terça-feira, fevereiro 17, 2009

PEDRO MORREU, VIVA PEDRO!

Pedro morreu! Viva Pedro! Viva, viva, viva e perceba que a vida é mais do que o que você achava que existia. Entenda Pedro, que ninguém morre nunca, tudo continua mais ampliado ainda.

Não tenha medo, Pedro, o que ficou pra trás é agora cena de sonho, não volta mais, e misturado com outras tantas lembranças, você logo notará que essa passagem pela Terra perderá a intensidade que te faz agora sentir falta e chorar. Á medida que você for conhecendo, se lembrando, você compreenderá, Pedro, que o que foi vai se apagando e o que é vai se ajustando.

Viu, meu amigo, o que você está sentindo não é nada daquilo que lhe falaram, que você ouviu, que leu nos livros sagrados, tudo isso É que É de fato. Mas afinal, o que você esperava, Pedro? Que pudessemos descrever com exatidão o que É? Como é possível para um marinheiro esquecido se lembrar do que é o mar? Há uma vaga lembrança de algo que É, mas não temos idioma e nem capacidade mental para sequer conceber as coisas que SÃO além desse mundo de ilusão. Sim, tem muita gente que escreve tese, ensaios, faz palestras, publica livro, cria religião, mas quem tem bons olhos sabe ver que uma visão não passa de apenas de UMA visão. E Pedro, meu amigo, há tantos pontos de vista nessa terra que você deixou pra trás...

Terra linda, por sinal, sim, você vai sentir falta das cores, dos amores, dos mils sabores que ai, sei lá, mas acho que você não vai encontrar, mas apenas acho, amigo, certeza só tenho que nada para mim é certeza, não sigo o Caminho dos Tolos que faz parte da trilha de certos caboclos daqui que teimam em querer provar que você não está mais vivo, Pedro, imagina que pretensão achar que o mundo É somente aquilo que captamos com a nossa limitada percepção.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

REI DAS MONTANHAS

Martelando na montanha
Tem, tem, tem
Tá, tá, tá, tá
Tem Força
Tem, tem, tem
Faísca
Tem, tem, tem
Justiça
Tem, tem, tem
Relampear
Tá, tá, tá, tá

Martelando na montanha
Tem, tem, tem
Tá, tá, tá, tá
Firmeza
Tá, tá, tá, tá
Natureza
Tá, tá, tá, tá
Chuva há
Tá, tá, tá, tá
Trovoar, tem, tem, tem, tá, tá, tá, tá

É Xangô que vem bailar
Tá, tá, tá, tá
Kaô, Kaô, no congá
Tá, tá, tá, tá
É o Rei da Montanha
Tá, tá, tá, tá
Com seu martelo a firmar
Tem, tem, tem, tá, tá, tá, tá

Salve a força de Xangô
Tá, tá, tá, tá
Vem, meu Pai, nos ensinar
Tem, tem, tem
Tá, tá, tá, tá


Notas: Essa canção ficou "martelando" na minha cabeça durante dias. E para entender o que ela significa e por qual razão ela foi escrita, vai essa pequena explicação:

Não sou da Umbanda, nem do Candomblé. Não sigo nenhuma religião em particular, além dos meus estudos espirituais por todas as linhas, sem distinção. Sou um estudante, e como tal, já provei dos diversos caminhos, colhendo impressões, escritos, meditações para poder compartilhar com todos.

Sempre fui fascinado pela cultura afro-americana na manifestação do culto aos Orixás. Embora, tenha sido criado desde o berço sob a sombra ou a luz desses cultos, nunca dei a devida importância, e confesso, sempre tive certa desconfiança desses cultos, por favor, culpem a minha ignorância ou um certo preconceito.

No ano passado, esses caminhos voltaram para a minha estrada espiritual e desde então, toda vez que trabalho com esses Orixás por meio de meditação ou nos rituais que faço parte, sou recebido e os recebo com festa. Em outras palavras: que coisa mais linda é esse trabalho trazido pelos africanos e incorporado a cultura brasileira.

E foi numa dessas meditações que senti pela primeira vez a força associada ao Orixá Xangô (sentir é o verbo que mais se aproxima do que percebi). Comprrendi que esse canal ao divino chamado Xangô é uma força, se não, a força que move as outras forças, não no sentido de ser superiora, mas no sentido de somar. Ela é a força que garante que a justiça real seja feita ( não a justiça que imaginamos, segundo as nossas emoções da Terra), para que a alma do indivíduo devedor, possa firmar um compromisso definitivo com a luz e com o amor.

Xangô, a grosso modo lembra o Deus Macaco Hanuman, da epopéia indiana Ramayana, que move as montanhas para que o amor possa ser religado, reunido, reformado ou reencontrado.

É a força que move o karma, indicando o Dharma pelos frutos da ação, no movimento da matéria que a nossa manifestação na Terra faz girar.

Ser um "filho de Xangô" é assumir um compromisso com a Justiça, a lealdade, a firmeza e com a verdade. Assistir um ritual de incorporação dos caboclos da linha de Xangô é perceber que há uma legião de entidades trabalhando nos bastidores para que possamos cumprir o nosso dever nesse acontecer de cada karma.

Sendo o Deus do Trovão, Xangô lembra Thor, um dos deuses da mitologia nórdica, que em seu martelar faz com que as nuvens se choquem, produzindo uma explosão de luz e som.

Onde quer que essa força trabalhe, onde quer que essa egrégora esteja; quanto tocamos o tambor e cantamos em seu louvor, essa força percebe a nossa presença, não por meio das palavras ou gestos que emitimos em sua direção, mas por nossa sintonia, pelo nosso martelar de idéias, o nosso trovejar e relampejar de intenções. É nessa frequência que Xangô nos percebe como indivíduos e não mais como a massa, o coletivo, a boiada que precisa ser tocada, banhada, movimentada para lá e para cá nessa nossa roda terrena de Sansara.

domingo, fevereiro 15, 2009

RODA DE CAPOEIRA

A SAUDADE

" A saudade pro coração de um capoeira
É igual a uma rasteira
Faz o berimbau parar
Ou então faz tocar
Um toque de angola
Onde o capoeira chora
Mesmo sem querer chorar

E ai se vê o lamento de um guerreiro
Sem rumo e sem paradeiro
E o poeta que aparece
Ele se esquece que é forte e perigoso
Tira o lenço do pescoço e solta um verso no ar
Que diz:

Amor, por favor,
Espere um pouco
Não vai me trocar por outro
Eu vim aqui e já volto já..."

Toni Vargas


Capoeira da Dualidade

Eu vou lá, eu vou cá
É vento que sopra, vou soprar
É pra lá que eu vou já
Caio, levanto, vou dançar

É pra lá, é pra cá
Na dualidade do estar
Vivendo pra contar
Escrevo tentando demonstrar

O que há é o que há
Não importa o outro duvidar
Segue teu caminhar
Segue com Nossa Senhora

Vai com fé, vai passar
Só o que não passa vem firmar
Todo o resto é prova
É teste, é teste, vai embora

Eu vou lá, eu vou cá
É vento que sopra, vou soprar
É pra lá que eu vou já
Caio, levanto, vou dançar

É errando pra acertar
Na dualidade da escola
É Terra, é Gaya
É o nosso lar, é bendita

O que há não muda
Só o que muda é o olhar
Por isso, vem brincar
De briga nessa capoeira

sábado, fevereiro 14, 2009

Anjo do Morte

Quando o Anjo da Morte é chamado, ele não volta aos céus de mãos vazias; dai tanta gente com medo do seu toque; sem se lembrar que a sombra da morte nos acompanha todos os dias.

Perder o medo da morte é aceitar os ciclos da vida como caminho natural de todos os seres. Aceitar que morrer é algo do qual nunca conseguiremos fugir, permite que o medo do desconhecido diminua e que possamos aceitar melhor as nossas perdas, sejam elas quais forem.

Quando o Anjo da Morte vier me buscar, peço aos Deuses, que eu esteja bem acordado e o receba com festa. Não quero partir, mas se esse o destino for, ao invés de lutar contra a corrente, vou me atirar ao mar. Não entendo quem reza aos céus para morrer dormindo; será medo da morte morrida ou descobrir depois de morto que morreu de vida nunca vivida?

Tem gente que corre tanto por toda a vida tentando encontrar a felicidade perdida. Essas pessoas não percebem que quanto mais eles correm, mais morrem depressa.

Se focarmos no presente, viveremos eternamente e isso não é truque da mente, é apenas uma verdade que a cada dia fica mais evidente.

JARDIM DA AYUMBANDA

Om Mani Padme Hum (4x)

Om Mani Padme Hum
Um Buda sinto em mim
Somos todos UM (2x)
Na União que vejo aqui

A jóia vi brilhar
No meu peito a iluminar
A Rainha que mostrou (2x)
No Voar do Beija-flor

Om Mani Padme Hum
Um Buda sinto em mim
Somos todos UM (2x)
Na União que vejo aqui

Mil pétalas se abriram
Nesse Jardim da Ayumbanda
Salve Buda, Salve Krishna (2x)
Salve Jesus, Salve os Orixás

Om Mani Padme Hum
Um Buda sinto em mim
Somos todos UM (2x)
Na União que vejo aqui

Om Mani Padme Hum (4x)

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

O paradoxo de nosso tempo

O paradoxo de nosso tempo na história é que temos edifícios mais altos, mas pavios mais curtos; auto-estradas mais largas, mas pontos de vista mais estreitos; gastamos mais, mas temos menos; nós compramos mais, mas desfrutamos menos.

Temos casas maiores e famílias menores; mais conveniências, mas menos tempo; temos mais graus acadêmicos, mas menos senso; mais conhecimento e menos poder de julgamento; mais proficiência, porém mais problemas;mais medicina, mas menos saúde.

Dirigimos rápido demais, nos irritamos muito facilmente, ficamos acordados até tarde, acordamos cansados demais, raramente paramos paraler um livro, ficamos tempo demais diante da TV e raramente oramos.

Multiplicamos nossas posses, mas reduzimos nossos valores. Falamos demais, amamos raramente e odiamos com muita freqüência. Aprendemos como ganhar a vida, mas não vivemos essa vida. Adicionamos anos à extensão de nossas vidas, mas não vida à extensão de nossos anos.

Já fomos à Lua e dela voltamos, mas temos dificuldade em atravessar a rua e nos encontrarmos com nosso novo vizinho. Conquistamos o espaço exterior, mas não nosso espaço interior. Fizemos coisas maiores, mas não coisas melhores. Limpamos o ar, mas poluimos a alma. Dividimos o átomo, mas não nossos preconceitos.

Escrevemos mais, mas aprendemos menos. Planejamos mais, mas realizamos menos. Aprendemos a correr contra otempo, mas não a esperar com paciência. Temos maiores rendimentos, mas menor padrão moral. Temos mais comida, mas menos apaziguamento. Construímos mais computadores para armazenar mais informações para produzir mais cópias do que nunca, mas temos menos comunicação.

Tivemos avanços na quantidade, mas não em qualidade. Estes são tempos de refeições rápidas e digestão lenta; de homens altos e caráter baixo; lucros expressivos, mas relacionamentos rasos. Estes são tempos em que se almeja paz mundial, mas perdura a guerra nos lares; temos mais lazer, mas menos diversão; maior variedade de tipos de comida, mas menos nutrição. São dias de duas fontes de renda, mas de mais divórcios; de residências mais belas, mas lares quebrados. São dias de viagens rápidas, fraldas descartáveis, moralidade também descartável,"ficadas" de uma só noite, corpos acima do peso, e pílulas que fazem de tudo: alegrar, aquietar, matar. É um tempo em que há muito na vitrine e nada no estoque; um tempo em que a tecnologia pode levar-lhe estas palavras e você pode escolher entre fazer alguma diferença, ou simplesmente apertar a tecla DEL.

Autor Desconhecido

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Flor do Oriente - Chandra Lacombe

Do Hinário - O Rosário


Eu canto aqui com meus pés no chão
Meu coração a serviço da luz
Minha mente é cálice vazio
Onde o Maná da verdade se produz

Chamo aqui todos os irmãos
Para compreenderem a primeira lição
É dando que se recebe
Esse saber faz sucumbir a ilusão

A Mãe Divina na Terra eu encontro
O Pai Eterno no brilho do sol
É contemplando a natureza
Que chegarei a ser Um como o cosmo

Eu busco ser um limpido espelho
Este saber é Cristo, é cristão
Estou me livrando dos pensamentos
Que me desviam do fluxo divinal

Agradecendo aos sábios yogues
E as falanges orientais
Vou meditando no lótus dourado
No coração não mudará jamais

terça-feira, fevereiro 10, 2009

SEM SER

Nada do que É parece com o que pensamos. Pensar não É, pois o que É não cabe no pensamento.

Quando fui, por alguns segundos, o que É, fiquei com medo de não conseguir pensar o que sentia. Pois pensar ainda não É, pensar é esforço de ser.

Quando me vi na ausência do ser, sendo parte do que É, minha consciência ao invés de ficar sendo, debateu-se em tentativas desesperadas de refragmentar o pensamento para julgar se o que eu estava vivendo era. Não foi, pois o É não cabia na mente, e a mente achou que estava doente e boicotou o mergulho da alma na Divina Viagem do que É.

A mente chamou de loucura o que não podia ser compreendido como ser, a fé chamou de dúvida, o que não encaixava nas divinas escrituras, mas o É não foi uma experiência mental nem muito menos fruto de devoção religiosa, o É não É isso, nem É aquilo, por essa razão o É.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

OH NÃO!!! CHOVEU DE NOVO

O dia escureceu, as nuvens pesadas começaram a tilintar, desce raio, sobre raio, não para de relampejar. Conto três, conto quatro: é tró, é tró, é tróvejar.

As torneiras do céu se abriram e na Terra faz chuá,chuá; outra chuva de verão, chuá, chuá, chuá, chuá: lá vai água, se foi água, pela rua a riachar.

Esqueci meu guarda-chuva, vou tomar banho de água do ar; outros tantos choram em prantos: medo de chuva; leva telha, arrasta casa, arrasta carro, arrasta vida.

Tempestade na cidade, avenida é riacho, praça pato, pato lago, peixe-rato, rato-peixe, o tubarão da doença. Ilha é mar: São Paulo não consegue represar.

A água escapa, inunda os vales, valei-me Nossa Senhora!!!

Abrem-se as cortinas, todos choram na chuva e gritam pelos Deuses, pelos santos, por São Pedro, por ajuda:

"Ai, ai, ai! Ajudai, minha Mãe, venha nos salvar!!! "

"Ó meu Deus, por que o céu está a nos castigar??? "

Deus responde, a Grande Mãe fala, lá de onde, as nossas preces foram parar:

- O que temos nós com isso? Sempre chove, sempre choverá.

É o eterno ciclo da natureza.

Se os esgotos estão entupidos, se os corrégos estão entulhados, não foi castigo divino, foi educação que faltou a quem lixo joga onde não deveria jogar.

Até a próxima chuva...

domingo, fevereiro 08, 2009

NOVO DIA

Ás vezes as coisas não saem como planejadas.

Ás vezes tudo dá errado.

Ás vezes o errado conduz ao certo.

Ás vezes o certo nada mais é do que o que podemos fazer no acordar de um novo dia.

Encontro à luz de velas, jantar dançante, com uma chuva fina batendo na janela do restaurante que fica na serra que canta. Violão e uma voz dançando no ritmo de uma melodia que fala sobre casais que se reencontram depois de uma busca nas estrelas. Romantismo maduro, relacionamento concreto. Giro o corpo dela para lá, ela gira, gira e volta para cá, e eu a beijo como se fosse a primeira vez. A cena se congela no tempo e é refletida na íris do meu olho que ameaça uma lágrima: não a liberto, ela vira uma prisioneira da minha alma, afinal homens não choram!

Estou em casa, estraquei a noite perfeita com uma oferenda de palavras erradas . Não saímos, a noite romântica aconteceu apenas num universo paralelo, do qual, a minha consciência não conseguiu manifestar-se. Ela deita ao meu lado, fica em silêncio; eu estou deitado, queria falar algo, mas tenho medo das palavras, tenho medo da expressão que pode bagunçar ainda mais a confusão criada.

Os ponteiros correm, a noite passa. Quando finalmente fecho os olhos, o dia me acorda. Ensaio alguns pensamentos idiotas, e sinto que algum lado de mim, quer curtir aquela sensação gostosa e triste de "coitadinho de mim", mas levanto-me, lavo o rosto, pego a chave e ando. Penso em como facilmente conseguimos magoar quem amamos. Penso no poder das palavras e em quantas vezes já construi coisas maravilhosas e no quanto já destrui amizades, antigos amores, afastei parentes por não conseguir impedir o dragão da palavra mal dita, em nome da minha liberdade de expressão e pensamento.

Então, em meio a essa meditação, percebo que se as palavras me levaram até essa confusão, o silêncio pode arrumar a situação se ele for expressado em ação.

Vou na feira, compro pastel e frutas. Passo na padaria, leite e pão e frios. Chego em casa, e com todo cuidado para que ela não acorde, faço a mesa, sirvo o café e a acordo com uma canção. Ela sorri, vê a mesa, vê o pão e diz que me ama; eu nada respondo não. Beijo a sua mão, a conduzo para a mesa; e sirvo a minha princesa com toda a culpa da noite passada transformada em refeição.

Ela aceita a minha oferenda e o me dá o seu perdão.

Nada melhor que um novo dia, para limpar certas manchas que não merecem ficar na história de uma perfeita união.

sábado, fevereiro 07, 2009

AURIVERSÁRIO (Crônica de Aniversário de Casamento)

São Tomé das Letras, linda noite de lua cheia. Ainda estou lá.

A brasa queimava para cá, o crepitar das faíscas a dançar para lá e em meio a junção entre a fogueira e o luar, a vi chegando, com um lindo vestido indiano, sorriso gigante no rosto, olhos a cintilar.

Seus cabelos pretos compridos se uniam com os fios negros da noite, sua pele branca era a lua prateada que vinha me iluminar. Eu ainda estou lá.

Quem era essa menina? Questionava sem parar, tentando imaginar se ela viria pra ficar ou seria como a brisa que tocava meu rosto como um beijo de amada, mas tinha hora para ir embora.

Seu nome era Auri, e ela surgiu assim, como um passe de mágica recheado de pirimpimpim, para mim, para mim. Ela era um sonho e eu não queria acordar.

Eu estava no lugar perfeito, olhando para a moça que esperei a vida inteira chegar, por isso, eu orava sem parar: "por favor, Pai dos Sonhos, não me faça despertar".

E fiquei a versar, versar; sentindo o amor feito rio corrente fluindo do meu peito na direção do seu caminhar.

Ainda estou lá, vivendo aquele momento, achando que ela vai desaparecer quando o dia raiar; mal imaginava que onze anos depois, ela seria o último sorriso que eu veria ao dormir e o primeiro ao acordar.

Dez anos de casamento, uma década de jornada: viajamos o mundo inteiro, descobrimos outros versos na poesia das linhas das mais diversas religiões que o ser homem criou, cantamos pontos de Umbanda nas ruas de Londres, pulamos "Govinda, Gopala" nas areias do deserto do Sahaara; e pensar que tudo começou, com a falta de fé. Jamais pensei que seria possível encontrar tal mulher, então fui parar em São Tomé...

Dez anos e cada dia é um novo conquistar, papos sem-fim que se derramam pela noite, carinho sem pressa de quem tem todo o tempo do mundo para amar. Estar com ela é salgado, é doce; é suave, como nunca achei que o amor poderia se tornar. Não precisamos brigar, para sentir aquele doce mel do reconciliar, afinal, dez anos é tempo suficiente para ficar evidente que o amor não precisa de brigas constantes para sólido ficar.

Gostaria que todos que estão lendo essas palavras pudessem sentir um pouquinho do que sinto nesse dia tão especial e lindo; gostaria que todos pudessem experimentar um tiquinho do que é viver nadando em respeito, amizade e carinho; e como não posso cortar meu peito em pedacinhos e sair distribuindo, faço o meu milagre da multiplicação das letras, para que todos possam compartilhar comigo através das palavras, essa data tão querida que é estar ao lado da minha grande amada nessa jornada maravilhosa da vida.


Frank Oliveira
07 de fevereiro 2009
10 anos de jornada de amor

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

PARALELO

Quanto mais presente fico, mas sinto que estou sendo vários. Explico, percebo que estou existindo nas mais diversas camadas do meu eu fragmentado.

A minha consciência como se fosse uma onda, segue para o futuro existindo, nas inúmeras ações que manifesto no pensamento; ela também se estica para o passado, revivendo os dramas que chorei e as conquistas que serviram como alicerce para o meu eu formado. Quando a chamo de volta e me faço presente, percebo que EU SOU onisciente de todas as faces do meu ser que foi e que será. Sendo presente, sou todos esses eus paralelos ao mesmo tempo e compreendo que realmente não existe futuro ao passado, pois todas as coisas acontecem no mesmo instante, mas quando no momento seguinte, a minha consciência escapa para as coisas que farei em seguida ou se arrepende das coisas que fiz no passado, perco o foco nesse eu presente e volto a ficar dando voltas nesse ciclo interminável de existir mais no pensamento do que manifestar a ação.

Quero domar esse cavalo selvagem chamado Consciência, mas não sei se tenhos forças para isso. Estou muito mal acostumado a ficar vagando, não consigo transportá-la por muito tempo para esse instante. Contudo, perceber que isso ocorre já é um passo, e embora muita gente ache que isso tudo seja loucura, vou seguir com a minha luta, um dia eu laço esse boi fujão e quem sabe assim eu passe menos tempo no que ainda não foi e no que já não é.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

MATA VIVA

Essa noite quando eu voava pela janela, notei que além dos prédios, havia uma mata que me chamava, uma mata com um verde-esmeralda que se fazia ver e sentir. Nem me vi voar para lá, quando percebi já estava na mata que parecia pulsar vida, o mato vibrava, as árvores se mexiam e as folhas falavam: "estamos vivas, estamos vivas"

Sempre soube que havia vida na mata, que pulsava vida nas plantas, nas flores; mas sempre achei que se houvesse algum tipo de consciência, era um ser rudimentar, mais primitivo que o ser dos animais irracionais, mais primitivo que o qualquer idéia que eu podesse pensar.

Estava errado! Há vida em todass coisas. Há consciência em todas as formas de vida que pulsam nesse planeta. Não são rudimentares, as consciências que vibram as flores, as árvores e a natureza em geral. Irracional somos todos nós que acreditamos que nossa inteligência é a única forma de manifestação da expressão do Divino que há nesse plano. Reduzida é a nossa capacidade de perceber essas outras tantas formas de expressões que os antigos conheciam e que nós, esquecemos no correr do tempo, de sentir e escutar.

" Estamos vivas, estamos vivas" - as folhas me falavam e foram essas as palavras que acordei balbuciando, pensando que tinha ouvido de espirítos, até me lembrar do verde da Mata Viva.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Ye Mãe Do Mar

Era uma festa a beira-mar, mil médiuns cantando os pontos mais lindos para Mamãe Yemanjá e em cada canto, o meu coração batia como se estivesse a tamboar; no rosto um rio descia, não sei se era lágrimas ou água salgada que respingava do mar:


" Luar se fez um raio prateado
Iluminando o céu e as espumas do mar

Lindo clarão a beira mar
Vejo mamãe Yemanjá

Lá vem, Lá vem, junto com suas sereias
Nos abençoar rainha Yemanjá
Dona das águas tu és mãe
Oh Janaina Odo Yá"


Não sei se a minha fé era pouca, mas não vi Mamãe chegar. Não vi Mamãe chegar em cima das ondas mais altas, nem vestida em espumas; não vi Mamãe chegar rodeada de sereias a cantar, nem seu lindo azul a brilhar, mas senti que aquele canto humano não estava a se propagar a toa no ar; senti em alguma parte de mim, que apenas sabe que sim, que Mamãe estava a nos escutar:


" Iluminai minhas profundas águas
Para eu decifrar mistérios de meu mar

Nesse meu mar de emoções
Rainha vem iluminar"


Senti uma vontade alegre de chorar, e uma vontade saudosa triste de sorrir. Senti que Mamãe estava longe, mas também estava ali. Longe, em algum lugar que a nossa mente humana limitada não conseguia chegar; mas ali tão próxima que eu podia sentir suas mãos como toque de brisa a nos abençoar:


" Yemanjá principio gerador
Amor fundamental tão puro e maternal

Yemanjá vem confortar
OH Janaina Odo Yá"


Confesso que não vi Mamãe chegar, mas sei que ela estava lá, ela estava lá, afinal, como eu poderia explicar aquela sensação de estar pleno de amar? Como eu poderia raciocionar aquilo que não cabe no pensar?

No final, deixei de duvidar, deixei tudo para lá e fui cantar, fui cantar; e até agora, estou navegando na mais doce sintonia.

Odoyá, Rainha do Mar!


Frank Oliveira
31 de janeiro 2009
Bertioga - São Paulo
Notas do autor: A canção de Yemanjá usada no texto chama-se "Odo Yá" de autoria de Léo Artese.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

A CERTEZA DO NEGO

Nego sofreu, nego chorou e continuou, continuou. Enquanto apanhava no tronco, da Grande Mãe ele lembrou; e nego rezou, nego orou e a Mãe Eterna surgiu e falou:

- "Quem tem a Mãe no coração, não teme; segue firme, aguente os teus irmãos."

E nego chorou, nego chorou, pois já não tinha mais compaixão; queria gritar, se revoltar, fazer sofrer, fazer sangrar, se libertar do cativeiro. Podia morrer, podia matar, guerreiro africano, punho certeiro; antes mesmo que tivesse morrido, muitos outros seriam feridos; mas nego esperou, nego esperou e confiou, confiou na Mãe
Divina, que novamente o visitou e falou:

- "Fica firme, meu filho, flua amor, mesmo na dor, flua amor."

E nego sentiu amor, sentiu amor. Suas mãos cansadas trocaram a projeção do sangue da vingança pelo cultivo da flor da certeza que tudo está no devido lugar, mesmo o que não aparenta estar.

E nego continuou, continuou com amor, no trabalho, na servidão, mas sempre orando para a Grande Mãe na energia de cada Iobá, cantando e louvando seus orixás, até que um dia, o senhor das terras veio avisar:

- " Negro, pega teus trapos e se poê a caminhar, livre você está!"

Nego sorriu, nego chorou e com os pés descalços, nego caminhou pela terra da liberdade, sem saber para onde ir, sem saber como comer, nem onde dormir; mas manteve o amor, e se humilhou, pediu ajuda, não encontrou; não havia trabalho, ninguém lhe dava a mão, nem mesmo os seus irmãos de cor; mas nego continuou e acreditou que tudo ficaria bem, e orando aos seus Orixás, nego pediu, a Mãe escutou.

Trabalho veio, casa firmou, mulher surgiu, família criou e quando agradecia a Mãe Divina no terreiro dos Orixás, o homem branco a porta derrubou, nego apanhou, nego gritou, pois o homem branco, o culto proibiu e mandou que eles engolissem as suas certezas e fossem para o templo do homem branco e que rezassem aos santos de barro da Santa Igreja.

Nego orou, nego rezou, e discerniu, pois percebeu que a Mãe Eterna também estava naquelas imagens cujos nomes estranhos, sua língua materna mal conseguia pronunciar. E foi quando a Mãe Divina novamente apareceu e falou:

- Quem tem a flor da certeza no coração, percebe que estou em todo lugar.

E nego sorriu, nego seguiu orando para as santas de rosto branco, para os deuses dos homens brancos; pois diante da Força Maior, a repressão a sua religião era coisa menor. O irmão branco poderia brigar, proibir, denunciar, bater, gritar, fazê-lo jurar que não havia Deus algum se não o Deus que ele estava a lhe empurrar, e nego saberia, e em silêncio ficaria, pois no seu coração a sagrada lição que a Mãe Divina lhe ensinou já virara o rochedo da certeza que o Divino não tem cor, o Divino é fluente amor.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

ALTERAÇÃO E INTERAÇÃO

"Dar a outra face", que ensino mais profundo, mas de tão difícil prática. Difícil de praticar pois estamos vivendo sob as leis da dualidade que regem esse mundo e estamos também tão profundamente acostumados a reagir com a emoção, que fica quase impossível, meditarmos a ação.

Meditar a nossa ação em relação à emoção é um trabalho de Hércules, pois exige força, exige coragem e exige muita observação, afinal estamos sempre reagindo com emoção, indo e vindo, ouvindo e respondendo, recebendo e dando, apanhando e batendo, sempre com emoção.

Estamos sempre apanhando e batendo nesse combate inútil de propagar a emoção, de não aceitarmos o "não"; de querermos provar a nossa razão, e lá no fundo, fazendo tudo isso por medo de não sermos aceitos no mundo dos outros, medo de não sermos escolhidos pelo olhar do outro. Não precisa ser assim...

Não precisa ser assim no nosso mundo. Podemos cultivar uma vida baseada na harmonia, na alegria e na ausência da ação provocada pela emoção. Harmonia no bailar nesse mar das vibrações do bem e do mal que exigem, onda vai e onda vem, um lado; alegria para compreender que nem sempre bons ares carregam as ventanias; e a não-reação, como bem ensinou Gandhi, como ainda ensina o Rabi, na santa lição da outra face dar. Vivendo assim, podemos criar um novo ponto de vista, onde ao invés de reagirmos a qualquer provocação, usaremos toda a nossa ação para observar com atenção como certas palavras, certos gestos ou mesmo a ausência deles, carregados de intenção, desejam provocar alguma alteração.

Não altere a sua ação baseado em uma provocação. Observe a ação, se for preciso a sua manifestação, que ela ocorra por precisão, e não para continuar o efeito-cascata de uma maldição.

" Dar a outra face", que lição mais profunda e ao mesmo tempo tão simples, e por ser simples, tão simples quanto a água, não damos a devida atenção às sabedorias que emergem dela. Percebam como a água ao receber a luz do sol, refrata seus raios, absorvendo a força do astro maior e refletindo-a em arco-íris. Assim deveria ser a nossa reação ao mundo dos outros: corpos que interagem e não corpos que colidem.

Daí a importância da observação, e da outra lição do Rabi: "Orai e Vigiai", pois ao vigiar a nossa reação em relação à ação dos outros, podemos nesse momento, escolher outra direção; e ao dirigir a nossa ação baseada na reflexão, e não mais na emoção, poderemos escolher com que forças queremos interagir e qual força ganhará a nossa outra face, o presente do deixar passar.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

O SONHO DE EVA

Eva acordou um dia no paraíso, com tudo lá junto, contido; e viu que havia algo novo no Jardim do Éden, uma árvore havia surgido; e essa árvore tinha um fruto vermelho tão lindo e chamativo; que ao notar fruto tão bonito, sentiu no seu corpo surgindo; algo que ela nunca tinha sentido: fome.

Eva, então, tomado por um impulso, não esperou por Adão; correu para a árvore e arrancou o fruto vermelho, mordendo-o com tanto gosto, sentindo os pedaços da fruta, formando sulco em sua boca, ao mesmo tempo, que uma sensação de satisfação foi percorrendo todo o seu corpo, fazendo-a fechar os olhos; e ao abrir, Eva estava em outro lugar...

Vestida em trajes formais pela Avenida Paulista, Marie entrou no prédio onde trabalha; com o celular tocando sem parar. Enquanto dá ordens a sua secretária, responde mais um email em seu blackberry.

Marie chega no andar em que trabalha e entra na sala de reunião, onde outros executivos a esperam. Ela é uma diretora de uma multinacional e é responsável diretamente por centenas de pessoas que trabalham para a sua empresa. Também é mãe de duas crianças, esposa, filha querida, e ao mesmo tempo uma mulher bem sucedida, admirada e querida, odiada e invejada.

Por vezes, Marie, toma certas atitudes que ela não se orgulha; para exercer a sua autoridade; outras vezes, parece uma menina, com saudade de uma família, de uma terra que ela sente ser parte dela, porém não se recorda quando esteve por lá, mas basta fechar os olhos e ela se imagina num jardim encantador, com árvores, plantas, um jardim cheio de flores, onde ela não precisa mais ser a executiva, nem tão pouco a mãe e a mulher que todos esperam dedicação por toda a vida. Ás vezes, ela sente, mesmo sem ser religiosa, que de certa forma, é Eva, a mulher primeira, o ser feminino original em manifestação, então, respira fundo e ela volta a ser a mulher que todos esperam que ela seja.

- Eva, que piada! - pensa ela - Que lenda mais tola. Preciso mesmo de férias.

E pensando nas férias, onde poderá enfim, fugir da cidade grande para algum paraíso; ela fecha os olhos uma vez e quando abre; ela é Eva.

Que sonho mais estranho, pensou Eva, enquanto guardava o último pedaço daquela fruta deliciosa para compartilhar com Adão. Eva havia sentido, pela primeira vez, o doce sabor da fruta da ilusão e enquanto corria para dizer a Adão, o que havia sentido, uma serpente que estava escondida naquela árvore de frutas vermelhas, foi deslizando suavemente pelos galhos e em seus olhos havia refletido um mundo que existia além daquele jardim que para o primeiro casal deixaria de ser a única realidade.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

BELA POR SER

A lua não precisa do olhar do poeta para ser bela.

A flor não precisa das mãos do jardineiro para se sentir linda.

Mulher, você não precisa das palavras de um homem para se sentir bonita.

Ao se vestir, ao se cuidar; faça por você e não por quem não enxerga.

Ao sorrir, ao olho brilhar, encante por viver, não por quem a olhar.

A mulher é de todos as criaturas divinas, uma das mais fascinantes e encantadoras; o homem que não consegue perceber o brilho da mulher que está do seu lado, não merece a forma dela, no seu olho refletir.

Mulher, seja bela por si.

Bela por si.

Bela por ser.

Bela por você.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

MUITA LUZ PARA POUCO VAGA-LUME

Era tudo muito lindo para esse pobre Vagamundo, muita luz para esse pobre Vagalume carregar. Daí, sai correndo e perdi o grande espetáculo da floresta.

Eu vagava por essas matas do Rei Oxossi, quando escutei o Beija-flor me chamar. Agradeci o convite, mas disse que deveria estar em outro lugar, ele deu risada e disse:

- Nós sempre estamos onde deveríamos estar, outro lugar não existe, só existe esse lugar.

Senti que ele tinha razão e decidi ficar por lá mesmo e participar da festa, mas uma vontade que não era minha de estar em outro lugar parecia ser mais forte que eu, tentei lutar, não queria em outro lugar ir, não queria estar em outro lugar que não lá, mas fui sendo levado assim mesmo, tão rápido que a mente foi e o corpo ficou, mas no meio da fuga, o Beija-flor me chamou e para trazer a minha mente de volta, arremessou em minha direção milhares de pétalas de rosas, que de tão bonitas me feria, que de tão brilhantes me cegava.

O corpo chorou. Chorou lágrimas de quem se arrepende ao desperdiçar com a mente, o que o presente nos entrega com flores e luzes oferecidas. O corpo chorou, pois com a mente ausente, ele não tinha forças para dançar e celebrar a festa da floresta, nem o canto do Beija-flor. O corpo chorou, pois é só com a união da mente e do corpo, que o espiríto consegue voar pelo ceú do coração Divino e voltar com presentes tão lindos que se manifestam em textos maravilhosos que esse Vagamundo distribui por ai, como os vagalumes distribuem luzes cintilantes aos caminhantes na mata escura.

Envergonhado por desperdiçar a minha atenção em outras coisas que não aquela festa tão divina, pedi desculpas ao Beija-flor que novamente me falou:

- Não há o que se desculpar, só o que aprender. Quando aceitar novamente participar da festa na floresta não venha com a mente ausente, não desperdice o seu presente, ficando em outro lugar. Ou aqui ou lá!

terça-feira, janeiro 27, 2009

FORMA FARINHA

Eram duas da matina, quando notei que estava fora do corpo. Só podia estar, enxergava tudo claro, mesmo sabendo que lá fora tudo estava escuro. Antes que eu pensasse em voar, fugir, correr, pular cambalhota, entrar no apartamento da Juliana Paes ou qualquer outra coisa dessas que a gente faz quando se dá conta que está lúcido no astral, notei que havia alguém no quarto comigo, além da minha esposa dormindo e aquele mosquito vampiro sugando o meu sangue, se aproveitando que eu estava ali fora. Maldito, se eu volto pro corpo a tempo, eu te mato, seu inseto...hã...hum... Voltando a presença, que é o que interessa aqui ( esqueçam a imagem da minha esposa dormindo, por favor!!!), abri minhas para-defesas e tentei sentir se a vibração daquela entidade era boa ou se era algo que demandaria as técnicas milenares de auto-defesa astral que aprendi em milhares de livros espirítas. Porém, antes que eu pudesse pôr em prática esse conhecimento Zibiano, percebi que estava diante do meu Amparador.

Era o cara que eu tentara ver a minha vida de neófito astral inteira. O sujeito que quebrara meu galho centenas de vezes, que torcia por mim nos bastidores, que me levara tantas vezes para os cursos nas diversas universidades dos mundos celestiais, o cara que me amparava.

- E ai, seu Amparador, cumé que vai? - falei, pelo menos, é o que acho. Fora do corpo, a gente se comunica meio mentalmente, meio cantando, é tudo menos fala, enfim, vai ficar esse verbo mesmo.

Silêncio. Olhar sério, postura rigída. Meu Amparador, era o cara. Grandão, com uma roupa de hindu, cara de chinês, cor de negrão, escudo e lança de guerreiro, enfim, o cara era uma amálgama de tudo aquilo que eu havia imaginado que ele seria.

- Caramba, que honra te ver - falei, pelo menos, é o que acho. Fora do corpo, a gente se comuni...ora,vc entendeu!!!

Quietude era tudo que ele fazia. Na certa, ele não queria acordar a minha esposa. Sujeito educado, firme, tudo aquilo que um dia eu queria ser.

- Eu sei que você vai continuar em silêncio, eu compreendo. Falar para quê? O importante é a mensagem do olhar, certo? - falei, pelo menos, é o que a...enfim, agradeci a presença dele e estendi a minha para-mão para me despedir, mas ao tocar no Amparador, minha mão atravessou o seu corpo. Ele era muito sutil, só podia ser isso ou não? Era não, notei que parte dele se quebrou. Circulei o homem, meio desconfiado, toquei ele de novo, e outra parte dele se desfez, e daí em diante, o homem começou a se quebrar como se fosse feito de farinha ( desculpem a minha analogia nordestina, vocês queriam o quê? Sou da Paraíba). Continuei enfiando a mão no homem ( gente, por favor, orai e vigiai esses pensamentos!!!) e ele foi virando farelo, até desaparecer por completo.

O susto foi tão grande que voltei para dentro do corpo, ainda há tempo de matar o mosquito e acordar a minha esposa, com o barulho do tapa que esmagou aquele vampiro em mil pedacos, miserável, teve o que merecia, morreu, seu mosquito desgraçado...hã...hum...quero dizer, limpei os vestígios do inseto do meu braço e pedi desculpa a minha esposa por tê-la acordado e fiquei olhando para o escuro que também era teto e meditando: "caraca, preciso ter cuidado com o que crio com os meus pensamentos ou na pior das hipóteses, parar de comer farinha, antes de dormir."


Frank Oliveira
Um Paraíba Vagastral

segunda-feira, janeiro 26, 2009

O NOME DO BEBÊ

Nas tribos indígenas, o bebê só ganha seu nome ao nascer. Os índios sabem que é somente no nascimento que a criança deve receber o nome pelo qual será chamada a vida inteira. Todo o resto é projeção dos pais em cima de um ser que ainda nem nasceu.

Como se não bastasse todas as expectativas que esse novo ser humano ganhará: “terá que ser advogado, vai casar, será bem sucedido, seguirá o caminho do pai, etc”; a criança já nasce com um nome escolhido, cujo significado (muitas vezes totalmente ignorado pelos pais), terá que ser carregado por esse novo ser por toda a sua existência.

“Quero que seja menino, quero que seja menina”, “ quero que venha assim ou que venha assado”; e da-lhe projeções, da-lhe expectativas e da-lhe mais peso; esse novo ser humano, cansado de todo o esforço para nascer, ainda terá que lidar com as ansiedades dos pais, quando o seu pós-parto deveria ser um processo suave, de adaptação a um novo plano de existência.

O nome que ganhamos de nossos pais deveria ser uma benção, escolhido de acordo com o momento em que viemos para esse mundo, baseado em real sentimento, mas o que recebemos é o nome que os nossos pais ouviram na novela, copiaram de um filme, criaram baseados em uma ordem caótica de continuarmos a tradição dos filhos com nomes de santos, ou de uma letra do alfabeto.

Nome é coisa séria, pois a palavra tem poder e manifesta nesse mundo, o que criamos no plano dos pensamentos. Cabe aos novos pais, muita cautela e amor, para que a criança que está prestes a nascer, não se torne mais uma vítima da nossa vontade de nomear o mundo, segundo o evangelho da nossa ignorância.

domingo, janeiro 25, 2009

A Índia é Aqui (Caminhos de São Paulo)

Swamis, templos, mantras, sáris;
Não precisa ir lá
A Índia é aqui

Peregrinações, setas douradas;
Igrejas, celtas, caminhadas sutis
O Caminho de Santiago é aqui

Judeus, Muçulmanos, Cristãos;
O Torá, a Bíblia e o Alcorão
Jerusalém em cada esquina daqui

Buda explodindo em Satva;
Mil pedaços espalhados por Sampa
O Nirvana da compaixão do Parelheiros ao Pari

Xamãs paulistanos e pagés paulistas;
Ao som do tambor, cantos para Gaya
No meio do Parque do Ibirapuera, eu ouvi

Iniciações do Egito no Ipiranga;
Fisíca quântica com espiritualidade na Guilhermina,
Os conhecimentos que eram ocultos são revelados aqui

Encontro de projetores astrais na Frei Caneca;
Sonhos e Psicanálise nas teias da net,
Não há no mundo, mais Voadores que aqui

Nos cantos de Umbanda e de Candomblé,
Os Orixás e os caboclos de Aruanda
E a Mãe África em mil axés eu ví

Filósofos, professores, atores
Nos jardins de Agora da Santa Cruz
Provocam a catárse que fazem o conhecimento fluir

Não preciso ir para longe para sentir;
Pois a inspiração flui da Sé ao Tucurivi,
Nas crônicas maravilhosas que escrevo aqui



Imagem: http://www.panoramio.com/photo/103324

sábado, janeiro 24, 2009

PIA

Quando a chuva divina caiu
Tirou a rolha da minha cabeça
Que feito uma pia
Foi se enchendo de amor

O rio da compaixão foi descendo
de porta em porta,
Fazendo brilhar a minha casa
Tocando os sinos do meu templo

Era muito amor para o meu caminhão
Até pensei em dizer que não queria não
Então lembrei, que eu era um canal
E fui conduzindo esse presente Divinal

Para toda pessoa que eu conseguia lembrar
Até para aquelas que eu jurava não ligar
E quando achei que já tinha acabado
A chuva voltou a cair cada vez mais

Depois desse contato com o Divino
Fico aqui pensando: se já recebo tudo isso
E sou tão pequenininho
Imagina quanta luz carregavam os Avatares do Amor?

sexta-feira, janeiro 23, 2009

As Infinitas Linhas de Quem Tece

Tantas linhas, tantas opiniões. Quem tem razão? Quem tem razão?

Fala irmão, conta amigo: qual é o caminho? Castañeda tinha mesmo razão? Há coração? Há coração?

Tece o seu comentário, formule a sua voz. Opina, amigo. Opina, irmão.

Dada a opinião, observa: a palavra transcende o falante, vai criando ramificações, corrente, avança e transforma toda a gente que escuta, que lê, que é carente de experiência, que preenche o espaço vazio da prática com a teoria dos outros, com outras opiniões.

Contudo, essa é uma discussão, um bate papo, e eu opino, amigo; eu opino, irmão; mas essa é apenas a minha opinião. Acredita não, vá atrás da sua realização. Realiza a tua ação!!!

Não há verdade única, irmão, se não a experiência, a manifestação da sua consciência em relação ao que é sentido, observado e vivido.

Compreenda, leia as minhas palavras e perceba, elas são apenas palavras, amigo, não se vivencia o Divino no discurso, não se experimenta o Divino nisso ou aquilo; tudo que não for sentido, é apenas achismo.

E taí a graça do Grande Criador, quanto mais lúcido você fica do Grande Amor, mas você percebe que é praticando que se faz o caminho. Esqueça os templos do Himalaya, os rituais dos tantos "ismos", esqueça o oposto te dizendo: não é isso!!!

E seja lúcido!!!

Pratique o aqui e agora, transcenda o vício de convencer e ser convencido. Aprenda com cada opinião, mas não deixe as palavras alheias virarem ação no seu coração. Compreenda, não precisamos mais seguir em bandos quando o assunto é ligação, religação, religião, união com tudo aquilo que podemos ser.

Tantas linhas, tantas opiniões. Quem tem razão? Quem tem razão?

A iluminação tem nome? Ou o silêncio é a melhor expressão da sensação que palavra Babel alguma consegue afirmar?

Discernimento, amigo. Lucidez, irmão.

LÚCIDO DEPOIS DE TUDO

Nunca estive tão lúcido.

Percebo os pensamentos em formação, as intenções virando ações, as manifestações dos meus sonhos em meus atos, preenchidos por uma extrema observação de certos entraves que me boicotaram a vida inteira. Entraves que estavam disfarçados que inibiam a força da minha vontade; entraves que me faziam caminhar em circulos, cachorro vadio correndo atrás do próprio rabo.

Nunca estive tão lúcido.

Noto os pequenos buracos no tempo, nas viagens do pensamento que faço para o que não vivi e para o que já senti; e vou trazendo de volta os fios de consciência que se destacaram e já consigo estar presente boa parte do meu agora. O meu agora preenchido com o meu olhar desperto descortina a arte da vida; onde sinto a música pulsando e a poesia implorando aos meus olhos e ouvidos: faça fluir a arte que sente, manifesta de dentro para fora.

Nunca estive tão lúcido.

A dúvida que me atacava, a verdade dos outros, a opinião alheia foi passando aos poucos, á medida que o meu Eu-Lúcido avança. Não estou mais tentando, ando, ando ser. Finalmente sou. Apenas sou e deixo as letras expressarem a alegria que não para de jorrar pelo meu sorriso e o amor que nunca esteve tão evidente em meus olhos.

Nunca estive tão lúcido.

Foi-se o eu-confuso. No lugar, não está alguém melhor ou superior, pois ser é o que me interessa, e não julgar se o que me transformei foi a metamoforse certa. Estou sendo uma outra face que sempre achei ser lenda. Estou sendo uma outra máscara dos mil e um rostos que habitam esse teatro de minha alma.

E no final de tudo isso, estou sendo a vida, e ser a vida é celebrar com alegria todas as linhas que nos religam a percepção divina; e ser a vida é respeitar que no mundo há milhares de doutrinas, religiões, pontos de vistas e todas elas nos levarão até o mesmo lugar: onde já estamos.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

PESCADOR DE PALAVRAS

Hãn, hãn, hum ... eu vou tentar falar sobre o amor...

Hum...vou descrever o que senti...

...

..

.

O ... ocupa o espaço das palavras vazias, das frases ocas que tentam em vão preencher o espaço da expressão correta. O ... ocupa o vazio deixado por nossa linguagem tão limitada para descrever o que senti quando percebi que não estamos sós nessa jornada; que existe mesmo uma força maior preenchendo o espaço ao nosso redor e fluindo por todo o nosso corpo de fora para dentro e dentro para fora.

Acreditem! Passo boa parte do meu tempo, sentado a beira desse rio corrente da inspiração, em busca da expressão ideal. Pescador de palavras, vivo em busca de um texto que possa descrever essa grande aventura espiritual que é sentir o Grande Arquiteto do Universo, desenhando o mundo.

Achar a justa frase tornaria mais fácil te explicar como podemos voar sem asas; o quanto o Criador com todo o seu infinito e paciente amor é tudo aquilo que já foi sentido e nada do tanto que já foi falado, escrito, lido, cuspido, mentido e jurado.

Se ao menos eu pudesse encontrar algo para por no lugar do ...

A DÚVIDA DA FLOR

Cadê o Beija-flor que estava aqui? Nem o vi partir, será que estava mesmo aqui? Será que um dia aqui voou? Será que algum dia sequer existiu um Beija-flor?

Cadê o Beija-flor? Cadê o Beija-flor?

Ah, voltou.

Que susto! Cheguei a duvidar que não tivesse sido, que fosse apenas um sonho.

Eu duvidei, eu duvidei, meu Beija-flor, duvidei que você fosse real, como é real o meu amor.

Eu duvidei, eu duvidei, meu Beija-flor, como todos que amam duvidam, como duvidou até o Redentor.

Então você voltou e eu percebi o quanto duvidei a toa. É que fiquei sem você; é que não senti a sua presença, como se a sombra do mundo lhe tivesse prendido, como se o seu vôo tivesse sido apenas algo imaginado e não beijo de fato. É que cresci duvidando se um dia eu teria pétalas tão bonitas que pudesse atrair você. É que eu cresci, vendo outras tantas flores conseguindo te ter, que quando você veio para mim, achei que não fosse tão real assim.

Ai, você voltou.

Que susto! Cheguei a duvidar que não mais voltaria, por dúvida minha, por dúvida minha, mas você voltou.

Obrigado, meu Beija-flor.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

BASTIDORES

Em algum lugar dentro de mim, existe um palco onde a minha vida é uma peça teatral apresentada pelo meu alter-ego ator. Por trás desse palco, ainda há os bastidores, onde técnicos e diretores, que não querem mostrar o rosto, instruem e iluminam cada ato, com o devido respeito ao meu livre-arbítrio, a minha improvisação.

Nesses bastidores, aprendi como a nossa vida é vista por quem está de fora. Percebi o quanto é vasto o palco por onde é descortinada a nossa estória. Mais vasto ainda são os bastidores, onde seres de luz, se escondem na sombra do amparar.

Ironia Divina: eu que pensava que o mundo astral era fora...

O Vazio e o Espaço Preenchido

Estou em uma das praias de São Paulo. Vejo carros cruzando as avenidas deixando um rastro de som; as pessoas falam alto; os bares atraem clientes com os mais variados ritmos; procuro,tento, mas não consigo ouvir o mar.

A praia está lotada, no lugar da areia, os guarda-sóis. Todos os espaços estão preenchidos, não insisto, vou em busca do vazio, estou precisando de uma dose disso, do silêncio, da quietude, do descanso merecido.

Por um momento, penso que estou ficando mesmo velho: tenho tolerância zero para o barulho; evito nadar no mar de pessoas das ruas de São Paulo ou qualquer outro lugar; mas a questão não é idade e sim seleção. Tenho selecionado melhor os lugares que me dão prazer, as pessoas com quem converso e aprendo; tenho filtrado melhor o que absorvo dos outros, do mundo.

Sou observador, adoro estar entre a nossa gente, ouvindo as suas estórias, aprendendo com a vida de cada um; mas ao me tornar mais seletivo, percebi que eu era meio que um "João vai com os outros". Nesse processo coletivo que é viver nesse mundo, muitas foram as vezes, em que estive ocupando todos os espaços vazios da minha praia com guarda-sóis, quarda-tranqueiras, guarda-coisas que não valem mais nada. Na minha jukebox tocava canções melosas que atraiam emoções estranhas e já experenciadas, na rádio da minha alma, tocava músicas distorcidas e eu as tocava no volume mais alto; na tentativa de expulsar o silêncio, me livrar do vazio, combater a quietude; sem perceber que é no espaço entre duas palavras, no vazio entre dois sons, que eu estou pleno.

EU SOU no espaço vazio entre o que penso e faço. EU SOU na quietude da alma que tudo vê e tudo sabe.

terça-feira, janeiro 20, 2009

O QUE HÁ

As cores do entardecer avançam sutilmente pelo céu. O dia está indo embora, a noite vem deslizando; e eu tento observar o momento em que as cores mudam, em que o céu se transforma, mas a mudança é sutil demais para que eu consiga percebê-la, contudo ela acontece assim mesmo, independentemente da minha incapacidade de vizualizá-la ou compreendê-la.

O que há é.

O que há não é coisa da minha cabeça. Não é truque mental. Mesmo que eu duvide que o que há aconteça, tudo é, mesmo sem a minha crença.

O que há é tão sutil quanto as cores do entardecer, como a fluidez da água ou o vento tão presente, mas invisível. Tem gente que sabe disso, pois percebeu que é evidente que existe algo maior que envolve tudo o que aparenta ser. Tem gente que duvida disso, pois passou tanto tempo questionando, que a dúvida sadia passou a ser a sua pior inquisitora, não permitindo que eles possam ver algo além da sua mente perguntadora. Tem gente que pensa que sabe o que há e cria nomes, cria pontes, quando o que eles inventam vai ficando cada vez mais longe, menos parecido com o que há.

O que há sempre existiu e sempre será. O que há continuará presente nas pequenas coisas, no sutil do presente, onde a nossa mente ausente, não consegue perceber a sua manifestação.

Estamos sempre a frente ou bem atrás do que há, pois não nos permitimos aquietar a mente, acalmar a máquina corpo que só deseja seguir adiante. Se ao menos tivessemos tempo para a meditação, para trabalhar e disciplinar a nossa atenção, conseguiríamos ver a mudanças das cores do entardecer, conseguiríamos notar o milagre de cada gota d'água se unindo e fluindo pelas nossas mãos; conseguiríamos perceber a sutileza da ação divina atuando, compondo essa grande obra de arte que é pintada com todos os nossos rostos, com todos os nossos corpos, amores e dissabores; pois não existe nada além do que o que há.

BOI TEMPO

Segura Peão, esse Cavalo Pré-ocupação que corre a frente dos bois; monta esse cavalo com as esporas do presente, Peão, se não tu cai e se arrebenta no chão.

Lança esse laço da tua vontade na hora certa, Peão, o Boi Futuro ainda não está pronto para ser laçado, perceba que você fica preso nesse rodeio do tempo, Peão, toda vez que tenta laçar o que ainda não chegou.

Fica firme, Peão, e concentre a sua ação aonde estão a tua atenção. Não desperdice o seu pensamento e força, Peão, na divagação.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

BLUE MONDAY

De repente, segunda-feira de novo.

Milhares de corpos andando, enquanto seus espirítos ficaram em casa na cama dormindo.

Milhares de vozes reclamando que gostariam que fosse sexta-feira de novo, só para voltar seus corpos para as suas camas.

A semana passará e a nossa consciência estará perdida entre o que passou e o que começará. Mais uma semana será perdida, só para variar...

Interessante o caminho da nossa consciência. Ganhamos o mundo de presente e ao invés de estarmos aqui conscientes, estamos o tempo todo ausentes.

sábado, janeiro 17, 2009

O DOCE ORGULHO DO EGO

O orgulho e o ego se aproximam sorrateiramente, de um jeito tão silencioso, que quando percebemos, já estamos atuando como Reis do Universo. Contudo, não somos reis de coisa alguma, pelo contrário, somos servos das forças que regem a natureza desse plano de existência.

Todo esse papo "new age" de co-criadores do Grande Arquiteto Divino, só serviu para transformamos o ego que nos ajuda a criar a nossa identidade num monstro que grita: "eu sei tudo!"

Esse ego do tamanho de um Godzilla e o orgulho que é baseado em conquistas vazias, aumentam a cada dia em nome das conquistas do mundo, entretanto, deixamos de lado a busca da riqueza interior e o respeito que deveríamos ter por cada um que divide esse planeta conosco.

Nada contra a busca de uma situação financeira confortável, afinal, se tem algo em que eu não acredito é em gente que faz voto de pobreza ou prega o "repúdio ao dinheiro" (talvez não haja discurso mais hipócrita baseado em dogmas tão demagogos). A questão aqui é levantar uma meditação sobre como olhamos quem acreditamos saber menos que a gente.

Eu não sei quanto a vocês, mas volta e meia, eu me surpreendo com a capacidade que tenho de achar que sei mais que os outros, quando eu deveria apenas querer saber suficiente para mim. Conhecimento nenhum nos dá o direito a cultivarmos um olhar superior aos outros. Somos todos iguais e se aprendemos uma coisa ou outra a mais, esse conhecimento deveria ser para a nossa prática e não para servir de razão para sairmos por ai, contando o quanto sábios somos, afinal, qualquer que tenha sido o nosso aprendizado; ele é limitado pelas restrições de expressão e comunicação da linguagem que usamos nesse experiência terrena.

Experiência espiritual nenhuma consegue ser descrita da forma como é sentida. Isso é um fato e desafio meus opositores que apareçam com relatos.

Descoberta cientifíca alguma é maior que os mistérios e a magia do significado da palavra RESPEITO.

Ser PHD ou Doutor em certas áreas profissionais não nos torna melhores seres humanos, nem nos dá o direito de usar a coroa do saber superior, pois, só a morte é verdade absoluta; todo o resto é conhecimento variável, sujeito a mudanças a qualquer momento.

O Ego e o Orgulho, assim como o Medo e a Dúvida, são forças emocionais que possuem a sua função na construção do indivíduo que somos, porém, mais forte que elas, deve ser a nossa vontade em dominá-las para que possamos cultivar a tolerância em relação as idéias alheias e ao ritmo de aprendizado de cada um.

Não vivemos sós nesse mundo e se há uma razão pela qual existe o outro, é para que possamos viver em harmonia e respeito com ele e com todos.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Manifeste a sua Ação

Peça prosperidade, mas manifeste a sua ação. Pedir todo mundo sabe, mas poucos tem o poder de fazê-la surgir do chão.

Peça saúde, mas manifeste a sua ação. Cultivar doenças todo mundo sabe, mas poucos conseguem mudar a causa do mal que no corpo surge.

Peça luz, mas manifeste a sua ação. Se esquecer da própria luz todo mundo esquece, poucos conseguem extrair a luz da sua escuridão.

Flechas de Luz

Flechas de luz iluminam o céu da Selva de Pedra. Ao som do tambor e do maracá, os bichos urbanos escutam o bradar do Rei da Floresta.

É Ewa correndo por nossas ruas. É Oxossi iluminando cada bairro. É o Rei das Flores baixando em cada terreiro com seu exército de caboclos guerreiros.

Saravá, meu Pai Oxossi! Namastê, meu Rei das Flores! Não tenha pena, nem tenha dó, fleche meu peito com a luz da compaixão para que eu veja o brilho de cada Orixá refletido no olhar de cada irmão.

Saravá, meu Pai Oxossi! Ishalá, meu Rei das Matas! Sou bicho da cidade, mas trago a vontade na alma, de ser UM com todos que eu cruzar em minha estrada; pois trago o verde da mata no peito e a vontade de amar em cada chacra.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Um Pensamento

Poça vermelha na pista, cabeça aberta no chão, corpo caído de um homem, cujo último pensamento foi:

- Se tudo não tivesse sido!

Não foi, o vermelho voltou a cabeça que se fechou, cabeça de um homem que levantou e voou, junto a milhares de cacos de vidro, de volta ao carro, em que o cinto segurou o motorista, pois nunca houve a batida no caminhão, e o carro retornou pela estrada, como se estivesse em ré, voltando ao restaurante de beira de estrada, onde o homem do balcão nunca abriu aquelas garrafas de cerveja para o homem que diante da tentação de só tomar "uma geladinha para matar o calor", não morreu, pois antes mesmo que pensasse em pedir a bebida que o mataria, um único pensamento lhe devolveu a razão:

- Não!

O CORPO DE YEMANJÁ

Se Yemanjá tivesse um corpo, ela teria a beleza de Oxum. Os seus cabelos seriam pretos e tão longos que desceriam para a Terra em forma de cachoeira. Os seus olhos seriam de um azul tão profundo que refletiriam o mais límpido rio.

Se Yemanjá tivesse um corpo, ela teria os braços de Yansâ, para lançar relâmpagos de luz como se fossem flechas para trovejar o vento do amor.

Se Yemanjá tivesse um corpo; ela teria os pés de Nanâ; para pisar com firmeza e sabedoria; para ser vó, mãe e ao mesmo tempo, neta e filha.

Se Yemanjá tivesse um corpo, ela teria os olhos de todos nós, para mostrar que sempre está conosco e que no fundo SOMOS TODOS UM SÓ.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Valores

As coisas do mundo tem os valores que queremos dar a elas. O que é importante para mim, pode não ser para você.

- E dai? - você, leitor, se pergunta, afinal já ouviu isso tantas vezes. Eu sei! Isso tudo é conhecimento comum, etc; mas se todos sabem disso, por que quase ninguém pratica? Quero dizer, por que passamos boa parte da vida, tentando converter os outros a passar para o lado da nossa verdade?

Que satisfação medonha é essa que temos em apagar a fé alheia com as nossas "certezas". Se ao menos colocassemos no lugar coisa valiosa, mas só deixamos tranqueiras. Sim, tudo o que acreditamos não passa de bobagem nossa, pois se estivessemos mesmo diante da Grande Verdade do Universo; você acha que teríamos a coragem de contar aos outros? Essas grandes verdades não pertencem ao campo da linguagem. Desculpem-me os linguístas, mas nem tudo o que sentimos, conseguimos transformar em comunicação, em expressão. Há coisas que ocorrem dentro da gente, que não dá para compartilhar, apenas sentir e refletir na sensação, e não nas palavras que acaba empobrecendo a experiência.

Tente explicar aquele sonho maravilhoso que você teve ontem à noite para alguém e perceba como a pessoa não terá a menor idéia do que você está falando, por mais que você tente expressar, cantar, poetizar, mimicar, gritar. Assim, são as Grandes Verdades, as experiências com o Divino, as expansões da consciência e tudo aquilo que tem realmente essência. Todo o resto é literalmente papo furado, conversa para Testemunha do Jáh evangelizar.

Tentar convencer os outros do nosso ponto de vista, das nossas crênças, das nossas verdades é deixar de ser estrela e virar buraco negro, sugando todo o brilho do outro para a sua volta.

terça-feira, janeiro 13, 2009

Valei-me, Notre Damme


Enquanto todos olham para fora

Meu olhar curioso olha para dentro

E o que ele vê?

Valei-me, Nossa Senhora!!!!

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Conto de Gente

Se as fadas contassem estórias, se os seres ocultos revelassem seus segredos; toda a minha gente saberia do que esse mundo é feito; e diante da Grande Revelação do Divino, ao invés de lágrimas e do arrempedimento do pecador diante do tal "último julgamento", haveria uma porçao de gente contente, uma comunhão da alegria, com todo o meu povo rindo a toa ao descobrir e repetir: Ah, então era isso!

Sim, era isso! E aquilo e tudo mais que estava tão na cara que parecia distante, tão próximo que a gente vivia morrendo de saudade.

"Se ao menos eu soubesse" dirão os arrependidos, ainda achando que sofrerão os piores castigos, nem desconfiando que estão diante da Deusa da Compaixão.

Que sensação de ironia ficaria pelo ar, com todos comentando a Piada Divina desse meu povo passar a vida inteira procurando fora o que sempre esteve dentro, comentando a judieira dessa minha gente ter passado a vida inteira acreditando que o amor dependia do outro, quando o amor sempre foi água jorrando correntemente do peito, independente do reflexo alheio no espelho.

Se as fadas contassem seus casos, se os seres ocultos revelassem seus segredos; saberíamos estórias que Sherezade nenhuma conseguiria imaginar. Essas mil e uma estórias não acabariam com 'Fim" ou começariam com "Era uma vez", pois compreenderíamos que não fomos ou seremos, apenas somos eternamente, no presente, reflexos de tudo aquilo que desejamos ser.

Forças do Mal

Quantas guerras são travadas nos campos de batalha da nossa própria alma? Plantamos e colhemos demônios. Damos a eles caras, damos a eles nomes; por medo de olhar no espelho e ver o reflexo do nosso próprio rosto.

Quantos diabos foram culpados pelos nossos pecados? Quantos "espíritos do mal" foram acusados injustamente por nossos crimes cometidos?

Pobre Diabo que leva a culpa por cada tapa que damos, por cada ato barbáro que é cuspido de nossos pensamentos para o plano da ação. Sempre presente, ele age na terra impunamente por puro deleite da nossa danação. Só pode ser mais forte que Deus, só assim para explicar o porquê de seus atos ficarem sem punição.

Pobre Deus que não deve mesmo existir, afinal só responde com silêncio quando gritamos para o alto as nossas perguntas indevidas. Indiferente, ele está sempre ausente nos momentos em que deveria estar mais presente para limpar as nossas sujeiras. Só pode mesmo ser invenção do homem, pois se Ele fosse tão forte mesmo não permitiria tantos atos de horrores cometidos no mundo pelo homem.

Bobagem, quanta bobagem. Quantas desculpas para darmos explicações aos nossos erros.

Quanta bobagem passa pelo rio dessa nossa mente mortal que se acredita importante o bastante para ser atacado e coagido pelas forças do mal. Tolinhos todos nós somos ao imaginar que existe luz sem sombra, bem sem mal, mesmo tendo sempre tantas provas que a dualidade é uma lei permanente desse mundo em que nos manifestamos. As forças do mal, com seus agentes e trabalhadores, operam nesse plano em conjunto com as forças do bem; e é a união dessa dualidade que faz esse mundo girar.

Cabe a cada um de nós fazer a opção de que lado quer estar e o lado que nos vemos atuando não é influência alheia a nossa vontade: conduzimos o que queremos por sintonia!

Se fazemos o mal ou semeamos o terror, mesmo sabendo que temos pontencial para fazer o oposto, é uma decisão exclusivamente nossa. Apontar agentes externos é ignorar o balanço do nosso próprio rabo.

Podemos dar o nome que for as nossas sombras: obessessor, assediador, capeta, inimigo; muitos são os nomes que queremos dar as forças que nos consomem por nossa incapacidade de ter disciplina e controlar os nossos impulsos mais sombrios. Se optarmos pelo Caminho do Guerreiro e aceitarmos que o nosso maior combate ocorre dentro de nós mesmos, poderemos enfim compreender e aceitar os nossos defeitos, imperfeições e assumir que fazemos nós mesmos as nossas escolhas, pelo caminho do bem ou do mal, em direção para a evolução de um novo ser.

sábado, janeiro 10, 2009

Perdendo o Gosto

Tudo começa bem de mansinho; no beijo que perde o gosto, no toque antes ardente que parece agora incesto.

Os olhos que queríamos tão presentes, já não queremos mais perto. O travesseiro de orelhas tão querido, agora já não nos aquece mais.

Nada de mais aconteceu. Não houve traição, nem briga ou despejo. O seu coração está apenas cantando a canção do " amor que se vai".

Muitas canções falam de corações partidos, muitos poemas cantam os amores nunca vividos. Essa crônica é sobre o quente que ficou frio; sobre o amor que um dia foi e agora é nada mais.

Mas o que fazer quando isso acontece? Uns permanecem na proa dos infelizes mais ainda juntos, outros abandonam o navio ao primeiro sinal de um novo barco. Seja qual for a sua decisão, lembre que amar é inevitável e se é inevitável amar, não perca o seu tempo sendo infeliz com quem não te faz mais sorrir, com um relacionamento que não te faça cantar todos os dias a melodia da renovação do caminho do amor.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Na Vontade

Jonas saiu da baleia. Perguntaram:

- O que você sentiu?

Ele respondeu:

- Nem isso, nem aquilo!

Ninguém entendeu.


Natanael caiu do céu

Perguntaram:

- O que você viu?

Ele respondeu:

- Nem uma coisa, nem outra!

Ninguém compreendeu.

Assim, são os caminhos para o Divino: nada do que você ouviu dizer, coisa alguma do que você ouviu contar.

O caminho é feito ao caminhar, já dizia o peregrino.

O sabor é feito ao provar.

Quem interpreta o Divino pelo que leu ou ouviu, nada conhece, nada sabe, e fica apenas na vontade.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

A FACE ESCONDIDA

São tantas as faces da Deusa, que ás vezes, a gente se esquece que ela está em todo lugar, e com dúvida, pergunta:

- É você mesmo, minha Mãe, disfarçada de Natureza?

Ela responde com os pios dos pássaros, com o movimento das folhas, com o som da água do rio e com o silêncio da terra.

Quando Minha Mãe se expressa, tudo diz e nada fala - e o significado da mensagem depende do que você consegue interpretar.

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, janeiro 07, 2009

OBSERVAI

Orai e vigiai seus pensamentos, alguns pensamentos são como chuva fina e constante que faz mais estrago que tempestade.

Mil pensamentos passam pelo rio corrente do seu pensar, mas olhai e cuidai daqueles que querem alterar comportamentos, provocar ações; alguns desses pensamentos se apresentam como agentes do bom senso, mas só querem mesmo é abalar.

Sua cabeça é uma casa de janelas abertas onde nem sempre o sino do seu coração é tocado pelos visitantes; e visitante que chega entrando sem avisar sempre causa dano; por isso para evitar engano, observai com cuidado o seu pensar.

terça-feira, janeiro 06, 2009

A Árvore Dançarina II

A árvore dançarina encontrou o menino voador novamente. O menino era só brilho no olhar, a árvore somente bailar. Os dois juntos com todos os seres da floresta festejavam mais uma Festa do Divino ao som das canções do Beija-flor.

A árvore seguia explicando ao menino que todas as imagens que ele via eram símbolos que precisavam ser decifrados pelo olhar observador de um escritor; o menino seguia entendendo que ao mesmo tempo que bailava, aprendia as sagradas lições do Amor que Não Tem Nome, mas que desce da fonte celestial do Grande Criador.

A canção do Beija-flor dizia: "Tudo é amor! Tudo é amor! Tudo é amor"

E o menino compreendia que a árvore dançarina era apenas outra face do Divino que descia das alturas para brincar com alegria.

Quando finalmente o sol raiou, o menino acordou na sua cama, ainda cantando as melodias que o lembravam que não era preciso fazer esforço para recordar daquilo que já fazia parte do seu ser, mas quando desejasse celebrar, bastava fechar os olhos, pois a árvore e o Beija-flor estariam sempre a lhe esperar.

sábado, janeiro 03, 2009

Jardim Namastê

Pobre Ana, diante de um terreno onde ela poderia plantar um jardim de orquídeas, tulipas e margaridas; deixou crescer o mato da discórdia, da mágoa e do ressentimento.

Pobre Ana, que leu todos os livros sobre adubo e como transformar sementes em crisântemos e lírios; nem viu a erva daninha da inimizade tomando de conta, crescendo pelas beiradas, cobrindo a cerca e o muro. Agora, diante do matagal da sua alma, ela não tem mais forças para recomeçar o seu cultivo e só pensa em conseguir um jardim novo.

Capina, Aninha, capina. Respeita o jardim dos seus amores, faz florar as rosas das amizades ainda não perdidas. Afasta os mosquitos que picam o ego, os insetos que rodam, rodam e rodam o seu orgulho. Venha conhecer a linha do beija-flor e do vaga-lume . Deixa as lagartas se soltarem das suas carapaças e borboletarem no seu quintal.

Não seja pobre, Ana, seja sol! Gira, gira, gira-sol, linda Ana, enriqueça sua vida no tempo bom, no tempo chuva; case o espanhol com a viúva, o sol com a lua; e coloque em prática, Ana, tudo aquilo que você leu nos livros e ouviu ser dito.

Seu jardim pode florescer, Ana, basta aceitar que é preciso ter compaixão e é por isso mesmo que não há o que perdoar o que você viu sombrear em seus amigos. A alquimia, Aninha, é a arte de transformar o chumbo que recobre certos atos no ouro da renovação. Mais vale um abraço, Ana, que mil tapas.

Por isso, poli, poli, areja, areja e você verá que no Jardim Namastê das amizades eternas, todos os seres são divinos e iguais, e por de trás de cada tombo amigo, a amizade que caiu, se levanta mais bonita e mais forte, florescendo o terreno do nosso coração.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Contando Estrelas

- Tio, o que é aquilo?

- É uma estrela, menino, uma estrela.

Que judieira, meu sobrinho nunca tinha visto uma estrela. Triste sina dos nascentes da cidade grande, crescer sem ouvir pio de passarinho livre, sem pular no rio. Que tristeza é ser filhote da mata urbana, sem correr o risco de roubar manga no pé, de pescar bota no açude, de varrer os olhos embaixo de um tapete de estrelas.

Por vezes, diante do cinza de Sampa, deixo a imaginação correr solta e vejo botos no Rio Pinheiros; vejo parques verdes em cada canto da feia Santo Amaro; vejo tucanos no lugar de pombos no centro e uma avenida de estrelas sob a paulista, com uma lua cantante que entoa serenata pelas ruas vazias da madrugada; daí o som de uma buzina estridente me acorda; alguém gritando "pega ladrão", me assusta e me encosto num canto, dando passagem a multidão que tem pressa e não tem tempo para contar estrelas.

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