quinta-feira, outubro 31, 2013

MOVIMENTO DE REPOUSO DO OLHAR


- Quero uma resposta? - pede o Caminhante;

- Preciso mesmo responder? - Responde a Estrela Guia.


MOVIMENTO DE REPOUSO DO OLHAR

Medito no tudo,

Procuro incluir a minha consciência na ausência de um foco; nada procuro e no todo me integro.

Estou em paz sendo nulo; daí o som de uma gota vindo da pia me distrai.

Sou a gota caindo em câmera lenta. 

A gota que é do tamanho da terra e que demora uma eternidade para percorrer o trajeto entre a torneira e o ralo.

Sou a gota caindo...

Daí a gota cria ouvido e escuta outro som sendo produzido; 
Um som que vem da janela, 
E que me leva, 
E que envolve 
E me dispersa.

E assim vou sendo levado, 
De som em som, 
Para longe daquilo que mais me importa; 
Como todas as demais coisas na minha vida...


quarta-feira, outubro 30, 2013

HOMEM ENCRUZILHADA


Não me peçam para escolher – não saberia.

Sempre vivi em cima da Ponte dos Dois Desejos. Sou a encarnação da Dúvida.

Nunca consegui escolher um caminho por inteiro.

Não sei se é medo, não sei se é vontade de sempre mudar meu pensamento; pois aprendi com o elevador a não ser o mesmo.

Todos que conheço querem plantar raízes, eu só quero plantar estrada.

O problema é que quando estou caminhando fico pensando em ficar parado e quando estou parado so penso em uma nova caminhada.

Sou o Homem Encruzilhada.

Nunca sei onde a vida vai me levar;

O pior é que nem penso em mudar...

terça-feira, outubro 29, 2013

COMO LIDAR COM A DÚVIDA


Pergunto ao amigo poeta:

- Como você lida com a dúvida em sua caminhada espiritual?

Ele responde:

- Lido com a dúvida como lido com tudo na vida: equilíbrio. A dúvida sempre vai estar lá. Você nunca vai escapar dela, por mais certeza que tenha das coisas, aliás, a dúvida é a sua única certeza das coisas. Na dúvida...rsss...sigo o principio coletivo desse mundo. Explico:

1. Se a minha loucura é compartilhada com outras pessoas, já sei que não vou ser colocado no hospício.
2. Faz bem para mim?
3. Para não correr o risco de a minha loucura virar uma insanidade coletiva como foi o nazismo, sempre me pergunto: está fazendo o bem de outra pessoa, ou, ao menos não está prejudicando os outros?
4. Está contribuindo para melhorar a minha vida nesse mundo e com as pessoas que amo?


Se houver quatro respostas afirmativas, já sei que não estou tão perdido assim. Agora, se o que eu estou fazendo atentar contra mim ou contra o meu próximo, não tenho dúvidas: seja o caminho que for, jogo fora!

segunda-feira, outubro 28, 2013

Fios da Escuridão


Num sei quasi nada, só um bucadin, mi si fio. As estrela mi levaram para corrê o mundo intero e acabei voltando pra cá pra aprende a ouvi muito e falá poco, assim sendo, consigo ouvi meus cabocos e eles conta uma istória di um povo que ganho vida pelas mãos du Criadô e essa vida era consciência para aprende a lidá cum o mundo da dualidade e sê luz aqui donde nada é nem claro nem escuro.

Dai entendi, mi si fia, que eu pirdi um tempão, correndo só atrás da
luz, do distino; sem compreende a origem, o começo, quando nós num era luz não, nós era tudio feito de massa escura sem movimento até qui o Criadô nos animou ( num sabe? A tal da alma/anima) e essas istórias foram esquecidas por causa diquê o povo esquiceu e o povo esquiceu porquê parô di contá...

Dai, mi si fio, sabe que tem gente que podi aprende isso e outros que num
aguentam essa verdade e precisam acreditá em avatá, num é? E dispos passa a acreditá que eles mermo são avatá, até a hora que cai a ficha e eles percebe -
sem ficá doidio, esse preto espera - que o trabaio é aceitá tanto a luz quanto
as sombra e fazê um trabaio aqui na carni bem feito.

Qui trabaio é esse? Vixe, aí é cum cada um, né, mi si fia?


Pai Franki da Estrada

quinta-feira, outubro 24, 2013

O DEUS DAS TRAGÉDIAS


Esses dias recebi esse e-mail:

" Não sei por que
Você insiste em escrever
Essas coisas sobre Deus;
Se Deus existisse
Não deixaria tanta tragédia
Ocorrer no mundo"

Até então, nenhuma novidade. Vontade de responder ao amigo leitor, nenhuma; afinal, na fé de ninguém, ponho colher alguma; estou mais preocupado em digerir a minha. Contudo, logo em seguida, um tijolo em forma de prosa poética começou a cair na minha cabeça e eu escrevi isso:

" Nesse plano da dualidade, onde para cada banda há uma metade, sempre haverá tragédia, sempre haverá morte.

Como poderíamos aprender algo dentro dessa realidade, dar valor a vida e a felicidade; se não fosse por seus opostos que equilibram a humanidade?

Boa parte do Mundo deseja a paz, o amor e a solidariedade; enquanto a outra parte da Terra luta por guerra, ódio e semeia a discórdia. As coisas sempre foram assim e assim serão sempre; a única coisa que muda é o lado em que você escolhe dessa questão.

Por isso, cuidado ao apontar o dedo para o seu irmão! Tem gente que mata em nome de Deus; assim como há os que ajudam em nome do amor.

Não há pecado, nem inferno. Quem odeia tem as mesmas chances de quem ama no girar do universo. A diferença é sensação em quem apanha e a de quem está com a tapa na mão.

Tudo é muito relativo e sendo o bem e o mal tão optativo, de que adianta caminhar para a luz - você se pergunta - e eu te digo; se bateu dúvida, a luz se foi, ficou a sombra.

O lado da banda em que atuamos pode ser medido pela quantidade de sorrisos ou de lágrimas que recebemos. E até isso é bem relativo - tem gente que chora e está na verdade sorrindo; e há os que sorriem e na verdade estão chorando - mesmo assim, no fundo, sabemos, quando os nossos abraços estão machucando alguém ou libertando; afinal, cada um sabe o que há em sua dispensa.

Nunca é o que ocorre com o mundo e sim, o que ocorre em seu coração ao ver algo de bom ou ruim ocorrendo com o outro. Como reagimos em relação as tragédias da Terra mostra bem o que aprendemos nesse tempo todo de evolução. Se busca um culpado, mate Deus e siga com os olhos vendados; se arregaça as mangas e trabalha pelo bem e pela luz, parabéns, mas lembre-se, você não está ganhando pontinhos no céu e sim, aprendendo a viver na dualidade.


Portanto, quem pensa que Deus não existe porque ocorre tragédias no mundo, esqueceu-se que Pai bom não dá na mão, educa."

terça-feira, outubro 22, 2013

Janusz Korczak: Como amar uma criança...

Por Rafael F. Scharf

Vice-Presidente da Associação Internacional Janusz Korczak da Inglaterra

A vida de Janusz Korczak é tão tocante que, ao contá-la, é necessário evitar a ênfase patética que se impõe, a fim de permanecer-se fiel àquele sobre o qual falamos.

Ele era, na mais profunda acepção do termo, um homem simples, toda afetação lhe era estranha. É certo que ele não imaginava que seu nome seria célebre, e é por isto que cada vez que o glorificamos publicamente, inaugurando um monumento em sua homenagem, eu me pergunto qual seria o seu comentário se sua boca de pedra pudesse falar.

Sua história foi recontada inúmeras vezes e continuará sendo, porque ela mostra melhor, sem dúvida, não importando o caso particular, o horror inexprimível da última guerra e a exterminação dos judeus poloneses.

Em 5 de agosto de 1942, durante a liquidação do gueto de Varsóvia, os hitleristas ordenaram o agrupamento das crianças do orfanato de Korczak e o envio das mesmas ao campo de morte de Treblinka. O ‘Velho Doutor’ reuniu duzentos pupilos, os fez colocar-se sabiamente em fileiras e, à sua frente, partiu com eles para o ‘Umschlagplatz’, no cruzamento das ruas Stawki e Dzika, onde todos foram colocados em vagões de carga e enviados para os fornos crematórios.

Esta marcha nas ruas do gueto foi vista por algumas centenas de pessoas, e a silhueta pequena de Korczak dirigindo-se para seu calvário, inconsciente de seu heroísmo, fazendo aquilo que lhe parecia evidente, excitava as imaginações. A novidade espalhou-se imediatamente, repetida de boca em boca com a força de detalhes inventados: que Korczak carregava nos braços os dois menores, coisa pouco provável, porque ele mesmo estava doente e tinha dificuldades em andar; que o ‘Jundenrat’ tinha intervindo no derradeiro momento e tinha despachado em seguida um mensageiro atrás da fila, portador de um salvo conduto somente para Korczak, que foi por ele rejeitado com desprezo; que para apaziguar as crianças ele tinha lhes dito que iam em excursão e que eles, confiantes, o seguiam sem choro e sem protesto. Mas nenhum embelezamento é necessário diante dessa verdade nua e crua; não é preciso ajuntar qualquer coisa para torná-la mais eloqüente. A antítese do espírito e das dificuldades é clara e definitiva: um homem sábio por excelência, desinteressado e bom, opondo-se aos covardes, bárbaros obtusos, que se mostravam sob seu aspecto mais satânico.

Entre os milhões de mortes anônimas, a de Korczak tem um grande significado. Nos campos e guetos, ele se tornou para muitos, uma inspiração, pois aí o que mais ajudava a sobreviver era a convicção obstinada e indestrutível que a dignidade humana poderia vencer , embora tudo parecesse provar o contrário.

A imprensa clandestina dos campos mostra bem o quanto esta derradeira caminhada sublime do Velho Doutor foi um reconforto e uma dose de ânimo para seus contemporâneos. A partir daí sua glória tem crescido e o mundo fez de Korczak um símbolo moral.

É preciso que nossa atenção à sua morte não obscureça o caráter de sua vida. Henryk Goldszmit (este era o seu verdadeiro nome – Janusz Korczak foi um pseudônimo tirado de um romance pouco conhecido de Kra Szewski) nasceu em Varsóvia há pouco mais de cem anos numa família abastada. O fato de seu pai ter sido um advogado conhecido e seu avô um médico mostra até que ponto o seu meio foi assimilado. Ele cresceu na solidão, preservado das influências do exterior, sem se dar conta de que era judeu e sem saber o que isso significava. Antes de terminar a escola ele perdeu o seu pai, atingido por uma doença mental. A miséria sucedeu a abundância. O jovem Henryk tomou sobre si, da maneira como pode, o encargo de sua mãe e irmã, e nos anos seguintes, freqüentemente passando fome, estudou medicina com enormes dificuldades. Quando, por fim, obteve seu diploma, as coisas começaram a melhorar, contribuindo também para isso sua reputação de escritor que se afirmava. Mas isto não durou muito tempo. Repentinamente um tipo de necessidade interior mudou completamente seu destino.

Com trinta e quatro anos ele abandonou o exercício da medicina para se ocupar de um orfanato, que do início ao seu fim, permaneceu associado ao seu nome. A idéia fixa de consagrar sua vida às crianças parecia possuí-lo. Ele não era um idealista ingênuo; o que o caracterizava era uma compreensão extraordinária da criança e a convicção da necessidade de lutar pelos seus direitos no mundo governado pelos adultos. Ele não tinha confiança no mundo governado pelos adultos, mas como cada verdadeiro reformador ele julgava que mesmo uma só pequena vela acesa valia mais que lamentar-se de escuridão. Sua intuição não excluía sua sensibilidade e ela está edificada sobre uma observação constante, clínica, poder-se-ia dizer, sobre um estudo minucioso dos fatos. Totalmente absorvido por sua única idéia, não havia lugar nele para tudo que os outros davam tanta importância – dinheiro, a celebridade, um lar, uma família.

Seu orfanato, construído e mantido exclusivamente graças às doações de pessoas caridosas, era destinado às crianças dos bairros pobres de Varsóvia. A obtenção de fundos para fins de caridade tinha então, como hoje, seu aspecto desagradável, que freqüentemente irrita aqueles que dela dependem. Korczak balançava a cabeça em desaprovação perante o preço do material gasto para encerar o assoalho antes de um baile de benemerência e ele se lamentava do tempo que perdia com quem vinha visitar o orfanato. Mas a força de sua personalidade fazia que os doadores considerassem uma honra o financiamento de seu trabalho.

No domínio da educação e da psicologia da criança, ele era um pensador pragmático original e, ao mesmo tempo, um pioneiro de princípios que serviam de modelos para outros. Ele se esforçava constantemente de refazer seu sistema baseado sobre a compreensão das necessidades mais profundas da criança. Sua influência se exercia tanto por sua presença direta quanto pelo que escrevia no jornal do orfanato preparado pelas crianças e destinados à elas mesmas; a leitura em comum dessa publicação era um acontecimento semanal dos mais importantes. Conta-se que ao longo de 30 anos de seu trabalho intenso, ele jamais deixou de fornecer um artigo por semana à redação. As regras do orfanato eram seguidas por um código, cujo parágrafo 1000 previa como a pena mais alta, a expulsão pura e simples. Cada criança que tinha reclamação contra outra tinha o direito de a fazer comparecer perante um tribunal composto por seus colegas. Korczak mesmo, se tivesse sido convocado, teria de se apresentar perante este tribunal e de se submeter a sua sentença.

À noite, após uma ronda em todos dormitórios, o Velho Doutor retornava ao seu quarto no sótão, a única ‘casa’ que ele teve durante toda a sua vida adulta, e lá, até tarde da noite, ele colocava ordem em suas notas e escrevia.

Ele era um escritor fecundo tanto no seu domínio profissional quanto, e antes de tudo, na sua criação para as crianças e sobre as crianças. Seus livros ilusoriamente simples nas suas formas e conteúdos, impregnados na mesma proporção de melancolia e humor, refletindo seus anseios interiores, muitas vezes satiricamente áspero em relação a sociedade, sempre cheios de emoção e compreensão, deixavam traços duráveis na memória de seus leitores jovens e velhos, destinando-se a ficar gravados na história da literatura desse gênero.

Lá pelos meados dos anos trinta Korczak envolveu-se em dois empreendimentos na Palestina. O que ele aí viu o comoveu e o refrescou espiritualmente. Sob o encorajamento de numerosos amigos e antigos discípulos ele começa então a pensar seriamente em fixar-se lá para sempre. Mas havia obstáculos. O que o atormentava sobretudo, era o medo de não encontrar um sucessor adequado para continuar seu trabalho em Varsóvia. Ou seja, o pensamento de se afastar de sua terra natal lhe era insuportável. Nas cartas que ele escrevia aos seus amigos para explicar as causas de suas hesitações ele invocava o ‘seu Vístula’ e ‘sua Varsóvia bem-amada’, das quais ele jamais se consolaria se tivesse que deixar. Além do mais, ele estava sem dinheiro e hesitava em se colocar dependente de qualquer um.

Quando os hitleristas fecharam os judeus de Varsóvia dentro do gueto, o orfanato perdeu sua casa à Rua Kruchmalna, do lado ‘ariano’, e transportou-se para locais provisórios, no interior dos muros do gueto. Naquele momento Korczak já percebia melhor que a maioria das pessoas que a máquina impiedosa os mataria a todos. Mas ele pensava em não renunciar ao seu direito de aliviar os sofrimentos. Alquebrado e doente, cada dia ele reunia as forças que lhe restavam e partia à procura de viveres e de medicamentos para as crianças. Às vezes ele não trazia nada de suas buscas obstinadas, outras vezes ele voltava somente com uma ínfima parte do necessário. Ele não temia solicitar com impertinência, de mendigar, de envergonhar as pessoas que se esquivavam de sua nobre ação. Nos dias em que ele nada encontrava ele não hesitava em dirigir-se mesmo aos piores especuladores e opressores judeus. Apesar de fome incessante cada vez mais insuportável e às doenças sempre mais freqüentes, ele cuidava para que seu orfanato funcionasse normalmente, a fim de que seus alunos pudessem sentir-se bem. Freqüentemente ele trazia dos locais mais distantes uma nova criança encontrada na rua, no fim de suas forças, para quem a bondade do Velho Doutor significava a salvação durante algum tempo ainda.

Nestas condições rigorosas levadas ao extremo e que em tempo normal é difícil de se imaginar, nós temos em Korczak, no seu trabalho cotidiano, um exemplo do que pode fazer um genuíno homem guiado pelo amor.

Sua vida é um modelo e somos tentados a ver nele, nesta silhueta franzina revestida de avental de inspetor que ele usava habitualmente, um exemplo típico de toda uma geração, uma encarnação da ‘idade da criança’. Sua grandeza, que consistia nem mais nem menos em fazer seu dever, podia ser aquela de qualquer um, e mesmo sua morte trágica foi uma coisa comum, lá onde o martírio estava na ordem do dia.

Durante o ‘Ano Korczak’, instituído pela UNESCO para celebrar o centenário de seu nascimento, os escritores, os sábios, as pessoas de boa vontade em todas as partes do mundo, procuraram enriquecer-se com o conhecimento desse homem e de suas idéias, de sua vida e de sua morte, através de livros, de artigos e simpósios.

É de se supor que graças a isto, numerosos são aqueles que tomaram conhecimento do seu nome e do que ele significa. Sem dúvida é na Polônia e em Israel que ele é mais conhecido. Mas, nesse mundo barulhento e apressado de hoje em dia, a lembrança empalidece rapidamente. A despeito de todos os esforços ela desaparece progressivamente, sob uma massa de outros negócios. Aqueles que amam Korczak e que crêem na força de seu exemplo sentiam que era necessário encontrar um modo mais concreto de imortalizar sua figura e suas idéias. Assim souberam com alegria que uma obra grandiosa seria realizada na Polônia com a aprovação e a sustentação financeira do governo: um Instituto Científico de Proteção e Educação Janusz Korczak.

Foi-lhe destinado um espaço deslumbrante de uma centena de hectares lá onde Vístula – o Vístula bem-amado de Korczak – contorna a localidade de Lomianski. O projeto já está pronto.


É um empreendimento magnífico que levará seu nome. Não uma estátua de bronze ou de mármore, mas um centro cheio de vida, para onde virão crianças de perto e de longe, onde elas crescerão, se instruirão, se divertirão juntas, próximas à natureza, numa atmosfera de compreensão e boa vontade para com todos. Os educadores e os professores aí se reunirão para aprender observar, para participar das experiências de trabalho com as crianças e os adolescentes, para aproximar-se da realização dos sonhos de Korczak, mesmo que isso seja um passo apenas para um mundo no qual as crianças possam viver felizes.

segunda-feira, outubro 21, 2013

Como Amar uma Criança

Por - Janusz Korczak

A criança que você pôs no mundo pesa 10 libras. É feita com oito libras de água e um punhado de carbono, cálcio, azoto, sulfato, fósforo, potássio e ferro. Você deu à luz a oito libras de água e a duas libras de cinzas. Assim cada gota de seu filho era o vapor da nuvem, o cristal da neve, da bruma, do orvalho, da água da nascente e da lama de um esgoto. Milhões de combinações possíveis de cada átomo de carbono ou de azoto.

Você apenas reuniu o que já existia.

Olhe a Terra suspensa no infinito.

O Sol, seu próximo companheiro, está a 50 milhões de milhas.

Nosso pequeno planeta não é mais que 3.000 milhas de fogo recoberto por uma película que tem apenas dez milhas.

Sobre essa fina película, um punhado de continentes jogados entre os oceanos.

Sobre esses continentes, no meio das árvores, arbustos, pássaros e animais – o ruído dos homens.

Entre estes milhões de homens, está você, que deu à luz a um homem a mais. O que é ele? Um galinho, uma poeira – um nada.

É tão frágil que uma bactéria pode matá-lo; uma bactéria que aumentada mil vezes é apenas um ponto no campo visual.

Mas este nada é irmão das vagas do mar, do vento, do relâmpago, do Sol, da Via Láctea. Este grão de poeira é irmão da espiga do milho, da relva, do carvalho, da palmeira, irmão de um passarinho, do filhote de leão, de um potrinho, de um cãozinho.

Neste nada há qualquer coisa que sente, deseja, observa; que sofre e que odeia; que é feliz e que ama; que tem confiança e que duvida; que acolhe e que rejeita.

Este grão de poeira encerra o seu pensamento as estrelas e os oceanos, as montanhas e os precipícios. E o que é a essência da alma senão todo o Universo, faltando apenas as suas dimensões.

É esta a contradição inerente ao ser humano: nascido de um quase nada, Deus está nele."


* Janusz Korczak ainda é pouco conhecido no Brasil mas é uma das maiores influências inspiradoras em movimentos de abertura para novas práticas educativas hoje em dia. Korczak era diretor de um orfanato na polônia na época da segunda guerra e tinha grande talento literário. Fez a passagem no campo de concentração de Treblinka em uma câmera de gás, junto com as 200 crianças de seu orfanato, que protegeu e educou com vigor e alegria até o fim, mesmo em face das adversidades da guerra e do gueto.

quinta-feira, outubro 17, 2013

EXU MIRIM : AS CRIANÇAS ESQUECIDAS

Publicada originalmente no site Caminhos da Paz


Falar de Exu Mirim é falar de uma falange de espíritos que, apesar de inseridos como trabalhadores da Corrente Astral de Umbanda, ao longo dos anos, foram colocados do lado de fora dos Terreiros por puro preconceito, nascido da falta de conhecimento e da intolerância com "O Diferente". Toda discriminação é fruto da falta de competência para lidar com situações que fogem ao "senso comum". É mais fácil omitir, esconder, ignorar, desprezar do que aceitar, educar, doutrinar. Para isso, seria precisa um mínimo de esforço para aceitar "O outro" em sua essência e buscar um relacionamento saudável. Muitos umbandistas (infelizmente a maioria), por não conhecerem e não terem coragem de enfrentar desafios, ignoram solenemente esses "meninos rebeldes" da esquerda: Os Exus Mirins.

Exu Mirim é uma falange de espíritos "infantilizados" que trabalham na linha dos Exus. São as "Crianças da Esquerda". Militam ao lado dos Guardiões .Estão para estes do mesmo modo que as "Crianças da Direita"(Ibejis) estão para Caboclos e Pretos Velhos. São grandes trabalhadores do astral e por terem a roupagem fluídica e o mental de crianças apresentam características da personalidade infantil ainda em processo de lapidação: curiosidade, falta de limites,rebeldia,extrema sinceridade e intolerância. Imaginem que os Ibejis sejam aquelas crianças que todos queriam como filhos:dóceis, amorosas,inocentes. Os Mirins seriam os filhos rebeldes,questionadores e difíceis de conviver . Aquelas crianças que escondemos das visitas. São os trabalhadores de Umbanda que muitos terreiros escondem ou deixam do lado de fora por não saberem como lidar com eles. Mas Exu, que é sábio e conhece a fundo os Mirins, sabe que o trabalho desses "Exuzinhos " é imprescindível na corrente astral de Umbanda. Por isso acolheu esses espíritos em sua linha, e trabalha lado a lado com esses grandes "Pequenos Guardiões". Exu Mirim é a criança que precisamos doutrinar e amar. Cabe ao médium conhecer e saber trabalhar com essa vibratória, doutrinando e nunca permitindo se influenciar pelo mental poderoso dos Mirins. O Médium deve agir como um tutor que precisa ser muitas vezes rígido e nunca se desequilibrar mentalmente quando estiver trabalhando com esses espíritos. Muitas das façanhas de Exu Mirim se devem ao comportamento do médium . Do mesmo modo que muitos discriminam e julgam os Exus, por desconhecerem que os excessos cometidos por essas entidades partem muito mais do médium do que propriamente desses guias tão responsáveis e conhecedores do seu papel no astral. Os Exus Mirins foram vítimas da falta de conhecimento dos terreiros. Por isso foram julgados,sem direito a defesa, e condenados ao exílio.

Os Mirins são grandes trabalhadores do astral. Possuem grande conhecimento de magia e manipulam com maestria os elementais. São freqüentemente enviados,pelos Exus, aos submundos do astral como espiões. Sua sagacidade, rapidez e coragem fazem com que possam se infiltrar nas zonas inferiores sem serem percebidos. Quando enviados em missão desagregam e neutralizam trabalhos de baixa magia com a mesma facilidade que plasmam campos de força para a proteção de terreiros ou outros lugares sob a proteção dos Exus. Como quase não trabalham atuando em um médium ,quando chegam nos terreiros demonstram certos hábitos adquiridos no astral, como esconder ou camuflar o rosto. Costume adquirido por frequentemente estarem infiltrados entre os espíritos da baixa espiritualidade. Por raramente estarem interagindo com médiuns , quando estão entre os encarnados se mostram ariscos e desconfiados. No entanto, quando respeitados e bem acolhidos demonstram fidelidade e até mesmo uma certa afabilidade.

Os Exus Mirins obedecem a mesma hierarquia que os outros Exus. Não podemos esquecer que apesar de espíritos infantilizados, não deixam de ser EXUS. Trazem no ponto riscado: Os símbolos mágicos condizentes com a linha que trabalham. Os sinais cabalísticos identificam a falange a qual pertencem, o guardião a quem obedecem e o Orixá a quem estão ligados por afinidade .Recebem o "Nome de Guerra" de acordo com sua falange ou com o elemento natural que representam. Assim temos Exus Mirins do fogo, da terra, da água e do ar, se apresentando com os nomes de Labareda, Foguinho,Faísca,Fagulha, Brasinha, Caveirinha,Calunguinha, Pó de Terra, Toco de osso, Toquinho,Tiquinho,Ondinha,Malandrinho, Maria Caveirinha, Mariazinha da Calunga, Corisco, Barinha, Fumaça,Trovoada e tantos outros nomes que se apresentam nos terreiro.

As crianças da esquerda existem. Isso é um fato incontestável. São elas os incompreendidos e desprezados Exus Mirins. Os espíritos da corrente de Umbanda que foram rotulados e assumiram o arquétipo de "meninos maus". Os degredados dos terreiros, isolados,condenados ao abandono,amaldiçoados. Crianças rebeldes que fumam, bebem e atazanam a vida de quem os contrariam. Crianças de quem ninguém assume a paternidade.

Já é tempo de consertarmos essa grande injustiça. A Umbanda,mãe amorosa que acolhe a todos sem distinção, amparando e guiando um número infinito de espíritos encarnados e desencarnados, não pode abandonar os Mirins a sua própria sorte, condenando ao exílio uma de suas linhas de trabalho mais aguerridas no combate a baixa espiritualidade. Mirim é o olho que tudo vê, depurando e auxiliando os espíritos necessitados. São os "pupilos" de Exu, que os amparou dando-lhes um campo de ação na Lei de Umbanda. Os Mirins vêm resistindo bravamente ao preconceito e descaso com que são tratados, mas não deixam de cumprir o seu papel de "Pequenos Soldados da Lei". Vencendo demanda para filho de fé. Até por aqueles que olham com desprezo e desconfiança os pequeninos Exus trabalhando no terreiro. Para esses, Mirim deixa um recado: "Sou a escuridão da luz e a luz da escuridão. Sou o reflexo da tua alma. Fogo,terra,água e ar. Magia de redenção e perdição. Sou ambíguo. Exu. O menor de todos. Pequenino em minha grandeza. Apenas MIRIM!

LAROIÊ MIRIM!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Professora Maria Amélia Martins.
Diretora de Estudos do TCP



quarta-feira, outubro 16, 2013

CRIANÇAS DA TRANSFERÊNCIA


Ontem, mamãe me contou que sou adotado. Não entendi muito bem tudo o que ela falou, mas compreendi que tenho duas mães, uma que não quis ficar comigo e a outra que quis.

Não amo a minha mãe que não quis ficar comigo porque não a conheço, mas minha outra mãe disse que eu deveria gostar dela, pois ela me deu por amor.

Minha mãe que me cria disse que a mãe que me deu foi a mãe que me carregou na barriga por nove meses e só me deu porque ela era bem pobrezinha e não tinha comida nem pra ela nem pra mim, por isso, ela pensou que seria melhor para mim, ir morar numa casa onde eu recebesse comida todos os dias, roupa limpa e muito amor.

- Ela não podia me dar amor? – perguntei a mãe que me criou; ela sorriu, como faz quando eu faço alguma pergunta que ela acha que é de criança, mas ela me respondeu que a mãe que me deu também me amou e por me amar, decidiu me transferir para outra família; pois temia pela minha vida e mesmo sofrendo muita dor por dar o seu filho para outra mãe, ela fez isso; e hoje eu sou filho da mãe que me criou.

Confesso que às vezes quando penso nisso, fico bem confuso, ainda mais porque eu não posso reclamar, eu tenho duas mães, e tem um monte de criança por aí, que não tem mãe alguma; como aquele menino na rua com a mão estendida; se ele tivesse mãe, a mãe dele não deixaria ele ficar na chuva pedindo comida. Acho que a mãe que me deu não queria que eu virasse esse menino; e pensando nisso, começo a gostar muito mais dela.

Perguntei para a mãe que me cria porque ela me quis e ela respondeu que a natureza não lhe deu condições de carregar uma criança por nove meses na barriga; mas o papai do céu é tão bom, que inventou as crianças de transferência: crianças especiais que nascem na barriga de outras mães que não pediram para ter filhos só para serem entregues para as mães que vão criar esses filhos como se fossem os filhos que elas haviam pedido.

Acho que é algo assim, só sei que sou uma criança diferente das outras, pois tenho duas mães. Na verdade, acho que eu tenho uma terceira mãe, mais essa não conta, pois ela é mãe de todo mundo.

******


Notas do autor: cerca de 1000 crianças são adotadas por ano no Brasil, quase metade por pais estrangeiros, vindos de uma cultura onde a adoção está livre dos preconceitos que ainda vigoram no Brasil. Esse número poderia ser maior no Brasil, se a adoção ainda não fosse cercada por mitos e todo tipo de preconceito. Para começar, a mãe que entrega o seu filho para adoção não é uma vilã. Na maioria das vezes, realmente o principal vilão é a falta de recursos para sustentar essas crianças, outras vezes, é a própria condição psicológica dessa mulher.

terça-feira, outubro 15, 2013

Gente que Nasce Professor



Eu não escolhi ser professor, eu nasci professor. Digo nasci porque sempre tive em mim a certeza que eu teria de me assumir professor um dia, sair do armário dos planos de ficar milionário com qualquer outra carreira além desse privilégio que é encantar inteligências e quem encanta inteligência, quer seja aqui ou na Europa, acaba muitas vezes tendo que pagar para bancar sua profissão. Contudo, vamos evitar esse clichê, pois não vamos falar dos espinhos financeiros ou das pedras atiradas pelos próprios alunos nos subúrbios da falta de carinho e respeito pelos tutores; vamos falar das belas flores que é despertar consciências e vê-las brilhar. Vamos falar do que seria a minha vida sem ser professor. Bom, não haveria sentido na minha vida.

Não haveria sentido na minha vida pois não vejo a vida ter sentido ao me ver fazendo outra coisa senão auxiliando, dado as mãos e os pés para que os meus alunos atravessem essa jornada linda que é buscar conhecimento. 

Não haveria sentido porque ser professor é tão natural para mim quanto respirar; e veja ser professor não é ensinar, mais sim: aprender! 

Eu aprendo com cada um dos alunos. Realmente aprendo! Meus olhos brilham, minha boca saliva; tenho fome em vê-los aprendendo e sou faminto em aprender novas formas de garantir que eles aprendam melhor . E adoro aprender para ensiná-los a aprender. 

E saibam todos que não quero fazer outra coisa, porque como eu disse: eu nasci professor - pois eu nasci com sede de aprendizado e quem tem sede de aprender não consegue só aprender para si. Tem que compartilhar o pote d'água do saber, tem que sofrer a dor e o prazer de ensinar a pescar; a dor e o prazer do silêncio da missão cumprida quando observar dos bastidores essa gente toda aprender, crescer e buscar por conta própria sua água no mundo.

segunda-feira, outubro 14, 2013

AS CRIANÇAS ERÊS (BEIJADA )

Postado originalmente no blog Umbanda Filhos de Fé

São a alegria que contagia a Umbanda. Descem nos terreiros simbolizando a pureza, a inocência e a singeleza. Seus trabalhos se resumem em brincadeiras e divertimentos. Podemos pedir-lhes ajuda para os nossos filhos, resolução de problemas, fazer confidências, mexericos, mas nunca para o mal, pois eles não atendem pedidos dessa natureza. São espíritos que já estiveram encarnados na terra e que optaram por continuar sua evolução espiritual através da prática de caridade, incorporando em médiuns nos terreiros de Umbanda. Em sua maioria, foram espíritos que desencarnaram com pouca idade (terrena), por isso trazem características de sua última encarnação, como o trejeito e a fala de criança, o gosto por brinquedos e doces.Assim como todos os servidores dos Orixás, elas também tem funções bem específicas, e a principal delas é a de mensageiro dos Orixás, sendo extremamente respeitados pelos caboclos e pelos pretos-velhos. É uma falange de espíritos que assumem em forma e modos, a mentalidade infantil. Como no plano material, também no plano espiritual, a criança não se governa, tem sempre que ser tutelada. É a única linha em que a comida de santo (Amalás), leva tempero especial (açúcar). É conhecido nos terreiros de Nação e Candomblé, como (ÊRES ou IBEJI). Na representação nos pontos riscados, Ibeji é livre para utilizar o que melhor lhe aprouver. A linha de Ibeji é tão independente quanto à linha de Exu. Ibeijada, Erês, Dois-Dois, Crianças, Ibejis, são esses vários nomes para essas entidades que se apresentam de maneira infantil. 

No Candomblé, o Erê, tem uma função muito importante. Como o Orixá não fala, é ele quem vem para dar os recados do pai. É normalmente muito irrequieto, barulhento, às vezes brigão, não gosta de tomar banho, e nas festas se não for contido pode literalmente botar fogo no oceano. Ainda no Candomblé, o Erê tem muitas outras funções, o Yaô, virado no Erê, pode fazer tudo o que o Orixá não pode, até mesmo as funções fisiológicas do médium, ele pode fazer. O Erê muitas vezes em casos de necessidade extrema ou perigo para o médium, pode manifestar-se e trazê-lo para a roça, pegando até mesmo uma condução se for o caso.Na Umbanda mais uma vez, vemos a diferença entre as entidades/divindades. A Criança na Umbanda é apenas uma manifestação de um espírito cujo desencarne normalmente se deu em idades infanto-juvenis. São tão barulhentos como os Erês, embora alguns são bem mais tranqüilos e comportados. No Candomblé, os Erês, tem normalmente nomes ligados ao dono da coroa do médium. Para os filhos de Obaluaiê, Pipocão, Formigão, para os de Oxossi, Pingo Verde, Folinha Verde, para os de Oxum, Rosinha, para os de Yemanjá, Conchinha Dourada e por ai vai. As Crianças da Umbanda tem os nomes relacionados normalmente a nomes comums, normalmente brasileiros. Rosinha, Mariazinha, Ritinha, Pedrinho, Paulinho, Cosminho, etc...

As crianças de Umbanda comem bolos, balas, refrigerantes, normalmente guaraná e frutas, os Erês do Candomblé além desses, comem frangos e outras comidas ritualisticas como o Caruru, etc... Isso não quer dizer que uma Criança de Umbanda não poderá comer Caruru, por exemplo. Com Criança tudo pode acontecer. Quando incorporadas em um médium, gostam de brincar, correr e fazer brincadeiras (arte) como qualquer criança. É necessária muita concentração do médium (consciente), para não deixar que estas brincadeiras atrapalhem na mensagem a ser transmitida. Os "meninos" são em sua maioria mais bagunceiros, enquanto que as "meninas" são mais quietas e calminhas. Alguns deles incorporam pulando e gritando, outros descem chorando, outros estão sempre com fome, etc... Estas características, que às vezes nos passam desapercebido, são sempre formas que eles têm de exercer uma função específica, como a de descarregar o médium, o terreiro ou alguém da assistência. Os pedidos feitos a uma criança incorporada normalmente são atendidos de maneira bastante rápida. Entretanto a cobrança que elas fazem dos presentes prometidos também é. Nunca prometa um presente a uma criança e não o dê assim que seu pedido for atendido, pois a "brincadeira" (cobrança) que ela fará para lhe lembrar do prometido pode não ser tão "engraçada" assim. Poucos são aqueles que dão importância devida às giras das vibrações infantis. A exteriorização da mediunidade é apresentada nesta gira sempre em atitudes infantis. O fato, entretanto, é que uma gira de criança não deve ser interpretada como uma diversão, embora normalmente seja realizada em dias festivos, e às vezes não consegamos conter os risos diante das palavras e atitudes que as crianças tomam. 

Mesmo com tantas diferenças é possível notar-se a maior características de todos, que é mesmo a atitude infantil, o apego a brinquedos, bonecas, chupetas, carrinhos e bolas, como os quais fazem as festas nos terreiros, com as crianças comuns que lá vão a busca de tais brinquedos e guloseimas nos dias apropriados. 

A festa de Cosme e Damião, santos católicos sincretizados com Ibeiji, à 27 de Setembro é muito concorrida em quase todos os terreiros do pais. Uma curiosidade: Cosme e Damião foram os primeiros santos a terem uma igreja erigida para seu culto no Brasil. Ela foi construída em Igarassu, Pernambuco e ainda existe. Não gostam de desmanchar demandas, nem de fazer desobsessões. Preferem as consultas, e em seu decorrer vão trabalhando com seu elemento de ação sobre o consulente, modificando e equilibrando sua vibração, regenerando os pontos de entrada de energia do corpo humano. Esses seres, mesmo sendo puros, não são tolos, pois identificam muito rapidamente nossos erros e falhas humanas. E não se calam quando em consulta, pois nos alertam sobre eles. Muitas entidades que atuam sob as vestes de um espírito infantil, são muito amigas e têm mais poder do que imaginamos. Mas como não são levadas muito a sério, o seu poder de ação fica oculto, são conselheiros e curadores, por isso foram associadas à Cosme e Damião, curadores que trabalhavam com a magia dos elementos. MAGIA DA CRIANÇA O elemento e força da natureza correspondente a Ibeji são... todos, pois ele poderá, de acordo com a necessidade, utilizar qualquer dos elementos. Eles manipulam as energias elementais e são portadores naturais de poderes só encontrados nos próprios Orixás que os regem. 

Estas entidades são a verdadeira expressão da alegria e da honestidade, dessa forma, apesar da aparência frágil, são verdadeiros magos e conseguem atingir o seu objetivo com uma força imensa, atuam em qualquer tipo de trabalho, mas, são mais procurados para os casos de família e gravidez. 

A Falange das Crianças é uma das poucas falanges que consegue dominar a magia. Embora as crianças brinquem, dancem e cantem, exigem respeito para o seu trabalho, pois atrás dessa vibração infantil, se escondem espíritos de extraordinários conhecimentos. Imaginem uma criança com menos de sete anos possuir a experiência e a vivência de um homem velho e ainda gozar a imunidade própria dos inocentes. A entidade conhecida na umbanda por erê é assim. Faz tipo de criança, pedindo como material de trabalho chupetas, bonecas, bolinhas de gude, doces, balas e as famosas águas de bolinhas -o refrigerante e trata a todos como tio e vô. Os erês são, via de regra, responsáveis pela limpeza espiritual do terreiro. ONDE MORAM AS CRIANÇAS A respeito das crianças desencarnadas, passamos a adaptar um interessante texto de Leadbeater, do seu livro "O que há além da Morte". "

A vida das crianças no mundo espiritual é de extrema felicidade. O espírito que se desprende de seu corpo físico com apenas alguns meses de idade, não se acostumou a esse e aos demais veículos inferiores, e assim a curta existência que tenha nos mundos astral e mental lhe será praticamente inconsciente. Mas o menino que tenha tido alguns anos de existência, quando já é capaz de gozos e prazeres inocentes, encontrará plenamente nos planos espirituais as coisas que deseje. 

A população infantil do mundo espiritual é vasta e feliz, a ponto de nenhum de seus membros sentir o tempo passar. As almas bondosas que amaram seus filhos continuam a amá-los ali, embora as crianças já não tenham corpo físico, e acompanham-nas em seus brinquedos ou em adverti-las a evitar aproximarem-se de quadros pouco agradáveis do mundo astral." "Quando nossos corpos físicos adormecem, acordamos no mundo das crianças e com elas falamos como antigamente, de modo que a única diferença real é que nossa noite se tornou dia para elas, quando nos encontram e falam, ao passo que nosso dia lhes parece uma noite durante a qual estamos temporariamente separados delas, tal qual os amigos se separam quando se recolhem à noite para os seus dormitórios. Assim, as crianças jamais acham falta do seu pai ou mãe, de seus amigos ou animais de estimação, que durante o sono estão sempre em sua companhia como antes, e mesmo estão em relações mais íntimas e atraentes, por descobrirem muito mais da natureza de todos eles e os conhecerem melhor que antes.

 E podemos estar certos de que durante o dia elas estão cheias de companheiros novos de divertimento e de amigos adultos que velam socialmente por elas e suas necessidades, tomando-as intensamente felizes." Assim é a vida espiritual das crianças que desencarnaram e aguardam, sempre felizes, acompanhadas e protegidas, uma nova encarnação. É claro que essas crianças, existindo dessa maneira, sentem-se profundamente entristecidas e constrangidas ao depararem-se com seus pais, amigos e parentes lamentando suas mortes físicas com gritos de desespero e manifestações de pesar ruidosas que a nada conduzem. 


O conhecimento da vida espiritual nos mostra que devemos nos controlar e nos apresentar sempre tranqüilos e seguros às crianças que amamos e que deixaram a vida física. Isso certamente as fará mais felizes e despreocupadas.

sábado, outubro 12, 2013

Vagamundo Kid: O Dia das Crianças


Um dia desses, eu era bem pequenino, correndo pelas ruas da Paraíba, já ensaiando ser um andarilho.

Foi em um doze de outubro que ganhei um presente que me transformaria no Vagamundo Kid, a semente do viajante que viria a ser um dia.

Família pobre não comemora Dia das Crianças, assim, eu não sabia o que estava perdendo, só quando a escola me lembrava que nesse dia, todas as crianças ganhavam brinquedos; e eu não era uma dessas crianças.

Eu era menino sem brinquedo, mas com imaginação multiforme. Minhas caminhadas pela cidade eram jornadas épicas, onde meus heróis de papel salvavam o mundo dos grandes vilões. Não precisava de playmobil ou de miniaturas dos meus heróis favoritos; se eu podia com um papel, um lápis e alguns riscos, criar o herói que quisesse, bastava ter uma imaginação sem limites.

Meus heróis de papel cabiam todos no meu bolso, ou dentro do meu caderno; ninguém os desejava, assim, não corria risco de furto de olhos invejosos de menino, coisa comum entre meninos que não eram criativos; e como eu não esperava presente algum, não entendia a razão pela qual meu amigo da classe reclamava do presente que ganhou:

- Meu pai me deu um Atlas! Um Atlas! Como posso brincar com um Atlas? - reclamou Helânio, segundo ele, tinha razão, afinal já havia ganhado os bonecos dos Comandos em Ação, do He-man, banco imobiliário, e centenas de cartuchos para o seu Atari - Vou jogar essa droga fora! Qué procê?

O Atlas era lindo. Tinha uma capa preta, com a imagem do planeta, era grosso e pesava uns dois quilos, achava eu; e era grande, maior que os livros da escola.

- Última chance? Qué?

Ninguém notou em casa, que aquela tarde, eu cheguei com um livro novo. Não era costume de meus familiares repararem em meus livros ou cadernos. Após o almoço, coloquei "meu" Atlas novo sobre a mesa e pela primeira vez, viajei pelo mundo.

Já havia visto um Atlas anteriormente na escola, mas não contava, pois tudo o que fazemos por obrigação, a memória não cativa e guarda. Fui de uma América a outra, como na música do Toquinho, em um segundo. Atravessei o Atlântico e invadi o velho mundo, como um pirata dos sete mares. Viajei pela Europa e atravessei a Rússia, indo parar no frio da Sibéria; caminhei pelas muralhas da China, e surfei com os aborígines nas ondas da Austrália. Pequei carona com uma gaivota e atravessei o Pacifico, voltando para casa, mas antes passando e ficando um pouco, lá pelo fim do mundo, em Ushuaia, a Terra do Fogo.

Jurei sob aquele livro aberto na mesa, que um dia, faria essa viagem de verdade. Conheceria todos esses continentes, oceanos, culturas e sociedades; e fechei o livro, com os olhos brilhando de sonhos a serem realizados. Palavra de Vagamundo Kid!

Ficaria a tarde toda, pensando no Haiti ou nas praias de Goa, se não ouvisse alguém batendo na porta da casa da minha vó. Era o pai de Helânio, com o moleque arrastado pela orelha, perguntando para a minha vó, se o tal amiguinho neguinho do seu filho querido estava em casa.

Antes não estivesse.

Minha orelha sofreu a mesma pena, mas punição não merecida; afinal eu não havia pedido nada; e agora sofria o castigo dos presentes dados entre meninos, sem um adulto aprovando.

Entreguei o livro, com muito custo, dado não era roubado; mas meu amor a minha orelha esquerda era maior que o meu amor iniciante pelo mundo.

Helânio teve de volta o seu livro; e eu fiquei a semana inteira de castigo; mas era tarde demais; o Vagamundo Kid já havia nascido. Era só uma questão de tempo entre o sonho desejado e o sonho cumprido.


F.O

Nota do autor: eu havia me esquecido dessa lembrança do Atlas e do Vagamundo Kid, até essa tarde, quando ouvi num antigo CD, a canção "Amigo do Sol, Amigo da Lua" do cantor Benito di Paula. Essa canção era trilha sonora da novela global "A Gata Comeu" de 1985, e naquela epóca, tocava no rádio sem parar.

Incrível como algumas canções são máquinas do tempo...

Abaixo, a letra dessa canção:



Amigo do Sol, Amigo da Lua
Benito Di Paula
Composição: Benito Di Paula / Márcio Brandão

E ê criança presa ê, brinquedos de trapaças
Quase sem história pra contar
Você criança tão liberta me tire dessa peça,
E assim ter história pra contar
Estrela que brilha em meu peito e me leva pro céu
Em cantos cantigas canções de ninar
Me deixa no galho no galho da lua
No charme do sol pra me despertar

Estrela que brilha em meu peito e me leva pro céu
Encantos cantigas canções de ninar
Me deixa no galho no galho da lua
No charme do sol pra me despertar

Vem amigo nadar nos rios
Vem amigo plantar mais lírios
No vale no mato e no mundo vamos brincar
Vem amigo nadar nos rios

Vem amigo plantar mais lírios
No vale no mato e no mundo vamos brincar


Nota do autor:
1. Mais informaçôes sobre o cantor Benito de Paula e a sua discografia:


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