terça-feira, novembro 30, 2010

PERDER

Ela lia um livro no ônibus. Um livro em branco! Branco com pontos, onde ela deslizava os dedos, lendo com a mão, lendo com a mão...brailiando...

Um senhor observava a tudo calado, até que a curiosidade falou mais alto que o respeito a privacidade:

- Oi moça, você é tão bonita, jovem e ceguinha - disse ele com pena e dó, dó e pena no olhar, no falar como uma coisa só, que de fato é, mas ele tinha pena num olho e no outro, só dó! - Quando foi que a senhorita perdeu a visão?

- Eu não perdi a visão - respondeu ela, voz firme e suave, coisa que só mulher educada conhece e sabe expressar quando alguém é indiscreto - Eu nasci assim. Porém, nunca perdi nada na vida, só ganhei. E o senhor?

O velhinho ficou em silêncio... eu também!!!

segunda-feira, novembro 29, 2010

Regras para ser humano , por Twyla Nitsch

1. Você receberá um corpo.
Pode gostar dele ou odiá-lo, mas ele será seu durante essa rodada.

2. Você aprenderá lições. Você está matriculado numa escola informal, de período integral, chamada vida. A cada dia, nessa escola, você terá a oportunidade de aprender lições. Você poderá gostar das lições ou considerá-las irrelevantes ou estúpidas.

3. Não existem erros, apenas lições. O crescimento é um processo de tentativa e erro: experimentação.
As experiências que não dão certo fazem parte do processo, assim como as bem sucedidas.

4. Cada lição será repetida até que seja aprendida.
Cada lição será apresentada a você de diversas maneiras, até que a tenha aprendido. Quando isso ocorrer, você poderá passar para a seguinte.
O aprendizado nunca termina.

5. Não existe nenhuma parte da vida que não contenha lições. Se você está vivo, há lições para aprender.

6. “Lá” não é melhor do que “aqui”. Quando o seu “lá” se tornar em “aqui”, você simplesmente encontrará outro “lá” que parecerá novamente melhor do que o “aqui”.

7. Os outros são apenas seus espelhos. Você não pode amar ou detestar algo em outra pessoa, a menos que isso reflita algo que você ama ou detesta em si mesmo.

8. O que fizer de sua vida é responsabilidade sua.
Você tem todos os recursos de que necessita. O que fará com eles é de sua responsabilidade. A escolha é sua.

9. As respostas estão dentro de você.
Tudo o que tem a fazer é analisar, ouvir e acreditar.

10. Você se esquecerá de tudo isto!




(Twyla Nitsch, Anciã da tribo Seneca)

domingo, novembro 28, 2010

VÍDEO: Jung – A jornada do autodescobrimento

Este vídeo, dividido em duas partes, traz um belo resumo da vida e das ideias de Carl Jung (1875-1961), o psicólogo suíço que se tornou um dos mais influentes pensadores do século 20.

Criador da teoria do inconsciente coletivo e do método “Imaginação ativa” pra contato direto com o inconsciente, Jung também criou a tipologia da personalidade, cruzando os tipos (introvertido e extrovertido) com as funções psicológicas (pensamento, sentimento, sensação e intuição). A teoria da sincronicidade, que relaciona fatos internos e externos pra explicar certas coincidências da vida diária, é outra contribuição sua pro entendimento que hoje possuímos sobre o funcionamento da psique.

Jung, assim como Joseph Campbell (1904-1987), ajudou a reacender o interesse sobre a mitologia, situando os mitos como elementos essenciais na busca do indivíduo por sua essência e completude.



Jung – A jornada do autodescobrimento (1) 9m12s







Jung – A jornada do autodescobrimento (2) 9m03s



sábado, novembro 27, 2010

SOMOS TODOS FOFOQUEIROS

A fofoca é uma instituição universal da qual ninguém escapa. Até hoje ainda não conheci uma única pessoa que não fosse fofoqueira. Em qualquer grupinho social a fofoca rola solta. Até nas Sociedades Psicanalíticas é um tal de conversa no pé do ouvido que não acaba mais. Nos partidos políticos reina o disse-me-disse. As especulações de todo tipo ocupam grande parte das
atividades: fulano rompeu com fulano, beltrano bandeou-se, cuidado com seu falso apoio...

E a Imprensa? Não fosse a fofoca, de que viveriam as colunas políticas e sociais? Acontece que a Imprensa resolveu tornar elegante essa coisa e mudou o nome de fofoca para "boato". Assim, o fofoqueiro profissional se exime de culpa, pois o "boato" é a fofoca passada adiante. O fofoqueiro fica apenas sendo aquele que deu a partida (as famosas fontes oficiosas).

Contra a fofoca não se pode fazer nada. É que a vida de todo mundo é dura, difícil, cheia de frustrações, de sonhos desfeitos, de ilusões derrubadas por amargas realidades. E quando uma pessoa está sofrendo, é terrível constatar que tem outra se dando bem, pois
isso agrava o sofrimento. Portanto, para quem está sofrendo, é melhor achar que todo mundo também está na pior. Mal de muitos, consolo é, já dizia minha vó.

Por que a gente gosta tanto de ler jornal? É que quando nos mostra toda essa violência que está por aí, frente à tamanha truculência, o leitor, que leva uma vida duríssima, respira até aliviado: "Puxa, podia ser pior. Pelo menos eu estou vivo e não matei ninguém".

Portanto, a tentação da fofoca é humana, normal e compreensível. O problema é que essa tentação pode tomar proporções assustadoras, impedindo que a pessoa tenha um olhar generoso, uma emoção forte, uma compreensão oceânica, um desprendimento amazônico.

O ser humano só se renova quando troca sua seiva com alguém. É de nossa própria natureza a necessidade do compartilhamento. Sem isso, caímos numa imensa solidão ou nossa alma começa a ficar numa carência medonha, faminta de energias alheias. Nada é mais
importante que o diálogo cotidiano, o bate-papo de cada dia. O ser humano precisa disso como o ar para respirar.

E, às vezes, pensando que está falando a gente pede pra passar a sopa, picha, malha, faz fofoca e não fala nada. Ou seja, pra falar sobre as nossas profundas emoções, ânsias e sentimentos, a gente se vê de rédea curta.

Vocês já repararam? Quantas vezes duas pessoas se encontram e se dispõem a falar sobre a verdade de seus sentimentos e descambam para críticas, conselhos que não têm nada a ver, ou simples fofoca?

- Eduardo Mascarenhas -
(Texto extraído do jornal "O Dia", do Rio de Janeiro; 25 de julho de 1992.)

sexta-feira, novembro 26, 2010

VICIADA EM SOFRER

Todo mundo sabia, ela também, que ele não valia a pena, a crônica; ele não valia sequer alguns versos, porém, havia algo nele, mesmo que não houvesse poesia, pois, ela vivia inebriada dele, sentia a sua falta, não queria terminar, tudo nela, além da lógica, o queria.

Bastava pensar em terminar para o seu corpo todo ficar louco, sua cabeça doia; e ela chorava, chorava, sofria só de imaginar que não mais o veria, mas tudo ficava bem quando ela o via, tudo, menos o relacionamento que ela queria ter com ele; pois assim, que ela satisfazia a sua vontade de ficar com ele, os problemas começavam e eles discutiam, brigavam; ela o acusava de não pensar no futuro, ele a acusava de querer mudá-lo. Ela dizia, que desde que o conhecera, a sua vida, seus planos estavam congelados; ele dizia que ela estava exagerando e os dois terminavam, e voltavam, e terminavam e voltavam...sofrimento e prazer, prazer e desapontamento.
Se fosse só pelo prazer, mas ela queria mais, como se era de esperar, como em qualquer relacionamento que começa, o que é apenas paixão, deseja permanecer no se amar.

Culpa, muita culpa ela sentia por desejá-lo tanto, mesmo sabendo que eles não tinham futuro juntos. Ela sabia, que sem ele, ela voltaria a estudar, trabalhar melhor, se dedicar mais afundo aos seus sonhos, objetivos e ganhos. Então por que doia tanto? Por que ela não conseguia apenas terminar e pronto?

A última vez que ela sentiu essa angústia foi quando tentou parar de fumar...

"Sim! É isso!" ela pensou: " eu não o amo! Estou na verdade viciada nele!"

Ela começou a estudar, então, o que ocorria com a sua mente quando pensava nele, os processos que nos levam a gostar de algo e se viciar nisso. Compreendeu que não estava apenas apaixonada por ele, mas cegamente viciada em tudo que vinha dele. Ela o idolatrava, por isso, não conseguia terminar com ele, estava presa numa cegueira emocional que a fazia continuar com ele, mesmo sabendo que as coisas não estavam bem. De acordo com o que ela lia, continuar com ele, ativava o "sistema de recompensa" do seu cérebro que lhe trazia prazer, bem estar e uma sensação de felicidade...mesmo que fosse passageira.

De acordo com alguns especialistas o que causou prazer no passado deixa de funcionar, ou só funciona às vezes, mesmo assim, o sistema de recompensa responde durante algum tempo a essas lembranças com uma ativação ainda maior, que motiva o cérebro a insistir quase obsessivamente no assunto até recobrar o bem-estar de antes. Esse processo é exatamente o que nos faz apertar dezenas de vezes seguidas, e cada vez mais desesperadamente, o botão do controle remoto cuja pilha acabou. Você vê que não funciona mais – mas e se, graças à sorte ou ao seu charme, voltar a funcionar? Se voltar, ótimo. E se não voltar, a receita da reabilitação é uma só: tempo, abstinência e outros prazeres.

No fim, ela percebeu que tinha duas opções:

a) terminar: o que a faria sofrer, chorar, gritar e passar por toda a angústia da abstinência, até conseguir se limpar da poeira e dar a volta volver.

Ou

b)continuar: e deixar o tempo cuidar do seu vicío...

Ela pensou, pensou e pensou, daí, decidiu: terminou com ele, mas se apaixonou de novo, logo em seguida, por alguém igualzinho a ele e o ciclo continua...

quarta-feira, novembro 24, 2010

E Se Tudo o que Eu Acredito Não for Real

Denise não entendia porque João tinha tanta certeza e confiança nesse tal mundo espiritual. Ela não entendia como alguém tão sensato e inteligente como seu amigo poderia acreditar nessas bobagens místicas que pipocam por aí.

- João, vamos lá. Você realmente acredita nessas bobagens que você lê tanto? Esse negócio de viagem astral, aura, chacras e espiríto para mim é pura piração.

- Eu já te falei que eu não acredito, Denise, eu tenho certeza!

- Tá bom! Mas e se você descobrisse que tudo o que você acredita, quero dizer, tem certeza... é uma furada? Sei lá, e se os cientistas finalmente descobrissem que Deus não existe coisa alguma e todos esses mestres e gurus são uns alienados pregando ilusão coletiva, como você reagiria?

- Eu não sei por que você vive tentando me convencer das suas incertezas. Não posso e nem quero te convencer de nada que sinto, mas se eu descobrisse que tudo o que aprendi e experimentei foi pura imaginação, crença ou sugestão mental, eu continuaria tentando ser uma pessoa melhor a cada dia e tratando os outros como eu gostaria de ser tratado. Nunca acreditei em Deus em troca de um lugarzinho no céu e mesmo se descobrisse que não há nada depois da morte, não diminuiria em nada a minha vontade de crescer e aprender. Mesmo se Deus não existisse, é inégavel que o fato de estarmos aqui vivos é um grande milagre da vida, e por isso, somente por isso, já temos motivos suficiente para seguirmos em frente com um sorriso no rosto constantemente.

ANJO

O anjo está perto.
Sim, muito perto.
Bem mais do que você imagina.
Ele está em seu coração.

E nada que você faça pode afastá-lo.
Nem mesmo o mal que você permite.
Porque ele vê a sua essência imperecível...
E opera por ordem de um Grande Amor.

Ah, o anjo nada espera de você.
Porque ele conhece sua jornada de muitas vidas.
Ele já viu você oscilar entre a Luz e as trevas do ego.
Sim, ele já viu isso, muitas vezes...

No entanto, ele sabe das coisas do Céu e da Terra.
E sabe que o tempo operará as devidas transformações...
Você pode ir e vir, mas o seu destino é a Luz.
E ele acompanhará o seu progresso.

O anjo não quer que você o adore.
Ele quer que você cresça!
E ele não precisa de preces ou evocações.
Porque é você que precisa disso, não ele.

E ele não falará com você, mas, sim, ao seu coração.
E isso na linguagem do Amor.
E, talvez, você sinta um contentamento secreto.
Sim, ele o guiará... De alguma maneira.

O anjo não pertence a grupo algum da Terra.
Ele vem do Alto, da Grande Fonte Imanente.
E ele não tem asas, pois o Amor o deixa leve e sutil.
E o seu corpo espiritual flutua naturalmente na Luz.

Então, de vez em quando, lembre-se dele, e agradeça.
Pela paciência e compreensão na jornada.
Não peça nada, pois ele sabe o que você precisa.
Apenas abra o coração e sintonize o Alto.

Ah, o anjo está perto, mais do que você imagina...

(Dedicado a Julia Blanque e aos leitores do seu livro, Reencontro com Você).

Paz e Luz.

“ Wagner Borges“
(Nascido no Rio de Janeiro em setembro de 1961, é pesquisador espiritualista, projetor extrafísico, conferencista, consultor da Revista UFO e colaborador de várias outras revistas como, Sexto Sentido, Espiritismo e Ciência, Revista Cristã de Espiritismo, e também do Jornal O Legado.
É escritor - autor de 11 livros dentro da temática projetiva e espiritual, dentre eles a série Viagem Espiritual, sobre as experiências fora do corpo.
É colunista de vários sites na Internet: Guruweb " www.guruweb.com.br, SomosTodosUm - www.somostodosum.com.br, IPPB: www.ippb.org.br, dentre outros.
É radialista apresentador do programa Viagem Espiritual, na Rádio Mundial de São Paulo – 95.7 FM.

(Texto extraído do livro “Reencontro com Você, de Julia Blanque “ Editora Romero Santiago “ 2010.)

terça-feira, novembro 23, 2010

MALDIÇÃO NO CAFÉ DA MANHÃ

Não lembro a primeira vez em que me chamaram de idiota, nem mesmo quando xingaram a minha mãe de batuta pela segunda vez, contudo, acho que jamais esquecerei, que hoje, fui chamado de monstro.

A palavra "monstro" possui vários significados: essa palavra não dói tanto para quem a escuta, se ela for empregada para significar o desempenho sexual de alguém, " você é um monstro na cama!" ou mesmo para designar alguém cuja aparência assim não é um Gianecchini, porém, como qualquer outra palavra, dependendo da forma como é dita, como é articulada, pode acabar com o dia de um vivente.

Estava eu no McDonald´s tomando um cappuccino, quando essa senhora pedinte se aproximou e me pediu dinheiro...



Sou vacinado contra pedinte. Desculpem-me os corações solidários com a "Indústria da Miséria", mas não sou convencido fácil a abrir a minha algibeira e dar as minhas moedas. Sim, há casos em que meu coração salta o bolso, como no menino que esses dias pedia R$ 17,50 para não apanhar da mãe; porém, confesso que me vira o estômago, toda vez, que vejo pedinte com crianças de colo, ou aqueles pedintes profissionais que entram no trem ou ônibus, ou nos alcançam nos fárois, com caras e bocas de gente, cuja miséria, eles fazem crer que é culpa sua. Geralmente ignoro, finjo que não é comigo. Aprendi que se não quero contribuir, ao menos, fico calado para não seguir julgando.

- Moço, me paga um lanche?

Silêncio

- Moço, por favor, um lanche!

Silêncio

- Moço, não vai me pagar nem uma batata?

- Não! - respondi. Cometendo o erro de não ficar calado, o que desencandeou na mulher uma revolta.

- Não se nega comida nem a um cachorro, moço!

- Eu tenho o direito de dizer não, moça! - respondi. O que tornou a coisa pior. A mulher passou a resmungar contra a minha alma. Jogando mil vibrações em minha direção. Não bastasse ter me escolhido como bode cuspitório de suas mazelas, ela olhou nos meus olhos e disse:

- Seu Monstro! - ela falou e tenho que admitir que aquilo pesou, ainda mais quando ela falou: - Um dia você vai ficar assim como eu e ninguém vai te ajudar!

Era só o que faltava, receber uma maldição no café da manhã. Cadê o segurança? O que eu faço? O que eu digo?

- O mesmo para a senhora!- respondi e ela foi embora encomendando a minha alma aos seus demônios.

O que se faz nesses momentos? Nos benzemos? Corremos para uma igreja e pedimos perdão por termos sido sovinas e não ter compartilhado o nosso Big Mac...quero dizer, o pão? ou continuamos com as nossas vidas, sabendo que nem sempre agradaremos a todos, principalmente quem faz da miséria o seu ganha-leite?

Sei lá, na dúvida, preferi fazer uma crônica!

RECITAL CHANDRA LACOMBE



Chandra Lacombe:
Uma vida de dentro para fora

A música como um elo entre os vislumbres da meta que um meditador atinge na sua busca pelo estado de plenitude, Yoga, Samadhi, Eu Sou, Sat Nam, Felicidade, Auto realização.

Talvez não exista no mundo, alguém que faça isso numa tríade tão bela de peculiaridades:

1) Aliando a gentileza com nossa criança interior no conforto e destreza com que toca sua kalimba (seu principal instrumento originado na África para acalmar crianças);
2) Com a pureza de sua voz que parece despir nosso coração das crenças e adultisses da mente;
3) A fidelidade de sua devoção, gravada no seu nome (Chandra, que significa Lua e também, a mais pura devoção) que nos faz lembrar de que somos parte de algo maior.

Sua biografia pode até trazer certos elementos interessantes que impulsionaram o talento que sentimos ao vê-lo se expressar, por exemplo, quando sua mãe o pegava gravando sons da água do banheiro aos 10 anos nas fazendas de Goiânia, encarando a percussão das escolas de samba do Rio na juventude ou se interessando por folclores brasileiros e uma série de fusões que só a música e o amor são capazes de fazer. No entanto, nada biográfico que for escrito poderá apaziguar a inquietação de termos que acreditar que talento é algo que se nasce com.

Ele não tem nenhum diploma de kalimba, nem de tabla, derbake ou canto e expressa como ninguém o caminho da auto descoberta interior também na música, podendo ser percebido como um surpreendente multi-instrumentista, apesar de sua estimada Kalimba guardar as chaves de seus mergulhos mais fundos.

Assim, sua biografia nos instiga mais para descobrir antigas canções ainda não gravadas, do que desvendar como seu talento foi construído nessa vida.
Se tivesse que citar um grande mestre da música talvez citaria o músico Carioca de quem foi parceiro por 3 anos, mas sua música claramente não é só técnica e seu mestre seja talvez um coração trabalhado pelas modernas técnicas da Era de Aquário para sintonizar elevadas tablaturas de amor universal.

Sim, ousamos dizer que o tempo que ele dedicou para a música é o mesmo que dedicou para o caminho do seu coração e se tivéssemos que dizer algo sobre o segredo de seu talento, para acalmar os eus inconformados com seu dom natural, diríamos isso: Aliou profundo auto-conhecimento com a música. Tornou-se um musico-terapeuta.

E assim nasce uma das pérolas principais de seu trabalho musical, o Oráculo Musical. Uma espécie de tarot cantado com a experiência de quem viveu uma caminhada universal adentro, arquetípica de todo buscador, capaz de nos inspirar e até nos encontrar nessa busca. Além de recitais, Chandra realiza consultas pessoais e círculos de cura onde coloca a sua a música a serviços dos buscadores que se expressam em gratidão pública sempre que podem.

Um dos temas mais intrigantes de sua jornada, desemboca onde a psicologia moderna nos aponta, na relação com Pai e Mãe, refletida nos relacionamentos. Como muitos músicos e artistas, Chandra não conseguiu estabilidade nessa área em sua jornada e teve três casamentos de profunda conexão, com um filho em cada um deles e muitos desafios para se trabalhar nessa área e manter sua harmonia musical, até encontrar seu quarto e definitivo casamento com seu mestre espiritual e terapeuta Sachcha Prem Baba e logo em seguida, encontrar seu complemento feminino: Sônia, que significa Sol, por isso apelidada de Surya, complemento de Chandra.

O trabalho profundo com Sri Sachcha Prem Baba utilizando o Pathwork e as tradições da Floresta amazônica, além de trazerem as pérolas do Oráculo à tona de vez, revelaram também sua ligação com o Oriente e sua missão de nos guiar até o caminho através do amor, sabedoria, meditação e atitude que seus cantos inspiram.

Assim, outra pérola de seu trabalho é a expressão dos mantras e da cultura do Oriente. Além de seu mergulho no mundo do Yoga desde jovem, especialmente com a Kundalini Yoga e também com os ensinos de Osho, ele se tornou discípulo da linhagem Sachcha, em reconhecimento ao trabalho profundo com Sri Sachcha Prem Baba e já esteve duas vezes na Índia.

Com o Udyana Bandha iniciou um trabalho musical, como ponte entre as verdades universais, do Ocidente e do Oriente, aprofundando o significado dos mantras.

Depois das participações seguidas no Yoga pela Paz como percussionista de “Krishna Das”, suas inúmeras turnês pela Europa, América Central e Ásia nos últimos anos, deve começar a ser reconhecido no cenário da música devocional brasileira, sem se esforçar ou precisar de grandes estratégias de marketing.

Como a grande aventura dessa biografia aconteceu dentro dele, quem melhor conta essa história talvez seja sua discografia.
Que a gentileza de sua Kalimba, a potencia e pureza de sua voz e a lealdade da sua devoção possam inspirar mais momentos de trovadoria da verdade, da cura e da preservação amor na Terra!

Só nos resta, escutar em silêncio e gratidão, Boddhi Chandra Lacombe.

Fonte: http://www.chandralacombe.com

segunda-feira, novembro 22, 2010

Brigadão!!!


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Que chovam crônicas!!

Em nome do bem se faz muito mal

As tentativas de censurar a literatura são mais graves e menos isoladas do que parecem

Por ELIANE BRUM

Apenas entre agosto e outubro deste ano foram três tentativas de censurar a literatura. Três que se tornaram conhecidas, podem ter ocorrido outras. A mais rumorosa delas foi o parecer do Conselho Nacional de Educação recomendando que o livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, fosse banido das escolas públicas. Ou apresentasse notas explicativas alertando sobre a presença de “estereótipos raciais”. Os membros do CNE viram racismo na forma como a personagem Tia Nastácia é tratada no livro. Dois meses antes, em agosto, pais de estudantes do ensino médio da rede pública de Jundiaí, no interior de São Paulo, protestaram contra o uso do livro “Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”. Segundo eles, o conto “Obscenidades para uma dona de casa”, de Ignácio de Loyola Brandão, usa “linguagem chula” para descrever atos sexuais narrados em cartas recebidas por uma dona de casa. Ainda em agosto, mais uma polêmica. Desta vez por causa do livro “Teresa, Que Esperava as Uvas”, de Monique Revillion, também destinado ao ensino médio. No conto “Os primeiros que chegaram” a autora descreve um sequestro com estupro e assassinato.

É bastante diferente quando a tentativa de censurar a literatura parte de pais ou pedagogos – indivíduos, portanto – e quando é encampada por um órgão que tem a tarefa de pensar a educação brasileira e ajudar a aprimorá-la com suas análises e recomendações. A má qualidade da educação na rede pública, como todos sabemos, é uma das maiores, senão a maior tragédia nacional. Entre as causas da indigência educacional brasileira está o fato de que os brasileiros leem pouco ou nada leem. Boa parte deles porque não tem acesso a bibliotecas, triste realidade que os programas governamentais têm tentado mudar com menos empenho do que seria necessário.

Quando soube das tentativas de censura, minha primeira reação foi rir. Era tão absurdo que parecia mesmo piada. Percebi então que enquanto nós rimos, eles proíbem. Esta última polêmica atingiu uma repercussão tão grande, capaz de fazer o ministro Fernando Haddad manifestar-se pedindo uma revisão do parecer, apenas por tratar-se de Monteiro Lobato, um autor consagrado. Quem teve a sorte de conhecer Tia Nastácia, Dona Benta, Pedrinho, Narizinho, Emília e todos os habitantes do Sítio do Picapau Amarelo deve ao autor uma das partes mais saborosas de sua infância. Tão deliciosa quanto os bolinhos da Tia Nastácia, aliás. Nos outros dois casos, os protestos e a repercussão tiveram um volume menor.

É assim que o autoritarismo vai se insinuando em nossas vidas, pelas bordas. Vai nos comendo aos poucos e um dia se instala em nosso cotidiano como se fosse um dado da natureza. Acontece quando a equipe responsável pela seleção dos livros depara com um conteúdo que já provocou polêmica antes e, para se poupar de problemas, acaba optando por uma obra mais palatável. Pronto, o livro em questão, apesar de sua reconhecida qualidade, jamais chegará às bibliotecas. Ou quando o professor na sala de aula, que já é criticado por quase tudo, prefere abster-se do risco. Em vez de escolher o melhor livro, opta por aquele que não causará a reação raivosa de nenhum pai ou mesmo uma discussão acalorada na classe. Pronto, os alunos só terão acesso a textos que nada provocam. Ou ainda quando algum escritor começa a se policiar nos termos que usa e nos temas que aborda para ter alguma chance de ser selecionado pelos programas de governo. É assim, muito mais pelo que não é dito, pelos caminhos subjetivos, que a vida se empobrece e o controle se instaura.

A História nos mostra que censurar livros e controlar o que é escrito estão entre os primeiros atos de regimes autoritários. Vale a pena revisitar a obra de Ray Bradbury, “Fahrenheit 451”, um pequeno livro essencial que possivelmente o CNE não aprovaria.

Saiba mais

»Saci sem cachimbo, lobo sem dentes e gente sem pensamento
»A história de Lili Lohmann
»Leia as colunas anteriores de Eliane BrumNas democracias, o autoritarismo costuma vir embalado no discurso do bem. Que é, de longe, o mais insidioso e difícil de identificar. Se o CNE afirma que Tia Nastácia é tratada de modo preconceituoso, como vamos nos posicionar contra a eliminação de algo tão abjeto como o racismo sem nos sentirmos boçais? Só mesmo porque o autor se chama Monteiro Lobato. Mas e se fosse um escritor menos conhecido, ainda que brilhante? Será que tantos teriam a coragem de defender a sua obra?

É preciso dizer que o CNE nega ter cometido qualquer ato de censura da obra de Monteiro Lobato. Ele apenas “recomenda” que todas as obras com “preconceitos e estereótipos”, como “Caçadas de Pedrinho”, não sejam compradas nem distribuídas pelos governos. Para o CNE, isto não é banimento. No caso de clássicos como os livros de Monteiro Lobato, se insistirem em usá-los nas salas de aula, o CNE sugere que seja feita uma nota explicativa alertando para seus pecados. Interpretar esta recomendação bem intencionada como uma tentativa de censura seria apenas mais uma das incontáveis “manipulações da imprensa”.

Entre os argumentos utilizados para defender o parecer está o de que os professores da rede pública não teriam preparo para discutir uma questão complexa como o racismo. Ou para contextualizar a época de Monteiro Lobato assim como o Brasil que ele retrata. Surpreende-me que nenhum professor tenha se manifestado contra uma generalização que poderia ser interpretada como preconceito. Mas, supondo por um momento que esta afirmação esteja correta, a saída seria banir todos os conteúdos que hoje são mal trabalhados nas salas de aula, de Monteiro Lobato à equação de segundo grau?

Neste mesmo rumo, acreditar que as crianças, por lerem “Caçadas de Pedrinho”, começariam a discriminar os negros nas ruas é no mínimo subestimá-las. É preocupante perceber que pessoas responsáveis por pensar e aprimorar a educação brasileira possam enxergar as crianças como meros receptáculos, vazios e passivos, sem capacidade de fazer relações, inferências e mediações. Se aceitarmos o argumento de que Tia Nastácia tem um tratamento racista na obra, sob os olhos de hoje e não da época de Monteiro Lobato, a atitude de um bom educador deveria ser a de calar as contradições e eliminar a oportunidade de debate?

Eu, que tive a sorte de ler toda a obra de Monteiro Lobato entre os 8 e os 9 anos e incrivelmente não me tornei racista, gostaria de dizer aos membros do CNE que mesmo a sua interpretação da personagem Tia Nastácia é pobre. Bem pobre. Mas a Academia Brasileira de Letras disse isso de uma forma muito melhor do que eu faria. Transcrevo aqui parte da manifestação da ABL, contrária ao parecer do CNE:

“Um bom leitor de Monteiro Lobato sabe que tia Nastácia encarna a divindade criadora, dentro do sítio do Picapau Amarelo. Ela é quem cria Emília, de uns trapos. Ela é quem cria o Visconde, de uma espiga de milho. Ela é quem cria João Faz-de-conta, de um pedaço de pau. Ela é quem “cura” os personagens com suas costuras ou remendos. Ela é quem conta as histórias tradicionais, quem faz os bolinhos. Ela é a escolhida para ficar no céu com São Jorge. Se há quem se refira a ela como ex-escrava e negra, é porque essa era a cor dela e essa era a realidade dos afrodescendentes no Brasil dessa época. Não é um insulto, é a triste constatação de uma vergonhosa realidade histórica.

Em vez de proibir as crianças de saber disso, seria muito melhor que os responsáveis pela educação estimulassem uma leitura crítica por parte dos alunos. Mostrassem como nascem e se constroem preconceitos, se acharem que é o caso. Sugerissem que se pesquise a herança dessas atitudes na sociedade contemporânea, se quiserem. Propusessem que se analise a legislação que busca coibir tais práticas. Ou o que mais a criatividade pedagógica indicar.

Mas para tal, é necessário que os professores e os formuladores de políticas educacionais tenham lido a obra infantil de Lobato e estejam familiarizados com ela. Então saberiam que esses livros são motivo de orgulho para uma cultura. E que muito poucos personagens de livros infantis pelo mundo afora são dotados da irreverência de Emília ou de sua independência de pensamento. Raros autores estimulam tanto os leitores a pensar por conta própria quanto Lobato, inclusive para discordar dele. Dispensá-lo sumariamente é um desperdício.

A obra de Monteiro Lobato, em sua Integridade, faz parte do patrimônio cultural brasileiro”.

A única parte boa desta tentativa de censura foi me dar uma excelente desculpa para reler “Caçadas de Pedrinho” (Editora Globo) aos 44 anos e renovar minha gratidão a Monteiro Lobato pelo tanto de imaginação que me deu. Assim como comprar “Os cem melhores contos brasileiros” (Objetiva) para ler o texto de Ignácio de Loyola Brandão que provocou furor no interior de São Paulo. E de quebra ler Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Machado de Assis, Mário de Andrade, Nélida Piñon, Lygia Fagundes Telles, Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, Raduan Nassar, Moacyr Scliar, Caio Fernando Abreu, João Ubaldo Ribeiro e todos os grandes da literatura brasileira que fazem parte da coletânea. Banir tal livro das escolas? Por favor, não!

O conto de Ignácio de Loyola Brandão é excelente. Ótimo mesmo. Quando li a notícia de que alguns pais e estudantes queriam proibi-lo por usar “linguagem chula” na descrição de atos sexuais, estranhei. Afinal, tratava-se de adolescentes do terceiro ano do ensino médio, na faixa dos 17 anos. Neste mundo. Nesta época. Será que não seriam capazes de lidar com isso? Parece-me que, se não conseguem lidar com isso, então sim temos um problema.

Foi só ao ler o conto que formulei minha própria hipótese sobre a razão de tanto incômodo. Eu arriscaria dizer que o que pode ter perturbado estes pais e estes filhos é uma outra realidade que o conto desnuda, esta sem “linguagem chula”, com a qual muitos podem se identificar. Quem ler o conto, talvez concorde comigo. É verdade que é sempre mais fácil proibir aquilo que nos produz incômodo do que olhar para dentro e tentar compreender com honestidade os nossos porquês. Perturbar, incomodar e até transtornar o leitor, em minha opinião, são qualidades num texto.

Não encontrei o “Teresa, que esperava as uvas” (Geração Editorial), de Monique Revillion. Infelizmente. Pelo que li nos jornais, o conto da discórdia chocava pela crueza da descrição da violência. De novo, o livro era usado como material de apoio para estudantes do ensino médio, com idades a partir de 15 anos. Houve quem acreditasse, com bastante estardalhaço, que os adolescentes não seriam capazes de lidar com temas como a violência urbana e a sexual. Não compreendo como não ocorreu a estas mentes privilegiadas proibir logo todo o noticiário, que nem mesmo pode alegar em sua defesa que é ficção. Que os jornais e revistas sejam vendidos nos fundos das bancas, junto com os filmes pornôs.

Tudo isso – sempre – em nome do bem. Com as melhores intenções.

Sou filha de professores de português e literatura que dedicaram boa parte da vida a dar aulas na rede pública. Meus pais, que me ensinaram a amar os livros, se esforçaram muito para que tivéssemos uma biblioteca em casa. Na minha família as roupas eram remendadas e herdadas dos primos mais velhos. Se sobrava algum dinheiro era sempre para livros, para a educação. Numa cidade pobre em bibliotecas e com bibliotecas pobres, a nossa era uma das melhores. E foi lá que amigos meus e de meus irmãos, assim como alunos dos meus pais, se serviam livremente das letras. Volta e meia encontro alguém que me interrompe o passo na rua para me dizer que a biblioteca da minha casa foi fundamental na sua vida.

Devo a esta lucidez e a esta biblioteca boa parte do que sou e consegui fazer de mim. Assim como a Lili Lohmann, a moça da livraria cuja história já contei aqui. Nunca, em nenhum momento, nem meus pais nem Lili dificultaram o acesso a um livro. Eu lia o que bem entendia porque eles sabiam que esta busca pertencia a mim, era determinada pelos meus anseios e pelos meus incômodos, pela minha curiosidade que só aumentava. A viagem da literatura é talvez a travessia mais fascinante, importante e – ainda bem – sem fim da minha vida.

Eu era criança e já intuía que a literatura era o território do indizível. Nela cabia tudo o que era humano. Mesmo o feio, o brutal. Mesmo a covardia, a inveja, os sentimentos todos que a gente prefere dizer que não sente. A literatura, como as várias manifestações da arte, é o não-lugar geográfico onde podemos lidar com nossos demônios sem que eles nos devorem. A literatura só é literatura se incontrolável.

Tenho medo que os bem intencionados do politicamente correto inventem a maior ficção de todas, que é um homem sem conflitos, sem pequenezas e sem contradições. E então a literatura, que não será mais literatura porque deixará de estar encarnada na vida, ficará reduzida a uma casca vazia e sem ressonância onde não nos reconheceremos. Porque se estes iluminados se decidirem a revisar a literatura sob a ótica do que é politicamente correto nesta época, podem começar a alimentar sua fogueira com a Odisséia de Homero. E dali em diante não sobra nada. Em sua sanha não devem se esquecer de incluir a Bíblia – aliás, como ainda não pensaram nisso?

É sério, muito sério. E nenhum de nós deve se omitir quando tentarem arrancar o cachimbo do Saci Pererê ou submeter as bruxas dos contos de fadas a um tratamento a laser para eliminação das verrugas. Sobre isso sugiro ler “Saci sem cachimbo, lobo sem dentes e gente sem pensamento”. Percebam bem quantos absurdos nos assediam, nas mais variadas instâncias, em nome do bem. Estamos conseguindo resistir, mais ou menos, e até colecionamos algumas vitórias parciais, como a reversão da censura ao humor nestas eleições. Mas é preciso se manter vigilante nesta luta de resistência.

Não sei o que pensam vocês. Mas eu, quando vejo aquelas pessoas com seu par de olhos angelicais, anunciando que ainda que seja contra a minha vontade estão fazendo o que fazem para o meu bem, não hesito. Corro.

Eliane Brum Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem.
É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).
elianebrum@uol.com.br

domingo, novembro 21, 2010

Sarau do Pachá

Q uem não viu,
Não verá,
Tudo o que rolou
No Sarau do Pachá!

Teve harpa, teve tambor
Violão explodindo,
Que horror!

No Sarau do Pachá
No Sarau do Pachá

Teve a famosa beringela,
Até Dança do Jabuti,
No Sarau do Pachá,
O melhor que já vi!

No ano que vem,
É nóis de novo!
Nas nozes, na fita,
Com poesia, com alegria;

No Sarau do Pachá
No Sarau do Pachá

Mil vozes
Mil cantos
No Sarau do Pachá
...e do Nando! Notas: mais um Sarau na casa do meu amigo e mano de caminhada, Gerson Pachá. Muita música, poesia, diversão, risada e bate-papo.

sábado, novembro 20, 2010

MAIS UMA ORAÇÃO DA PRESENÇA*

(Com Alma Celta e Coração Lindo)

Por Wagner Borges

Que você sempre tenha a mente aberta, para jamais estratificar os seus pensamentos em pontos de vista cristalizados no radicalismo.
Que você seja capaz de escutar o que o seu coração quer dizer.
Que você não pise em ninguém e, pelo contrário, estenda a mão para ajudar os seus irmãos em prova.
Que você jamais acalente a mágoa e o ódio, mesmo diante do aguilhão da ingratidão dos homens, porque isso escureceria o seu coração.
Que você não perca a sua inocência primordial, que nada tem a ver com a idade do seu corpo, mas com a sua própria essência espiritual.
Que um Grande Amor habite em seu coração, como um presente do Céu.
Que, mesmo que os dias anteriores tenham sido difíceis, você ainda se levante e venere a luz do novo dia como uma dádiva.
Que você saiba amar, sem se anular e sem se perder e também sem medo de compartilhar o seu coração com o Ser amado.
Que você não dependa de alguém para ser feliz; porém que você saiba que sua viagem pela vida pode ser linda com alguém ao seu lado.
Que, ao envelhecer fisicamente, você tenha a sabedoria de fazer a colheita de tudo de bom que plantou, sem se lamentar...
Que você jamais deixe de sonhar, mas que tenha o discernimento para estar com os pés no chão, sem perder a realidade de vista.
Que você não deixe a arrogância sequestrar a sua simplicidade, e nem que o mal conquiste o seu Ser.
Que você ore com alegria e gratidão, sabendo que a Presença escuta o seu coração.
Que você tenha a coragem de viver um Grande Amor, sem as barreiras do seu ego, e sinta-se honrado (a), por amar e ser amado.
Que você não permita que poder algum do universo, humano ou espiritual, possa roubar sua luz e tirar sua alegria.
Que você, mesmo com o materialismo do mundo tentando asfixiar os seus valores espirituais, jamais traia o seu coração, porque isso seria a maior das perdas.
Que, diante da dor de uma perda, você saia vencedor de si mesmo e continue vivendo com garra e alegria, na força do seu próprio espírito imortal.
Que você ame aos seus filhos, incondicionalmente, assim como a Presença o ama.
Que você beije com gosto, não com carência ou medo, e saiba que toda relação inclui uma fusão de energias entre os parceiros (e que você tenha a sabedoria de se envolver com alguém na luz).
Que, de vez em quando, você se pergunte o que seria de sua vida, se não houvesse boa música no mundo?...
Que você saiba que os seus animais de estimação são seus parceiros de viagem (mesmo quando estão velhinhos e adoentados); são presentes da Presença, para alegrar sua vida.
Que você honre aos seus pais e avós e jamais os desampare na velhice.
Que a Luz do Eterno se revele em seu coração e lhe dê a certeza da imortalidade da consciência.
Que, mesmo sem ser poeta, você seja capaz de ver a poesia nas coisas da vida: na alegria das crianças; num lindo pôr de sol; no desabrochar das flores; e no olhar de quem você ama...
Que você olhe para as estrelas, e ainda se emocione com a beleza do zimbório celeste (que repousa nas mãos do Ancião dos Dias).
Que você aprecie um dia ensolarado e agradeça a festa da luz na atmosfera, e saia cantando a vida...
Que você aprecie uma noite enluarada e deixe sua consciência viajar por aí...
Que você voe, em espírito, e comungue com as estrelas, mas, sem deixar de escutar o som dos passos da formiga.
Que você agradeça à Presença, pelos grandes amigos que ela colocou na senda de sua vida...
Que você escute o “Oran Mor”** em seu coração.
Que os seus olhos brilhem muito quando você ler essas linhas...

P.S.:
Ah, que os nossos corações se encontrem...
Aqui, nessas linhas, por obra e graça da Presença***.
Você, o leitor; e eu, o escritor, escutando, juntos, o “Oran Mor”...
Com nossos corações.
E que assim seja!

Paz e Luz.

(Dedicados aos meus amigos de Caxias do Sul e Veranópolis, na serra gaúcha: Tania Lima, Antonio de Cesaro, Elizandra Nunes, Neusa Brugero, Élio J. Chilanti, Patricia Tofoli Manini, Endinara Fabiana Siqueira, Ewelise Weber, Priscila Maria Favaro, e a todos da família do Aldo e da Leor; e também aos meus amigos Marco Antonio Petit e Marcos Malvezzi, e ao casal baiano Sergio e Tania Mota Nogueira Reis).

- Wagner Borges – voando com gratidão...
São Paulo, 03 de novembro de 2010.

- Notas:
* Há uma série de sete Orações da Presença publicadas no apêndice do meu livro “Flama Espiritual”. Então, essa aqui é a oitava (ou, talvez, a primeira de uma segunda série a ser realizada, por obra e graça da Presença.)
** Oran Mor, traduzido como “A Grande Melodia”, é o que existe de mais próximo sobre o mito da criação celta. Diz-se que o Oran Mor começou no silêncio, quando nada existia ainda. Depois a canção começou. A vida foi tocada na existência, e a melodia continuou desde então, para aqueles que a ouvem...
** A Presença – metáfora celta para o Todo que está em tudo. Quando os antigos iniciados celtas admiravam os momentos mágicos do alvorecer e do crepúsculo, costumavam dizer: “Isso é um assombro!” E assim era para todas as coisas consideradas como manifestações grandiosas da Natureza e do ser humano. Ver o brilho dos olhos da pessoa amada, a beleza plácida da lua, a alegria do sorriso do filho, ou o desabrochar de uma flor eram eventos maravilhosos. Então, eles ousavam escutar os espíritos das brumas, que lhes ensinaram a valorizar o Dom da vida e a perceber a pulsação de uma PRESENÇA em tudo.
A partir daí, eles passaram a referir-se ao TODO QUE ESTÁ EM TUDO como a PRESENÇA que anima a Natureza e os seres. Se a luz da vida era um assombro de grandiosidade, maior ainda era a maravilha da PRESENÇA que gerava essa grandiosidade. Perceber essa PRESENÇA em tudo era um assombro! E saber que o sol, a lua, o ser amado, os filhos, as flores e a Natureza eram expressões maravilhosas dessa totalidade, levava os iniciados daquele contexto antigo da Europa a dizerem: “Que assombro!”
Hoje, inspirado pelos amigos invisíveis celtas, deixo registrado aqui nesses escritos o “terno assombro” que sinto ao meditar na PRESENÇA que está em tudo. E lembro-me dos ensinamentos herméticos inspirados no sábio estelar Hermes Trismegisto, que dizia no antigo Egito: “O TODO está em tudo! O Inefável é invisível aos olhos da carne, mas é visível à inteligência e ao coração.”
O TODO ou A PRESENÇA, tanto faz o nome que se dê. O que importa mesmo é a grandiosidade de se meditar nisso; essa mesma grandiosidade de pensar nos zilhões de sóis e nas miríades de seres espalhados pela vastidão interdimensional do Multiverso, e de se maravilhar ao se perceber como uma pequena partícula energética consciente e integrante dessa totalidade, e poder dizer de coração: “Caramba, que assombro!”
Obs.: Enquanto eu passava essas linhas a limpo, lembrei-me de um texto do mestre búlgaro Mikhael Aivanhov. Segue-se o mesmo logo abaixo.




VIVAM NA POESIA

- Por Omraam Mikhaël Aïvanhov -

Andando pelas ruas e lojas, tomando o trem, o ônibus ou o metrô, vemos praticamente por toda parte apenas rostos desanimados, tristes, tensos, fechados, revoltados. Não é um belo espetáculo! E ainda que não tenhamos nenhum motivo para estar tristes ou infelizes, somos assim desagradavelmente influenciados: voltamos para casa com um mal-estar que transmitimos a toda a família. É essa a vida lamentável que os seres humanos estão continuamente criando uns para os outros.
Por que não se esforçam por apresentar sempre um rosto aberto, sorridente, luminoso? Eles não sabem como viver essa vida poética graças à qual poderão ficar maravilhados uns com os outros. A verdadeira poesia não está na literatura, a verdadeira poesia é uma qualidade da vida interior. Todo mundo gosta de pintura, de música, de dança, de escultura, das artes; por que então não fazer com que a própria vida interior fique em harmonia com essas cores, esses ritmos, essas formas, essas melodias?
É a poesia que amamos nos seres e que neles buscamos: alguma coisa leve, luminosa, que precisamos contemplar, sentir, respirar, algo que acalma, que harmoniza, que inspira.
Mas, quantas pessoas, que ainda não compreenderam isso, vivem sem jamais se preocupar com a impressão penosa que causam nos outros!
Lá estão elas, desagradáveis, mal-humoradas, com os lábios cerrados, as sobrancelhas franzidas, o olhar desconfiado, e ainda que tentem melhorar sua aparência exterior com toda espécie de truques, sua vida interior prosaica, comum, sempre transparece.
A partir de agora, então, deixem de relegar a poesia aos poetas que a escrevem. A vida que levam é que deve ser poética. Sim, a arte nova significa aprender a criar e propagar poesia em torno de si, ser caloroso, expressivo, luminoso, vivo!

(Texto extraído do excelente livro “Regras de Ouro Para a Vida Cotidiana” - Omraam Mikhaël Aïvanhov - Editora Nova Era.)

Para saber mais sobre o IPPB e os cursos e textos do Professor Wagner Borges, acesse:
www.ippb.org.br

sexta-feira, novembro 19, 2010

Xadrez do Ensino

Cheguei entusiasmado, ela estava cansada. Abri o tabuleiro, ela me ajudou a colocar no lugar as peças, mas não estava presente, seu corpo sim, sua alma, lá fora, vagando em meio a mil ocupações que ainda não foram feitas. Não conseguia se desligar, não conseguia esquecer e ainda assim, queria aprender...

Tentei minhas primeiras jogadas, não surtiu efeito; eu tudo, ela nada. Blefei, brinquei e joguei, tentando trazê-la de volta, mas nada consegui. Ela me olhava, mais seu olhar estava lá fora, na poeira das coisas não terminadas.

Ela, então, pediu desculpas. Disse que não estava num bom dia, numa boa semana, o mês estava péssimo, que eu não me preocupasse que a mensalidade estava paga, e que mesmo sem aprender nada, ela continuaria me pagando, sabia que precisava da minha ajuda para aprender aquele jogo, mas não tinha vontade de fazer nada.

Seria fácil, se para mim bastasse o pagamento feito, não bastava. Eu não era professor dela pelo dinheiro, e sim pela causa de ajudá-la, de conseguir despertar nela, uma jogadora daquele idioma, mas eu estava perdendo o meu tempo, o tempo dela, o seu dinheiro, o espaço da vaga; daí, ela avançou e dei xeque-mate: desisti de ensiná-la!

O Rei morrei naquele dia, morreu também a Rainha, daí, prometi que enquanto forças tivesse e forças muitas eu tinha, jamais desistiria de outro estudante. E assim, eu prossigo nesse meu Xadrez do Ensino, por vezes, eu ganho, outras vezes, eu perco, mas não desisto de tentar convencê-lo, que o seu esforço em aprender é que valerá a letra...

quinta-feira, novembro 18, 2010

SETE OLHARES

Havia uma criança brincando no meio da rua do centro de Sampa.

Fiquei com vontade de levar ela para algum lugar seguro, pois já era tarde da noite e não havia nenhum adulto por perto naquela rua perigosa.

Por um momento, pensei que ela estava perdida, mas ela brincava de carrinho, parecia à vontade na porta de uma casa antiga da Rua do Carmo, e logo percebi, que ela deveria ser filha de alguém que não se preocupava com uma criança sozinha brincando na rua no meio da noite.

Eu me importava, mas também sabia que não poderia fazer nada.


Mantive distância, quis perguntá-la " onde morava?" ou "cadê seus pais", mas ela tinha a idade de criança que nem sabe responder pergunta. Daí, apenas pedi ao Anjo da Guarda das crianças-filhas-de-pais-desnaturados que a protegesse de gente esquisita e a guardasse principalmente do descaso dos seus pais ausentes ou qualquer parente sem consciência que a alma em corpo de criança deve ser guardada, se não a sete chaves, pelo menos, a sete olhares.

Não gosto de você, mamãe - legendado PT-BR

Guerra nas Estrelas de acordo com uma menina de 3 anos.

quarta-feira, novembro 17, 2010

A PSICOGRAFIA E O TELEFONE SEM FIO

Fulano diz remédio, Sicrano entende Genésio, você compreende outra coisa, eu mesmo ouvi moça; já, ele, entendeu força! Telefone sem fio: todo mundo segue nessa brincadeira, dizendo o que não ouviu, repassando adiante o que mal escutou.

Como assim você nunca brincou disso? Todo mundo brinca! Se não agora, brincou na infância, ou inconscientemente nas cirandas do repassar a mensagem que lhe disseram em algum lugar lá distante e você acreditou, repassou e outro fez o mesmo, sem se dar conta, que a comunicação falada passa sempre pelo filtro de quem a recebe, a interpreta e reconta, por vezes adultera, pois quem conta sempre aumenta um conto; e nem te conto que boa parte das minhas lembranças são coisas inventadas, ou mensagens passadas por outras pessoas, que nem sei bem se repassaram algo ou simplesmente criaram; daí a minha desconfiança das mensagens psicografadas.

Se já é difícil repassar a mensagem de quem está vivo, imagina ouvir e decodificar o que se fala do outro lado de lá; da terceira margem do rio, onde contava Guimarães e o Meu Tio Joca: " Ora, lá é um lugar que nem se fala, nem se fala".

Se lá não se fala, como é que há vivos que escutam o que dizem os que moram além da morte? Digo isso, pois meu tio, um dia, disse algo que fez, pra mim, todo o sentido:

" Não acredito que falemos português do lado de lá. Digo isso, pois em corpo, precisamos da garganta para nos comunicar, mas quando morremos, a garganta fica no corpo, não é mesmo, menino?"

Eu só pude responder: " sei lá!"

" Deve haver algum outro tipo de comunicação. - ele continuou - Só assim, para explicar como é recebido no astral o brasileiro ou o índio, o espanhol ou o mongol. Não é mesmo, menino?"

" sei lá, sei lá"

Porém, devo confessar que sempre pensei nisso, toda vez que alguém me dizia que psicografava mensagens dos parentes mortos de quem a eles pedia, um sinal, uma carta, algumas palavras que pudesse demonstrar, provar que o amado falecido continuava vivo e bem.

Lá pelas tantas da minha caminhada espiritual, plantei e semeei uma certa certeza que essas coisas do astral são mesmo reais; aprendi sobre corpo astral, perispírito; sei que as mensagens que sopram de lá são coisas sérias, e que elas vem em bloco, sobrando para o médium a função de fazer o download, traduzir, interpretar e repassar a mensagem. Em outras palavras, vem a idéia, mas as palavras são de quem as recebe; daí a minha pulga dançante atrás da moleira, pois assim, como a mensagem entre vivos pode ser uma brincadeira de telefone sem fio, quem diz ouvir o povo do astral pode sempre escutar algo e reproduzir esse algo distorcido.

Eu, tradutor do inglês para o português, sei o quanto é impossível traduzir palavra por palavra; não dá tempo, não faz sentido, daí a importância de um bom ouvido e de repassar somente o contexto. Por isso, toma a minha palavra quando eu digo: quem me garante que essas mensagens recebidas pelos médiuns, são mesmo idênticas ao conteúdo do que foi passado?

O que salva e preserva a minha fé na psicografia é que, volta e meia, e meia-volta, surge um profissional da comunicação extra-fisíca, um tradutor do astral que consegue captar e psicografar uma mensagem do lado de lá, sem deturpação, sem acrescentar a sua própria opinião, crença, achismo no meio da escrita ou da fala. Esses bons médiuns são poucos, a grande maioria nem está na mídia, nem muito menos vende best-seller espírita, mas são pessoas que aprenderam algo que os distingue dos outros médiuns de meio-ouvido; eles aprenderam a escutar, não somente espíritos, mas principalmente, quem está aqui e está vivo.

terça-feira, novembro 16, 2010

CORTINA DE BURRICE

Por Cláudio de Moura e Castro

A Revolução Russa propôs-se a criar o "paraíso socialista", cujo cardápio foi parido por intelectuais europeus. Na teoria, todos tinham direito a habitação, emprego, comida, escola e ópera. Mas a dieta era parca e o povão queria consumir mais. Daí a necessidade do que Churchill chamou de Cortina de Ferro, para não deixar que os russos bisbilhotassem o que consumia o mundo capitalista decadente. Para os xeretas, punições ferozes. Mas os seus líderes cometeram um erro, criaram também um estupendo sistema educativo para todos. Foi uma besteira, pois não houve maneiras de impedir um povo educado de ver o que acontecia do lado de fora. O resultado foi a estrepitosa queda do Muro de Berlim.

Os governantes brasileiros fizeram muito melhor. Abriram tudo, viaja-se à vontade. Mas não cometeram o erro dos russos. A garantia de isolamento do país está em uma educação de péssima qualidade e a conta-gotas. Assim nasceu uma Cortina de Burrice, muito mais eficaz, pois somos um país isolado do resto do mundo. Os que se aventuram ao exterior vão à Disneylândia, um mero parque de diversões, ou a Miami, uma sucursal do Brasil.

A garantia de nosso isolamento do resto do mundo está na educação de péssima qualidade. Há pouco, em uma universidade de elite, pedi que levantassem as mãos os que confortavelmente liam inglês. Não vi nem um quinto das mãos do auditório. Eis a Cortina de Burrice em ação! Na Europa, a mesma pergunta levantaria todas as mãos. Os europeus passaram do bilingüismo para o trilinguismo, Na Islândia, são quatro idiomas. E o nosso controlador de vôo que não sabia inglês!

Nossas universidades estão fora das listas das melhores, resultado da Cortina de Bilinguitice, pois perdem pontos nos quesitos de internacionalização. Nas europeias, muitos cursos são oferecidos em inglês. Conheci um sueco que fez seu doutorado em Estocolmo, há quatro décadas. Quando entregou o primeiro trabalho, no seu idioma, foi interpelado pelo professor: "O senhor não terá futuro acadêmico, se continuar a escrever nesta língua!". Visitei a fábrica Seiko (japonesa) na China. A língua oficial era o inglês. O mesmo em Toulouse, na fábrica do Airbus.

O resultado do nosso isolamento é uma indústria provinciana que não toma conhecimento dos avanços alhures. Há esforços heróicos, como uma construtora brasileira que comprou uma empresa no Canadá, para mandar estagiar seus engenheiros. Assim veriam como se constrói lá. Mas é a exceção.

Ao lermos as descrições feitas por viajantes estrangeiros que passaram pelo Brasil, constatamos o primitivismo da nossa sociedade. Se a corte permanecia tosca, o interiorzão estava ainda mais distante do progresso social acumulado pela Europa, em 2000 anos. Progredimos muito desde então. Mas as cicatrizes do atraso estão por todos os lados. Limitemo-nos a olhar os valores que a civilização ocidental amadureceu, em meio a guerras, perseguições e sangue. O que pode aprender um jovem que vai ao Primeiro Mundo, a fim de conviver com o povo, não com o guia nem com o motorista do ônibus do pacote turístico? Vejamos:

*O valor do futuro, de pensar no amanhã, ao invés do hoje (a essência da sustentabilidade do meio ambiente).
*O sentido de economia, de não esbanjar, de não se exibir, à custa do magro orçamento.
*O hábito automático de cumprir o prometido (um amigo tenista, no Rio, não encontrou os parceiros combinados para o dia seguinte. Em Washington, estavam lá para o compromisso combinado três semanas antes).
*Trabalho manual não é humilhante. Usar as mãos educa.
*Cumprir a lei, branda ou dura. Uma vez aprovada, é para valer.
*Respeito pelo próximo, no trânsito, no silêncio e em tudo o mais.
*Segurança pessoal (deixar o carro em um ermo e encontrá-lo ileso, no dia seguinte) .
*Quem vigia tudo é a sociedade, mais do que a polícia.
*Profissionalismo. Há uma maneira melhor de fazer as coisas. O profissional a conhece e a aplica.

Desdenhamos tal herança e macaqueamos hábitos cretinos e modas tolas. Agora temos "delivery" de pizza e "sales" com preços imperdíveis.

Importamos o crack, as tatuagens, o Big Brother e, de repente, saímos todos com uma garrafa de água mineral na mão, para socorrer uma súbita e fatal crise de sede, no quarteirão seguinte. Pelo menos as senhoras elegantes do Rio já não usam mais casacos de pele nas recepções.

VEJA - 13/11/2010

segunda-feira, novembro 15, 2010

Por que Ficamos Gordos ?

Por Betty Milan

Quem vai aos EUA depara necessariamente com a fat misery, obesidade mórbida (miséria gorda). Passo de quem teme se desequilibrar, corpo precedido pela barriga, antebraços afastados das pernas e mãos como abanos. A vítima dessa forma de miséria cruza o tempo todo o seu caminho. Na rua, no restaurante, no elevador. Pode causar horror ou pena, por se tratar de um ser humano tão aberrante quanto frágil.

Quase 30% dos americanos são obesos e a obesidade mórbida sextuplicou nos EUA nos últimos 20 anos. Pela primeira vez na história, a nova geração viverá menos do que a geração dos pais. Corre o risco de morrer precocemente de hipertensão, arteriosclerose, infarto. Além de estar mais exposta ao câncer. Assim como a de lá, a população do Brasil fica cada dia mais gorda. Quase metade dos brasileiros está acima do peso.

Ainda que os livros sobre dieta, ao menos os da categoria de autoajuda, frequentem a lista dos mais vendidos, não existe uma reflexão séria sobre o assunto, tampouco há uma política de saúde conseqüente que se oponha aos efeitos nefastos da indústria da alimentação. Uma reflexão séria não se limita ao estudo dos hábitos alimentares ou ao estabelecimento das relações entre o aumento do consumo de comida e a diminuição do seu preço. Por exemplo: uma reflexão séria considera o significado da saciedade para nós e o uso que o mercado faz disso. Com exceção da cultura francesa, que privilegia a degustação, o resto do Ocidente induz a comer até que se sinta o estômago cheio, ou seja, valoriza a saciedade. E é com essa valorização que a indústria conta para se desenvolver, fazendo pouco dos imperativos da saúde. Não é preciso se saciar para estar nutrido. Pelo contrário. Os nutricionistas inclusive ensinam a sair da mesa com um pouco de tome.

A cultura alimentar do glutão resulta de uma conduta perversa em relação ao corpo, porque desrespeita a lei do corpo, que é biológica. O glutão faz do prazer a única lei do seu desejo.Visa somente ao prazer imediato e negligencia o estrago provocado pelo excesso de comida. Ensinar a contenção é tão importante quanto acabar com a fome.

Quem se entrega à gula e cultiva a desmesura não come para viver. Na verdade, morre pela boca. Exatamente como o peixe, que morre por abocanhar a isca. Além da doença, a comida, continuamente abocanhada - ou seja, ingerida em demasia e à revelia dos efeitos que acarreta - provoca o envelhecimento precoce. Quem quer viver tem de cuidar para não cair na esparrela da comida. Porque, como a bebida ou a droga, ela pode matar.

VEJA 03/11/2010 – ANO 43 – NO 44 – ED 2189

Presente para o Blog


Recebi este presente da querida amiga
Sophia Christou, do blog .. CONSCIÊNCIA E POESIA ..
Brigaduuu!!!

“O Prémio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc… que em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, e suas palavras.”

E as regras são:
– Exibir a imagem do selo no blog
– Escolher 10, 15 ou 30 blogs para dar a indicação e avisá-los.

Encaminho o selo para os seguintes blogs:

http://conscienciaempoesia.wordpress.com/

http://www.varnecicordel.blogspot.com/

http://oniricalux.blogspot.com/

http://vida-eternidade.blogspot.com/

http://yub-universosimbolico.blogspot.com/

http://philosophia-aton.blogspot.com/

http://blogumapaz.blogspot.com/

http://valpinturas.blogspot.com/

http://rarefeitaperfeita.blogspot.com/

http://mulhertemporina.blogspot.com/

Interview with Richard Bach

Interview with Richard Bach


Author magazine interviews Richard Bach, author of Jonathan Livingston Seagull, Illusions, and Hypnotizing Maria.
For the complete interview, go to:
http://www.authormagazine.org/intervi...
For more interviews, inspiration, and writing advice, go to:
http://www.authormagazine.org/

domingo, novembro 14, 2010

Flecha no alvo

Por Walcyr Carrasco


É incrível o número de pessoas sem rumo na vida. Há três meses cruzei com um amigo na rua, de short e tênis. Mal me cumprimentou e se despediu, com pressa. Era o horário da corrida. Aos 40 anos, decidira manter a forma física. Fazia duas semanas, trotava no Pacaembu no mínimo uma hora por dia. “Em breve estará bem magro” — invejei. Que nada! Dali a algum tempo o vi com a barriga inflada de cerveja.

— E o exercício?
— Parei. Resolvi retomar o piano.

Detalhe: havia deixado a música aos 14, 15 anos. Não entendi a urgência. Da próxima vez, seria outra novidade. Garimpa de emprego em emprego com a mesma falta de estabilidade. Já vendeu antiguidades, foi bancário, ensinou dança de salão, fez pesquisa de mercado. Não é o único caso. Um amigo já entrou em cinco faculdades. Nunca terminou nenhuma. Está no fim do segundo ano de um curso de arte dramática que dura três. Resolveu desistir.

— Quero fazer psicologia.
— Decidiu ser psicólogo agora?
— Não, é para me ajudar a entender os personagens.
— Se quer representar, por que não termina arte dramática?
— Com a psicologia vou atuar melhor.

Que argumento usar contra esse tipo de raciocínio? A pessoa que muda sempre de carreira ou mesmo de atividade não cresce profissionalmente, nem cria laços. É levada pelos ventos da vida. Nem sempre encontra trabalho. Um outro conhecido já foi vendedor de loja chique, produtor de eventos e candidato a deputado estadual nas últimas eleições. Perdeu. Sente-se um injustiçado.

— Não fiz uma boa campanha porque não tive apoio.
— Mas que apoio ia ter, se nunca fez política, nunca trabalhou em movimento social? Nada!

Um olhar ofendido me varou a testa. Há uma semana, na academia, um dos recepcionistas me contou: fez curso de enfermagem, tentou ser cantor sertanejo, estudou arte dramática, mas pensava tentar veterinária. Fui direto ao ponto.

— Você atira para muitos lados de uma só vez. Quem não tem grana de família precisa de foco!

Uma pessoa tem o direito de escolher o próprio caminho, ainda que o preço seja alto. Mas há quem viva pulando de galho em galho, mesmo depois de ter família. Uma conhecida pede algum emprestado todo fim de mês. Alguém sempre acaba dando uma força, por causa das crianças. Ela promete: em breve iniciará um grande negócio. De fato: perdeu uma grana tentando criar chinchilas, quando garantiam que isso faria fortunas. Antes tentou um restaurante vegetariano. Ultimamente receita florais de Bach, mas são poucos os clientes. A terapia anda fora de moda. Seu diploma de assistente social está guardado.

— Por que não tenta um emprego, presta um concurso?
— Ah, eu não sei trabalhar para os outros.

O pior é que, para si própria, sabe menos ainda! Frequente em uma grande cidade como São Paulo, esse tipo fascina-se pelo brilho de todas as profissões, negócios, atividades. Vive migrando. E o tempo passa. Hoje eu encontro amigos cheios de criatividade na juventude que se tornaram pessoas amargas, vivendo de trabalhos abaixo de sua capacidade.

Ainda acredito que na vida moderna é preciso ter foco. A vida tem milhares de possibilidades, mas é necessário apostar em uma. Muitos jovens se deixam atrair por modismos. Há algum tempo milhares queriam trabalhar com eventos. Antes foram os modelos. Agora, há um tsunami de candidatos a DJ. Principalmente nessa época em que tantos se preparam para iniciar uma faculdade, é essencial optar por uma carreira e ser firme na decisão. Com a mira de um guerreiro que atira a flecha e acerta no alvo.

Fonte: http://vejasp.abril.com.br/revista/edicao-2191/flecha-no-alvo

sábado, novembro 13, 2010

O segredo da vida de um casal (Contardo Calligaris)

Receita do amor que dura: amar o outro não apesar de sua diferença, mas por ele ser diferente.

Em geral , na literatura, no cinema e nas nossa fantasias, as histórias de amor acabam quando os amantes se juntam (é o modelo Cinderela) ou, então, quando a união esbarra num obstáculo intransponível (é o modelo Romeu e Julieta). No modelo Cinderela, o narrador nos deixa sonhando com um “viveram felizes para sempre”, que seria a “óbvia” conseqüência da paixão. No modelo Romeu e Julieta, a felicidade que os amantes teriam conhecido, se tivessem podido se juntar, é uma hipótese indiscutível. O destino adverso que separou os amantes (ou os juntou na morte) perderia seu valor trágico se perguntássemos: será que Romeu e Julieta continuariam se amando com afinco se, um dia, conseguissem deitar-se juntos sem que Romeu tivesse que escalar a casa de Julieta até o famoso balcão? Ou se, em vez de enfrentar a oposição letal de suas ascendências, eles passassem os domingos em espantosos churrascos de família?


Talvez as histórias de amor que acabam mal nos fascinem porque, nelas, a dificuldade do amor se apresenta disfarçada. A luta trágica contra o mundo que se opõe à felicidade dos amantes pode ser uma metáfora gloriosa da dificuldade, tragicômica e inglória, da vida conjugal. O casal que dura no tempo, em regra, não é tema para uma história de amor, mas para farsa ou vaudeville -às vezes, para conto de terror, à la “Dormindo com o Inimigo”.

Durante décadas, Calvin Trillin escreveu uma narrativa de sua vida de casal, na revista “New Yorker” e em alguns livros (por exemplo, “Travels with Alice”, viajando com Alice, de 1989, e “Alice, Let’s Eat”, Alice, vamos para a mesa, de 1978). Nesses escritos, que são só uma parte de sua produção, Trillin compunha com sua mulher, Alice, uma dobradinha humorística, em que Calvin era o avoado, o feio e o desajeitado, e Alice encarnava, ao mesmo tempo, a beleza, a graça e a sabedoria concreta de vida.

À primeira vista, isso confirma a regra: a vida de casal é um tema cômico. Mas as crônicas de Trillin eram delicadas e tocantes: engraçadas, mas nunca grotescas. Trillin não zombava da dificuldade da vida de casal: ele nos divertia celebrando a alegria do casamento. Qual era seu segredo? Pois bem, Alice, com quem Trillin se casou em 1965, morreu em 2001.

Trillin escreveu “Sobre Alice”, que acaba de ser publicado pela Globo. Esse pequeno e tocante texto de despedida desvenda o segredo de um amor e de uma convivência felizes, que duraram 35 anos. O segredo é o seguinte: Calvin e Alice, as personagens das crônicas, não eram artifícios literários, eram os próprios. A oposição entre os dois foi, efetivamente, o jeito especial que eles inventaram para conviver e prolongar o amor na convivência.

Considere esta citação de um texto anterior, que aparece no começo de “Sobre Alice”: “Minha mulher, Alice, tem a estranha propensão de limitar nossa família a três refeições por dia”. A graça está no fato de que a “propensão” de Alice não é extravagante, mas é contemplada por Calvin como se fosse um hábito exótico.

Alice é situada e mantida numa alteridade rigorosa, em que é impossível distinguir qualidades e defeitos: Calvin a ama e admira como a gente contempla, fascinado, uma espécie desconhecida num documentário do Discovery Channel. Se amo e admiro o outro por ele ser diferente de mim (e não apesar de ele ser diferente de mim), não posso considerar que minha maneira de ser seja a única certa. Se Calvin acha extraordinário que Alice acredite na virtude de três refeições diárias, ele pode continuar petiscando o dia todo, mas seu hábito lhe parecerá, no fundo, tão estranho quanto o de Alice.

Com isso, Calvin e Alice transformaram sua vida de casal numa aventura fascinante: a aventura de sempre descobrir o outro, cuja diferença inesperada nos dá, de brinde, a certeza de que nossa obstinada maneira de ser, nossos jeitos e nossa neurose não precisam ser uma norma universal, nem mesmo a norma do casal. Há quem diga que o parceiro ideal é aquele que nos faz rir. Trillin completou a fórmula: Alice era quem conseguia fazê-lo rir dele mesmo. Com isso, ele descobriu a receita do amor que dura.

Oxossi Caçador de Almas

Dupla Sacra Anima
Cantores Pedro Saint German & Raphael Prista, faixa do cd "Ritual

sexta-feira, novembro 12, 2010

8 Years in 103 Seconds

JK Keller took 1 picture of his face every single day for 8 years and lined them up one after another in this awesome video montage. Check it out

Living My Life Faster - 8 years of JK's Daily Photo Project from JK Keller on Vimeo.

EROTISMO

Breves lições de erotismo (poesia datada de 200 anos AC)

Velejar o contorno inteiro de um corpo
É circular o mundo,
Navegar a rosa dos ventos sem uma bússola
Ilhas, golfos, penínsulas, ondas chocando-se em quebra-mar
Não é fácil de achar tal prazer.
Não pense que você pode adquirir isto num dia ou noite
de lençóis consoladores
Há suficiente segredo nos poros para encher
muitas luas.

O corpo é quadro astral em um codificado idioma.
Ache uma estrela e talvez você começará, a
Mudar o curso, quando de repente um furacão, ou
grito penetrante
O faz tremer de medo
Uma prega na mão que você não esperou…

Revise o contorno inteiro muitas vezes
Ache o lago com lírios de água brancos
Acaricie o centro do lírio com sua âncora
Mergulhe profundamente abaixo ... estire seus membros
Não negue o cheiro de sal ...de açúcar
Os cúmulos- nimbus - pulmões de pesados ventos
A névoa densa do cérebro ...
Dormindo nas ondas.... relativas a maré de beijos

Se coloque no humano sem medo
Saiba ousar, lá fora não há nenhuma pressa
Respiração em expiração Morra um pouco
Docemente.... lentamente morra.
Venha a morte contra o centro do olho deixado em
Prazer....
vai
Vire o leme esparrame as velas
Veleje para Vênus
estrela matutina
o mar como um vasto cristal mercurial
durma marinheiro ....você naufragou.......

(((()))

Sobre o Amor ( Roberto Freire)

Quero dizer que te amo só de amor...
Sem idéias, palavras, pensamentos QD, pensamentos Quero fazer que te amo só de amor Com sentimentos, sentidos, emoções...
Quero curtir que te amo só de amor Olho no olho, cara a cara, corpo a corpo...
Quero querer que te amo só de amor São sombras as palavras no papel...
Claro-escuros projetados pelo amor, dos delírios e dos mistérios do prazer Apenas sombras as palavras no papel Ser - não - ser refratados pelo amor no sexo e nos sonhos dos amantes Fátuas sombras as palavras no papel. Meu amor te escrevo feito um poema de carne, sangue, nervos e sêmen São versos que pulsam, gemem e fecundam Meu poema se encanta feito o amor dos bichos livres às urgências dos cios...
e que jogam, cantam e dançam fazendo amor como faço o poema. Quero da vida as claras superfícies onde terminam e começam meus amores Eu te sinto na pele, não no coração Quero do amor as tenras superfícies onde a vida é lírica... porque telúrica... Onde sou épico, porque ébrio e lúbrico Quero genitais todas as nossas superfícies.
Não há limites para o prazer meu grande amor, mas virá sempre antes, não depois da excitação. Meu grande amor, o infinito é um recomeço...
Não há limites para se viver um grande amor Mas só te amo porque me dás o gozo e não gozo mais porque eu te amo Não há limites para o fim de um grande amor Nossa nudez ,juntos, não se completa nunca, mesmo quando se tornam quentes e congestionadas, úmidas e latejantes todas as mucosas. A nudez a dois não acontece nunca... porque nos vestimos um com o corpo do outro, para inventar deuses na solidão do nós. Por isso a nudez, no amor, não satisfaz nunca. Porque eu te amo, tu não precisas de mim... Porque tu me amas, eu não preciso de ti...
No amor, jamais nos deixamos completar. Somos um para o outro, deliciosamente desnecessários.
O amor é tanto não quanto Amar é enquanto, portanto. Ponto.

quinta-feira, novembro 11, 2010

David Bolinksy anima uma célula

O animador de filmes médicos David Bolinsky apresenta três minutos de uma incrível animação que mostra a frenética vida dentro de uma célula.




Fonte: http://www.ted.com/talks/lang/por_br/david_bolinsky_animates_a_cell.html

Vale a pena?

Por Paulo Coelho

A vida é como uma grande corrida de bicicleta cuja meta é cumprir a lenda Pessoal.

Na largada, estamos juntos compartilhando camaradagem e entusiasmo. Mas, a medida que a corrida se desenvolve, a alegria inicial cede lugar aos verdadeiros desafios: o cansaço, a monotonia, as dúvidas sobre a própria capacidade.

Reparamos que alguns amigos desistiram do desafio ainda estão correndo, mas apenas por que não podem parar no meio de uma estrada; eles são numerosos, pedalam ao lado do carro de apoio, conversam entre si, e cumprem uma obrigação.

Terminamos por nos distanciar deles; e então somos obrigados a enfrentar a solidão, as surpresas com as curvas desconhecidas, os problemas com a bicicleta.
E, ao cabo de algum tempo, começamos a nos perguntar se vale a pena tanto esforço.

Sim, vale a pena. É só não desistir.

http://paulocoelhoblog.com/2010/11/09/vale-a-pena/

quarta-feira, novembro 10, 2010

CHAMAR A SUA ATENÇÃO

O pôr-do-sol escorrega pela janela...

Vejo tudo com o rabo do olho, pois, sentado na sala, assisto a um programa desses que esquecemos facilmente, mas parece ser tão interessante, naquela hora, que nada mais no mundo importa, e tudo fica distante, ainda mais o sol se pondo, na janela do quarto, coisa que acontece todo dia, e não deveria ser coisa que valha a pena, mas o rabo do olho, a quina da visão, tenta me direcionar para as cores que o sol, lá longe, além da janela, no horizonte, pinta o céu. Assisto o programa, mas ao mesmo tempo, noto o tom alaranjado-vermelho, com pitadas de rosa, que o sol vai usando para transformar o céu em tela nessa aquarela diária que ninguém gasta tempo para ver, notar ou escrever a respeito.

Ainda insisto na TV, mas o espetáculo lá fora, parece muito mais interessante. Então, saio do sofá, caminho até o quarto, e olho além da janela, as cores mudando, o céu que parece estar falando: "olha pra mim!" Olho! Olhos! Já não vejo um céu, vejo um show de luzes, Cirque du Soleil da natureza, com toda a sua grandeza e beleza, que me deixa com o queixo caído.

Tento ligar para a Auri e perguntar : "você está vendo isso?". Ela não atende, vai ver nem entende o que eu quero que ela veja, sinta, perceba. Daí, compreendo que essas belezas, às vezes, são momentos em que sozinho nos encontramos com o Divino, que se faz matéria, cor no céu, pôr-do-sol na janela só para conversar com você.

Totalmente absorvido por aquele fascínio pelo infinito, entro numa espécie de transe, que resulta em pura epifania, e sou inundado de insights, idéias malucas e criativas, poemas dos mais diversos, crônicas sobre estrelas brilhando que resultam em vida na Terra, em outros planetas; daí, ouço um sussuro, se fazendo voz, dentro de mim, ecoando do meu peito, dizendo:

" O que preciso fazer para chamar a sua atenção?"

- Mais nada, Senhor - respondo. Sim, eu vejo, eu sinto, eu sei que há milagres que ocorrem todos os dias e que não vemos. Que o Divino se esconde no comum, nas coisas que não damos importância, mas basta um momento de atenção, e saberemos que nunca estivemos sozinhos, nunca estamos sozinhos.

terça-feira, novembro 09, 2010

Crucificar Monteiro Lobato?

Por Lya Luft

No curso de uma vida somos submetidos a muita insensatez e muita tolice. Nem tudo é Mozart ou Leonardo da Vinci, carinho de amigos e filhos, abraço da pessoa amada. Então, a gente vai ficando calejado, para não expor demais a alma como alguém a quem retiraram a pele, e a quem a mais leve, mais doce brisa parece um fogo cruel. Pois nestes dias me deparo na imprensa com algo que rompeu minhas defesas e me fez duvidar do que estava lendo. Reli, mais de uma vez, em mais de um jornal, e ali estava: querem banir das escolas um livro (logo serão todos, logo serão de muitos autores, não importa por que motivo for) de Monteiro Lobato, porque alegadamente contem alusões racistas.

Ora, gente, eu fui nutrida, minha alma foi alimentada, com duas literaturas na infância; os contos de fadas de Andersen e dos irmãos Grimm, e Monteiro Lobato. Duas culturas aparentemente antípodas, mas que se completavam lindamente. Narizinho e Pedrinho moravam no meu quintal. Emília era meu ídolo, irreverente e engraçada. Dona Benta se parecia com uma de minhas avós, e tia Nastácia era meu sonho de bondade e aconchego. Eu me identificava mais com elas do que com as princesas e fadas dos antiquíssimos contos nórdicos, porque jabuticaba, bolinho, bichos e alegria eram muito mais próximos de mim do que as melancólicas histórias de fadas e bruxas - raiz da minha ficção.

Toda essa introdução é para pedir às autoridades competentes: pelo amor de Deus, da educação e das crianças, e da alma brasileira não comecem a mexer com nossos autores sob essa desculpa malévola de menções a racismo. Essa semente terá frutos podres: vamos canibalescamente nos devorar a nós mesmos, à nossa cultura, à nossa maneira de convivência entre as etnias.

Com esse perigosíssimo precedente, vamos começar a "limpar", isto é, deformar, muitos livros. Japoneses, árabes, alemães, italianos, poloneses, índios e negros (ou não posso mais usar essa palavra?) sofrem ou podem sofrer ataques racistas. Isso é motivo de penalidades da lei para os racistas, se for o caso. Racismo dói, eu sei disso. Quando menina, certa vez um grupo de crianças nem louras nem de olhos azuis me cercou no pátio da escola, e elas dançavam ao meu redor cantando “alemão batata come queijo com barata”. Não gostei. Doeu-me. Hoje acho graça: na hora não foi engraçado.

Mas por isso vamos cavoucar em livros de história e banir os amores - o que só se admite em casos claros de repugnante racismo, não importa contra que raça for, diga-se de passagem? Essa planta rasteira, que vai contaminar nossa cultura, tem de ser cortada pela raiz. Ou a caça às bruxas vai se disseminar feito peste, pois é uma peste, iniciando um processo multiplicador de maldades comandadas por inveja, ou seja o que for, destruir obras, vidas, memórias, e atacar sobretudo as almas infantis como insetos daninhos. Não permitam isso, autoridades responsáveis e competentes: uma vez iniciado, esse processo não terá fim.

O politicamente correto pode ser perigoso e hipócrita. Os meus olhos azuis, como os de um de meus filhos, e os olhos escuros dos outros dois, como os oblíquos dos japoneses e os olhos pretos dos árabes, são todos da famí1ia humana, muito maior e mais importante do que suas divisões raciais.

Nem comecem a dar ouvidos a essas buscas mesquinhas por culpados a ser jogados na fogueira: livros queimados foram um dos índices sinistros - ao qual nem todos deram a devida importância - da loucura nazista. Muita tragédia começa parecendo natural e desimportante: no início, achava-se Hitler um palhaço frustrado. Deu no que deu, e manchará a humanidade pelos tempos sem fim.

Que não comece entre nós, banindo um livro infantil de Monteiro Lobato, o mais brasileiro dos nossos escritores: será uma onda do mal, uma nova caça às bruxas, marca de vergonha para nós. Não combina conosco. Não combina com um dos lugares nesta conflitada e complicada Terra onde as etnias e culturas ainda convivem melhor, apesar dos problemas - devidos em geral à desinformação e à imaturidade: o Brasil.

Fonte: VEJA - 06/11/2010

segunda-feira, novembro 08, 2010

R$ 17,50

Manhã de domingo ensolarado. Saíamos para a feira, Auri e eu, com fome de pastel e fruta fresca, quando ouvimos um choro de um mennino, sentado a porta de uma loja fechada, que fica ao lado do nosso prédio. Era um menino de rua, sujo, com cara de faminto, roupa rasgada, tênis furado, aparentava ter dez, no máximo onze, e ele chorava e gritava:

" Por favor, alguém me ajude, pelamordedeus!"

Para quem mora no centro da cidade de São Paulo, a visão de mendigos, pedintes, e pessoas, dos mais velhos às crianças, em estado miserável, é lugar comum. Daí, o ignorar é a única arma que temos, afinal, se abrirmos o bolso para todo pedinte que virmos, acabaremos, nós mesmos, nas ruas Tabatingueras e Carmos da vida, como aquele menino que chorava.

Porém, aquele menino chorava de um jeito diferente. Não eram lágrimas que alimentam pena, nem lágrimas ensaiadas de pedinte de profissão, o menino chorava de dor de alguma coisa, não física; talvez, uma dor de medo real, de algo ruim que estaria prestes a acontecer.

" Oh Meu Deus, me ajude! Por favor! Eu preciso voltar para casa"

Queríamos seguir adiante, deixar aquela cena ser levada pelo vento das memórias esquecidas, que não importam mais não; contudo, o choro do menino não nos deixava praticar a arte da ignorância e fomos ter com ele.

Não precisava de comida, nem de vale transporte, nem estava perdido, nem queria comprar cola ( a coca); ele dizia que havia perdido R$ 17,50 que a sua mãe pedira que ele guardar; sem aquele dinheiro, segundo o menino, a mãe lhe bateria, e não lhe deixaria ficar em casa.

" Moço, preciso de R$17,50. Sem esse dinheiro, ela vai me bater, mais muito, muito mesmo"

Eu tinha a quantia no bolso, dinheiro da nossa feira, e do pastel; poderia dar ao menino, mas confesso, que hesitei ao máximo que eu pude; tentando estudar no menino, algum sinal de mendiguisse, mas se aquela estória tão surreal e cruel não fosse real, eu não saberia dizer mais o que era.

Diante daquele dilema, percebi que a questão maior já não era mais o menino que chorava e pedia, mas quem assistia; a minha crença em outro ser humano, mesmo que menino, a minha fé na verdade que eu sentia, mesmo que vindo de um moleque de rua. O dinheiro era apenas dinheiro, mas o que estava em jogo era a minha crença em não contribuir para a indústria da esmola, afinal, por trás de uma criança com a mão estendida, há sempre um adulto explorador. Mas, novamente, o que estava ocorrendo ali, era uma experiência de profunda compaixão, que estava se esvaindo por um racíocinio tipíco de quem vive na cidade grande e perdeu a fé nas pessoas, no dar a mão, no ajudar quando se precisa, no "serviço esperando o servidor".

Sim, eu dei o dinheiro. Deixando a lógica de lado, e me abraçando com a doação. O moleque olhou-me, sem acreditar no que ocorria; Auri sorria, esperando que fosse essa a minha decisão. Durante um momento, o moleque não sabia o que fazia, até que levantou e saiu gritando pelas ruas:

"Deus me ajudou, Deus me ajudou".

Se foi Deus ou não, isso fica para as nossas questões religiosas; porém, dentro do meu coração, eu sabia que, talvez eu tivesse dado ao moleque, algo a mais do que dinheiro, talvez, ele tenha aprendido alguma coisa que o faça se erguer das ruas do abuso e do medo, e se torne um homem trabalhador e honesto, um homem que um dia vai encontrar um menino chorando na rua e não terá dúvidas se ao ajudar esse moleque não está, na verdade, o prejudicando.
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