sexta-feira, janeiro 31, 2014

Um rápido confronto entre conto e crônica

           A crônica é o relato de um flash, de um breve momento do cotidiano de uma ou mais personagens. O que diferencia a crônica do conto é o tempo, a apresentação da personagem e o desfecho.

          No conto, as ações transcorrem num tempo maior: dias, meses, até anos, o que não se dá na crônica, que procura captar um lance curioso, um momento interessante, triste ou alegre. No conto, a personagem é analisada e/ou caracterizada, há maior densidade dramática e freqüentemente um conflito, resolvido em desfecho. Na crônica, geralmente não há desfecho, esse fica para o leitor imaginar e, depois, tirar suas conclusões. Uma das finalidades da crônica é justamente apresentar o fato, nu, seco e rápido, mas não concluí-lo. A possível tese fica a meio caminho, sugerida, insinuada, para que o leitor reflita e chegue a ela por seus próprios meios.

          Vamos supor que você surpreenda um garoto pobre tremendo de frio e olhado fixamente para um pulôver novinho na vitrina duma loja. Ora, isso dá uma excelente crônica. Você relataria o flash, a cena em si, mas não o desfecho: o menino comprou ou não o pulôver? Nada disso. Acabando de "pintar" o quadro, terminaria o texto, deixando o leitor a tarefa de refletir sobre a miséria, a fome, a má distribuição de renda, a injustiça social etc. É essa, muita vezes, a finalidade da crônica e a intenção do cronista. Seu texto não tem resolução, não temmoral como na fábula, é aberto para que cada leitor crie o final que melhor desejar. O cronista, no fundo, deseja que seu leitor seja um co-autor. A crônica, grosso modo, equivale à ilustração dum texto dissertativo, sendo um meio-termo entre narração e dissertação.

Crônica é uma narração, segundo a ordem temporal. O termo é atribuído, por exemplo, aos noticiários dos jornais, comentários literários ou cientificos, que preenchem periodicamente as páginas de um jornal. 


Crônica é o único gênero literário produzido essencialmente para ser veiculado na imprensa, seja nas páginas de uma revista, seja nas de um jornal. Quer dizer, ela é feita com uma finalidade utilitária e pré-determinada: agradar aos leitores dentro de um espaço sempre igual e com a mesma localização, criando-se assim, no transcurso dos dias ou das semanas, uma familiaridade entre o escritor e aqueles que o lêem.



Características:


A crônica é, primordialmente, um texto escrito para ser publicado no jornal. Assim o fato de ser publicada no jornal já lhe determina vida curta, pois à crônica de hoje seguem-se muitas outras nas próximas edições. Há semelhanças entre a crônica e o texto exclusivamente informativo. Assim como o repórter, o cronista se inspira nos acontecimentos diários, que constituem a base da crônica. Entretanto, há elementos que distinguem um texto do outro. Após cercar-se desses acontecimentos diários, o cronista dá-lhes um toque próprio, incluindo em seu texto elementos como ficção, fantasia e criticismo, elementos que o texto essencialmente informativo não contém. Com base nisso, pode-se dizer que a crônica situa-se entre o Jornalismo e a Literatura, e o cronista pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia-a-dia. A crônica, na maioria dos casos, é um texto curto e narrado em primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está "dialogando" com o leitor. 

quinta-feira, janeiro 30, 2014

CRÔNICA

           A crônica é um gênero híbrido que oscila entre a literatura e o jornalismo, resultado da visão pessoal, particular, subjetiva do cronista ante um fato qualquer, colhido no noticiário do jornal ou no cotidiano. É uma produção curta, apressada (geralmente o cronista escreve para o jornal alguns dias da semana, ou tem uma coluna diária), redigida numa linguagem descompromissada, coloquial, muito próxima do leitor. Quase sempre explora a humor; mas às vezes diz coisas sérias por meio de uma aparente conversa – fiada. Noutras, despretensiosamente faz poesia da coisa mais banal e insignificante.

          Registrando o circunstancial do nosso cotidiano mais simples, acrescentando, aqui e ali, fortes doses de humor, sensibilidade, ironia, crítica e poesia, o cronista, com graça e leveza, proporciona ao leitor uma visão mais abrangente que vai muito além do fato; mostra –lhe, de outros ângulos, o sinal de vida que diariamente deixamos escapar.

segunda-feira, janeiro 27, 2014

CRÔNICA E OVO



"A discussão sobre o que é, exatamente, crônica, é quase tão antiga quanto aquela sobre a genealogia da galinha. Se um texto é crônica, conto ou outra coisa interessa aos estudiosos de literatura, assim como se o que nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha, interessa aos zoólogos, geneticistas, historiadores e (suponho) o galo, mas não deve preocupar nem o produtor nem o consumidor. Nem a mim nem a você.

Eu me coloco na posição da galinha. Sem piadas, por favor. Duvido que a galinha tenha uma teoria sobre o ovo, ou, na hora de botá-lo, qualquer tipo de hesitação filosófica. Se tivesse, provavelmente não botaria o ovo. É da sua natureza botar ovos, ela jamais se pergunta "Meu Deus, o que eu estou fazendo?" Da mesma forma o escritor diante do papel em branco (ou, hoje em dia, da tela limpa do computador) não pode ficar se policiando para só "botar textos que se enquadrem em alguma definição técnica de "crônica”.

Há uma diferença entre o cronista e a galinha, além das óbvias (a galinha é menor e mais nervosa). Por uma questão funcional, o ovo tem sempre o mesmo formato, coincidentemente oval. O cronista também precisa respeitar certas convenções e limites, mas está livre para produzir seus ovos em qualquer formato. Nesta coleção, existem textos que são contos, outros que são paródias, outros que são puros exercícios de estilo ou simples anedotas e até alguns que se submetem ao conceito acadêmico de crônica. Ao contrário da galinha, podemos decidir se o ovo do dia será listado, fosforescente ou quadrado.

Você, que é o consumidor do ovo e do texto, só tem que saboreá-lo e decidir se é bom ou ruim, não se é crônica ou não é. Os textos estão na mesa: fritos, estrelados, quentes, mexidos... Você só precisa de um bom apetite."

Luis Fernando Veríssimo

sexta-feira, janeiro 24, 2014

TRÊS SUJEITOS

Cheia de contrastes, São Paulo fascina e assusta. Sinto uma mistura de orgulho e repulsa por viver nessa cidade tão madrasta que tão bem me acolheu. 

Já tentei fugir, mas sempre acabo voltando para os seus braços. Acabei aceitando que sou dependente de sua feiúra tão bonita; de seus bairros que se alastram como se fossem um organismo vivo; de suas ruas sujas recheadas de gente tão valente e trabalhadora; do céu poluído refletido nas janelas espelhadas de seus arranha-céus e dos sonhos cuspidos pelo olhar de seus viajantes que passam mais tempo em trânsito, indo e vindo de suas casas para o trabalho do que aproveitando o preço que pagam por morar nessa metrópole tão querida.

Por onde quer que eu vá, tento ler o olhar dessas pessoas da minha terra. Sim, São Paulo é a minha terra emprestada, o pedaço de chão que insisto em querer chamar de meu e olho para os tantos desconhecidos com seus rostos e sonhos tão familiares e quase posso ver imagens saindo de seus olhos e rodopiando pelo espaço pequeno que os separam do outro, no ônibus ou no metrô. Quase posso ver os sonhos saltando do olhar do migrante, do estrangeiro, da garota que carrega seus livros de encontro ao colo, do executivo com pressa de se trancar no escritório.

Por onde quer que eu vá, procuro esconder o medo que sinto com a aproximação brusca de um desconhecido; do moleque que me pede uns trocados ou do moto-boy que bate no vidro do carro me avisando da porta que esqueci de fechar.

Às vezes acho que esse medo é exagerado, às vezes acho que amo odiar a minha cidade; às vezes me pego a descrevendo como se fosse Shangri-lá, outras vezes, sem medo, caminho distraído, sentindo-me como se estivesse andando nas ruas de Santa Rita do Passa Quatro e passam dois sujeitos suspeitos ao meu lado, sou preterido, pois eles avançam sobre outro sujeito à minha frente, sujeito carregando sacolas e um celular no ouvido. Tudo acontece muito rápido: a abordagem, a reação, o tiro, o grito, dois sujeitos correndo e um terceiro no chão...


Essa São Paulo de contrastes me fascina, mas infelizmente assusta mais ainda.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

O CURUPIRA E O CANTO DO MENINO


O que fazia o menino quando o caçador o encontrou, senhor? Ele cantava, senhor, cantava!

O menino cantava, como se não estivesse perdido na mata por 12 dias, senhor. A família já tinha desistido, perdido a esperança. A mãe chorava noite e dia; mas depois se conformou. Ela sabia que aquilo era obra do Curupira, senhor. O Curupira, esse ser medonho dos pés tortos, vive atraindo gente pra mata e essa gente nunca volta. Como que pode? A família chorava e o menino cantava.

Ele só tinha 3 anos, senhor, moleque assim magrinho que até gavião pode pegar. Num momento ele estava brincando, no outro sumiu, senhor. Quando a mãe sentiu falta do menino, ele já devia estar dentro da mata. Essa mata, senhor, homem nenhum sobrevive muito tempo; imagine um menino por 12 dias vivendo entre onças, porcos-do-mato e cobras. Será que o Curupira se arrependeu quando ouviu o menino cantando?

O menino enfeitiçou o Curupira, senhor. Só assim, dá para explicar como esse menino ficou 12 dias na selva. O moleque falou que alguém lhe deu fruta e água. O médico disse que foi delírio, mas a gente que mora por aqui sabe de umas coisas – tem gente na floresta que não é desse mundo, senhor. Tenho até medo de falar nessas coisas, mas o menino foi achado e quando o caçador o viu, ele estava cantando. Se não fosse pelo canto, talvez ele não tivesse sido encontrado, nem sido poupado pelo Curupira.

Será que o Curupira foi um menino perdido que não sabia cantar, senhor?


Notas do autor: Conto baseado no artigo abaixo:
* Menino perdido há 12 dias é achado por caçador no AM
Caçador que encontrou o garoto contou que ele cantava uma música de ninar debaixo de uma árvore...
Saiba mais no site:

** O Curupira é uma figura do folclore brasileiro. Ele é uma entidade das matas, um anão de cabelos compridos e vermelhos, cuja característica principal são os pés virados para trás. Este defeito lhe é especialmente útil para uma de suas maldades prediletas: fazer pessoas perdidas na mata seguir-lhe as pegadas que, afinal, não levam a lugar nenhum.

Saiba mais sobre o Curupira no site abaixo: 

terça-feira, janeiro 21, 2014

Segunda Vez



Tamiris ficou grávida pela segunda vez. 

“Na primeira foi descuido, agora foi o quê?”, cochicham na rua que ela mora. A mãe está inconformada – “A minha menina só tem 18 anos” – chora pelos quatro cantos. Lamentando pela menina que mal acabou o 2º grau e trocou o cursinho universitário pelo supletivo maternal.

Tamiris chorou dia e noite, noite e dia; o pequeno Gabriel de dois anos, não entendia porque a mãe estava tão triste e triste ficava. 

Todo mundo apontava o dedo, toda a família reclamava, comentava e julgava.

Esses dias o celular tocou, Tamiris pensou duas vezes antes de atender, tudo que menos precisava era outro amigo chorão, outro parente discriminando; mas era a sua irmã que morava além do mar:

“Oi maninha – disse a irmã – liguei para te parabenizar e dizer que você pode contar comigo para o que você precisar.”

Os parentes se revoltaram – “Não é hora de parabéns, é hora de enfiar juízo nessa menina” – diziam pelos cantos. A irmã, anos luz de discernimento e lucidez, sabia que cada um de nós tem a sua história pessoal e não precisamos de ninguém tornando ainda mais pesada a cruz que carregamos.

Tamiris está mais calma e já contou a Gabriel que em breve, ele ganhará um irmãozinho. A mãe ainda chora pelos cantos, mesmo sabendo que em um mundo onde há mais clínica de aborto do que padaria, é necessário ter muita coragem para ser mãe antes do tempo que os outros julguem ser o mais correto.

sexta-feira, janeiro 17, 2014

A LUA GRÁVIDA

Qual é a sua primeira lembrança da vida? A barba do Papai Noel caindo e você descobrindo a identidade secreta do seu pai? Sua mãe tirando do forno um bolo de chocolate cheiroso e quentinho? Crianças brincando na rua?

A minha primeira memória dessa vida é a lua grávida.

Era uma noite de verão sem nuvens. O clima quente combinava com sorvete e minha família estava passando o Domingo no Parque Píton Farias em Brasília. Foi lá que me dei conta que era gente; foi vendo a lua que despertei para a vida.

Estranho, o alcance da nossa memória. Até onde naturalmente conseguimos recordar nossas experiências? Conheço pessoas que se lembram dos tempos em que engatinhavam; outros juram de pé junto, que se lembram da época em que o mundo tinha o tamanho e o formato de um útero, e com essa onda de regressão, tem gente até lembrando que era a Carlota Joaquina ou Dom Sebastião. Eu só me lembro da lua gigante e cheia no céu. A partir desse primeiro luar, percebi que era menino; que meu pai era tão grande quanto os pinheiros do parque, que meu irmão era um pentelho e que minha mãe estava tão cheia quanto à lua. Desse momento em diante, meu mundo se tornou cronológico: ano por ano, fui começando a contar idade e experiência.

Dias depois vi a lua de novo, mas ela estava magrinha, pela metade. Corri pro meu pai e perguntei o que houve com ela. Ele olhou a lua pela janela, suspirou e respondeu:

- A lua estava grávida igualzinho à sua mãe, filho; e seu bebê virou luz!

quarta-feira, janeiro 15, 2014

A TAPIOCA


Hoje à tarde, eu comi uma tapioca. Que coisa mais gostosa é o sabor e o som: ta pi o ca! O quê? Você não gosta?  Chamem o capitão, atire esse homem ao mar! Joguem essa mulher que não gosta de tapioca aos tubarões e o menino que torce o nariz, o deixe sem brincar. Onde já se viu que desrespeito! Tapioca tem gosto de Brasil, cheiro de terra, quem nunca provou de uma tapioca, não sabe o que lhe espera.

Adoro parar nessas barraquinhas e observar, a farinha e água numa bacia se misturar, enquanto a frigideira pacientemente fica a esperar. Então a artesã da tapioca vai jogando a massa e moldando-a como se fosse uma panqueca. Tudo é muito rápido, massa vira tapioca, como se tivesse pressa, de receber o recheio de leite condensado, goiabada, doce de coco, chocolate, manteiga ou nata. Doce ou salgada, a tapioca chega à boca como se fosse um “beiju”. Que goma mais linda, que refeição dos deuses. Comer tapioca é tão mágico quanto um Déjà vu.

Sempre como tapioca como se fosse a minha ultima refeição. Como um detento a um passo da sua execução, saboreio a tapioca, pedaço por pedaço, com apreciação. Comer tapioca é pura meditação: tapioca dissolvendo na boca, consciência em expansão; eu sou cada pedaço, sou o próprio sabor, cada sensação eu caço, cada mordida, uma explosão, uma cor. Eu amo tapioca como quem ama o próprio amor.

Quando chego ao fim, surge o desafio: a tentação de pedir um pedaço a mais, mas resisto, calo a gula e vou me embora sempre querendo mais; e como Deus é tão bom, sei que sempre haverá essas barraquinhas de tapioca por onde eu for nesse Brasil do meu coração. Agora me diga a verdade: deu vontade de comer ou não?

terça-feira, janeiro 14, 2014

A MULTIPLICAÇÃO DAS LETRAS


Escrevo como quem quer compartilhar. Não quero tudo para mim, quero dividir, te dar uma fatia, multiplicar.

Escrever é um milagre, mas nada de santo tenho. Se faço multiplicar as letras é porque jorra de dentro. Como dizia o poeta Bandeira, eu não as possuo, elas que possuem a mim. Não as escrevo como eu quero, elas são assim e por serem assim, jorram de mim com o vento: tudo vira rima de letra, o menino, o espaço e o tempo.

Se me tirarem as mãos, corro risco de ainda assim expressá-las pelo falar; se me tirarem a boca, elas saltarão pelo olhar e se me tirarem os olhos, vocês verão, como as letras sabem dançar.

E elas dançam e dançam no papel, na tela. Entram por debaixo das portas, pelas frestas das janelas. Contudo, elas não te invadem, apenas se oferecem. Ler é sempre um convite, nunca algo que se deve. Por isso, cabe a você aceitar ou não, o que se serve; e ainda assim, ao comer do pão e beber do vinho, filtre, use o discernimento, sempre que possível.

Um multiplicador de letras não quer de nada te convencer. Ele apenas escreve sobre como vê o mundo e oferece a você e se o convite for aceito de coração, aliança eterna, quando visões de mundo unem-se no mais belo espetáculo da terra: a união de pensamentos entre escritor e leitor por meio da interpretação.

segunda-feira, janeiro 13, 2014

5 SEGUNDOS


Preciso de 5 minutos para lhe falar. Sei que tem pressa, mas você precisa me escutar. Há tanta coisa a dizer e agora só me resta 4 , por isso confia em mim, larga as malas, vem aqui no quarto.

Sei que muita pouca coisa se faz em 3 minutos, vou tentar ser breve, pois agora só me resta 2  e meio para pedir perdão e 2 e 15 para explicar a razão pela qual ferimos sempre quem mais amamos. 2 minutos escorrem por nossas mãos, por isso, mais uma vez te pergunto: você ainda me ama?

Não! Não precisa responder, nem preciso de 1 minuto para perceber que não posso amar por mim e por você; e você precisa ir e eu esperar para ver, se a liberdade é a maior prova de amor que um casal deve receber.

30 segundos de abraço nesse tão curto se despedir, 15 segundos para olhar nos seus olhos e 10 segundos para te ver sorrir e só me resta agora 5 segundos para te dizer uma última vez: EU AMO VOCÊ!

sexta-feira, janeiro 10, 2014

MAR DE GENTE


Fecho os olhos, começa o mundo. Cores vivas, horas, minutos e segundos. O todo no tudo. O surreal, o absurdo – o que era aquilo? Se foi, voltou para o fundo.

Que cores são essas? Será Monet ou Tarsila? Não é a minha imaginação, é pura aquarela, a cor da vida.

É a luz da quase-morte, vejo Chaplin, ouço Bethânia e são as luzes da ribalta. O que vêm depois das luzes – valha-me sorte! As verdades da alma.



MAR DE GENTE

O mar segue cheio de fúria; as ondas avançam e açoitam a terra. Sentado na praia de Swadhistana, olho a água em guerra e finalmente aceito mudar. A mudança vem a duras penas, quem eu pensava que era quer se revoltar, faz convites sedutores e ameaças plenas, sabe que já não consegue me dominar.

Quando fui dado luz, virgem de mundo nasci; com a cultura e a crença de um povo me revesti. Aprendi a andar, como caminha os outros, aprendi a ver somente o aparente, nunca a alma, só o rosto. Recebi de presente, um pacote da língua local, fui instruído a virar anjo, mesmo mal sabendo ser um animal. Pegadas segui, caminhos percorri, mestres descobri e quando já me achava, pleno de mim, a verdade veio a tona: eu não era assim!

Cortei os cabelos, rasguei as roupas; lavei-me das certezas e da fé fiz sopa; digeri tudo o que aprendi a ser e o que ficou foi o que sempre havia, mesmo antes de nascer: muita vontade de aprender.

Já não há mais fúria, acabou essa guerra; a paz avança astuta nessa luta eterna. Já não luto contra, respeito a morada do eu; prazer vira criatividade, essa casa já não me afronta, faz parte de mim, um presente meu.

Finalmente sei quem sou, apenas mais uma gota d’ água velha. Ancião do mundo; do mar, apenas uma perna, e nesse oceano eu entro e saio, e o que vejo: teoria e prática. Opostos que só conseguimos experimentar verdadeiramente, quando caímos do céu e brincamos de gente.

quinta-feira, janeiro 09, 2014

ATENÇÃO


Ele vai se matar!

Já decidiu. Suicidar: não havia verbo mais reflexivo e maldito. Era a única opção. Passara toda uma vida, cabisbaixo e deprimido. Acabar com a própria vida era o mais correto a fazer – só a morte o libertaria da dor.

Dor? – disse certa vez um amigo, quando ele se lamentou – Você é saudável, caminha direito, não tem nada no peito que te impeça de respirar. Que dor é essa que tanto te aflige?

Ele nem tentou explicar. Dor da alma não se explica com palavras, pois tudo lhe doía, conversar com as pessoas, trabalhar, pagar suas dividas, acordar e continuar.

Não iria fazer a menor falta. Ninguém o notava mesmo. Sabia que não passava de um objeto para as pessoas. Ninguém realmente lhe entendia ou o tratava bem. Para o mundo, ele não era gente, era sempre isso ou aquilo, nunca amigo, nunca parente. Ele era sempre o objeto descartável, parte da estante, ausência de reflexo no espelho, pedra no meio, um eterno retirante, migrando para lugar nenhum.

Só havia uma coisa a fazer: tornar o seu último ato, algo memorável. Jogaria seu corpo na via do metrô. Era preciso que a sua morte fosse um evento, uma ocasião em que todos finalmente o notassem e o respeitassem. As pessoas lhe dariam atenção e finalmente ele seria tratado como alguém e não como algo.

Era 18:30 da segunda-feira no metrô Sé, quando ele se atirou na linha do trem. Sua morte chocou a todos e repercutiu até em quem não estava presente.

 São Paulo parou na hora do rush. Um silêncio se fez ouvir, enquanto todos os auto falantes de todos os trens parados em diversas estações noticiaram:

“ Atenção!  Paramos momentaneamente devido a necessidade de retirar objetos da via. Voltaremos a operação assim que for possível.”

quarta-feira, janeiro 08, 2014

CONTENDA


Sou o último dos meus. Não haverá mais deles. Olho por olho, bala por bala, sangue por sangue. Nem sei como fui parar ali, mas estou eu, aqui, com a espingarda na mão, pontaria na testa do maldito que matou meu pai, meu irmão.

Tudo começou com João. Briga de bar por causa de rabo de saia, bebida demais, juízo de menos. Um tiro no peito o fez defunto; outro tiro do meu pai começou a contenda.

Nunca fui de dar tiros, sempre carreguei livros embaixo de braço. Se peguei em arma de fogo, foi para espantar onça e cobra que ameaçava meu povo, tentando roubar os anjinhos. Se estou armado é porque não tenho escolha: ou eu mato ou morro.

Por isso troquei as letras pela pólvora quando Fonseca matou meu pai. Meu irmão caçula, Sebastião, matou Messinho, pois errou Fonseca que não errou meu irmão. Bastião morto com um tiro covarde pelas costas; eu escapei por pouco, Fonseca quis matar dois coelhos com uma só bala, sabia que eu era o último e não queria sofrer emboscada. 

Na minha terra, só ficou viúva chorando, minha mulher já veste preto. Eu sou um morto vivo, um moribundo, por isso, Fonseca precisa morrer, preciso recuperar meu mundo, meu eixo.

Enfim, crio coragem e atiro, enfio dois tiros no maldito, mas ele não cai. Terei errado o tiro? Atiro uma vez mais e ele não morre, virou invencível. Acerto mais um nas suas costas, dou um tiro bem no seu olho do ouvido e o desgraçado continua vivo. Será o Benedito? Será que minhas balas são de fumaça? Por que não consigo transformar o bandido em finado?

O que está ocorrendo?

Contenda!

Sou o último dos meus. Não haverá mais deles. Olho por olho, bala por bala, sangue por sangue. Nem sei como fui parar ali...

terça-feira, janeiro 07, 2014

Côncavo e Convexo

Duas senhoras conversam no ônibus. Uma discute sobre os últimos acontecimentos envolvendo Nelly Gonçalves, 68 anos, a senhora que falou sobre seu primeiro orgasmo em depoimento exibido após a novela "Páginas da Vida", a outra apenas escuta:

- Que a Tv é uma vergonha, todo mundo sabe, mas essa senhora de 68 anos, representa tudo de podre que há. Onde já se viu, nessa idade, falar sobre sexo.
- ...
- Amélia, minha amiga, quem fala dessas sujeiradas assim são os jovens. Senhoras devem se dar ao respeito. O que dirão nossos filhos? O que dirão nossos netos?
- É mesmo...
- Falar sobre isso não é pra gente de respeito. Essas coisas a gente nem pode pensar em público; agora me vem essa senhora contando em detalhes como foi o seu primeiro orgasmo na novela em horário nobre... isso é um ultraje! Onde está a censura? Tempo bom era na epóca da ditadura – os militares não deixariam isso passar. Onde está o Associação Cristã Feminina? Como permitiram que essa senhora falasse sobre orgasmo? Ainda sozinha?
- ...
- Que falta de vergonha. Essa senhora com idade para ser avó, deveria estar falando sobre seus netinhos, filhos, familia; e não descrevendo em detalhes como foi o seu primeiro orgas...nem consigo falar isso, Amélia, e ... ela usou a palavra “molhada”, sabia? Pode uma coisa dessas?
- Hum...
- Perder o emprego foi muito pouco, em outras época, ela seria queimada por falar algo assim. Tá vendo aqui no jornal? Ela esta reclamando que esta sendo discriminada, isso ainda é pouco! Onde vamos parar? E a moral e os bons costumes? Onde estão os valores da familia? Sim, ela merece ser alvo de chacota, merece cada xingo. Como ela ousou lembrar a todos nós, que gente velha também goza?
- Quer saber de uma coisa, Dorinda? – responde finalmente a outra senhora – Eu fiquei foi com uma tremenda inveja, ela descreveu mesmo como conseguiu?

segunda-feira, janeiro 06, 2014

Canção de Quem Não Voltará


Na minha terra tem palmeiras
Mas onde foi parar o Sabiá?
A laranjeira já não tem mais fruta
Alguém roubou o pomar

Tenho saudade do país do futuro
Que nunca chegou para me presentear
Nem em memórias da minha infância
Há coisa boa que valha a pena lembrar

Já fui exilado por conta própria
Pensei que os pássarinhos que voavam por lá
Eram diferentes dos que voam por cá

Talvez seja culpa de São Paulo
Que nunca chegou a me encantar
Afinal, não há mesmo diferença
Entre a manga de lá e o cranberry de cá

Mas não há árvore que resista
Ao preço do plantar
Nem pássarinho que escape
Das arapucas na mata

Voltar????
Lá???
Ah tá!!!!
Nem pensar!!!

Não vou voltar!!!

Não quero mais ouvir o Sabiá
Nem sentar sob a sombra da Palmeira
Nem da Laranjeira quero os gomos provar

Não vou voltar
Não fiz tantos planos
Para apenas voltar
Não vou me deixar enganar

Qualquer lugar é meu lar
Cante o Pássaro Preto ou o Sabiá
Qualquer lugar é minha casa
Pois para ouvir a canção, tanto faz estar lá como cá

quinta-feira, janeiro 02, 2014

Feliz 2014

Alegria, alegria é o que desejamos para todos em 2014, esses são os votos do Krishna, da Jureminha, do papai Frank e da mamãe Auricelia Lima, direto dos corações de todos nós quatro.

Ano Novo

Viver é caminhar numa Estrada Viva que se altera quanto mais acordado a gente fica. 

Então, percebemos que tudo estava à palma da mão; a verdade do universo não passava de um despertar do coração para que pudéssemos perceber que o tempo do homem se passa na mente, mas o tempo da alma se passa na eternidade da experiência que a todos transforma e a tudo modifica. 

Dai, todo o conhecimento escorre pelas mãos e o que fica é o bem que fazemos aos nossos irmãos e a sabedoria é finalmente entender que a verdadeira religião se chama família.
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