sábado, outubro 31, 2009

DIA DO SACI


Fui caçar Saci
E olha o que encontrei aqui:

Há Saci preto, Saci amarelo;
Saci cor de índio,
Saci do Sitio do Picapau sem teto;
Há Saci japonês,
E até Saci inglês;

Daí perguntei: como assim?
Saci para mim
Era Saci Lobato;

Daí o Saci me disse:
Coitadim!!!
País errado!!!

O Besouro - O Filme

Ontem á noite, assistimo o filme: O Besouro!

Fantástica homenagem a Capoeira e aos Orixás; além de ser um ótimo filme de ação.
Assistam o clipe, prestigiem no cinema:

sexta-feira, outubro 30, 2009

Dia das Bruxas

“ Com Deus eu entro,
Com Deus eu saio,
Em armadilhas
Eu não caio”

Reza popular nordestina


Havia um beco onde os moradores do Bairro da Esperança jogavam entulho e também se desfaziam de animais de estimação mortos. Estamos em Cajazeiras, na Paraíba, a população em sua grande maioria era de classe humilde, pessoas que não tem dinheiro para enterrar seus mortos humanos, quanto mais seus mortos bichos. Durante o dia, boa parte dessa gente evitava o Beco da Carniça por causa do mau cheiro, por causa do lixo e do esgoto; outros, como eu, o usava como atalho; afinal, para chegar na casa dos meus avós, só havia dois caminhos pelo Beco ou dando a volta pelo seminário que demorava ao menos mais dez minutos de caminhada.

Sempre gostei de cortar caminhos, por isso nunca ouvi muito o que minha avó dizia: “Caminho curto é o atalho de defunto”. Eu não tinha planos de morrer tão cedo, tinha apenas doze anos e um grande sonho: seria famoso depois de publicar um livro com as minhas memórias seca.

Eu também não tinha medo das histórias assombradas que contavam sobre o Beco. Diziam os velhos em suas cadeiras de balanço coladas nas calçadas da Rua Luiz Paulo Silva, que há muito tempo uma velha que todos consideravam ser uma bruxa, desapareceu ao entrar no Beco. Seria mais uma história de gente sumida, se não fosse pelas gargalhadas que toda noite ecoavam de lá.

Certa vez, fiquei até escurecer na casa de um amigo, assistindo filmes de terror. Ele tinha o vídeo-cassete, eu tinha o dinheiro (quero dizer: ele não sabia, mais eu tinha um amigo que trabalhava na locadora e que me cedia os filmes de graça) e assim em parceria, assistíamos todos os filmes de horror que as minhas “finanças” podiam pagar. Já havíamos visto todos os filmes lançados do Jason e do Freddy Krueger; a Volta dos Mortos Vivos e também o Exorcista (versão sem cortes). Era bagagem mais que suficiente para garantir que nada nesse mundo me assustaria, por essa razão, decidi pela primeira vez, atravessar o Beco da Carniça à noite.

Eu não conseguia enxergar nada entre a rua onde começava o beco e o outro lado, onde ficava o bairro que eu morava; porém de tanto pegar aquele atalho, eu sabia o caminho de cor. Conhecia cada curva, cada mato, onde começava o esgoto e onde terminava a montanha de lixo, sabia até a parte onde a carniça começava a feder mais, em suma, atravessar o Beco durante a noite não deveria ser nada diferente que de dia.

Comecei a travessia, pensando nos gibis que poderia trocar por siriguelas, nas provas da semana e em Eliana, o amor da minha vida, ou seja, qualquer pensamento que não me remetesse ao beco ou a sua fama. Desci a trilha que começava junto ao muro do seminário, desviei-me do riacho de esgoto que reconheci pelo cheiro; pulei o primeiro cachorro morto e continuei andando à esquerda do muro e à direita do entulho. Já podia ver as luzes do outro lado, e confesso, até respirei aliviado; e contente, pois eu poderia confrontar aqueles velhotes e contar que não havia bruxa nenhuma no Beco.

Daí, algo ocorreu: percebi que estava sendo acompanhado...

- Menino, o que você faz sozinho, atravessando esse beco? – disse uma voz, bem atrás de mim; era um senhor com uma lanterna na mão, também pegando o atalho. Respirei aliviado. Era apenas um velhinho.

- O mesmo que o senhor! – respondi olhando para ele. Era moleque desaforado, não tinha ainda aprendido a respeitar os mais velhos.

- Você não sabe que é perigoso – ele disse, quase sussurrando - E se a bruxa te pegar?

- Acho mais fácil, ela pegar o senhor, que deve ter a mesma idade que ela. – respondi rindo e dando as costas pro velho. Esperei a resposta, mas não houve. Olhei para trás, mas não havia sinal do velho nem da sua lanterna. A chance de ele ter pulado o muro era mínima; então comecei a pensar um monte de besteira e sentir muito medo.

E se o velho fosse o marido da bruxa? Quem disse que homem também não podia ser bruxo? E se as gargalhadas que o povo ouvia fossem dele e não da bruxa?

Sem pensar duas vezes, comecei a correr, mas tropecei em algo e caí, dando de cara nos restos de um gato morto. Descobri, olhando os restos do gato, que o escuro era de certa forma claro e à minha frente jaziam centenas de restos de animais podres. Levantei-me com certo desespero e para a minha surpresa, o final do beco que parecia perto, estava ficando cada vez mais longe.

Respirando com dificuldade, continuei a correr e tornei a cair. O medo estava me tornando cego para a minha memória do Beco, eu já não conseguia distinguir os detalhes, já não sabia onde pisava nem onde pisaria e a angústia de cair em cima de algum outro bicho morto ou de cruzar novamente com o velho fez com que eu começasse a rezar uma oração de proteção que minha avó me ensinara:

“ Com Deus eu entro, com Deus eu saio; em armadilhas, eu não caio
Com Deus eu entro, com Deus eu saio; em armadilhas, eu não caio
Com Deus eu entro, com Deus eu saio, em armadilhas, eu não caio”


Não adiantava, eu continuava tropeçando em bicho morto e o medo aumentava ainda mais. O pânico tomou de conta, quando comecei a sentir que havia alguém novamente se aproximando com uma lanterna. Pensei em voltar e correr para o outro lado, mas já não conseguia me mover de tanto medo que sentia. A pessoa se aproximava cada vez mais e eu então me joguei no chão, preparado para o pior.

- Menino, o que você faz sozinho atravessando esse beco? – disse a voz. Não me movi. Ele continuou - Não tenha medo, quero lhe ajudar - olhei então para cima e vi um rapaz com uma lanterna na mão. Contudo, não senti mais medo, pelo contrário, o sujeito me pareceu ser do bem e de carne e osso. Senti proteção e alívio.

- Por favor... – pedi, com lágrimas nos olhos -... me tire daqui!

- Venha! – disse ele com a uma voz terna – Seja lá o que você sentiu, já passou.

O rapaz então me conduziu pelo Beco até o outro lado. Lá chegando, ele se despediu e avisou:

- Cuidado! – ele disse, com uma voz clara e serena – Não atravesse o Beco à noite. O problema não são os fantasmas dos casos que o povo conta, o perigo é você pisar em algum buraco e se machucar.

- Obrigado moço, por me salvar – eu disse, mas percebendo que ele voltava para o beco, avisei – mas por favor, não entre nesse Beco, eu vi...vi...um fantasma!

- Não se preocupe. Conheço muito bem o beco e além disso, tenho a lanterna. – ele respondeu sorrindo e entrou no beco. Respirei fundo uma vez mais e fui para casa; precisava tomar um banho e me livrar daquele cheio de carniça.

Quando cheguei em casa, meus avós e os vizinhos conversavam na calçada, como faziam todas as noites, contando as histórias de terror envolvendo a bruxa e o Beco.

- Não há bruxa por lá – eu disse – acabei de vim do Beco. Se vocês querem saber a verdade, eu vou contar: vi um fantasma de um velho com uma lanterna na mão. Eu nunca mais passo por lá.

Pensei que eles fossem rir, mas eles ficaram em silêncio; como se soubessem bem do que eu estava falando.

- É o marido da bruxa! – disse Dona Nininha, nossa vizinha, com convicção – Eles eram como unha e carne. Quando a bruxa desapareceu, ele passava o dia inteiro procurando por ela e todas as noites também, sempre com uma lanterna na mão, vasculhando todos esses becos e matos. Ficou doido, coitado, e virou também motivo de piada dos meninos da rua e de todos esses velhotes faladores.

- Para com isso, Nininha, até você o chamava de bruxinho! – disse meu avô dando risada, o que fez todos rirem também. Eu não entendi a piada e comecei a ficar irritado com toda aquela conversa, mas antes que deixassem os velhos para trás, ouvi ainda a Dona Nininha falando:

- A gente ri para não chorar, não é? E pensar que logo depois, o único filho do casal, um rapaz bonito, desapareceu também... Isso faz a gente pensar, que desgraça foi essa que envolveu essa família?

- Mistérios, Nininha – disse minha avó – Mistérios...

GET A LIFE!!!

A vontade de estar com você
É um elefante desgovernado
Em plena Avenida Paulista;
Vem a qualquer hora,
Vem a qualquer dia;

Por isso evite o desastre
Da sua ausência em minha vida;
Venha para o meu lado agora mesmo,
Evite o caos provocado pela sua partida!

****//\\****

GET A LIFE II

Se você pudesse me ver
Saberia
Que eu vou muito bem
Sem você...

Ah, quem eu quero enganar?
Volta, vai!

****//\\****

GET A LIFE III

Se eu te pedir
Para você voltar pra casa
Por favor me peça
Para tomar vergonha na cara

****//\\****

GET A LIFE IV

Como eu quero ela pra mim!
Traz ela pra mim, Senhor!
Traz ela pra mim, Senhora!
Manda buscar, Mamãe, agora!

Não posso viver sem ela;
Sem mim o que é dela?

Não quero saber se ela me ama,
Se está melhor sem mim

Isso não importa
Quero ela, Papai, agora!
Prometo que a amarei
Até o fim da minha carência
!!!

quinta-feira, outubro 29, 2009

A PRINCESA E O CAJADO

“Nunca passe o seu cajado para ninguém”, disse o meu guia no Caminho de Santiago, “Ele é mais que um cajado, é a sua espada, a sua fortaleza em sua caminhada.”

Dez anos depois, faço outro caminho, a trilha do guerreiro das matas, em busca do meu guardião. Subo uma montanha no meio da noite; o cajado me ajuda, firma o meu corpo, a minha intenção. Ao meu lado, minha mulher, pisando no escuro com dificuldade. Não posso dá-lhe o braço, nem lhe estender a mão. Quero, na verdade, carregá-la nos meus braços, feito um super-homem nordestino; mas não o faço. Ela também está caminhando em busca da sua firmeza. Preciso ser mais forte e compreender que ela chegará ao topo com as suas próprias forças.

Ando mais a frente; ela me olha. Seus olhos são sóis explodindo no escuro da noite. Ela é forte, mas precisa de ajuda. Meu coração é mais fraco que a razão, olho para o meu cajado firmando o meu corpo no chão, olho para as mãos dela vazias no vácuo da insegurança da pisada falsa. Respiro fundo e cedo o meu cajado. Ela me olha, quer negar; mas sabe que precisa e aceita.

Sussurro em seu ouvido:

- O nosso amor é a verdadeira caminhada!


Frank Oliveira
12 anos trilhando o Caminho do Coração

A PRINCESA E O CAJADO II

Versão da Princesa

É noite e a caminhada é longa...

O caminho do Guerreiro se inicia e a guerreira dentro de Auri não está exatamente em busca de seu guardião o qual sabe ter a seu lado toda vez que algo a leva ao escuro de seus medos, mas intenta chegar ao topo da montanha superando suas próprias dificuldades que a fazem desistir no meio dos caminhos, deixando sempre seus sonhos para trás feito barquinhos de papel que se perdem no mar das nossas derrotas.

Seus sóis explodem dentro dela, seus olhos titubeiam antes mesmo de na mata entrar...

Não tem medo de bichos que a possam atacar, já vencera essa batalha já que tem um leão dentro do peito. Não tem medo de cair na ribanceira, sabe que tem asas pra voar, mas algo em seu íntimo teima em não querer subir e algo tenta dissuadi-la a não se superar...

O príncipe então aparece; talvez o próprio guardião tenha sussurrado ao seu ouvido que naquele momento a guerreira forte precisaria de sua ajuda. Ele, mais atento, tem em sua mão o cajado que o ajudaria com mais facilidade a subir a montanha...

Ela vagueia com seus olhos perdidos em busca de algo que ainda nem sabe o que é...

Seus olhos buscam o infinito, fazendo perguntas sobre o que a segura, e o que a impede de subir a montanha. O cajado vem pra ela, que apóia o seu corpo sobre ele. Na verdade ela debruça-se sobre ele; pisa forte em cada passo, naquele escuro, desvendando seus mistérios, botando pra fora os seus medos; e quando pisa em falso, se sustenta com o que recebera.

Vai lembrando a cada passo do que o guerreiro falara: “pisa forte e nunca deixe de usar o cajado!!!”

Os passos continuam fortes, mas o peso do passado ia aos poucos diminuindo, talvez por estar deixando na caminhada parte de seus medos.

Os galhos da floresta vez ou outra tentava diminuir o ritmo da sua caminhada, feito braços que tentam por vezes nos mudar de direção.

Ela olha o escuro e já não sente tanto medo, pois está aos poucos percebendo o que a faz desistir sempre de tudo. Quando olha pra cima vê que dia vai clareando feito a sua mente a descobrir que nada é tão difícil o quanto parece. A floresta já não a assusta mais e ela já caminha com passos firmes, porém mais leves que no início, conseguindo já até ajudar outros que estão sem tanta firmeza pra conseguir subir.

Lá em cima vê de novo o guerreiro que tão amorosamente lhe dera o cajado no inicio da caminhada. Nesse momento percebe que o que a fizera subir não fora a madeira que a sustentara, mas algo tão mais profundo que só mesmo a floresta, além deles dois, sabe...


“ Por todos os milênios
Assim, nem mais nem menos
Exatamente assim
Quero você”

“ Na paz dos desenganos
Por um milhão de anos
Eternamente assim
Você!”

quarta-feira, outubro 28, 2009

SUA MAJESTADE: O BEIJO!

Ontem beijei doze meninos na balada; mas não fui beijada. O que aconteceu? Não sei dizer! Não senti que era beijo, senti qualquer outra coisa que não desejo. Desconfio que ou eles não sabiam beijar ou eu esqueci o que era beijo.

Será que há algo sagrado no beijo? Será que cometi algum pecado ao transformar o beijo em troféu da minha vaidade; prova das minhas conquistas? Não! Não há pecado, disso eu já sei; mas há algo errado quando algo tão profundo é transformado em algo tão vulgar. Até as prostitutas sabem disso: vendem todo o corpo, mas não o beijo.

Fui pesquisar. Descobri que a palavra beijo é derivada do latim: "osculum". Em português tentaram manter a palavra ósculo no lugar de beijo; beijo ganhou, pois tem som e gosto de beijo.

Quando beijamos movimentamos cerca de 29 músculos, com uma pressão de 12 quilos de um rosto sobre o outro. Os batimentos cardíacos vão dos 70 habituais para 150 por minuto. O corpo libera calor que daria para acender uma lâmpada. O resto do corpo se derrete em suor, todos os outros sentidos ficam em alerta. Quando você beija, está trocando, além de carinho, cerca de 250 bactérias na saliva, 9 miligramas de água, 18 substâncias orgânicas, 7 decigramas de albumina (proteína solúvel em água), 711 miligramas de materiais gordurosos e 45 miligramas de sais minerais. Melhor do que isso é saber que um beijo desencadeia a liberação de substâncias neurotransmissoras que provocam sensação de bem-estar e excitação, como a adrenalina, a dopamina e a serotonina.

É o beijo, principio de tudo que acabará no resto. O beijo, desconfio agora, envolve algo a mais que apenas os lábios. Acho que quando beijamos, é o único momento em que duas almas se tocam.

Nunca parei para pensar nisso; talvez nem deveria ter feito, pois agora já não consigo apenas beijar por beijar; foi-se a alegria das baladas; só tenho olhos para o beijo de Rodin, para o “beijo” dos poetas, dos escritores. Droga! O beijo tornou-se algo importante. Por isso, tem gente que é presa por beijo roubado e vive para sempre na cadeia do coração acorrentado.

Quando beijamos, entregamos algo a mais que os lábios, entregamos a própria entrega; estamos dizendo sem palavras: "recebe esse gosto meu; deixa eu provar do teu e vamos nos unir para sempre nessa união entre você e eu".

Beijar é se entregar totalmente a boca do outro; é combinar um encontro de línguas, onde o homem com os lábios corteja e a mulher o recebe com a boca em festa, numa dança que diz algo assim: “se me beijares com alma, terás todo o resto!”

terça-feira, outubro 27, 2009

FAVELA e TELEMARKETING

FAVELA I
O barraco do preconceito
Continua de pé
Não há incêndio que dê jeito
Não há chama que o queime
Pois o preconceito
Nasceu para ser miserável


FAVELA II
Quando o helicóptero caiu na favela
Neguinho comemorou
Não sabia por quê
Mas comemorou
Talvez porque
Todos comemoraram
Menos o piloto
****//\\****

TELEMARKETING NO IRÃ

O líder supremo do Irã – Aitolá Ali Khamenei – afirmou que estará punindo o Ocidente por ter exportado para o país a praga do gerúndio junto com o telemarketing.

- Vamos estar tomando providência contra esse serviço-bomba.

segunda-feira, outubro 26, 2009

O RESGATE, O FIM DO MUNDO E O TEMPO

É claro que o mundo vai acabar!
Vai não?
Vai, diz que vai; pois se não acabar;
Muito profeta do apocalipse vai ficar sem profissão.

****//\\****

Se uma nave aparecer no céu no dia em que o mundo estiver acabando; vou reclamar com o Criador pessoalmente - Onde já se viu escolhidos num mundo onde Deus se fez em todo homem?

****//\\****

Ó Nave do Comando Estelar
Pode ir para o espaço;
Obrigado por vir me buscar!
Vou ficando com a minha gente
Que não tem dinheiro
Para pagar o curso dos "Escolhidos de Ashtar".

****//\\****

O tempo é relativo!
Dizem que o passado ainda é presente e que o futuro já é passado, sendo assim, se o mundo já acabou em 2012 - alguém se esqueceu de destruir essa memória de mundo ainda inteiro no presente em que estou.

****//\\****

Ah, Tempo que escorre
das mãos do homem;
Eu vi a sua cara em outros planos!
Quem diria, Tempo,
Que você era mesmo tão relativo

****//\\****

No Tempo do Senhor,
Os relógios param,
Os ponteiros reclamam:
"Perdemos o nosso trabalho""

****//\\****

Não quero saber
De outro tempo
Além do meu tempo;
Pois é no meu tempo
Que tenho
Que arrumar tempo
Para ter mais tempo.

****//\\****

Há tempo para tudo até mesmo não ter tempo!

****//\\****

Se o tempo fosse uma muher
Seria a Luana Piovani;
Se fosse um homem
Também seria a Luana Piovani!

****//\\****

Por fim
O tempo veio me dizer:
O mundo continua,
Mas acabou o tempo!

domingo, outubro 25, 2009

CAVALEIRO DA LUZ

Por Fernando Golfar

Eis que na noite escura e pesada, surge o errante
de nobre estirpe e profundos ideais, Celeste Infante
que em mais uma investida em nome da luz, segue adiante
e se aventura nas profundezas da densidade, rijo qual diamante

Como se fosse a luz penetrando pelo pequeno vão de uma fresta
Ele se aventura e vai, sem temer os seres que lhe enfrentam
E com o coração cheio de amor e seu traje tal qual de uma festa
Resgata os que sucumbiram outrora, e hoje se lamentam

E ao chegar a entrada daquele trevoso local, o Mal o recebe
Com desconfiança e o desdém peculiar, ele é tratado
Mas nada disso o atinge, pois sereno percebe
Que no chefe trevoso se encontra um irmão a ser recuperado

E o ser trevoso lhe mostra, com detalhes e precisão
O que cada um que ali esta fez, e o porque daquela condição
Mas em seguida o cavaleiro da luz mostra a ele, sem indecisão
Que o errar faz parte de uma grande caminhada de evolução

E novamente, na insistência peculiar da tentação trevosa
O defensor do Mal tenta argumentar a justiça do castigo
E o cavaleiro da luz, como sempre, em posição amorosa
Mostra a ele que a punição é parte de um processo já prescrito

E depois da batalha de argumentos e energias entre a luz e treva
Aqueles que deviam ser libertos, foram assim resgatados
E sob a proteção divina, luz suprema que no peito carrega
O cavaleiro da luz traz consigo cada alma, como prêmio conquistado

Eis que da noite escura e pesada, surge o errante
De nobre estirpe e profundos ideais, Celeste Infante
Que retorna de sua missão de luz, na profunda treva
Com o coração cheio de amor, pelo êxito na tarefa

La vai o cavaleiro que carrega em seu peito a luz
E seu traje branco reluz a vibração de um mestre de amor
Mestre este que outrora foi condenado a uma cruz
Mas que hoje se sabe que o caminho, qual seja, a ele conduz

07/10/2009

sábado, outubro 24, 2009

AS LIÇÕES DO SONHADOR


“Sob a luz da experiência, me desenrosco da teia”

***//\\***

O Preto Velho me falou:

"Há certeza, meu filho, quando se trabalha e se experimenta. Não conseguimos ter certeza da existência do além com as letras, meu filho, é com a experiência, com a experiência."

***//\\***

Nessa brincadeira de esconde-esconde com Deus, aprendi sânscrito para encontrá-lo e descubro horrorizado, ele só fala português.

***//\\***

Se você conseguir despertar em vida, verá todas as maravilhas da criação sem precisar acreditar; mais para conceber tamanha sabedoria é preciso passar na primeira lição do amor: o respeito!

A segunda lição é lembrar que mora um Buda dentro de você.

A terceira lição é esquecer de onde você veio e para onde vai, afinal você sempre será o vir a ser.

A quarta lição é praticar seja lá o que você poder fazer para um Buda merecer ser.


***//\\***
É preciso acreditar em fada, apostar no impossível, vê mágica na jornada; pois somente assim, a matéria divina te liberta da miséria de correr sem saber para onde ir.

***//\\***

São os sonhos que livram a nossa alma do abandono.

sexta-feira, outubro 23, 2009

PALAVRAS CALADAS

CALADA!!!

Quando ela falava era como se navalhas rasgassem os meus ouvidos; por isso eu pedi: cale a boca!

Ela ficou ofendida, mas guardou as navalhas. Não quis ser rude, só estava defendendo os meus ouvidos.

****//\\****
LACK OF CONFIANÇA

Estou sempre com dois livros
Dois desafios
Um conflito: escolher!


****//\\****
O UNIVERSO NÃO CABE NA PALMA DA MENTE

Por trás do “achar” há a idéia de que algo esse achar será, ou seja, o universo não é só o que aparenta, mas sim outra coisa que não sabemos, pois o que é não cabe na mente.

"O universo não é redutível a um sentido"; disse Jabor esses dias. "Ao pensar, com o tempo e com o espaço, já estamos criando sentidos, fazendo o mistério caber em nosso parco entendimento. O que significa nossas palavras e conceitos? São gemidos diante de algo inatingível."

Eu grito: minha profissão é andar!!!

Meus andar não faz pegadas no chão, mas deixa marcas nas alturas do buscar, do aprender, do realizar. Meu andar, agora, é renascer, aquisições de existência, acrescentar-se, evoluir.

quinta-feira, outubro 22, 2009

Vida Na Terra

Por Auricélia Oliveira


Jorra vida na Terra,...
Em cada pensamento, gotas de vida
Em cada ato de amor, uma possibilidade

Jorra vida na Terra...
Onde a Mãe distribui a prosperidade
Em formas de filhos dignos

Jorra vida na Terra...
E todo universo completo, mágico
Composto de trilhões e trilhões de micropartículas faz jorrar...

A vida vai jorrando, feito uma cachoeira em pleno primavera
Jorra a vida com a Mãe abençoado,

Pois não adianta querer que a vida jorre
Já que apenas a Mãe sabe a hora certa
De sua pequena semente poder germinar

Jorra vida na Terra
Sinto a mãe a me entregar esse dom da vida,
Jorra agora vida em mim...
Pois gotinhas de mim e de você se fizeram vida, jorrando num espetáculo de luz...
Milhões de células se transformando, dividindo, vibrando

Jorra vida na Terra...
Onde Gaia agora é o meu próprio ventre
Germinando, brotando flor, beija-flor....

Sou agora a própria Terra que vida jorra pra Terra...

QUANDO O NENÉM NÃO VEM


Quando o neném não vem,
A mãe a ser
Se pergunta o que fazer;
Por que Deus não dá a mão,
Não manda a cegonha;
Por que razão
Ela está sendo preterida,
E há tanta gente na rua
Carregando gente na barriga
E nem sabe o valor que tem uma vida.

Quando o neném não vem,
A mãe a ser
Desconfia da sua própria fé;
Mesmo quando tudo mais
Lhe dá certeza; ela pensa em dar no pé;
Em desistir de acreditar
Na mágica
Que está tão presente
Em todo lugar.

Quando o neném não vem;
A mãe a ser
Percebe o quanto o seu amor
Nas coisas do Divino;
Era condicional,
Relativo ao seu pedido;
De ficar grávida do seu bebê especial,
No tempo, por ela, escolhido!
Só porque ela sabia uma coisa ou outra
Sobre as coisas que há
Ali na Terra do Infinito.

Quando o neném não vem;
A mãe a ser
Deixa a tristeza lhe abater.
E ao invés de continuar acreditando
Na Estrela de Belém,
E se preparando;
Ela se concentra apenas na frustração dela,
Sem perceber
Que há também o tempo do bebê;
Afinal se nada ocorre por acaso,
Não seria o caso
De se dar conta
Que se o neném não veio ainda
É porque neném da gente
Não é bolo que se faz com água e farinha
E sim como amor e paciência
No tempo da natureza!

quarta-feira, outubro 21, 2009

PALESTRA: O PARAÍBA VAGAMUNDO


Acabo de voltar de uma palestra para deficientes fisícos no Nurap - Núcleo de Aprendizagem Profissional. Apresentei a minha palestra " O Paraíba Vagamundo", em que discorro sobre as dificuldades e desafios que enfrentei para realizar o meu grande sonho de viajar o mundo.

Essa é a primeira vez que apresento essa palestra para portadores de dificuldades, e fiquei um pouco apreensivo, pois estaria no local também, um deficiente visual e como eu uso Power Point e muitas imagens, pensei que ele talvez não aproveitasse tanto assim a palestra. Para a minha surpresa, ele foi um dos que mais questionaram, participando ativamente; perguntando sobre tudo e dando exemplos.

A idéia era que eu pudesse ajudá-los com essa palestra, mal sabia era que eu é que saíria delá com o coração transbordando de felicidade, alegria e agradecimento.

Na noite anterior, minha musa, Auri, gravou o vídeo abaixo para ser apresentado na palestra. Ela toca a canção, do compositor irlandês Turlough O'Carolan, deficiente visual, que deixou um legado musical que já ultrapassou quatro séculos.



video


Site da Nurap:
http://www.nurap.org.br/

CONTRASTE

No parque
À tarde;
Vi um homem
Abraçando uma árvore;
Meditando
No vôo dos pássaros;
Pensei: olha mais um amante da natureza!
Errei!
Logo depois
Ele acendeu um cigarro;
Tragou, fumou e depois jogou
A bituca ainda acesa na mata ;
Pensei:

Olha a imagem do contraste!

terça-feira, outubro 20, 2009

CHUVAR

O dia escureceu, as nuvens pesadas começaram a tilintar, desce raio, sobe raio, conto três, eu conto quatro e lá vem o trovejar. As torneiras do céu se abriram e na Terra faz chuá, chuá; outra chuva de verão em plena primavera: lava água, leva água, encheu de novo a marginal, carro vira barco, rua vira rio, onde Deus eu vou parar?

Esqueci o meu guarda-chuva, vou tomar banho de água e ar; mas enquanto eu caio na dança do chuvar, outros tantos estão chorando com medo de se molhar. É chuva na cidade grande, ilha sendo coberta pelo mar; esgotos transbordando, avenidas são riachos com navios a passar; e nessa praça que é ilha, vejo uma menina rezando: valei-me Nossa Senhora!

- O que eu tenho a ver com isso? – diz a Mamãe Divina – Sempre choveu, sempre choverá; são os ciclos da natureza. Se há esgotos entupidos, se os córregos estão sujos, não é castigo divino; é falta de educação, meu filho, olha ai esse papel no chão!

segunda-feira, outubro 19, 2009

Lisa Gerrard-Sanvean

ASAS E HOMENS


Se a borboleta
Vai subindo
E eu ainda
Vou seguindo
Sem voar aqui embaixo;
É a natureza
Mostrando,
E eu aqui, fico pensando:
Se Deus não deu asas à cobra
É porque pior que cobra voando
Seria homem de asa!

domingo, outubro 18, 2009

A SABEDORIA DE SER CRIANÇA

O raio de atenção da criança está ao alcance das suas mãos. Todo dia essa visão se amplia mais um pouco por meio da experiência que diverte e que fascina; por isso, nunca vi criança entretida com livros grossos e pesados; conta a sabedoria da criança: “se não houver figura, não vale a leitura!”

O que podemos aprender com as crianças?

Um pouquinho de tudo, mas principalmente a ter a ousadia de ler somente aquilo que nos divirta e em tudo na vida, dar a atenção merecida; afinal, se não estamos ocupados fazendo algo, para quê se pré-ocupar?

sábado, outubro 17, 2009

SEGUNDAS LEITURAS


Eu estava lendo aquele livro pela segunda vez
E li algo que nunca tinha chamado a minha atenção.

Mudou o livro ou mudou a minha visão?

Misteriosa é a percepção com seus mil leques de visões
Que mudam quando abrimos os olhos para uma segunda leitura;
Interessante é o pensamento que se amplia
Quando abrimos a mente para um segundo ponto de vista.

sexta-feira, outubro 16, 2009

A CANÇÃO DO SENHOR SUPREMO


Ó Senhor Supremo;
Subo a Ti em pensamento
Antes dessa meditação;
Para que Ti,
Ó Senhor da Inspiração,
Cujo encanto
Transforma demônios em anjos;
Possa arrematar as vibrações da minha alma;
E eu possa abrir
As portas
Do meu coração,
Para receber a Tua visita;

Permita, Ó Senhor da Alegria
Que eu consiga,
Lembrar dessa doce melodia;
E ao abrir os meus olhos
Eu consiga,
Manter a sintonia;
Para compartilhar com os meus irmãos,
O encanto da Tua Canção
De tão pura energia.


Frank Oliveira
Depois de um banho de Krishna!

Raul Seixas

">

EU ODEIO LER

Ela trabalhava numa livraria, mas odiava ler. Nada escrito despertava o seu interesse, nem mesmo as revistas de fofoca da TV.

Os livros na estante a observavam passar por eles, como se eles não existissem. Best-sellers não valiam um centavo; Machados e Bandeiras nem chegavam a ser refletidos em seus olhos; Harry Potters e Zibias não eram mais pops; e se dependesse dela, nunca teriam razão de serem escritos.

- Eu odeio ler – dizia ela quando era perguntada se ela lia muito por trabalhar em uma livraria – Tenho coisas mais importantes a fazer com o meu tempo - respondia.

Enquanto eu escutava aquela conversa, tentei não julga-la; eu, tenho cá, os meus “não-gostos”, mas fiquei imaginando se eu conseguiria criar um texto que a pudesse encantar, chamar a sua atenção; fazê-la perceber que ao ler esse mundo de letras, a sua mente se expandiria.

Pensei em criar uma crônica que a fizesse rir ou mesmo chorar; quem sabe escrever um poema que a fizesse roubar os meus versos e dizer que eram seus; mas daí lembrei que respeitar o mundo alheio é fazer prevalecer o direito que todos temos de desgostar daquilo que gosta o mundo inteiro.

quinta-feira, outubro 15, 2009

DIA DOS ALUNOS

No Dia do Professor

Foi o aluno que ganhou;

Ao lembrar do seu professor;

Ficou claro que alguma coisa

O Professor plantou.


E o aluno semeou;

Por isso lembrou

Que de todos os dias,

Hoje é o Dia do Professor!

A MOÇA QUE ROUBAVA LETRAS

Havia uma moça que só lia os livros dos outros nos transportes coletivos. Bastava ver um livro aberto, que o rabo do seu olho saltava em direção a leitura alheia, roubando as letras e se deliciando com a leitura perigosa, afinal, a qualquer momento, o dono do livro poderia mudar de página.

Já tinha lido quase todos os livros de vampiros que viraram moda; evitava os livros espíritas – quem leu um, leu todos – e sabia que bastava ler um trecho dos clássicos para já valer o livro inteiro.

Um dia, ao notar que uma senhora abria um “Ulisses”, ela correu na direção da leitura; mas percebeu que alguém havia chegado antes dela. Era um rapaz que aparentava ter a sua mesma idade. Ficou irritada, não gostava de ter competição. Ele nem notou que ela desceu na estação seguinte furiosa.

Quis a Lei das Coincidências aliada a de Murphy, que ela sempre encontrasse esse rapaz em todos os vagões que ela entrava. Um dia, ao perceber que estava sozinha, respirou aliviada e avançou os seus olhos num Dom Casmurro, lido por um senhor de Cartola; porém, antes que começasse a ler sobre Capitu; o trem parou e o rapaz entrou, vendo-a lendo o livro que estava na sua lista. Ele se aproximou; ela ensaiou dizer poucas e boas; ele perguntou: "posso ler com você?" Ela deixou. O homem da cartola sorriu e continuou a ler calmamente, mesmo tendo notado que dois pares de olhos roubavam a sua leitura.

Eles se apaixonaram, casaram e hoje seus dois lindos filhinhos roubam trechos dos Harry Potters de seus amiguinhos nos coletivos.

quarta-feira, outubro 14, 2009

A INSTRUÇÃO

Diante de tantas estrelas, meus olhos brilham as tuas belezas, Mãe Natureza. Lágrimas escorrem pelas pedras do meu rosto e desembocam no lago do meu sorriso. Estou vivo; e contemplo as maravilhas da manifestação da tua criação, Mãe Divina. As tuas bençãos se abrem como um arco-íris no céu de nossas vidas, mesmo quando vivemos em tempestade com as nuvens de nossos vizinhos; por isso, e por tudo mais que eu recebo, sem nem ao menos pedir, ajoelho-me às margens do teu rio para lhe fazer só mais um pedido: Mãe, preciso de instrução!

Ensina-me, Mãe Professora, a colocar em prática o que aprendi no canto do beija-flor. Preciso de força para atingir a maturidade da minha espiritualidade para aguentar receber em meu peito o teu amor. Estou farto de ser apenas uma criança, Minha Mãe, sempre em busca de brilho; caçando fenômenos e buscando provas da tua existência nesse plano de ilusão.

É lindo contar as estrelas cadentes, ficar só olhando os cometas contentes; mas sinto que preciso, nesse momento, de uma colher de energia com gosto de pé-no-chão, Minha Mãe, para que eu faça da espiritualidade o meu dia-a-dia.

Passei muito tempo vislumbrando e pouco tempo de vida praticando, por isso, peço firmeza, Mãe Suprema, para não deixar para depois, a atitude de ser alguém melhor hoje.

Estou muito acostumado com o show do seu amor, bato palmas ao perceber as luzes da minha alma, porém falta algo: não sei como pôr em ação todas essas lições que aprendi e sei que de nada vale continuar colhendo fenômenos, se eu não sei como usar esse conhecimento na minha vida praticando aqui.

Por isso, peço instrução, Mãe das mães, pois pior que alguém que não tem acesso as tuas santas lições; é alguém que recebeu o dom de conhecer um pouco, mas fez desse pouco, diploma nas paredes do ego, livro fechado nas gavetas teóricas da mente e faz desse divino presente água corrente que escorre pelas mãos.

terça-feira, outubro 13, 2009

O RIACHO GRANDE E O CARRO QUE NADA

Melhor idéia para aquele feriado ensolarado não havia; minha esposa e eu almoçando um belo pescado frito num restaurante às margens do Riacho Grande.

Tiramos o carro da garagem, coloquei Loreena como trilha sonora e descemos a Anchieta; e lá pela altura de São Bernardo, começamos a ver as nuvens.

Orei: "Ó nuvens, vê lá: não estraguem o nosso feriado!"

O claro tornou-se escuro, as nuvens choravam pingos pesados no vidro do carro.

- Vamos voltar? – ela perguntou.

- Nem pensar! – Respondi – Vai passar, vai passar!

Não passou.

Descemos até o Riacho, o mundo balançava para tudo que é lado; o lago do Riacho Grande ensaiava um Tsunami.

- Acho que é melhor voltar! – falei, enfim.

Auri olhou-me irada, mas conseguimos dar a volta no último retorno, antes do caminho do mar. Uma centena de carros fazia o mesmo. Eu agora rezava para que não tivessemos que descobrir que carro não nada!!!

segunda-feira, outubro 12, 2009

COMO AMAR UMA CRIANÇA

Por - Janusz Korczak

A criança que você pôs no mundo pesa 10 libras. É feita com oito libras de água e um punhado de carbono, cálcio, azoto, sulfato, fósforo, potássio e ferro. Você deu à luz a oito libras de água e a duas libras de cinzas. Assim cada gota de seu filho era o vapor da nuvem, o cristal da neve, da bruma, do orvalho, da água da nascente e da lama de um esgoto. Milhões de combinações possíveis de cada átomo de carbono ou de azoto.

Você apenas reuniu o que já existia.

Olhe a Terra suspensa no infinito.

O Sol, seu próximo companheiro, está a 50 milhões de milhas.

Nosso pequeno planeta não é mais que 3.000 milhas de fogo recoberto por uma película que tem apenas dez milhas.

Sobre essa fina película, um punhado de continentes jogados entre os oceanos.

Sobre esses continentes, no meio das árvores, arbustos, pássaros e animais – o ruído dos homens.

Entre estes milhões de homens, está você, que deu à luz a um homem a mais. O que é ele? Um galinho, uma poeira – um nada.

É tão frágil que uma bactéria pode matá-lo; uma bactéria que aumentada mil vezes é apenas um ponto no campo visual.

Mas este nada é irmão das vagas do mar, do vento, do relâmpago, do Sol, da Via Láctea. Este grão de poeira é irmão da espiga do milho, da relva, do carvalho, da palmeira, irmão de um passarinho, do filhote de leão, de um potrinho, de um cãozinho.

Neste nada há qualquer coisa que sente, deseja, observa; que sofre e que odeia; que é feliz e que ama; que tem confiança e que duvida; que acolhe e que rejeita.

Este grão de poeira encerra o seu pensamento as estrelas e os oceanos, as montanhas e os precipícios. E o que é a essência da alma senão todo o Universo, faltando apenas as suas dimensões.

É esta a contradição inerente ao ser humano: nascido de um quase nada, Deus está nele."


* Janusz Korczak ainda é pouco conhecido no Brasil mas é uma das maiores influências inspiradoras em movimentos de abertura para novas práticas educativas hoje em dia. Korczak era diretor de um orfanato na polônia na época da segunda guerra e tinha grande talento literário. Fez a passagem no campo de concentração de Treblinka em uma câmera de gás, junto com as 200 crianças de seu orfanato, que protegeu e educou com vigor e alegria até o fim, mesmo em face das adversidades da guerra e do gueto.

***//\\***

Janusz Korczak: Como amar uma criança...
Por Rafael F. Scharf
Vice-Presidente da Associação Internacional Janusz Korczak da Inglaterra

A vida de Janusz Korczak é tão tocante que, ao contá-la, é necessário evitar a ênfase patética que se impõe, a fim de permanecer-se fiel àquele sobre o qual falamos.

Ele era, na mais profunda acepção do termo, um homem simples, toda afetação lhe era estranha. É certo que ele não imaginava que seu nome seria célebre, e é por isto que cada vez que o glorificamos publicamente, inaugurando um monumento em sua homenagem, eu me pergunto qual seria o seu comentário se sua boca de pedra pudesse falar.

Sua história foi recontada inúmeras vezes e continuará sendo, porque ela mostra melhor, sem dúvida, não importando o caso particular, o horror inexprimível da última guerra e a exterminação dos judeus poloneses.

Em 5 de agosto de 1942, durante a liquidação do gueto de Varsóvia, os hitleristas ordenaram o agrupamento das crianças do orfanato de Korczak e o envio das mesmas ao campo de morte de Treblinka. O ‘Velho Doutor’ reuniu duzentos pupilos, os fez colocar-se sabiamente em fileiras e, à sua frente, partiu com eles para o ‘Umschlagplatz’, no cruzamento das ruas Stawki e Dzika, onde todos foram colocados em vagões de carga e enviados para os fornos crematórios.

Esta marcha nas ruas do gueto foi vista por algumas centenas de pessoas, e a silhueta pequena de Korczak dirigindo-se para seu calvário, inconsciente de seu heroísmo, fazendo aquilo que lhe parecia evidente, excitava as imaginações. A novidade espalhou-se imediatamente, repetida de boca em boca com a força de detalhes inventados: que Korczak carregava nos braços os dois menores, coisa pouco provável, porque ele mesmo estava doente e tinha dificuldades em andar; que o ‘Jundenrat’ tinha intervindo no derradeiro momento e tinha despachado em seguida um mensageiro atrás da fila, portador de um salvo conduto somente para Korczak, que foi por ele rejeitado com desprezo; que para apaziguar as crianças ele tinha lhes dito que iam em excursão e que eles, confiantes, o seguiam sem choro e sem protesto. Mas nenhum embelezamento é necessário diante dessa verdade nua e crua; não é preciso ajuntar qualquer coisa para torná-la mais eloqüente. A antítese do espírito e das dificuldades é clara e definitiva: um homem sábio por excelência, desinteressado e bom, opondo-se aos covardes, bárbaros obtusos, que se mostravam sob seu aspecto mais satânico.

Entre os milhões de mortes anônimas, a de Korczak tem um grande significado. Nos campos e guetos, ele se tornou para muitos, uma inspiração, pois aí o que mais ajudava a sobreviver era a convicção obstinada e indestrutível que a dignidade humana poderia vencer , embora tudo parecesse provar o contrário.

A imprensa clandestina dos campos mostra bem o quanto esta derradeira caminhada sublime do Velho Doutor foi um reconforto e uma dose de ânimo para seus contemporâneos. A partir daí sua glória tem crescido e o mundo fez de Korczak um símbolo moral.

É preciso que nossa atenção à sua morte não obscureça o caráter de sua vida. Henryk Goldszmit (este era o seu verdadeiro nome – Janusz Korczak foi um pseudônimo tirado de um romance pouco conhecido de Kra Szewski) nasceu em Varsóvia há pouco mais de cem anos numa família abastada. O fato de seu pai ter sido um advogado conhecido e seu avô um médico mostra até que ponto o seu meio foi assimilado. Ele cresceu na solidão, preservado das influências do exterior, sem se dar conta de que era judeu e sem saber o que isso significava. Antes de terminar a escola ele perdeu o seu pai, atingido por uma doença mental. A miséria sucedeu a abundância. O jovem Henryk tomou sobre si, da maneira como pode, o encargo de sua mãe e irmã, e nos anos seguintes, freqüentemente passando fome, estudou medicina com enormes dificuldades. Quando, por fim, obteve seu diploma, as coisas começaram a melhorar, contribuindo também para isso sua reputação de escritor que se afirmava. Mas isto não durou muito tempo. Repentinamente um tipo de necessidade interior mudou completamente seu destino.

Com trinta e quatro anos ele abandonou o exercício da medicina para se ocupar de um orfanato, que do início ao seu fim, permaneceu associado ao seu nome. A idéia fixa de consagrar sua vida às crianças parecia possuí-lo. Ele não era um idealista ingênuo; o que o caracterizava era uma compreensão extraordinária da criança e a convicção da necessidade de lutar pelos seus direitos no mundo governado pelos adultos. Ele não tinha confiança no mundo governado pelos adultos, mas como cada verdadeiro reformador ele julgava que mesmo uma só pequena vela acesa valia mais que lamentar-se de escuridão. Sua intuição não excluía sua sensibilidade e ela está edificada sobre uma observação constante, clínica, poder-se-ia dizer, sobre um estudo minucioso dos fatos. Totalmente absorvido por sua única idéia, não havia lugar nele para tudo que os outros davam tanta importância – dinheiro, a celebridade, um lar, uma família.

Seu orfanato, construído e mantido exclusivamente graças às doações de pessoas caridosas, era destinado às crianças dos bairros pobres de Varsóvia. A obtenção de fundos para fins de caridade tinha então, como hoje, seu aspecto desagradável, que freqüentemente irrita aqueles que dela dependem. Korczak balançava a cabeça em desaprovação perante o preço do material gasto para encerar o assoalho antes de um baile de benemerência e ele se lamentava do tempo que perdia com quem vinha visitar o orfanato. Mas a força de sua personalidade fazia que os doadores considerassem uma honra o financiamento de seu trabalho.

No domínio da educação e da psicologia da criança, ele era um pensador pragmático original e, ao mesmo tempo, um pioneiro de princípios que serviam de modelos para outros. Ele se esforçava constantemente de refazer seu sistema baseado sobre a compreensão das necessidades mais profundas da criança. Sua influência se exercia tanto por sua presença direta quanto pelo que escrevia no jornal do orfanato preparado pelas crianças e destinados à elas mesmas; a leitura em comum dessa publicação era um acontecimento semanal dos mais importantes. Conta-se que ao longo de 30 anos de seu trabalho intenso, ele jamais deixou de fornecer um artigo por semana à redação. As regras do orfanato eram seguidas por um código, cujo parágrafo 1000 previa como a pena mais alta, a expulsão pura e simples. Cada criança que tinha reclamação contra outra tinha o direito de a fazer comparecer perante um tribunal composto por seus colegas. Korczak mesmo, se tivesse sido convocado, teria de se apresentar perante este tribunal e de se submeter a sua sentença.

À noite, após uma ronda em todos dormitórios, o Velho Doutor retornava ao seu quarto no sótão, a única ‘casa’ que ele teve durante toda a sua vida adulta, e lá, até tarde da noite, ele colocava ordem em suas notas e escrevia.

Ele era um escritor fecundo tanto no seu domínio profissional quanto, e antes de tudo, na sua criação para as crianças e sobre as crianças. Seus livros ilusoriamente simples nas suas formas e conteúdos, impregnados na mesma proporção de melancolia e humor, refletindo seus anseios interiores, muitas vezes satiricamente áspero em relação a sociedade, sempre cheios de emoção e compreensão, deixavam traços duráveis na memória de seus leitores jovens e velhos, destinando-se a ficar gravados na história da literatura desse gênero.

Lá pelos meados dos anos trinta Korczak envolveu-se em dois empreendimentos na Palestina. O que ele aí viu o comoveu e o refrescou espiritualmente. Sob o encorajamento de numerosos amigos e antigos discípulos ele começa então a pensar seriamente em fixar-se lá para sempre. Mas havia obstáculos. O que o atormentava sobretudo, era o medo de não encontrar um sucessor adequado para continuar seu trabalho em Varsóvia. Ou seja, o pensamento de se afastar de sua terra natal lhe era insuportável. Nas cartas que ele escrevia aos seus amigos para explicar as causas de suas hesitações ele invocava o ‘seu Vístula’ e ‘sua Varsóvia bem-amada’, das quais ele jamais se consolaria se tivesse que deixar. Além do mais, ele estava sem dinheiro e hesitava em se colocar dependente de qualquer um.

Quando os hitleristas fecharam os judeus de Varsóvia dentro do gueto, o orfanato perdeu sua casa à Rua Kruchmalna, do lado ‘ariano’, e transportou-se para locais provisórios, no interior dos muros do gueto. Naquele momento Korczak já percebia melhor que a maioria das pessoas que a máquina impiedosa os mataria a todos. Mas ele pensava em não renunciar ao seu direito de aliviar os sofrimentos. Alquebrado e doente, cada dia ele reunia as forças que lhe restavam e partia à procura de viveres e de medicamentos para as crianças. Às vezes ele não trazia nada de suas buscas obstinadas, outras vezes ele voltava somente com uma ínfima parte do necessário. Ele não temia solicitar com impertinência, de mendigar, de envergonhar as pessoas que se esquivavam de sua nobre ação. Nos dias em que ele nada encontrava ele não hesitava em dirigir-se mesmo aos piores especuladores e opressores judeus. Apesar de fome incessante cada vez mais insuportável e às doenças sempre mais freqüentes, ele cuidava para que seu orfanato funcionasse normalmente, a fim de que seus alunos pudessem sentir-se bem. Freqüentemente ele trazia dos locais mais distantes uma nova criança encontrada na rua, no fim de suas forças, para quem a bondade do Velho Doutor significava a salvação durante algum tempo ainda.

Nestas condições rigorosas levadas ao extremo e que em tempo normal é difícil de se imaginar, nós temos em Korczak, no seu trabalho cotidiano, um exemplo do que pode fazer um genuíno homem guiado pelo amor.

Sua vida é um modelo e somos tentados a ver nele, nesta silhueta franzina revestida de avental de inspetor que ele usava habitualmente, um exemplo típico de toda uma geração, uma encarnação da ‘idade da criança’. Sua grandeza, que consistia nem mais nem menos em fazer seu dever, podia ser aquela de qualquer um, e mesmo sua morte trágica foi uma coisa comum, lá onde o martírio estava na ordem do dia.

Durante o ‘Ano Korczak’, instituído pela UNESCO para celebrar o centenário de seu nascimento, os escritores, os sábios, as pessoas de boa vontade em todas as partes do mundo, procuraram enriquecer-se com o conhecimento desse homem e de suas idéias, de sua vida e de sua morte, através de livros, de artigos e simpósios.

É de se supor que graças a isto, numerosos são aqueles que tomaram conhecimento do seu nome e do que ele significa. Sem dúvida é na Polônia e em Israel que ele é mais conhecido. Mas, nesse mundo barulhento e apressado de hoje em dia, a lembrança empalidece rapidamente. A despeito de todos os esforços ela desaparece progressivamente, sob uma massa de outros negócios. Aqueles que amam Korczak e que crêem na força de seu exemplo sentiam que era necessário encontrar um modo mais concreto de imortalizar sua figura e suas idéias. Assim souberam com alegria que uma obra grandiosa seria realizada na Polônia com a aprovação e a sustentação financeira do governo: um Instituto Científico de Proteção e Educação Janusz Korczak.

Foi-lhe destinado um espaço deslumbrante de uma centena de hectares lá onde Vístula – o Vístula bem-amado de Korczak – contorna a localidade de Lomianski. O projeto já está pronto.

É um empreendimento magnífico que levará seu nome. Não uma estátua de bronze ou de mármore, mas um centro cheio de vida, para onde virão crianças de perto e de longe, onde elas crescerão, se instruirão, se divertirão juntas, próximas à natureza, numa atmosfera de compreensão e boa vontade para com todos. Os educadores e os professores aí se reunirão para aprender observar, para participar das experiências de trabalho com as crianças e os adolescentes, para aproximar-se da realização dos sonhos de Korczak, mesmo que isso seja um passo apenas para um mundo no qual as crianças possam viver felizes.

É um empreendimento magnífico que levará seu nome. Não uma estátua de bronze ou de mármore, mas um centro cheio de vida, para onde virão crianças de perto e de longe, onde elas crescerão, se instruirão, se divertirão juntas, próximas à natureza, numa atmosfera de compreensão e boa vontade para com todos. Os educadores e os professores aí se reunirão para aprender observar, para participar das experiências de trabalho com as crianças e os adolescentes, para aproximar-se da realização dos sonhos de Korczak, mesmo que isso seja um passo apenas para um mundo no qual as crianças possam viver felizes.

Crianças veem, Crianças fazem

video

SIA DAS PRIANAS

Nesse Sia das Prianas,
Lemdro que o doneque
Que já vui,
Ainda dora aqui sentro;

I ile vive me sizendo,
Que o asulpo
Que me pornei,
Ista a cada ano
Mais chapo que só vendo;

Por isso ile fecha os olhos
E brinca de isponse-isponse,
Se isponsendo.

domingo, outubro 11, 2009

Dois Beija-flores


Eu vi
Dois beija-flores se beijando
Em pleno voo;

Fiquei olhando,
A flor que os esperava
Não gostou.

sábado, outubro 10, 2009

UP - A CASA VOADORA

Acabei de assistir o novo filme da Pixar "UP" numa versão dublada numa sala cheia de crianças. Quem me conhece sabe o quanto eu "adoro" filme dublado, mas quem manda gostar de filme de criança. Peraí... "filme de criança"?

Carl Fredricksen (Edward Asner) é um vendedor de balões que, aos 78 anos, está prestes a perder a casa em que sempre viveu com sua esposa, a falecida Ellie. O terreno onde a casa fica localizada interessa a um empresário, que deseja construir no local um edifício. Após um incidente em que acerta um homem com sua bengala, Carl é considerado uma ameaça pública e forçado a ser internado em um asilo. Para evitar que isto aconteça, ele enche milhares de balões em sua casa, fazendo com que ela levante vôo. O objetivo de Carl é viajar para uma floresta na América do Sul, um local onde ele e Ellie sempre desejaram morar. Só que, após o início da aventura, ele descobre que seu pior pesadelo embarcou junto: Russell (Jordan Nagai), um menino de 8 anos.

Para começar, temos um velhinho como protagonista - mais herói improvável não existe. À partir daí, desenrola a aventura do velho e do menino em busca do lugar que a esposa do velhinho sempre sonhou um dia conhecer. Tudo aparentemente lembra um filme de aventura de animação, com todos os clichês de bom e mau, climax, catarse e conclusão; porém, é a primeira vez que vejo um filme infantil tratar temas como infertilidade, morte, velhice, sonhos destruídos e obsessão.

A casa voadora além de tocar profundamente em temas que me são caros; representa o sonho de todo viajante de levar consigo, onde for, um pedaço da sua própria terra. O casal que vai deixando o sonho para depois é o maior símbolo de passarinhos engaiolados que já vi na sétima arte e do preço que pagamos quando deixamos o nosso sonho para amanhã, quando adiamos o que mais é importante para as nossas vidas.

O filme mexeu com os meus sentimentos e de muito marmanjo que estava acompanhando as suas crianças, talvez porque todos nós nos vimos naquele velhinho amargurado e nos sonhos que ele não conseguiu realizar.

sexta-feira, outubro 09, 2009

NOBEL DE LITERATURA: Herta Müller! QUEM???

O Prêmio Nobel de literatura vai para: Herta Müller!!!!

Onde estão os aplausos? Meus queridos amigos brasileiros?
Como assim, vocês nem sabiam que existia um Prêmio Nobel de Literatura?

Ok, o Obama ganhou o Nobel da Paz, com todo o merecimento do símbolo que ele significa para o mundo inteiro, mas todos nós sabemos que é por meio da educação, que o mundo avança. É, eu sei; eu estou soando meio Senador Cristóvam Buarque. Porém, quero chamar a atenção para a leitura. Como assim não posso? Como assim esse assunto é chato? Sim, eu sei que todo mundo conhece o Presidente dos Estados Unidos e se aqui no Brasil, mal sabemos quem foi Castro Alves, imagina saber que há livros escritos em alemão que estão revolucionando o mundo!!! Contudo, sempre vale a pena o aviso: qual foi o último livro que você leu? Quantos livros você lê por mês? Tá bom! Por ano?

Eu sei que é utópico, mas já pensou se tivessemos no Brasil, festas nas ruas, comemorações, porque o Brasil será a sede das Olímpiadas das Letras. Imaginem as competições de poesias, as prosas correndo e pulando obstáculos; crônicas sobre o dia-a-dia dos nossos atletas da escrita e ao invés de troféus, os vencedores teriam os seus livros publicados. Literatura sendo feita por leitores que se tornaram escritores da sua vida.

Ah, estou sonhando. Tal coisa não existe!!! Cada dia que passa mais gente quer aprender leitura dinâmica, colocar um livro embaixo do travesseiro e acordar com tudinho lido e interpretado. Ninguém lembra que um livro pode ser o eco de um povo; pode retratar esse sentimento sem palavras que oprime o peito da gente e somente o escritor tem a sensibilidade de captar esse grito engulido e dar voz ao mundo calado.

A Academia sueca ao entregar o prêmio a Herta Müller, escritora alemã de origem romena de 56 anos, afirmou: " a escritora consegue com a densidade da sua poesia e a franqueza da sua prosa, retratar o universo dos desapossados".

Porém, nem toda literatura precisa ter cunho político e social. O melhor de ler é se divertir. Não podemos levar tão a sério esse ler para mudar o mundo, ás vezes um livro é apenas um livro.

O que não pode acontecer é continuarmos um Brasil da leitura funcional; por isso sempre defendo Paulos Coelhos, Zibias e envolvidos no processo de leitura para a massa, pois precisamos tornar POP esse esporte de interpretar o mundo.

PROFESSORES DAS ESCOLAS E UNIVERSIDADES,SEGUE O ALERTA: os clássicos só serão descobridos se forem descobertos os véus da ignorância da falta de leitura!!!

Quem sabe no futuro, um escritor brasileiro ganhe o Nobel de Literatura e agradeça, para espanto de todos, os gibis do Chico Bento que o inspiraram a ler pela primeira vez.

quinta-feira, outubro 08, 2009

O Sopro da Musa

Qual seria o título daquele texto? - ela se perguntava. Olhou para o teto, mordeu a ponta da caneta; seus olhos se perderam em algum ponto entre esse mundo e as outras dimensões do pensamento, onde contam os poetas, a inspiração nasce. Porém, o título não vinha e ela implorava aos quatro ventos que levam e trazem poesia: "Tragam-me um título?"

Tinha escrito um texto fantástico, onde narrava a busca de uma jovem, que certo dia, ousou plantar perguntas e estava colhendo respostas. Sim, ela tinha escrito o texto da sua vida e as letras revelaram que ela tinha talento para a escrita.

Não lembrava ao certo em que momento se apaixonara pela literatura, mas desde muito cedo, palavras lhe eram sussurradas; trechos de textos que ela nunca tinha lido, surgiam escritos na sua cabeça e se equilibravam na ponta da sua pena pedindo passagem. Quis a providência que um mentor aparecesse, um velho escritor de crônicas; e que ele lhe desse o primeiro empurrão: uma folha em branco!

Ela fez da folha um palco e soltando-se, dançou ciranda com as letras, baião com as vogais e valsa com as consoantes; e de mãos dadas com as sílabas; criou seu primeiro texto, depois o segundo, daí um baile de palavras começou na sua mente enchendo o salão de pensamentos que caiam em frases dançantes nos seus cadernos, e ela percebeu, finalmente, a magia de escrever.

Contudo, cada texto é um desafio, e batizar aquele com um título estava sendo uma jornada, onde ela tentava cobrir as letras peladas com um significado vestido. Ela sabia que apesar de já ter escrito outros textos; aquele pedia um toque especial; ele era quase uma iniciação espiritual; por isso, ela queria o "Título dos títulos".

E no meio do redemoinho branco da falta de palavras; entre a parede e o texto sem cabeça, ela notou uma imagem se formando como se fosse uma miragem; as formas de uma mulher foram surgindo e essa figura feminina de extrema beleza, vestido longo e cabelos ruivos cumpridos, olhou para a escritora e soprou em seu ouvido o título que daria vida ao seu escrito.

A escritora não sabia, mas logo desconfiou, acabara de ver " A Musa"; essa entidade inspiradora que sopra letras nos ouvidos dos escritores; que se veste de lua para os poetas; que dança em notas para os músicos e que se faz matéria prima para os escultores. Dos artistas, Ela é a Deusa; para os homens, a própria arte que se fez pessoa.

No sopro da Musa, a escritora compreendeu que ganhara um presente por todos os esforços seus e ao coroar o seu texto com o título soprado, ela sabia que acabara de desbravar um longo caminho em direção as estrelas, com a benção da Musa e com os pés calçados de letras.

quarta-feira, outubro 07, 2009

ENEM NÃO VEM

Ganhamos as Olímpiadas,
A Copa,
O prestígio internacional;
Que legal!!!

Só falta lavar a roupa suja,
Nanar o Enem que não vem,
Tirar a chave dos tratores dos Sem Terras;
Para que a laranja chegue a nossa mesa;
O Enem chegue aos estudantes;
Em Brasília se faça o dever de casa,
E possamos ter orgulho de viver
Para valer nesse país!

terça-feira, outubro 06, 2009

ANIMUS

Quando meu olhar encontrou o dele; nunca pensei que amor pegasse no olhar. Pegou! Como um vírus que invade o corpo da gente e nos deixa pedintes de amor.

Eu nada disse, meu corpo falou por mim e quando percebi, ele já estava perto de mim; conversando, se chegando; perguntando, querendo saber quem era a dona daquele olhar que ele roubara e só devolveria se eu pagasse com a história da minha vida.

Eu acabara de sair de uma cachoeira de decepções; depois de quase me afogar no rio dos corações partidos. Havia descoberto que eu não conseguia ficar sozinha; por isso vivia sempre em qualquer companhia, alimentando o meu corpo com carinhos vazios; que me davam prazeres passageiros e nenhuma satisfação real. Um dia, eu disse basta a mim mesmo; terminei com o meu namorado e decidi aprender a ficar sozinha.

Doeu!

Difícil processo é amadurecer; deixar de ser lagarta. Incrível, como a gente se arrasta, mesmo sabendo que pode voar e quando decidimos parar, sentimos falta do rastejar. Descobri que eu era viciada em estar acompanhada; daí, cada vez que eu escutava os meus pensamentos, algo em mim gritava: "liga para alguém! Manda uma mensagem para um antigo namorado! Faça algo, mas não fica parada!"

Desobedeci.

Algo em mim queria pagar para ver; então eu vi: esse moço com olhos brilhantes vindo na direção do meu olhar; boa parte de mim não quis acreditar, mas tinha valido a pena todas as noites solitárias, tinha valido a tinta cada momento que eu passei sozinha; pois eu já não tinha medo de ouvir os meus pensamentos e descobrir que eu poderia ficar bem só comigo mesma.

Quando ele pegou na minha mão e disse que não iria embora sem o meu telefone, meu celular disparou e eu percebi que era o alarme; então a carruagem se fez abóbora e a princesa acordou na cama; sem sapatinho e sem príncipe. Eu tinha sonhado novamente com o homem que me merece e esta me esperando em algum momento da minha vida. Eu sei que ele é real; e não apenas uma imagem de uma mente romântica. Sei disso, porque o homem a quem eu vou entregar o meu coração vai perceber algo em mim além da minha aparência; ele vai notar que quem eu sou, mora no olhar e é no olhar que nasce o amor que pode vim para ficar.

O Brilho da Revelação

Olho pro o céu
Vejo Mamãe
Se faz crescente
É evidente
Que ela brilha
Na escuridão
E afasta o véu
Da ilusão

Olho pro céu
Vejo Mamãe
De face nova
Aqui e agora
É no silencio
Da nossa alma
Que ela abre
As sete portas

Olho pro céu
Vejo Mamãe
Se faz minguante
É nesse instante
Que se inicia
A transformação
E se transcende
A ilusão

Olho pro céu
Vejo Mamãe
De face cheia
E nos rodeia
Por todo lado
E em todo irmão
Esse é o brilho
Da revelação

segunda-feira, outubro 05, 2009

MORREU LA CIGARRA NEGRA, GRACIAS MERCEDES SOSA

Ouvi "Gracias la vida" em um restaurante de Ouro Preto. Estranha ironia, num bar brasileiro me apaixonei por uma canção argentina e pela "alma negra" que estava sendo incorporada por uma bela univesitária "hermana" que ganhava alguns trocados naquele lugar para pagar o curso que fazia por ali.

No final do show, agradeci a experiência; pois aquela voz e aqueles versos tristes deixaram a minha alma alegre.

Hoje, um vaga-lume veio me contar que o espírito de "La Negra" já não ocupa o seu corpo. Daí, a razão porque ouvi tantas cigarras cantando; juro que fiquei um tantim triste, mas daí lembrei que o verão tá chegando e há outras tantas "hermanas" por aí, incorporando não só a musa argentina; mas também o seu talento.

Gracias la Vida!!!!


Como La Cigarra

Composição: María Elena Walsh

Tantas veces me mataron, tantas veces me morí,
sin embargo estoy aquí resucitando
Gracias doy a la desgracia y a la mano con puñal
porque me mató tan mal y seguí cantando

Cantando al sol como la cigarra
después de un año bajo la tierra
igual que sobreviviente
que vuelve de la guerra

Tantas veces me borraron, tantas desaparecí
a mi propio entierro fui solo y llorando
Hice un nudo en el pañuelo pero me olvidé después
que no era la única vez y seguí cantando

Cantando al sol como la cigarra
después de un año bajo la tierra
igual que sobreviviente
que vuelve de la guerra

Tantas veces te mataron, tantas resucitarás
cuántas noches pasarás desesperando
Y a la hora del naufragio y la de la oscuridad
alguien te rescatará para ir cantando

Cantando al sol como la cigarra
después de un año bajo la tierra
igual que sobreviviente
que vuelve de la guerra

O AGREGADO

Quando ficar sozinho dói, compreendemos que não temos ainda maturidade para ficar com a gente mesmo.

Se não gostamos de ficar com a gente mesmo como podemos achar que gostamos de ficar com outro e com a gente junto?

E se ficar com o outro for um vício, um receio, um medo de estarmos conosco mesmo?

Do que temos medo? O que não queremos descobrir? Quem foi que ensinou a gente a ser assim?

Ninguém nasce acompanhado, todos morrem sozinhos; é claro, que precisamos de gente ao lado, que necessitamos nos relacionar; porém quando esses relacionamentos começam a nos prejudicar, qual é a lógica de continuar algo que só existe para ocupar lugar?

Queremos ocupar sempre todos os vazios, mesmo que seja com algo que não valha a pena, a tinta e o escrito; daí pergunto: não deveríamos aprender a viver sozinhos?

E se aprendessemos a viver sozinho de tal forma que a cada dia fosse uma descoberta, cada experiência uma vitória. Será que não seria inevitável que o nosso brilho atraísse alguém que valesse um poema?

Só merece estar do nosso lado quem vale um verso; se não for assim, só teremos um agregado, um anexo, uma ilusão de que estamos realmente acompanhados; quando na verdade, sempre estivemos sozinhos mesmo quando tínhamos alguém do lado.

domingo, outubro 04, 2009

QUEBRANDO A CASCA

Investigando construimos as experiências que formam o ser.

Por isso, não diga que eu não posso. Eu posso!

Por isso não diga que é do mal! Do mal é dizer que é do mal!

Eu investigo como quem brinca, sou criança diante do novo, sou neófito perante a vida.

Deixa eu quebrar a minha cara, deixa eu me perder; por favor, não diga que eu não posso. Eu posso!

E vou fazer, não porque quero confrontar você. Eu vou fazer porque quero descobrir até onde posso ir; do que gosto e do que não gosto; e nessa matéria, a escola não pode me ensinar, só a Professora Experiência.

sábado, outubro 03, 2009

Coral Degredados Filhos de Eva

Meus amigos e leitores;

Amanhã ocorrerá a apresentação do "Coral Degredados Filhos de Eva" no Parque da Independência (Museu do Ipiranga - Sampa) às 10h - em frente a pira do monumento da independência.

Será uma apresentação inesquecível e estaremos diante de uma performance única com tambores, berimbaus e berrantes; além das canções que tenho certeza, ninguém esquecerá jamais.

Diversão, arte e muito cultura, na faixa!!! Compareçam, levem as crianças, familiares e amigos!!!

MAIS ALGUÉM OU MAIS NINGUÉM?

Dentro do trem, vejo um desfile macabro: entra cego, sai aleijado; pedintes da minha piedade. Sou cruel, pago a bala, não pago esmola.

Gosto do sentimento que me toma quando vejo que há gente em pior situação que a minha; por isso há miséria no mundo, para nos lembrar da riqueza que temos e que até então achavámos que não tinhamos.

Tenho saúde e dinheiro para a bala, mas pouca paciência para escutar a mulher trocando o choro da sua criança por moedas; não dou nem olhar para ela, e por isso acho que vou para o inferno.

Se eu for para o inferno, acho que vou dar de cara com Deus, e diante do Senhor, vou pedir " força e saúde" para essa gente em situação pior que a minha; afinal trocado não é riqueza e se tem gente que vive de bala, com certeza, há de haver gente que vive sem esmola.

sexta-feira, outubro 02, 2009

CRIANÇAS DA TRANSFERÊNCIA

Ontem, mamãe me contou que sou adotado. Não entendi muito bem tudo o que ela falou, mas compreendi que tenho duas mães, uma que não quis ficar comigo e a outra que quis.

Não amo a minha mãe que não quis ficar comigo porque não a conheço, mas minha outra mãe disse que eu deveria gostar dela, pois ela me deu por amor.

Minha mãe que me cria disse que a mãe que me deu foi a mãe que me carregou na barriga por nove meses e só me deu porque ela era bem pobrezinha e não tinha comida nem pra ela nem pra mim, por isso, ela pensou que seria melhor para mim, ir morar numa casa onde eu recebesse comida todos os dias, roupa limpa e muito amor.

- Ela não podia me dar amor? – perguntei a mãe que me criou; ela sorriu, como faz quando eu faço alguma pergunta que ela acha que é de criança, mas ela me respondeu que a mãe que me deu também me amou e por me amar, decidiu me transferir para outra família; pois temia pela minha vida e mesmo sofrendo muita dor por dar o seu filho para outra mãe, ela fez isso; e hoje eu sou filho da mãe que me criou.

Confesso que às vezes quando penso nisso, fico bem confuso, ainda mais porque eu não posso reclamar, eu tenho duas mães, e tem um monte de criança por aí, que não tem mãe alguma; como aquele menino na rua com a mão estendida; se ele tivesse mãe, a mãe dele não deixaria ele ficar na chuva pedindo comida. Acho que a mãe que me deu não queria que eu virasse esse menino; e pensando nisso, começo a gostar muito mais dela.

Perguntei para a mãe que me cria porque ela me quis e ela respondeu que a natureza não lhe deu condições de carregar uma criança por nove meses na barriga; mas o papai do céu é tão bom, que inventou as crianças de transferência: crianças especiais que nascem na barriga de outras mães que não pediram para ter filhos só para serem entregues para as mães que vão criar esses filhos como se fossem os filhos que elas haviam pedido.

Acho que é algo assim, só sei que sou uma criança diferente das outras, pois tenho duas mães. Na verdade, acho que eu tenho uma terceira mãe, mais essa não conta, pois ela é mãe de todo mundo.

******

Notas do autor: cerca de 1000 crianças são adotadas por ano no Brasil, quase metade por pais estrangeiros, vindos de uma cultura onde a adoção está livre dos preconceitos que ainda vigoram no Brasil. Esse número poderia ser maior no Brasil, se a adoção ainda não fosse cercada por mitos e todo tipo de preconceito. Para começar, a mãe que entrega o seu filho para adoção não é uma vilã. Na maioria das vezes, realmente o principal vilão é a falta de recursos para sustentar essas crianças, outras vezes, é a própria condição psicológica dessa mulher.

Pôr da Lua


Rubem Alves

Hoje estou com uma tristeza mansa e bonita. Acabo de contemplar um pôr-da-lua...

Ah! Você nunca viu ninguém falar sobre "pôr-da-lua"? Nem eu. Os poetas falam muito sobre o pôr-do-soL "Mas eu fico triste como um pôr-do-sol", escreveu Alberto Caeiro. E Wordsworth, nos seus versos famosos: «As nuvens que se juntam ao redor do sol que se põe/ ganham suas cores solenes/ de olhos que têm atentamente/ montado guarda sobre a mortalidade humana". E Browning: "Quando nos sentimos mais seguros, então acontece algo: um pôr-do-soL E outra vez estamos perdidos». E Bachelar: A vela que se apaga é um sol que morre. A vela morre mesmo mais suavemente que o astro celeste"".

Os pores-do-sol nos comovem porque somos seres diurnos. O pôr-do-sol é o fim do dia. Metáfora do fim da vida. Daí a sua tristeza. E se fôssemos seres noturnos, aves para as quais o pôr-do-sol não é o fim, mas o inicio início da noite? Então o sol poente anunciaria a madrugada da noite, o nascer do viver.

Põe-se o sol; nasce a lua. Com a lua nascente, para os seres noturnos, começa o tempo da vida, o tempo do amor. O cri-cri dos grilos, o coaxar dos sapos, o pio das corujas, o piscar dos vaga-lumes e o vôo frenético das mariposas. Pulsações de uma vida que desperta quando a noite cai e a lua nasce. Então, para os seres noturnos, um pôr-da-lua deve ter a mesma beleza triste que tem um pôr-do-sol para os seres diurnos.

Entre nós, humanos, não haverá seres noturnos? Indo um pouco mais fundo: não haverá em todos nós um ser noturno que aparece quando o ser diurno vai dormir? O sol desperta em nós o ser que pensa, age e trabalha. A rua desperta o ser que sonha, contempla e ama. Fala a Cecília sobre a lua que envolve os noivos abraçados. Ah! Como o verso ficaria ridículo se, em vez de lua, ela dissesse sol! A luz da lua desperta em nós o ser tranqüilo. Parodiando Bachelard: «Quer ficar tranqüilo? Contemple a lua que faz mansamente o seu trabalho de luz". Há recantos da alma que só acordam sob a luz branca e fria da lua. Ouça os "Noturnos", de Chopin, e sua nostálgica beleza. Como o seu nome diz, foi no silêncio da noite que Chopin os ouviu. E o "Clair de Lune", de Debussy?

A psicanálise é um ser noturno. Ela só acorda quando o sol se põe e a noite desce. Ela só vê bem na escuridão. A luz do sol a ofusca. Por isso, durante o dia, ela fica em silêncio, deixando que outros falem. Descendo a noite, entretanto, os homens se põem a sonhar e a amar. É ai, em meio ao sonhar e ao amar, que a psicanálise acorda e se põe a cantar o seu canto manso de coruja de Minerva. Brilham luzes suaves na noite escura do inconsciente: estrelas, vaga-lumes, meteoros e luas, muitas luas... Quando essas luzes brilham, acordam os artistas, os poetas, os místicos e os intérpretes de sonhos. Estou triste porque contemplei um pôr-da-lua: Judith Andreucci era uma lua no mundo da psicanálise. Ela mergulhou no horizonte. Não mais veremos o seu brilho suave. Quem era ela?

Era uma maga de voz mansa e rosto tranqüilo. Se estranham que eu a chame de maga, digo que foi o próprio Freud que reconheceu o parentesco entre a magia e a psicanálise (como Guimarães Rosa viu o parentesco entre a magia e a poesia. A psicanálise é um exercício de poesia. Não admira que Freud tenha encontrado iluminação para a sua arte não na ciência, mas na literatura. Somos literatura.
Cada pessoa é um poema encarnado. Aprendemos psicanálise lendo-nos ruminantemente. Somos textos da literatura e da poesia do corpo. A nossa infelicidade —neurose, se quiserem— se deve ao fato de que nos esquecemos do poema que está em nós inscrito.

O psicanalista é o intérprete do poema estrangulado. Intérprete não no seu sentido comum, de alguém que diz em linguagem diurna o que o corpo diz em linguagem noturna. Essa é interpretação, necessária quando se trata de esclarecer obscuridades diurnas, de inspiração cartesiana, filosófica. Mas há um outro sentido para a palavra "interpretação", que nos vem da música. O pianista lê a partitura silenciosa, deixa-se ser possuído por ela e, possuído, ele a "interpreta" ao piano: realiza-a como música, tornando sensível a beleza.

Pois nós somos partituras que nós mesmos não sabemos interpretar. O ofício do psicanalista é o oficio do artista: ele lê a partitura misteriosa que nós mesmos não entendemos e interpreta-a para que, ouvindo a nossa própria beleza, sejamos por ela libertados.

Judith Andreucci era psicanalista. Era uma intérprete, no sentido musical. Lembro-me bem da sessão em que conversamos sobre um sonho que tive: eu tocava o prelúdio 22, do primeiro volume do "Cravo Bem Temperado". Mas o tocava de uma forma estranha, com as mãos cruzadas, enquanto dizia: "Esse prelúdio é muito organístico".

A psicanálise (como a religião) tem uma vertente, a meu ver, sinistra, identificada por Bachelard de forma humorística: "O psicanalista é alguém que, diante de uma flor, logo pergunta: `Mas o estrume, onde está?"'. A doutora Juju — era assim que a chamávamos na intimidade— procedia ao inverso. Vendo estrume,perguntava: "E a flor, onde está?". Ela se permitia ser levada pelo humor e pela beleza. Ela se deleitava com a minha música. Lembro-me que, relatando-lhe as coisas incríveis que aconteciam no sobradão colonial do meu avô, onde passei boa parte da minha vida, ela dizia com espanto e deslumbramento:

«Mas doutor, isso é mais fascinante que `Cem Anos de Solidão"'. Foi ela que me encorajou a explorar o inconsciente belo e equilibrado que é o nosso destino.

No seu consultório, havia uma gravura que me impressionou e da qual não me esqueço. Era um enorme bloco de gelo, transparente, um iceberg flutuando no mar e, dentro dele, uma figura humana congelada. Haverá metáfora mais forte para a condição humana?

A lua se pôs. Mas a sua luz, onde tocou, ficou...
__________________________

Rubem Alves - psicanalista, escritor e professor emérito da Unicamp, é autor de "O Amor que Acende a Lua" e "Concerto para Corpo e Alma", entre outros.
www.rubemalves.com.br
Ocorreu um erro neste gadget

AmazingCounters.com
Overtons Marine Supply