quarta-feira, dezembro 31, 2008

BAILANDO

Há anos que passam pela gente, há outros que ficam como presente, dentro do nosso peito.

Quando dois mil e oito começou, jamais imaginei o quanto a minha vida mudaria e em como o destino me faria rever e recaminhar velhas trilhas e ao mesmo tempo começar novos rumos.

Nesse ano de resgate, recuperei minha irmâ Umbanda, fiz minhas preces a Cristo, aos Devas, Santos, Deuses indianos e Orixás. Nunca fui tão Namastê.

Minha bela esposa voltou a ser a minha musa, amigos se foram e outros tantos reapareçeram em minha estrada, como se brotassem em árvores, após um longo inverno da ausência da verdadeira amizade.

Foram tantos as "Festas da Vida", tantos textos, tantas poesias, tantas músicas, tanta alegria, que mesmo diante das pedradas que levei e das rochas no caminho, fiz sopinha de pedrinhas, extrai o melhor de cada situação e segui em frente, experimentando o feio e o bonito, na dualidade de todas as coisas que a Vida me deixa experimentar.

Saudades tenho de muitos parentes ( outros tantos, queria mesmo era distância); e como todo fim-de-ano acaba em enumeração de realizações, cito duas: Comecei 2008 como aluno e termino como professor; comecei 2008 com pequenos ensaios no chuveiro e termino como cantor. Fui graduado nas letras e na música! Quem diria? Ele disse, Ela fez ser.

Por isso agradeço ao Jesus menino, ao Budinha Guri, ao Menino Dourado e todos os erês que me fizeram ver "que para ser homem, é preciso ter a grandeza de um menino*".

Feliz 2009 a todos, que todos vocês sigam voando e bailando essa nossa vida maravilhosa, que a cada ano que passa, fica mais bonita, mais bonita e mais bonita.



* Girassol: canção do Cidade Negra

terça-feira, dezembro 30, 2008

O MANTO DE MAMÃE OXUM II

Em cada movimento dos braços, em cada mexer dos dedos; cachoeiras de pedidos saem do seu manto e Yansã faz chover cada um deles em nossos rios.

Em cada movimento dos braços, em cada mexer dos dedos; arco-iris de desejos cruzam o céu que eu vejo e noto Nanã distribuindo cada presente sem cobrar passado e nem exigir futuro.

Em cada movimento dos braços, em cada mexer dos dedos; vejo a Mãe Yemanjá limpar e iluminar; e eu pergunto:

- Mãe, o manto colorido que eu vi agora a pouco, era mesmo de Oxum?

E a Mãe Divina vira Erê e sai correndo, sem dizer nada.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

O Vazio e o Espaço Preenchido

Estou em uma das praias de São Paulo. Vejo carros cruzando as avenidas deixando um rastro de som; as pessoas falam alto; os bares atraem clientes com as mais variadas batidas eletrônicas; procuro, tento, mas não consigo escutar o mar.

A praia está lotada, no lugar da areia, os guarda-sóis com seus milhões de banhistas. Todos os espaços estão preenchidos, não insisto, desisto do mar, vou em busca do vazio, estou precisando de uma dose disso, de silêncio, de quietude, do descanso merecido.

Por um momento, penso que estou ficando velho: percebi que tenho tolerância zero para o barulho; evito nadar no mar de pessoas das ruas de São Paulo ou qualquer outro lugar; mas sinto que a questão não é a idade e sim a seleção. Tornei-me mais seletivo. Tenho selecionado melhor os lugares que me dão prazer, os sons que ouço, as pessoas com quem converso e aprendo; tenho filtrado melhor o que absorvo dos outros, do mundo.

Sou um observador, sou cronista, adoro estar entre a nossa gente, ouvindo as suas estórias, aprendendo com a vida de cada um; mas as vezes é preciso estar só; as vezes é preciso cultivar o silêncio; as vezes é preciso esvaziar os bolsos da matéria, para alcançar o que guardamos na alma.

Nesse processo coletivo que é viver nesse mundo, muitas são as vezes, em que ocupamos todos os espaços vazios da nossa praia com guarda-sóis, quarda-tranqueiras, guarda-coisas que não valem mais nada.

Eu percebi, na minha busca para escutar o silêncio, que na minha jukebox toca canções sem parar. Melodias ultrapassadas que atraem emoções estranhas e já experenciadas, nessa rádio da minha alma, ecoando músicas distorcidas no volume mais alto. Ocupo a minha mente com qualquer coisa, na tentativa de expulsar o silêncio, livrar-me do vazio, combater a quietude; sem perceber que é no espaço entre duas palavras, no vazio entre dois sons, que EU SOU pleno.

Quem EU SOU de verdade reside no espaço vazio entre o que eu penso e o que eu faço. Quem EU SOU em essência reside na quietude da alma que tudo vê e tudo sabe. Para perceber esse SER EU, é preciso calar-me, silenciar os pensamentos e perceber o vazio entre as letras. Como escritor, eu deveria já ter compreendido que uma frase não é feita apenas de palavras e sim também com os espaços vazios entre elas. Sem esse espaço, as palavras ficariam todas coladas uma as outras, não existiria pausa, não existiria nada.

Ao prestarmos mais atenção as pausas, ao vazio, ao espaço que não precisa ser preenchido; educamos os olhos e os ouvidos e limpamos o caos que criamos e que nos distrai do que realmente interessa ser ouvido, lido e aprendido. Ao dedicarmos mais tempo aos momentos de solitude, de harmonia com o mundo a nossa volta e ao silêncio, somos capazes de perceber que o que buscamos fora, sempre habitou dentro; e por trás do que aparenta ser nada, está tudo.

ENCANTAMENTO

Onde estava a Grande Verdade que estava aqui? Para onde foi o Caminho do Criador que eu acabei de mapear? Onde está a escada para o céu, formada de estrelas, que eu acabei de usar? Onde está o tesouro que acabei de desenterrar?

Assim não dá! Toda vez que eu descubro os mistérios do Divino, eles mudam de forma, voltam a ficar ocultos. Será que é mesmo preciso guardá-los no Segredo do não tentar revelar? Será que é um encanto que muda o céu de lugar, antes mesmo que eu consiga aos outros apontar e dizer onde está? Será que quando conseguimos interpretar e colocar em palavras, a experiência fica pobre, disforme e some para não mais voltar?

Quero compor uma canção que consiga descrever as maravilhas que vivi. Quero escrever um poema que consiga palavrear as coisas bonitas que senti. Porém, tudo o que consigo fazer é sombrear a luz que acabou de me iluminar.

Talvez essas coisas sejam assim mesmo, talvez, tudo deva mesmo permanecer em segredo, mas como sou teimoso, vou continuar a tentar escrever sobre o que não pode ser escrito e quem sabe assim, você possa perceber, depois de ter lido, que também teve um vislumbre do Divino, através do Menino Deus que passou rapidinho pelo nosso pensar, apenas para nos dar vontade de continuar a brincar desse esconde-esconde do religar.

domingo, dezembro 28, 2008

O Manto de Oxum

Eu vi Mamãe Oxum em algum lugar entre o aqui e Aruanda. Ela ouvia os nossos pedidos com a atenção de quem escutava as gotas d'água descendo pela cachoeira e seus braços se moviam como se fossem correntezas de um rio.

Eu vi Mamãe Oxum dançando em algum lugar entre o aqui e Aruanda. Suas mãos subiam e desciam, iam e vinham, como se ela estivesse a bailar e estivesse pegando algo do alto que meus olhos não conseguiram ver, mas meu coração sabia, era amor, era amor, era amor, e do manto branco que cobria seus braços, caiam cores, e cada cor era um pedido que ela enviava para seus filhos de fé.

Eu vi Mamãe Oxum nos enviando prosperidade, amor, saúde e esperança de algum lugar entre a Terra e Aruanda. Nenhum esforço ela fazia para nos abençoar; mas a medida que eu via os milhares de pedidos cairem do seu manto; fiquei com vergonha de pedir tanto. Eu sei que a Mãe Divina não cansa de nos dar suas benções, mas eu tenho muito mais o que agradecer, e cedo a minha vez a quem precisa mais do que eu, a quem ainda não consegue enxergar que há um poço inesgotável dos desejos dentro de cada um de nós, basta querer trabalhar para transformar esses sonhos em matéria.

sábado, dezembro 27, 2008

Papai Noel do Lixo

Eu vi Papai Noel remexendo uma lata de lixo. Ele estava magro e tinha cara de gente cansada, sua roupa vermelha estava suja de barro e ele fedia o cheiro de quem mora nas ruas.

Perguntei se podia fazer algo por ele, quem sabe chamar as suas renas ou alguém da sua família lá do Polo Norte para vir lhe buscar. Ele agradeceu a minha preocupação e disse que se eu pudesse lhe ceder alguns trocados já lhe faria grande ajuda.

Achei melhor não; desconfiei que o Papai Noel usaria os meus trocados para comprar algo menos sagrado que alimento e quando lhe ofereci o pagamento de uma refeição no restaurante ao lado; ele mandou-me ao inferno das boas intenções.

Sei não, acho que não acredito mais em Papai Noel.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Uma Crônica de Natal

Um brinde ao peru assado!

Um viva ao presente embrulhado!

Um brinde a cerveja gelada!

Um viva a fartura na mesa!

Um brinde a Jesus?

Um Viva a Cristo?

Como assim? Quem é esse tal Jesus Cristo?

Cidade Alagada

Carros que viram barcos, ruas que viram rios; pessoas que se tornam peixes. Eu vejo o futuro ou este é mesmo o meu presente?

Escadas que viram cachoeiras. Bairros que viram ilhas. Prédios que se tornam torres. Será o dilúvio do fim dos tempos? Ou será simplesmente a natureza mostrando que é mais forte que o homem?

Noé, meu velho, ainda tem vaga na sua arca?

sábado, dezembro 20, 2008

LEIAM: VAI CAIR NA PROVA!

Olha aqui,
Não foge com esse olhar;
Olha pra cá,
Volta para mim,
Para as letras que criarão significados em sua cabeça,
Para a leitura que te seduz,
Que te norteia,
Vai cair na prova,
Leia:
SÓ O AMOR VALE A PENA!!!

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Templo Olhar Divino

Bê com o, é o bo
Ene e i, é o ni
Tê com o, é o to

BONITO de se vê
BONITO de cantar
BONITO de viver
BONITO de olhar

É o OLHAR DIVINO
É o OLHAR DIVINO
É o OLHAR DIVINO

Que o DAIME faz ver
Que faz ser UMBANDA
JAY JAY SHALOM
IshALÁ o OLHAR


Canção escrita no metrô da Sé, São Paulo, enquanto eu esperava a minha musa chegar.

Toda a Tragédia do Mundo

Você já se perguntou o que as tragédias do mundo tem a ver com a sua vida?

Alguma vez você já leu as notícias nos grandes jornais ou assistiu na TV os assuntos do mundo como um reflexo profundo do seu ser?

Eu sei. São tantas as tragédias, que a vontade que temos é vivermos isolados numa ilha distante ou irmos embora de vez para a Parságada do poeta Bandeira.

Sim, eu te entendo. São tantas as mortes sem motivos, as consequências da crise, os sinais dos Cavaleiros do Apocalipse, que sentimos vontade de sermos cegos para as imagens tristes do mundo e surdos para os ecos de nossas mazelas que se espalham feito vírus nas bocas dos outros em conversas de elevadores.

Contudo, os macaquinhos que nada vêem, nada escutam, nada dizem e nada fazem precisam evoluir e tornar-se homens que sabem discernir, seres com um olhar de peneira que filtram tudo aquilo que é besteira, manipulação da mídia, choro coletivo, ameaças de castigo divino e transformam tudo isso em algo a mais que "aquilo" que digerimos, engolimos e deixamos para lá.

Se há uma razão pela qual ocorrem tragédias refletidas em nosso olhar é por elas terem a finalidade de nos mostrar que sempre ocorrerão "tragédias" no mundo, mas que elas não precisam ocorrer pelas nossas mãos, pelos nossos atos, pelos nossos pensamentos e pelo nosso ignorar.

O mundo não precisa de heróis, de salvadores. O mundo não precisa que façamos grandes ações. Basta um pensamento, uma mudança de atitude, para que o efeito repercute em toda a gente.

Vivemos num mundo de dualidade, num plano que segue com o seu bailado de luz e sombras, amor e dor; a escolha de que lado vamos ficar, depende apenas de nós. É isso que a tragédia vem ensinar, é isso que a tragédia vem trazer.

Há sim uma relação entre toda a tragédia do mundo e o nosso olhar, pois é aceitando o mundo com todas as suas diferenças, coisas belas e coisas que aparentam ser feias, que fará com que compreendamos cada vez mais o nosso papel nesse palco, nesse show do Divino que é a vida na Terra.

Uma gota de amor pode matar a sede de uma multidão que só precisa de um pouco de atenção para se reerguer e voar. Um pouquinho de carinho pode saciar a fome de milhares que vivem de escuridão, e para tanto, basta um ponto de luz numa sincera oração, numa meditação no cantinho do seu quarto, a qualquer momento, a qualquer hora que você sinta vontade de ser luz e queira doar algo a mais que o seu olhar.

Imagens: http://poesiastheodoro.blogspot.com/

quinta-feira, dezembro 18, 2008

A Menina e o Acordeão

Menina pequena, acordeão gigante. Que música sairá dos dois? Que melodia encantará meus ouvidos de pescador perdido?

Tânia ri baixinho e me pede ajuda para lembrar o ritmo de uma canção. Sei não, Tânia! Só me lembro de algo assim:

- Hum, hum, tan, tan, tan... - resmungo no que era para cantarolar.

- Fum, fum, fan, fan, fan... - canta o arcodeão ou será que foi a Tânia?

Tenho medo que ela descubra que sou novo na banda e só sei mesmo cantar no chuveiro, mas desconfio que Tânia olha para a minha alma como quem encara um espelho e vê o reflexo de si mesmo. Um dia ela deve ter sido assim como eu, um analfabeto musical que não distingue um SOL de um LÁ; quem sabe tenho chances em me tornar um músico, acho que já passou da hora de aprender a tocar aquela gaita do Paraguai. Devaneio e volto, tudo o que preciso fazer é cantar...

Continuamos o nosso estranho dueto e o som do arcodeão chama a atenção de todo o salão. Penso nas ruas de Cajazeiras, no sertão da Paraíba, ao mesmo tempo que sou arremessado para as esquinas de Paris. Oxente, Monsieur! Sei lá onde vou, Mon Chérie, mas vou lá,anyway, pois tudo tem cara de Déjà vu. Já vivi isso antes, um ensaio para a música e o outro ensaio para a escrita. Não sou nenhum, nem outro ainda, mas sei que sou da arte de fazer poesia em flor, como diz Auri, quando recebo um poema caindo do céu.

A música continua...

Somos o arroz da festa, quero dizer, ela é, eu só seguro a letra, e fico morrendo de vontade de fazer crônica, mas não cronico nada, pois é hora da música. Esse é o momento do laríngeo, dos ouvidos, das batidas do tambor do cardíaco e do ritmo de cada pulsar do meu corpo para acompanhar a Tânia tocando as belas canções de um certo
Mestre seringueiro.

Cada canção é uma porta para a festa da alma e por toda a jornada, observo, enquanto canto, a relação de amor entre a menina e o acordeão. E quando finalmente, parece que Tânia tirou todo o som que podia do seu instrumento musical, o acordeão começa a entoar os acordes de uma canção para a Deusa da Cachoeira e dos rios. Oxum, não poderia ter mais bonita homenagem. Não dá mais vontade de cantar, somente ficar quietinho e escutar aquela canção belissíma que meus ouvidos tiveram a honra de ouvir, e observar o riso baixinho de Tânia, riso de felicidade que se propaga nos aplausos. O seu acordeão bem que quis também agradecer, mas coitado, exausto, ele descansava em seus braços agora em silêncio.

Imagem: Loreena McKennitt - grande cantora e multi-instrumentista.
http://www.quinlanroad.com/

Uma Certa Escola do Ipiranga

Numa certa rua do Ipiranga

Há uma vela que permanece sempre acesa

Ela é um ponto de luz na grande São Paulo

Onde estudantes da vida, celebram

O saber, a música e a bem aventurança


Por ela corto o silêncio

Por ela eu verso e falo

Pois esse ponto de luz

É a minha escola do Ipiranga


Já percorri o mundo todo

Caminhei pelas grandes cidades sagradas

Meditei nos templos hindús da Índia

Firmei meu ponto no berço da Umbanda, na África



Todos esses lugares possuem

As belezas mais variadas

Mas nenhum deles me trouxe tesouros

Tão profundos

Quanto essa escola no Ipiranga



Escola do Professor amigo

Que não gosta da palavra Mestre

Pois mestrado faz bem para o ego

E professar faz fluir o amor celeste


E professsando ele faz surgir a esperança

Que todos os alunos se graduem

Para além do mundo do apego e da maia que engana

E lembrem sempre com carinho

Do Abc da espiritualidade

Que eles aprenderam

Nessa certa escola do Ipiranga


De um autor anônimo para um professor anônimo de uma escola anônima.

terça-feira, dezembro 16, 2008

Duas Canções do Richard

A Lua e o Passarinho

Irmã, ontem a lua me acordou
no meio do sono e queria que
eu voasse.

Eu expliquei para
ela, irmã, que eu não tinha asas.
Ela insistiu que eu tinha.

Acho que a Lua ficou doida, irmã,
ela pensa que eu sou passarinho.

*****************************************

Deus que Brinca

- Deus brinca de dormir e todo dia desperta em meu coração.

- Para de falar isso, menino, é blasfêmia! É insulto! Deus te castiga.

- Castigar por quê? Eu só disse que esses dias acordei e vi Deus dormindo no meu peito.

domingo, dezembro 14, 2008

O CÉU DO BEIJA-FLOR

Você já perguntou qual imagem sua é refletida na retina das suas pessoas queridas? Como elas te vêem quando você se aproxima, quando conversa com elas, quando as visita?

Quando essas pessoas pensam em você, o que elas sentem? Alegria? Paz? Harmonia? Ou uma vontade inquietante de te esquecer?

Quando você passa pelos outros? Que perfume fica? Que energia você troca? Quais são os frutos que você trás consigo e entrega para os que estão compartilhando contigo esse lindo planeta Terra?

Ah, você não liga para os outros...Desculpe, esse texto não é para você. Essas palavras são para quem está indo no caminho oposto, para quem se importa com o coletivo, com o olhar amigo, com o outro.

Minhas desculpas, mas essa crônica é para os que voam no céu do beija-flor, para aqueles que carregam onde for, coisas boas, coisas bonitas, pois não há coisa melhor na vida do que sentir que somos queridos, não pelas coisas que possuímos, mas simplesmente pela nossa presença.

Dentro é Fora

Primeiro precisamos mudar dentro, para depois transformar fora. A cor do mundo é espelho do que carregamos no peito. O cheiro de dentro é a fragrância de fora.

A prosperidade começa com a quantidade de beija-flores que voam em nosso jardim interior. O rastro de luz dos nossos vaga-lumes é a luz que salta dos nossos olhos, mostrando ao mundo do que somos feitos.

Se há algo errado e estranho no nosso mundo, basta olhar para o nosso interior e ver a cor que pintamos a parede da nossa alma. Daí, basta mudarmos a cor de dentro, para surgir um arco-íris lá fora.

sábado, dezembro 13, 2008

A VOLTA

Coisa gostosa é viajar, cair na estrada, prosseguir e não parar; não precisar ficar.

Ser passageiro do mundo e de mim mesmo; ver os quatro cantos pela janela do trem, pelo lombo do camelo, e lá de cima do avião ou lá do meio do mar, no sobe e desce do navio, ver o mundo e contar.

Porém tão bom quanto ir é voltar, rever a sua terra que ficou pra trás, brincar de " bom filho a casa retorna", encontrar amigos, reencontrar parentes; comer a comidinha única e especial da mamãe, o bolo de cenoura e chocolate com cafézinho bem cheiroso e quentinho feito pela vovó.

Voltei ao Brasil, como quem não queria ficar e fui ficando, brigando com o Vagamundo que queria voltar a estrada e com o Vagamundo que desejava viajar para dentro. Fui ficando e tentando não querer partir e não desejar ficar. Acabei plantando sementes e criando raízes, e vou ficando por aqui, até que alguém pergunte: "cadê o Frank que estava ali?"

A verdade é que nunca na história desse país surgiu um Paraíba assim, tão metido a vagamundo, neguinho inxirido que pulou muros, atravessou fronteiras, sempre adiante, descobrindo, conhecendo os quatro cantos desse mundo lindo e transformando tudo em crônicas, por puro desejo de contar a todos que se ele foi para o mundo, todos podem ir, mas tudo na vida é equilibrio: tudo que sobe, desce; tudo que vai, volta; nesse eterno ciclo da vida de quem não tem medo de conhecer o novo.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

A Escrita Invisível

Respeitável público, tenho o orgulho de apresentar " O Paraíba Vagamundo e seu fantástico Circo de Pulgas¹". Com vocês: as famosas pulgas malabaristas e trapezistas, pulgas cospe-fogo, pulgas palhacinhas e pulga que coça tanto que faz caroço.

Como assim vocês não enxergam? Faz um esforço e vocês verão tudo aquilo que há de bonito que tento expressar em meus escritos. Compreenda que ser escritor do invisível é literatura nua de provas e vestida de símbolos; e cabe a vocês, caros leitores, um mergulho profundo nas minhas verdades que parecem mentira e nas minhas mentiras que parecem verdades.

Sou o poeta fingidor do Pessoa, sou a pedra no caminho do nunca será Drummond. De esotérico, só tenho o buraco no terno e na meia não tenho nada de culto; sou mambembe na escrita e manco de versos, tateando letras no escuro, pois quero mostrar a todos o mundo que vejo: nossa gente, que mundo mais belo!

Sou passarinho da flor, sou calango do agreste. Sou voador sem asas, sou animal sem pastas, sou homem querendo ser anjo, sou anjo querendo continuar a ser homem. Sou escritor na arte, no engenho e no amor, sou um simples escritor de letras miúdas, que muita gente acha que faz literatura de pulga, mas que arranca sorrisos, lágrimas e um tantim de conhecimento na mágica arte da prosa que já virou doença crônica.



¹Circo de Pulgas: peguei o termo e o circo emprestado de uma piada de um certo amigo xamâ.

Última Chance

Ainda lembro do meu primeiro beijo, do coração partindo e da despedida que ainda me trás lágrimas aos olhos, por isso quem não é romântico, quem nunca teve um primeiro alguém, não siga adiante, essa estória é para quem tem ou já teve coração sangrando por amor.

Era a última chance de falar com Eliane. Quatro anos se passaram e passou também a coragem de declarar o meu amor; de lhe mostrar minhas poesias, minhas canções e minhas declarações.

O que pensaria Eliane de mim? Jamais saberia, pois a última chance que eu tinha fugiu ao som do último sino que escutei naquela escola. Dali a dois dias, eu deixaria Cajazeiras para sempre para morar com meus parentes em algum lugar além de Brasília.

Fui covarde, confesso! Não quis ser rejeitado, não quis ouvir não, mas ó destino ingrato, partiu meu coração novamente, quando justamente eu já aceitava que não existia nada além do não.

Dois dias depois, quando eu estava já dentro do ônibus para ir embora da cidade, em meio a amigos, conhecidos, estranhos e familiares, notei o par de olhos brilhantes que tanto amava, gritando meu nome e eu achando que ela buscava um outro Francisco, mas ela procurava mesmo esse Chico; e disse que sempre quis se aproximar, mas esperava que eu desse o primeiro passo – como é que eu poderia fazer isso, se meus joelhos tremiam? Mas ela dizia que quem tinha medo era ela de eu não dizer sim e ficamos os dois, um olhando para o outro, bem pertinho, quase juntinho, com o silêncio convidando o próximo ato que não envolve palavras, mas tem tudo a ver com a boca; mas o povo foi entrando, o motorista se sentando, São Paulo me chamando e Eliane me olhando e dizendo com o olhar – Não vai não!

Foi quando eu disse ao motorista: “Seu Dirijidor, espera! Essa é a mulher da minha vida, dai-me três minutos para eu me despedir do meu amor”.

E na rodoviária de Cajazeiras nunca se viu despedida igual, um garoto pretinho beijando uma menina branquinha num café com leite juvenil amoroso.

Para tornar tudo ainda mais doce, Roberto Carlos cantava “Amor Perfeito” no autofalante, os outros passageiros e seus parentes aplaudiam, o motorista enxugava os olhos com um lenço, as moças pensando em casamento, os moços em suas amadas, os anjos abençoando, Deus do céu graças enviando e um coral de jumentos relichando a maior cena musical desse meu conto de amor matinê.

E é assim que termina a minha última lembrança de Eliane, como numa canção brega, como uma visão de uma imaginação fértil de um quase adulto, de um adulto ainda meio criança.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Elefante Dourado

Denise danada, você me deu esse elefantinho dourado que eu não paro de admirar.

Não precisava, menina, mas não consegui te dizer não, nem fingir que não queria - e como é linda essa divina ironia - quando justamente eu esperava um sinal do Deus Ganesha, (a deidade hindú com cabeça de elefante), você aparece, dizendo que tinha uma surpresa e revela que foi você que ele escolheu para me lembrar que estava me ouvindo e é sempre por meio dos amigos que os mais variados Deuses, santos e mestres falam.

Aprende e Ensina

Todo mundo tinha medo do Professor Hêndricas, sua fama de reprovador e de durão corria nas mil bocas de seus estudantes antigos que diziam aos novatos estória de horror sobre a sua antipatia, a sua intolerância a atrasos, erros em trabalhos. As suas provas, diziam eles, nos faria perder o sono, que nos preparassemos para o próximo ano com as aulas do Professor Hêndricas.

Quem conta um conto é como quem fofoca; o boato aumenta, estórias se dirtorcem; a má fama circula como serpente que leva a culpa do bote que só foi dado por causa da bota que pisava, mas ficava a dúvida: como seriam as sua aulas?

Ora, seriam aulas!

Aulas como uma aula deve ser dada. Um ponte para o mestrado do "aprender e ensina".

- O verbo não é fala, é falar. Ora, terminem de pronunciar as palavras. - Dizia o Professor que por dois semestres mudou a idéia que tinhamos dele; e o que se viu, foi um homem com mais de oitenta anos revelando-se uma montanha de sabdoria. A classe que geralmente era uma feira, em suas aulas, viravam missa.

Perdi o medo que tinha de conhecer os mistérios e a ciência do estudo da minha própria língua com o Professor de nome difícil que aprendi a respeitar e jamais vou esquecer.

- Professor, todas essas novas mudanças na língua portuguesa. Nunca vou aprender...- reclamei, certa vez.

- Ora, não reclame! Aprende e ensina...

segunda-feira, dezembro 08, 2008

DANÇA DA FORMOSURA

Ela dançava como se as notas musicais fossem extensões dos seus braços; dançava como se fosse a última dança, como uma sereia que encanta e envolve em ondas de sedução o pescador.
Seus braços eram tormentas de amor, inudando o barco dos olhos miúdos desse escritor observador.

Ao som do tambor, ela fazia o caminho inverso da água, subindo a cascata e fluindo contra a correnteza do rio do meu sorriso.

Ela não tem a menor idéia do quanto meu barco balançou em suas ondas, mas tudo o que posso fazer é aplaudi-la em palavras e riscar alguns versos, na esperança que uma dia a sua dança volte a me arrancar sorrisos de menino encantado.

E eu ainda nem a tinha visto inteira, só lua pela metade...

CANTO DE OLHO

Canto de olho, canto de boca, canto de canto; passarinho abre o bico e canta; e pelo canto do olho vê Oxossi, o Rei da Floresta.

O passarinho não é bobo e continua o seu canto, ao mesmo tempo que enxerga na sutileza do canto do olho o Deus da Mata fazendo festa.

É a festa no canto do olho, é a festa do Rei da Floresta; e o passarinho que não é bobo continua cantando ao mesmo tempo que observa o Deus das Matas e toda bicharada da floresta cantando a música divina que faz girar a terra.

JARDIM DO RUBEM ALVES

Esses dias caminhei pelo Jardim do Rubem Alves e colhi algumas flores que gostaria de compartilhar o perfume e a beleza com vocês:

Em um canto do seu jardim, vi essa bromélia:
" O home tem dois olhos, com um ele vê as coisas que passam no tempo. Com o outro, ele vê o que é eterno e divino"
Angelus Silésius

Depois senti essa orquídea:
"O amor foge a dicionários e regulamentos vários. Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. Porque amor não se troca, não se conjuga..."
Carlos Drummond de Andrade

Logo após, percebi essa violeta:
"Existe no intervalo das palavras um ser qualquer alheio anós"
Ricardo Reis

E quanto achava que já tinha visto todas as rosas:
"No centro da teia, reside a aranha cósmica, tecendo, tecendo milhares de linhas, conecções, relações, conjunções que une todos nós. Todas as linhas são iguais"
Rubem Alves

E não pude sair do Jardim do Rubem Alves, sem deixar as minhas sementes de poema em flor por lá:
" Se eu pudesse entrar dentro da sua cabeça, teria com certeza, uma nova visão de mundo, daquilo que nos rodeia, pois ninguém vê o mundo da mesma maneira. É claro que uma mesa não deixará de ser mesa por mais que eu queira, mas talvez você tenha outras ideías do que fazer com a mesa que nem ao menos passam pela minha cabeça"
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