Sexta-feira, Novembro 20, 2009

100 % Negro

O teste foi feito por pura brincadeira. Nem por um momento, ele acreditava naquele papo de genética que estava estampado em todos os jornais e revistas sobre negros e brancos; mas ele precisava ver pra crer e foi fazer um teste de DNA, maldita foi a hora que tomou essa decisão. Ele era "100% negro" e gritava isso com orgulho em suas músicas e na camiseta que usava em seus shows. Era afro-brasileiro, favelado, pobre, que fugira das drogas em nome da arte. Gostava de contar nos shows como escolhera o caminho da música enquanto muitos "outros manos" acabaram mortos sob a bandeira do tráfico. Tinha orgulho da sua origem, da cor da sua pele, mas aquele exame poderia colocar tudo a perder.

85% de descendência branca? Como assim? Tudo bem que sua mãe era mulata e seu avô que só conhecia de foto era um pouquinho mais claro; mas e os genes do seu pai, aquele "negão de 02 metros"? Não! Deveria ser algum engano. Alguma conspiração da elite branca para convencer o mundo sobre a supremacia européia. Deveria ser engano, como 85% de descendência branca poderia ter resultado naquela pele 100% negra que ele tinha. Não! Deveria ter alguma explicação.

Se isso fosse verdade, toda essa idéia de "raça" iria por água abaixo. Todas as idéias que ele defendia com unhas e dentes em suas músicas, passariam a soar hipocritamente falsas. Todo o conceito de raça branca, negra ou amarela seria a prova final da ignorância humana em relação ao mundo em que estão inseridos. Se isso fosse verdade, não havia mesmo diferença entre branco e preto e absolutamente todos seriam iguais.

Não poderia ser! Ele precisava rasgar o exame, precisava fingir que aquilo nunca acontecera. Aquele teste de DNA nunca ocorrera de fato. Ele continuaria 100% preto; continuaria cantando a história das comunidades pobres e negras; ele continuaria brigando pelos direitos da minoria negra que sempre foi oprimida pela sociedade. Afinal, as coisas devem permanecer como são, tudo no devido lugar; onde já se viu preto branco ou branco preto? Seu filho que estava pra nascer seria a prova da sua negritude; um atestado da sua herança africana...mas e se... não!
Era melhor nem pensar sobre isso. Seu filho nasceria pretinho que nem ele e ponto final.


Foto: Gêmeos ingleses nascidos em 2006. Layton é branco e loiro e Kaydon é moreno. A mãe, Kerry Richardson, 27 anos, é descendente de negros nigerianos e ingleses brancos

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

SHOW - Chandra Lacombe acompanha GUEM, A Lenda da Percussão Mundial

O percussionista Guem, radicado na França, é um dos maiores músicos africanos vivos. Conhecido por ser um melodista da percussão africana, ele encanta por onde passa, principalmente nos grandes festivais da Europa.

Por aqui Guem ficou conhecido quando, após uma temporada de 6 meses no Brasil, gravou o disco “O Universo Ritmico de Guem”. O disco é uma referência mundial da percussão, e antes de ser relançado em CD, o vinil era considerado "artigo de colecionador".

Nascido na Argélia, descendente de nigerianos, Guem toca praticamente todos os instrumentos de percussão. Extremamente musical, o mestre se apodera muito mais das possibilidades sonoras harmônicas dos instrumentos do que das possibilidades rítmicas óbvias que os tambores oferecem.

Nessa apresentação exclusiva que ocorrerá no dia 28 de novembro em São Paulo, ele se apresentará com Chandra Lacombe; músico e cantor brasiliense; criador de técnica inédita para a kalimba - instrumento de percussão melódica de origem africana, em que toca mantras, músicas new age e sons harmonizantes.

Em artigo ao Jornal Agenda 1, Chandra explicou: "O objetivo do meu trabalho é sensibilizar e tentar atingir a área do sentimento e da percepção dos sons da música, do que meramente o escutar que envolve toda uma relação do intelecto".

Em CD, gravou com o grupo Udiyana Bandha, com o músico Carioca e com Eduardo Agni, com quem integra o Duo Dharma; além de dezenas de trabalhos solos, como o mais recente "Oráculo Musical".



Não perca esse show imperdível que ocorrerá ás 20:00 do dia 28 de novembro na Casa do Dharma: Rua Motuca, 35 - (11) 2539-6175.

Fontes:
http://conteudoexplicito.blogspot.com
Templo Beija-Flor de Lótus
http://www.chandralacombe.com

MEDITAÇÃO EM FOTOGRAFIA

SCINTILLATION
Fonte: www.vimeo.com
This is an experimental film made up of over 35,000 photographs. It combines an innovative mix of stop motion and live projection mapping techniques. Directed by chassaing.xavier@gmail.com Music by http://www.myspace.com/fedaden

SCINTILLATION from Xavier Chassaing on Vimeo.

O que é Filosofia?

Por Dora Incontri

O que é filosofia?
Perguntam todos, perplexos.
Será um monte de livros,
Com discursos desconexos?

Será um bicho difícil,
que pode nos devorar,
se não formos muito espertos,
para a resposta encontrar?

Na filosofia mesmo,
nada deve ser complexo,
podemos fazê-la fácil,
Numa lógica com nexo.

Filosofia é uma forma
de perguntar as questões,
que mais afligem o homem,
que mais nos dão comichões.

É perguntar sobre a vida
querer saber sobre a morte,
é um olhar para o universo
é um indagar sobre a sorte...

Filosofia faz parte
da vida de cada dia
porque pergunta os porquês
que a nossa razão afia.

Filósofo é qualquer um
que pára à beira da estrada
para pensar sobre as coisas
e ver que não sabe nada.

Filósofo deve ser
quem não quiser vegetar,
passando a vida sem rumo
sem um SENTIDO encontrar.

Portanto, filosofemos
buscando sabedoria
pois num bom filosofar,
teremos mais harmonia.


Notas: Texto apresentado na disciplina de "Prática de Ensino em Filosofia" do Curso de Filosofia da UniFAI.
Na ocasião deste texto, Dora Incontri era doutoranda em filosofia pela USP.


* Postado por Lázaro Freire na Voadores

Palavra Maldita é Melhor Calada

Uma palavra voa ao vento. De onde ela escapou? - Pergunto ao tempo - Quem a escreveu? Quem a falou? O que será que ela carrega em suas asas?

O Tempo, Mestre Sábio, nada diz, apenas observa, e eu entendo, e sigo o exemplo do Tempo e observo essa palavra carregando intenções que não entram na janela da minha alma. De longe, ela parecia ter asas; de perto, ela tem jeito de pedra na cara. Quem quer que a tenha soltado, não se deu conta que a reverteu com sombras, mágoas e preconceitos. Pode até ter dito com boa intenção, mas sabemos do que o inferno está cheio.

Pena para que te uso? Palavra para que te quero? Nesse mundo em que tanta gente trabalha para a Banda do Escuro, quem doma a palavra deveria lutar pela Banda do Claro. Escrever, falar em público é um poder; e como todo poder, pode corromper; podemos nos enganar e erroneamente entender que estamos no caminho das palavras benditas, por isso, quando escrevo, penso bem se não há nos meus escritos, alguma frase maldita; alguma frase que provoque em quem me lê, mais preconceitos e maldades; pois nisso, o país já possui muitos mensageiros, ainda mais numa cultura onde ninguém aprecia uma leitura.

Esses dias, fiz um pedido impossível e pedi a Deus que a grande maioria dos brasileiros aprendessem a gostar de ler; pois lendo, eles poderiam interpretar o mundo em que fazem parte; e criar uma visão individual de mundo baseada em sua realidade; mas esqueci de pedir algo mais plausível: clareza nas mãos de quem produz escritos!

Clareza não é apenas uma palavra bem formulada, frase estrategicamente bem feita; qualquer fanático pode escrever um texto com começo, meio e fim, ou com contexto e coesão. Clareza é saber que o que se escreve ou o que se fala, pode atingir milhares de pessoas, ainda mais se for texto escrito ou áudio dito na internet. Clareza é saber o poder que a sua palavra pode acumular e se ela começar a provocar um tsunami de reações negativas, a intenção de esclarecer não foi atendida, e passamos a fazer parte do time que solta palavras ao ar e diz que nada daquilo era o pretendido.

Por isso, sigo os conselhos de um escritor amigo, e sempre penso muito bem antes de postar um texto, de compartilhar uma idéia, uma crença ou um palpite. Justamente por eu não saber para onde vai uma crônica ou qual o caminho de uma poesia, é que a responsabilidade aumenta ainda mais na minha escrita.

E o destino das minhas letras?
Sim, quero o meu leitor sorrindo. Óbvio que desejo que ele se esclareça, mas se a palavra que soltei ao vento não alcançar o seu destino, peço ao Tempo, que ao menos, o que escrevi não aumente as tormentas dos preconceitos.

****//\\****

CORREIO DA MÁ NOTÍCIA


Ó Palavra encantada,
Que de tão bonita falada,
És mais linda ainda escrita;
Explica:
Quem criou o Correio da Má Notícia?

Quem foi que te alterou
E fez de ti instrumento de temor?

Eu quero saber
Para aprender
A não fazer
A mesma coisa
Nas crônicas da minha vida;

Eu não gosto de te ver
Palavra escrita
Sendo usada
Como arma da mágoa
Como pedra de discórdia

Por isso me diz agora
Quem te atirou
Feito pedra na minha janela
Ao invés de te dar asas?

Conta:
Quem não te enxerga sagrada?
Quem não sabe
Que tu és bendita;
Encantada quando falada
E interpretativa quando escrita?

2012: O Mistério Revelado

Terça-feira, Novembro 17, 2009

A BUSCA


Procurar fora,
Passar a vida inteira nessa busca
É um tiro no pé,
Um grilo na cuca;
Que poderia ter sido evitado
Se você tivesse ouvido
A mais básica das perguntas:
"Conhece a ti mesmo?"


A BUSCA II

Ainda ontem
Eu era apenas
Um sopro de vida;
Sem forma,
Sem expressão,
Sem poesia;

Eu apenas era
E isso se bastava;
Quis a Força Maior
Que eu virasse forma;
Que eu tivesse uma expressão;
Que eu me tornasse poesia;
E é estranho;
Pois isso em si já não me basta;
Junto com a carne
Veio uma vontade;
De me tornar algo mais;
Talvez quem eu já era
Antes de ser sopro de vida
Na Terra,
Na carne.

E querendo tornar a ser;
Desconfio
Que descobri;
Que aprender é lembrar
Que eu sou
Não apenas um sopro de vida
Mas o próprio sopro.


A BUSCA III

Nessa dimensão de expiação;
O mistério nunca será revelado.
Não por ser oculto,
Não por ser proibido,
Mas porque não temos sentidos
Para desvendar o velado;
Compreender o sentido
Da nossa existência
Na carne.

Seria como tentar explicar para uma formiga
Que ela faz parte de um universo;
Por isso de nada vale o esforço da ciência
Em transformar o Homem em apenas isso;
Pois
Dentro da gente;
Há a semente
De quem somos;
Esperando pela água do despertar,
Para nos lembrar;
Que antes de sermos
Feitos de corpo;
Éramos feitos de algo que não sei contar,
Mas o que posso dizer
É que quem já morreu sabe disso;
Pena que eles não podem voltar para
contar!

UM EXU NA PORTA DO SESC

Essa semana, postei uma crônica sobre um encontro inusitado com uma entidade espiritual, onde contei que o nome dele era "Exu da Cara Preta". A verdade é que apesar de não ser umbandista ou ter qualquer laço religioso com outras quaisquer religiões afro-brasileiras, simpatizo muito com a Umbanda e mesmo depois de ter visto o melhor e o pior que poderiam fazer em seu nome; nos últimos tempos, retornei a pesquisar sobre os Orixás na Umbanda em meus estudos espiritualistas e aproximei-me cada vez mais dessa cultura linda que os negros africanos ( sim, há também negros aborígenes, negros hindus etc) nos presentearam como herança cultural e religiosa. Apesar de adorar cada um desses lindos Orixás ( Deuses africanos, cada um com um poder, seus símbolos e uma série de significados); sempre fugi um pouco do Exu, e nas últimas semanas, o Exu vem tentando se aproximar de mim.

Tirando todo o estereótipo que você pode ler nas entrelinhas da crônica " Exu da Cara Preta"; sempre evitei estudar sobre esse Orixá, talvez por preconceito, medo, receio, sei lá o que mais; enfim, fugi, fugi e acabei dentro de um ritual de exu, um dia desses, quase sem querer. E descobri muito mais do que eu gostaria de saber.

Enfim, depois de uma "abertura de olho de vergonha na cara" que a energia do Exu me proporcionou; começei a flertar mais com essa energia do mensageiro, do guardião das portas; e apesar da seriedade e das sombras em que esse Orixá trabalha; aparentemente, sinto que há algo que preciso aprender. E foi pensando nisso, que acordei hoje, pedindo ao céus, que me mandassem um sinal, pois preciso tomar uma decisão e não posso mais ficar na encruzilhada das decisões. Daí, fiquei reparando nas coisas do mundo, esperando que o mundo falasse de volta para mim e me trouxesse a mensagem que eu pedi. Esperei, esperei; até que desisti. Daí; fui almoçar no Sesc do Carmo aqui perto de casa; e para a minha surpresa e artimanha do "acaso" uma atriz negra começou a narrar uma peça de teatro bem na porta do Sesc.

- Vocês sabem quem é o Guardião dessa porta? Não sabem? Se não sabem, vou dizer: é o EXU!!!

Fui tomado de assalto, desarmado e surpreso; sentei no chão e assisti o mundo falando comigo através daquela mulher que contava a história do Exu.

- Sim, o Exu, é um Orixá, e um dia ele vagava pela rua de Oxalá, e viu o velhinho fazendo os Seres Humanos com barro, e ficou curioso, observando o velhinho modelando cada ser vivo. E o Exu aprendeu, observando, tudo sobre como era esse tal de ser humano. E ficou lá, na casa de Oxalá, por um bom tempo, até que o vehinho lhe pediu que o ajudasse, pois não queria que nada pertubasse o seu trabalho com os seres humanos e Exu, obediente, lhe atendeu e ficou para sempre guardando e protegendo os caminhos, as portas, as encruzilhadas e fez isso tão bem, que Oxalá o presenteou com a missão de despertar os Seres Vivos quando eles estiverem caminhando por atalhos desconhecidos e perigosos. Por isso, é que toda vez que você passa por uma encruzilhada, você precisa deixar um agradinho...

Respirei fundo!

A platéia encantada aplaudia o espetáculo e eu fui me despedindo da mensagem do mundo e do Exu, e eu estava sorrindo. A lição foi assimilada!


HERANÇAS NEGRAS
Histórias de Negros Brasileiros
SESC Carmo
Dia(s) 17/11, 19/11, 24/11, 26/11
Terças e quintas, das 12h às 14h.
Antigas histórias de família, relatos míticos e casos verídicos serão narradas por uma atriz caracterizada. Com Simone Debet. Hall de entrada.
Grátis

Curtas Crônicas

TUDO É DA MENTE, SEU DEMENTE

Se tudo o que eu vi
Espiritualmente
For coisa da minha mente
Uau! Einstein I am!

****//\\****

INSPIRAÇÃO

A cabeça dói, quer vomitar idéias.
A mão treme, quer escrever insights.
A pena não toca o branco, mas um pingo de tinta cai
E explode em borro na folha.
Penso em amassar o papel
E começar de novo
Mas daí
Percebo
Que a tinta da pena
Formou
A imagem que estava em meus pensamentos

A inspiração é assim
Ás vezes se faz letras;
Ás vezes se faz canção;
Ás vezes, se faz qualquer coisa
E se faz arte no pingo de tinta
Da não-ação!

****//\\****

EPIFANIA PRIVADA

Sentado no trono
Eu estava
Quando veio a inspiração
Como o meu estômago
Ainda estava
Com a feijoada
Tive que escrever com o que tinha à mão
Compreendam:
Prefiro a mão suja
Que perder a inspiração
Junto com a descarga

Imagem: http://www.rogeriosilveira.jor.br/

Crônica Destrutiva

Queria despertar a histeria coletiva;
Soltar a faísca
Que faz de um;
Milhão,
Com essa crônica.

Queria a multidão gritando
Ensadecida;
Massa comprimida;
Bomba atômica
De gente;
Feito manada humana-bicho
Marchando por um único objetivo:
A leitura desses escritos.

Queria a loucura
Do sorriso
No rosto coletivo;
Formado por todos vocês
Que leem isto;
Será que eu consigo?

Não! Não é possível!
Preciso de algo mais forte;
Quem sabe um vestido curto;
Um decote?
Que sabe a balada de um assassino
Ou uma catástrofe?

Melhor, não!
Deve haver algo errado
Com um mundo que só gira
Com a queda da Bastilha,
Com muro derrubado;
E eu, escritor em busca da sagrada arte,
Prefiro a catarse
De um leitor de coração;
Que mil de mente!
Melhor morrer autor desconhecido
Que Anônimo Inconsciente!

Meu Ideal Seria Escrever

Por Rubem Braga
Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu Deus, que história mais engraçada!". E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria --"mas essa história é mesmo muito engraçada!".

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada com o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele
riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera a minha história chegasse -- e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aqueles pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse -- "por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!" . E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano, em Dublin, a um japonês, em Chicago -- mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena
ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina".

E quando todos me perguntassem -- "mas de onde é que você tirou essa história?" -- eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: "Ontem ouvi um sujeito contar uma história...".

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.


A crônica acima foi extraída do livro "A traição das elegantes", Editora Sabiá - Rio de Janeiro, 1967, pág. 91.

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

SEGUNDA-CELTA

Para começar essa semana de uma maneira diferente, decidi renomear a segunda-feira para Segunda-Celta.

- Por quê? - pergunta o leitor.

Pela diversão em fazer isso. Quem disse que você não pode reinventar as coisas feitas? Quem disse que você não pode criar novas palavras?

Por essa razão, á partir de hoje, declaro que todas as segundas serão celtas.

Lembrarei desse povo de cultura tão rica e mágica; e farei das minhas segundas, algo menos blue, algo mais próximo do yellow dourado. Assim, vou ouvir as mais bonitas canções celtas em meu MP3; vou escrever crônicas sobre magia, alegria e arte; vou pintar a segunda com todas as cores e transformar o meu escritório num círculo de pedras; fazer a minha própria stonehenge.

- Ficou louco o cronista? - dirá o meu leitor, enquanto passo a segunda feliz da vida.

EXU DA CARA PRETA

“ Eu não te mostrarei
A minha face;
Pois gosto de você
E não quero que você
Perca o seu sono”

“ Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Pega esse menino
Que tem medo de careta”


Tem gente que enxerga anjo; eu pedi para ver o meu guardião, dei de cara com o capeta!

Por favor, não chamem o padre, nem o pastor; explico: quando o vi, ele disse que era mais feio que o demo e era por isso que eu só sentia a sua presença, pois se enxergasse o seu rosto, teria pesadelos pelo resto da minha vida.

Agradeci a gentileza; ele deu risada e continuou falando comigo; e eu me sentindo como se estivesse baixando música ilegalmente da internet – com um misto de prazer de ouvir e medo de ser pego.

- Para com essa merda de se sentir inferior aos outros – disse ele.

- É que, às vezes, eu acho que não tenho mesmo sorte na minha carreira profissional! – disse eu, tentando me explicar; e lembrando de tantos fracassos recentes em minhas tentativas de obter acesso à prosperidade brasileira.

- "Coitadinho de mim", O Caralho!!! – gritou ele, e eu levei um susto. Não estava acostumado com aqueles palavrões todos vindos de uma entidade do astral – Para com essas desculpas de merda! Você é um campeão da vida e essa terra é abençoada! Planta direito aqui, que você vai colher prosperidade e não essa babaquice recheada de reclamações e lamúrias. Trabalha, porra! Você é especialista em errar feio, vê se acerta bonito! E dê a volta por cima direito!

Definitivamente não era anjo o meu exu.

Domingo, Novembro 15, 2009

Dia de Chuva

Que coisa mais linda é dia de chuva!
No ponto de ônibus
Todo mundo se expreme
Aperta, aperta; suco de laranja
A chuva molha
Bueiro é rio corrente
Gente que pega ônibus
Não pega barco
Por isso quando passa a balsa
Todos querem entrar ao mesmo tempo
Menos quem quer sair
E a minha gente aperta, aperta
Se expreme
Suco de laranja
É guarda-chuva abrindo
Guarda-chuva fechando
Guarda-chuva voando
Guarda-chuva que nada guarda
O meu pinga
O dos outros briga
Oxi, vendo essa gente brigando
O motorista buzinando
Os pedestres se molhando
Eu me recordo:
Na Paraíba, num tem disso não!

A CHUVA É LINDA II

Tá bom! Tá bom!
A chuva vai parar, só para você não se molhar
!

Sábado, Novembro 14, 2009

Falso Despertar

Quando acordei,
Ainda lembrei do sonho que tive;
Despertei a Auri
E contei,
Ela riu;
Daí acordei
E lembrei que estava sonhando que tinha acordado;
Despertei a Auri
E contei,
Ela não riu;
Porém, mas uma vez,
Eu despertei
Lembrando do sonho que eu acordava lembrando que estava sonhando;
Não despertei a Auri,
Ela não riu,
E mais uma vez, despertei;
E lembrei
E ao invés da Auri
Estou contando para vocês;
Por favor, não riam,
Pois corro o perigo de acordar outra
vez.

NADA

Alague seu coração de esperanças,
mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado,
começe novamente...
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor,
não se perca...
Circunda-te de rosas,

ama, bebe e cala...

O mais é NADA..."

(Fernando Pessoa)

Sexta-feira, Novembro 13, 2009

Dia do Jason: A sexta-feira 13 tricolor!

Roteirista da série e ator que interpretou personagem pela 1ª vez asseguram: 'Jason é são-paulino'

O personagem Jason tem embalado o São Paulo na reta final do Brasileirão. É sexta-feira 13!

Artigo escrito por Alexandre Lozetti

O São Paulo não joga nesta sexta-feira nem comemora seu aniversário, mas a data pode muito bem ser considerada o símbolo da equipe neste Brasileiro.

É sexta-feira 13! Data em que nasceu Jason Voorhees, personagem do cinema que nunca morre. Assim como o Tricolor, que já flertou com a zona de rebaixamento e, agora, depende de si para conquistar o heptacampeonato nacional.

Depende de si e conta com uma torcida reforçada. Além dos milhares de são-paulinos, o próprio Jason e seu criador vestem branco, vermelho e preto na reta final do torneio.

O LANCENET! contou a Victor Miller, roteirista do “Sexta-feira 13” original, de 1980, e Ari Lehman, ator que, aos 14 anos, interpretou o primeiro Jason da História do cinema, sobre a febre instaurada entre a torcida do São Paulo, que incorporou o temido personagem, e até o próprio clube, criador da camisa que carrega, às costas, seu nome e o número 13.

– Nada poderia me deixar mais orgulhoso – exclamou Miller ao ver fotos de tricolores mascarados, enviadas por e-mail pela reportagem.

No filme que inicia a sequência, Jason faz sua primeira vítima. Hoje, Ari Lehman se transformou em roqueiro, mas sua vida está pautada no personagem. A banda se chama First Jason (Primeiro Jason) e, entre os sucessos, estão “Jason never dies” (Jason nunca morre) e “Jason is watching” (Jason está olhando).

Fã de futebol, Lehman garante:

– Jason torce para o São Paulo!

Agora, com a bênção do criador.
Fonte: http://msn.lancenet.com.br/sao-paulo/noticias/09-11-13/652347.stm?futebol-dia-do-jason-a-sexta-feira-13-tricolor
Imagens: http://msn.lancenet.com.br/galerias/a-trajetoria-do-jason-tricolor/

SE NANCY NÃO ACORDAR GRITANDO...

Foi numa sexta-feira 13 que fui ao cinema pela primeira vez; e para assistir "A Hora do Pesadelo". Até então, a Tela Grande era um sonho de consumo de um neguinho nordestino. A verdade é que aos 12 anos de idade eu já era um cinéfilo, mas sem um centavo no bolso, por isso acompanhava com atenção quase todos os filmes que eu conseguia assistir na televisão. Se bem que em 1986, os filmes mais novos que eu via na telinha eram dos anos 70, contudo, fui pegando gosto, e pouco a pouco me apaixonando pela sétima arte e mais ainda por filmes de terror.

Sim, eu adorava levar susto. Os filmes de terror tinham um sabor diferente e bem real: mexia com os meus medo, com os sentimentos mais profundos, que eu fazia questão de deixar enterrado em algum lugar da minha alma. Durante os filmes, com os sustos e suspense, esses sentimentos vinha à superficie e era uma festa de sensações e até mesmo inspiração: contos de terror pipocavam dos meus cadernos.

Sendo assim, quando Robinho, meu melhor amigo, convidou-me para assistir o filme no cinema na quinta; eu passei a noite inteira sem dormir de tanta ansiedade. O dia seguinte durou forever, mas às 7:00 da noite em ponto, lá estavámos em frente ao cinema para assistir o filme "A Hora do Pesadelo", onde um cartaz estranho, mostrava uma mulher acordando apavorada.

Eu queria muito assistir ao filme. Carros de som percorriam a cidade anunciando:

" Se Nancy não acordar gritando...
( entrava o som de um grito de mulher bem alto)
Ela não despertará jamais...

A Hora do Pesadelo, nessa sexta, no Cine Éden"

Na cidade de Cajazeiras só havia uma cinema, o " Cine Éden" ( havia outro que pertencia aos Padres da Cathedral da cidade, mas só passava filme infantil e religioso). O Éden
era o grande programa das famílias ricas da cidade. Como no interior da Paraíba, os filmes demoravam a chegar, descobri depois que o filme do ano que a cidade anunciava nas rádios, em outdoors e em carros com caixas de som por toda a cidade, era na verdade de 1984. Outro detalhe é que, se hoje, quando eu falo de Freddy Krueger, a ficha cai em seguida; naquela epóca, ninguém sabia quem era o flamenguista mais horripilante da história; que até o Woverine morre de medo.

Voltemos ao cinema...

O Robinho não era rico e a essa altura, vocês já desconfiam que nem muito menos eu; e a razão pela qual, fomos parar no Cine Éden, na estréia do filme mais aguardado pela "elite cajazeriana"; foi o fato que um amigo do Robinho era sobrinho do lanterninha e entramos pelas portas do fundo.

Uma vez lá dentro, senti pela primeira vez as emoções de estar diante daquela tela branca enorme, sentado, aguardando o ínicio do filme e quando as primeiras cenas começaram, as meninas já gritavam de susto, enquanto, Robinho e eu, davámos risada de tudo aquilo.

No filme, um grupo de adolescentes tinham pesadelos horríveis, onde eram atacados por um homem deformado com garras de aço. Ele aparecia durante o sono e, para escapar, era preciso acordar. Os crimes vão ocorrendo seguidamente, até que se descobre que o ser misterioso é na verdade Freddy Krueger, um homem que molestou crianças na rua Elm e que foi queimado vivo pela vizinhança. Agora Krueger pode retornar para se vingar daqueles que o mataram, através do sono.

Nossas risadas deram lugar a atenção absoluta por aquele filme estranho que falava que coisas que ocorriam em nossos sonhos poderiam ter um efeito "real e mortal" em nossas vidas; e a figura daquele maníaco de unhas feitas de lâminas afiadas, nos aterrorizou até o final.

Em suma: era o melhor filme que já havíamos visto e a aquela música de pular cordas que as crianças cantavam, virou nosso tema musical pelos próximos meses.

" “One, two, Freddy's coming for you.
Three, four, better lock the door..."

Saímos pelas ruas da cidade, cantando aquela música e fazendo piadas com o pessoal que ficou mesmo assustado com o filme.

Ao chegar em casa, eu mal continha o sorriso no rosto. Tudo era felicidade pura, realização; eu finalmente tinha assistido um filme no cinema; e que filme. Quando a minha vó apagou as luzes e me desejou "boa noite"... percebi, que alguns pensamentos começaram a tomar o lugar da alegria que eu sentia. " E se os sonhos fossem mais que aquelas imagens desconexas que temos todas as noites? E se freddy realmente existisse e viesse me pegar?"



Nesta sexta-feira 13, pensei em escrever sobre a primeira vez que conheci o famoso assasino das telas: Jason Vehooves da série homônima, contudo, quando penso em sextas 13, não consigo deixar de lembrar daquele apavorante personagem da minha infância, que hoje, já virou até desenho de criança; mas que influenciou totalmente, os estudos que eu faria depois sobre sonhos e viagens fora do corpo.

Viagem fora do corpo?

Sim, eu sei, é just a dream, just a dream...

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