sexta-feira, dezembro 28, 2007

Voando

Sou voador de asas quebradas, por isso as vezes vôo torto e quando consigo tocar o céu, volto caindo para a terra, mas não desisto das estrelas, nem da lua, pois voar é meu destino, quem mandou Deus me fazer homem ao invés de passarinho.

Já tivemos asas antes, mas fomos expulsos do paraíso. Quem mandou ter comido o fruto proibido, mas seguir a consciência e o coração tinha um preço e estávamos dispostos a pagar, afinal o Éden tinha tudo o que queríamos, mas estava se tornando meio chato, meio sem novidade, meio sem desafios e a acima de tudo, sem graça alguma.


Queríamos aprender, mas queríamos dar risada. Queríamos amar, mas queríamos também sacanear, farrear, quebrar a cara; só para depois se ajeitar; juntar os cacos, reconstruir e fazer todas essas coisas que faz a gente crescer.


Crescimento com erros é um caminho mais longo, mas quem pode dizer o que é certo o tempo inteiro?

Às vezes é preciso um dilúvio para limpar tudo e embarcar numa Arca de Noé para reconstruir o nosso mundo e andar com as nossas próprias pernas. As vezes é preciso trilhar o caminho de Abraão e oferecer sacrifícios sem necessidade para acordarmos e percebermos que não precisamos comer o pão que o diabo amassou para falar com o divino que está tanto lá em cima, quanto embaixo, do lado e dentro de cada um de nós.

Caminho difícil, mas não impossível e mesmo cruzando um mar vermelho em busca de nossa terra prometida, não podemos esquecer as lições do antigo Egito, da Índia dos Devas, do Tão da China e dos tambores celtas. Pois embora o presente seja importante, as lições e ensinamentos do passado formam um alicerce para a ponte que temos que atravessar rumo ao futuro.

Vivenciamos nossa idade das trevas, enfrentamos dragões com espadas de lata e escudos de acúcar; cruzamos mares em barcos de papel; colonizamos novos sonhos; críamos novos países; fizemos guerras por canudos e guardanapos e aqui estamos nós, mais fortes, sábios e ainda aprendizes. Continuamos errando e nos ferrando, mas dando muita risada nesse processo de aprender e vivenciar o caminho do meio rumo ao tudo.

Para alguns um ciclo se encerra, para outros esse mesmo ciclo recomeça ( e é difícil recomeçar), mas quando se tem a certeza de que vale a pena, todo esforço vira fruto. E foram tantos frutos e presentes que se torna impossível não agradecer aos céus todos os dias pela oportunidade de estarmos aqui.


Anos, séculos, ciclos se passaram em um piscar de olhos, num segundo. Quando olho para trás, e lembro de tudo que ocorreu há 10 anos ou há 10.000 anos, parece que foi ontem, mas as lições e experiências ficarão por toda a eternidade.


Novos amigos e novos aprendizados todos os dias. Novos amores e amores renovados. Desculpas e tapas na cara; beijos no rosto e caras viradas, mas perdoar o quê? Já dizia Gil: “não há o que perdoar, por isso mesmo é que há de haver mais compaixão”

Quantos sonhos realizados e quantos planos desfeitos. Tanta coisa que eu quero e tão pouca coisa preciso. A vida sábia vai filtrando meus pedidos e mudando todo o curso do rio, exatamente como dizia Lennon: “ a vida é o que acontece com você, quando você está ocupado fazendo planos”.

A terra tem dessas coisas, mas continuo voador. Voando além do céu virtual, pelo céu do coração. Voando em letrinhas e pelo teto, como se fosse um foguete, quando durmo. Vôo torto e engraçado. Tudo que parece no começo trágico, no final realmente vira piada, conto, crônica ou simplesmente some com o vento.

Outro ano se passou no calendário ocidental. Embora a data seja fictícia, o sentimento de renovação é real e desejo a todos vocês que as sete ondinhas puladas se transformem em sete novos desafios superados, em sete motivos para rir e agradecer aos céus, o milagre de estarmos vivos.

Afinal, todos nós somos voadores e voar junto foi apenas um jeito engraçado da vida nos mostrar que éramos, sempre seremos e SOMOS TODOS UM SÓ!


Frank

O Artista ( e A Artista)

Ontem foi o aniversário da minha musa e parceira Auri. Incrível como depois de todos esses anos, ela nunca deixou de ser uma grande companheira que sempre tem me apoiado em tudo o que planejo e faço.

É muito fácil dizer "eu te amo", difícil é demonstrar no dia-a-dia esse carinho como ela tem feito. Devo muito a essa moça e me orgulho muito de estar ao seu lado.

Não somos casados, somos eternamente "enamorados".

Parabéns e feliz dia que você nasceu, carinho!

Abaixo, segue um poema que ela fez eons ago...

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O Artista

O que será que ele pensa
Quando tenta descrever um poema
Que fala somente de Amor?

Sua alma transcende?
Seu coracao se abre?
As pétalas do discernimento o invadem,
Fazendo aflorar o que um dia se fechou?

O que será que ele pensa
Quanta colore na tela
Uma imagem de paz?

Tinge as cores de sua alma?
Pinta pensando na amada?
Ou transmite em figuras
O que se sente e faz?

O que será que ele pensa
Quando com liberdade um som de música
Se elabora em sua mente?

Foi trazido pelo vento?
Foi lembrança do passado?
Ou foi o som divino de um coração contente?

A inspiração do poeta,
A inspiração do compositor,
A inspiração do artista,
Que pinta a estrada da vida com o coração cheio de amor;

É a mesma inspiração divina,
A mesma voz do cantor,
Que canta uma linda melodia nos 4 cantos do mundo
Ás vezes chamado de Pai, luz , tambem de Senhor.

Por isso se algum dia o vento sussurrar algo em seu
ouvido,
Quando fechar os olhos e ver na sua tela mental
Algo mágico pedindo pra se tornar real,

Lembre-se que somos artistas do mundo,
E o que nao é tão importante dessa inspiração para você,
Pode ser pra outros talvez muito especial…

Auri

Ps: “Quando damos ouvidos as inspirações naturais, nossa alma se ascende num colorido infinito, e o artista pondo em prática tudo o que por si foi ‘visto’, reflete no peito não somente o desejo de prosseguir seu caminho da arte só pela arte do bonito, mas o de transmitir antes de tudo, o amor através dela.”

quinta-feira, dezembro 27, 2007

O Sorriso do Menino Azul

O menino azul caminha ao meu lado e conversa comigo. Ele nada diz, apenas toca a sua flauta, mas posso sentir que ele fala de amor.

O amor que é incondicional, e que todos vamos sentir um dia. Seja pelo americano ou pelo iraquiano. Seja pelo brasileiro ou pelo povo de outros orbes. Sentiremos tanto amor que não dará para ficar em silêncio e o expressaremos em forma de Sorriso.

É isso o que o menino Gopala* tenta passar para mim. Ele dança, mas não pára de sorrir para mim, enquanto converso com a minha família através de um computador.

A melodia me faz lembrar do quanto é importante o trabalho que fazemos e como é difícil acreditar que fazemos diferença em meio a um mundo mergulhado na ignorância.

E o menino azul ri, e pelo seu olhar, posso sentir que ignorantes somos nós por acreditarmos no bem e no mal; pois Ele se manifesta na luz e na escuridão. Contudo, ele diz que aqueles que estão um pouco mais adiantados e enxergam com mais lucidez a luz, têm a obrigação de ajudar os outros que ainda não enxergam direito e a melhor forma de fazerisso é imitando o menino azul: sorrindo.

A melodia continua e o menino azul dança pelo ciber-café, e vai desaparecendo. Meus olhos se enchem d`água e tenho vontade de gritar e dizer para ele que eu queria ser tão azul quanto ele e retribuir em sorriso o seu carinho por mim.

Então ouço uma voz na minha mente que diz :" Não sorria para mim, sorria para eles! Escreva que não cai uma folha sem que o Pai do Céu saiba e assim deseje. Tudo é o que deveria ser, mas isso não significa inércia para aqueles que conhecem a luz e sim trabalho a fazer. Significa esforço árduo, mas sempre com muito carinho e sorriso no coração. Portanto não sorria para mim, sorria para os seus irmãos e eu estarei neles e eles me compreenderão através dessa canção"

Paz e luz a todos.

SOMOS TODOS UM SÓ

Frank

Notas do Autor: Na mitologia hindu, Vishnu , juntamente com Shiva e Brahma formam a Trimurti, a trindade divina hindú, sendo Vishnu o deus responsável pela manutenção do universo. Segundo o hinduísmo, Vishnu vem ao mundo de diversas formas, chamadas avatares, que podem ser humanas, animais ou uma combinação dos dois. Todos esses avatares aparecem ao mundo, quando um grande mal ameaça a Terra, no total, existem dez avatares de Vishnu, das quais nove já se manifestaram no nosso mundo - sendo Rama e Krishna os mais conhecidos. Krishna também é conhecido pelo nome de Govinda (chefe dos pastores: um nome de Krishna) e Gopala (pastor: ref. Krishna).
Fonte: wikipedia.

sábado, dezembro 22, 2007

O Menino Dourado ( Feliz Natal!)

Natal?
25 de Dezembro?

Se você quer comemorar o nascimento do Menino Dourado; esqueça a data, esqueça as compras e o presente embrulhado. Vá para a rua, dance na chuva, abrace o sol e beije a lua. E você compreenderá que um dia, desceu a terra um raio de luz e ele se chamava Jesus.

Se você quiser comemorar o nascimento do Menino Alegria; ria, brinque e aproveite o seu dia. Desperte a criança que há em você e assim você entenderá por que ele dizia " venham a mim as criancinhas" .

Você quer sentir o verdadeiro espírito do Menino de Ouro; poupe o peru e o álcool; cuide não só do seu bolso, preserve o seu templo: sua mente e seu corpo. E mesmo em momentos de dor, continue semeando o maior mandamento, que é espalhar AMOR, AMOR e AMOR.

Se você quiser realmente entender por que o Menino Jesus nasceu num berço de palha, esqueça os livros e as igrejas douradas; doe um pedaço de pão e medite sobre o mistério da multiplicação; quem sabe você entenderá que o que foi multiplicado e compartilhado foi algo além de trigo, sal, água e sim, algo impossível de ser tocado.

Mas se mesmo assim,você decidir fazer uma festa; não hesite, vá e se divirta; viva o presente, não tenha pressa; mas tente se lembrar que o suposto motivo da celebração, foi uma sementinha de luz que veio a terra tocar o nosso coração e nos lembrar que TODOS SOMOS DEUSES SEM DISTINÇÃO e qualquer pessoa é capaz de fazer o que Ele fazia; portanto, que tal imitar o bebê Jesus: Sorria!

Frank Oliveira

sexta-feira, dezembro 21, 2007

CRÔNICA E OVO ( Luis Fernando Veríssimo)

Esses dias, uma amiga me ligou e disse que sua sobrinha estava lendo o meu blog e perguntou para ela:

- Tia, crônicas são textos engraçados, né?

Ela respondeu que sim, mas acho que até ela ficou na dúvida.

A definição do que é uma crônica ou não, é algo que tira o sono de muita gente; e para tentar explicar a minha visão de crônica não só para ela, mas como para todos os leitores, posto abaixo uma crônica maravilhosa do autor Luis Fernando Veríssimo, onde ele fala justamente sobre o que é uma crônica e a comparação com o ovo.

Frank

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A Crônica e o Ovo


A discussão sobre o que é, exatamente, crônica, é quase tão antiga quanto aquela sobre a genealogia da galinha. Se um texto é crônica, conto ou outra coisa interessa aos estudiosos de literatura, assim como se o que nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha, interessa aos zoólogos, geneticistas, historiadores e (suponho) o galo, mas não deve preocupar nem o produtor nem o consumidor. Nem a mim nem a você.

Eu me coloco na posição da galinha. Sem piadas, por favor. Duvido que a galinha tenha uma teoria sobre o ovo, ou, na hora de botá-lo, qualquer tipo de hesitação filosófica. Se tivesse, provavelmente não botaria o ovo. É da sua natureza botar ovos, ela jamais se pergunta "Meu Deus, o que eu estou fazendo?" Da mesma forma o escritor diante do papel em branco (ou, hoje em dia, da tela limpa do computador) não pode ficar se policiando para só "botar textos que se enquadrem em alguma definição técnica de "crônica”.

Há uma diferença entre o cronista e a galinha, além das óbvias (a galinha é menor e mais nervosa). Por uma questão funcional, o ovo tem sempre o mesmo formato, coincidentemente oval. O cronista também precisa respeitar certas convenções e limites, mas está livre para produzir seus ovos em qualquer formato. Nesta coleção, existem textos que são contos, outros que são paródias, outros que são puros exercícios de estilo ou simples anedotas e até alguns que se submetem ao conceito acadêmico de crônica. Ao contrário da galinha, podemos decidir se o ovo do dia será listado, fosforescente ou quadrado.

Você, que é o consumidor do ovo e do texto, só tem que saboreá-lo e decidir se é bom ou ruim, não se é crônica ou não é. Os textos estão na mesa: fritos, estrelados, quentes, mexidos... Você só precisa de um bom apetite."

Luis Fernando Veríssimo

Mais sobre o autor no site:
http://portalliteral.terra.com.br/verissimo/

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Encosto

Números que se repetem misteriosamente; coincidências que desafiam a lógica; a sincronicidade é uma realidade na vida de todos nós – e contam os místicos que quanto mais lúcidos estamos que somos borboletas sonhando que somos sábios chineses, mais percebemos esses acontecimentos se repetindo e aparentemente não há uma explicação. Por isso eu sabia que algo muito estranho estava ocorrendo comigo quando aquela mulher sentou no banco ao meu lado no trem.

Ela embarcou na Estação Santo Amaro e de todos os bancos vazios do vagão, ela decidiu sentar ao meu lado. Não a notei a principio, só percebi que quando ela sentou do meu lado, fui esmagadoramente imprensado contra a barra de ferro, próxima a porta. Não liguei, isso ocorre nas melhores linhas de transporte urbano público do mundo, mas quando ela começou a cochilar e se inclinar para o meu lado, comecei a evocar todos os orixás para que eu tivesse a paciência de Oxossi para não acordá-la com uma cotovelada.

Contive a minha fúria, e apesar de continuar esmagado até a Estação Osasco, onde eu iria descer, nada de extraordinário parecia ter acontecido. Era ela me esmagando ou nadar contra um mar de sovacos até a estação final.

No dia seguinte, fiz o mesmo trajeto e em Santo Amaro, adivinhem quem entrou no vagão e sentou do meu lado. Minha tolerância foi zero, cada vez que ela se inclinava, levava uma cotovelada, mas ela parecia estar num estado alterado de consciência, pois quanto mais porrada eu dava, mas pesado ficava seu sono e consequentemente seu corpo me esmagando. Fiz minha prece a Maomé, bendito seja o seu nome, mas nem me virando para Meca, eu conseguia ficar confortável com aquela mulher em cima de mim.

No terceiro dia, mudei de vagão e quando as portas da Estação Santo Amaro se abriram e ela não entrou, respirei aliviado. Minha tática funcionara! Fechei os olhos e agradeci a São Judas, santo de todas as causas impossíveis pelo milagre; mas quando abri os olhos novamente, a vi correndo pela plataforma enquanto a campainha de fechar as portas tocava. Torci para que não desse tempo, fiz promessas a todos os santos milagreiros para que a porta fechasse, mas ela entrou no vagão e para o meu desespero, o único banco vazio estava...ao meu lado.

- Nãaaaaoooooo!!!!! – gritei, mas já era tarde.

Em momentos como esse, sempre me pergunto: o que preciso aprender com isso?

Nada contra pessoas que estão um pouco acima do peso. Tenho vários amigos “gordinhos” e já sai com meninas fofinhas. Nada contra esses nossos trabalhadores que acordam antes do galo cantar, para as suas duplas ou triplas jornadas; mas entendam, era o terceiro dia em que isso acontecia comigo, naquela altura do campeonato, eu já estava xingando a mãe do Juiz e queria que o jogo acabasse.

Talvez eu tenha sido um travesseiro numa outra encarnação e tudo isso seja apenas o pagamento de uma ação equivocada do passado, mas karma à parte, como não tenho a escolha de usar o carro e sobreviver ao trânsito da hora do rush na marginal, vou continuar usando o trem para chegar até a escola que dou aulas de inglês em Osasco, mas decidi vou enfrentar o rio das axilas mal cheirosas de agora em diante e seja o que Krishna quiser. Lição? Acho que não aprendi nada com isso, mas quer saber, ela que faça de travesseiro, o ombro de outra pessoa.

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Fugindo de Casa

O plano era audacioso: Cruzaríamos a fronteira sem permissão e sobreviveríamos ao perigo mortal de morrermos sufocados pelo tédio que se espalhava por toda a cidade.

Refizemos os nossos planos, estudamos os mapas e todos os planos B,C e WO. Contamos o nosso mantimento e ao raiar do dia, começamos a nossa jornada para uma nova vida. Robson e eu sabíamos dos riscos; havíamos calculado cuidadosamente tudo o que poderia dar errado e saímos de nossos casas com a confiança que todo menino de 13 anos possui: Éramos invencíveis, indomáveis e fugiríamos de casa pela primeira vez.

Não sofríamos maus tratos; nem buscávamos pais ausentes que sumiram misteriosamente quando foram comprar cigarros. O que nos empurrava para fora de Cajazeiras era a vontade de escapar daquele gás misterioso do tédio que transformava todos em zumbi. Os habitantes da cidade andavam de um lado para o outro como se fossem mortos-vivos. Não havia mais brilho em seus olhares, apenas o vazio de quem não via nada no horizonte além do dia seguinte. Eles não viviam, apenas vagavam pelos cantos da cidade em busca de seus cérebros que foram perdidos em algum momento durante o marasmo em que suas vidas se tornaram.

Robson era tão lúcido quanto eu, mas ele quase tinha sido pego pelo gás. Certa vez o encontrei vegetando em frente à TV assistindo o Chaves. Por pouco, consegui resgatá-lo e depois desse perigo, decidimos que fugiríamos para alguma cidade em que o time de futebol atuasse em algo mais profissional que a 13º divisão. Nosso plano era sair da cidade pegando carona e chegarmos até Souza, a 30 kms dali e de lá, ganharíamos o mundo.

Sair da cidade foi relativamente fácil. Ninguém desconfiou daqueles dois meninos com mochilas nas costas, nem mesmo o camburão da policia que passou e acenou para nós. O problema era que não conseguiamos carona. Ninguém parecia entender o olhar daqueles dois meninos que imploravam: “por favor nos levem daqui e nos salvem da maldição dos zumbis”.

As horas foram passando, o sol esquentando e após a 5º hora de caminhada, fugir já não era mais tão divertido. Robson começou a se queixar de dores nas costas, nas pernas e que perderia o episódio do Chaves daquela tarde. Eu comecei a perceber que uma idéia idiota fica mais imbecil ainda quando colocada em prática a dois e prometi a mim mesmo, que se tivesse outra idéia estúpida, não envolveria mais ninguém. Então num desses momentos cruciais de nossas vidas em que desistimos de um sonho por não termos condições ainda de realizá-lo, demos meia volta e começamos a marchar de volta para casa.

5 horas depois, pisamos em Cajazeiras. Esgotados, famintos, e profundamente humilhados, passamos novamente pelos policiais no camburão, que pareciam rir da nossa cara, mas estamos felizes de termos voltado. Bastou algumas horas longe da cidade para percebermos que Cajazeiras, afinal, não era tão ruim assim. Afinal, o problema não era o local e sim a maneira como as pessoas viviam ali e fizemos um pacto de não deixarmos o tédio nos dominar. Bastava permanecer acordados e lúcidos que havia algo a mais além de dormir, acordar, comer, estudar, comer, fazer dever de casa e dormir. Havia sempre alguma coisa que poderíamos fazer para não virarmos zumbis, mesmo que houvesse algumas recaídas...

- Que horas começa mesmo o Chaves?

Frank

terça-feira, dezembro 18, 2007

O Menino Monstro ( Um Conto de Natal)

Todo adulto guarda na memória, uma estória de terror. Um daqueles casos inexplicáveis que aumenta mais em detalhes macabros, toda vez que é recontado. Esse caso ocorreu comigo no Natal de 1985 e toda vez que todos começam a enfeitar as suas casas com as cores de natal, inevitavelmente lembro do dia em que vi o Menino Monstro.

Eu tinha 12 anos, quando mudei para Cajazeiras, na Paraíba. Nessa idade, fazer parte de um grupo é uma questão de vida ou morte; ainda mais para um garoto que acabara de mudar para uma nova cidade e precisava ganhar a confiança dos “novos amigos”. Para ganhar o reconhecimento da turma, eu precisaria passar num teste de bravura e coragem. Se aceitasse, seria aceito por todos; se desistisse, o limbo juvenil me esperava.

O desafio era aterrorizador: eu teria que enfrentar o Menino Monstro.

Na rua da padaria do Janduí, havia uma casa que despertava a atenção de todos que passavam por lá. Em um dos quartos, havia grade na janela e de dentro do quarto, ouviam-se grunhidos e gritos terríveis que assustavam todo o bairro. Todas as pessoas que conhecia, evitavam passar por aquela rua; e os boatos corriam por todo o bairro que uma beata, devota de Frei Damião, tinha visto no menino as marcas do coisa ruim e ela mesmo havia declarado a todos – “ Esse menino só pode ser obra do cão!”

Eu só havia visto a casa uma vez e ainda lembrava dos gritos, por isso quando os meninos disseram que eu teria que entrar naquela casa; pensei seriamente em arrumar as minhas malas e voltar para a Brasília, onde o maior desafio que tinha enfrentado fora um campeonato de futebol de tampinha de garrafa. Ter uma vida social não valia o sacrifício, mas como a Eliana, a menina mais bonita do bairro, fazia parte do grupo e eu já não conseguia imaginar viver minha adolescência sem ela, aceitei o desafio.

Era noite, meus amigos ficaram vigiando a casa, até perceberem que os pais do Monstro haviam saído para a igreja. Por favor, levem em consideração que não éramos delinqüentes; a verdade é que escalar muros e invadir quintais eram uma arte a ser dominada quando se mora numa cidade do interior com quintais cheios de mangueiras, goiabeiras e pés tortos que miram no gol e acertam o quintal alheio. Pular o muro não foi sequer uma missão difícil, mas quando entrei na casa, confesso, que comecei a tremer sem parar. De acordo com os meninos, não bastava entrar na casa, eu precisava trazer uma prova que estivera cara-a-cara com o Menino Monstro e apesar de não ter a mais vaga idéia do que poderia ser utilizado como prova, invadi a casa pela porta do quintal ( por carência de ladrões, todos os habitantes da cidade, deixavam sempre abertas as portas e janelas de seus quintais)..

Um medo descomunal tomou conta de mim, á medida que eu entrava na casa. O suor caia da minha testa como se fosse as quedas do Iguaçu; a respiração estava ofegante e meu coração batia tão rapidamente, que senti que a qualquer momento ele sairia da minha boca e pularia o muro do quintal. Eu queria sair dali. Queria estar em casa, me preparando para a ceia de Natal e não naquele lugar enfrentando a morte. Queria fugir, mas havia Eliana e eu precisava continuar, não só por mim, mas por todos os adolescentes do mundo que passavam por aquele tipo de situação.

Então, ouvi a respiração do monstro bem perto de mim. Antes mesmo que eu pudesse pensar em fugir, notei uma sombra avançando sobre mim e me derrubando no chão.

- Deus me ajuda!!! – Gritei e fechei os olhos, esperando o pior. Nem tinha 13 anos ainda, queria tanto estar vivo para casar com a Eliana e para descobrir o que ocorreria com o Homem Aranha no seu próximo gibi. Imaginei cenas de filme de terror, as piores dores possíveis, mas nada ocorreu. Cauteloso, abri os olhos e vi á minha frente, apenas um menino um pouco maior que eu, que tinha Síndrome de Down. Ele tinha um dos olhares mais doces que já tinha visto na vida e aos invés de palavras distorcidas de filme de Exorcista, ouvi sua voz meiga dizendo – Você veio brincar comigo?

Em Brasília, era comum ver os meninos com Down nas ruas, tendo vidas saudáveis e até jogando bola com o resto da meninada na rua, mas aparentemente em Cajazeiras, as famílias escondiam seus “meninos especiais” do resto da sociedade como se eles fossem realmente monstros.

A verdade é que não havia nada de monstruoso com aquele menino e se havia algum horror; algo fora do normal, era a maneira como ele era tratado não só por toda a vizinhança, mas também por seus pais.

Enquanto eu encarava a minha própria ignorância; ele me foi trazendo carros sem rodas, bolas murchas e outros tantos brinquedos quebrados que ele costumava brincar e repetia sem parar “que bom que você veio brincar comigo”.

Não fiquei brincando com ele, até gostaria, pois fiquei sensibilizado até o nível máximo que uma criança de 12 anos consegue atingir; mas meus amigos e Eliana estavam lá fora e eu ainda tinha que os impressionar com a fantástica história de como usei todas as minhas forças para lutar com o Menino Monstro e sobrevivi para contar. Aquele carrinho sem rodas era a prova que eu precisava para me tornar o herói mais covarde que já surgiu nos contos de fada do sertão.

Na noite de Natal de 1985, eu consegui amigos, fama e a admiração da menina mais linda da rua, mas antes mesmo da missa do galo, olhei-me no espelho e me dei conta que no final era eu, o Menino Monstro.

Frank

Notas: Segue abaixo link de um site que explica muito sobre esses meninos especiais:
http://www.portalsindromededown.com/

A Canção Que Ainda Não Foi Escrita

Ela cantava o tempo todo.

Carregava consigo uma mochila cheia de canções de amor; melodias que falavam do brilho no olhar, despertado pelo toque do amado; versos de paixão e rimas de união; como se uma nuvem musical pairasse sob a sua cabeça; como se sua mente captasse ondas de FM e suas cordas vocais transmitissem a rádio do coração.

- Não vivo sem música! – ela me disse - Há sempre uma canção tocando dentro de mim.

Verdade! Do lugar de onde ela vem, há sempre música no ar.

Passei algum tempo ao seu lado e foram horas de versos e canções; como se estivéssemos em um “Musical“ e no lugar de diálogos, nos puséssemos a cantar e dançar.

Ela se foi, mas a sua lembrança, como se fosse uma canção, não para de tocar pelos lugares onde passo. Por vezes, me pego cantarolando as mesmas canções que ela cantava; outras vezes, quase consigo lembrar de uma canção que nunca foi escrita; uma melodia que nunca foi composta, mas que descreve em notas musicais o quanto importante ela foi, é e sempre será para mim.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Rocky Mary

Qual é a primeira música que você consegue se lembrar de ter ouvido?

Há 30 anos essa música toca na minha cabeça sem parar. Não sabia quem cantava, nem se ela existia, só lembrava do refrão:

"Está pra lá de punk mamãe
Me viciou, viciou, viciou
Em rock roll
Me viciou, viciou, viciou
Em rock roll"

Procurei a canção pela internet. Revirei sebos, revistas especializadas, pessoas que viveram na épóca, mas ninguém lembrava, ninguém sabia e a canção continuava tocando:

"Está pra lá de punk mamãe
Me viciou, viciou, viciou
Em rock roll
Me viciou, viciou, viciou
Em rock roll"

Então um dia me deparei com o nome do cantor por acaso: Paulinho Boca de Cantor.

Estranho mais ainda era o nome da canção : Rocky Mary

Enfim, encontrei a canção e mesmo embora não tenha nenhum significado especial para vocês, é sempre bom compartilhar um tesouro quando encontrado.


Rocky Mary

Mamãe, aqui eu pirei por causa de Mary
Mamãe, aquela angelical e fina flor do amor
Também pirou
Está pra lá de punk mamãe
Me viciou, viciou, viciou
Em rock roll
Me viciou, viciou, viciou
Em rock roll
(duas vezes)

Certa vez me deu um toque
Num sanfoneiro do norte
E o cabra não era mole
Mary só voltou por sorte
Quando eu puxei melhor o fole
Mary só voltou por sorte
Quando eu puxei melhor o fole

Mamãe, aqui eu pirei por causa de Mary
Mamãe, aquela angelical e fina flor do amor
Também pirou
Está pra lá de punk mamãe
Me viciou, viciou, viciou
Em rock roll
Me viciou, viciou, viciou
Em rock roll

O que é que eu faço sem Mary
Se mandou com uma dona
Cujo sapato e bem maior do que o meu
Mamãe, não duvide
Mary só volta pra mim
Quando eu pirar prá lá de Lou Reed.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Lua Bonita

Voltando para casa, trânsito infernal, chuva e céu nublado. Senti falta da lua, das estrelas e do céu que inspira poesia.

O ônibus lotado, gente suada; mas lá estava eu e Raul, Raul e eu, e ele cantava algo assim:

" Lua bonita,
Se tu não fosses casada
Eu preparava uma escada
Pra ir no céu te buscar

Se tu colasse teu frio com meu calor
Eu pedia ao nosso senhor
Pra contigo me casar

Lua bonita
Me faz aborrecimento
Ver São Jorge no jumento
Pisando no teu clarão
Pra que cassaste com um homem tão sisudo
Que come dorme faz tudo, dentro do seu coração?

Lua Bonita, Meu São Jorge é teu senhor,
E é por isso que ele "véve" pisando teu esplendor
Lua Bonita se tu ouvisses meus conselhos
Vai ouvir pois sou alheio,
Quem te fala é meu amor

Deixa São Jorge no seu jubaio amuntado
E vem cá para o meu lado
Pra gente viver sem dor."

Raul Seixas cantando e o Frank ouvindo, e voltando pra casa...

terça-feira, dezembro 11, 2007

PREOCUPAÇÃO, DÚVIDAS E INSEGURANÇA

Não se preocupe com o seu futuro.

Viva mais o presente, que era o futuro com o qual você tanto se preocupava no passado.

Não quebre tanto a cabeça tentando entender das coisas que você ainda não compreende.

A cabeça foi feita para compreender que há certas coisas que não se pode mesmo entender.

Não perca o seu tempo precioso bancando o enciumado e inseguro ao lado de quem você ama.

Confiança faz parte da vida de quem se sente amado e ciúme é apenas um reflexo imaturo de quem quer possuir alguém que nunca foi posse, mesmo estando do nosso lado.

Quando pensar em seus futuros planos, não se esqueça de que a vida sempre os modifica, para lhe mostrar que aquilo que queremos, nem sempre é aquilo que almejamos.

Quando não conseguir respostas para as suas perguntas, e não conseguir enxergar o que há por trás das aparências, mude as perguntas, e quem sabe você descubra que a pergunta pode ser parte do conhecimento, mas a resposta só é sentida com a experiência.

E quando o amor bater na sua porta, trazendo a pessoa que você tanto esperava e queria, tente enxergar o quanto nos tornamos idiotas, quando queremos possuir algo além da nossa própria vida.


- Frank -
Londres, 21 de novembro 2003.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

O NOME DA MÃE DA COMPAIXÃO

Caminhando em desespero, o velho homem pensara que não havia outra alternativa a não ser acabar com a própria vida se jogando no rio Chieng. Ele perdera tudo o que tinha e já não havia como alimentar a sua família. Tinha receio de chegar em casa e olhar na face de sua esposa e dizer que perdera todo o dinheiro numa aposta.

Dessa vez tudo parecia diferente e ele tinha certeza que ganharia o jogo e teria dinheiro suficiente para comprar uma carroça e ganhar seu pão carregando pessoas de uma província a outra; mas dera tudo errado e sua última chance se esvaíra numa jogada mal-planejada que levara seu dinheiro e sua honra.

Sem honra e sem esperança, ele se aproximou da beira do lago, pediu perdão aos deuses e ancestrais e já se preparava para se atirar na água, quando notou que na margem do rio, surgia a face de Kuan Yin*, a Senhora da Compaixão, e ela lhe sorria suavemente. Envergonhado, o homem cobriu o rosto com as mãos, e falou:

- Senhora, tenha piedade de minha alma. Tenho muitas dívidas e depois de um ano sem chuva, toda a colheita se perdeu, não vejo saída se não a morte.

“Filho, a morte nunca é saída para os problemas que precisamos resolver em vida, disse a Senhora sorrindo. Encerrar a vida antes do tempo certo apenas prolonga para outro ciclo algo que poderia ser resolvido agora. A morte não é uma saída, é apenas uma passagem, e quem antecipa essa viagem acaba voltando ao ponto inicial da sua jornada. Há pessoas que morrem em vida, e outras que se apaixonam pela morte como se ela fosse a resposta de tudo, mas eu lhe digo, a resposta está na vida e quem é campeão da vida acaba achando um caminho quando está perdido, acaba encontrando uma luz quando tudo parece escuro.”

- Mas, como terei forças para voltar pra casa com as mãos vazias?

“Voltando com o coração cheio de vontade de continuar sua luta. Vá, filho meu. E toda vez que o desespero lhe turvar a visão, repita meu nome em seu peito como se fosse o som do seu coração. E prometo que estarei por lá.”

O velho homem enxugou as lágrimas dos olhos e retornou o seu caminho para casa, ainda trêmulo, ainda com receio, mas sabendo agora o nome da esperança: Kuan Yin.

- Frank -
Londres, 25 de janeiro de 2004.


Notas: * Kuan-Yin (do chinês): A Deusa da Compaixão

domingo, dezembro 09, 2007

SOMOS TODOS UM SÓ

Uma só raça;
Uma só nação.
Uma só casa;
Uma só canção.

Uma só religião:
Aprender a amar.
Uma só obrigação:
Receber e compartilhar.

Uma só expressão,
Que traga paz a humanidade.
Comunicando de coração a coração,
Uma só linguagem.

Um só pedido na senda,
Um único sonho em comum;
Que o mundo um dia compreenda
Que SOMOS TODOS UM .


PS: Poesia inspirada na sabedoria de Shankara e Sai Baba.

- Frank –

Astro Rei


Que poder mágico terá o raio solar
Que interpenetra a fresta da janela?
Aquecendo teu rosto como se estivesse a beijar,
Despertando da inércia quem hiberna.

Que poder mágico terá o Sol da primavera?
Sol que limpa o outono das folhas caídas;
Põe um sorriso no mau humor de quem inverna;
Com a promessa de verão e melhores dias.

Que poder mágico terá o entardecer?
Cartão-postal de quem ama a vida.
Aquarela diária que a gente vê,
Pintada pelo Grande Artista.

Que poder mágico terá a aurora?
Que convida todos a despertar.
Deixando pra trás os problemas de outrora,
Oferecendo um novo tentar.

Esse poema é só para afirmar,
Que eu não sei que magia ele tem;
Mas de vez em quando vale a pena saudar,
A luz presente do grande Astro Rei.


- Frank -
Londres, março de 2003.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Despedida no Portão


Minha mãe não me levou até o portão ontem á noite. Ela sempre se despede no portão, quando vou visitá-la. Faça chuva ou sol, pode até nevar; mas ela sempre me acompanha até a calçada da sua casa e fica me acenando adeus. Gosto de saber que ela fica me olhando partir; sinto que seus olhos estão comigo não somente quando nos despedimos, mas também por todo o meu caminho até a minha casa.

Ela está doente. Esses dias passou mal, foi internada com labirintite e outras “ites” que ainda não entendi direito. Valente, ela não se deixa abater por qualquer dor de cabeça, por qualquer mal- estar; se foi parar no hospital, e se agora está na cama sem conseguir sorrir, é que há algo mais sério de errado com ela, do que sonha a nossa filosofia.

Quando alguém que amamos fica doente, a gente se sente impotente. A barganha com Deus não funciona; afinal não há nada que você possa prometer em troca, que valha a saúde da sua mãe. Tudo o que você pode fazer é esperar pelo melhor, mas qual é o melhor que pode ocorrer em horas como essas? Os parentes querem a cura imediata, mas como saber se a cura é o melhor para o outro? Como saber quais são os planos de Deus para cada pessoa? Como saber se quando pedimos a cura, não estamos na verdade, sendo egoístas por querermos nos livrarmos o mais rápido possível do inconveniente de termos que lidar com um parente doente ou nos darmos conta da nossa própria impotência em relação aos ciclos naturais da vida? Como sabermos se a doença não é um benção que veio curar um mal maior: a enfermidade espiritual.

Não sei as respostas dessas perguntas e por há tempos não mais barganhar com a força divina para conseguir algo (quando tenho tanto para agradecer), só posso esperar que o melhor ocorra com a minha mãe, seja lá o que for. Só lamento que ela não possa mais me acompanhar até o portão como fazia antes, pois percebi agora o quanto isso era especial para mim.


Frank
http://cronicasdofrank.blogspot.com/

domingo, dezembro 02, 2007

Céu Cintilante


Quando ela nasceu, deram-lhe o nome da Luz. Mas luz não bastava, era preciso um outro termo que agregasse mais significado à luz, ao brilho que ela emanava; algo que lembrasse a todos de onde ela tinha vindo: céu! Ela descera do céu, caíra na terra, tal qual estrela cadente, nos braços da menina Mara que aprenderia ás pressas a arte de ser mãe. Auri seria seu nome, Auri e celia. Célia, aquela que cai do céu, céu de ouro, céu que cintila, céu que brilha; Célia, aquela que nada enxerga, por refletir a luz de auri. Auri no princípio da letrinhas que formam tantos significados como há estrelas no céu.

Auri nasceria no Brasil e carregaria a cor da terrinha em seu nome, "auri" é prefixo que significa ouro, cor de ouro, áureo. Ou seja, auriverde é verde-e-amarelo. Que menina mas brasileira, e essa estrelinha maranhense brilharia mundo afora.

Os orixás, deuses africanos, carregam auri em seu nome. ORI de luz, AURI por contração. No hebráico o AOR vira luz, tanto quanto no ARA em Tupi Guarani,ARAXÁ, que dá nome a uma cidade, e segundo Couto de Magalhães em seu livro "O Selvagem", ARAXÁ seria um nome dado a uma montanha que recebia os primeiros raios de luz do sol. Na ìndia, no termo ORISSA que também dá nome a uma cidade. No bom Portugês: OURO, AURORA, AURA, ÁUREO, ORIENTE, AURÉOLA, todos com o mesmo radical, e todas as palavras estão relacionadas a luz, luminoso ou que brilha.

Será que a Dona Mara sabia que as línguas da atualidade são fragmentos de uma língua há muito perdida? Que o nome que sua filha carregaria tanto significado?

Conheci Auricelia há 10 anos. Difícil descrever os significados que me vêm á mente quando penso nela, quando lembro seu nome. Contudo, posso afirmar que sua entrada em minha vida foi uma luz no fim do túnel e quase uma década depois, ainda não consegui catalogar quantas estrelas habitam em seu céu e se ela tiver mesmo caído do céu, os navegantes que se guiam pelo céu estrelado, terão mais dificuldades para se localizar. Não devolvo minha estrela, quando o assunto é ela, sou egoísta, quero o céu cintilante somente para mim.


Frank

Sites pesquisados
http://www26.brinkster.com/frateso/
http://www.pergaminovirtual.com.ar/nombres/celia.html

80 Centavos

Cortava o cabelo no barbeiro, quando um mendigo apareceu por lá.

- Senhores e senhoras - gritou como se declamasse um poema ou fosse fazer um discurso - Desculpem-me se interrompo o vosso trabalho, sendo um vagabundo, pouco sei sobre essa arte laboral que tão bem fazeis, mas preciso de 80 centavos para inteirar uma garrafa de cachaça.

Espanto geral, todos pararam o que faziam e o mendigo agora tinha todos os ouvidos.

- Sim, isso mesmo, senhoras e senhores, prefiro dizer a verdade. Poderia vos enganar, dizendo que compraria comida para mim ou remédios para os filhos que nunca tive; mas venho até vossa presença e peço humildemente: poderiam contribuir com 80 centavos para alegrar o dia desse vosso amigo?

O que assustava mais não era o discurso do homem em trapos ou uma garrafa de cachaça custar menos de 1 real; mas a honestidade do seu pedido. É claro que não dei um centavo, esmola não ajuda ninguém, nem deve ser dada, mesmo se uma mãe citar Machado de Assis ou Shakespeare com seu bebê nos braços; mas a honestidade daquele mendigo me tocou profundamente. Num mundo de máscaras, em que a verdade e a idoneidade valem tão pouco, esse estranho homem de 80 centavos me ensinou algo que jamais esquecerei: quanto mais verdadeiro for o que você diz e faz, mas fácil será para você alcançar o que quer. Isso mesmo, ele conseguiu seus 80 centavos.

Significado


Descíamos a Tabatinguera. Sol quente, Domingo de feira-livre, conversavamos sobre os nomes das pessoas e seus significados.

- Uma amiga esses dias me disse que pesquisou o meu nome e descobriu que ele significava algo bem diferente daquilo que passei a vida inteira pensando que ele significava. - ela disse - Que desilusão! E eu que achei que ele significa algo especial.

- Desilusão? Nada disso! - respondi - O significado do seu nome não é aquele que dizem que ele possui, e sim o significado que você dá a ele.

sábado, dezembro 01, 2007

Separada

Conheci Edina em Salvador, amiga de uma amiga minha, tomamos água de coco num quiosque á beira mar.

Eu matava tempo, voaria para São Paulo à 0:00 do dia seguinte; ela dava vida a um desses bate papos maravilhosos que servem de lição para a vida inteira.

Conversamos sobre tudo, especialmente sobre casamento e liberdade, palavras que não forma orações afirmativas para a maioria das pessoas que se aliançam pelo mundo. Ela me contou que era separada do pai da sua filha por vontade dele. Após esperar por 60 dias que seu marido voltasse, ela contrariou a família e a sociedade, e saiu de casa para reconstruir a sua vida. Cansada de tanto esperar, retomou o rumo do seu caminho e ouviu da família e dos amigos: “se você esperasse um pouco mais, ele teria voltado”. Ela riu, eu também; sua família não. Bem vinda a uma terra onde a mulher nunca tem razão.

Aprendi algo inusitado sobre Salvador com Edina; apesar de ser a 3º maior cidade do Brasil e exportar ritmos, danças sensuais e ser conhecida como a capital do carnaval mais “caliente” do país; a capital baiana não fica muito distante de outras cidades interioranas brasileiras em que a mulher ainda é tratada como cidadã de segunda classe e sempre está errada mesmo quando está certa.

“A Vida dos outros está sempre na boca do povo”, contou Edina, “ Meu marido me largou, mas sou eu que sou segregada por todos. Amigas não podem ser vistas ao meu lado. Suas famílias temem que elas sejam desvirtuadas pela separada."

Ainda assim, Edina ama Salvador. Já teve oportunidade de morar em outras cidades, outros estados; mas preferiu ficar, disse que é muito importante para a filha crescer na mesma cidade em que o pai mora. É esse tipo de preocupação que faz de Edina o que ela é: uma mulher fascinante, inteligente e madura, mesmo carregando uma cruz imposta pela sociedade por querer ser feliz, mesmo separada.


Frank Oliveira
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