segunda-feira, fevereiro 28, 2011

AUTOBIOGRAFIA EM CINCO CAPÍTULOS

- Sogyal Rinpoche -

1. Ando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu caio...
Estou perdido... Sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a saída.

2. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.

3. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Vejo que ele ali está.
Ainda assim caio... É um hábito.
Meus olhos se abrem.
Sei onde estou.
É minha culpa.
Saio imediatamente.

4. Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.

5. Ando por outra rua.

(Texto extraído de "O Livro Tibetano do Viver e do Morrer"
Sogyal Rinpoche
Editora Talento/Palas Athena).
Imagem: reprodução

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Autoria

Publicaram meu texto sem a minha permissão! O que fazer? Ah, escritor, para de reclamar e vai escrever mais... Como disse o carteiro que roubou os versos de Neruda para conquistar a sua amada: " ...a poesia não pertence ao poeta, mas aos que dela precisam".

Contudo, nesse mundo da internet, onde textos idiotas ganham a assinatura "fake" de algum autor famoso ou textos de famosos escritores aparecem escrito por um tal " autor anônimo", surge uma pergunta: "até que ponto é necessário citar o autor, que escreveu as palavras por nóis citadas?"

Seguindo o racíocinio do carteiro, como escritor, eu sei; que uma vez que as palavras são lançadas ao ar, acaba-se a nossa autoria, e elas provavelmente serão repetidas, fora do contexto ou podem até ser alteradas, em nome daqueles que delas precisam.

Isso ocorre com qualquer escritor e pode até mesmo ter ocorrido com Cristo, especialmente quando sabemos que os evangelhos são testemunhos e reproduções do que Jesus pode ter tido. Se hoje, com o "Control C e o Control V" ainda ocorrem distorções; imagina há dois mil anos? Porém, sabemos, escritores e autores, que às vezes, um texto ou uma frase é tão poderosa, que por mais que outras pessoas tentem mudar, a mensagem permanece intacta e o estilo de escrita desses autores é tão distinta que mesmo que mudassemos as tintas das letras, ainda assim, reconheceríamos o autor original.

Foi assim com Cristo e a sua mensagem, cujas palavras são mais fortes que o evangelho que fizeram em seu nome. Basta comparar com as distorções que também estão lá, como se tivessem sido ditas por Cristo, mas fica claro, que não foi. Assim, são os textos lançados na net; pois basta ler a primeira linha para sabermos quem é o autor ou quem não o é. Daí, fica a sugestão: para acabar com a confusão, faça como o carteiro; beba da água da poesia alheia, mas se possível, cite a fonte!!!



Notas do autor: imagem e textos do livro e filme " O Carteiro e o Poeta"

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

HÁ ALGO MAIS... UM AMOR. UMA LUZ – X*

Por Wagner Borges
(Brincando com as Gaivotas de Luz no Céu de Meu Deus)

Voe, Meu Coração...
Para além da linha do horizonte,
Onde as gaivotas brincam.

Porque há uma Luz que não se vê com os olhos.
E só Você pode vê-la, na Força do Amor.
Sim, só Você, em Espírito e Verdade.

Há uma música que não se escuta com os ouvidos.
E só você pode ouvi-la, na Força do Espírito.
Porque é canto das estrelas.

Ah, Meu Coração, que voa por Amor...
E que viaja junto com os espíritos,
Que são gaivotas de luz.

Bem no meio do Céu de meu Deus,
Você e eles veem a Luz e escutam a música.
Enquanto eu me lembro das esferas astrais de Pitágoras.

Voe, Meu coração...
Para brincar com as gaivotas de luz, além...
Porque não há morte!

E depois do voo, volte para o meu peito.
Com a alegria de saber que a vida continua...
E que as estrelas também cantam.

Ah, Meu Coração, voe, por aí...
Nesse Céu de meu Deus, cheio de espíritos.
E depois, retorne cheio de luz.

Porque não há morte!
E há algo mais... Um Amor. Uma Luz.
E a canção dos astros retumba por todas as esferas.

Voe, Meu Coração...

P.S.:
Sim, o mestre Pitágoras estava certo:
“As estrelas cantam!”
Mas é só o Coração que escuta.
E as gaivotas de luz falam com ele.
E lhe comunicam “que há vida além da vida...
E que no Céu, ou na Terra, o importante é o Amor”.


(Dedicado às gaivotas de luz, que sempre me pedem para escrever sobre a imortalidade da consciência e sobre o Amor que move os corações...).

Gratidão.
Paz e Luz.

- Wagner Borges – pequena gaivota encarnada nesse mundão de Deus.
São Paulo, 24 de junho de 2010.

- Nota:
* As partes anteriores desse texto estão postadas no site do IPPB - www.ippb.org.br -, e podem ser acessadas nos seguintes endereços específicos:
Parte I -http://www.ippb.org.br/modules.php?op=modload&name=News&file=article&sid=6898
Parte II - http://www.ippb.org.br/modules.php?op=modload&name=News&file=article&sid=6905
Parte III - http://www.ippb.org.br/modules.php?op=modload&name=News&file=article&sid=6928
Parte IV -
http://www.ippb.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=9668:algo-mais-uma-luz-um-amor-iv&catid=31:periodicos&Itemid=57
Parte V - http://www.ippb.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10006:algo-mais-uma-luz-um-amor--v&catid=31:periodicos&Itemid=57
Parte VI –
http://www.ippb.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10025:algo-mais-uma-luz-um-amor-vi&catid=138:ultimos-textos-postados&Itemid=271
Parte VII -
http://www.ippb.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10058:1031-algo-mais-uma-luz-um-amor-vii-&catid=31:periodicos&Itemid=57
Parte VIII -
http://www.ippb.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10281:algo-mais-uma-luz-um-amor-viii&catid=138:ultimos-textos-postados&Itemid=271
Parte IX -
http://www.ippb.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=10279:ha-algo-mais-um-amor-uma-luz-ix&catid=138:ultimos-textos-postados&Itemid=271

Enquanto eu passava essas linhas a limpo, lembrei-me de uma benção celta. Segue-se a mesma na sequência.





UMA BENÇÃO CELTA

- Por John O´Donohue -

No dia em que o peso amortecer-se
Sobre teus ombros e tropeçares,
Que a argila dance para equilibrar-te.

E, quando teus olhos congelarem-se
Por trás da janela cinzenta,
E o fantasma da perda chegar a ti,

Que um bando de cores
Índigo, vermelho, verde
E azul-celeste,
Venha despertar em ti
Uma campina de alegria.

Quando a vela se esfiapar no barquinho
Do pensamento, e uma coloração
De oceano escurecer abaixo de ti,
Que surja por sobre as águas
Uma trilha de luar amarelo
Para levar-te a salvo para casa.

Que o alimento da terra seja teu,
Que a claridade da luz seja tua,
Que a fluidez do oceano seja tua,
Que a proteção dos antepassados seja tua.

E, assim, que um lento vento
Teça estas palavras de amor
À tua volta, um invisível manto,
Para zelar por tua vida.

- Nota de Wagner Borges: O irlandês John O’Donohue é escritor, pesquisador, poeta e filósofo católico, com Ph.D. em Teologia Filosófica pela Universidade de Tübingen. É autor de dois belos livros sobre a sabedoria celta: “Anam Cara” e “Ecos Eternos”, ambos publicados no Brasil pela Editora Rocco.
Por diversas vezes, ajudei pessoas com problemas de baixa auto-estima e vazio existencial simplesmente indicando a leitura desses dois livros. O seu autor fala direto ao coração e enche a alma do leitor daquela beleza vital e amor pela vida dos celtas antigos, que valorizavam o gosto pelas coisas da natureza e a fluência dos sentimentos verdadeiros expressados no cotidiano. Vale a pena ler esse material celta inspirado

SE...

Caro estudante, se, mesmo em meio à incompreensão alheia e à dor, tu prossegues trabalhando, és grande!
Se, mesmo fustigado pelos ventos da maldade, tu perseveras com o coração generoso e a mente aberta, és forte!
Se, mesmo assediado pelas tempestades cármicas*, tu segues com paciência e denodo, és luz!
Se, mesmo sob o jugo da dor, tu ainda continuas na trilha da luz, és lúcido!
Se, mesmo espetado pelas farpas das trevas, tu labutas com amor, és pacífico!
Se, mesmo sob as ondas revoltas, tu segues com paciência, és iniciado na arte da espiritualidade!
Irmão, se mesmo sob a ação das confusões humanas, tu ainda ergues os olhos ao alto e agradece, és discípulo da verdade eterna!
Estuda, trabalha, discerne, ama, espera e confia... Pois nas trilhas espirituais só caminha com dignidade aquele que é forte e generoso, paciente e perseverante.
Segue os passos da paz e do esclarecimento, sem queixas e sem mágoas, com os objetivos maiores sempre à frente...
Segue consciente, pois o Senhor caminha contigo!

- Os Iniciados** -
(Recebido espiritualmente por Wagner Borges – São Paulo, 19 de junho de 1999).

- Notas:
* Cármicas – do sânscrito Karma - ação, causa - toda ação gera uma reação correspondente; toda causa gera o seu efeito correspondente. A esse mecanismo universal os hindus chamaram carma. Suas repercussões na vida dos seres e seus atos podem ser denominados de consequências cármicas.
** Os Iniciados - grupo extrafísico de espíritos orientais que opera nos planos invisíveis do Ocidente, passando as informações espirituais oriundas da sabedoria antiga, adaptadas aos tempos modernos e direcionadas aos estudantes espirituais do presente.
Composto por amparadores hindus, chineses, egípcios, tibetanos, japoneses e alguns gregos, eles têm o compromisso de ventilar os antigos valores espirituais do Oriente nos modernos caminhos do Ocidente, fazendo disso uma síntese universalista. Estão ligados aos espíritos da Fraternidade da Cruz e do Triângulo. Segundo eles, são “iniciados” em fazer o bem, sem olhar a quem.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

PRATO CHEIO DE REMORSO

Há certas coisas que não podem ser medidas, nem quantificadas; tão pouco descritas ou faladas; pois essas coisas exigem uma certa dose de compreensão que muitos de nós, não querem ter não.

É certo, que nem mesmo o melhor dos poetas consegue descrever o amor, outros tentam dar explicações a compaixão; tentando colocar cada sentimento humano num patamar que se ajuste as suas intelectualizações, quando, no fundo, eles sabem, essas coisas fogem da rede do nosso racíocinio.

O mesmo, pode se dizer, quando tentamos compreender a maldade, as razões que levam um sujeito a cometer um crime bárbaro ou um furto inútil. Porém, mesmo sem conseguir entender o que nos leva a flertar com a escuridão, todos nós, já provamos, vez ou outra, do prato do remorso.

Remorso, prato amargo; quando é servido, sempre vem cheio, e somos obrigados pela "Mãe da Culpa", a comer tudo o que há no prato.

Para engolir a culpa, qualquer religião ou dor ajuda; porém, a digestão...

E a digestão da culpa, resulta sempre numa alimentação dolorosa, onde a nossa consciência recebe as lembranças de cada ato, com certo gosto de arame farpado, e percebemos, já bem tarde, que o remorso tem nos ombros, o peso de dois mundos, e na cabeça, o peso do universo. E com tanto peso carregado, inevitávelmente, nos curvamos, e ajoelhando, percebemos pela primeira vez, que o que fizemos afetou a vida de alguém e repercutiu em todo mundo.

Muitos, diante da dor e do peso do remorso, acabam pedindo para esquecer, e esquecidos, acabam fazendo tudo de novo; outros, porém, aceitam o peso, compreendendo que a dor é necessária, e não querem o remédio do esquecimento, preferindo fazer novamente, todo o percurso, ou sentir no próprio corpo, o que fizeram ao outro. Os primeiros se perdem no ciclo do fazer amanhã o que deviam fazer hoje; e continuam pisando no pé alheio e acreditando equivocadamente que só pedir desculpas resolve; os últimos pagam o preço mais alto, mas a recompensa para esses, é um outro prato servido, prato cheio de trabalho, mas com direito a sobremesa do dever cumprido.

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Femmes Aux Hommes

Título original: "Femmes aux hommes"

por Luis Felipe Pondé para Folha

Muitas leitoras se queixam de que nunca falo sobre os males masculinos. Hoje, vou pagar uma parte desta dívida. Como todo homem que gosta de mulher, sou um escravo do desejo de deixá-las felizes. Que inferno...

Recentemente, numa entrevista, uma jornalista me perguntou se acredito que os homens tenham medo de mulheres inteligentes. E também o que seria mais importante numa mulher, beleza ou inteligência.


Antes de tudo, um reparo. Neste assunto, não consulte as feministas porque elas não entendem nada de mulher. Tampouco pergunte aos homens que chamam as mulheres de "vítimas sociais", porque são frouxos. Pobres diabos: mulher não gosta de covarde, mesmo que seja covarde em nome dos "direitos femininos".

A segunda pergunta (o que é mais importante numa mulher, a inteligência ou a beleza?) é fácil: a beleza vem em primeiro lugar, nunca a inteligência. Quando um homem disser pra você que ele prefere mulheres inteligentes, ele quer te pegar. Ou, pior, ele tem medo do patrulhamento das feias e das chatas, que no Brasil, graças às deusas, não crescem em número porque as mulheres brasileiras são como dizem os franceses "femmes aux hommes" (mulheres para os homens).

Por que é necessário ter coragem pra dizer que a inteligência feminina não é erotizada pelos homens? Ora bolas, porque atualmente falar para as mulheres que inteligência vale mais do que a beleza é um "dever de todo cidadão".

Uma mulher poderá fazer uma queixa contra você na delegacia da mulher caso você não diga para ela que inteligência numa mulher é fundamental. Não se engane: inteligência nunca é fundamental. Mas, não exagere para o outro lado: as burrinhas enchem o saco depois de duas horas de sexo.

Quanto à primeira questão (os homens têm medo de mulheres inteligentes?), a resposta é simples: sim, sempre; só os mentirosos e medrosos negam este fato. Melhor dizendo, o homem sempre tem medo da mulher, principalmente quando está interessado nela.

Segundo os darwinistas, esta seria uma característica atávica, desde a savana africana. Medo da infidelidade, medo da impotência, medo do ridículo.

Mas há sutilezas nisso tudo. O homem prefere a beleza, mas num relacionamento de longo investimento, outras característica pesam, às vezes, mais do que a beleza pura e simples. Por exemplo, evidências de que ela seja fiel, boa mãe para seus futuros filhos, generosa, doce (coisa rara em mulheres excessivamente competitivas, como é comum em cidades do tipo São Paulo, mas menos comum em outras regiões, como Minas Gerais ou Nordeste onde elas são mais "sorridentes").

Beleza demais pode dar medo quando ela é sua mulher. Garanhões costumam rondar mulheres bonitas demais. Se você só quer "pousar de poderoso" com uma gostosa, tudo bem, mas se quiser viver com ela, aí a coisa pega. Para pilotar um Boeing você tem que ser competente em muita coisa, e nem sempre dá, num cenário violento e volátil como o mundo contemporâneo, onde as mulheres têm mais opção de escolha afetiva e profissional.

Por que, muitas vezes, é tão difícil para as mulheres aceitarem que a inteligência numa mulher não seja essencial? Porque, ao contrário dos homens (esses seres primitivos, insensíveis e promíscuos... risadas...), as mulheres erotizam a inteligência no homem, às vezes, mais do que a beleza pura e simples.

Eu arriscaria dizer que a inteligência quando associada à coragem (virilidade) pode ser um afrodisíaco imbatível para as mulheres numa noite de calor.

Resumo da ópera: a inteligência numa mulher é um risco interno à relação porque o homem pode se sentir "menor" do que ela.

Já a beleza feminina é sempre um risco externo porque o cara sente medo de perdê-la porque sabe como os outros caras pensam.

Já a inteligência num homem nunca é um risco interno à relação porque as mulheres dão nó em qualquer homem. Mas é sempre um risco externo porque as mulheres sabem como suas parceiras pensam: se, além da inteligência, o cara tiver "atitude" (a soma disso dá em charme), aí, meu bem, se prepare para a cobiça de suas amigas.

> Fracassados não pegam ninguém ou só as feias.
dezembro de 2009

> Artigos de Luiz Felipe Pondé.

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

SONS

O som de um cachorro latindo, o motor de um ônibus, crianças brincando, o vento gritando... é o mundo falando, se comunicando e eu, só , escutando. Em princípio tudo parece caótico, difícil manter a concentração, por vezes, me perco, por vezes, me acho, mas sigo escutando passivamente o mundo que acontece independentemente da minha vontade.

Respiro...passo a me concentrar nos sons que ecoam dentro de mim. Ouço a minha respiração, quase posso escutar o meu pulso, o coração tá tá tum tum. Em princípio tudo parece caótico, percebo que, por vezes, me esqueço do mundo de sons lá de fora, por vezes, eu lembro, mas sigo escutando passivamente o meu mundo interior que acontece independentemente da minha vontade.

Então, percebo uma interação. Os sons lá de fora, de alguma forma, se comunicam com os sons que ecoam dentro de mim. A minha consciência é a ponte entre esses mundos, e se não tenho controle sobre o que ocorre fora ou sobre o que corre dentro, posso, ao menos, observar todos esses sons, sentimentos e lembrar que preciso estar atento para que o meu comportamento seja menos reativo e muito mais consciente e presente.

Difícil!

Estamos o tempo todo desrespeitando os nossos processos naturais, nos tornando dependentes da corrida do relógio, de estar produzindo o tempo todo, pensando, fazendo, reagindo, e não descansamos, não observamos, não escutamos o mundo a nossa volta, não ouvimos o mundo que grita dentro. Com isso, vamos morrendo aos poucos, ao invés, de seguir vivendo.

E seguir vivendo é fácil. Quer saber como? Você está escutando?

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

O Primeiro Chute

Um toque, dois; foi um chute? Não foi!

O que se passa na cabeça dela? O que sente? O que pensa?
Se pensa, será que pensa como a gente pensa, ou ainda usa todos aqueles sentidos que aqui na Terra não fazem sentido?

Faz sentido!

Lá no outro mundo, origem, donde ela vem; deve haver outras formas de andar, quem sabe, se voa; quem sabe, nem se fala, e a gente entende tudo; talvez seja por isso, que basta olhar nos olhos de uma criança para entender tudo; talvez seja por isso que basta um toque, duas batidas ou um chute; sim, basta um chute, para as minhas lágrimas cairem feito cachoeira na barriga da minha esposa.

Estudo as mais diversas formas da linguagem; e o chute do bebê dentro da barriga da minha mulher quer dizer algo, quer comunicar existência, quer dizer que ali dentro, já há uma consciência, se revestindo de matéria, se adaptando a um corpo; só para estar aqui de novo, redescobrindo o mundo com olhar de criança.

Mais um chute, seguido de outro. Ela já é realidade, deixou de ser sonho! Daí, converso com ela e digo: "chuta de novo, filha!"

E ela silencia!

Hum...já está me desobedecendo...

Orum Ananda

Por Fernando Sepe

Aula e Entrevista no Astral

Antes de ir dormir, sinto algumas presenças espirituais dentro do meu quarto.
Engraçado, acabo de escrever um texto sobre a projeção da consciência, talvez
tenha sido algo inspirado por esses mentores. Provavelmente vai acontecer algum
lance no astral, e eles estão aqui para me ajudar no despreendimento espiritual.
Elevo os pensamentos, agradeço ao Criador, deito na cama e relaxo serenamente,
caindo no sono, com a consciência em Deus...

Desperto com boa lucidez dentro de uma sala muito iluminada, toda pintada de
branco, com alguns quadros e pinturas. Parece uma sala de aula pela disposição
das cadeiras e do "locutório", um lugar mais elevado para onde às atenções são
dirigidas. Vejo que muitas pessoas estão chegando, e sentando - se para assistir
a algum tipo de palestra. Lembro - me das circunstâncias antes de eu ir dormir,
e agradeço, pois com certeza foram os guias espirituais que me levaram até
aquele local. Nesse momento minha consciência aumenta e fico totalmente lúcido.

Percebo que muitas pessoas que estão sentadas ao meu lado parecem "cochilar”,
não estando totalmente conscientes, devem ser outras pessoas projetas, assim
como eu. Também existem espíritos desencarnados sentados, esses parecem ter um
grau de lucidez maior, além de alguns espíritos que parecem trabalhar no lugar,
zelando pela organização e ordem do local.

Passado algum tempo, uma mulher negra, de idade entre 40 a 50 anos adentra na
sala. Apresenta - se com o nome de Lúcia, e diz que falará algo a respeito do
desenvolvimento mediúnico dentro da Umbanda. Fora uma dirigente espiritual de um
templo de Umbanda, durante muitos anos até seu desencarne. Estava ali para
compartilhar um pouco das suas próprias experiências.

Faz uma prece aos sagrados Orixás e pede a inspiração divina. Começa então a
falar do desenvolvimento mediúnico propriamente dito, de sua fundamental
importância para toda a vida mediúnica que se seguirá, que é nessa época que o
médium está lançado e construindo bases firmes para poder erguer sobre elas seu
templo interior onde os Orixás se manifestarão.

Comenta também sobre a mecânica da incorporação, explica como os centros de
força (chacras) são de fundamental importância, além de insistir em quebrar o
mito da incorporação inconsciente. Diz que essa mediunidade inconsciente hoje
está "fora de moda" (risos) e que as manifestações mediúnicas hoje já não tem
mais como objetivo provar nada a ninguém, e que uma mediunidade consciente, além
de estimular o médium a estudar, o ajuda a participar ativamente do trabalho
assistencial, não sendo uma marionete nas mãos do guia, mas sim, elemento
importante e ativo dentro da egrégora de luz da Umbanda.

Explica que mediunidade não é uma prova, mas é apenas um dom ou capacidade do
espírito encarnado e desencarnado. Que estudamos e a aceitamos em algum período
entre vidas, para poder hoje manifestá - la participando ativamente da corrente
de Umbanda.

Também falou sobre a importância da moral elevada e da busca de paz de espírito
que o médium deve ter. Mas em momento algum levou para um lado moralista, nem
construiu um “modelo” dogmático e perfeito, pelo qual todos deveríamos seguir.
Ser médium é ser um ser humano como qualquer outro com problemas e defeitos, com
traumas, carências e bloqueios também. Mediunidade não diviniza nem inferioriza
ninguém. Essa era uma "máxima", em sua opinião.

Muitas outras coisas ainda foram ditas, até o término da palestra. Muitos
começaram a se afastar do lugar e eu fiquei curioso com algumas perguntas a
serem feitas. Aproximei-me e ela disse:

_Oi Fernando, estava esperando você vir até aqui. Vejo que está bem lúcido isso
será excelente para a rememorização da experiência. Você quer me fazer algumas
perguntas, não é isso?

_Bem, eh... _fiquei um pouco sem graça _ isso, algumas perguntas bem simples e
diretas, porque sei que muitos gostariam de ter uma opinião de uma dirigente
desencarnada, além de serem dúvidas freqüentes a respeito do desenvolvimento
mediúnico. Pode ser?

_Mas é claro meu jovem, pode começar.



_Lúcia, quanto tempo você acha que é necessário hoje para o desenvolvimento da
mediunidade?

_Veja bem, você vai desenvolver sua mediunidade até o fim da sua vida, sempre
melhorando - a cada dia. Mas caso você queira dizer quando o médium está pronto
para o trabalho espiritual, essa pergunta é muito difícil. Hoje em dia a
mediunidade está acelerada assim como o seu desenvolvimento, principalmente
devido a todo esclarecimento e abertura de conhecimento dentro da Umbanda. Eu,
por exemplo, demorei 5 anos para passar para a corrente de médiuns que
realizavam o atendimento espiritual. Hoje esse tempo é bem menor, cerca de um a
dois anos, hahaha, ainda bem, não é mesmo? Claro que existiam pessoas que mesmo
no meu tempo já eram muito mais rápidas, e existiam aqueles que, vamos dizer
assim, já “nasciam prontos”, mas esses eram muito mais raros.

_E você era uma médium inconsciente?

_Hahaha, eu? Não, não era! Apesar de jurar para todos, inclusive para o
dirigente da casa, de que eu era. Sabe como é, existia muita cobrança a esse
respeito, era muito difícil, não tinha com quem conversar, e caso você dissesse
que lembrava de alguma coisa, logo as pessoas passavam a te julgar como uma
mistificadora. Mas hoje conversando com a maioria dos médiuns desencarnados que
trabalharam comigo, e vendo os trabalhos na tenda de Umbanda que um dia eu
dirigi, percebo que todos tínhamos um grau de consciência. Isso me entristece um
pouco. Caso eu tivesse tido esse tipo de orientação que vocês estão tendo hoje,
com certeza muitas bobagens, acusações e julgamentos errôneos eu deixaria de ter
cometido. Por isso, por favor, estudem, aproveitem a chance que lhes está sendo
dada.

_Como se deu a sua escolha como dirigente da casa?

_Um pouco antes de o dirigente desencarnar, o seu guia chefe, o senhor caboclo
Pena Verde incorporou e disse que eu deveria dar continuidade aquele trabalho.
Foi um choque para mim, o seu Carlos (esse era o nome do dirigente) nunca tinha
ensinado - me muitas coisas, e eu me sentia totalmente despreparada. Relutei
muito a aceitar, chorava, não queria aquela responsabilidade. Na verdade o que
eu tinha era falta de confiança em mim mesmo. Isso é uma das coisas que mais
desequilibra, além de ser uma das três grandes pedras no sapato do médium. As
três grandes pedras são: a vaidade, o medo e a falta de confiança. Superando
essas três dificuldades a maioria dos problemas são vencidos. Lembro - me que
apenas aceitei por amor que tinha pela Umbanda, e pelo Senhor Caboclo Pena
Verde, que muito tinha ajudado - me e sabia, sempre estaria comigo. Por isso
digo a todos: “Se um dia a espiritualidade e os Orixás chamarem - no para
assumir essa responsabilidade, aceite! É algo gratificante, e tenha
certeza, do lado "de cá"não faltará amparo. Não tema, os Orixás guiarão vocês”,
isso foi a minha experiência pessoal que ensinou...

_ E quanto ao animismo nas manifestações, o que você tem a nos dizer?

_Olha, isso é um assunto muito extenso. O que te digo é que depois que
desencarnei, muita coisa aconteceu e vi que muitas das coisas que eu achava
serem dos guias, não passavam de trejeitos e vícios anímicos. Mas isso é normal,
o importante é a mensagem e o trabalho espiritual do guia, não seus trejeitos,
caracterização ou manifestação. Também vi que muitas coisas que deixei de fazer
e realizar porque achava serem intuições anímicas, a chamadas "coisas da nossa
cabeça" (risos), eram, em verdade, trabalhos a serem realizados. Meu conselho é:
use o discernimento e caso seja uma intuição voltada para o trabalho com a luz,
coloque - a em prática! O discernimento nas práticas espirituais é
importantíssimo, mas tem muita gente que acaba se focando tanto no "julgamento"
da manifestação mediúnica que esquece de olhar em volta e perceber o quanto elas
ajudam o próximo. Caso for pela luz, faça! Sempre que você estiver com a
consciência elevada existirão olhos e mentes sintonizadas com o seu
coração.

_ Por fim, como você vê a Umbanda hoje em dia? Que mensagem você deixaria se
pudesse falar com todos os umbandistas de uma só vez?

_Ah, a nossa querida Umbanda...

_Ela encolheu, mas de certa forma muitos dos abusos realizados em seu nome foram
desfeitos. Ainda sim existe muita desunião, briga e vaidades em jogo. O
conhecimento de Umbanda está sendo aberto, muitos umbandistas estão com o “fogo
da alma” aceso, prontos para brigar e levar a Umbanda para frente. Ah, seu eu
tivesse toda essa oportunidade que vocês estão tendo agora quando encarnados...

_Sabe, quando vejo algumas mentalidades antigas dentro da Umbanda, como a de
negar o conhecimento e a informação, me entristeço porque também fui vítima
disso, assim como pratiquei. Arrependo-me muito disso. O jeito de concertar as
bobagens que fiz, é assim, tentando passar um pouco da minha experiência para
vocês em palestras e agora para você através dessa entrevista. Eu amo a Umbanda
e continuo a trabalhar por ela, esteja onde eu estiver. Quando vocês
desencarnarem verão, que a Umbanda é apenas UMA, apesar das diferenças que
existem de centro para centro, e então perceberão a bobagem que fizeram, quando
perderam seus tempos discutindo sobre qual a "melhor Umbanda”, ao invés de se
unirem em torno de um ideal de amor e caridade, em torno de um ideal de evolução
e semeadura da Umbanda.

_A todos os umbandistas, jovens ou velhos, aos que trabalham 1 ano ou 50 anos,
eu diria, a Umbanda é divina. Vocês têm um tesouro na mão, cultive - o, traga -
o para dentro de você. Passe por cima das diferenças, estude, ensine, pratique a
caridade. Dê oportunidade para todos, das crianças aos velhos, do culto ao
inculto, do pobre ao rico, pois Umbanda é isso, é Universalista, é sem
preconceito, é abrangente, é a religião que “incluí todos os excluídos”, é
amor e caridade, hoje e sempre...







Despedi – me, agradecendo por aquela pequena “entrevista”. Dei um abraço
apertado naquela senhora, que lutou e continuava lutando pela Umbanda. Senti a
característica tração na nuca, que prenuncia a volta para o corpo físico através
da tração do cordão de prata. Perdi a consciência, e acordei no corpo físico.
Corri e escrevi tudo que lembrava...

Queria por fim tecer alguns comentários sobre mãe Lúcia, uma mulher que viveu
pela Umbanda, em uma época difícil, que trabalhou e semeou a religião de
Aruanda, e que ainda hoje continua a fazer isso, dando palestras, cursos e até
mesmo essa “entrevista” a partir do plano astral. Que viveu em uma época em que
o conhecimento era “fechado”, mas que hoje luta para a expansão dele. Que
vivenciou os tabus em relação à mediunidade, mas hoje ensina a mediunidade de
uma forma clara e limpa.

Que essa história possa ser exemplo de vida e nos ajude a entender o momento que
a Umbanda passa. Ou agarramos essa chance, ou talvez, os esforços de todos
aqueles que trouxeram a Umbanda até nós e que continuam hoje a lutar por ela,
serão em vão...





(Fernando Sepe, agradecendo pelos guias terem me levado até essa aula, pela
oportunidade e especialmente a Mãe Lúcia por nos instruir com suas generosas
palavras e experiência...)



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Voe, voe, voe...

Por Fernando Sepe

Essa noite, ou em qualquer outra, quando você deitar seu corpo físico para
dormir, eleve os pensamentos ao altíssimo, agradeça pela oportunidade de evoluir
e, nesse momento, transborde - se de sentimentos legais, aumente sua
consciência, ligue - a ao Todo...

Então feche os olhos da carne e abra os olhos do espírito. Pense firmemente nas
possibilidades infinitas de trabalho que se abrem para você nos planos além da
matéria, nas muitas dimensões desse infinito universo. Integre - se a uma enorme
corrente de Luz e Amor, que há milênios faz do sono físico a porta de saída para
o trabalho e o aprendizado espiritual.

Mas isso demanda estudo sério, discernimento, muito amor e força de vontade.
Isso requer caráter, honra e retidão de valores. Exige uma mente aberta, uma
alma criativa e um coração generoso. Depende dos chacras bem desenvolvidos e
principalmente, de um sorriso no rosto e um sentimento universalista que lhe
permita abraçar o mundo.

Pode parecer pouco mais é muito. Voar não é para todos, apenas para aqueles que
desenvolveram asas. Valendo - se de uma antiga expressão dos mestres taoísta: “A
serenidade de espírito faz a consciência criar asas, e acaba com o sofrimento do
coração..."

Busque a serenidade e suas asas brilharão, permitindo que você voe em direção
ao Sol, quebrando o mito de Ícaro, provando sua divindade própria. Abra suas
asas de luz e viaje nas ondas da paz e do trabalho assistencial. Visite sua
verdadeira família espiritual, que tanto te amam. Voe, voe, voe...

E quando pousar, como diria Hermes, pouse suave, afinal, os mestres orientam.
Eleve os pensamentos e agradeça ao Criador, Todo, Brahman, Olorum pelo vôo.
Feche os olhos da alma e abra os do corpo físico.

Acorde, levante e seja feliz!

3õ OM Voar OM 3õ

Fernando Sepe

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Valeu, Ronaldo

Por Fábio Santos

Ao anunciar ontem sua aposentadoria, Ronaldo disse que essa foi sua primeira morte. Ele respondia a um jornalista que mencionou Paulo Roberto Falcão, para quem jogadores de futebol morrem duas vezes; a primeira, quando deixam os gramados.

A frase do meio-campista da espetacular Seleção de 1982, hoje comentarista de futebol, traduz bem a dor que sente e que provoca um ídolo quando se ausenta do palco onde brilhou. É como uma morte, de fato. A ausência só é diminuída pela memória dos bons momentos.

Mas Ronaldo, na verdade, é um sobrevivente. Por pelo menos duas vezes, ele teve decretada a sua morte e soube afastá-la de si, vencendo um adversário impossível de bater. Muito pouca gente é capaz de superar a decadência física, psicológica e emocional que tantas vezes ameaçou o craque em sua trajetória.

Sim, como várias pessoas que se tornam célebres, Ronaldo meteu-se em algumas confusões que ganharam muito destaque, além de lhe renderem críticas e até escárnio, como o famoso caso do travesti carioca. Essa, porém, era uma das faces mais humanas da figura de mito que ele vestia com certa resistência.

Assim como o personagem do "Poema em Linha Reta", de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, ele não era campeão em tudo e levou porrada. Como todo mundo, mesmo os muitos que não admitem essa verdade, Ronaldo também foi vil e ridículo. Mas seus erros e tropeços faziam mal principalmente a ele mesmo, não aos outros. Com estes, ele sempre mostrou sobretudo respeito, como sabem todos os torcedores brasileiros, corintianos ou não.

O craque aposenta as chuteiras longe do auge que fez dele o maior goleador de todas as Copas e lhe rendeu o merecido apelido de Fenômeno. Ora, é sempre assim. Todos nós já somos ou um dia seremos piores do que fomos quando estávamos na melhor forma. Essa é uma das dores que a tragédia humana nos impõe. Só escapam dela aqueles que caem muito cedo pelo caminho. Apenas os heróis de guerra abatidos em batalha morrem no apogeu. Para os demais, a decadência é inevitável. Que ela seja enfrentada com grandeza.

Ronaldo despediu-se dizendo que não se arrepende de nada. Não deveria mesmo. Ele foi humano do começo ao fim. E concordo com o craque: foi lindo.

Fonte: http://www.destakjornal.com.br

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Para que servem bonecos e bonecas?

Por Contardo Calligaris
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É graças aos bonecos que a criança pode mutilar, despedaçar e queimar os ídolos que lhe são propostos
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KEN, O companheiro de Barbie, chega aos 50 anos e não envelhece: a camiseta de sua última versão anuncia, sem falsa modéstia, que ele continua sendo "o namorado perfeito".
Tenho mais simpatia por Barbie que por Ken. Barbie foi detestada pelas feministas por ser incansavelmente consumista e narcisista. No entanto, ela foi uma batalhadora, competindo com os garotos em todos os campos do saber e do trabalho. Ken, em compensação, sempre me pareceu desmiolado por sua própria convicção de ser o objeto irresistível do desejo de todos -homens e mulheres (tudo bem, concordo: ele se redimiu um pouco em "Toy Story 3").
Enfim, o aniversário de Ken está sendo celebrado com um novo boneco, Sweet Talking Ken (Ken fala doce), que contém um sistema de gravação e fala: você aperta seu coração e grava a frase que ele repetirá quando você soltar o botão. Nos EUA, a propaganda diz: Ele é o namorado perfeito para todas as ocasiões. Por quê? Porque ele diz tudo o que você quer que ele diga.
De fato, apresentei o boneco a uma menina de 12 anos, que aprovou: os garotos não têm muito para dizer, melhor a gente escolher o que eles vão falar. Será que ela tem razão? Eis o caso que fez que, no fim de semana passado, eu me interessasse por Ken.
Um casal de conhecidos me ligou dos EUA, preocupado. Eles ofereceram o novo Ken à filha de oito anos, e logo constataram que o irmão (quatro anos mais velho) brincava com ela feliz (fato raro). Ótimo, eles pensaram -até perceberem que o jogo funcionava assim: o rapaz se enfiava no closet, gravava uma fala de Ken, saía e soltava o botão (e o verbo) para Barbie e a irmã ouvirem. Das frases que os pais escutaram, a mais simpática era: "Vou te encher de porradas, sua vaca".
Aparentemente, a menina achava graça, mas os pais não gostaram e mandaram o rapaz escrever cem vezes "Devo respeitar minha irmã e todas as meninas". Como se não bastasse, logo naquele dia, os pais verificaram o histórico do uso da internet pelo filho e descobriram que ele tinha descarregado três vídeos mórbidos, em que uma garota, presumivelmente australiana, tortura uma boneca Barbie -quem tiver estômago, confira: migre.me/ 3PE9X. O rapaz confessou gostar de suplícios aplicados a bonecos e bonecas.
Recomendei um psicólogo e sugeri que o rapaz mostrasse os vídeos a seu terapeuta (se o colega fizer seu trabalho como manda o figurino, a garota australiana receberia um dia a visita preventiva de um serviço social de seu país).
Agora, patologias à parte, por que será que maus-tratos e torturas aplicados em bonecos e bonecas são estranhamente populares?
Barbie é um modelo impraticável para as meninas e um sonho impossível para os meninos. Mudando os gêneros, o mesmo vale para Ken (que também é vítima de suplícios pela net afora). Barbie e Ken, em suma, são ideais inatingíveis, e essa seria uma boa razão para odiá-los: eles estariam sendo supliciados por um bando de frustrados que não conseguem ser como eles ou que não encontram parceiros como eles.
Concordo em termos: bonecas e bonecos não servem apenas para propor ideais deprimentes de tanto que eles estão fora do alcance da espécie humana, eles servem para tornar esses ideais acessíveis. Como assim? Simples: é graças aos bonecos que cada criança pode mutilar, despedaçar e queimar os ídolos que lhe são propostos.
Ao longo da infância, tive bonecos e soldadinhos lindos; mais de uma vez decidi e jurei que eu os conservaria intatos. Mas nunca consegui. Misteriosamente, minhas mãos bem intencionadas sempre acabavam os ultrajando brutalmente. Por quê? Suspeito que os bonecos nos sirvam para nos livrar do estereótipo de nossa própria infância feliz (a infância que todos os adultos parecem desejar por nós): não sou nem serei perfeito como um boneco, até porque, de qualquer forma, olhe só, Barbie está queimando na cruz e Ken está passando por apuros parecidos. Que alívio!
De 12 a 28 de fevereiro, no shopping Pátio Higienópolis, em São Paulo, Ken será homenageado na exposição "Barbie & Ken - O Casal Perfeito". Antes de passear por lá, só para se lembrar de que "perfeito" é um jeito de falar, procure, na internet, as obras dos anos 90 (David Levinthal, Carol McCullen), em que Barbie era ultrajada e deturpada, como talvez seja normal e bom que aconteça com bonecas e bonecos.

ccalligari@uol.com.br

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

O QUE É SEU

Incomoda saber que não estamos ainda fazendo algo que nos faça descobrir o que viemos fazer aqui nessa vida. É um desconforto, um incômodo que nos leva a perder o foco e a reclamar ao Todo sobre tudo e sobre todos. E nessa desorientação, acabamos acreditando que somos escravos dos empregos tortos que não nos trazem satisfação, apesar de louros, e tesouros financeiros que amortecem a nossa mente, com uma segurança ilusória que enquanto as contas estiverem pagas, tudo esta bem no nosso mundo. Não está!

Não está nada bem, pois podemos fazer mais, e esse a mais é o poder que cada um de nós possuí, poder em fazer algo único, o Trabalho dos trabalhos; aquela atividade que vai mostrar que apesar de sermos parte dos bilhões de seres humanos que caminham nessa terra, cada um de nós, possui a sua própria criatividade, e pode manifestá-la por meio de um trabalho que tenha esse olhar único que nos diferencia e aproxima dos outros.

E todo trabalho que envolve os outros deveria ser uma contribuição verdadeira, e não uma atividade feita de qualquer maneira. Por isso, é preciso ter liberdade para enxergar que não somos escravos desses trabalhos passageiros, mas se precisamos fazê-lo, por enquanto, que façamos não apenas bem, mas muito bem, até que possamos dele, nos libertar.

O problema é que para ser livre é preciso enxergar um pouco mais. Enxergar que não somos marionetes dos outros, afinal, somos nós mesmos que puxamos as cordas dos nossos movimentos, somos nós mesmos que escolhemos os caminhos por onde queremos trilhar a nossa jornada.

E se liberdade é estar atento, se aprisiona quem se distrai com a opinião do outro, especialmente se essa opinião julga a nossa capacidade e o nosso potencial criativo.

Esse potencial, para quem está atento, não precisa ser aprendido, pois ele se revela sozinho naquele trabalho que você se imagina fazendo, e só em pensar nisso, já nasce um sorriso no seu corpo inteiro.

Uma das grandes lições que aprendi com a minha espiritualidade é a grande verdade que cada um possui o seu lugar. Não precisamos brigar por cargos, nem trapacear ou maldizer a carreira de alguém; e se sentimos isso em relação ao nosso emprego, a nossa empresa ou no nosso trabalho, é porque certamente aquele não é o nosso lugar, ou seja, esse lugar é apenas temporário.

O seu lugar, o seu trabalho, aquela atividade que você vai fazer com toda a sua criatividade já está garantido, já é seu; ele só está esperando que você tenha maturidade para enxergar que esse trabalho que você quer tanto, sempre aguardou por você, por isso, as coisas não dão certo onde você está, e não há satisfação, nem bem pensar.

E se não há bem pensar, algo errado está; por isso, se você não pode ainda sair desse emprego que você sabe, serve apenas como ponte, para o trabalho que vai te realizar; respira, sacode a poeira e olha por cima. A sua realização profissional espera por você, e para alcançá-la, basta apenas trabalhar para ver.

Para ver que tudo que é seu, demora mesmo para chegar; não porque você não mereça, mas porque o que é seu, precisa da sua atenção e do seu coração atento e pleno para isso manter. Daí, a beleza da sabedoria popular quando diz: “difícil não é conseguir..."

terça-feira, fevereiro 08, 2011

A CARNE É FORTE

"É época de renovação e meditação.
Lembre-se que você não é a carne
ou o alface que come
e sim o pensamento
e as ações que pratica."


Na casa da matéria, com teto feito de osso e parede revestida de carne; eu só comia jardim, por achar que isso era a janela para além do meu quintal; foi quando descobri, enfim, que não era o que comia assim, nem era o que eu vestia assado, que mostraria quem eu era; pois era o que eu fazia, que no final, me traria a chave da porta para outros bairros, além, da cerca das minhas idéias.

E quando lá cheguei, percebi que outros tantos, cada qual à sua maneira, cada qual do seu canto, chegaram lá também do mesmo jeito; e daí, me dei conta que o que eu achava ser direito, o que eu achava ser o certo; era apenas outro meio, entre outros tantos de "despertar" mesmo estando na Terra.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

3

Há treze anos, você é o último rosto que eu quero ver ao dormir e o primeiro que quero enxergar ao acordar. Porém, gostaria de te dizer que as coisas estão prestes a mudar, pois agora há dois rostos que quero ver sempre ao dormir e dois ao despertar! Nesse nosso aniversário, não há presente maior e mais bonito que eu queira receber do que o que você já me deu.

Obrigado por permitir que eu possa sentir a experiência de ser pai, ao seu lado, e tendo você como mãe desse presente de aniversário; benção que a Mamãe Divina e o Papai do Céu, mandou nos entregar.

É com muito amor no coração e brilho no olhar que renovo os meus votos nesse dia de nóis dois, pois não há escola espiritual nessa vida que tenha me ensinado tanto quanto a nossa escola do amor; e não há faculdade que possa ter melhor me preparado para ser o homem que eu sou, do que a universidade do nosso relacionamento; curso esse que sempre surpreende, ensina, aprende e segue se renovando, reciclando e não se esquecendo de sempre lembrar que casamento, acima de tudo, é liberdade, respeito e coragem para aceitar que não há nada, nem ninguém perfeito; e ainda assim, vale a acreditar no amor e num relacionamento a ...três!

Com amor

Frank Oliveira

sexta-feira, fevereiro 04, 2011

"Cisne Negro" cria terror a partir da dança

Por Marco Tomazzoni

Na maioria das vezes, o cinema hollywoodiano reserva um olhar fantasioso para o mundo da dança. A graça e elegância dos movimentos aparecem em primeiro plano, os bailarinos deslizam pelo palco e desafiam a gravidade como se estivessem atravessando a rua. "Cisne Negro", concorrente de peso do Oscar 2011 que estreia nesta sexta-feira (4), tem o mérito de lançar luz sobre os bastidores dessa arte, mas surpreende muito mais. O filme de Darren Aronofsky transforma a beleza numa história de horror psicológico não menos do que espetacular.

Natalie Portman (conheça a carreira da atriz) interpreta Nina, dedicada integrante de uma grande companhia de balé de Nova York, que vê numa nova adaptação do espetáculo "O Lago dos Cisnes" a chance de brilhar. O diretor artístico Thomas (Vincent Cassel) aposenta a então estrela do grupo, Beth (Winona Ryder), e escolhe, um pouco desconfiado, Nina protagonista. Ele considera a bailarina perfeita para o papel do Cisne Branco, delicado e virginal, mas ainda duvida que ela consiga encarnar o Cisne Negro, sua gêmea sensual e traiçoeira.

Perturbada pela pressão e assédio de Thomas, Nina ainda é sufocada pela mãe (Barbara Hershey), ex-bailarina que mantém a filha num ambiente infantil e opressor, e pela chegada de uma novata, Lily (Mila Kunis), uma ameaça para seu papel. Nina é técnica e frígida, enquanto Lily, da ensolarada Califórnia, exala paixão, sexo e liberdade. Nina luta para soltar suas amarras, mas as tentativas desmoronam: começa a ter visões, a ouvir sons estranhos, tem a sensação de que está sendo seguida e percebe transformações no corpo. Ela perde o pé na realidade e o suspense latente se instala de vez.

Se Aronofsky já cometeu exageros visuais em trabalhos anteriores ("Réquiem por um Sonho", "A Fonte da Vida"), a partir de "O Lutador" (2008), com Mickey Rourke, adotou uma abordagem mais realista, de câmera na mão, repetida aqui. Toda artificialidade sai pela janela e fica a sensação não só de verdade, mas de voyeurismo. O tom documental das entranhas de uma companhia de dança aos poucos dá lugar ao famoso estilo do diretor, que se manifesta nos delírios da protagonista e nos cenários suntuosos do balé, sem, no entanto, sair do prumo ou soar artificial. Aronofsky nunca filmou tão bem.
"Cisne Negro" é acima de tudo climático, e de forma exemplar. A narrativa instala o medo e a confusão mental de suspenses como "Repulsa ao Sexo" (1965), de Roman Polanski, e "A Hora do Lobo" (1968), de Ingmar Bergman, na medida em que não se sabe mais o que é real e fantasia – espelhos têm um papel importante. O clássico "Sapatinhos Vermelhos" (1948), da visionária dupla The Archers, serve como referência de dança e deslumbramento. Além da fotografia lúgubre de Matthew Libatique, a trilha sonora de Clint Mansell, parceiro longevo de Aronofsky, e o desenho de som certeiro dão o toque final: ouvem-se todas as nuances, do rangido das sapatilhas no palco a sussurros saindo por trás das paredes.

Aliado à busca insana por perfeição e à competividade na dança, o trunfo do roteiro foi internalizar a trama de "O Lago dos Cisnes". A tragicidade do conto de fadas é explorada ao máximo, característica que, apesar de evidente no balé, sempre foi atenuada. O contraponto com a disputa entre Nina e Lily – anteriormente o âmago da história, que se passava na Broadway –, ecoando as tramoias de "A Malvada" (1950), potencializa a tensão e torna "Cisne Negro" ímpar.

O sucesso, porém, não seria completo sem um elenco muito acima da média. Vincent Cassel e Barbara Hershey mostram a excelência de sempre – é um prazer vê-los em ação. Amarga, Winona Ryder convence em uma participação pequena e ironicamente adequada. Mila Kunis, surpreendente, tem presença magnética na tela, no melhor papel de sua vida. Já Natalie Portman é ainda melhor e sua dedicação para as filmagens, assustadora.

Bailarina dos quatro aos 12 anos, a atriz conseguiu entrar em forma graças a uma rotina de treinamento agressiva – primeiro cinco, depois dez horas diárias ao longo de quase um ano. "Sapatilhas com ponteira são aparelhos de tortura", chegou a dizer. Portman não só se transforma em uma dançarina profissional na frente das câmeras, como também assimila com esplendor a metamorfose psicológica para o Cisne Negro, da inocência para a voluptuosidade, passando pelo completo desespero. Trabalho em duas frontes, dificílimo, e que deve ser premiado pela Academia.

Ao som de Tchaikovsky, o desfecho é o mais próximo de uma apoteose que o cinema norte-americano vê em muito tempo. Não que isso deva ser reconhecido no Oscar, no qual concorre como melhor filme, direção, atriz, montagem e fotografia. Além de sinistro, "Cisne Negro" mostra violência, lesbianismo e sexo, longe da edificação do favorito "O Discurso do Rei", por exemplo. Pena, já que é, ao lado de "A Rede Social", o melhor filme da temporada.

Fonte: http://ultimosegundo.ig.com.br/oscar/cisne+negro+cria+terror+a+partir+da+danca/n1237982376540.html

Todos os Reis estão Nus

Por Contardo Calligaris

JÁ ESTÁ em cartaz (pré-estreia) "O Discurso do Rei", de Tom Hooper. O filme foi indicado ao Oscar em doze categorias; a atuação de Colin Firth (o rei) é tão inesquecível quanto a de Geoffrey Rush (o terapeuta).

Resumo. Quando George 5º morreu, o filho primogênito lhe sucedeu (com o nome de Eduardo 8º), mas por um breve período: logo ele abdicou, por querer uma vida diferente daquela que o ofício de rei lhe proporcionaria. Com isso, o cadete, duque de York, tornou-se rei -inesperadamente e num momento decisivo: era a véspera da Segunda Guerra Mundial.

O duque de York (e futuro George 6º) era tímido, temperamental e, sobretudo, gago -isso numa época em que, graças ao rádio, a oratória dos ditadores incendiava as praças do mundo: na hora do perigo, para que serve um rei se ele não consegue ser a voz que fala para o povo e por ele?

O filme, imperdível, conta a história (verídica) da relação entre o rei e seu terapeuta, Lionel Logue, um fonoaudiólogo australiano pouco ortodoxo. Eis algumas reflexões saindo do cinema.

1) Qualquer terapia começa com uma dificuldade prática: uma impotência, a necessidade de um conselho, uma estranha tensão nos ombros, uma gagueira. A relação terapêutica se constrói a partir dessa dificuldade: o terapeuta é quem saberá nos livrar do transtorno, seja ele fonoaudiólogo, terapeuta corporal, eutonista, psi (de qualquer orientação) etc.

Quer queira quer não, a ação do terapeuta é dupla: relaxaremos o ombro, exercitaremos a dicção ou endireitaremos o pensamento do paciente, mas, de uma maneira ou de outra, acabaremos mexendo nas fontes de um mal-estar mais geral que talvez se manifeste no transtorno.

2) Há, às vezes (mais vezes do que parece), escondidas no nosso âmago, ambições envergonhadas ou vergonhosas, que não confessamos nem a nós mesmos. Quando sua realização se aproxima, só podemos inventar jeitos de fracassar, porque, no caso, não nos autorizamos a querer o que desejamos.
Obviamente, detestamos a voz do terapeuta que se aventura a nos dizer o que queremos mas não nos permitimos. Essa voz atrevida é a única aliada de desejos que são nossos, mas que encontram um adversário até em nós mesmos.

3) No trabalho psicoterapêutico, o segredo de polichinelo é que, por mais que suspendamos diplomas em nossas salas de espera, somos todos leigos e aventureiros. Não sei se existem cursos ou estágios que ensinem a ouvir o que Logue ouve e entende do desejo escondido do duque de York. Certamente não há formações que ensinem a coragem maluca do terapeuta do rei, seu esforço para se colocar, sem medo, ao serviço do que o duque e futuro rei não quer saber sobre si mesmo.

4) Pensando bem, Logue (como Freud) tinha, sim, uma formação que o qualificava como conhecedor da alma humana e especialmente da dos reis: a leitura de Shakespeare.

5) Quase sempre, chega o dia em que um paciente descobre que seu terapeuta sabe muito menos do que ele (o paciente) imaginava. O paciente pode até pensar que o terapeuta, atrás de seu bricabraque de saberes práticos, é um impostor. É ótimo que isso aconteça, pois, geralmente, é sinal de que o paciente descobriu que ele também é um impostor. No caso, o terapeuta não é qualificado para ser terapeuta, exatamente como o rei não é qualificado para ser rei. (Parêntese: em geral, é assim que nasce uma amizade: os dois se tornam amigos por aceitarem estar ambos nus, como o rei da fábula - mesmo que seja só por um instante.)

Não há como ser terapeuta ou rei sem alguma impostura. Todos carregamos máscaras. Avançamos mascarados, enfeitados por mentiras que nos embelezam. Até aqui, tudo bem: essa impostura é uma condição trivial e necessária da vida social. Os melhores conhecem sua impostura e sabem que não estão à altura de sua máscara.

Os piores se identificam com sua máscara. Acreditar nas máscaras que vestimos é um delírio que nos torna perigosos. Não há diferença entre o rei que acreditasse ser rei, o terapeuta que acreditasse ser terapeuta e o anjo exterminador que saisse atirando e matando, perfeitamente convencido de ser uma figura do apocalipse. Os três teriam isto em comum: acreditariam ser a máscara que eles vestem.

Enfim, que Deus nos guarde de todos os que não enxergam sua própria nudez.

Fonte: http://contardocalligaris.blogspot.com/

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Alguma Coisa

Alguma coisa nos afasta da luz,
Alguma coisa nos distrai,
Alguma coisa nos prende na cruz,
Alguma coisa nos trai;

Alguma coisa nos atrai feito fome,
Alguma coisa nos cataculpa
Alguma coisa tem muitos nomes,
Um desses nomes é desculpa...


quarta-feira, fevereiro 02, 2011

As ondas de Iemanjá - Um relato pessoal na Bahia

Por Lázaro Freire
Publiado originalmente na Lista Voadores


> --- Na Lista Voadores, Lázaro escreveu, sobre Iemanjá:
> "Eu pedi Força... O Orixá me deu Dificuldades para me fazer forte.
> Eu pedi Sabedoria... O Orixá me deu Problemas para resolver.
> Eu pedi Prosperidade... O Orixá me deu Cérebro e Músculos para trabalhar.
> Eu pedi Coragem... O Orixá me deu Perigo para superar.
> Eu pedi Amor... O Orixá me deu pessoas com Problemas para ajudar.
> Eu pedi Favores... O Orixá me deu Oportunidades.
> Eu não recebi nada do que pedi... Mas recebi tudo o que mais precisava."
> (Comunidade Iemanjá, no Orkut)


> Camilla Avella complementou:
> Há também esse trecho de uma exposição sobre Iemanjá no Grazie a Dio, quando começavamos a namorar e ele havia acabado de voltar de Salvador. Foi uma sincronicidade daquelas encontrar isso logo a seguir, em uma casa noturna em SP: "Iemanjá quando dança corta o ar com uma espada. É um ato simbólico que conduz a individuação e separa o que deve ser separado <...>"

Pois é, eu havia passado o 2 de Fevereiro de 2007 - festa de Iemanjá - em Salvador, com minhas amigas Nina (da casa Telucama, de Salvador) e Fabi (do Espaço Cant´Alma, de São Paulo). Estavamos lá no Rio Vermelho, entre rosas, entregas, magia, Carlinhos Brown ali do lado, multidões, incorporações, axé, defumadores, cerveja, sagrado, profano - essas coisas sotoporitanas. Fui pela festa, pelo turismo espiritualista, e até então ninguém havia me dito que a Yemanjá do Candomblé era, dentre outras coisas, a "senhora das marés", ou seja, uma grande transformadora, uma versão tsunami do Shiva hindu. Eu pensava naquela imagem de mulher, influência da umbanda e do catolicismo: Mãe Maria, beleza feminina, alguém para me dar um "colinho", ajuda - sabe como é. Só depois é que foram me contar que colinho no reino das águas estava mais para Mãe Oxum. Quem chama por Yemanjá, soube na prática, pede a força de mudança das marés.

Naquele 2 de Fevereiro, deixei minhas entregas principais para depois. Nosso carro havia sido deixado na garagem de uma amiga do Templo Telucama, cuja belíssima casa ficava lá no alto de um morro do Rio Vermelho, ao lado da do Carlinhos Brown. De lá de cima da rua do mirante havia como descer até as pedras da praia, com mais privacidade, já longe da confusão que havia no santuário central.

Por sincronicidade ou sequência de atos falhos, para minha "entrega" sobraram apenas duas rosas vermelhas e uma branca. A Nina, bruxa sacerdotisa da Casa Telucama, deu gargalhadas, fazendo a sua "leitura" simbólica antes de mim: eu (o branco) estava em um processo de definição de afetividade, entre duas figuras femininas (as vermelhas). De fato, era a primeira vez na vida em que me vi com motivos suficientes (ou "falta" deles) para *terminar* um relacionamento amoroso. Mas havia outras pessoas e compromissos envolvidos, e o começo de meu relacionamento atual. Aquela viagem de Salvador era, na verdade, "um tempo" para mim, após um dificílimo limite e "basta" que tive que aprender a impor. Fui para conversar comigo mesmo, me "recolher", ficar uns dias no templo, sem estar no meio de processo (algum) emocional. E foi neste momento que Yemanjá me encontrou.

E lá fui eu, descendo sozinho o morro do Rio Vermelho, em direção a mais famosa praia de Iemanjá do país, no dia dela. Com meio milhão de pessoas nas ruas do bairro reforçando a egrégora, para, sem eu perceber direito, oferecer as duas rosas (e o "roso" branco, eu), para Iemanjá. Na "casa" dela.
Procurei um bom lugar: vi umas pedras no canto direito, fim da praia, e comecei a descê-las, observando por um tempo, até um ponto onde a água não chegava. Sentei por ali, numa plataforma natural mais acima, bem sequinha, num ponto onde no máximo eu molhava meus pés. Era o momento de pensar nos meus tais três pedidos, amarrar minha fitinha de Iemanjá (no pé) e oferecer minhas três rosas para a Senhora do Mar.

Pensei em como minha vida de encontrava naquele momento. Um "psicanalista de sistemas", trabalhando de 8 as 23 todos os dias, em duas áreas (informática e clínica), sem definição completa em nenhuma delas. Entre um relacionamento no qual investi muito (não só financeiramente), e após uma gravidez mal sucedida e uma série de problemas (que só diz respeito aos envolvidos), vi desmoronar. Até que, perdido de loja em loja, fui resgatado entre sincronicidades inacreditáveis por alguém que tinha tudo a ver comigo, com meu momento, com meu lugar, com meu trabalho, com minha origem, com meu destino, etc. Hoje em dia, a adequação da companheira Camilla à minha vida pode ser óbvia aos amigos, mas na época era preciso muita percepção e atitude. E estava também dividido com relação a moradia, uma vez que meu "casamento" havia fracassado antes do começo, e com isso eu CONTINUAVA morando numa simbólica casa muito antiga, com outras associações que eu não precisava mais manter. Os detalhes - e há muitos - seriam pessoais demais para este relato, e prefiro deixá-los para uma conversa amiga em algum "encontro" voador.

Pensando nesta "indefinições" - de carreira, de relacionamento, de moradia - e em tudo o que significavam simbolicamente em minha vida (todos tinham a ver com situações de 12 anos atrás, nas quais me prendi e repetia padrões), e profundamente tomado por toda aquela egrégora de Yemanjá (cuja existência eu podia perceber "na pele", ali naquela data e local), fiz meus pedidos nessa intenção - a de definição - com uma força mental daquelas que fazem sair "energias" visíveis nos filmes do tipo The Secret.

Neste momento, aconteceu algo impresionante. Eu estava, como disse, em uma plataforma alta e segura. Já havia observado o local há tempos, enquanto eu descia o morro do mirante, e enquanto eu olhava do alto das pedras amadurecendo o que eu iria realmente pedir. Desci para fazer a entrega até um lugar seco, e no momento EXATO em que eu formulei e emanei o pedido e IA jogar as três rosas ao mar, NA MESMA HORA uma onda enorme veio do nada (repito: do nada!), subiu as pedras secas e - literalmente - me lavou inteiro, levando minhas rosas sei lá para onde. Eu JURO que onde eu estava era seco, longe das águas. E o fato é que "passei um aperto", pois fui molhado até o peito (inclusive estragando o celular e a câmera fotográfica digital), e temi ser levado pelas águas, em um lugar distante onde sequer a Nina (lá em cima, no mirante) poderia ver.

Em um segundo, estava encharcado, procurando me segurar nas pedras, com um arrepio enorme de ponta a ponta do corpo (se eu já estava semi-incorporado antes, o que senti após o banho foi indescritível), não sabia onde estavam as minhas rosas. E, ato contínuo, senti uma grande EXPANSÃO DA CONSCIÊNCIA. Chorei, e vi em flashes, naquele "mini-samadhi", "espirro kundalinico", "satori" ou o nome que queiram dar, MUITAS possibilidades e resolução. Lá no mar verde profundo, um redemoinho levava DUAS rosas, uma vermelha e uma branca, lado a lado por longos minutos, longe ou perto das pedras. A outra "rosa vermelha" simplesmente desapareceu, não vi sequer seus vestígios, na meia hora em que passei ali.
Vi, em detalhes, a solução do que me preocupava em relação a outra pessoa, com quem eu me preocupava material e estruturalmente. Quando cheguei em SP, não precisou de uma semana para as coisas dela se configurarem, com detalhes, como eu havia visto. No começo, parecia uma grande destruição, uma mentira, um engano, mas foi exatamente como vi, como de certo modo pedi, e do único modo onde tudo poderia ficar bem para todos. Pedi fortemente que minha carreira se definisse, para um lado ou para o outro. E presenti que a questão da casa ainda não seria DO MODO que eu havia pensado, mas que entraria em processo de resolução.

Pois bem, na meia hora em que passei ali, em quase transe, a água nunca mais voltou a me molhar. Só naquele exato SEGUNDO da minha entrega é que a enorme onda veio (do nada) me lavar. Impressionante!

Fiquei por ali, primeiro refletindo, depois meditando, aproveitando o "estado" em que ficamos após uma expansão da consciência. As duas rosas, lado a lado, ficaram o tempo todo girando ali perto de mim, às vezes um pouco mais longe, sem afundar. Da terceira, nem as pétalas. Foi levada para o fundo do mar. Era hora de voltar.

Agradeci, fiz um gesto de saudação, e comecei a cantar um canto de Iemanjá, em gratidão, em profunda paz de espírito. Mas então IMEDIATAMENTE, após meia hora seco naquele local ali, veio novamente do nada um VERDADEIRO TSUNAMI, subindo pelas pedras, me encobriu até além da cabeça, fez eu engolir meu canto junto com muita água salgada - e, aí sim, tive "quase certeza" de que não teria como escapar. Me agarrei às pedras mais acima, enquanto meus pés deslizavam ao pouco. Fui sendo puxado, tragado pelo oceano, mas por "sorte", o refluxo / retorno na onda terminou pouco antes do que a minha ÚLTIMA resistência. Com alguns instantes mais de duração, CERTAMENTE a onda teria me levado para o fundo onde aquelas ondas quebravam nas pedras, e não sei qual seria a facilidade de sair a nado de lá. Nessa altura, meu celular (no bolso da bermuda) e minha câmera digital (em um saquinho de couro pendurado em meu braço) já haviam sofrido "Perda Total".

Refleti imediatamente que eu havia dado um celular de última geração para outra pessoa, mas o meu ainda era um antigo, doado pela empresa. Ídem para a câmera, a minha era pior do que a usada no relacionamento anterior. Sempre dei o melhor para quem não me dava em troca, e eu mesmo ficava sem. Como me lembrava a Nina, logo mais ali em cima, eu deveria aprender a "dar 50%, e trocar os outros 50%", atitude bem mais inteligente do que dar 100% a quem não retribui nem conserva, e a seguir ficarmos todos sem.

Foi então que me dei conta que, a exemplo da câmera fotográfica e do celular, a casa onde eu morava também era a de um casamento mais antigo ainda, durante o qual eu também havia entrado, junto com a ex, no tal emprego anterior (que ainda era o atual na época do relato). E que meus relacionamentos desde então também tinham um padrão em relação ao que fiz naquela primeira, e seus filhos / família. Compreendi que TUDO estava relacionado - relação, emprego, casa - e saí dali com aquela sensação de "nascer de novo" que temos quando quase morremos. Eu poderia certamente ter morrido no meio daquelas águas e ondas (assim como quase me afoguei em outra ocasião mágica na Ilha do Cardoso, vide relato de sincronicidades com pássaros brancos e animais de poder). E mais simbólico ainda, saí dali sem minhas fotos antigas (registros, passado, incluindo tempos da ex), e completamente SEM COMUNICAÇÂO.

Quando subi o morro e, assustado, contei tudo para a Nina - que me esperava há um tempão - ela deu risadas sérias, especialmente do casal de rosas, e me disse que Iemanjá "queria" meu celular. Como se fosse a coisa mais natural e cotidiana do mundo. Mas havia no meu celular uma agenda importantíssima, que eu precisava recuperar. Falei mentalmente que eu até poderia oferecer ele para Iemanjá (que os ecologistas não me ouçam), mas precisava dos dados. Mas nem a assistência técnica de sampa deu jeito. Até que um dia, já na empresa em São Paulo, resolvi ligá-lo por teimosia (mesmo sem funcionar) ao cabo USB, e ele resolveu sei lá como me dar acesso à agenda, e depois até mesmo deixar eu copiar (via software) os dados da memória para o cartão S.I.M. !!! Vai entender? E o mais impressionante é que o tal celular parou de funcionar depois disso. Ou seja, novamente ela havia ouvido meu pedido, o que me deixava com outro compromisso junto ao mar. Não teve jeito, tive que prometer "entregar" o celular para Iemanjá. Desci para Santos, e num fim de semana na casa do moderador Emílio Cid, de São Vicente, fiz aquele ato poluente que me expulsaria do GreenPeace. Mandei o velho motorola pra quem o queria.

O curioso e shivasita da história foi que quando eu cheguei de Salvador aqui em Sampa, muitos aspectos da minha vida, inclusive alguns dos pedidos, pareceram virar de cabeça para baixo. Problemas no instituto de psicanálise, mudanças de regras no sindicato, pressão na empresa, dificuldades nos acertos com o relacionamento anterior, inviabilidade da mudança que eu queria fazer para um flat... NADA dava certo, mas ao mesmo tempo, como vi depois, TUDO se formou de uma maneira em que eu TIVE que me empenhar como não fazia antes, para resolver. Tive que acelerar minha formação psicanalítica, por ex, para atender à "virada de mesa" e "puxada de tapete", mas só depois vi que isso fez com que ela viabilizasse o que não seria feito no tempo necessário. E eu não tinha como prever o futuro. O que parecia dificuldade extra nos acertos do relacionamento anterior me ajudou de vez a solidificar e oficializar o que (e quem) era o melhor para mim (e até pra vcs da voadores também, rs). E por aí vai.

Quando tudo "dá errado", acontecem coisas maravilhosas que jamais poderiam ter acontecido se tudo tivesse "dado certo" (provérbio árabe)

Foi aí que me contaram que Iemanjá tinha mais a ver com as marés, com o alto e baixo das ondas, e que ela não era as aguinhas tranquilas onde morava a mãe Oxum.

E eis que alguns dias depois eu e Camilla vamos ao Grazie a Dio, já ali no começo de namoro, e encontrarmos o Grazie completamente modificado por uma exposição de... Iemanjá! É verdade que lá há UMA imagem, mas no dia, TODAS as paredes e temas estavam repletos da senhora do mar. E textos como o que a Cammy solicitou ao site do bar, e enviou hoje aqui:

> Foi uma sincronicidade daquelas encontrar uma exposição de
> telas/banners e quadros de Iemanjá em uma casa noturna, em SP!
> Aí vai um trecho:
>
> "Iemanjá quando dança corta o ar com uma espada. É um ato simbólico
> que conduz a individuação e separa o que deve ser separado, deixando
> somente o que é necessário para que se apresente a individualidade.
> Rege também a mudança rítmica de toda a vida por estar ligada ao
> elemento água que promove os ciclos da vida, a expansão e o
> desenvolvimento.
> É a Deusa da compaixão, do perdão e do amor incondicional e também
> da força, determinação, amizade, fecundidade, procriação e da
> entrega. Odôyabá! Odô Iyá! Iemanjá." (Marcia Azevedo-Fevereiro/2007)

Impressionante! Senti na pele este corte, e as coisas nunca mais foram como antes. Começou todo um processo que me fez perder o emprego, perder a moradia, e logo depois - na virada deste ano - perder também TUDO o que antes me identificava com a persona: eu não era mais o Lázaro da Naviterra, não era mais o da Merchant, não era mais o da Transpsicanálise (tive alta de minha análise didática, deram minha formação por concluida), a Maniji onde atendia fechou em Sampa e no processo perdi meus pacientes (todos menos um), na saída da empresa fui praticamente "expulso" da minha casa antiga, no mesmo período meu carro fundiu o motor (6.500 de prejuizo) e eu andava a pé...

... e de repente eu me vejo em outra casa, em outra relação, atendendo em outro local, buscando novos pacientes, estudando filosofia em outra escola, tocando sozinho com outros teclados mais apropriados para isso, repensando meus cursos, meus escritos, sem morar na casa do relacionamento de 12 anos atrás, sem trabalhar no emprego onde trabalhava meu relacionamento de 12 anos atrás, sem dividir casa com o (querido) filho de meu relacionamento de 12 anos atrás, e sem me prender em uma sequência de situações que repetiam o padrão de um casamento que durou 12 anos, e que terminou há outros 12 anos atrás, mas do qual só saí de vez após ter minha vida e "identidade" literalmente "DESTRUIDA" após cantar um bocado de Om Namah Shivaia no ano passado, logo após fazer umas entreguinhas para Iemanjá.

Claro que tenho receios e expectativas, e algumas demolições à minha volta deixaram cicatrizes. Mas tenho o que pedi, mudança e transformação, numa intenção clara de DEFINIÇÂO do que será, ou pelo menos afastamento do que "não é" (pedi exatamente assim naquele 2 de Fev para Iemanjá). E Iemanjá ocupa agora, ao lado de Xangô, Jesus, Buda e Krishna, um lugar de destaque em minha vida e altar (agora montado em outro lugar).

Não sei o futuro, mas hoje sigo o Amor, o Sorriso e a Música - minhas setas no caminho de volta, lanternas do Self nos meus passos em Gaia, oriente nas noites em que me perdi, que me alinham à realização do que realmente vim fazer aqui.

Independente do que for o amanhã, há definição, há conexão a algo maior... e garanto que, no aqui-agora que importa, nunca me senti tão LIVRE, AMADO e FELIZ.

Om namah shivaia!
Odô Iyá, Iemanjá!

Láz
http://www.voadores.com.br/lazaro




"Eu pedi Força... O Orixá me deu Dificuldades para me fazer forte.
Eu pedi Sabedoria... O Orixá me deu Problemas para resolver.
Eu pedi Prosperidade... O Orixá me deu Cérebro e Músculos para trabalhar.
Eu pedi Coragem... O Orixá me deu Perigo para superar.
Eu pedi Amor... O Orixá me deu pessoas com Problemas para ajudar.
Eu pedi Favores... O Orixá me deu Oportunidades.
Eu não recebi nada do que pedi... Mas recebi tudo o que mais precisava."


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Lázaro Freire
lazarofreire@voadores.com.br

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Lei-do-não-esforço

Deus é tão bom com todos, que mesmo o passarinho caído recebe alimento do céu; porém, antes que você largue o seu trabalho, achando equivocado, que terá tudo sem o menos esforço empregado; é bom lembrar que se eventualmente, mesmo sem se esforçar, você acabe achando o seu tesouro; a diferença entre você que não se esforçou e quem trabalhou, é que este último saberá o que fazer, como manter, multiplicar e compartilhar esse ouro...
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