O Arlequim estava plantando Crônicas pelas ruas da cidade naquele feriado e encontrou com Paulo que estava meio perdido ali pelo centro, próximo do Pátio do Colégio. Ele parecia assustado, como se estivesse fugindo dos mendigos da Sé e parecia mais acabado do que quem teve uma overdose de tanto comer yakosoba na Liberdade.
Paulo pediu ajuda ao nosso Palhaço Cósmico para encontrar dois padres que ele dizia serem os únicos amigos que ele tinha na cidade.
- Você sabe aonde mora o Padre Anchieta e o Padre Nóbrega? - perguntou Paulo, que não tinha celular, nem Google Maps -ou onde tem algum lugar que eu possa repousar perto daqui?
O Arlequim respondeu que de Padre, ele só conhecia o Lancelotti, mas que havia uns hotéis bons e baratos ali na Consolação, mas que ignorasse aqueles avisos de hotéis da Baixada do Glicério que parecem bons, mas no final, o sujeito acaba enforcado, quando acorda sem carteira e sem documento. O nosso famoso Bufão Sagrado estava temeroso que aquele sujeito meio perdido e confuso, acabasse sendo vítima fácil, ali pelas bandas do Parque Dom Pedro II e avisou também sobre os perigos do "Centrão" e pediu para o caminhante ter cuidado: evite seguir por essa extrema direita que une a Paulista com Faria Lima. Se o viajante seguisse por lá, acabaria preso por estar de alpercatas e sem paletó e tênis de marca.
- Não tenho nada que possam me roubar, nem preconceitos sobre como me visto, podem me atingir. Desde que deixei Éfeso e vim parar nessas bandas de Piratininga, tenho apenas sido, nada mais tenho. Além disso, tenho a proteção de João Ramalho, até o casei com a Índia Bartira.
O Arlequim fingiu que sabia quem eram aqueles nomes que o viajante falava. E o Andarilho continuou:
- Não foi difícil chegar aqui, todas essas trilhas sagradas estão bem sinalizadas, Tibiriça, pai de Bartira, pediu apenas que eu evitasse a trilha do Peabiru, para eu não acabar nas Terras do Povo do Sol. Mas acho que preciso encontrar um lugar para descansar, apesar de todas essas trilhas sagradas indígenas chegarem aqui, acho que vou levar um tempo até encontrar meus queridos Jesuítas.
- Você quer que eu te leve até algum hotel?
- Obrigado, moço do rosto colorido, mas não me leve a mal, eu me conduzo, não sou conduzido. Esse lugar tem poder, por mais que esteja coberto por todo esse concreto e só estou um pouco perdido, pois os Tupiniquins que encontrei ali, à beira do Rio do Mau Espírito, me disseram que eu encontraria os padres por aqui, nessa colina, próxima de Tamanduateí, mas é tanta gente e tanta casa gigante que quase toca o céu, que mesmo se eu falasse a língua desses homens ou dos anjos, eu não os encontraria.
O Arlequim então decidiu seguir seu caminho e deixar aquele homem para trás para que ele se encontrasse ou achasse os tais padres, porém, antes, curioso e levando em consideração que aquele homem se vestia com roupas bem antigas, o Arlequim perguntou:
- Moço, posso te fazer uma pergunta, mas não sei se me convém te perguntar isso.
- Claro! Toda pergunta é permitida, todo questionamento nos convém se tiver amor e respeito.
- Em que ano estamos?
- Ora, meu caro, estamos no Ano do Senhor de 1554.
- Entendi...- disse o Arlequim que tinha mesmo sentido que aquele homem que encontrara, era mais que apenas um homem, mas um símbolo vivo - Boa sorte em sua busca pelos padres. E qual é mesmo a sua graça?
- Tarso, Paulo de Tarso ao seu dispor. E a sua graça?
- Quim, Arle de Quim. Muito prazer e boa sorte.
O Arlequim que já havia encontrado com tanta gente estranha e maravilhosa em sua jornada, não estranhou nadinha, ter encontrado com Paulo de Tarso naquele 25 de janeiro, enquanto seguia para Avenida São João com Ipiranga. E rogou aos espíritos indígenas das tribos que já estavam ali, antes da cidade ser "fundada", que protegesse aquele nobre cristão dos Bandeirantes, Fernões, Bittencourts e Dutras.
Sintam o Matnis