quinta-feira, abril 21, 2011

ALGUNS QUE CONHEÇO QUE A VIDA FEZ MUDAR DE OPINIÃO

Relato de experiências REAIS de Lázaro Freire

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Moro em São Paulo na região do Bosque da Saúde e Alto do Ipiranga. Com a proximidade da favela de Heliópolis, a maior do país; e com alguns pontos de tráfico no meio do bairro, há uma relativa violência por ali, com a qual nós, moradores - espiritualistas ou não - somos obrigados a conviver.

Ainda vou ao segundo endereço em que morei na região, para treinar na academia de um grande amigo, meio quarteirão distante de onde morei. E nessas visitas, faço compras no supermercado do Severino, amigo que viu meu filho crescer.

Pois é, o Severino sempre foi defensor da família, ainda que tendo uma arma para enfrentar qualquer emergência. Nordestino gente boa, trabalhou muito para montar o seu estabelecimento - e, coitado, já foi assaltado tantas vezes, com comércio assim na rua...Um batalhador, mantendo preços competitivos (e lucros baixos) em seu mercadinho, apesar das grandes redes. Em sua ótica, as armas lhe dariam segurança, né? Não se pode colocar a vida da família em risco.

Pois é, o Severino, pernambucano de princípios, TINHA uma filha, que morreu prematuramente. Bom, morreu não, já que sabemos que espírito não nasce nem morre... Mas a saudade dela aqui é bem real, mesmo assim.

O duro é saber que quem matou sua filha não foi um dos tais assaltantes. Podiamos dizer que ela foi morta pela "violência", mas a bala que a atngiu não era tão "abstrata" ou conceitual assim. Talvez alivie a consciência imaginar que por "culpa" do assaltante ele tinha a arma, mas isso não muda a realidade: nenhum assaltante atirou em ninguém ali, e a filha dele morreu, com a arma do próprio pai. E nem havia assalto em curso...

Pois é, uma amiguinha encontrou o revólver. Crianças sempre encontram essas coisas, né? Assaltantes, também. Curiosas... Ninguém sabe como direito, e pouco interessa agora, mas, sabe-se lá como, encontraram, mexeram, deixaram cair, algum acidente, disparou, gatilho, explodiu algo... SEI LÁ! O que importa agora? A única coisa que importa é a criança com o tiro no rosto.

Engraçado, ele mudou de opinião em relação ao porte de armas.

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Eu me mudei dali, mas continuei na mesma região. E no meio do caminho entre minha casa atual e a do Severino, há uma avenida arborizada, próxima à Tancredo Neves. Moro perto dali, até hoje. E um vizinho meu, morava também.

Há uns anos atrás, meu um vizinho vinha de carro por esta avenida. Acompanhado. Sua namorada também era a favor de andar armado, soube depois. É preciso ter segurança nessa São Paulo perigosa, todos dizem por aí...

Naquele dia, duas motos os seguiram. Uma de cada lado, armados, como é comum em alguns assaltos da região. Ele não conseguiu fugir, não seria seguro. Sempre atuam de surpresa, nunca dá tempo de encontrar a arma ou acelerar. O assaltante está preparado, o assaltado - salvo paranóia - apenas leva sua vida, normal.

Pois é, pegaram meu vizinho nos quebra-molas. Ele teve que parar, estava no alcance de possiveis tiros. Como ocorre em qualquer assalto, afinal, nenhum ladrão vai dar ordem de assalto do outro lada da rua, e começar uma troca de tiros entrincheirado como em filmes de farwest. Logo, foi um assalto normal, como tantos outros, em que já
se percebe a situação "de assalto", como o próprio nome já diz.

Os ladrões queriam dinheiro, essas coisas, infelizmente já nos acostumamos, e não raro, temos mais preparo psicológico do que eles. Talvez até levassem mesmo o carro, o seguro pagaria.

Mas antes, os ladrões, alterados, perguntaram se ele tinha arma. Pergunta de praxe, mas amedrontado, ele negou. Sabe-se lá porquê, estranharam a reação, resolveram vasculhar. E encontraram a arma! Porque não deixaram a moto e levaram o carro de vez?

Antes de matá-lo a sangue frio, ali mesmo no local, os ladrões explicaram para sua acompanhante que era pra ela dizer que aquilo era uma "lição". É o que acontece com quem anda armado... "Aê, mano? Qué issaqui, tá mi tirano, maluco? Qué matá nóis, palhaço? Vai morrê, filudapulta. Qué matá nóis, filadapulta? Perdeu! Perdeu! Vai morrê!". Aquele português crássico.

Pois é, parece que os ladrões consideravam o simples fato de ENCONTRAR uma arma como uma defesa prévia. Para os ladrões, ou pelo menos para AQUELES ladrões, quem tem arma no carro não a carrega para bater pregos. Está na guerra.

Mesmo drogados e alterados, eles parecem ter mais coerência lógica do que quem esquece que, na prática, não terá tempo de usar. No raciocínio do marginal, eles entendem que a vítima não tem arma pra matar pombos. Logo, consideram (com toda razão, a meu ver) aquelas armas como potencialmente apontada para eles.

Se você não tem arma nessa hora, é só um assalto, e você não é do tipo de reagir. Se tem, é porque daria um tiro no assaltante, se tivesse oportunidade, e "ganharia". Certos eles, não? Como só não morreram porque você não teve oportunidade, pode ser que eles tenham, e a coisa deixa de ser um simples assalto para se tornar vida e morte dele. Então, se eles pegarem, no seu porta-luvas ou na sua cabeceira, "mano", você "perdeu".

(Bem, deve ser melhor do que ver a filha morrer ensanguentada pela própria arma que você comprou)

No velório, a namorada da vítima, que certamente mudou seu "voto", implorava para as pessoas se desarmarem... Segundo ela, no momento não adianta, e geralmente pode ser muito pior. Não precisava custar uma vida para concluir.

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Mas às vezes, a lição vem na nossa própria pele - ou quase.

Um cara que tento conhecer bem desde o dia que em nasci teve seu carro assaltado duas vezes na porta de casa, na perigosa rua onde moro. Ponto de contravenções, melhor não explicar publicamente, embora todos na região conheçam - a começar pelos policiais.

Em todos dois assaltos que sofri ali, mãoS armadaS, no plural. Sempre ao fechar a garagem para sair. E ali do lado de minha casa, há um boteco. Sempre cumprimento as pessoas lá.

Na última vez, eram em três, os ladrões. Subindo a rua em um Corsinha roubado, sem gasolina. Viram meu carro, potente, fácil, atravessado na rua, enquanto eu descia para fechar o portão. Com meu carro, 100 cavalos a mais, teriam melhor fuga. Me abordaram, e fizeram a troca, deixando o Corsa ligado, bem ali.

Eu estava no momento errado no lugar errado. Bendita hora que escolhi para ir a locadora, 1 minuto antes ou depois, a história seria outra, e o Corsa teria passado direto ali. Fico pensando, quando se morre em situações assim, em como o destino pode ser ironicamente detalhista... Ou karmicamente preciso, talvez.

Mas nesta segunda vez, era noitinha, e havia muita gente no tal bar. Um dos frequentadores do boteco, conhecido meu, não gostou nem um pouco de ver o "Seu Lázo", o "músico", com armas na cabeça. Seu Lazo, aquele "doutor gente boa" sendo assaltado. O sangue do frequentador do bar subiu. Três revólveres na cabeça daquele "cara de terno que fala com nóis tudo", o "músico que deu um CD da banda dele pra gente", o "cara que mora aqui e é dos bacana, mais é humilde".

Pois bem, o tal sujeito que cumprimento sempre anda armado. Mas justo naquela hora, estava sem sua "máquina". Não teve tempo de reagir. Foi tudo muito rápido, me levaram o carro, o seguro pagou - aliás, naquele momento de minha vida, foi até bom para mim.

Mas o sujeito do bar veio quase chorando, me pedir desculpas, por não ter conseguido reagir a tempo: "Pô, doutor, eu tava sem minha máquina, eu procurei, eu ia tê istorado os miolo daqueles filadaputa, cumé qui faiz isso com uma pessoa bacana quinem o sinhô"...

Peguei um dinheiro pro ônibus emprestado com alguns "comerciantes" da minha rua (os quais tambem cumprimento), dei uma dura em alguns deles (e fiquei pensando... Com três 38 na minha cabeça, ao mesmo tempo - ou sei lá que calibre - qual seria a chance de eu sair vivo da troca de tiros na rua, SE naquele momento, o "amigo" do boteco estivesse com seu revolver na cintura, como SEMPRE costumava estar?

Na sua ótica, ele deve andar armado. Afinal, gosta de beber e jogar sinuca num bar perto de um ponto conhecido, onde pode haver assalto. É verdade que em outros tempos, já houve mortes ali. Gente que anda armada atirando em gente que anda armada. Ele acha que precisa defender as pessoas, e a si mesmo... Mas por "azar meu", ele não conseguiu me "defender" quando precisei.

Pois é, se eu tivesse a tal "sorte", não estaria aqui relatando. Mas tendo o azar, a justiça se fez. Recebi meu seguro, tirei OUTRAS lições que a vida me trouxe daquele assalto e "perdas" do período de reconstrução, refiz minha vida com o dinheiro do carro, e, mais importante, o mecânico humilde, dono do Corsa roubado deixado por
milagre em minha porta, pode reaver seu único bem, que não tinha seguro. Bendito "azar", o nosso!

Meu amigo não reviu sua posição. Mas eu, se um dia houvesse pensado em andar armado, teria mudado meu voto ali.

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Fico pensando, também, em meu pai. Certamente, se eu tivesse ido naquele assalto, meu velho - que sempre foi a favor das armas, e me ensinou a atirar (muito bem) com rifle desde criancinha - teria mudado de voto.

Mas até hoje sem sentir na familia, ele certamente não votará por entregar suas belas espingardas de cano duplo e rifles semi-automaticos que mantém em casa. Aliás, nem precisaria entregar, já que é direito adquirido. Mas ele prefere manter a Boito 12 cano duplo e o rifle semi-automático ali no quarto de sua casa, em Minas Gerais.

Afinal, vai que aparece um urso selvagem no subúrbio de Belo Horizonte, né?

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E ao falar de Belo Horizonte e armas, é impossível não lembrar um dos episódios que mais marcou o começo de minha juventude. E de um grande amigo que eu tinha. Ou melhor, que eu tenho, já que os grandes laços não se prendem a tempo e lugar.

Mineirão, o tio de meu GRANDE amigo "Chiquinho" também era a favor da defesa da família e da propriedade. Na verdade, o nome de meu GRANDE amigo era Antonio de Paula... Nada de Francisco!

Pois bem, no primeiro dia de aula no COLTEC UFMG (não vou contar o ano para não confessar minha idade :-), os veteranos acharam que ele tinha cara de Chiquinho. E o chamaram de Chiquinho no trote, e o apelido pegou por anos. Mas também, devo confessar, ele tinha BAITA cara de Chiquinho mesmo! Passamos a chamá-lo de Chiquinho também...

E o "Chico" era um cara bom... Mas tantos questionamentos do mundo... Bipolar, hoje, estudando psicanálise transpessoal, eu sei. Naquela época, não sabiamos ler os gritos em suas atitudes e oscilações. Grandes ações humanitárias, grandes vazios. Grande "espiritualidade" de um lado, muita leitura de filosofia - e depois, muita depressão,também.

Numa dessas viradas, largou tudo, mudou-se para o interior, buscando sentido. Passou a viver num orfanato de padres, cuidando de crianças. Doou o fim de sua vida para ajudar o próximo. E para todos que ajudou, certamente deu o sentido que buscava.

O tio do Chiquinho, em Belo Horizonte, era um chefe de família consciente, zeloso, um mineiro de tradição. Com sua arma no apartamento urbano, vai que um dia é necessário? E de vez em quando o Chiquinho, um dos "protegidos" da família, ia em sua casa. Não era mais criança como a filha do Severino, sabia bem como usar, e pra que uma arma de matar serve.

Chico ajudou muito os outros. Mas não conseguiu se ajudar tanto quanto ajudou aos demais. Filósofos de campus, nunca entendemos direito que ele precisava urgentemente de um pouquinho só de TODA A LUZ que ele sempre doou e distribuiu com todos amigos que encontrou...

Numa dessas depressões, Chico veio a BH. Procurou um a um, todos nós. Fez questão de jogar mais uma partida de xadrez comigo, e quando eu me distraia, mudava as peças de lugar. Divertidissimo! Cantou, brincou, fez palhaçadas... Todo mundo matou saudades. E ele se foi, para o "interior", nos deixando com mais. "Putz, que cara!". "Vida
monástica em Cel Fabriciano"? "Pô, cara, venha mais a BH, saudades dos nossos papos de filósofos marxistas resolvendo todos os problemas do mundo enquanto tomavam COCA-COLA, ouviam Pink Floyd e jogavam xadrez na cantina do Coltec-UFMG"!!! "Apareça, Chico, a turma fica muito incompleta sem você..."

E ele se foi. Mas mas no dia seguinte, excepcionalmente, vimos outra vez o Chiquinho. No cemitério.

Ele voltou para o hotel, tudo já prémeditado, e a arma do tio voltou com ele. A arma de defesa da família. E assim, a arma cumpriu sua única função de existir neste universo: dar um tiro, ferir pessoas. Já que o tio, assim como o Severino, nunca teve oportunidade de trocar balas com ladrão algum... De algum modo o pensamento criado, a energia da intenção do revólver precisava encontrar uma razao de
existencia... Não criamos sempre o que imaginamos?

Sei lá, agora tanto faz. O que marcou é que o Chico foi voar, sabe-se lá por quais umbrais. E nosso primeiro contato com a morte se deu de um modo muito violento e incompreensível. Difícil consolar, não é como uma pessoa adulta compreender que sua vó teve seu tempo e partiu.

E o Chico voou, e fez falta. Tomara que tudo que fez de bom tenha contado a seu favor, de algum modo. Talvez seja auto consolo meu, mas penso que um cara como ele não se matou, e sim foi assassinado pelas diferenças da vida. Pelo aperto que as injustiças faziam no seu coração. Aliado talvez a psicopatologias não tratadas. Imagino que casos assim tenham um desconto do "lado de lá", senão tudo está muito
errado...

O fato marcou muito aquela época de minha vida. E perdi as contas de quantas vezes concluí que o tio não precisava ter lhe dado a oportunidade, tão facilitada assim.

Demorei a conseguir chorar. Veio uma frieza grande. E eu corri pro violão, num lamento, e apesar da manhã não ter nascido "Azul" (nome de uma música minha, anterior a do Djavan), foi muito bom poder tocar um instrumento. Saiu uma bela canção, RAZÃO, no estilo Osvaldo Montenegro que influenciava a minha linha melódica de então. Não era o que eu pensava, mas era o que eu "canalizava" de todo o pacote do
momento...

A melodia era belíssima, uma das mais lindas que escrevi, com agudos brilhantes e tristes. Tive que parar de tocá-la em shows, pois as pessoas choravam sem parar:

Se eu não tivesse
mais porque cantar
Seria sol sem manhã
Futuro sem amanhã
Seria sonhar com o céu
e só encontrar
o chãããão!!!
Na falta de ilusão, pra que coração???

Sol sem manhã, noite sem luar
Vida sem razão de ser
Morrer para renascer
Pois sempre haverá uma noite
Antes do sol
bri...lhar!!!
Choro com o pé no chão,
Chico quis voar...

Muito linda, especialmente a melodia que não tenho como colocar aqui. Sem poder cantá-la, devido à reação emocional dos amigos na platéia, transformamos em instrumental, na época. Colocavamos partes desta mais bela melodia que escrevi (obrigado, sombra junguiana!) nos arranjos de flauta/violoncelo/bandolim de todas nossas outras músicas, incidentalmente, em homenagem ao vôo noturno do amigo... A
vocalista, agudíssima, fazia vocaliza~]oes... E sempre ganhamos todos os prêmios de melhor arranjo de festivais.

Disseram para o tio que talvez ele, Chiquinho, pularia de prédio, se jogaria da ponte. Nós, quase crianças, dissemos ao adulto que a culpa não era da arma dele, etc...

Mas sei lá, o tio nunca se convenceu, sabe? Afinal, o Chico sabia da arma ali, e ele lhe deu de presente a ocasião. A partir de então, o tio passou a ser contra a posse de armas.

...

O tempo passou, minhas músicas mudaram de tema, a espiritualidade - que não combina com a defesa das armas - entrou de forma definitiva de minha vida, me dando outra compreensão da cocriação da realidade que nos cerca.

Essas armas, como a do Chiquinho e a do Severino, foram compradas, hoje eu sei, PLASMANDO uma imagem de alguém da familia levando um tiro. Ainda que por defesa, é isso que se constroi magicamente no astral - ou sabe-se lá onde - quando compramos um instruimento de matar. Bem, nosso inconsciente / "subconsciente" (sic) tem um poder infinito de realizar nossas criações mentais. Se o ladrão não coopera vindo dar um tirinho, as vezes, como mostram esses casos, o Deus que somos, penso hoje, acaba arrumando uma outra forma de nossas criações mentais se materializarem... Nem que seja na carne das pessoas a quem queremos bem.

Lázaro Freire

(que fica se pergunta como podem haver "espiritualistas" a favor das armas, mas, ainda assim, prefere VIVER e extrair suas lições da própria vida, sem julgar. Mas que, por acreditar que Gandhi, Buda, Cristo e tantos outros não são teorias longe de nós, prefere deixar as armas apenas para os policiais Arjuna que a tem como dharma, e, consciente do que a vida É, votar SIM !!!)

Esta mensagem pode ser distribuida livremente, desde que citando a fonte: Lázaro Freire in "VOADORES" (http://groups.yahoo.com/group/voadores)

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