sexta-feira, dezembro 28, 2007

Voando

Sou voador de asas quebradas, por isso as vezes vôo torto e quando consigo tocar o céu, volto caindo para a terra, mas não desisto das estrelas, nem da lua, pois voar é meu destino, quem mandou Deus me fazer homem ao invés de passarinho.

Já tivemos asas antes, mas fomos expulsos do paraíso. Quem mandou ter comido o fruto proibido, mas seguir a consciência e o coração tinha um preço e estávamos dispostos a pagar, afinal o Éden tinha tudo o que queríamos, mas estava se tornando meio chato, meio sem novidade, meio sem desafios e a acima de tudo, sem graça alguma.


Queríamos aprender, mas queríamos dar risada. Queríamos amar, mas queríamos também sacanear, farrear, quebrar a cara; só para depois se ajeitar; juntar os cacos, reconstruir e fazer todas essas coisas que faz a gente crescer.


Crescimento com erros é um caminho mais longo, mas quem pode dizer o que é certo o tempo inteiro?

Às vezes é preciso um dilúvio para limpar tudo e embarcar numa Arca de Noé para reconstruir o nosso mundo e andar com as nossas próprias pernas. As vezes é preciso trilhar o caminho de Abraão e oferecer sacrifícios sem necessidade para acordarmos e percebermos que não precisamos comer o pão que o diabo amassou para falar com o divino que está tanto lá em cima, quanto embaixo, do lado e dentro de cada um de nós.

Caminho difícil, mas não impossível e mesmo cruzando um mar vermelho em busca de nossa terra prometida, não podemos esquecer as lições do antigo Egito, da Índia dos Devas, do Tão da China e dos tambores celtas. Pois embora o presente seja importante, as lições e ensinamentos do passado formam um alicerce para a ponte que temos que atravessar rumo ao futuro.

Vivenciamos nossa idade das trevas, enfrentamos dragões com espadas de lata e escudos de acúcar; cruzamos mares em barcos de papel; colonizamos novos sonhos; críamos novos países; fizemos guerras por canudos e guardanapos e aqui estamos nós, mais fortes, sábios e ainda aprendizes. Continuamos errando e nos ferrando, mas dando muita risada nesse processo de aprender e vivenciar o caminho do meio rumo ao tudo.

Para alguns um ciclo se encerra, para outros esse mesmo ciclo recomeça ( e é difícil recomeçar), mas quando se tem a certeza de que vale a pena, todo esforço vira fruto. E foram tantos frutos e presentes que se torna impossível não agradecer aos céus todos os dias pela oportunidade de estarmos aqui.


Anos, séculos, ciclos se passaram em um piscar de olhos, num segundo. Quando olho para trás, e lembro de tudo que ocorreu há 10 anos ou há 10.000 anos, parece que foi ontem, mas as lições e experiências ficarão por toda a eternidade.


Novos amigos e novos aprendizados todos os dias. Novos amores e amores renovados. Desculpas e tapas na cara; beijos no rosto e caras viradas, mas perdoar o quê? Já dizia Gil: “não há o que perdoar, por isso mesmo é que há de haver mais compaixão”

Quantos sonhos realizados e quantos planos desfeitos. Tanta coisa que eu quero e tão pouca coisa preciso. A vida sábia vai filtrando meus pedidos e mudando todo o curso do rio, exatamente como dizia Lennon: “ a vida é o que acontece com você, quando você está ocupado fazendo planos”.

A terra tem dessas coisas, mas continuo voador. Voando além do céu virtual, pelo céu do coração. Voando em letrinhas e pelo teto, como se fosse um foguete, quando durmo. Vôo torto e engraçado. Tudo que parece no começo trágico, no final realmente vira piada, conto, crônica ou simplesmente some com o vento.

Outro ano se passou no calendário ocidental. Embora a data seja fictícia, o sentimento de renovação é real e desejo a todos vocês que as sete ondinhas puladas se transformem em sete novos desafios superados, em sete motivos para rir e agradecer aos céus, o milagre de estarmos vivos.

Afinal, todos nós somos voadores e voar junto foi apenas um jeito engraçado da vida nos mostrar que éramos, sempre seremos e SOMOS TODOS UM SÓ!


Frank

O Artista ( e A Artista)

Ontem foi o aniversário da minha musa e parceira Auri. Incrível como depois de todos esses anos, ela nunca deixou de ser uma grande companheira que sempre tem me apoiado em tudo o que planejo e faço.

É muito fácil dizer "eu te amo", difícil é demonstrar no dia-a-dia esse carinho como ela tem feito. Devo muito a essa moça e me orgulho muito de estar ao seu lado.

Não somos casados, somos eternamente "enamorados".

Parabéns e feliz dia que você nasceu, carinho!

Abaixo, segue um poema que ela fez eons ago...

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O Artista

O que será que ele pensa
Quando tenta descrever um poema
Que fala somente de Amor?

Sua alma transcende?
Seu coracao se abre?
As pétalas do discernimento o invadem,
Fazendo aflorar o que um dia se fechou?

O que será que ele pensa
Quanta colore na tela
Uma imagem de paz?

Tinge as cores de sua alma?
Pinta pensando na amada?
Ou transmite em figuras
O que se sente e faz?

O que será que ele pensa
Quando com liberdade um som de música
Se elabora em sua mente?

Foi trazido pelo vento?
Foi lembrança do passado?
Ou foi o som divino de um coração contente?

A inspiração do poeta,
A inspiração do compositor,
A inspiração do artista,
Que pinta a estrada da vida com o coração cheio de amor;

É a mesma inspiração divina,
A mesma voz do cantor,
Que canta uma linda melodia nos 4 cantos do mundo
Ás vezes chamado de Pai, luz , tambem de Senhor.

Por isso se algum dia o vento sussurrar algo em seu
ouvido,
Quando fechar os olhos e ver na sua tela mental
Algo mágico pedindo pra se tornar real,

Lembre-se que somos artistas do mundo,
E o que nao é tão importante dessa inspiração para você,
Pode ser pra outros talvez muito especial…

Auri

Ps: “Quando damos ouvidos as inspirações naturais, nossa alma se ascende num colorido infinito, e o artista pondo em prática tudo o que por si foi ‘visto’, reflete no peito não somente o desejo de prosseguir seu caminho da arte só pela arte do bonito, mas o de transmitir antes de tudo, o amor através dela.”

quinta-feira, dezembro 27, 2007

O Sorriso do Menino Azul

O menino azul caminha ao meu lado e conversa comigo. Ele nada diz, apenas toca a sua flauta, mas posso sentir que ele fala de amor.

O amor que é incondicional, e que todos vamos sentir um dia. Seja pelo americano ou pelo iraquiano. Seja pelo brasileiro ou pelo povo de outros orbes. Sentiremos tanto amor que não dará para ficar em silêncio e o expressaremos em forma de Sorriso.

É isso o que o menino Gopala* tenta passar para mim. Ele dança, mas não pára de sorrir para mim, enquanto converso com a minha família através de um computador.

A melodia me faz lembrar do quanto é importante o trabalho que fazemos e como é difícil acreditar que fazemos diferença em meio a um mundo mergulhado na ignorância.

E o menino azul ri, e pelo seu olhar, posso sentir que ignorantes somos nós por acreditarmos no bem e no mal; pois Ele se manifesta na luz e na escuridão. Contudo, ele diz que aqueles que estão um pouco mais adiantados e enxergam com mais lucidez a luz, têm a obrigação de ajudar os outros que ainda não enxergam direito e a melhor forma de fazerisso é imitando o menino azul: sorrindo.

A melodia continua e o menino azul dança pelo ciber-café, e vai desaparecendo. Meus olhos se enchem d`água e tenho vontade de gritar e dizer para ele que eu queria ser tão azul quanto ele e retribuir em sorriso o seu carinho por mim.

Então ouço uma voz na minha mente que diz :" Não sorria para mim, sorria para eles! Escreva que não cai uma folha sem que o Pai do Céu saiba e assim deseje. Tudo é o que deveria ser, mas isso não significa inércia para aqueles que conhecem a luz e sim trabalho a fazer. Significa esforço árduo, mas sempre com muito carinho e sorriso no coração. Portanto não sorria para mim, sorria para os seus irmãos e eu estarei neles e eles me compreenderão através dessa canção"

Paz e luz a todos.

SOMOS TODOS UM SÓ

Frank

Notas do Autor: Na mitologia hindu, Vishnu , juntamente com Shiva e Brahma formam a Trimurti, a trindade divina hindú, sendo Vishnu o deus responsável pela manutenção do universo. Segundo o hinduísmo, Vishnu vem ao mundo de diversas formas, chamadas avatares, que podem ser humanas, animais ou uma combinação dos dois. Todos esses avatares aparecem ao mundo, quando um grande mal ameaça a Terra, no total, existem dez avatares de Vishnu, das quais nove já se manifestaram no nosso mundo - sendo Rama e Krishna os mais conhecidos. Krishna também é conhecido pelo nome de Govinda (chefe dos pastores: um nome de Krishna) e Gopala (pastor: ref. Krishna).
Fonte: wikipedia.

sábado, dezembro 22, 2007

O Menino Dourado ( Feliz Natal!)

Natal?
25 de Dezembro?

Se você quer comemorar o nascimento do Menino Dourado; esqueça a data, esqueça as compras e o presente embrulhado. Vá para a rua, dance na chuva, abrace o sol e beije a lua. E você compreenderá que um dia, desceu a terra um raio de luz e ele se chamava Jesus.

Se você quiser comemorar o nascimento do Menino Alegria; ria, brinque e aproveite o seu dia. Desperte a criança que há em você e assim você entenderá por que ele dizia " venham a mim as criancinhas" .

Você quer sentir o verdadeiro espírito do Menino de Ouro; poupe o peru e o álcool; cuide não só do seu bolso, preserve o seu templo: sua mente e seu corpo. E mesmo em momentos de dor, continue semeando o maior mandamento, que é espalhar AMOR, AMOR e AMOR.

Se você quiser realmente entender por que o Menino Jesus nasceu num berço de palha, esqueça os livros e as igrejas douradas; doe um pedaço de pão e medite sobre o mistério da multiplicação; quem sabe você entenderá que o que foi multiplicado e compartilhado foi algo além de trigo, sal, água e sim, algo impossível de ser tocado.

Mas se mesmo assim,você decidir fazer uma festa; não hesite, vá e se divirta; viva o presente, não tenha pressa; mas tente se lembrar que o suposto motivo da celebração, foi uma sementinha de luz que veio a terra tocar o nosso coração e nos lembrar que TODOS SOMOS DEUSES SEM DISTINÇÃO e qualquer pessoa é capaz de fazer o que Ele fazia; portanto, que tal imitar o bebê Jesus: Sorria!

Frank Oliveira

sexta-feira, dezembro 21, 2007

CRÔNICA E OVO ( Luis Fernando Veríssimo)

Esses dias, uma amiga me ligou e disse que sua sobrinha estava lendo o meu blog e perguntou para ela:

- Tia, crônicas são textos engraçados, né?

Ela respondeu que sim, mas acho que até ela ficou na dúvida.

A definição do que é uma crônica ou não, é algo que tira o sono de muita gente; e para tentar explicar a minha visão de crônica não só para ela, mas como para todos os leitores, posto abaixo uma crônica maravilhosa do autor Luis Fernando Veríssimo, onde ele fala justamente sobre o que é uma crônica e a comparação com o ovo.

Frank

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A Crônica e o Ovo


A discussão sobre o que é, exatamente, crônica, é quase tão antiga quanto aquela sobre a genealogia da galinha. Se um texto é crônica, conto ou outra coisa interessa aos estudiosos de literatura, assim como se o que nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha, interessa aos zoólogos, geneticistas, historiadores e (suponho) o galo, mas não deve preocupar nem o produtor nem o consumidor. Nem a mim nem a você.

Eu me coloco na posição da galinha. Sem piadas, por favor. Duvido que a galinha tenha uma teoria sobre o ovo, ou, na hora de botá-lo, qualquer tipo de hesitação filosófica. Se tivesse, provavelmente não botaria o ovo. É da sua natureza botar ovos, ela jamais se pergunta "Meu Deus, o que eu estou fazendo?" Da mesma forma o escritor diante do papel em branco (ou, hoje em dia, da tela limpa do computador) não pode ficar se policiando para só "botar textos que se enquadrem em alguma definição técnica de "crônica”.

Há uma diferença entre o cronista e a galinha, além das óbvias (a galinha é menor e mais nervosa). Por uma questão funcional, o ovo tem sempre o mesmo formato, coincidentemente oval. O cronista também precisa respeitar certas convenções e limites, mas está livre para produzir seus ovos em qualquer formato. Nesta coleção, existem textos que são contos, outros que são paródias, outros que são puros exercícios de estilo ou simples anedotas e até alguns que se submetem ao conceito acadêmico de crônica. Ao contrário da galinha, podemos decidir se o ovo do dia será listado, fosforescente ou quadrado.

Você, que é o consumidor do ovo e do texto, só tem que saboreá-lo e decidir se é bom ou ruim, não se é crônica ou não é. Os textos estão na mesa: fritos, estrelados, quentes, mexidos... Você só precisa de um bom apetite."

Luis Fernando Veríssimo

Mais sobre o autor no site:
http://portalliteral.terra.com.br/verissimo/

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Encosto

Números que se repetem misteriosamente; coincidências que desafiam a lógica; a sincronicidade é uma realidade na vida de todos nós – e contam os místicos que quanto mais lúcidos estamos que somos borboletas sonhando que somos sábios chineses, mais percebemos esses acontecimentos se repetindo e aparentemente não há uma explicação. Por isso eu sabia que algo muito estranho estava ocorrendo comigo quando aquela mulher sentou no banco ao meu lado no trem.

Ela embarcou na Estação Santo Amaro e de todos os bancos vazios do vagão, ela decidiu sentar ao meu lado. Não a notei a principio, só percebi que quando ela sentou do meu lado, fui esmagadoramente imprensado contra a barra de ferro, próxima a porta. Não liguei, isso ocorre nas melhores linhas de transporte urbano público do mundo, mas quando ela começou a cochilar e se inclinar para o meu lado, comecei a evocar todos os orixás para que eu tivesse a paciência de Oxossi para não acordá-la com uma cotovelada.

Contive a minha fúria, e apesar de continuar esmagado até a Estação Osasco, onde eu iria descer, nada de extraordinário parecia ter acontecido. Era ela me esmagando ou nadar contra um mar de sovacos até a estação final.

No dia seguinte, fiz o mesmo trajeto e em Santo Amaro, adivinhem quem entrou no vagão e sentou do meu lado. Minha tolerância foi zero, cada vez que ela se inclinava, levava uma cotovelada, mas ela parecia estar num estado alterado de consciência, pois quanto mais porrada eu dava, mas pesado ficava seu sono e consequentemente seu corpo me esmagando. Fiz minha prece a Maomé, bendito seja o seu nome, mas nem me virando para Meca, eu conseguia ficar confortável com aquela mulher em cima de mim.

No terceiro dia, mudei de vagão e quando as portas da Estação Santo Amaro se abriram e ela não entrou, respirei aliviado. Minha tática funcionara! Fechei os olhos e agradeci a São Judas, santo de todas as causas impossíveis pelo milagre; mas quando abri os olhos novamente, a vi correndo pela plataforma enquanto a campainha de fechar as portas tocava. Torci para que não desse tempo, fiz promessas a todos os santos milagreiros para que a porta fechasse, mas ela entrou no vagão e para o meu desespero, o único banco vazio estava...ao meu lado.

- Nãaaaaoooooo!!!!! – gritei, mas já era tarde.

Em momentos como esse, sempre me pergunto: o que preciso aprender com isso?

Nada contra pessoas que estão um pouco acima do peso. Tenho vários amigos “gordinhos” e já sai com meninas fofinhas. Nada contra esses nossos trabalhadores que acordam antes do galo cantar, para as suas duplas ou triplas jornadas; mas entendam, era o terceiro dia em que isso acontecia comigo, naquela altura do campeonato, eu já estava xingando a mãe do Juiz e queria que o jogo acabasse.

Talvez eu tenha sido um travesseiro numa outra encarnação e tudo isso seja apenas o pagamento de uma ação equivocada do passado, mas karma à parte, como não tenho a escolha de usar o carro e sobreviver ao trânsito da hora do rush na marginal, vou continuar usando o trem para chegar até a escola que dou aulas de inglês em Osasco, mas decidi vou enfrentar o rio das axilas mal cheirosas de agora em diante e seja o que Krishna quiser. Lição? Acho que não aprendi nada com isso, mas quer saber, ela que faça de travesseiro, o ombro de outra pessoa.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Fugindo de Casa

O plano era audacioso: Cruzaríamos a fronteira sem permissão e sobreviveríamos ao perigo mortal de morrermos sufocados pelo tédio que se espalhava por toda a cidade.

Refizemos os nossos planos, estudamos os mapas e todos os planos B,C e WO. Contamos o nosso mantimento e ao raiar do dia, começamos a nossa jornada para uma nova vida. Robson e eu sabíamos dos riscos; havíamos calculado cuidadosamente tudo o que poderia dar errado e saímos de nossos casas com a confiança que todo menino de 13 anos possui: Éramos invencíveis, indomáveis e fugiríamos de casa pela primeira vez.

Não sofríamos maus tratos; nem buscávamos pais ausentes que sumiram misteriosamente quando foram comprar cigarros. O que nos empurrava para fora de Cajazeiras era a vontade de escapar daquele gás misterioso do tédio que transformava todos em zumbi. Os habitantes da cidade andavam de um lado para o outro como se fossem mortos-vivos. Não havia mais brilho em seus olhares, apenas o vazio de quem não via nada no horizonte além do dia seguinte. Eles não viviam, apenas vagavam pelos cantos da cidade em busca de seus cérebros que foram perdidos em algum momento durante o marasmo em que suas vidas se tornaram.

Robson era tão lúcido quanto eu, mas ele quase tinha sido pego pelo gás. Certa vez o encontrei vegetando em frente à TV assistindo o Chaves. Por pouco, consegui resgatá-lo e depois desse perigo, decidimos que fugiríamos para alguma cidade em que o time de futebol atuasse em algo mais profissional que a 13º divisão. Nosso plano era sair da cidade pegando carona e chegarmos até Souza, a 30 kms dali e de lá, ganharíamos o mundo.

Sair da cidade foi relativamente fácil. Ninguém desconfiou daqueles dois meninos com mochilas nas costas, nem mesmo o camburão da policia que passou e acenou para nós. O problema era que não conseguiamos carona. Ninguém parecia entender o olhar daqueles dois meninos que imploravam: “por favor nos levem daqui e nos salvem da maldição dos zumbis”.

As horas foram passando, o sol esquentando e após a 5º hora de caminhada, fugir já não era mais tão divertido. Robson começou a se queixar de dores nas costas, nas pernas e que perderia o episódio do Chaves daquela tarde. Eu comecei a perceber que uma idéia idiota fica mais imbecil ainda quando colocada em prática a dois e prometi a mim mesmo, que se tivesse outra idéia estúpida, não envolveria mais ninguém. Então num desses momentos cruciais de nossas vidas em que desistimos de um sonho por não termos condições ainda de realizá-lo, demos meia volta e começamos a marchar de volta para casa.

5 horas depois, pisamos em Cajazeiras. Esgotados, famintos, e profundamente humilhados, passamos novamente pelos policiais no camburão, que pareciam rir da nossa cara, mas estamos felizes de termos voltado. Bastou algumas horas longe da cidade para percebermos que Cajazeiras, afinal, não era tão ruim assim. Afinal, o problema não era o local e sim a maneira como as pessoas viviam ali e fizemos um pacto de não deixarmos o tédio nos dominar. Bastava permanecer acordados e lúcidos que havia algo a mais além de dormir, acordar, comer, estudar, comer, fazer dever de casa e dormir. Havia sempre alguma coisa que poderíamos fazer para não virarmos zumbis, mesmo que houvesse algumas recaídas...

- Que horas começa mesmo o Chaves?

Frank

terça-feira, dezembro 18, 2007

O Menino Monstro ( Um Conto de Natal)

Todo adulto guarda na memória, uma estória de terror. Um daqueles casos inexplicáveis que aumenta mais em detalhes macabros, toda vez que é recontado. Esse caso ocorreu comigo no Natal de 1985 e toda vez que todos começam a enfeitar as suas casas com as cores de natal, inevitavelmente lembro do dia em que vi o Menino Monstro.

Eu tinha 12 anos, quando mudei para Cajazeiras, na Paraíba. Nessa idade, fazer parte de um grupo é uma questão de vida ou morte; ainda mais para um garoto que acabara de mudar para uma nova cidade e precisava ganhar a confiança dos “novos amigos”. Para ganhar o reconhecimento da turma, eu precisaria passar num teste de bravura e coragem. Se aceitasse, seria aceito por todos; se desistisse, o limbo juvenil me esperava.

O desafio era aterrorizador: eu teria que enfrentar o Menino Monstro.

Na rua da padaria do Janduí, havia uma casa que despertava a atenção de todos que passavam por lá. Em um dos quartos, havia grade na janela e de dentro do quarto, ouviam-se grunhidos e gritos terríveis que assustavam todo o bairro. Todas as pessoas que conhecia, evitavam passar por aquela rua; e os boatos corriam por todo o bairro que uma beata, devota de Frei Damião, tinha visto no menino as marcas do coisa ruim e ela mesmo havia declarado a todos – “ Esse menino só pode ser obra do cão!”

Eu só havia visto a casa uma vez e ainda lembrava dos gritos, por isso quando os meninos disseram que eu teria que entrar naquela casa; pensei seriamente em arrumar as minhas malas e voltar para a Brasília, onde o maior desafio que tinha enfrentado fora um campeonato de futebol de tampinha de garrafa. Ter uma vida social não valia o sacrifício, mas como a Eliana, a menina mais bonita do bairro, fazia parte do grupo e eu já não conseguia imaginar viver minha adolescência sem ela, aceitei o desafio.

Era noite, meus amigos ficaram vigiando a casa, até perceberem que os pais do Monstro haviam saído para a igreja. Por favor, levem em consideração que não éramos delinqüentes; a verdade é que escalar muros e invadir quintais eram uma arte a ser dominada quando se mora numa cidade do interior com quintais cheios de mangueiras, goiabeiras e pés tortos que miram no gol e acertam o quintal alheio. Pular o muro não foi sequer uma missão difícil, mas quando entrei na casa, confesso, que comecei a tremer sem parar. De acordo com os meninos, não bastava entrar na casa, eu precisava trazer uma prova que estivera cara-a-cara com o Menino Monstro e apesar de não ter a mais vaga idéia do que poderia ser utilizado como prova, invadi a casa pela porta do quintal ( por carência de ladrões, todos os habitantes da cidade, deixavam sempre abertas as portas e janelas de seus quintais)..

Um medo descomunal tomou conta de mim, á medida que eu entrava na casa. O suor caia da minha testa como se fosse as quedas do Iguaçu; a respiração estava ofegante e meu coração batia tão rapidamente, que senti que a qualquer momento ele sairia da minha boca e pularia o muro do quintal. Eu queria sair dali. Queria estar em casa, me preparando para a ceia de Natal e não naquele lugar enfrentando a morte. Queria fugir, mas havia Eliana e eu precisava continuar, não só por mim, mas por todos os adolescentes do mundo que passavam por aquele tipo de situação.

Então, ouvi a respiração do monstro bem perto de mim. Antes mesmo que eu pudesse pensar em fugir, notei uma sombra avançando sobre mim e me derrubando no chão.

- Deus me ajuda!!! – Gritei e fechei os olhos, esperando o pior. Nem tinha 13 anos ainda, queria tanto estar vivo para casar com a Eliana e para descobrir o que ocorreria com o Homem Aranha no seu próximo gibi. Imaginei cenas de filme de terror, as piores dores possíveis, mas nada ocorreu. Cauteloso, abri os olhos e vi á minha frente, apenas um menino um pouco maior que eu, que tinha Síndrome de Down. Ele tinha um dos olhares mais doces que já tinha visto na vida e aos invés de palavras distorcidas de filme de Exorcista, ouvi sua voz meiga dizendo – Você veio brincar comigo?

Em Brasília, era comum ver os meninos com Down nas ruas, tendo vidas saudáveis e até jogando bola com o resto da meninada na rua, mas aparentemente em Cajazeiras, as famílias escondiam seus “meninos especiais” do resto da sociedade como se eles fossem realmente monstros.

A verdade é que não havia nada de monstruoso com aquele menino e se havia algum horror; algo fora do normal, era a maneira como ele era tratado não só por toda a vizinhança, mas também por seus pais.

Enquanto eu encarava a minha própria ignorância; ele me foi trazendo carros sem rodas, bolas murchas e outros tantos brinquedos quebrados que ele costumava brincar e repetia sem parar “que bom que você veio brincar comigo”.

Não fiquei brincando com ele, até gostaria, pois fiquei sensibilizado até o nível máximo que uma criança de 12 anos consegue atingir; mas meus amigos e Eliana estavam lá fora e eu ainda tinha que os impressionar com a fantástica história de como usei todas as minhas forças para lutar com o Menino Monstro e sobrevivi para contar. Aquele carrinho sem rodas era a prova que eu precisava para me tornar o herói mais covarde que já surgiu nos contos de fada do sertão.

Na noite de Natal de 1985, eu consegui amigos, fama e a admiração da menina mais linda da rua, mas antes mesmo da missa do galo, olhei-me no espelho e me dei conta que no final era eu, o Menino Monstro.

Frank

Notas: Segue abaixo link de um site que explica muito sobre esses meninos especiais:
http://www.portalsindromededown.com/

A Canção Que Ainda Não Foi Escrita

Ela cantava o tempo todo.

Carregava consigo uma mochila cheia de canções de amor; melodias que falavam do brilho no olhar, despertado pelo toque do amado; versos de paixão e rimas de união; como se uma nuvem musical pairasse sob a sua cabeça; como se sua mente captasse ondas de FM e suas cordas vocais transmitissem a rádio do coração.

- Não vivo sem música! – ela me disse - Há sempre uma canção tocando dentro de mim.

Verdade! Do lugar de onde ela vem, há sempre música no ar.

Passei algum tempo ao seu lado e foram horas de versos e canções; como se estivéssemos em um “Musical“ e no lugar de diálogos, nos puséssemos a cantar e dançar.

Ela se foi, mas a sua lembrança, como se fosse uma canção, não para de tocar pelos lugares onde passo. Por vezes, me pego cantarolando as mesmas canções que ela cantava; outras vezes, quase consigo lembrar de uma canção que nunca foi escrita; uma melodia que nunca foi composta, mas que descreve em notas musicais o quanto importante ela foi, é e sempre será para mim.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Rocky Mary

Qual é a primeira música que você consegue se lembrar de ter ouvido?

Há 30 anos essa música toca na minha cabeça sem parar. Não sabia quem cantava, nem se ela existia, só lembrava do refrão:

"Está pra lá de punk mamãe
Me viciou, viciou, viciou
Em rock roll
Me viciou, viciou, viciou
Em rock roll"

Procurei a canção pela internet. Revirei sebos, revistas especializadas, pessoas que viveram na épóca, mas ninguém lembrava, ninguém sabia e a canção continuava tocando:

"Está pra lá de punk mamãe
Me viciou, viciou, viciou
Em rock roll
Me viciou, viciou, viciou
Em rock roll"

Então um dia me deparei com o nome do cantor por acaso: Paulinho Boca de Cantor.

Estranho mais ainda era o nome da canção : Rocky Mary

Enfim, encontrei a canção e mesmo embora não tenha nenhum significado especial para vocês, é sempre bom compartilhar um tesouro quando encontrado.


Rocky Mary

Mamãe, aqui eu pirei por causa de Mary
Mamãe, aquela angelical e fina flor do amor
Também pirou
Está pra lá de punk mamãe
Me viciou, viciou, viciou
Em rock roll
Me viciou, viciou, viciou
Em rock roll
(duas vezes)

Certa vez me deu um toque
Num sanfoneiro do norte
E o cabra não era mole
Mary só voltou por sorte
Quando eu puxei melhor o fole
Mary só voltou por sorte
Quando eu puxei melhor o fole

Mamãe, aqui eu pirei por causa de Mary
Mamãe, aquela angelical e fina flor do amor
Também pirou
Está pra lá de punk mamãe
Me viciou, viciou, viciou
Em rock roll
Me viciou, viciou, viciou
Em rock roll

O que é que eu faço sem Mary
Se mandou com uma dona
Cujo sapato e bem maior do que o meu
Mamãe, não duvide
Mary só volta pra mim
Quando eu pirar prá lá de Lou Reed.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Lua Bonita

Voltando para casa, trânsito infernal, chuva e céu nublado. Senti falta da lua, das estrelas e do céu que inspira poesia.

O ônibus lotado, gente suada; mas lá estava eu e Raul, Raul e eu, e ele cantava algo assim:

" Lua bonita,
Se tu não fosses casada
Eu preparava uma escada
Pra ir no céu te buscar

Se tu colasse teu frio com meu calor
Eu pedia ao nosso senhor
Pra contigo me casar

Lua bonita
Me faz aborrecimento
Ver São Jorge no jumento
Pisando no teu clarão
Pra que cassaste com um homem tão sisudo
Que come dorme faz tudo, dentro do seu coração?

Lua Bonita, Meu São Jorge é teu senhor,
E é por isso que ele "véve" pisando teu esplendor
Lua Bonita se tu ouvisses meus conselhos
Vai ouvir pois sou alheio,
Quem te fala é meu amor

Deixa São Jorge no seu jubaio amuntado
E vem cá para o meu lado
Pra gente viver sem dor."

Raul Seixas cantando e o Frank ouvindo, e voltando pra casa...

terça-feira, dezembro 11, 2007

PREOCUPAÇÃO, DÚVIDAS E INSEGURANÇA

Não se preocupe com o seu futuro.

Viva mais o presente, que era o futuro com o qual você tanto se preocupava no passado.

Não quebre tanto a cabeça tentando entender das coisas que você ainda não compreende.

A cabeça foi feita para compreender que há certas coisas que não se pode mesmo entender.

Não perca o seu tempo precioso bancando o enciumado e inseguro ao lado de quem você ama.

Confiança faz parte da vida de quem se sente amado e ciúme é apenas um reflexo imaturo de quem quer possuir alguém que nunca foi posse, mesmo estando do nosso lado.

Quando pensar em seus futuros planos, não se esqueça de que a vida sempre os modifica, para lhe mostrar que aquilo que queremos, nem sempre é aquilo que almejamos.

Quando não conseguir respostas para as suas perguntas, e não conseguir enxergar o que há por trás das aparências, mude as perguntas, e quem sabe você descubra que a pergunta pode ser parte do conhecimento, mas a resposta só é sentida com a experiência.

E quando o amor bater na sua porta, trazendo a pessoa que você tanto esperava e queria, tente enxergar o quanto nos tornamos idiotas, quando queremos possuir algo além da nossa própria vida.


- Frank -
Londres, 21 de novembro 2003.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

O NOME DA MÃE DA COMPAIXÃO

Caminhando em desespero, o velho homem pensara que não havia outra alternativa a não ser acabar com a própria vida se jogando no rio Chieng. Ele perdera tudo o que tinha e já não havia como alimentar a sua família. Tinha receio de chegar em casa e olhar na face de sua esposa e dizer que perdera todo o dinheiro numa aposta.

Dessa vez tudo parecia diferente e ele tinha certeza que ganharia o jogo e teria dinheiro suficiente para comprar uma carroça e ganhar seu pão carregando pessoas de uma província a outra; mas dera tudo errado e sua última chance se esvaíra numa jogada mal-planejada que levara seu dinheiro e sua honra.

Sem honra e sem esperança, ele se aproximou da beira do lago, pediu perdão aos deuses e ancestrais e já se preparava para se atirar na água, quando notou que na margem do rio, surgia a face de Kuan Yin*, a Senhora da Compaixão, e ela lhe sorria suavemente. Envergonhado, o homem cobriu o rosto com as mãos, e falou:

- Senhora, tenha piedade de minha alma. Tenho muitas dívidas e depois de um ano sem chuva, toda a colheita se perdeu, não vejo saída se não a morte.

“Filho, a morte nunca é saída para os problemas que precisamos resolver em vida, disse a Senhora sorrindo. Encerrar a vida antes do tempo certo apenas prolonga para outro ciclo algo que poderia ser resolvido agora. A morte não é uma saída, é apenas uma passagem, e quem antecipa essa viagem acaba voltando ao ponto inicial da sua jornada. Há pessoas que morrem em vida, e outras que se apaixonam pela morte como se ela fosse a resposta de tudo, mas eu lhe digo, a resposta está na vida e quem é campeão da vida acaba achando um caminho quando está perdido, acaba encontrando uma luz quando tudo parece escuro.”

- Mas, como terei forças para voltar pra casa com as mãos vazias?

“Voltando com o coração cheio de vontade de continuar sua luta. Vá, filho meu. E toda vez que o desespero lhe turvar a visão, repita meu nome em seu peito como se fosse o som do seu coração. E prometo que estarei por lá.”

O velho homem enxugou as lágrimas dos olhos e retornou o seu caminho para casa, ainda trêmulo, ainda com receio, mas sabendo agora o nome da esperança: Kuan Yin.

- Frank -
Londres, 25 de janeiro de 2004.


Notas: * Kuan-Yin (do chinês): A Deusa da Compaixão

domingo, dezembro 09, 2007

SOMOS TODOS UM SÓ

Uma só raça;
Uma só nação.
Uma só casa;
Uma só canção.

Uma só religião:
Aprender a amar.
Uma só obrigação:
Receber e compartilhar.

Uma só expressão,
Que traga paz a humanidade.
Comunicando de coração a coração,
Uma só linguagem.

Um só pedido na senda,
Um único sonho em comum;
Que o mundo um dia compreenda
Que SOMOS TODOS UM .


PS: Poesia inspirada na sabedoria de Shankara e Sai Baba.

- Frank –

Astro Rei


Que poder mágico terá o raio solar
Que interpenetra a fresta da janela?
Aquecendo teu rosto como se estivesse a beijar,
Despertando da inércia quem hiberna.

Que poder mágico terá o Sol da primavera?
Sol que limpa o outono das folhas caídas;
Põe um sorriso no mau humor de quem inverna;
Com a promessa de verão e melhores dias.

Que poder mágico terá o entardecer?
Cartão-postal de quem ama a vida.
Aquarela diária que a gente vê,
Pintada pelo Grande Artista.

Que poder mágico terá a aurora?
Que convida todos a despertar.
Deixando pra trás os problemas de outrora,
Oferecendo um novo tentar.

Esse poema é só para afirmar,
Que eu não sei que magia ele tem;
Mas de vez em quando vale a pena saudar,
A luz presente do grande Astro Rei.


- Frank -
Londres, março de 2003.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Despedida no Portão


Minha mãe não me levou até o portão ontem á noite. Ela sempre se despede no portão, quando vou visitá-la. Faça chuva ou sol, pode até nevar; mas ela sempre me acompanha até a calçada da sua casa e fica me acenando adeus. Gosto de saber que ela fica me olhando partir; sinto que seus olhos estão comigo não somente quando nos despedimos, mas também por todo o meu caminho até a minha casa.

Ela está doente. Esses dias passou mal, foi internada com labirintite e outras “ites” que ainda não entendi direito. Valente, ela não se deixa abater por qualquer dor de cabeça, por qualquer mal- estar; se foi parar no hospital, e se agora está na cama sem conseguir sorrir, é que há algo mais sério de errado com ela, do que sonha a nossa filosofia.

Quando alguém que amamos fica doente, a gente se sente impotente. A barganha com Deus não funciona; afinal não há nada que você possa prometer em troca, que valha a saúde da sua mãe. Tudo o que você pode fazer é esperar pelo melhor, mas qual é o melhor que pode ocorrer em horas como essas? Os parentes querem a cura imediata, mas como saber se a cura é o melhor para o outro? Como saber quais são os planos de Deus para cada pessoa? Como saber se quando pedimos a cura, não estamos na verdade, sendo egoístas por querermos nos livrarmos o mais rápido possível do inconveniente de termos que lidar com um parente doente ou nos darmos conta da nossa própria impotência em relação aos ciclos naturais da vida? Como sabermos se a doença não é um benção que veio curar um mal maior: a enfermidade espiritual.

Não sei as respostas dessas perguntas e por há tempos não mais barganhar com a força divina para conseguir algo (quando tenho tanto para agradecer), só posso esperar que o melhor ocorra com a minha mãe, seja lá o que for. Só lamento que ela não possa mais me acompanhar até o portão como fazia antes, pois percebi agora o quanto isso era especial para mim.


Frank
http://cronicasdofrank.blogspot.com/

domingo, dezembro 02, 2007

Céu Cintilante


Quando ela nasceu, deram-lhe o nome da Luz. Mas luz não bastava, era preciso um outro termo que agregasse mais significado à luz, ao brilho que ela emanava; algo que lembrasse a todos de onde ela tinha vindo: céu! Ela descera do céu, caíra na terra, tal qual estrela cadente, nos braços da menina Mara que aprenderia ás pressas a arte de ser mãe. Auri seria seu nome, Auri e celia. Célia, aquela que cai do céu, céu de ouro, céu que cintila, céu que brilha; Célia, aquela que nada enxerga, por refletir a luz de auri. Auri no princípio da letrinhas que formam tantos significados como há estrelas no céu.

Auri nasceria no Brasil e carregaria a cor da terrinha em seu nome, "auri" é prefixo que significa ouro, cor de ouro, áureo. Ou seja, auriverde é verde-e-amarelo. Que menina mas brasileira, e essa estrelinha maranhense brilharia mundo afora.

Os orixás, deuses africanos, carregam auri em seu nome. ORI de luz, AURI por contração. No hebráico o AOR vira luz, tanto quanto no ARA em Tupi Guarani,ARAXÁ, que dá nome a uma cidade, e segundo Couto de Magalhães em seu livro "O Selvagem", ARAXÁ seria um nome dado a uma montanha que recebia os primeiros raios de luz do sol. Na ìndia, no termo ORISSA que também dá nome a uma cidade. No bom Portugês: OURO, AURORA, AURA, ÁUREO, ORIENTE, AURÉOLA, todos com o mesmo radical, e todas as palavras estão relacionadas a luz, luminoso ou que brilha.

Será que a Dona Mara sabia que as línguas da atualidade são fragmentos de uma língua há muito perdida? Que o nome que sua filha carregaria tanto significado?

Conheci Auricelia há 10 anos. Difícil descrever os significados que me vêm á mente quando penso nela, quando lembro seu nome. Contudo, posso afirmar que sua entrada em minha vida foi uma luz no fim do túnel e quase uma década depois, ainda não consegui catalogar quantas estrelas habitam em seu céu e se ela tiver mesmo caído do céu, os navegantes que se guiam pelo céu estrelado, terão mais dificuldades para se localizar. Não devolvo minha estrela, quando o assunto é ela, sou egoísta, quero o céu cintilante somente para mim.


Frank

Sites pesquisados
http://www26.brinkster.com/frateso/
http://www.pergaminovirtual.com.ar/nombres/celia.html

80 Centavos

Cortava o cabelo no barbeiro, quando um mendigo apareceu por lá.

- Senhores e senhoras - gritou como se declamasse um poema ou fosse fazer um discurso - Desculpem-me se interrompo o vosso trabalho, sendo um vagabundo, pouco sei sobre essa arte laboral que tão bem fazeis, mas preciso de 80 centavos para inteirar uma garrafa de cachaça.

Espanto geral, todos pararam o que faziam e o mendigo agora tinha todos os ouvidos.

- Sim, isso mesmo, senhoras e senhores, prefiro dizer a verdade. Poderia vos enganar, dizendo que compraria comida para mim ou remédios para os filhos que nunca tive; mas venho até vossa presença e peço humildemente: poderiam contribuir com 80 centavos para alegrar o dia desse vosso amigo?

O que assustava mais não era o discurso do homem em trapos ou uma garrafa de cachaça custar menos de 1 real; mas a honestidade do seu pedido. É claro que não dei um centavo, esmola não ajuda ninguém, nem deve ser dada, mesmo se uma mãe citar Machado de Assis ou Shakespeare com seu bebê nos braços; mas a honestidade daquele mendigo me tocou profundamente. Num mundo de máscaras, em que a verdade e a idoneidade valem tão pouco, esse estranho homem de 80 centavos me ensinou algo que jamais esquecerei: quanto mais verdadeiro for o que você diz e faz, mas fácil será para você alcançar o que quer. Isso mesmo, ele conseguiu seus 80 centavos.

Significado


Descíamos a Tabatinguera. Sol quente, Domingo de feira-livre, conversavamos sobre os nomes das pessoas e seus significados.

- Uma amiga esses dias me disse que pesquisou o meu nome e descobriu que ele significava algo bem diferente daquilo que passei a vida inteira pensando que ele significava. - ela disse - Que desilusão! E eu que achei que ele significa algo especial.

- Desilusão? Nada disso! - respondi - O significado do seu nome não é aquele que dizem que ele possui, e sim o significado que você dá a ele.

sábado, dezembro 01, 2007

Separada

Conheci Edina em Salvador, amiga de uma amiga minha, tomamos água de coco num quiosque á beira mar.

Eu matava tempo, voaria para São Paulo à 0:00 do dia seguinte; ela dava vida a um desses bate papos maravilhosos que servem de lição para a vida inteira.

Conversamos sobre tudo, especialmente sobre casamento e liberdade, palavras que não forma orações afirmativas para a maioria das pessoas que se aliançam pelo mundo. Ela me contou que era separada do pai da sua filha por vontade dele. Após esperar por 60 dias que seu marido voltasse, ela contrariou a família e a sociedade, e saiu de casa para reconstruir a sua vida. Cansada de tanto esperar, retomou o rumo do seu caminho e ouviu da família e dos amigos: “se você esperasse um pouco mais, ele teria voltado”. Ela riu, eu também; sua família não. Bem vinda a uma terra onde a mulher nunca tem razão.

Aprendi algo inusitado sobre Salvador com Edina; apesar de ser a 3º maior cidade do Brasil e exportar ritmos, danças sensuais e ser conhecida como a capital do carnaval mais “caliente” do país; a capital baiana não fica muito distante de outras cidades interioranas brasileiras em que a mulher ainda é tratada como cidadã de segunda classe e sempre está errada mesmo quando está certa.

“A Vida dos outros está sempre na boca do povo”, contou Edina, “ Meu marido me largou, mas sou eu que sou segregada por todos. Amigas não podem ser vistas ao meu lado. Suas famílias temem que elas sejam desvirtuadas pela separada."

Ainda assim, Edina ama Salvador. Já teve oportunidade de morar em outras cidades, outros estados; mas preferiu ficar, disse que é muito importante para a filha crescer na mesma cidade em que o pai mora. É esse tipo de preocupação que faz de Edina o que ela é: uma mulher fascinante, inteligente e madura, mesmo carregando uma cruz imposta pela sociedade por querer ser feliz, mesmo separada.


Frank Oliveira

quarta-feira, novembro 28, 2007

E Se Tudo O Que Tenho Certeza Fosse Mentira...


Denise não entendia porque João tinha tanta certeza e confiança nesse tal mundo espiritual. Ele não entendia como alguém tão sensato e inteligente como seu amigo poderia acreditar nessas bobagens místicas que pipocavam por aí.

- João, vamos lá. Você realmente acredita nessas bobagens que você lê tanto? Esse negócio todo de espirtualidade para mim é pura piração.

- Eu já te falei, que eu não acredito, Denise, eu tenho certeza!

- Tá bom! Mas e se você descobrisse que tudo o que você acredita, quero dizer, tem certeza... é uma furada? Sei lá, e se os cientistas finalmente descobrissem que Deus não existe coisa alguma e todas essas religiões,mestres e gurus são uns alienados pregando ilusão coletiva, como você reagiria?

- Eu não sei por que você vive tentando me convencer das suas incertezas. Minha fé é individual, por isso não posso e nem quero te convencer de nada que sinto; mas se eu descobrisse que tudo o que aprendi e experimentei foi pura imaginação, crença ou sugestão mental, eu continuaria tentando ser uma pessoa melhor a cada dia e tratando os outros como eu gostaria de ser tratado. Nunca acreditei em Deus em troca de um lugarzinho no céu e mesmo se descobrisse que não há nada depois da morte, não diminuiria em nada a minha vontade de crescer e aprender. Mesmo se Deus não existisse, é inégavel que o fato de estarmos aqui vivos é um grande milagre da vida, e por isso, somente por isso, já temos motivos suficiente para seguirmos em frente com um sorriso no rosto constantemente.

Frank

Um Encontro Baiano

Romance moderno começa em paquera virtual com possível encontro real. Encontro que já começa com reticências, com cuidados. Afinal, ele pode ser um psicopata; ela pode ser esquisita; e foi assim, mesmo que com medo, que o anjo encontrou a lua na terra de todos os santos. Lua e anjo não eram seus nomes de verdade, mas apelidos de sala de bate papo e era a primeira que se viam. Trocaram e-mails de amor, toques de MSN e carinhos de orkut e quando dava um ligava para o outro – os séculos mudaram a comunicação, mas o interurbano ainda continua caro – e assim eles foram se conhecendo e combinando aquele encontro que ocorreria um ano depois do primeiro encontro naquela sala de bate papo, onde ele brigava com um velho e ela o convenceu que conversar com ela era mais interessante. “Bendito velho” - repetia ele - “ o cupido que nos uniu.”

Ele ouvia Gilberto Gil, quando ela chegou bem baiana. Ela buscava romance, ele buscava mágica. Quando finalmente se viram, um segundo tornou-se eternidade, ora dava vontade de fugir, ora dava vontade de transformar aquele “nunca te vi e sempre te amei” num abraço apertado.

A poesia se fez presente e o anjo virou sol incandescente e a lua ficou sedenta de versos de poeta. O amor se consumiu num total eclipse de corpos terrestres que uniram suas almas astrais. Ele era o que ela esperava, ela era o que ele buscava. Os Orixás abençoaram e o Olodum tocou em todas as esquinas de Salvador o ritmo dos encontros furtivos no Pelorinho; dos beijos roubados à coração roubado na Cidade Baixa.

Dois dias duraram para sempre e eles formaram um laço que nem Caetano ousa explicar e andando descalços, que nem Bethânia, pelas areias da praia de Itapuã, ele prometeu voltar. Ela quis acreditar, ele acreditava que verdade dizia, afinal, depois daquele fim de semana, haveria sempre um motivo para ele voltar à Bahia.


Frank Oliveira

sexta-feira, novembro 23, 2007

Cuba Livre


Meu amigo Hernandez mora em Caracas. Conheci o Venezuelano, quando vivia em Londres; trabalhávamos no mesmo restaurante, eu atendia as mesas, ele servia no bar. Falávamos fluentemente portunhol um com o outro, mas quando o assunto fluía para política, eu sempre me esquiva, chavista ao extremo, Hernandez realçava a Nova Venezuela governada por “El Comandante” e em como a população era feliz e que a mídia distorcia os fatos e etc, etc, etc. Quer perder um amigo, basta falar de política, futebol ou religião; quer ser seu amigo para sempre, compartilhe sonhos; e o assunto preponderante em nossas conversas era o meu sonho de voltar ao Brasil e me tornar Professor, e o dele de abrir um bar e servir Cuba Livre na costa caribenha. Bolibar seria o nome do bar batizado em homenagem ao grande herói latino americano, Simon Bolívar.

Porém, sonho custa caro e ele trabalhava noite e dia para conseguir juntar cada centavo que pudesse e realizar seu “Venezuelan Dream”. Não reclamava, sempre tinha um sorriso no rosto e repetia seu mantra: “ dando duro agora, para depois dar mole” – a única frase que consegui ensinar em português para ele. Frase que tinha ouvido de uma outra amiga e ele aprendeu, depois de umas caipirinhas.

Voltei ao Brasil e ele á Venezuela em 2005. Alguns e-mails e meses depois, descobri que meu amigo realizara seu sonho: abrira seu Bolibar na costa Venezuelana, em frente ao mar do Caribe. Eu, infelizmente, deixava a carreira de Professor, para voltar ao mercado empresarial, trabalhando com Marketing e Vendas para pagar as contas que lecionando não conseguia.

O contato foi diminuindo e cada um seguiu com suas vidas.

Na semana passada, percebi seu e-mail na minha caixa postal. Para o meu espanto, ele enviara o e-mail da Inglaterra. Pensei: “será que meu amigo abriu uma filial do seu Bolibar em Brighton, na costa inglesa?”

Nada parecido. Ele contou que a sua filha tinha sido presa na última manifestação estudantil contra o Governo de Hugo Chaves, que houve em Caracas. Como retaliação, a licença de Hernandez foi caçada e seu bar fechado pela policia. Ele termina o e-mail com a frase: voltei para a Inglaterra, infelizmente, para ficar.

Queria responder seu e-mail com a seguinte frase: “os nossos sonhos, governo nenhum consegue derrubar” . Daí, me lembrei, prometemos um para o outro, nunca falarmos de política.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Dia de Todas as Consciências

Sou pardo, moreninho para a minha esposa e negro para o sistema de cotas que me garante uma grande vantagem: pulo na frente para ser aprovado, se eu resolver fazer vestibular em Brasília ou qualquer outra cidade onde eu seria julgado pela cor da minha pele. Eis o grande dilema; conseguir um diploma por ser negro ou uma formação por mérito?

Sou pardo, mas estou mais para pardal; sou negro, mas estou mais para traidor do movimento afro-brasileiro quando grito aos quatro cantos: não enxerguem a cor da minha pele, percebam as cores da minha alma.

“Não sou alienado”, respondo aos negros que são mais racistas que muitos brancos; conheço a cor do preconceito, já a vi refletida em portas fechadas, em olhares tortos e em oportunidades de emprego; mas das coisas maravilhosas de se morar no Brasil ( e acreditem há muitas), há essa junção do branco e do preto; do amarelo e do índio; essa miscigenação que transformou esse pais em um paradoxo onde branco é preto e muito preto é branco. Fui pobre, hoje sou rico em possibilidade, pois não acredito em deficientes por cor. O homem que me tornei, surgiu quando questionei ao invés de acreditar sem me perguntar; quando cantei ao invés de reclamar; e pensei ao invés de concordar com tudo que leio ou ouço e por isso, pergunto-me na calada da noite que antecede o dia da Consciência Negra: celebraremos nesse dia a importância de grandes homens e mulheres? Ou apenas o fato deles terem sido ou serem negros?

Vou levar pedrada, mas acredito que Machado de Assis, Castro Alves, Cartola e outros tantos autores e artistas negros não devem ser lembrados por serem autores negros e sim por sua obra que brilha em todas as cores; O ministro e juiz do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, não surgiu e virou destaque nacional apenas por ser negro; ele ganhou o destaque na mídia por sua honestidade, que virou virtude rara em um mundo onde todos querem ganhar vantagem em cima dos outros.

Se adoramos celebrar e criar feriados, que surja o Dia de Todas as Consciências, onde todos os brasileiros saiam as ruas para festejar a união dos povos, independentemente da sua cor ou crença. Vamos celebrar a miscigenação das consciências, tão presente nesse país e tão ausente na mente dos brancos e pretos de todos os cantos, que só enxergam o aparente que vêem no espelho.

Sou algo a mais que ser negro; ele tem algo a mais que sua pele branca; ela é mais que seus olhos puxados; eles são muito mais que índios. Enxergue diferença na cor do outro e você estará segregando sua própria consciência; perceba que todos nós somos iguais e você estará livre da escravidão do preconceito que ainda aguarda a lei áurea do discernimento.

Frank “ Neguinho” Oliveira

Foto 1: Na familia Oliveira, a irmã é negra, o irmão é branco, a sobrinha é ruiva, o outro irmão é negro e a mãe é branca. O outro irmão japonês e o Pai Negro estão ausentes.

Foto 2: Na familia Oliveira, a Vó é India.

A Conversa: Semente da Paz

Quando dois amigos sentam para conversar, depois que as suas diferenças os ameaçaram com uma separação, surge a prova que ainda há esperança para a humanidade.

Quando eles maduramente discutem suas diferenças e pensam em conjunto como trabalhá-las para que elas não os afastem um do outro; o sol brilha mais forte no frio do hemisfério norte, a lua dá cambalhota na retina dos amantes, as estrelas cintilam harmonia na escuridão da guerra. Israel se comunica com a Palestina. Os políticos brasileiros acham uma jazida de vergonha na cara e se dão conta que com o dinheiro do povo, não há “jeitinho” e nem conveniências.

Quando esses amigos se entendem, percebem que a amizade é mais importante que os pequenos defeitos que todos temos, mas no outro adoramos apontar por brilhar mais. Nesse momento, a fome de amor na África fica mais branda e o terrorista árabe compreende que a única Jihad que vale a pena é explodir o próprio ego.

Quando dois amigos rompem à barreira do orgulho e corajosamente terminam essa conversa num grande abraço; eles abraçam o mundo e fortalecem as raízes da paz que começa quando reconhecemos no outro, nós mesmos.

Frank

sexta-feira, novembro 16, 2007

Segunda Vez


Tamiris ficou grávida pela segunda vez.

“Na primeira foi descuido, agora foi o quê?”, cochicham na rua que ela mora. A mãe está inconformada – “A minha menina só tem 18 anos” – chora pelos quatro cantos. Lamentando pela menina que mal acabou o 2º grau e trocou o cursinho universitário pelo supletivo maternal.

Tamiris chorou dia e noite, noite e dia; o pequeno Gabriel de dois anos, não entendia porque a mãe estava tão triste e triste ficava.

Todo mundo apontava o dedo, toda a família reclamava, comentava e julgava.

Esses dias o celular tocou, Tamiris pensou duas vezes antes de atender, tudo que menos precisava era outro amigo chorão, outro parente discriminando; mas era a sua irmã que morava além do mar:

“Oi maninha – disse a irmã – liguei para te parabenizar e dizer que você pode contar comigo para o que você precisar.”

Os parentes se revoltaram – “Não é hora de parabéns, é hora de enfiar juízo nessa menina” – diziam pelos cantos. A irmã, anos luz de discernimento e lucidez, sabia que cada um de nós tem a sua história pessoal e não precisamos de ninguém tornando ainda mais pesada a cruz que carregamos.

Tamiris está mais calma e já contou a Gabriel que em breve, ele ganhará um irmãozinho. A mãe ainda chora pelos cantos, mesmo sabendo que em um mundo onde há mais clinica de aborto do que padaria, é necessário ter muita coragem para ser mãe antes do tempo que os outros julgam ser o mais correto.


Frank

terça-feira, novembro 13, 2007

Mágica


Andava meio confuso, distraído e incomodado, Faltava algo, um tempero, como se a vida estivesse sem sabor. Não sabia o que era, só me sentia inconformado, sentia que perdera algo que por ter sempre estado comigo, quando se foi, não notei a principio sua falta, mas agora claramente, estava ausente em tudo a minha volta.

Queria esse algo de volta, mas como procurar alguma coisa que eu nem sabia mais o que era? Achei que estava ficava louco, afinal tudo estava no devido lugar: casa, emprego, mulher, contas pagas, saúde intacta – então o que faltava???

Pensei em buscar terapia, cura holística, qualquer ajuda que me fizesse enxergar meu mundo como sempre o havia visto. Foi então, que Vitor iluminou minha escuridão e percebi alarmado: Faltava mágica!!!

Não era mágica de circo, era mágica nas coisas, mágica que torna cada dia especial. Eu estava vivendo sem horizonte algum, sem achar graça em nada, sem ter tempo de paquerar a lua que aparecia na minha janela, só para me namorar. Estava perdendo o interesse nas coisas simples que emocionam, estava transformando o milagre da vida em lugar comum.

Acordava, trabalhava, estudava, comia, dormia e no dia seguinte repetia tudo de novo, sem ter rumo, sem achar mágica em nada. Tinha virado um zumbi, como tantos outros que você encontra no elevador ou no caminho para o trabalho que nem responde quando ouve bom dia e te solta um “não enche!” na sua cara. Eu era como eles, indo e vindo num dia-a-dia sem sentido com completa ausência de riso. Pior é que nem notei que virara zumbi; tinha cérebro, mas alguém comera meu coração.

Se não fosse pelo Vitor...mas afinal quem é Vitor?

Vitor é o meu sobrinho de 9 anos. Viajamos juntos para São Tomé das Letras com uma caravana: minha esposa, mãe, irmã e meus outros dois sobrinhos Lucas e Guilherme. Estávamos na praça da igreja em São Tomé, esperando os outros para ir embora, quando lhe perguntei:

- Vitor, qual foi o melhor momento da viagem?
- Foram todos os momentos – ele respondeu – todos os momentos são mágicos!

Foi ai que me dei conta, perdera a minha criança interior que via mágica em tudo. Estava chovendo no meu coração e eu não estava deixando raio de sol algum bater na chuva e criar um arco-íris no meu sorriso.

Desde essa conversa, tenho trabalhado incansavelmente para resgatar minha criança interior, que está presa nos escombros da ilusão diária que mata aos poucos a nossa capacidade de rir e sonhar. Tenho quase 40 anos ( na verdade 33, faço 40 um dia), mas isso não quer dizer que no processo de envelhecer, eu precise deixar o menino que sempre fui nas sombras. Não sei quanto a vocês, mas preciso dessa mágica na minha vida e vou fazer o melhor que puder para recuperá-la e mantê-la sempre presente, mesmo que para isso, eu seja considerado um louco que se recusou, em nome da mágica da vida, a se adultar.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Tonho e o Trem para as Estrelas

Tonho foi embora, como se despede qualquer outro homem que pega o trem para as estrelas no silêncio do subúrbio, no anonimato dos comuns.

Não foi herói, apenas um homem admirável que viveu bem seus 50 anos de vida. Formiguinha, ele viveu como eu e você, sem flashes, sem sair na Caras, apenas com dignidade e coragem de ser honesto num mundo cada vez mais corruptível.

Conheci o Antônio (todos o chamavam de "Tonho") em 1988, junto com a cidade de São Paulo; junto com o novo mundo que surgia no retrovisor dos meus 13 anos. Ele era o namorado da minha mãe, mulher corajosa, que se arriscava no amor, três anos depois que meu pai tomara o mesmo trem. Ele foi chegando com jeito e cuidado, sabia que pior que enfrentar pai armado; é ter que encarar quatro filhos saudosos de pai que partiu sem se despedir. Teve sucesso, mesmo sendo o único ser da terra que me chamava de Rivado ( meu odiado segundo nome – quem afinal criou o segundo nome?), tornou-se um amigo, nunca padrasto e foi ficando e construindo uma presença em nossas vidas.

Uma década depois, minha mãe e ele decidiram tomar rotas diferentes, mas ele continuou por um tempo em festas e aniversários, churrascos e batizados, até que foi sumindo e sua presença foi ficando cada vez mais rara. Tempos depois, descobrimos a verdade: ele lutava desesperadamente contra a Diabete.

A batalha estava sendo covarde e dolorosa. Lentamente e de forma impiedosa, a doença lhe tirou a visão, as pernas e a vontade de viver, até que por fim, lhe tirou o corpo.

Antes do seu embarque, minha mãe foi se despedir, com a minha irmã e meu tio. Meu irmão não quis ir, preferia guardar a imagem do Antônio sadio e feliz, não queria vê-lo moribundo e doente. Foi criticado; eu achei coerente. Cada um lida de um jeito quando está perdendo alguém que se ama.

Eu ainda aceno “goodbye”, pois apesar do seu embarque para as estrelas, ele continua no meu peito; lugar ideal para aqueles que estarão momentaneamente ausentes desse mundo e dos nossos olhos, mas que merecem mais do que pétalas murchas de lágrimas, disfarçadas de flores eternas em enterro.


Frank

Notas: A Diabete é uma doença crônica, caracterizada por uma disfunção no pâncreas. Existem vários tipos de diabete, mas os mais comuns são o tipo 1 e o tipo 2. Para saber mais detalhes, o site abaixo define bem a doença e as formas para combatê-la:
http://www.anad.org.br/html/dia_que_ediabetes.htm

quinta-feira, novembro 08, 2007

Meninos da Sé

A Praça da Sé – que adorável cartão postal, repleto de futuro perdido!

Todos os dias, cruzo a Sé no centro de São Paulo. Não o faço por diversão, se pudesse a evitaria.

Moro próximo da Praça do Carmo, a Sé separa minha casa do ponto de ônibus que me leva diariamente ao trabalho nas terras distantes de Santo Amaro. Já tentei ir pela Praça João Mendes; até já tentei ir pelo Pátio do Anchieta, mas a pressa e o relógio atrasado exigem que eu cruze a praça imunda de pobreza e não importa quantos cálculos mentais eu vá fazendo ou as ocupações que eu vá pré-pensando, sempre dou de cara com o descaso humano e vejo centenas de homens do futuro em cada criança descalça cheirando cola nos cantos ou tomando banho nas fontes públicas.

Não gosto de ver criança sem esperança de futuro, por isso evito a Praça da Sé sempre que posso e quando não consigo, atravesso-a como um fantasma; sem deixar rastros de olhar, nem pegadas de atenção e felizmente, ao contrário dos meninos da Sé, estou sempre de passagem, tenho para onde ir, e sigo ignorando, como todos os outros estão fazendo.

Frank Oliveira

domingo, novembro 04, 2007

Non, Je Ne Regrette Rien


Não lamento o suor secado no vento, o que tenho feito abaixo do sol; o que escondi na sombra da noite adentro, as companhias por medo de fica só.

Não me arrependo dos erros disfarçados de acertos, do fracasso por medo; por ter muitas vezes duvidado de Deus, dos outros e de mim mesmo.

Não lamento pelos amigos perdidos, se foram embora, eles é que me perderam; nem me arrependo dos inimigos adquiridos, se surgiram agora, talvez seja porque nunca os tenha percebido.

Não lamento, nem me arrependo; mas nunca vou me perdoar se por medo de perder, deixar de amar, de correr, de me arriscar. A vida flui e quero seguir correnteza à frente, never backward, always forward, em direção ao tempo que nunca foi, nem nunca será, pois para sempre é; presente divino para todo homem, mulher que ousar viver sem se lamentar, nem se arrepender.

Frank

Notas: Texto escrito logo após ter assistido o fantástico filme Piaf - Um Hino ao Amor, que narra a trajetória da cantora francesa Edith Piaf com a sua vida conturbada, recheada de perdas e de glórias. Um filme edificante e inspirador.
Non, Je Ne Regrette Rien é uma das mais belas canções que Piaf gravou em sua carreira.

terça-feira, outubro 30, 2007

O Mago Alquimista

Queria ser mago, ser bruxo,
Fazer chover, dominar o medo,
Mas sabia que para ler a linguagem do mundo,
Precisaria entender primeiro a mim mesmo.

Decidi então ser um simples Alquimista,
E ví que não era tão dificil transfomar chumbo em ouro,
Mas foi o amor que me mostrou num certo dia ,
o que era realmente mais precioso.

Fui transformado de homem cinza para homem dourado,
Numa noite de total alquimia de corações em sintonia,
Sol e lua entraram em eclipse, céu e terra se uniram e formou-se o barro,
e finalmente percebi qual era a verdadeira alquimia
pois da união entre minha amada e eu, nasceu a nossa filha.

Hoje olhando minha pequena criança,
Percebo o que é realmente magia.
E amando-a na saúde e na doença,
Finalmente estou me tornando um Mago Alquimista.

Londres
21 de Dezembro de 2003
Frank

sábado, outubro 27, 2007

Paraiso na Sua Porta


Ah, se eu pudesse te mostar as maravilhas de um certo lugar, tão próximo que
muita gente não consegue enxergar.

Ah, se eu pudesse te fazer escutar as doces melodias que ecoam pelo ar, você
entenderia que as flores estão sempre a cantar, e que uma sinfonia é entoada
pelas pétalas de uma rosa ao desabroxar.

Ah, quantas coisas bonitas que fazem sorrir e chorar de alegria e gratidão a
cada despertar e as vezes passam desapercebidas na pressa em caminhar e na
ilusão de querer chegar a nenhum lugar.

Ah, e ainda dizem que paraiso você só vai encotrar depois de desencarnar,
mas o que estou aprendendo é que o paraiso está aqui mesmo, no aqui e agora
para gente experimentar.

E esse paraiso é tão fácil de adentrar, de sentir, de olhar, de cheirar;
tudo o que se precisa fazer para nele chegar é parar de procurar e perceber
que está á sua porta, nas coisas simples do dia-a-dia a te esperar.

Frank

sexta-feira, outubro 26, 2007

O Mestre da Cadeira Vazia


Certa vez pedi um mestre
Que me ensinasse as coisas da vida,
E através de um sonho, alguém quis que eu soubesse,
Que o meu grande mestre estava sentado atrás de uma
cortina.

Curioso me aproximei
Com todas as perguntas que eu tinha,
E surpreso o que encontrei,
Foi apenas uma cadeira vazia.

Quando acordei tentei entender
O que a cadeira vazia significava;
E por mais que pensasse, continuei sem saber,
Onde é que o meu mestre estava.

Então na noite seguinte sonhei novamente
Com a mesma cadeira vazia;
Mais dessa vez havia comigo mais gente,
Ao redor da cadeira do mestre que ninguém via.

E uma onda de lucidez e amor foi tocando a gente
Enquanto uma voz ia sendo ouvida;
Explicando para todos que por mais que se tente
O único mestre que vamos encontrar é a própria vida.

Por isso a cadeira estava vazia,
E embora os mais sábios e tolos tentem ocupá-la;
Cedo ou tarde, estará bem a vista,
Que seguir outros passos não encurtará a nossa jornada.


28 de Agosto de 2003
Calcutá, Índia
Frank

quinta-feira, outubro 25, 2007

As Cores de uma Canção


Veio com uma canção, de repente, sem aviso; elevando-me ao topo da montanha do meu coração, onde sou amor e boa aventurança, sem esforço e sem segunda intenção.

Era apenas uma meditação,um conversar com Deus, um desejo de sentir-me livre das
sensações e emoções pegajosas do dia-a-dia. Tentei orar, pareceu artificial, não consegui. Peguei um texto, pulei as palavras, não lia. Enfim, deixei-me levar pelas ondas sonoras de uma bela canção.

Minha mente silenciou, meu coração se abriu. Do aparelho de som, a melodia ecoou pelo quarto,como se pequenas partículas coloridas fossem criadas a cada nota tocada.

Não era preciso oração. Não era preciso palavras. A canção era a corda que precisava, para escalar o pico mais alto que o homem pode alcançar;e ao chegar, percebi com surpresa que era como se sempre estivesse lá.

Por segundos, que parecia eternidade, sabia de tudo e explodi em milhões de pedaços.

Cada pedaço, uma história. Cada história, uma experiência. Cada experiência, uma escolha, e em cada escolha, realização. Segui observando em mim mesmo, o nada e o tudo,o tudo e o nada.

Até que a música foi acabando e a contra gosto fui retornando para a "casa" que habito nesse aqui e agora.

Abri os olhos; olhei pra cama e percebi que já era hora de repousar essa casa e voar pelos ares; e quem sabe agora, não mais ouvindo, mas sendo a própria canção a ser tocada.

Framk

Nota*: Que sejamos todos fonte de inspiração para aqueles que nos cercam através de nossas ações, e não só por meio de palavras ou tentando convencer alguém do que achamos ser o certo ou o errado. Que cada ação seja uma nota musical explodindo em cores no coração de cada um que encontrarmos.
Nota**: A canção que ouvia no momento da meditação era a Rainbow Way do CD de mesmo nome do cantor Oliver Shanti.

Templo do Elefantinho

Há um templo com bandeirinhas amarelas em algum lugar da India. Desconfio que seja nas montanhas, pelas voltas que tivemos que dar, se bem que podiamos ter atravesado
o monte, mas ninguem quis se aventurar.

Já estive por lá inumeras vezes, e sempre acordo repetindo o mantra : Ganesha Saranan, Saranan Ganesha*.

O templo é dedicado a Ganesha, o Deus elefante da mitologia hindu,e estátuas do padroeiro dos escritores estão por toda parte.

Estranho que quando sonho com esse lugar, essas imagens sempre me trazem uma sensação imensa de familidariedade. A sensação de alegria e força interna,
sempre acompanha esses sonhos, seguido de muita inspiração, quer seja para escrever uma poesia ou trabalhar com arte.

Comecei a desconfiar que não era sonho, quando uma amiga contou que sonhou com o mesmo lugar e perguntou se eu lembrava disso. Respondi que sim e ela exclamou: Nossa tivemos o mesmo sonho!!!

Será que era apenas um sonho?

Esses dias, após uma prática de meditação, acabei relaxando demais e dormi. Para minha surpresa, quando despertei, estava com a minha esposa dentro desse templo.

O interessante disso tudo, é que mesmo não lembrando totalmente que algo espiritual ocorre conosco quando dormimos, tenho cada vez mais certeza que enquanto o nosso corpo descansa na cama, a nossa consciência ( alma, espírito, ou seja lá como vocês queiram chamar) continua em atividade em outro lugar.

Em tempo : por que estou contando isso ? É porque estou desconfiado que essas visitas ao templo do elefantinho tenha algo a ver com minha mão que não quer parar de escrever.

Ou será isso apenas coincidência ?

Frank


********************************

*Ganesha Saranan : Mantra de proteção do Ganesha. Pedindo refúgio espiritual dentro da energia dessa divindade hindu que não tem nada de lenda ou misticismo ( explicação: Professor Wagner Borges).

Imagem: Representação do Deus Ganesha na peça Lakshimi: A Deusa.

quarta-feira, outubro 24, 2007

O Ego e a Consciência

I
Coração partido
Estradas separadas
O ego pergunta
A Consciência cala

A lembrança do beijo
O peso do tapa
O ego se irrita
A Consciência cala



Certas palavras
São como navalhas
O ego grita
A Consciência cala

A dor é clara
Em qualquer jornada
O ego xinga
A Consciência cala


II

Quando o mundo diz não
A experiência prevalece
O ego ataca em vão
A Consciência sorri e segue

O espinho fere
Mas a beleza da flor permanece
O ego não entende e perece
A Consciência sorri e segue

Perder em vida
Dói mais que perder em morte
O ego duvida
A Consciência sorri e segue

III


Alem dos estragos das paixões que não existem mais
A jóia do peito brilha eternamente
O ego ferido vai ficando pra trás
O coração calado segue pra frente


IV

Siga em frente, consciência eterna
Mesmo que eu não entenda seus motivos
Um dia saberei que sua não-ação não é inércia
E o seu silêncio fala mais alto que meus gritos

Frank

terça-feira, outubro 23, 2007

Um Mundo sem Livros


Ontem a noite sonhei
Que acordava num mundo sem livros
E como amo tanto ler
Quase fiquei maluco

Não havia computador
Nem jornal, nem revista
E para aumentar o meu temor
Esqueci como escrevia

O mais estranho é que em tudo acreditei
Que podia ser sonho, nem sequer desconfiei
Como crianca tive que aprender a ler e escrever novamente
Sem tantas condições e oportunidades como anteriormente

Para cada palavra aprendida um valor
E em cada palavra lida um orgulho
De aprender desta vez com amor
E a dar valor ao conhecimento expresso no mundo

Quando acordei, mal pude acreditar
Que nada fora real e com alívio respirei bem profundo
Mas uma coisa esse sonho veio me ensinar:
Ter mais prazer e brilho no olho em meus estudos

Pois sei que nem todo mundo tem condições de comprar um livro
E boa parte do povo nem sabe que existe internet
E por isso que agradeço o que aprendo e o que experimento compartilho
Tentando manter nas palavras o amor que o universo tanto me fornece


Frank

quinta-feira, outubro 18, 2007

Olhar de Mãe

Esses dias, eu pesquei um olhar de mãe. Nada de novo, mães olham seus filhos o tempo todo; por vezes com orgulho, outras vezes com não tanto, mas esse é um daqueles olhares de amor puro, que tanta gente sente falta nesse mundo.

Era Domingo, dia perfeito para reunião de família, mesa farta, crianças correndo pela casa, ouvir “ vai embora não...tá cedo”, mesmo quando o galo já prepara seu cacarejo. Foi depois do almoço, quando brincava com meus sobrinhos no sofá, que percebi certo olhar, olhar que até agora tento descrever, compreender, mensurar e quanto mais tento, mas volto a um estado de não-palavras, de total graça.

Não era olhar qualquer-amor, nem amor ganha-perde, nem se reduzia ao tempo e ao espaço. Era amor fluindo boa aventurança por todos os lados. Amor corrente, fluindo naturalmente dela para mim, mesmo que eu não notasse, esse amor assim meio sem fim.

Amor de mãe para filho, atemporal, incondicional e indestrutível. Amor que flui desde sempre e eternamente foi, é e será. Amor que filho não sente pela mãe e nem pai sente pelo filho. Amor que ninguém consegue imitar.

Eu quase consegui pegar aquele olhar, guardar no bolso e distribuir para todos, mas o máximo que consegui foi sentir, e depois de tentar tanto descrever o que recebi, desculpe amigos leitores, acho que vou desistir.


Frank

terça-feira, outubro 16, 2007

Aprender Ensinando ( Dia dos Professores)

Ensinar é um desafio constante.

É ser bandeirante e abrir novos caminhos dentro da mente dos estudantes.

É ser humilde para entender que o conhecimento do assunto não o torna mestre do aprendizado.

Por vezes, os papeis se invertem, mestre vira aluno, aluno vira mestre. Outras vezes, claramente, se percebe que de tudo o que foi ensinado, nada foi assimilado, pois cada aluno tem seu próprio ritmo e nem sempre eles aprendem tão facilmente o que já virou lugar comum na geografia do Professor.

Por isso quem ensina, precisa rechear seu ensino com amor.

Amor para aprender a ler olhares. Olhar de quem nada entendeu e olhar que recita sem ter decorado, a informação recebida.

Amor para escrever mais que o ABC na lousa. Amor para ensinar o alfabeto da solidariedade.

Amor pra imprimir no coração do estudante, lições de tolerância, respeito e humildade.

Amor para perceber com satisfação que a melhor nota que um estudante pode atingir não estará presente no teste escrito ou na prova corrigida e sim no sorriso de quem agradece ao professor mais uma lição de vida aprendida.


Frank

Ps: Dedicado a todos os Professores e Mestres que continuam aprendendo com seus Alunos.

segunda-feira, outubro 15, 2007

Não e Sim


Ela disse não quando eu queria ouvir sim. Disse não com toda razão, pois não havia possibilidade do sim, por mais que eu achasse que não.

Na verdade, eu achava que sim; não achava que ela fosse dizer não; quem pensa em não, quando se quer tanto um sim?

Queremos sim, pois morremos de medo de ouvir não. Não machuca, não repele e não assusta. Não queremos ser rejeitados, não queremos não ser queridos.

Queremos sim sempre, pois sim dá prazer e sim nos faz bem. Sim, Odiamos ouvir não! Contudo o não ensina, o sim vicia; o não fortalece, o sim nos enfraquece; o não nos mostra o valor do sim, o sim tem sentido de não.

Ela disse não e agora eu entendo que foi sim.


Frank

domingo, outubro 14, 2007

Uma Árvore Chamada Esperança

Em meio ao cinza do centro de São Paulo, respira o Ibirapuera. Mais que um parque, é do centro de Sampa o pulmão.

Costumava meditar em seus gramados e era lá que morava uma amiga que cedia gentilmente sua sombra para as minhas leituras e escritas, carinhosamente a apelidei de Dona Esperança.

Ela era uma árvore velha, diziam que tinha mais de 100 anos. Suas raízes se esparramavam ora embaixo, ora encima do gramado e em seus troncos estavam pichados nomes de casais e palavrões. Os moleques costumavam se pendurar em seus galhos, o que me atrapalhava às vezes, mas como Dona Esperança nunca reclamava quem era eu para dizer alguma coisa.

Li muitos livros legais sob sua sombra e foi por lá que escrevi a minha primeira declaração de amor a minha esposa.

Meditar ali era sempre um prazer e em certos dias, a gente atá batia um papo. Eu a agradecia pelo oxigênio e pela sombra e ela me agradecia por ter tempo de conversar com ela.

Cara, que tardes agradáveis passei por lá. Todo dia claro era desculpa, para arrumar um tempinho e ir até o parque.

Meditando, lendo, escrevendo ou apenas descansando, fui começando a nutrir um grande afeto por aquela velha amiga e ela o mesmo por mim.

Apos algum tempo fora dos pais e da cidade, retornei a São Paulo e ao parque pulmão, e procurei ansioso por Dona Esperança, mas só encontrei o tronco pichado e cortado no lugar onde minha amiga morou por mais de 100 anos.

Lembrei com nostalgia de nossas tardes e amizade, e lamentei sua ausência.

Consolei-me com a cena imaginaria de sua morte por um raio ou qualquer outra obra da natureza para sua partida; mas ao ver um homem jogando a lata de cerveja no lago, mesmo com o lixo a poucos metros, fez com que eu sentisse vontade de chorar e começasse a desconfiar de outras causas mais humanas para o desaparecimento de minha amiga, porém insisti com a idéia de raio na cabeça e com a fé nos homens apesar da Dona Esperança ter sumido e da lata que junta a outras tantas descansa no fundo do lago do parque.

Frank



"Quando uma árvore é cortada ela renasce em outro lugar. Quando eu morrer quero ir para esse lugar, onde as árvores vivem em paz” (Tom Jobim)

sábado, outubro 13, 2007

Próprio Amor

Chateada, ela caminhava. Olhos tristes, coração vazio de atenção. Seu amado novamente furara um buraco em seu peito e a tristeza a acompanhava a cada passo de sua jornada rumo a solidão.

Amava tanto a idéia de amar, que mesmo amando, sozinha estava. Seus amados não correspondiam ás suas expectativas; nem a eles, ela interessava. Ela preferia ficar com alguém para evitar ficar sozinha, mas sozinha sempre continuava; e se importava, dramatizava, como se adorasse viver aquela tragédia planejada; embalada com a sua própria dor, onde deveria ter um próprio amor.

Mágoas ela guardava; rendida, derrotada, lutando em manter alguém ao lado que nunca foi seu. A estima tão necessária para encontrar o príncipe que o universo lhe prometeu, sumia a cada passo seu e ela continuaria definhando, sofrendo e atuando nesse seu drama, menos grego, mais mexicano; do coitadinho ser humano, se não visse uma frase pichada no muro. A frase era para ela, não havia engano:
“Que mal fazemos a Lua e ao Sol quando os ignoramos?”

Uma frase, algumas palavras, como se fosse um furacão, a arrancaram do chão. Ela se viu e do que viu, percebeu que ela não passava de um poço de lamento e desilusão. Ela pensou, discerniu, ponderou e percebeu que não dependia de atenção para brilhar. Ela não precisava do espelho nos olhos do outro refletindo aceitação. Ela era o sol, a lua, em toda a sua dimensão e não poderia atrair alguém que viesse para ficar, se continuasse na sombra, a flertar com a escuridão.

Por fim, voltou a caminhar, dessa vez de cabeça erguida, pois compreendeu que só encontramos do amor, a jazida, quando temos estima por nossa própria vida.

Dois Pares de Asas


Voava, quando ela tocou minhas asas. Por ela esperava, mas sabia que encontros assim, não tem hora marcada. Quando a vi, ela já estava na altura das minhas asas e sua aura era do tamanho do Himalaia.

Nossos corpos no ar bailavam, como se não fossem corpos, mais nuvens coloridas, onde nossas consciências fluíam e se condensavam. Podia sentir seu toque e ela era tocada, como se minha alma a dela se juntasse, num gozo continuo, entrega eterna, por entre a noite clara.

Não via seus olhos, mas sabia que ela me olhava. Por vezes, ela era parte de mim, outras vezes, fora estava. Não era sonho, sentia tudo como sinto o agora; nem era realidade, pois mais que acordado, mil vezes lucidamente eu pensava.

Voava, eu e a minha amada, como se sempre estivéssemos por lá e a gravidade tão injusta com os homens na terra, naquele lugar, deixava homens pássaros se tornar.

Amava, juro que a amava , em corpo e alma, coração e corpo, mas nesse amor, eu era o próprio beijo, o próprio gozo. Minha amada em mim entrava, como se o próprio amor se manifestasse e quisesse saciar a minha alma, numa fusão de auras, batida conjunta de dois pares de asas.

Ainda sinto o toque da minha amada em minha aura. Não posso te provar, amigo, que voei com ela até que o sol nos trouxesse de volta, mas saiba que na hora certa, você também sentirá suas asas, pois somos todos pássaros nos braços da nossa amada.

Lakshami: A Deusa e os Voadores

Mais um encontro com a Deusa e dessa vez com meus grandes amigos voadores junto comigo.

Foi com satisfação que fiquei sabendo que a Dharma Cia de Artes iria reapresentar o espetáculo Lakshami a Deusa, no Teatro João Caetano. Tinha assistido o espetáculo em Maio passado e ainda continuava ouvindo o mantra "Sri, Sri MahaLaksmi namaha" no meu coração e mente. A imagem da dançarina e atriz Thais Graça incorporando a Deusa ainda bailava no meu coração, com a som da voz magistral da Meeta Ravindra. Como só fiquei sabendo da apresentação no último dia de espetáculo em Maio, não tive tempo de convidar meus amigos da Voadores e do IPPB, os quais eu tinha certeza que adorariam estar presente.

Parece que a Deusa atendeu minhas preces e o espetáculo começou a ser reapresentado e fui um dos primeiros a chegar na estréia, junto com minha querida amiga voadora Liege, minha irmã, primas, minha musa Auri e amigos. Logo chegou o Gustavo (Voadores BH) e uma amiga, depois o Fabio Mocci e a namorada, mais a turma do IPPB: Samuel, Felipe, Zé Luiz e meu querido amigo Vanderlei com suas respectivas companias.

Novamente, embarquei ( dessa vez junto com meus amigos) numa viagem pela India, por meio dos cantos devocionais a Lakshami, na voz maravilhosa da Meeta e na dança espetacular da Thais.

Enquanto dança, Thais consegue tocar a alma de cada um presente com os seus movimentos e passos. É de arrepiar a alma e fazer jorrar o coração de amor, sua dança da prosperidade, em que ela despeja "moedas de ouro" para seus devotos. Enquanto ela fazia isso, era como os bolsos da minha aura se enchessem de boa aventurança, coragem e força para buscar aquilo que tanto desejo para a minha vida.

No final do espetáculo, todos estavam visualmente tocados pela magia e beleza desse "ritual" ( palavras da Liege) homenagem a Deusa da prosperidade.

- Frank, foi assim da outra vez? Perguntou minha irmã.

- Não - respondi- eles surpreendem a cada espetáculo, e meu amigo Ganesha não me deixa mentir...

Frank


O espetáculo continua até o dia 28 de Outubro ( ás Sextas, Sábados e Domingos. Mais informações:
Teatro João Caetano
R. Borges Lagoa, 650 Vila Clementino.
Metrô Santa Cruz
Tel: 3515 7512

segunda-feira, outubro 08, 2007

Por quem as Árvores Balançam


Ei, larga essa preocupação e vem aqui viver e ver. Vem pisar na grama, na terra; vem pisar no chão pra valer. Vem respirar os raios de sol que carregam o sopro da vida, vem sentir o ar recheado de amor. Vem olhar o mundo que criaram para ti, vem perceber porque chamam quem te deu consciência de Criador, mas esqueça por um momento, o criador da ignorância; esqueça o criador que julga e pune peraltice de criança.

O Criador de quem falo é a inspiração por trás da pena do escritor.
É a poesia mambembe de versos tortos desse poeta; é a melodia pronta nas cordas vocais do cantor; é o criador das tintas que o artista usa na aquarela.

É o Criador que enche de perfume a flor e a faz desabrochar.
Só para você enxergar que o amor não pára de jorrar em todo lugar.

É por esse Criador que os sinos batem, os pássaros cantam, as folhas caem e as árvores balançam.

É por esse homem ou mulher, velhinho ou menino; mal-me-quer e bem-me-quer,
isso ou aquilo, que os poetas e sábios tanto falam e que tanta gente confusa
mesmo chamando-o de diferentes nomes, só o sentem na pele, na fuça, quando
se apaixonam.

Por isso vem aqui fora, vem viver um pouquinho. Larga esse problema de lado,
só por agora, vem brincar de ser menino. Menino que olha o mundo com os olhos de aprendiz e sabe que é preciso muito pouco, um sonho recheado, um sorriso bobo; uma coisinha de nada para ser feliz.

Vem cá, vem aqui; vem brincar de ver o criador nos olhos dos outros, na criança que ri; e eu te prometo, não como quem quer evangelizar, mas como quem compartilha um segredo; que seus problemas ou seja lá como você chama, o que te desanima, o que te amedronta, vai passar, só basta você olhar para o mundo e começar a enxergar.

Frank
22 de outubro de 2003
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