quinta-feira, janeiro 06, 2011

"ARTE DA CELEBRAÇÃO ”

Por Lya Luft

A passagem do ano não deveria pedir projetos ( e posteriores remorsos), mais projetos ( e mais futuros arrependimentos), e sim , abrir a portinhola de algum alívio, alguma alegria . Mas talvez a gente goste de sofrer.

Lembrei-me agora da deliciosa historinha do monge muito velho , quase centenário , que num remoto mosteiro pede a um monge bem moço que o ajude mais uma vez a ir à biblioteca que guarda preciosos alfarrábios. Pela última vez , ele quer folhear uma enciclopédia ou ecíclica papal, algo assim – a princípio – , o moço não entende direito. O jovem monge instala, então o velhíssimo velhinho junto a uma mesa imensa, tudo lá é muito grande e muito antigo. Mesa de carvalho, claro .

É um aposento secreto no fundo da biblioteca, onde só os monges iniciados entram. O rapaz consegue o livrão , coloca-o na mesa diante do velhíssimo velhinho e sai, dizendo: ” Qualquer coisa , toque esta sineta que eu venho acudí-lo ”.

Passa-se o tempo, o jovem monge se distrai com seus afazeres, até que se lembra: e o ancião, como estará? Preocupa-se com o longo silêncio – será que ele morreu? Corre até o fundo da biblioteca, até a sala secreta, e encontra o velho monge batendo repetidamente a cabeça no tampo da mesa .

– Mestre , o que houve? O senhor vai se machucar!

O monge centenário chora e repete certas palavras que o moço custa a entender :

– Imagine, imagine! A palavra de ordem, a recomendação, a essência, não era ” celibate ”, mas ” celebrate ”!

Lógicamente, em inglês a coisa tem mais graça, mas mesmo quem lê aqui há de entender : desperdiçamos tempo, vida e energia sofrendo por bobagens, arruinando as alegrias, ignorando afetos, trabalhando mais do que seria necessário para a nossa dignidade, curtindo mais o negativo do que o positivo, quando afinal a ordem divina metafórica é que não precisamos fazer o sacrifício do celibato, mas celebrar a vida.

Pessoalmente, sempre acreditei que a melhor homenagem que que se faz a uma divindade, se nela acreditamos, é celebrar – respeitando , amando , curtindo , cuidando – a vida, natureza, a arte, o enigma de tudo .

Mas nós, humanos, nem sempre espertos ( embora a gente se ache , e muito ), em vez de celebrar a passagem de ano, passamos boa parte dela nos enrolando. As providências excessivas , as compras , as comidas, as dívidas em dezenas de prestações … os planos .

Mas para que planos, quando o melhor é ter só um? Ser mais feliz, mais alegre, mais amoroso, mais honrado, mais pacífico. Mas a gente coloca aspectos prosaicos da vida acima de tudo: perder 10 quilos, tratar melhor a sogra , ser menos puxa-saco da sogra, da cunhada, da nora, do patrão. Ganhar mais dinheiro, o que nem sempre representa a conquista da felicidade ou algo que o valha , e por aí vai .

Para um lado ou outro, para o sim ou para o não, nessa hora nos enchemos de preocupações , acumulamos propósitos, e nos amarguramos porque quase todos aqueles objetivos elencados na passagem do ano passado não foram cumpridos ( e ainda por cima a gente sabia que ia ser assim ) .

E daí? E daí que poderíamos aproveitar o momento para pensar no que realmente vale a pena. E o que vale a pena, não importam a biografia ou a latitude, é celebrar. Para tanto, basta que sejamos, em casa, no trabalho, na escola um pouquinho mais agradáveis e menos tensos. E que, pelo menos , isso se manifeste na forma de um abraço vindo do fundo mais fundo do mais cansado – mas ainda amoroso e celebrante – coração .

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