quinta-feira, março 31, 2011

Neguinho


Acordei no meio da noite com alguém gritando:

- Neguinho! Neguinho!

Neguinho era o meu apelido, quando eu era menino. Nunca gostei, mas o povo me chamava assim mesmo. O povo era toda a minha família. Se me perguntassem quando eu era moleque, o que eu seria quando crescesse, meu eu-guri provavelmente responderia: “ Eu não quero ser Neguinho!”.

Não sei em que momento, um apelido pega; tem gente que diz que a melhor estratégia para evitar apelidos é não ligar e ignorar. Eu não podia ignorar, nasci Neguinho. E eu odiava ser chamado desse jeito.

Contam as lendas, que foi meu pai que me chamou assim pela primeira vez. Depois todo mundo continuou a usar esse apelido; daí, passei quase toda a minha vida, tentando mudar isso.

Primeiramente, pedia as pessoas que me chamassem pelo meu nome do meio “ Rivaldo”, o que não era, convenhamos, um bom nome para um menino ser chamado. Depois, optei por me chamarem pelo primeiro nome “Francisco”; o que não resultou em coisa boa, uma vez que passei a ser alvo de chacota dos rapazes que viviam dizendo que a minha cor preferida era a vermelha e que eu vivia entre as mulheres. A ficha só caiu, meses depois, quando pela primeira vez aprendi o que era menstruação...

Cresci mais um pouco ( só mais um pouco) e passei a me auto-chamar “ Frank”, que era um nome forte, criativo e que tinha muito a ver com a língua que comecei a estudar naquela época; o inglês. Para a minha sorte, o apelido pegou! É claro, que nada foi perfeito, eu tive que aprender à administrar as brincadeiras com Sinatras, Aguiar e Stein; porém, pela primeira vez na minha vida, eu sentia que estava sendo respeitado; inclusive com a minha família, minha mãe, minhas tias, primas e irmãos, que passaram a me chamar pelo meu apelido. Tudo muito perfeito, até minha avó chegar do Nordeste e me chamar:

“ Neguinho! Neguinho!”

Pelejei com a Dona Geralda. Foi uma briga árdua, corrigia, relembrava, mas nada, absolutamente nada, fazia ela parar de me chamar de “Neguinho”. Desisti! Aceitei que com ela, o apelido ficaria, ficou! Até depois que ela desencarnou...

Ontem no meio da noite, acordei com alguém gritando:

- Neguinho! Neguinho!

A voz aumentava e abaixava, mas era dela, era a minha avó. Eu não sou médium profissional, não costumo ouvir "a gente do lado de lá", mas tem vez, que a coisa dispara, e vejo, sinto e ouço coisas que nem dá para explicar, e , depois de me beliscar várias vezes, percebi que eu não estava dormindo, e a voz continuava:

- Neguinho! Neguinho! Diz para eles que estou bem! Que parem de chorar o tempo todo! Estou bem!

- Vó? É mesmo a senhora ou sou eu imaginando coisas? – perguntei, ainda confuso.

- É claro que sou eu, menino! - ela respondeu- Se fosse você imaginando, eu não estaria te chamando de Neguinho!

2 comentários:

by Rapha C.M. disse...

Frank "neguinho" (dá licença de chamar assim, só essa vez, rsrsr...) adorei o seu Blog! E com certeza me emocionei com o seu encontro com sua a vó, pode ser real ou sonho, não importa, o que vale é a emoção! Peço licença para indicar o seu espaço lá no meu blog, recém chegado a blogosfera! Voltarei mais vezes para me deliciar com os seus textos!
Um Abç!

Cristina Oliveira disse...

Amém Maninho!!! Grande Merecimento Neguinho!!!Eu e Você já Sabemos que ela está bem agora vamos espalhar pros Outros Também!!!!Até para os Surdos de Alma que querem se trancar e não deixar a Felicidade Entrar!!!
Bjsss No Coração Te AMOOOOO Neguinho Lindoooooo,kkkkkkkkk

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