei aquele livro e comecei a desconfiar que ele nem tivesse sido escrito. Por fim, deixei aquela loucura de lado, como fiz tantas outras vezes, quando certas lembranças surgiram do nada como verdade na minha memória.

Só posso estar realmente surtando para achar que há “outros eus” por ai, vivendo e experimentando outros mundos e compartilhando o que aprendem nos intervalos entre segundos.

Frank

segunda-feira, maio 26, 2008

CRÔNICAS DE MARTE

Meus Caros

Escrevo essa crônica de Marte. Sim, abandonei a Terra. Não me acusem de ser pelego, juro que tentei, trabalhei e vivi para construir um planeta melhor. Meu planeta é lindo, o problema é quem vive nele.

Entendam, não abandonei a Terra, me livrei de vocês.

Vocês são muito complicados. Adoram um drama. Manipular então nem se fala. Quase me tornei um de vocês.

É duro permanecer acordado por aí. Toda vez que ficava um tantinho lúcido, vocês me traziam de volta para a mer...quero dizer lama. Não é a toa, que os orientais usam a analogia da flor de lótus para explicar sobre iluminação espiritual. Estamos vivendo na lama da Terra; e pensar que por sermos humanos, já era para termos asas. Mas não!!! Temos um apego com o rabo. Por favor, apaguem a imagem de bundas das suas mentes, refiro aqui a "rabos", aquilo que tinhamos antes de virarmos macacos sem rabos...ok, ok. Tá bom nunca fomos bichos. Você ai foi criado a semelhança de Deus e você, ai de cabelos cumpridos, foi realmente criada da costela do Adão.

Me poupem!!! Spare me!!!

Demorei para tomar a decisão e agora que estou aqui, não vou mesmo voltar. Adeus, Povo da Terra. E por favor, parem de mandar esses paparazzis cibernéticos para cá. Não há nada por aqui do interesse de vocês. Não há notícias da Isabela, do Ronaldo, dos terremotos da China, do trânsito em São Paulo, politicos sem vergonha, nada que valha a pena sair na Caras ou ser capa na Veja. Portanto, deixem os marcianos em paz.
Por aqui não há formas de vida, gelo, água ou qualquer outra coisa que vocês possam roubar...quero dizer...explorar.

Agora, me dêem licença! Tenho uma sonda para quebrar!!!

- Vem cá, coisinha tão bonitinha do papai marciano. Onde você está mesmo?

Frank Oliveira


Foto: Imagem feita pela sonda Phoenix logo mostra paisagem da superfície da planície ártica, no pólo norte do planeta Marte; missão deve buscar possíveis depósitos de gelo em solo marciano e descobrir se planeta seria capaz de abrigar formas de vida

Dom Franchesco de La Mancha contra o Monstro da TV


Domingo à tarde, depois do parque, depois do jornal e da revista, deitei-me no sofá e armado com o controle remoto, comecei a zapear pelos canais da TV aberta. Não, não posso bancar a TV a cabo e sou refém da programação de qualidade duvidosa dominical, mas como sou recém chegado aqui na Terrinha, tudo pra mim ainda é novidade e lá fui sendo tragado pelos programas sensacionalistas e shows mil que prendia tanta gente a televisão junto comigo.

Vamos, joguem as pedras, mas não consegui desligar e meia hora de bobeira em frente a TV virou quatro horas, onde senti que cada célula do meu corpo estava conectada a televisão.

Sentia-me cansado, exausto, como se estivesse sendo sugado pelas imagens na televisão, mas não conseguia reagir.

Foi quando meus olhos secos chamaram a atenção do bom senso e do cérebro e consegui desesperadamente segurar o controle e apertar a tecla, desligando a TV e acabando com o meu suplicio.

Respirei fundo e fechei os olhos, mas a minha tela mental estava repleta de imagens e sons ecoavam pelo meus ouvidos lembrando as vozes dos programas que já tinha assistido. Era como se eu não conseguisse ouvir os meus próprios pensamentos e o pior, a mente lembrava que outro programa estava prestes a começar, enquanto eu bancava o resistente.

Não!!!! – gritei com todas as minhas forcas e fui pro quarto, colocando uma música para relaxar, mas o Obsessor das Casas Bahia, os Faustões e Gugus brincavam de Pânico na minha telinha mental.

- Como fugir quando a prisão é mental? – perguntei aos santos.


- Será que é assim no Umbral? – indaquei aos Orixás.



– Quero sair daqui!!! – gritei - Deixa eu ler um livro. Deixa eu cantar. Deixa eu fazer qualquer coisa que possa me libertar desse ataque psíquico.

Fui ai que lembrei de uma técnica de limpeza mental que aprendi num curso e tentei relaxar. Com muito esforço tentei zapear a programação da minha tela mental para uma programação mais sutil que me permitisse voltar a ser eu, que me permitisse voltar a pensar.

Comecei a visualizar uma cachoeira. Tentei sentir cada gota caindo, mas os assediadores voltaram e para eliminá-los de vez, visualizei as Cataratas do Iguaçu a minha frente e vi todos os Faustões e Gugus sendo levados pela correnteza. Ainda tive tempo de ouvir o Faustão gritando: " Ô louco, meu! "

Continuei vendo as cataratas e comecei a sentir que minha tela mental foi ficando limpinha e multicolorida, sem imagens, sem vozes, sem perturbação.



“Que alivio – pensei comigo – Deixa eu ficar agora aqui quietinho, ouvindo essa mùsica só por uns minutinhos.” – e fiquei ali curtindo a melodia, o silêncio da mente, a quietude da tela mental bem levinha.

Meia hora virou infinito e quando minha esposa chegou, ouvi a TV sendo ligada.

- Fran, começou o Fantástico! – ela disse.

- Obrigado! – gritei lá do quarto – Tô ocupado!

E estava mesmo. Fiquei ali meditando, viajando na minha telinha por um longo tempo até que dormi.

Consegui passar o resto da semana sem televisão e fui trocando a programação pela leitura de um livro e ignorando a TV que na sala a minha espera, assediava e convidava : Liga, vai? Só um pouquinho, vai?

Será que da pra viver sem a televisão? Será que vou convencer minha esposa a trocar a televisão por um jarro de flores de plástico? Agora entendo a minha vó, quando ela fala, que na epóca do rádio a vida era bem melhor.

Frank

domingo, maio 25, 2008

SaGRAda VIDA

Tic, tac, o relógio lembra: qualquer momento, qualquer hora e ele ou ela nascerá. Se há uma vida habitando dentro de mim, não estarei eu, habitando dentro de outro ser? Estará Deus grávido de mim? Por favor, desconsidere essas bobagens. Não leve a sério. Estou grávida e perdida em devaneios. Sinto tudo com intensidade, tudo pra mim é exagero. Quando choro, viro cascata; quando rio, sou gargalhada; quando grito, tampe os ouvidos; por isso me perdoem as palavras corridas, estou mesmo exagerada, e não exijam muito, não sou poetiza, sou apenas uma mulher prestes a dar luz à vida.

Estou grávida da Mary Ann ou será da Gabriela? Será o Lucas, ou será o Gustavo, o Guilherme? Ele ou ela? Quer saber? Não importa se vier Davi ou Golias, menino ou menina, tanto faz, pois se menino será Vitor; se menina, Vitória e vou amá-los da mesma forma, seja qual nome eu lhe der, seja qual significado ao seu nome lhe agregue a vida. Afinal, como se dá nome a uma estrela? Como se dá nome a luz? Como se descreve energia? Não sei; tudo o que sei é que já tenho amor incondicional por esse ser que nunca vi antes, por esse desconhecido, desconhecida, que nunca disse nada, nem fez coisa alguma, mas já me deu tanta alegria.

Tic, tac, a barriga não para de crescer e o relógio de bater.

Tic, tac, o relógio pergunta:

- Pron Ta? Pron Ta? Pron Ta?

Ninguém nunca está pronta, relógio, não pega no pé, Alivia!

Leia os melhores artigos, das melhores revistas; vá a palestras, seminários, workshops; escute os conselhos da vó, da mãe, da tia e ainda assim, você não terá a menor idéia do que é carregar outro ser dentro da sua barriga.

Estar grávida, assim como amar, só se aprende na prática e por mais que tudo indique que é uma experiência onde felicidade e dor andam de mãos dadas; acredite, não há nada mais maravilhoso que ajudar a vida a transformar estrela em gente e depois mostrá-la, passo a passo, dente a dente, como brilhar tanto na terra, quanto ela brilhava no céu anteriormente.

A DRAG QUEEN E O PASTOR

Parada Gay, São Paulo

Milhares de pessoas saem às ruas para comemorar e homenagear o dia do orgulho gay. Estão todos por lá: Gays, Lésbicas, Transformistas, Transexuais, Bissexuais e também muitos casais heteros e famílias se espremendo em meio à massa que percorre as ruas de São Paulo.

As bandeiras da liberdade sexual e do amor sem restrições paira no ar, enquanto os pais tentam explicar aos filhos que os dois rapazes se beijando estão apenas expressando o quanto se amam e que a moça vestido de moço e o moço vestido de moça se vestem assim porque por dentro eles são mesmo assim.

Numa esquina da Consolação com a Paulista, um pastor reza usando a bíblia como berrante, pedindo perdão por aqueles pobres pecadores que transformavam São Paulo em Sadoma e Gamorra. Em seus olhos, a nostalgia de cenas de dias anteriores, onde as mesmas ruas foram ocupadas pelos milhares de soldados do Exército de Cristo. “Em um dia lavamos, Senhor; e no outro dia, eles sujam tudo. Perdoe-os Jesus, eles não sabem o que fazem.” Diz o pastor que continua armado com seus salmos e sua religião.

Uma Drag Queen que passa pelo pastor manda beijinho, mas o pastor responde com sermão e brada aos céus para que o Senhor cure aquele pobre homem doente. A Drag Queen continua a provocar o pastor e junta com outras transformistas e simpatizantes começam a cantar: “It’s raining men! Alleluia! Its raining men, Alleluia!”.

O Pastor responde com canções evangélicas e a luta continua por algum tempo, até que o combate é interrompido pelo carro de som que junto com a multidão leva a Drag Queen e seus amigos embora, deixando o Pastor que se sentindo vencedor, deixa a parada e volta pra sua igreja, pra casa, pra sua família.

Fim da Noite I:
A Drag Queen desaba na cama em meio às penas e lantejoulas. Ao lado da cama, a bíblia está aberta e em suas páginas, vê-se salmos marcados com tinta de caneta. O cansaço não a deixou fazer sua oração de todas as noites.

Fim de Noite II:
O Pastor finalmente chega em sua casa, depois de passar na igreja e contar a todos, a difícil batalha do dia. Ele beija sua mulher e seus filhos que já estão dormindo e antes de deitar para descansar, volta a orar; pedindo perdão, mas dessa vez o pedido é para si mesmo, pois andou sentindo de novo a influência do demônio ao passar pelo novo porteiro do prédio, um rapaz simpático e atlético de 22 anos. “Senhor, por favor, perdoe-me!” ora o Pastor com fervor, esperando mesmo que o desejo que invadiu seu corpo de novo seja apenas influência do capeta para afastá-lo da sua luta contra o mal.

Frank Oliveira

sábado, maio 24, 2008

A SABEDORIA DE SRY AUROBINDO

...Levanta teus olhos em direção ao Sol.

Ele está lá nesse maravilhoso coração de vida e luz e esplendor.

Observa, à noite, as inúmeras constelações cintilando como outras
tantas fogueiras solenes do Eterno no silêncio ilimitado, que não é
nenhum vazio, mas pulsa com a presença de uma única existência calma
e tremenda.

Olha lá Orion, com sua espada e cinto brilhando, como brilhou aos
antepassados Arianos há dez mil anos atrás, no começo da era Ariana;
Sírius no seu esplendor, e Lyra percorrendo bilhões de milhas no
oceano do espaço.

Lembra-te que estes mundos inumeráveis, a maior parte deles mais
poderosos que o nosso próprio, estão girando com velocidade
indescritível ao aceno desse Ancião dos Dias, a quem ninguém, exceto
Ele, conhece e, contudo, são milhões de vezes mais antigos que teu
Himalaia, mais firme que as raízes de tuas colinas e assim
permanecerão até que Ele, à sua mercê, sacuda-os como folhas murchas
da eterna árvore do Universo.

Imagina a perpetuidade do Tempo, considera a incomensurabilidade do
Espaço;e então lembra-te que, quando estes mundos ainda não
existiam, Ele era ainda o Mesmo.

Observa que além de Lyra, Ele está, e no longínquo Espaço onde as
estrelas do Cruzeiro do Sul não podem ser vistas, ainda assim Ele lá
está.

E então volta à Terra e considera quem é este Ele.

Ele está bem perto de ti.

Repara naquele homem idoso que passa perto de ti, abatido e curvado,
apoiado em seu bastão. Imaginas tu que é Deus quem está passando?

Há uma criança rindo e correndo ao sol. Podes tu ouvi-Lo nesse riso?

Não, Ele está ainda mais próximo de ti. Ele está em ti, Ele é tu
mesmo.

És tu que ardes lá longe, há milhares de milhas de distância, nas
infinitas extensões do Espaço, és tu que caminhas com passos
confiantes sobre os turbulentos vagalhões do mar etérico.

És tu que colocaste as estrelas em seus lugares e teceste o colar de
sóis, não com mãos, mas por este Yoga, esta Vontade silenciosa,
impessoal e inativa, que te colocou hoje aqui, ouvindo a ti mesmo em
mim.

Olha para cima, oh filho do Yoga antigo, e não sejas mais medroso e
céptico; não temas, não duvides, não lamentes, porque em teu
aparente corpo está Aquele que pode criar e destruir mundos com um
sopro.



- Sry Aurobindo -

(Texto extraído do maravilhoso livro "Sabedoria de Aurobindo" -
Editora Shakti.)

sexta-feira, maio 23, 2008

TOGETHER

Together
Bob Sinclar

Oh yeah we're back now, oh!
More bad news on the radio
Planet Earth she's about to explode, yeah.
The stars have lost their shine today
They have all been blown away
Together, only hope can be away

Let me hear you say

One day, we'll be together
We'll never be apart,
One heart, one mind yeah
One day we'll be together
Remeber this old world is yours and mine (yeah)

See that man with a pen and gun ?
Says its over for everyone (oh no)
No I don't believe it's true
But, I guess its up to me and you
Together, we will find a way through.

I believe in you

One day, we'll be together
We'll never be apart,
One heart, one mind yeah
One day we'll be together
Remeber this old world is yours and mine (yeah)...
Oh oh oh..

*********************************

TRADUÇÃO
JUNTOS

Oh yeah nós estamos de volta agora, oh!
Mais notícias ruins no rádio
Planeta Terra, ela está pronta pra explodir, yeah.
As estrelas tem perdido todo seu brilho hoje
Elas todas tem sido afastadas
Juntos, somente tenho a esperança de poder ir pra longe

Deixe-me te ouvir dizer

Um dia nós estaremos juntos
Nós nunca vamos nos separar
Um coração, uma idéia yeah
Um dia nós estaremos juntos
Lembre-se que esse velho mundo é seu e meu (yeah)

Ver esse homem com uma caneta e uma arma?
Diz o seu fim para todos
Não Eu não acredito que é verdade
Ainda que eu adivinhe pra você e pra mim
Juntos, vamos encontrar uma solução.

Eu acredito em você

Um dia nós estaremos juntos
Nós nunca vamos nos separar
Um coração, uma idéia yeah
Um dia nós estaremos juntos
Lembre-se que esse velho mundo é seu e meu (yeah)

QUE BOM SERIA...

Tarde de feriado. Cochilo da tarde.

Dor de garganta, remédio e o cochilo vira sono pesado. Sonhos, imagens, devaneios e percebo alguns sons, canções e vozes.

"Forever is not to be aware of it
Forever is having part of it
Forever is to be in it"

É a letra de uma canção que alguém canta pra mim, como se fosse canção de ninar.

" Happiness is not having knowledge of it
and even so, have no need to fix it
cause I don´t need to lose it"

Palavras em inglês sobre eternidade e felicidade: Uma vida perfeita e feliz seria nem precisar ter conhecimento das "coisas" e ainda assim ser feliz, sem precisar perder ou consertar algo, porque nem houve o desejo de aprender a perder algo em primeiro lugar. Ser uno com tudo, sem "precisar sentir ou estar".

Acordo, minha esposa no computador. A canção continua a tocar na minha cabeça: "Forever is not to be aware of it...".

- Auri, um caderno e uma caneta, por favor?

Minha esposa rapidamente me passa o que pedi, mas não consigo escrever. Tento, mas as letras não formam nada além de rabiscos e eu mal consigo ver a folha. Minha visão começa a ficar sem foco e o caderno vira uma imagem distorcida...

"Cai na casca de cebola errada", penso, e em seguida desperto de novo e vejo a Auri no computador. A canção já não toca da mesma forma, mal consigo lembrar todos os versos.

- Auri, um caderno e uma caneta, por favor?

Antes que eu escreva, olho pra ela me entregando o caderno e a caneta, e por alguns segundos tenho dúvida se estou ainda dormindo ou acordado, mas decido acreditar nessa parte da cebola... e escrevo algo totalmente diferente daquilo que escutei:

QUE BOM SERIA...

Que bom seria
Se eu pudesse ser e não estar
Se eu nem precisasse errar
Se eu pudesse...
Que bom seria

Que bom seria
Se eu pudesse ser apenas parte de...
Ser o que eu preciso ser
Ter o que eu preciso ter
Seria bom

Que bom seria
Não ter consciência de...
E mesmo assim bem viver
e mesmo assim não pagar para ver
Bom seria

Que bom seria
Amar por amar
Cantar por cantar
Ser sem estar
...


Frank Oliveira

terça-feira, maio 20, 2008

AS PORTAS DA PERCEPÇÃO E O CHÃO DO BANHEIRO

Tive um desses insights que nos trazem grandes lições de vida enquanto lavava o banheiro. Eu não sabia se era o cheiro da cândida ou a poeira do espelho, mas minha mente projetou-se pelo infinito e ví a mim mesmo, velho e menino. Eu poderia ter escutado o que os meus alter egos queriam conversar comigo, se não tivesse escorregado
e quase caído de cara na pia e fiquei a reclamar: por que não sou como os outros caras e tenho esses momentos durante a terapia de vidas passadas e futuras , na meditação transcedental ou repetindo mantras que signifiquem "salve a jóia da alegria"?

Nãaaaooo!!! Eu tenho que ser diferente. Como ocorreu esses dias: estava escrevendo um trabalho escolar na biblioteca e percebi que minha mão direita se movia contra a minha vontade. ESTAVA PSICOGRAFANDO! Gritei, a bibliotecária olhou, mas o que li, desfez o
encanto: "Acorda e se concentra no trabalho, o prazo está acabando!". Era o meu próprio subconsciente lembrando que com a espiritualidade, não há amparador melhor que o bom senso - alguns nascem para ser mensageiros, outros para serem médiuns de si mesmo.

A noite em casa, relaxei e fiz minhas práticas para durante a noite, quem sabe, sair um pouquinho da casca. Tudo muito bem feito: casa limpa, chacra por chacra e uma vontade louca de ajudar e é claro, também voar. Algum tempo depois, me encontro lá fora, batendo que
nem um maluco na porta, querendo entrar. Tanto esforço para sair e distraído demais para sacar que estava onde queria estar. Quantos micos mais preciso passar?

Só não desisto desse tal caminho espiritual, porque depois de descobrir certas verdades, fica mesmo impossível voltar a ser o babaca que só passava o tempo todo a lamentar, mas um dia viro Mickey e deixo de ser pateta nessas experiências espirituais que mais parecem desenho do Walt Disney.

Frank Oliveira

domingo, maio 18, 2008

INTRANSITIVO

Nas margens do Rio Tietê, eu sentei e tapei o nariz: o fedor estava de danar! Fechei o vidro do carro e olhei para a minha amiga Valéria que deu a partida e seguimos, ou melhor, tentamos seguir pelo trânsito paulistano.

Quanta gente, quanta agonia. Valéria e eu olhavámos os milhares de carros e tentavámos jogar conversa fora, na vã ilusão de ver o tempo passar e o espaço entre onde estavámos e onde queríamos chegar diminuir, mas nada: estavámos nos movimentando a 2 kms por hora, e não havia acidente, obras na estrada, na rodovia, nada além de mais carros nas ruas que São Paulo poderia suportar.

- Se ao menos, uma boa parte desse pessoal fizesse o que estamos fazendo - disse Valéria, mas leitores tirem o sorriso maroto dos lábios, minha nobre amiga referia-se apenas ao ato de dar carona a um amigo e diminuir, ao menos, mais um veicúlo que poderia estar tentando nos atravessar.

Quanta coisa experimentamos quando estamos preso no trânsito. Descobrimos os mil tons da palavra não, sendo dirigidas para as centenas de ambulantes, trapezistas, malabaristas que se multiplicam mais que os carros na pista. Testei todos os exercicios de respiração mata-stress e só fiquei mais estressado. Descobri que os motoboys são mais assustadores que o fantasma da inflação e que nem Buda teria tanta paciência para aguentar calado, a tartaruga ganhando a corrida. Tentei até fechar os olhos e vizualizar que eu estava em casa, numa cama quentinha, mas o som das buzinas tratou de me colocar no meu devido lugar.

O lado bom é que eu tinha alguém para conversar e Valéria logo, voltou a contar os seus "micos amorosos" e não há nada melhor do que enfrentar uma situação sem solução, do que com boas risadas. Rir pode ser uma verbo intransitivo, mas é sempre bom, com ou sem complemento e quando estamos presos no trânsito é a melhor maneira de voltar para casa.

sábado, maio 17, 2008

PROFESSAR

Quando o Sábado chegou, no lugar das nuvens, o céu estava repleto de traços e linhas. Era claro! O Grande Artista estava pintando o mundo, quando foi surpreendido pelo dia.

Olhando para o céu, estava Odlavir, que poderia estar dormindo, mas feito passarinho, saiu bem cedo do seu ninho. Ninguém gosta de trabalhar no final de semana, mas naquela manhã fria, ele não desejava estar em qualquer outro lugar, além do banco daquele ônibus que rumava para Osasco. A aula começava ás 8:00 e ele tinha aulas para dar.

Não há nada melhor no mundo que fazer o que se gosta. Alguns pintam o mundo, outros ensinam. Ser professor pode não pagar as contas, mas quem dá aulas não quer fazer outra coisa.

Assim como ninguém presta atenção aos pincéis do Grande Artista recriando o mundo todos os dias, ser professor é trabalhar nos bastidores para o desenvolvimento das pessoas. Ás vezes, eles são surpreendidos pelas contas; outras vezes pelos alunos preguiçosos demais para pensar; mas quando percebem que plantaram uma sementinha de discernimento na mente entorpecida; ou que o gosto pelo pensar está prestes a germinar, eles se dão conta do quanto o seu trabalho é importante e , seja em qualquer dia, ou em qualquer lugar; eles não desistem do que devem e fazem por prazer, afinal quem ensina segue adiante com a sua sina: há todo um mundo para ajudar a despertar e não há hora alguma para reclamar.

sexta-feira, maio 16, 2008

CAJAZEIRAS DO MUNDO

Cajazeiras tem gosto de siriguela, gibis trocados e Cristo Redentor
Tem gosto de Açúde Grande, de Pedra do Sapo, rabo de gato e povo trabalhador
Tem gosto de guri, de Robinho, de Claudio, de Helânio e de José Allan
Tem gosto de umbanda, de catomblé, de cururu, sol da manhã


Não nasci por lá, mas acabei por ali, tomando jeito de gente
Da Esperança até o Polivalente,
fui aprendendo a compor poesia, escrever assim meio mambembe

Se hoje, sou quem sou, carne, osso e dente;
em parte foi por ter vivido lá,
e ter provado do oxi e do oxente

Da rapadura de caju, da feira ao lado do cemitério,
fui crescendo assim, meio moleque, nunca tão sério;
até me tornar um escritor da Paraíba, experimentando um pouquinho de tudo
e escrevendo sobre cada parte desse planeta com a pena de um Paraíba Vagamundo

Frank Oliveira

Nota do autor: Cajazeira é a árvore da família das anacardiáceas (Spondias lutea), muito freqüente nas várzeas e nas matas de terra firme argilosa do Amazonas, folhas compostas de muitos folíolos oblongos, flores insignificantes e agregadas em inflorescências racemosas, e cujo fruto é uma dupla elipsóide amarela, aromática, muito sucosa e fortemente azeda, própria para refrescos e sorvetes. Foi exatamente a árvore cajazeira que deu origem ao nome da Fazenda Cajazeiras e conseqüentemente ao município.
Fonte: http://www.achetudoeregiao.com.br/pb/cajazeira/historia.htm

Cântico da Estrada Aberta - Walt Whitman

A pé, coração alegre, sigo em direção da estrada aberta,
Sadio, livre, o mundo a minha frente,
O longo caminho marrom a minha frente conduz-me para onde acho que convém.
Daqui para frente, já não peço boa sorte, pois eu mesmo sou a boa sorte,
Daqui para a frente, não mais me queixarei, não mais adiarei, nada mais necessitarei,
Porei fim às lamentações interiores, bibliotecas, críticas lamurientas,
Forte e contente, sigo em direção da estrada aberta.
A terra é suficiente para mim,
Não desejo que as constelações estejam próximas,
Sei que elas estão muito bem onde se situam,
Sei que elas bastam aos que lhes pertencem.

(Até aqui transporto os meus antigos e deliciosos fardos, transporto-os - homens e mulheres - , transporto-os para onde quer que eu vá.
Juro ser para mim impossível libertar-me deles,
Estou deles saturado, e em troca, eu os saturo.)

Tu, estrada por onde entro e olho em redor, creio que não sejas tu quando aqui está,
Creio que existem muitas coisas invisíveis.
, os enfermos, os analfabetos não são repudiados;
O parto, a procura apressada do médico, o indigente andarilho, o bêbado cambaleante, o bando de operários com suas gargalhadas,
O jovem em fuga, a carruagem dos abastados, o almofadinha, o par em fuga para o casamento,
O mercador madrugando, o carro fúnebre, o movimento de mudanças na cidade,
Eles passam, também eu, todas as coisas passam, ninguém pode ser interditado,
Ninguém que não seja aceito, ninguém que não seja querido por mim.

Tu, ar que me ajudas com alento para que eu fale!
Vós, objetos que convocais da difusão meus intentos, dando-lhes forma!
Tu, ó luz que me envolves, e a todas as coisas em tuas ondas delicadas e equânimes!
Vós, veredas esbatidas, nas irregulares depressões à margem dos caminhos!
Creio que preservais, latentes, existências invisíveis, e sois tão queridos para mim.
Vós, avenidas embandeiradas das cidades! vós, guarnições laterais! vós, navios distantes!
Vós, casas enfileiradas! vós, fachadas cheias de janelas! vós, tetos!
Vós, terraços e entradas! Vós cumeeiras e grades de ferro!
Vós, janelas cujos vidros transparentes permitiram ver tantas coisas!
Vós, portas e degraus ascendentes! vós, pisoteados cruzamentos!
De tudo quanto tenha tocado em vós, creio que conservastes algo em vós, e agora quereis comunicar-me o mesmo secretamente,
Dos vivos e mortos povoastes vossas impassíveis superfícies, e os espíritos deles se agradariam de ser evidentes e amáveis a mim.

A terra expandindo-se à direita e à esquerda,
O quadro vivo, cada aspecto com sua melhor luz,
A música vibrando onde á solicitada, e cessando onde não é desejada,
E a alegre voz da estrada aberta, o alegre e suave sentimento da estrada.
Ó via principal por sobre a qual caminho, tu me dizes: Não me abandones!
Tu me dizes: Não te aventures, pois se me deixares, estarás perdido!
Tu me dizes: Já estou preparada, bem pisada e jamais recusada, adere a mim!
Ó estrada aberta, respondo-lhe que não temo deixar-te, embora amando-te,
Tu me exprimes melhor do que posso eu exprimir-me,
Serás para mim mais do que meu poema.

Penso que os feitos heróicos foram todos concebidos sob o céu aberto, e também todos os poemas livres.
Penso que poderia fazer uma parada aqui e operar milagres,
Penso que gostarei de tudo quanto encontrar pela estrada,
Penso que todos quantos eu vir, devem ser felizes.

Desta hora em diante, ordeno a mim mesmo que me liberte de limites e linhas imaginárias,
E, como meu próprio senhor total e absoluto, caminharei para onde eu quiser,
Ouvindo os outros, considerando bem o que eles dizem,
Parando, investigando, recebendo, contemplando,
Gentilmente, porém com irrecusável vontade,
Despindo-me dos embaraços que me poderiam entravar.
Sorvo grandes tragos de espaço,

O leste e o oeste são meus, e o norte e o sul também me pertencem.

Sou mais extenso, melhor mesmo do que pensava,
Não sabia que em mim havia tanta bondade.

Tudo parece belo para mim,
Posso repetir a homens e a mulheres, pois tanto bem tendes feito a mim que eu gostaria de fazer o mesmo a vós,
Recolherei para mim mesmo e para vós, quando caminhar,
Disseminarei a mim mesmo entre homens e mulheres quando caminhar,
Espalharei uma nova alegria e rudeza entre eles,
E se alguém me negar, não me preocupará isso,
Pois quem quer que me aceite será abençoado e me abençoará.(...)

Vamos! Quem quer que sejais, vinde peregrinar comigo!
Peregrinando comigo, encontrareis o que jamais se cansa,
A terra jamais se cansa, a terra é rude, quieta, incompreensível a princípio, a Natureza é rude e incompreensível a princípio,
Não vos desencorajeis, persisti, pois existem coisas divinas muito ocultas,
Asseguro-vos que existem coisas divinas mais belas do que as palavras podem descrever.
Vamos! não devemos parar por aqui,
Por mais doces que sejam estas coisas armazenadas, por mais conveniente que esta morada pareça, não podemos deter-nos aqui;
Por mais seguro que seja este porto e por mais calmas que sejam estas águas, aqui não devemos ancorar;
Por mais acolhedora que seja a hospitalidade em nosso redor, é permitido a nós recebê-la por um lapso de tempo.

Vamos! os estimulantes serão maiores,
Navegaremos pelos ínvios mares selvagens,
Iremos para onde os ventos sopram, e as ondas se arremessam, e o veleiro yankee se acelera sob velas soltas.
Vamos! com poder e liberdade, a terra e os elementos,
Saúde, altivez, jovialidade, auto-estima, curiosidade;
Vamos! para além de todas as formas!
Para além de vossas fórmulas, ó sacerdotes materialistas com olhos de morcego.
O cadáver putrefato bloqueia a passagem - não muito longe aguarda o sepultamento.

Vamos! antes, porém, tomai o aviso!
Aquele que comigo segue necessita do melhor sangue, músculos, resistência,
Ninguém se atreva a acompanhar-me, mulher ou homem, se não trouxer consigo coragem e saúde,
Não chegueis aqui, se já tiverdes gasto o melhor de vós mesmos,
Somente podem vir aqueles que venham com o corpo saudável, e resoluto,
Nem os enfermos, nem os alcoólatras, nem os deteriorados terão acesso aqui.

Eu mesmo e os meus não convenceremos com argumentos, símiles, rimas,
Nós nos convenceremos apenas com a nossa presença.

Ouvi! serei honesto convosco,
Pois eu não ofereço os velhos e refinados prêmios, mas ofereço novas e árduas recompensas,
Estes são os dias que vos sobrevirão:
Não acumulareis aquilo que se chama riqueza,
Dissipareis com generosa mão tudo quanto conseguirdes ou ganhardes

Apenas chegados à cidade para a qual tenhais sido destinados, dificilmente instalar-vos-ei satisfatoriamente, antes que sejais convocados por irresistível partida,
Tratareis com risos irônicos e zombarias aqueles que permanecem por detrás de vós:
Sejam quais forem os acenos de amor que receberdes, somente respondereis com apaixonados beijos de despedida,
Não permitireis o controle por parte daqueles que estendem suas astutas mãos para vós.

quinta-feira, maio 15, 2008

TRICOLORES

Meu pai era botafoguense, meu irmão mais novo vascaíno e o mais velho, flamenguista. Eu me tornei fluminense. Ninguém na família era carioca, nem tão pouco, morava no Rio de Janeiro, mas desde cedo aprendi em casa, o verdadeiro significado da palavra respeito pela opção alheia. Não me perguntem o porquê, mas as ruas de Brasília eram enfeitadas com as cores das bandeiras cariocas e paulistas.

Os bons ventos levaram meu pai para ser parte dos torcedores das nuvens e minha família para recomeçar o jogo num outro campeonato da vida em São Paulo. E como todo novo “paulistano”, de todos os times desfilando nas passeatas dos bairros, optei pelo tricolor paulista; talvez em uma tentativa de ainda manter a paixão de infância pelo outro tricolor do Rio.

Nunca fui “fanático” pelo São Paulo, sempre fui um torcedor brando. Se fui torcedor de carteirinha e camisa de time um dia, isso ficou na infância. Nunca fui num estádio, nem sei o nome dos jogadores, mas acompanho o placar dos jogos e torço em silencio por suas vitórias.

Ontem à noite, o São Paulo e o Fluminense jogaram no Morumbi, por uma vaga na disputa pela Taça Libertadores da América. A Disputa dos dois tricolores teve um impacto estranho no torcedor que há em mim: sentados no sofá, assistindo o jogo, estava de um lado, o adulto zen torcedor e do outro lado, a criança barulhenta, torcedora roxa. Enquanto o adulto devorava um prato de aperitivos e tomava sua cerveja; a criança se esbaldava com pipoca e iogurte. O moleque vibrava toda vez que o fluminense ameaçava e o adulto se retorcia quando a ameaça parecia eminente.

Quando o adulto finalmente gritou gol, o moleque calou-se aborrecido. O adulto virou criança em sua comemoração e o moleque virou adulto na sua raiva temporária. Porém, ao fim do jogo – belíssimo por sinal – o adulto e a criança se uniram num longo abraço e o jogo terminou com as três cores mais bonitas do futebol: espetáculo, profissionalismo e paz entre as torcidas.


Frank Oliveira

ANIMA

Desde os primórdios o homem percorre os quatro cantos do mundo em busca de experiência, ao mesmo tempo em que internamente procura a essência do que ele é, do que representa.

Da África as terras européias, das tribos massais aos tambores celtas, o aprendizado corre nas veias da alma, que anima, que o faz seguir em jornada.

Das margens do Rio Ganges as muralhas da China, das montanhas da Mongólia até as terras da Sibéria; esses homens continuam em sua caçada por felicidade ou por alguma verdade que os faça lembrar que já foram estrelas, antes de cair no mar.

Atravessando estreitos de gelo, descendo a América abaixo, dos Maias aos Incas, dos Tupis-Guarani aos Astecas, esses homens até hoje viajam por toda a terra sem temer o perigo que deixar tudo pra traz representa.

Então levanta, homem-estrela, e anda.

Sai do barro, desce das árvores e caminha pela terra que é sua, nossa, minha.

Ouve o chamado do vento e descubra o que se esconde por tráz do horizonte, não pergunte aonde, apenas siga, descubra, avance.

Levanta homem e prove da maçã, sinta o sabor do conhecimento e o doce licor da sabedoria. Percorra esse mundo, chore de alegria; experimente o que há por fora, o que há por dentro, pois se Deus é o Criador, o homem co-cria.

quarta-feira, maio 14, 2008

HERANÇA ABORÍGENE

Ao cair da noite, o chamado ecoa pelo ar. O ancião aborígine no alto da pedra vermelha gira um instrumento que ao entrar em contato com o ar emite um som que lembra o bater de asas de um pássaro gigante.

A celebração da Terra está prestes a começar.

A fogueira ilumina o lugar, as sombras brincam nos rostos de cada homem que vai chegando e tomando sua posição no círculo ao redor do fogo. Com a pele tingida de branco e lanças torneadas com fitas vermelhas, os aborígines começam a dançar e a cantar. O ritmo é mantido pelas batidas dos pés, pelo digeridoo (um instrumento de sopro) e pelo canto que ora lembra o som das batidas do coração, ora parece ser a própria noite gritando: Estou chegando!

Não demora muito e todos parecem ter entrado numa espécie de transe.O ancião fala alguma prece em meio a música, deixando todos que estão assistindo a apresentação com uma estranha sensação que só pode ser descrita por: Uau!!!

- É tão místico, né meu bem? - Fala uma mulher do meu lado para o seu marido.

- Místico? - penso comigo – Não tem nada de místico não, dona. É só outra cultura que temos aqui nesse planeta, com uma historia única, recheada de significado, sabedoria e poesia, de um povo, que por uma razão ou outra, decidiu viver de uma maneira diferente da que escolhemos.

A cultura aborígine é uma das mais ricas e antigas do mundo e vivem por milênios na região, que hoje é conhecida como Austrália. Durante boa parte da sua convivência com os “descobridores”, eles foram massacrados, roubados e quase tiveram a sua cultura e fé destruída pela boa intenção “branca” de modernizar o primitivo, mas apesar de tudo, sua cultura ainda permanece forte e bela. Essa apresentação, junto com o lançamento de um filme, exposição fotográfica e palestras, tentam levar ao mundo um pouquinho da cultura e luta desse povo para permanecer na terra dos seus ancestrais.

O espetáculo continua, e a dança da terra termina de forma brusca dando lugar a uma fumaça que representa o mundo do sono. A Dança dos Sonhos esta prestes a começar. Eles dançam e na tela por detrás dos dançarinos, surgem imagens de pinturas lindíssimas que representam os sonhos e seus significados.

Para o aborígine, sonhar é uma oportunidade preciosa de conhecer sobre a própria vida e o papel de cada um no mundo; além de ser inspiração para poesias, músicas e todo tipo de arte. Desde criança, eles são educados a prestar atenção e tentar lembrar dos seus sonhos, por que ao sonhar, eles acreditam que o espírito de cada pessoa entra em outro mundo e pode conversar com seus antepassados.

No final da apresentação, as palavras do ancião foram traduzidas para todos:

“Para o nosso povo, a Terra é a base de nossa existência. Desde cedo, aprendemos que ninguém possui a terra, é ela quem nos possui. Há terra para todos, terra o bastante para vivermos em paz cultivando e cuidando dela, mas parece que todos os outros povos estão mais preocupados em possuir a terra dos outros do que cuidar da sua.

O sagrado não se encontra na crença que precisamos cuidar bem da terra e um do outro, mas sim na própria ação.

Nosso povo há séculos vem passando de pai para filho a tradição do bem cuidar do nosso lar. Essa tradição que é a nossa herança. Essa herança não é só para os nossos filhos, mas pra todos aqueles que se interessem pela nossa cultura.

Ao cuidar da terra ou um do outro o efeito é como o vôo de um bumerangue, pode demorar, mas ele sempre volta para você.”

Todos se levantam e aplaudem com entusiasmo. O ancião sorri junto com os dançarinos. Nos seus olhos um brilho de quem sabe que apesar da maioria das pessoas estarem ali só pelo exótico de observar uma apresentação como aquela, outra boa parte conseguiu enxergar a beleza e sabedoria por trás do diferente. O recado estava dado.

Londres 2003

terça-feira, maio 13, 2008

PASSOS DA ALMA

Dou um passo para frente, volto duas casas para trás. Lembro por um segundo da minha casa na praia do infinito e logo depois tudo se vai numa onda, vira lembrança de sonho ou promessa de político. O que há com essa tal da espiritualidade? Que força é essa que me impede de lembrar?

Até parece conspiração. Desconfio que deva haver Homens de Preto apagando a minha memória, logo depois que eu vislumbro um pedacinho da vastidão do universo; só assim para explicar porque aquela lembrança de projeção da consciência que era tão forte e real ontem a noite, agora mais parece devaneio, ilusão criada por reações químicas provocadas por falta de oxigênio no cérebro; mas eu sei que se forçar um pouquinho a memória, e a mente racional não atrapalhar, consigo até lembrar da cor das asas e da euforia de voar pela Rua do Carmo, meio torto, meio caindo; sentindo uma extrema sensação de liberdade e familiaridade.

Um pequeno passo da alma e um gigantesco salto para o ego. Sou leve, sou folha ao vento. Sou Fernão Capelo Gaivota, sou pássaro preto. Livre da gaiola, abraçando o mundo. O céu convida para a dança e eu bailo pelo ar.

Queria planar assim por horas, mas caio do cavalo astral e abro os olhos no corpo físico. A lembrança ainda ao lado, deitada na cama, entre eu e minha mulher.

- Auri, voei de novo! – acordo a esposa. Ela ouve, será que escuta?

- Claro! – diz ela - Se for voar de novo, não se esqueça de fechar a janela, está frio!

segunda-feira, maio 12, 2008

BASTIDORES DE UMA ENTREVISTA

- Boa noite, senhoras e senhores, hoje à noite, com EXCLUSIVIDADE, entrevistaremos em nossos estúdios, dois SOBREVIVENTES das TRAGÉDIAS que abalaram não apenas dois países, mas todo o MUNDO – diz a repórter, depois de ter escutado em seu fone, as ordens do diretor para intensificar a voz nas palavras exclusividade, sobreviventes, tragédias e mundo.

A câmera desvia do rosto da repórter e aponta para o rosto das duas mulheres asiáticas que serão entrevistadas.

- Ching Ying e Naingngandaw são sobreviventes dos dois grandes desastres que abalaram a Ásia: Ching do terremoto que matou 8.000 pessoas na China e Naingngandaw do Ciclone que segundo estimativas já causou a morte de 32.000 pessoas na Birmânia ou Miamar.

Em um rápido flash, imagens das duas tragédias surgem na tela da TV: crianças subnutridas, parentes chorando suas vitimas, casas destroçadas, corpos boiando nas águas, tudo sob uma trilha sonora instrumental melancólica, que aumenta o tom, toda vez que a imagem se centraliza no rosto de um pobre desafortunado.

- Entrevista primeiro a Miamense ou a Birmanense. Sei lá! – ordena o Diretor – Entrevista a mulher com os olhos menos puxados.

A repórter obedece, e o cinegrafista aproxima a lente do rosto da mulher.

- Senhora Naingngandaw – diz a repórter – Como foi assistir IMPOTENTEMENTE a sua FAMÍLIA ser LEVADA pelas ÁGUAS?

Close no rosto da mulher. Não há lágrimas, apenas uma ira pulsante em seus olhos.

- Pior foi assistir o meu governo recusar ajuda internacional em nome da política. – diz a mulher, quase gritando. - Tragédia não foi o Ciclone, pior é a ignorância humana!

- Corta! – ordena o Diretor.

- Estamos ao vivo – revela o cinegrafista.

- Muda para a outra asiática. AGORA!!!- grita o Diretor. - Ninguém quer saber de política. O ibope desceu dois números. Pula para a outra entrevistada!

- Senhora Ching – diz a repórter, improvisando e sentando-se ao lado da Chinesa – Como foi para a senhora, a experiência de ver toda A SUA FAMÍLIA ser enterrada VIVA durante o TERREMOTO?

A chinesa segurava um tigre de pelúcia em suas mãos e começa a contar sua estória com tristeza:

- Esse tigre pertencia a minha netinha – diz a mulher emocionada.- Ela era tudo pra mim.

- Close no tigre! - ordena o Diretor para o cinegrafista. - A audiência está subindo de novo.

E a entrevista continua...

- Só Deus sabe de onde preciso tirar forças para continuar – diz a mulher e a imagem vai subindo do tigre para o seu rosto que ameaça virar uma cachoeira.

- Isso mesmo! – grita o Diretor – Faça as perguntas que fazem chorar!

- Como é chegar em casa e não ENCONTRAR NINGUÉM, nem mesmo a sua CASA? – pergunta a repórter e o rosto da mulher vira mar de tanto chorar. Quanto mais ela chora, mas a audiência vai aumentando - Dói, não? – complementa a repórter que também desata a chorar.
- Continua – manda o Diretor - vamos bater o recorde de público!!! Agora, faça a pergunta para fazer a audiência chorar.

- E você em casa?- diz a repórter, olhando para a câmera. - Olhe bem seus parentes ao seu redor, aqueles que você ama, e medite nisso: essa tragédia poderia ter ocorrido com você!

Naquele momento em milhares de casas; cada indivíduo que assistia a entrevista, começa a chorar e as lágrimas aumentam ainda mais, quando a mesma música triste é tocada, as mesmas imagens da tragédia são mostradas, os mesmos closes nos rostos das pobres vitimas,numa exposição interminável desses desastres que diminuem a vida de uns e aumentam a fortuna de outros.

TODO DIA É DIA DAS MÃES

- Todo dia é dia de mães!- eu disse. Minha esposa não respondeu. Domingo, estávamos indo para a casa das nossas respectivas mães – Não vou entrar nessa onda da mídia; nessa propaganda para a massa gastar dinheiro com presentes.

- Sei...- disse ela.

- Verdade! Eu vou almoçar com ela; vou enchê-la de abraços e beijos; afinal, não há presente melhor para uma mãe que a presença dos filhos.

- Ok, mas se mudar de idéia, ainda dá tempo comprar algo bacana! – ela respondeu.

Não mudaria de opinião. Eu estava tranqüilo e tinha certeza da minha decisão. Se havia algo que abomino é hipocrisia e o poder de indução à multidão. Eu não compraria nada porque o comercial mandou. Chega de manipulação.

Dentro do ônibus, que visão mais patética ver toda aquela gente com pacotes embrulhados, flores e olhares de dever cumprido. Durante todo o ano, eles tratam suas mães como lixo; e no segundo domingo do mês de Maio, a redenção vem embrulhada num perdão comprado e embrulhado para presente. Eu não!!!

Graças aos Deuses, eu tinha uma relação maravilhosa com a minha mãe e o fato de aparecer em sua casa de mãos vazias não significava que o meu coração estava oco.

- Você mora por aqui? – puxou papo um homem sentado no banco ao lado.

- Não!

- Vai visitar a sua mãe?

Não precisava ser um gênio para adivinhar isso.

- Isso! – respondi

- Não deu tempo comprar um presente? – ele perguntou, olhando para as minhas mãos.

Por essa razão, eu prefiro carro a ônibus. Você não corre o risco de sentar ao lado da sua consciência; nem que ela seja o grilo falante.

- Não é isso! – respondi, já com um tom irritado – Eu acredito que o melhor presente para a minha mãe é a minha presença. Esse negócio de presente obrigatório é produto do marketing das grandes empresas que adoram criar “datas especiais” para faturar mais.

- Compreendo – ele respondeu, fez uma pausa e tornou a falar – Não sei quanto a você, mas comemoro o meu nascimento todos os dias, afinal, cada dia é uma vitória; mas o dia do meu aniversário é mais especial. É o mesmo para as mães. Todos os dias é Dia das Mães, mas hoje é um pouquinho mais especial. Por isso, seja lá o que você faça, não transforme esse dia em coisa comum para ela.

Hum...era só o que me faltava!!!

- Obrigado pelos conselhos – respondi por educação, mas para me livrar daquela conversa, desci no próximo ponto (Cinco pontos antes da casa da minha mãe); bem em frente a uma floricultura. Enquanto esperava o outro ônibus, eu fiquei olhando para as rosas, as rosas olharam para mim. Maldito, Grilo Falante...

Alguns minutos depois, bati na porta da minha mãe e ela atendeu com um sorriso do tamanho da rua.

- Feliz Dias das Mães! – falei, abraçando-a.

- Obrigada, filho! – ela respondeu sorrindo.

- Não trouxe presente – fui logo falando.

- Meu maior presente é você – ela respondeu – está com fome?

Ela serviu algo para eu comer e jogamos conversa fora. Enquanto tomava café, percebi uma rosa embrulhada em plástico, com o seu caule descansando dentro de um copo d’água.

- Ganhou uma rosa, mãe?

- Não. Na verdade, comprei essa rosa na feira para dar para sua irmã. Ela é meu bebê, mas não posso esquecer que também é mãe.

DIM DOM!

Campainha. Ela vai até a porta. Nada vejo, apenas escuto:

- Dona Maria das Graças? – diz uma voz masculina.

- Sim.

- Esse buquê de rosas é para a senhora!

Quer saber? Bendito seja o Grilo Falante. Muito se fala do amor de mãe, mas não há nada mais gratificante para um filho do que ver sua mãe chorando de alegria e emoção.

sábado, maio 10, 2008

SEMÁFORO

- Só falta 15 reais para a gente ir pra casa! - disse a guria para a irmã mais velha. Devia ter uns 05 anos, mesma idade da menina Isabela; estava descalça, pacote de balas nas mãos, indo de carro em carro, janela a janela, oferecendo sua mercadoria no semáforo.

Vejo a sua mãe sentada sob a sombra de uma árvore. A violência mais cruel, muitas vezes, não envolve agressão fisíca.

A história dessa menina não vende jornal, nem revista. Não dá ipobe, nem causa comoção popular e eu me pergunto: por que será? por que será?

Frank Oliveira

sexta-feira, maio 09, 2008

25 DE MARÇO

O céu estava sem nuvens, refletindo um azul límpido em meus olhos. Eu descia a rua pela contramão: o vento soprava para cima e eu o empurrava para baixo. Descida cumprida naquela manhã fria de outono. O frio, peixe fora d’água, tornava inverno a cidade das quatro estações por dia e obrigou-me a usar vestimenta de urso polar em terra de andorinhas. Foi vestido assim que encontrei a minha companheira em frente da igreja de São Bento. Ela sorria, eu não: fui intimado a visitar ás águas do rio 25 de Março, num sábado de manhã.

Do alto da ladeira Porto Geral, observei a multidão de siris, caranqueijos, peixes e tubarões. Orei aos Deuses do Olimpo e ao Frei Damião, e descemos juntos em direção a massa de som, cheiro e confusão.

Minha amada desejava comprar uma câmara fotográfica de última geração, que diziam as lendas, seria encontrada em alguma dessas galerias escuras, cheias de Yong, Chong e Joãos.

Navegar pela 25 de Março é um desafio de coordenação e paciência. Ora éramos jogados para um lado, ora nem sabíamos onde estávamos.

Depois de fugir das lulas e dos vendedores de abacaxi cortado, chegamos à galeria com nome de índio e sob a fumaça de churrascos gregos e turcos, chegamos as lojinhas onde para compreender preços e detalhes técnicos, teríamos que falar fluentemente coreano:

- Quanto custa à câmara?

- Il entothenta – respondeu o coreano.

- I beg your pardon???

Senti saudade de ouvir “la garantia soy yo”, mas continuamos nossa jornada pela terra eletrônica do sol nascente e depois de barganharmos em coreanos, árabe e javanês, achamos a máquina e o preço ideal.

- Quer comprar a vista ou no cartão? – perguntei a companheira.

- Vamos embora, compramos outro dia! – disse ela.

- O quê? Achamos o melhor preço. Não era essa a máquina que você procurava?

- Sim, mas acho que consigo um preço melhor em outro lugar.

Respirei fundo; a coreana notando que me alterei, saiu de perto. Minha esposa nem percebeu, pois falou em seguida:

- Eu vi umas bolsas numa loja do primeiro andar. Vamos lá?

Fomos lá e depois mergulhamos novamente na massa. O frio continuava a soprar inverno em São Paulo; o céu claro a evocar lembranças de verão e o abacaxi cortado, o qual não consegui mais evitar, fez ao menos valer à pena a viagem por aquele rio das compras perdidas.

Frank Oliveira

quinta-feira, maio 08, 2008

A LUA GRÁVIDA

Qual é a sua primeira lembrança da vida? A barba do papai Noel caindo e você descobrindo a identidade secreta do seu pai? Sua mãe tirando do forno um bolo de chocolate cheiroso e quentinho? Crianças brincando na rua?

A minha primeira memória dessa vida é a lua grávida.

Era uma noite de verão sem nuvens. O clima quente combinava com sorvete e minha família estava passando o Domingo no Parque Píton Farias em Brasília. Foi lá que me dei conta que era gente; foi vendo a lua que despertei para a vida.

Estranho, o alcance da nossa memória. Até onde naturalmente conseguimos recordar nossas experiências? Conheço pessoas que se lembram dos tempos em que engatinhavam; outros juram de pé junto, que se lembram da época em que o mundo tinha o tamanho e o formato de um útero, e com essa onda de regressão, tem gente até lembrando que era a Carlota Joaquina ou Dom Sebastião. Eu só me lembro da lua gigante e cheia no céu. A partir desse primeiro luar, percebi que era menino; que meu pai era tão grande quanto os pinheiros do parque, que meu irmão era um pentelho e que minha mãe estava tão cheia quanto à lua. Desse momento em diante, meu mundo se tornou cronológico: ano por ano, fui começando a contar idade e experiência.

Dias depois vi a lua de novo, mas ela estava magrinha, pela metade. Corri pro meu pai e perguntei o que houve com ela. Ele olhou a lua pela janela, suspirou e respondeu:

- A lua estava grávida igualzinho a sua mãe, filho; e seu bebê virou luz!

quarta-feira, maio 07, 2008

FENÔMENO

Olhos curiosos que observam
Dedos cruéis que apontam
Aqui jaz um fenômeno de menino,
perdido na solidão de ser um ídolo.

Menino que provocava gritos
de euforia com as suas arrancadas,
e alegria infinita
quando a bola surrava a rede.
Menino Valente em eterna guerra
dos joelhos.
Homem perdido na ilusão
das batalhas do peito.

Menino elevado ás alturas pelo povo,
virou anjo caído pela torcida
da moral, dos bons custumes e da hiprocrisia.

Que jogue a primeira pedra
quem nunca jogou nos campos das bolas furadas.
Que se olhe no espelho
Quem nunca foi julgado injustamente
pelo dedo alheio.

Por isso, fechem os olhos
e guardem os punhos.
E lembrem-se que esse menino
vale mais por suas mil maravilhas,
do que por seus defeitos.

Frank Oliveira

terça-feira, maio 06, 2008

VOU ME EMBORA


Gosto dessa sensação de vou-me-emborismo*. Amo pertencer a nenhum lugar; sou apaixonado pelo cheiro da estrada. Eu não caminho, eu transito.

Minha mãe me diz: filho, você vai acabar em lugar nenhum. Eu respondo: mãe, é justamente lá que quero chegar.
Já viajava quando nem me entendia por gente e jurei para mim mesmo, que enquanto ainda for gente ( vai que um dia eu acordo estrela), quero meu pé na estrada, junto com a minha parceira andarilha que Deus colocou do meu lado e os filhos ciganos que vão crescer orando para Iemanjá, Parvati e Santa Sara.

Dizem que não sou patriota. Como assim? Eu sou sim! Minha pátria é meu planeta. Só não esperem que eu seja brasileiro, cubano ou inglês, pois sou filho da terra e no meu quintal não existe fronteiras.

- Nacionalidade? - pergunta o oficial de imigração.

- Terráqueo! - respondo - Nasci na terra, nesse planetinha azul, onde os homens insistem em colocar cercas.
Como não sou passarinho preso em gaiola, vou voar para onde o vento me levar. Sou pássaro livre, menino mercúrio, correndo e voando na direção que eu quiser experimentar.

Adoro o Brasil, mas também gosto muito do Egito, da China que nunca visitei ( mas irei visitar), da Inglaterra que sempre vou estar. Sou e quero estar nos quatro cantos. Todo lugar tem uma lição para ensinar.

Nasci e fui criado como menino sem dinheiro para viajar, mas depois que fiquei grande, percebi, para se locomover, basta a força do tentar, do ousar e do acreditar.

Quando eu era moleque, me perguntavam na escola:

- O que você quer ser quando crescer, menino?

- Viajante - eu respondia.

- Nunca vi viajante ficar rico, guri!
- Ah, o senhor não sabe, mas os viajante são cheios de riquezas que o senhor sequer pode imaginar.

Não devo ter dito exatamente isso, mas foi algo parecido.

Uns querem ser astronautas, outros querem ser Marco Polo, por isso desde muito cedo, estou na estrada. Viajar é a minha sina e escrever é a melhor forma que tenho para agradecer ao Divino por me presentear com essa oportunidade e desde então, tudo o que experimento, vira escrito. Literatura pequena, prosa miúda, mas se cabe no seu coração, o que eu escrevo, tem o tamanho exato que eu quero alcançar.
Frank Oliveira
Um Paraíba Vagamundo

Notas: vou-me-emborismo: jargão criado por Manoel Bandeira, o grande poeta e escritor brasileiro.

domingo, maio 04, 2008

A MOÇA QUE GUARDAVA OS LIVROS

Atrás do balcão, paira um par de olhos misteriosos. Escaneio os livros na estante, mas meus pensamentos não respeitam a lei do silêncio e eu sigo gritando mentalmente: "Drummond de Andrade, Oswaldo de Andrade, Mario de Andrade - caramba que tanto Andrade - Bandeira, Manoel Bandeira! Achei!!!". Foi ai que percebi que estava gritando e olho pro lado, o par de olhos não me escutou, mas permanece observando. Ela é a moça que guarda os livros. A guardiã do saber e supervisora da quietude.

Lá fora o barulho da rua dissipa a mente. Ali dentro, a ausência da fala leva reflexão a mente, direcionam os olhos ao conhecimento; por isso penso baixo, não quero perturbar a paz; não quero que a moça que guarda os livros, troque o seu sorriso pela seriedade do cálice.

Acho meu Bandeira. Troco a leitura tentadora do Ubaldo por mais uma coletânea de poesias do Drummond; a moça olha com surpresa para as minhas escolhas de leitura.

- Carlos Drummond e Manuel Bandeira? Profunda a sua leitura, moço! - Diz ela.

Eu queria responder: "Nem tanto, moça, nenhum dos dois poetas consegueriam descrever a imensidão do seu olhar", mas eu acabo respondendo: - É sempre bom descobrir os autores clássicos, não é mesmo?

Ela concorda com um sorriso tão misterioso quanto o seu olhar. Nossa conversa não passa disso. Nem flerte, nem amizade. Clássico! Jamais saberei o universo por trás daqueles olhos ou a razão do seu meio sorriso. Será que a moça que guarda livros é parente da Monaliza?

sexta-feira, maio 02, 2008

BAILARINA


Doente dos pés, busquei um médico que me disse:

- Aprenda a dançar e você sara!

Costumo dizer que não consigo passar um dia sem ouvir uma canção. Amante dos ritmos, do samba ao tango, observo sempre com olhos brilhantes, os movimentos dos dançarinos nos salões, festas de familias e apresentações musicais e cultivo aquele inveja boa -quando eu crescer, quero fazer igualzinho.

Casado com um bailarina, costumo ser motivo de piada, quando em bailes, brinco de estátua, enquanto todos estão dançando. Solidária, minha bailarina recusa o convite dos amigos pé-de-valsa, mesmo quase não conseguindo controlar seus pézinhos de dançarina que parecem ter vida própria ao som da música.

Já tentei aprender. Arrisquei até uns passos de forró; de dança de salão. Até treinei uns passos de flamenco quando decidi ingenuamente que conseguiria dançar um "passo doble" na minha cerimônia de casamento. Desisti. Corria o risco de ser considerado "persona no grata" na Espanha.

Contudo, mesmo tendo essa pequena dificuldade de confundir os passos e ter coordenação motora zero; nunca desisti do meu objetivo e esses dias, surgiu uma luz no fim do túneo. Fomos, meus amigos e eu , comemorar meu aniversário no salão The Clocks, uma casa noturna especializada em rock dos anos 50 e 60 e consegui pela primeira vez, dançar sem tropeçar em alguém ou esmagar os pés da minha bailarina. Dancei rockabilly! Ou melhor, engatinhei alguns passos, ensaiei algumas voltas e o mais importante: sai do lugar. Tudo isso graças a boa vontade do estabelecimento que me ensinou ( e outros tantos) ditaticamente como dançar o bom e velho rock and roll, com um passinho pra cá, uma voltinha pra lá, rodando a moça praqui e pracolá. Deu resultado. Dançamos em volta do relógio!!!

A-wop-bop-a-loo-wop-a-wop-bam-boom!!!

John Travolta não corre o risco de perder o emprego, mas se Santo Fred Astaire me ajudar, vou me matricular numa escola de dança e fazer minha bailarina sair da caxinha e bailar comigo. Peguei gosto e coragem. Se os brutos também amam, alguém com os dois pés esquerdos pode sempre aprender a bailar.


Frank Oliveira

quinta-feira, maio 01, 2008

MEDO DE BARATA

Tenho medo de barata! Ufa, finalmente contei, revelei, consegui. Meu terapeuta vai ficar orgulhoso, meus amigos vão rir e fazer piadas pelas minhas próximas cinco vidas.

Mulher com nojo de barata, até ai tudo bem, mas homem? Fala sério! Sim, eu falo seríssimo, mas complemento não é medo assim como ter medo de ser assaltado, sequestrado ou perder a namorada ou o emprego - é fobia! Nojo da pior forma. Repulsa crônica causada por trauma. Eu explico, quem sabe os caras param de dar risada.

Eu tinha quatro anos. Lembro bem, pois foi no dia que meu irmão mais novo nasceu. Era Janeiro de 1977, meus pais, deixaram eu e meu irmão mais velho na casa da vizinha, que era amiga da minha mãe e tinha 4 filhos que constumavam jogar bola com a gente. Naquela epóca era natural, brincar na rua. Não existia perigo eminente de sequestro, traficante ou pedofilia; e o único perigo que corríamos era sermos pegos pelo "homem do saco" que diziam nossos pais, roubava as crianças que eram desobedientes.

Não sei onde meu irmão estava, mas lembro que jogava futebol com a molecada da vizinha, quando o mais velho dos moleques, chutou a bola para longe do campo e a bola caiu dentro de um bueiro de esgoto. Adivinha quem teria que pegar a bola? Ninguém queria ir e depois descobri o porquê. A tampa do bueiro estava aberta e eu pude ver a bola presa na lama. Comecei a descer por uma escada, mas a vontade que tinha era de vomitar com o cheiro forte de esgoto e excrementos. Desci o mais rápido que pude e ao pisar no chão, senti que estava com os pés numa gosma que lembrava lama. Ignorei a sensação, peguei a bola e voltei para a escada.

- Joga a bola! - os meninos gritava lá em cima. Mas antes que eu pudesse fazer isso, comecei a notar um movimento nas paredes e no teto do bueiro. Estava tudo semi-escuro, mas pela luz que vinha de cima, eu pude ver que não estava sozinho. Nem precisava ser um expert em insetos, para reconhecer que aquele lugar estava infestado com baratas. Eu não sabia se elas eram baratas geneticamente modificadas para aterrorizar humanos, mas elas avançaram em cima de mim.

- Baratas! Baratas! - comecei a gritar, enquanto elas subiam pelo meu short, por minha camisa e entravam pelo meu cabelo.

Estranho como o tempo de vez em quando, dá um salto. Nunca consegui entender bem, como em um instante, eu estava coberto de baratas e em outro, eu estava limpinho, deitado numa cama, dentro da casa da vizinha. Teria sido apenas um pesadelo?

- Ele vai ficar bem! - disse uma voz estranha, conversando com a vizinha. Era um homem e como se vestia de branco, ou era um anjo ou um médico - Sirva um leite quente e em hipotése alguma mencione o que ocorreu com el...

A vizinha fechou a porta e as vozes foram diminuindo, até que os quatro moleques entraram no quarto gritando:

- Neguinho das baratas! Neguinho das baratas!

As crianças conseguem ser mais cruéis que os adultos e certos traumas podem criar fobias que duram por anos e as vezes, pela vida inteira. Cada pessoa com seus medos, fobias e por mais que possa parecer um medo bobo para vocês, como perceberam, tenho meus motivos para evitar cruzar o mesmo caminho que as cucarachas. E vocês, sejam honestos, têm medo do quê?

Frank Oliveira

Ilustração: http://desenhosedevaneios.blogspot.com/2007/05/desenho-21-acho-campanha-contra-barata.html
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