terça-feira, fevereiro 24, 2009

SAVITRI

Fim de tarde. Enquanto muitos pulavam carnaval nos clubes da vida, eu seguia em direção a locadora para entregar os filmes que tinha assistido com a esposa no fim de semana. Nada contra a festa brasileira ou as escolas de samba desfilando na avenida, mas curtir um bom filminho com pipoca e refri, vale mais a pena, na minha opinião.

Entre o próximo passo e o papel que voava sendo levado pelo vento, vi um outdoor à minha frente: uma mulher semi-nua exibia o seu lindo corpo na capa de uma revista masculina.
Entre o pensamento "gostosa" alterando as vibrações da minha líbido e a sensação de ridículo de estar ali parado olhando a peladona; percebi um raio de sol de fim de tarde tocando a minha testa e eu comecei a sentir uma energia diferente me envolvendo, mais sutil, mas éterea.

Era uma sensação de feminilidade. Não sei explicar, mais naquele momento uma parte minha, até então esquecida em algum lugar da minha consciência foi ativada e despertou uma energia mais terna, delicada e ao mesmo tempo firme.
Eu não era mais apenas homem, mas parte também daquela energia feminina que transmitia amor e parecia estar em todo lugar.
Percebi que essa energia sempre esteve dentro de mim e senti uma vergonha enorme em ser homem e estar sendo guiado apenas pelo tesão despertado por uma imagem num outddor.

Senti o quanto a imagem da mulher era vergonhosamente explorada por nós homens e que mesmo em tempos modernos, por mais que aceitavámos a independência e igualdade da mulher, no fundo todos nós, homens, tinhamos ainda a semente machista cultural de olhar uma mulher só com os olhos do desejo e do interesse.
Passamos toda a vida sem sequer nos darmos conta do quanto a energia feminina equilibra esse mundo tão (yang) masculino.

Desde criança fui ensinado que deveríamos admirar uma mulher pelo seu traseiro e pelo tamanho dos seios, que a mulher antes de casar era apenas para transar e depois de casada nada seria a mais que a "empregada do lar"; nunca me ensinaram a perceber a beleza do feminino no brilho do olhar, na habilidade de fazer muitas coisas e ainda assim a cada coisa brilho único dar.

No fundo do meu peito, tive vergonha do ser "um homem" e da forma como a mulher era tratada no ocidente através da sexualidade, e no oriente, pela submissão. Entre a moça nua do outdoor e a muçulmana vestida da cabeça aos pés, com uma túnica preta em algum lugar do algum país que termina com "kstão", senti o quanto tratamos mal a imagem e a energia feminina em nosso mundo.

Pensei em minha mãe, na minha mulher, na minha irmã e na minha futura filha. Pensei em todas as mulheres que eu conhecia e no quanto significavam pra mim. Pensei em quantas mulheres faltei com respeito e tratei com desprezo. Senti vergonha da minha criação machista, das tantas vezes em que repeti pra mim mesmo que certos trabalhos eram coisa de mulher e indigno para um homem, senti vergonha das conversas de bar de minha juventude em que repetia aos amigos como seduzira e "comera" aquela menininha que nem me lembro mais o nome. E chorei, chorei por ser esse homem incapaz de reconhecer a energia feminina em mim.

Compreendi que a lei da reencarnação é sábia ao reencarnar o machão num corpo delicado de uma menina. E que a separação de sexo na verdade não existia, pois éramos todos luz, consciência e partes de um grande Deus que também era Deusa.

Eu não deveria ser mais um homem e sim o homem. E esse homem precisava entender que existe a diferença entre apreciar a beleza de uma mulher e desrespeitá-la.

Foi então que no fundo do meu coração, senti que havia um leve sussurrar e eu parecia ouvir baixinho no ritmo das batidas do coração um mantra: Savitri *! Savitri!

Repeti o mantra e mergulhei na face feminina de Deus.

Imagens vieram em minha cabeça e percebi que Deus em sua infinita sabedoria deixava-se manifestar mulher tanto quanto homem, para que seus filhos queridos pudessem entender que não há diferença entre sexos, pois Ele é tão Deus quanto Deusa, desde os tempos mais remotos quando o ser humano passou a compreender que havia algo além do mundo fisíco: do culto antigo Celta a Grande Mãe, nas personificações das deusas hindus Saraswatti, Lakshimi e Parvati; na compaixão de Kwan-yn na China, na sabedoria e mistério de Isis no antigo Egito; nas crenças católicas das muitas faces de Maria, na bruxaria e nos cultos ao feminino espalhado por todo o planeta. Não importava o local ou a época, sempre haveria a manifestação divina na forma feminina para provar aos homens, que o culto e a crença não deveria ser voltado apenas para a forma de homem barbudo e sisudo que tanta religião pinta.

Então ouvi uma voz:

" Não sinta vergonha de ser homem e agir da maneira que age. É assim que se deve ser, até você entender o significado da palavra respeito.

Entenda que sentir desejo é natural, mas respeitar e conter a libido desenfreada é um passo evolutivo.

A admiração por um corpo feminino é natural, mas a obsessão por sexo é doentia.

Desejar é natural, mas entender o desejo e não ser consumido por ele é um passo evolutivo.

Você é um homem, yang, sol em toda a sua intensidade e força, mas equilibrar-se com a energia terra, Yin, lua em todo o seu mistério é um passo evolutivo.

Homem e mulher se completam na mais perfeita combinação energética e espiritual, onde a soma dos dois, resulta numa única energia equilibrada e iluminada.

O perfeito equilíbrio entre essas energias é o objetivo do homem e da mulher no seu plano de existência, mas negar essa energia ou exagerá-la é desvio do seu real caminho.

Não seja moralista com as suas idéias e anseios, porém, jamais deixe que o seu ser masculino apague a lembrança que o feminino está em você como a bela que doma a fera, como a leoa que protege a cria. Um homem é muito mais homem se emocionando com os chutes do bebê na barriga da mãe do que brigando no trânsito.

Manifesto-me em você pelas suas lágrimas;

Manifesto-me em você pelo brilho em seus olhos;

Manifesto-me em você pelo sorriso;

Manifesto-me em você pela sua sensibilidade;

Manifesto-me em você pela compaixão;

Eu sou todas e não sou nenhuma. Eu sou a Maria da rua e a dondoca chique da alta sociedade. Eu sou a mãe, a amante e a filha. Sou a executiva, a dona de casa e a prostituta. Eu sou a Deusa, sou Nossa Senhora, sou Kwan-yn, sou Isis, mas no fundo sou apenas SAVITRI.

Eu vou te segurar pelas mãos toda vez que você fraquejar.

Eu vou confortar o seu coração quando sentir solidão.

Eu vou te carregar nos braços quando você cair e se machucar.

Pois eu sou a mãe, o amor e a vida "

Então, o brilho cessou, e o outdoor continuava lá, com a moça e suas sinuosas curvas, mas meus olhos se encheram d'água. Eu não sabia o que tinha ocorrido, mas sentia que havia um estranho brilho nos meus olhos e no meu coração e esse brilho se chamava SAVITRI. E por alguns segundos pude sentir essa energia que cria a vida beijar a minha face.

Uma velhinha com um carrinho de compras passa ao meu lado e resmunga com a cara de indignada pra mim: “Seu tarado!".

Eu rio.

O papel continua sendo levado pelo vento, as pessoas continuam pulando carnaval no clube, mas ali na Liberdade, aquele sujeito com as fitas de vídeo na mão, em plena terça de carnaval, descobrira que em sua essência, ele não era homem, nem mulher, mas apenas luz. Que não havia nada de errado no tesão, na sacanagem; desde que houvesse respeito por esse ser que no homem desperta ao mesmo tempo tanto desejo quanto o amor que multiplica a vida.

Definitivamente, sentir a energia da mulher com SAVITRI no olhar é neti, neti**.


Frank


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* SAVITRI: Lenda indiana sobre uma princesa que tinha um brilho no olhar tão forte que colocava medo na morte. O nome significa algo como "Força do Sol" ou brilho cintilante. Também é nome de um poema de Sri Aurobindo:
http://www.ippb.org.br/modules.php?op=modload&name=News&file=article&sid=4590

** Neti-neti : Muitos traduzem como nem isso, nem aquilo. Algo que é difícil de ser explicado, principalmente quando tentamos descrever Deus, Brahman, O TAO, e os tantos nomes que colocamos para a mesma Força de Amor que nos dá vida.

Um comentário:

Anônimo disse...

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