sexta-feira, outubro 30, 2009

Dia das Bruxas

“ Com Deus eu entro,
Com Deus eu saio,
Em armadilhas
Eu não caio”

Reza popular nordestina


Havia um beco onde os moradores do Bairro da Esperança jogavam entulho e também se desfaziam de animais de estimação mortos. Estamos em Cajazeiras, na Paraíba, a população em sua grande maioria era de classe humilde, pessoas que não tem dinheiro para enterrar seus mortos humanos, quanto mais seus mortos bichos. Durante o dia, boa parte dessa gente evitava o Beco da Carniça por causa do mau cheiro, por causa do lixo e do esgoto; outros, como eu, o usava como atalho; afinal, para chegar na casa dos meus avós, só havia dois caminhos pelo Beco ou dando a volta pelo seminário que demorava ao menos mais dez minutos de caminhada.

Sempre gostei de cortar caminhos, por isso nunca ouvi muito o que minha avó dizia: “Caminho curto é o atalho de defunto”. Eu não tinha planos de morrer tão cedo, tinha apenas doze anos e um grande sonho: seria famoso depois de publicar um livro com as minhas memórias seca.

Eu também não tinha medo das histórias assombradas que contavam sobre o Beco. Diziam os velhos em suas cadeiras de balanço coladas nas calçadas da Rua Luiz Paulo Silva, que há muito tempo uma velha que todos consideravam ser uma bruxa, desapareceu ao entrar no Beco. Seria mais uma história de gente sumida, se não fosse pelas gargalhadas que toda noite ecoavam de lá.

Certa vez, fiquei até escurecer na casa de um amigo, assistindo filmes de terror. Ele tinha o vídeo-cassete, eu tinha o dinheiro (quero dizer: ele não sabia, mais eu tinha um amigo que trabalhava na locadora e que me cedia os filmes de graça) e assim em parceria, assistíamos todos os filmes de horror que as minhas “finanças” podiam pagar. Já havíamos visto todos os filmes lançados do Jason e do Freddy Krueger; a Volta dos Mortos Vivos e também o Exorcista (versão sem cortes). Era bagagem mais que suficiente para garantir que nada nesse mundo me assustaria, por essa razão, decidi pela primeira vez, atravessar o Beco da Carniça à noite.

Eu não conseguia enxergar nada entre a rua onde começava o beco e o outro lado, onde ficava o bairro que eu morava; porém de tanto pegar aquele atalho, eu sabia o caminho de cor. Conhecia cada curva, cada mato, onde começava o esgoto e onde terminava a montanha de lixo, sabia até a parte onde a carniça começava a feder mais, em suma, atravessar o Beco durante a noite não deveria ser nada diferente que de dia.

Comecei a travessia, pensando nos gibis que poderia trocar por siriguelas, nas provas da semana e em Eliana, o amor da minha vida, ou seja, qualquer pensamento que não me remetesse ao beco ou a sua fama. Desci a trilha que começava junto ao muro do seminário, desviei-me do riacho de esgoto que reconheci pelo cheiro; pulei o primeiro cachorro morto e continuei andando à esquerda do muro e à direita do entulho. Já podia ver as luzes do outro lado, e confesso, até respirei aliviado; e contente, pois eu poderia confrontar aqueles velhotes e contar que não havia bruxa nenhuma no Beco.

Daí, algo ocorreu: percebi que estava sendo acompanhado...

- Menino, o que você faz sozinho, atravessando esse beco? – disse uma voz, bem atrás de mim; era um senhor com uma lanterna na mão, também pegando o atalho. Respirei aliviado. Era apenas um velhinho.

- O mesmo que o senhor! – respondi olhando para ele. Era moleque desaforado, não tinha ainda aprendido a respeitar os mais velhos.

- Você não sabe que é perigoso – ele disse, quase sussurrando - E se a bruxa te pegar?

- Acho mais fácil, ela pegar o senhor, que deve ter a mesma idade que ela. – respondi rindo e dando as costas pro velho. Esperei a resposta, mas não houve. Olhei para trás, mas não havia sinal do velho nem da sua lanterna. A chance de ele ter pulado o muro era mínima; então comecei a pensar um monte de besteira e sentir muito medo.

E se o velho fosse o marido da bruxa? Quem disse que homem também não podia ser bruxo? E se as gargalhadas que o povo ouvia fossem dele e não da bruxa?

Sem pensar duas vezes, comecei a correr, mas tropecei em algo e caí, dando de cara nos restos de um gato morto. Descobri, olhando os restos do gato, que o escuro era de certa forma claro e à minha frente jaziam centenas de restos de animais podres. Levantei-me com certo desespero e para a minha surpresa, o final do beco que parecia perto, estava ficando cada vez mais longe.

Respirando com dificuldade, continuei a correr e tornei a cair. O medo estava me tornando cego para a minha memória do Beco, eu já não conseguia distinguir os detalhes, já não sabia onde pisava nem onde pisaria e a angústia de cair em cima de algum outro bicho morto ou de cruzar novamente com o velho fez com que eu começasse a rezar uma oração de proteção que minha avó me ensinara:

“ Com Deus eu entro, com Deus eu saio; em armadilhas, eu não caio
Com Deus eu entro, com Deus eu saio; em armadilhas, eu não caio
Com Deus eu entro, com Deus eu saio, em armadilhas, eu não caio”


Não adiantava, eu continuava tropeçando em bicho morto e o medo aumentava ainda mais. O pânico tomou de conta, quando comecei a sentir que havia alguém novamente se aproximando com uma lanterna. Pensei em voltar e correr para o outro lado, mas já não conseguia me mover de tanto medo que sentia. A pessoa se aproximava cada vez mais e eu então me joguei no chão, preparado para o pior.

- Menino, o que você faz sozinho atravessando esse beco? – disse a voz. Não me movi. Ele continuou - Não tenha medo, quero lhe ajudar - olhei então para cima e vi um rapaz com uma lanterna na mão. Contudo, não senti mais medo, pelo contrário, o sujeito me pareceu ser do bem e de carne e osso. Senti proteção e alívio.

- Por favor... – pedi, com lágrimas nos olhos -... me tire daqui!

- Venha! – disse ele com a uma voz terna – Seja lá o que você sentiu, já passou.

O rapaz então me conduziu pelo Beco até o outro lado. Lá chegando, ele se despediu e avisou:

- Cuidado! – ele disse, com uma voz clara e serena – Não atravesse o Beco à noite. O problema não são os fantasmas dos casos que o povo conta, o perigo é você pisar em algum buraco e se machucar.

- Obrigado moço, por me salvar – eu disse, mas percebendo que ele voltava para o beco, avisei – mas por favor, não entre nesse Beco, eu vi...vi...um fantasma!

- Não se preocupe. Conheço muito bem o beco e além disso, tenho a lanterna. – ele respondeu sorrindo e entrou no beco. Respirei fundo uma vez mais e fui para casa; precisava tomar um banho e me livrar daquele cheio de carniça.

Quando cheguei em casa, meus avós e os vizinhos conversavam na calçada, como faziam todas as noites, contando as histórias de terror envolvendo a bruxa e o Beco.

- Não há bruxa por lá – eu disse – acabei de vim do Beco. Se vocês querem saber a verdade, eu vou contar: vi um fantasma de um velho com uma lanterna na mão. Eu nunca mais passo por lá.

Pensei que eles fossem rir, mas eles ficaram em silêncio; como se soubessem bem do que eu estava falando.

- É o marido da bruxa! – disse Dona Nininha, nossa vizinha, com convicção – Eles eram como unha e carne. Quando a bruxa desapareceu, ele passava o dia inteiro procurando por ela e todas as noites também, sempre com uma lanterna na mão, vasculhando todos esses becos e matos. Ficou doido, coitado, e virou também motivo de piada dos meninos da rua e de todos esses velhotes faladores.

- Para com isso, Nininha, até você o chamava de bruxinho! – disse meu avô dando risada, o que fez todos rirem também. Eu não entendi a piada e comecei a ficar irritado com toda aquela conversa, mas antes que deixassem os velhos para trás, ouvi ainda a Dona Nininha falando:

- A gente ri para não chorar, não é? E pensar que logo depois, o único filho do casal, um rapaz bonito, desapareceu também... Isso faz a gente pensar, que desgraça foi essa que envolveu essa família?

- Mistérios, Nininha – disse minha avó – Mistérios...

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