sexta-feira, janeiro 14, 2011

O homem indigno, prazos e tragédias

Por Mávio Santos

A indignidade é uma incrível commodity para o sistema político brasileiro. Ela faz com que o eleitor baixe seu piso de exigências ao nível do que é emergencial. Não se pode falar em cidadão ou cidadania neste momento. Trata-se apenas de um mero indivíduo votante, que precisa continuar sobrevivendo porque deu o azar de estar vivo. Ele mora perigosamente em áreas de encostas e margens de rios, ele se alimenta com o que é possível ter, seu ir e vir é precário, desconfortável e torturante, ele tenta aprender com um sistema que não o educa. Por fim, ele não sabe o que é seu por direito e finda por votar em alguém que lhe dê a ilusão de alívio imediato.

O que nós estamos vendo na Região Serrana do Rio e em SP, em mais um verão de lama e sangue, tem definições que já se tornaram tão antigas quanto as origens dos problemas. As remoções esquecidas, porque são impopulares; as obras que não são executadas, porque a máquina é inchada e incompetente; as prefeituras coniventes, porque não têm urgência em ordenar seu espaço. É útil. Afinal, quanto mais indigno é o homem, mais facilmente ele se impressiona com qualquer migalha e mais barato ele direciona o voto - e até agradece.

Esse homem que vive em estado de indignidade não quer ser removido de onde está. Remoção para ele é um problema maior do que o risco, porque terá de se adaptar a uma nova localidade, reordenar sua vida - e ele nunca tem confiança de que a autoridade pública vai transferi-lo para um lugar decente. Enquanto não chover forte, não será transtorno, diante da gama de dificuldades com as quais ele tem de lidar diariamente.

O homem indigno vive o hoje e planeja o dia seguinte. Futuros mais distantes como "o próximo verão" obviamente são considerados por ele, mas ao homem indigno não é dada a chance de decidir soluções a longo prazo.

Quando morrem mais de 400 pessoas numa tragédia como a desta semana, não se trata de culpar o índice pluviométrico de algumas horas, mas de responsabilizar todas as horas que as gestões municipais, estaduais e a federal perderam negligenciando sua tarefa de ordenar o espaço público, mesmo que isso significasse perda de popularidade.

Prometo, leitor, que vou guardar esta coluna. Tenho certeza de que terei de republicá-la, quase sem alterações, no próximo verão.


Fonte: Jornal Destak

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