segunda-feira, janeiro 26, 2009

O NOME DO BEBÊ

Nas tribos indígenas, o bebê só ganha seu nome ao nascer. Os índios sabem que é somente no nascimento que a criança deve receber o nome pelo qual será chamada a vida inteira. Todo o resto é projeção dos pais em cima de um ser que ainda nem nasceu.

Como se não bastasse todas as expectativas que esse novo ser humano ganhará: “terá que ser advogado, vai casar, será bem sucedido, seguirá o caminho do pai, etc”; a criança já nasce com um nome escolhido, cujo significado (muitas vezes totalmente ignorado pelos pais), terá que ser carregado por esse novo ser por toda a sua existência.

“Quero que seja menino, quero que seja menina”, “ quero que venha assim ou que venha assado”; e da-lhe projeções, da-lhe expectativas e da-lhe mais peso; esse novo ser humano, cansado de todo o esforço para nascer, ainda terá que lidar com as ansiedades dos pais, quando o seu pós-parto deveria ser um processo suave, de adaptação a um novo plano de existência.

O nome que ganhamos de nossos pais deveria ser uma benção, escolhido de acordo com o momento em que viemos para esse mundo, baseado em real sentimento, mas o que recebemos é o nome que os nossos pais ouviram na novela, copiaram de um filme, criaram baseados em uma ordem caótica de continuarmos a tradição dos filhos com nomes de santos, ou de uma letra do alfabeto.

Nome é coisa séria, pois a palavra tem poder e manifesta nesse mundo, o que criamos no plano dos pensamentos. Cabe aos novos pais, muita cautela e amor, para que a criança que está prestes a nascer, não se torne mais uma vítima da nossa vontade de nomear o mundo, segundo o evangelho da nossa ignorância.

domingo, janeiro 25, 2009

A Índia é Aqui (Caminhos de São Paulo)

Swamis, templos, mantras, sáris;
Não precisa ir lá
A Índia é aqui

Peregrinações, setas douradas;
Igrejas, celtas, caminhadas sutis
O Caminho de Santiago é aqui

Judeus, Muçulmanos, Cristãos;
O Torá, a Bíblia e o Alcorão
Jerusalém em cada esquina daqui

Buda explodindo em Satva;
Mil pedaços espalhados por Sampa
O Nirvana da compaixão do Parelheiros ao Pari

Xamãs paulistanos e pagés paulistas;
Ao som do tambor, cantos para Gaya
No meio do Parque do Ibirapuera, eu ouvi

Iniciações do Egito no Ipiranga;
Fisíca quântica com espiritualidade na Guilhermina,
Os conhecimentos que eram ocultos são revelados aqui

Encontro de projetores astrais na Frei Caneca;
Sonhos e Psicanálise nas teias da net,
Não há no mundo, mais Voadores que aqui

Nos cantos de Umbanda e de Candomblé,
Os Orixás e os caboclos de Aruanda
E a Mãe África em mil axés eu ví

Filósofos, professores, atores
Nos jardins de Agora da Santa Cruz
Provocam a catárse que fazem o conhecimento fluir

Não preciso ir para longe para sentir;
Pois a inspiração flui da Sé ao Tucurivi,
Nas crônicas maravilhosas que escrevo aqui



Imagem: http://www.panoramio.com/photo/103324

sábado, janeiro 24, 2009

PIA

Quando a chuva divina caiu
Tirou a rolha da minha cabeça
Que feito uma pia
Foi se enchendo de amor

O rio da compaixão foi descendo
de porta em porta,
Fazendo brilhar a minha casa
Tocando os sinos do meu templo

Era muito amor para o meu caminhão
Até pensei em dizer que não queria não
Então lembrei, que eu era um canal
E fui conduzindo esse presente Divinal

Para toda pessoa que eu conseguia lembrar
Até para aquelas que eu jurava não ligar
E quando achei que já tinha acabado
A chuva voltou a cair cada vez mais

Depois desse contato com o Divino
Fico aqui pensando: se já recebo tudo isso
E sou tão pequenininho
Imagina quanta luz carregavam os Avatares do Amor?

sexta-feira, janeiro 23, 2009

As Infinitas Linhas de Quem Tece

Tantas linhas, tantas opiniões. Quem tem razão? Quem tem razão?

Fala irmão, conta amigo: qual é o caminho? Castañeda tinha mesmo razão? Há coração? Há coração?

Tece o seu comentário, formule a sua voz. Opina, amigo. Opina, irmão.

Dada a opinião, observa: a palavra transcende o falante, vai criando ramificações, corrente, avança e transforma toda a gente que escuta, que lê, que é carente de experiência, que preenche o espaço vazio da prática com a teoria dos outros, com outras opiniões.

Contudo, essa é uma discussão, um bate papo, e eu opino, amigo; eu opino, irmão; mas essa é apenas a minha opinião. Acredita não, vá atrás da sua realização. Realiza a tua ação!!!

Não há verdade única, irmão, se não a experiência, a manifestação da sua consciência em relação ao que é sentido, observado e vivido.

Compreenda, leia as minhas palavras e perceba, elas são apenas palavras, amigo, não se vivencia o Divino no discurso, não se experimenta o Divino nisso ou aquilo; tudo que não for sentido, é apenas achismo.

E taí a graça do Grande Criador, quanto mais lúcido você fica do Grande Amor, mas você percebe que é praticando que se faz o caminho. Esqueça os templos do Himalaya, os rituais dos tantos "ismos", esqueça o oposto te dizendo: não é isso!!!

E seja lúcido!!!

Pratique o aqui e agora, transcenda o vício de convencer e ser convencido. Aprenda com cada opinião, mas não deixe as palavras alheias virarem ação no seu coração. Compreenda, não precisamos mais seguir em bandos quando o assunto é ligação, religação, religião, união com tudo aquilo que podemos ser.

Tantas linhas, tantas opiniões. Quem tem razão? Quem tem razão?

A iluminação tem nome? Ou o silêncio é a melhor expressão da sensação que palavra Babel alguma consegue afirmar?

Discernimento, amigo. Lucidez, irmão.

LÚCIDO DEPOIS DE TUDO

Nunca estive tão lúcido.

Percebo os pensamentos em formação, as intenções virando ações, as manifestações dos meus sonhos em meus atos, preenchidos por uma extrema observação de certos entraves que me boicotaram a vida inteira. Entraves que estavam disfarçados que inibiam a força da minha vontade; entraves que me faziam caminhar em circulos, cachorro vadio correndo atrás do próprio rabo.

Nunca estive tão lúcido.

Noto os pequenos buracos no tempo, nas viagens do pensamento que faço para o que não vivi e para o que já senti; e vou trazendo de volta os fios de consciência que se destacaram e já consigo estar presente boa parte do meu agora. O meu agora preenchido com o meu olhar desperto descortina a arte da vida; onde sinto a música pulsando e a poesia implorando aos meus olhos e ouvidos: faça fluir a arte que sente, manifesta de dentro para fora.

Nunca estive tão lúcido.

A dúvida que me atacava, a verdade dos outros, a opinião alheia foi passando aos poucos, á medida que o meu Eu-Lúcido avança. Não estou mais tentando, ando, ando ser. Finalmente sou. Apenas sou e deixo as letras expressarem a alegria que não para de jorrar pelo meu sorriso e o amor que nunca esteve tão evidente em meus olhos.

Nunca estive tão lúcido.

Foi-se o eu-confuso. No lugar, não está alguém melhor ou superior, pois ser é o que me interessa, e não julgar se o que me transformei foi a metamoforse certa. Estou sendo uma outra face que sempre achei ser lenda. Estou sendo uma outra máscara dos mil e um rostos que habitam esse teatro de minha alma.

E no final de tudo isso, estou sendo a vida, e ser a vida é celebrar com alegria todas as linhas que nos religam a percepção divina; e ser a vida é respeitar que no mundo há milhares de doutrinas, religiões, pontos de vistas e todas elas nos levarão até o mesmo lugar: onde já estamos.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

PESCADOR DE PALAVRAS

Hãn, hãn, hum ... eu vou tentar falar sobre o amor...

Hum...vou descrever o que senti...

...

..

.

O ... ocupa o espaço das palavras vazias, das frases ocas que tentam em vão preencher o espaço da expressão correta. O ... ocupa o vazio deixado por nossa linguagem tão limitada para descrever o que senti quando percebi que não estamos sós nessa jornada; que existe mesmo uma força maior preenchendo o espaço ao nosso redor e fluindo por todo o nosso corpo de fora para dentro e dentro para fora.

Acreditem! Passo boa parte do meu tempo, sentado a beira desse rio corrente da inspiração, em busca da expressão ideal. Pescador de palavras, vivo em busca de um texto que possa descrever essa grande aventura espiritual que é sentir o Grande Arquiteto do Universo, desenhando o mundo.

Achar a justa frase tornaria mais fácil te explicar como podemos voar sem asas; o quanto o Criador com todo o seu infinito e paciente amor é tudo aquilo que já foi sentido e nada do tanto que já foi falado, escrito, lido, cuspido, mentido e jurado.

Se ao menos eu pudesse encontrar algo para por no lugar do ...

A DÚVIDA DA FLOR

Cadê o Beija-flor que estava aqui? Nem o vi partir, será que estava mesmo aqui? Será que um dia aqui voou? Será que algum dia sequer existiu um Beija-flor?

Cadê o Beija-flor? Cadê o Beija-flor?

Ah, voltou.

Que susto! Cheguei a duvidar que não tivesse sido, que fosse apenas um sonho.

Eu duvidei, eu duvidei, meu Beija-flor, duvidei que você fosse real, como é real o meu amor.

Eu duvidei, eu duvidei, meu Beija-flor, como todos que amam duvidam, como duvidou até o Redentor.

Então você voltou e eu percebi o quanto duvidei a toa. É que fiquei sem você; é que não senti a sua presença, como se a sombra do mundo lhe tivesse prendido, como se o seu vôo tivesse sido apenas algo imaginado e não beijo de fato. É que cresci duvidando se um dia eu teria pétalas tão bonitas que pudesse atrair você. É que eu cresci, vendo outras tantas flores conseguindo te ter, que quando você veio para mim, achei que não fosse tão real assim.

Ai, você voltou.

Que susto! Cheguei a duvidar que não mais voltaria, por dúvida minha, por dúvida minha, mas você voltou.

Obrigado, meu Beija-flor.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

BASTIDORES

Em algum lugar dentro de mim, existe um palco onde a minha vida é uma peça teatral apresentada pelo meu alter-ego ator. Por trás desse palco, ainda há os bastidores, onde técnicos e diretores, que não querem mostrar o rosto, instruem e iluminam cada ato, com o devido respeito ao meu livre-arbítrio, a minha improvisação.

Nesses bastidores, aprendi como a nossa vida é vista por quem está de fora. Percebi o quanto é vasto o palco por onde é descortinada a nossa estória. Mais vasto ainda são os bastidores, onde seres de luz, se escondem na sombra do amparar.

Ironia Divina: eu que pensava que o mundo astral era fora...

O Vazio e o Espaço Preenchido

Estou em uma das praias de São Paulo. Vejo carros cruzando as avenidas deixando um rastro de som; as pessoas falam alto; os bares atraem clientes com os mais variados ritmos; procuro,tento, mas não consigo ouvir o mar.

A praia está lotada, no lugar da areia, os guarda-sóis. Todos os espaços estão preenchidos, não insisto, vou em busca do vazio, estou precisando de uma dose disso, do silêncio, da quietude, do descanso merecido.

Por um momento, penso que estou ficando mesmo velho: tenho tolerância zero para o barulho; evito nadar no mar de pessoas das ruas de São Paulo ou qualquer outro lugar; mas a questão não é idade e sim seleção. Tenho selecionado melhor os lugares que me dão prazer, as pessoas com quem converso e aprendo; tenho filtrado melhor o que absorvo dos outros, do mundo.

Sou observador, adoro estar entre a nossa gente, ouvindo as suas estórias, aprendendo com a vida de cada um; mas ao me tornar mais seletivo, percebi que eu era meio que um "João vai com os outros". Nesse processo coletivo que é viver nesse mundo, muitas foram as vezes, em que estive ocupando todos os espaços vazios da minha praia com guarda-sóis, quarda-tranqueiras, guarda-coisas que não valem mais nada. Na minha jukebox tocava canções melosas que atraiam emoções estranhas e já experenciadas, na rádio da minha alma, tocava músicas distorcidas e eu as tocava no volume mais alto; na tentativa de expulsar o silêncio, me livrar do vazio, combater a quietude; sem perceber que é no espaço entre duas palavras, no vazio entre dois sons, que eu estou pleno.

EU SOU no espaço vazio entre o que penso e faço. EU SOU na quietude da alma que tudo vê e tudo sabe.

terça-feira, janeiro 20, 2009

O QUE HÁ

As cores do entardecer avançam sutilmente pelo céu. O dia está indo embora, a noite vem deslizando; e eu tento observar o momento em que as cores mudam, em que o céu se transforma, mas a mudança é sutil demais para que eu consiga percebê-la, contudo ela acontece assim mesmo, independentemente da minha incapacidade de vizualizá-la ou compreendê-la.

O que há é.

O que há não é coisa da minha cabeça. Não é truque mental. Mesmo que eu duvide que o que há aconteça, tudo é, mesmo sem a minha crença.

O que há é tão sutil quanto as cores do entardecer, como a fluidez da água ou o vento tão presente, mas invisível. Tem gente que sabe disso, pois percebeu que é evidente que existe algo maior que envolve tudo o que aparenta ser. Tem gente que duvida disso, pois passou tanto tempo questionando, que a dúvida sadia passou a ser a sua pior inquisitora, não permitindo que eles possam ver algo além da sua mente perguntadora. Tem gente que pensa que sabe o que há e cria nomes, cria pontes, quando o que eles inventam vai ficando cada vez mais longe, menos parecido com o que há.

O que há sempre existiu e sempre será. O que há continuará presente nas pequenas coisas, no sutil do presente, onde a nossa mente ausente, não consegue perceber a sua manifestação.

Estamos sempre a frente ou bem atrás do que há, pois não nos permitimos aquietar a mente, acalmar a máquina corpo que só deseja seguir adiante. Se ao menos tivessemos tempo para a meditação, para trabalhar e disciplinar a nossa atenção, conseguiríamos ver a mudanças das cores do entardecer, conseguiríamos notar o milagre de cada gota d'água se unindo e fluindo pelas nossas mãos; conseguiríamos perceber a sutileza da ação divina atuando, compondo essa grande obra de arte que é pintada com todos os nossos rostos, com todos os nossos corpos, amores e dissabores; pois não existe nada além do que o que há.

BOI TEMPO

Segura Peão, esse Cavalo Pré-ocupação que corre a frente dos bois; monta esse cavalo com as esporas do presente, Peão, se não tu cai e se arrebenta no chão.

Lança esse laço da tua vontade na hora certa, Peão, o Boi Futuro ainda não está pronto para ser laçado, perceba que você fica preso nesse rodeio do tempo, Peão, toda vez que tenta laçar o que ainda não chegou.

Fica firme, Peão, e concentre a sua ação aonde estão a tua atenção. Não desperdice o seu pensamento e força, Peão, na divagação.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

BLUE MONDAY

De repente, segunda-feira de novo.

Milhares de corpos andando, enquanto seus espirítos ficaram em casa na cama dormindo.

Milhares de vozes reclamando que gostariam que fosse sexta-feira de novo, só para voltar seus corpos para as suas camas.

A semana passará e a nossa consciência estará perdida entre o que passou e o que começará. Mais uma semana será perdida, só para variar...

Interessante o caminho da nossa consciência. Ganhamos o mundo de presente e ao invés de estarmos aqui conscientes, estamos o tempo todo ausentes.

sábado, janeiro 17, 2009

O DOCE ORGULHO DO EGO

O orgulho e o ego se aproximam sorrateiramente, de um jeito tão silencioso, que quando percebemos, já estamos atuando como Reis do Universo. Contudo, não somos reis de coisa alguma, pelo contrário, somos servos das forças que regem a natureza desse plano de existência.

Todo esse papo "new age" de co-criadores do Grande Arquiteto Divino, só serviu para transformamos o ego que nos ajuda a criar a nossa identidade num monstro que grita: "eu sei tudo!"

Esse ego do tamanho de um Godzilla e o orgulho que é baseado em conquistas vazias, aumentam a cada dia em nome das conquistas do mundo, entretanto, deixamos de lado a busca da riqueza interior e o respeito que deveríamos ter por cada um que divide esse planeta conosco.

Nada contra a busca de uma situação financeira confortável, afinal, se tem algo em que eu não acredito é em gente que faz voto de pobreza ou prega o "repúdio ao dinheiro" (talvez não haja discurso mais hipócrita baseado em dogmas tão demagogos). A questão aqui é levantar uma meditação sobre como olhamos quem acreditamos saber menos que a gente.

Eu não sei quanto a vocês, mas volta e meia, eu me surpreendo com a capacidade que tenho de achar que sei mais que os outros, quando eu deveria apenas querer saber suficiente para mim. Conhecimento nenhum nos dá o direito a cultivarmos um olhar superior aos outros. Somos todos iguais e se aprendemos uma coisa ou outra a mais, esse conhecimento deveria ser para a nossa prática e não para servir de razão para sairmos por ai, contando o quanto sábios somos, afinal, qualquer que tenha sido o nosso aprendizado; ele é limitado pelas restrições de expressão e comunicação da linguagem que usamos nesse experiência terrena.

Experiência espiritual nenhuma consegue ser descrita da forma como é sentida. Isso é um fato e desafio meus opositores que apareçam com relatos.

Descoberta cientifíca alguma é maior que os mistérios e a magia do significado da palavra RESPEITO.

Ser PHD ou Doutor em certas áreas profissionais não nos torna melhores seres humanos, nem nos dá o direito de usar a coroa do saber superior, pois, só a morte é verdade absoluta; todo o resto é conhecimento variável, sujeito a mudanças a qualquer momento.

O Ego e o Orgulho, assim como o Medo e a Dúvida, são forças emocionais que possuem a sua função na construção do indivíduo que somos, porém, mais forte que elas, deve ser a nossa vontade em dominá-las para que possamos cultivar a tolerância em relação as idéias alheias e ao ritmo de aprendizado de cada um.

Não vivemos sós nesse mundo e se há uma razão pela qual existe o outro, é para que possamos viver em harmonia e respeito com ele e com todos.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Manifeste a sua Ação

Peça prosperidade, mas manifeste a sua ação. Pedir todo mundo sabe, mas poucos tem o poder de fazê-la surgir do chão.

Peça saúde, mas manifeste a sua ação. Cultivar doenças todo mundo sabe, mas poucos conseguem mudar a causa do mal que no corpo surge.

Peça luz, mas manifeste a sua ação. Se esquecer da própria luz todo mundo esquece, poucos conseguem extrair a luz da sua escuridão.

Flechas de Luz

Flechas de luz iluminam o céu da Selva de Pedra. Ao som do tambor e do maracá, os bichos urbanos escutam o bradar do Rei da Floresta.

É Ewa correndo por nossas ruas. É Oxossi iluminando cada bairro. É o Rei das Flores baixando em cada terreiro com seu exército de caboclos guerreiros.

Saravá, meu Pai Oxossi! Namastê, meu Rei das Flores! Não tenha pena, nem tenha dó, fleche meu peito com a luz da compaixão para que eu veja o brilho de cada Orixá refletido no olhar de cada irmão.

Saravá, meu Pai Oxossi! Ishalá, meu Rei das Matas! Sou bicho da cidade, mas trago a vontade na alma, de ser UM com todos que eu cruzar em minha estrada; pois trago o verde da mata no peito e a vontade de amar em cada chacra.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Um Pensamento

Poça vermelha na pista, cabeça aberta no chão, corpo caído de um homem, cujo último pensamento foi:

- Se tudo não tivesse sido!

Não foi, o vermelho voltou a cabeça que se fechou, cabeça de um homem que levantou e voou, junto a milhares de cacos de vidro, de volta ao carro, em que o cinto segurou o motorista, pois nunca houve a batida no caminhão, e o carro retornou pela estrada, como se estivesse em ré, voltando ao restaurante de beira de estrada, onde o homem do balcão nunca abriu aquelas garrafas de cerveja para o homem que diante da tentação de só tomar "uma geladinha para matar o calor", não morreu, pois antes mesmo que pensasse em pedir a bebida que o mataria, um único pensamento lhe devolveu a razão:

- Não!

O CORPO DE YEMANJÁ

Se Yemanjá tivesse um corpo, ela teria a beleza de Oxum. Os seus cabelos seriam pretos e tão longos que desceriam para a Terra em forma de cachoeira. Os seus olhos seriam de um azul tão profundo que refletiriam o mais límpido rio.

Se Yemanjá tivesse um corpo, ela teria os braços de Yansâ, para lançar relâmpagos de luz como se fossem flechas para trovejar o vento do amor.

Se Yemanjá tivesse um corpo; ela teria os pés de Nanâ; para pisar com firmeza e sabedoria; para ser vó, mãe e ao mesmo tempo, neta e filha.

Se Yemanjá tivesse um corpo, ela teria os olhos de todos nós, para mostrar que sempre está conosco e que no fundo SOMOS TODOS UM SÓ.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

Valores

As coisas do mundo tem os valores que queremos dar a elas. O que é importante para mim, pode não ser para você.

- E dai? - você, leitor, se pergunta, afinal já ouviu isso tantas vezes. Eu sei! Isso tudo é conhecimento comum, etc; mas se todos sabem disso, por que quase ninguém pratica? Quero dizer, por que passamos boa parte da vida, tentando converter os outros a passar para o lado da nossa verdade?

Que satisfação medonha é essa que temos em apagar a fé alheia com as nossas "certezas". Se ao menos colocassemos no lugar coisa valiosa, mas só deixamos tranqueiras. Sim, tudo o que acreditamos não passa de bobagem nossa, pois se estivessemos mesmo diante da Grande Verdade do Universo; você acha que teríamos a coragem de contar aos outros? Essas grandes verdades não pertencem ao campo da linguagem. Desculpem-me os linguístas, mas nem tudo o que sentimos, conseguimos transformar em comunicação, em expressão. Há coisas que ocorrem dentro da gente, que não dá para compartilhar, apenas sentir e refletir na sensação, e não nas palavras que acaba empobrecendo a experiência.

Tente explicar aquele sonho maravilhoso que você teve ontem à noite para alguém e perceba como a pessoa não terá a menor idéia do que você está falando, por mais que você tente expressar, cantar, poetizar, mimicar, gritar. Assim, são as Grandes Verdades, as experiências com o Divino, as expansões da consciência e tudo aquilo que tem realmente essência. Todo o resto é literalmente papo furado, conversa para Testemunha do Jáh evangelizar.

Tentar convencer os outros do nosso ponto de vista, das nossas crênças, das nossas verdades é deixar de ser estrela e virar buraco negro, sugando todo o brilho do outro para a sua volta.

terça-feira, janeiro 13, 2009

Valei-me, Notre Damme


Enquanto todos olham para fora

Meu olhar curioso olha para dentro

E o que ele vê?

Valei-me, Nossa Senhora!!!!

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Conto de Gente

Se as fadas contassem estórias, se os seres ocultos revelassem seus segredos; toda a minha gente saberia do que esse mundo é feito; e diante da Grande Revelação do Divino, ao invés de lágrimas e do arrempedimento do pecador diante do tal "último julgamento", haveria uma porçao de gente contente, uma comunhão da alegria, com todo o meu povo rindo a toa ao descobrir e repetir: Ah, então era isso!

Sim, era isso! E aquilo e tudo mais que estava tão na cara que parecia distante, tão próximo que a gente vivia morrendo de saudade.

"Se ao menos eu soubesse" dirão os arrependidos, ainda achando que sofrerão os piores castigos, nem desconfiando que estão diante da Deusa da Compaixão.

Que sensação de ironia ficaria pelo ar, com todos comentando a Piada Divina desse meu povo passar a vida inteira procurando fora o que sempre esteve dentro, comentando a judieira dessa minha gente ter passado a vida inteira acreditando que o amor dependia do outro, quando o amor sempre foi água jorrando correntemente do peito, independente do reflexo alheio no espelho.

Se as fadas contassem seus casos, se os seres ocultos revelassem seus segredos; saberíamos estórias que Sherezade nenhuma conseguiria imaginar. Essas mil e uma estórias não acabariam com 'Fim" ou começariam com "Era uma vez", pois compreenderíamos que não fomos ou seremos, apenas somos eternamente, no presente, reflexos de tudo aquilo que desejamos ser.

Forças do Mal

Quantas guerras são travadas nos campos de batalha da nossa própria alma? Plantamos e colhemos demônios. Damos a eles caras, damos a eles nomes; por medo de olhar no espelho e ver o reflexo do nosso próprio rosto.

Quantos diabos foram culpados pelos nossos pecados? Quantos "espíritos do mal" foram acusados injustamente por nossos crimes cometidos?

Pobre Diabo que leva a culpa por cada tapa que damos, por cada ato barbáro que é cuspido de nossos pensamentos para o plano da ação. Sempre presente, ele age na terra impunamente por puro deleite da nossa danação. Só pode ser mais forte que Deus, só assim para explicar o porquê de seus atos ficarem sem punição.

Pobre Deus que não deve mesmo existir, afinal só responde com silêncio quando gritamos para o alto as nossas perguntas indevidas. Indiferente, ele está sempre ausente nos momentos em que deveria estar mais presente para limpar as nossas sujeiras. Só pode mesmo ser invenção do homem, pois se Ele fosse tão forte mesmo não permitiria tantos atos de horrores cometidos no mundo pelo homem.

Bobagem, quanta bobagem. Quantas desculpas para darmos explicações aos nossos erros.

Quanta bobagem passa pelo rio dessa nossa mente mortal que se acredita importante o bastante para ser atacado e coagido pelas forças do mal. Tolinhos todos nós somos ao imaginar que existe luz sem sombra, bem sem mal, mesmo tendo sempre tantas provas que a dualidade é uma lei permanente desse mundo em que nos manifestamos. As forças do mal, com seus agentes e trabalhadores, operam nesse plano em conjunto com as forças do bem; e é a união dessa dualidade que faz esse mundo girar.

Cabe a cada um de nós fazer a opção de que lado quer estar e o lado que nos vemos atuando não é influência alheia a nossa vontade: conduzimos o que queremos por sintonia!

Se fazemos o mal ou semeamos o terror, mesmo sabendo que temos pontencial para fazer o oposto, é uma decisão exclusivamente nossa. Apontar agentes externos é ignorar o balanço do nosso próprio rabo.

Podemos dar o nome que for as nossas sombras: obessessor, assediador, capeta, inimigo; muitos são os nomes que queremos dar as forças que nos consomem por nossa incapacidade de ter disciplina e controlar os nossos impulsos mais sombrios. Se optarmos pelo Caminho do Guerreiro e aceitarmos que o nosso maior combate ocorre dentro de nós mesmos, poderemos enfim compreender e aceitar os nossos defeitos, imperfeições e assumir que fazemos nós mesmos as nossas escolhas, pelo caminho do bem ou do mal, em direção para a evolução de um novo ser.

sábado, janeiro 10, 2009

Perdendo o Gosto

Tudo começa bem de mansinho; no beijo que perde o gosto, no toque antes ardente que parece agora incesto.

Os olhos que queríamos tão presentes, já não queremos mais perto. O travesseiro de orelhas tão querido, agora já não nos aquece mais.

Nada de mais aconteceu. Não houve traição, nem briga ou despejo. O seu coração está apenas cantando a canção do " amor que se vai".

Muitas canções falam de corações partidos, muitos poemas cantam os amores nunca vividos. Essa crônica é sobre o quente que ficou frio; sobre o amor que um dia foi e agora é nada mais.

Mas o que fazer quando isso acontece? Uns permanecem na proa dos infelizes mais ainda juntos, outros abandonam o navio ao primeiro sinal de um novo barco. Seja qual for a sua decisão, lembre que amar é inevitável e se é inevitável amar, não perca o seu tempo sendo infeliz com quem não te faz mais sorrir, com um relacionamento que não te faça cantar todos os dias a melodia da renovação do caminho do amor.

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Na Vontade

Jonas saiu da baleia. Perguntaram:

- O que você sentiu?

Ele respondeu:

- Nem isso, nem aquilo!

Ninguém entendeu.


Natanael caiu do céu

Perguntaram:

- O que você viu?

Ele respondeu:

- Nem uma coisa, nem outra!

Ninguém compreendeu.

Assim, são os caminhos para o Divino: nada do que você ouviu dizer, coisa alguma do que você ouviu contar.

O caminho é feito ao caminhar, já dizia o peregrino.

O sabor é feito ao provar.

Quem interpreta o Divino pelo que leu ou ouviu, nada conhece, nada sabe, e fica apenas na vontade.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

A FACE ESCONDIDA

São tantas as faces da Deusa, que ás vezes, a gente se esquece que ela está em todo lugar, e com dúvida, pergunta:

- É você mesmo, minha Mãe, disfarçada de Natureza?

Ela responde com os pios dos pássaros, com o movimento das folhas, com o som da água do rio e com o silêncio da terra.

Quando Minha Mãe se expressa, tudo diz e nada fala - e o significado da mensagem depende do que você consegue interpretar.

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, janeiro 07, 2009

OBSERVAI

Orai e vigiai seus pensamentos, alguns pensamentos são como chuva fina e constante que faz mais estrago que tempestade.

Mil pensamentos passam pelo rio corrente do seu pensar, mas olhai e cuidai daqueles que querem alterar comportamentos, provocar ações; alguns desses pensamentos se apresentam como agentes do bom senso, mas só querem mesmo é abalar.

Sua cabeça é uma casa de janelas abertas onde nem sempre o sino do seu coração é tocado pelos visitantes; e visitante que chega entrando sem avisar sempre causa dano; por isso para evitar engano, observai com cuidado o seu pensar.

terça-feira, janeiro 06, 2009

A Árvore Dançarina II

A árvore dançarina encontrou o menino voador novamente. O menino era só brilho no olhar, a árvore somente bailar. Os dois juntos com todos os seres da floresta festejavam mais uma Festa do Divino ao som das canções do Beija-flor.

A árvore seguia explicando ao menino que todas as imagens que ele via eram símbolos que precisavam ser decifrados pelo olhar observador de um escritor; o menino seguia entendendo que ao mesmo tempo que bailava, aprendia as sagradas lições do Amor que Não Tem Nome, mas que desce da fonte celestial do Grande Criador.

A canção do Beija-flor dizia: "Tudo é amor! Tudo é amor! Tudo é amor"

E o menino compreendia que a árvore dançarina era apenas outra face do Divino que descia das alturas para brincar com alegria.

Quando finalmente o sol raiou, o menino acordou na sua cama, ainda cantando as melodias que o lembravam que não era preciso fazer esforço para recordar daquilo que já fazia parte do seu ser, mas quando desejasse celebrar, bastava fechar os olhos, pois a árvore e o Beija-flor estariam sempre a lhe esperar.

sábado, janeiro 03, 2009

Jardim Namastê

Pobre Ana, diante de um terreno onde ela poderia plantar um jardim de orquídeas, tulipas e margaridas; deixou crescer o mato da discórdia, da mágoa e do ressentimento.

Pobre Ana, que leu todos os livros sobre adubo e como transformar sementes em crisântemos e lírios; nem viu a erva daninha da inimizade tomando de conta, crescendo pelas beiradas, cobrindo a cerca e o muro. Agora, diante do matagal da sua alma, ela não tem mais forças para recomeçar o seu cultivo e só pensa em conseguir um jardim novo.

Capina, Aninha, capina. Respeita o jardim dos seus amores, faz florar as rosas das amizades ainda não perdidas. Afasta os mosquitos que picam o ego, os insetos que rodam, rodam e rodam o seu orgulho. Venha conhecer a linha do beija-flor e do vaga-lume . Deixa as lagartas se soltarem das suas carapaças e borboletarem no seu quintal.

Não seja pobre, Ana, seja sol! Gira, gira, gira-sol, linda Ana, enriqueça sua vida no tempo bom, no tempo chuva; case o espanhol com a viúva, o sol com a lua; e coloque em prática, Ana, tudo aquilo que você leu nos livros e ouviu ser dito.

Seu jardim pode florescer, Ana, basta aceitar que é preciso ter compaixão e é por isso mesmo que não há o que perdoar o que você viu sombrear em seus amigos. A alquimia, Aninha, é a arte de transformar o chumbo que recobre certos atos no ouro da renovação. Mais vale um abraço, Ana, que mil tapas.

Por isso, poli, poli, areja, areja e você verá que no Jardim Namastê das amizades eternas, todos os seres são divinos e iguais, e por de trás de cada tombo amigo, a amizade que caiu, se levanta mais bonita e mais forte, florescendo o terreno do nosso coração.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Contando Estrelas

- Tio, o que é aquilo?

- É uma estrela, menino, uma estrela.

Que judieira, meu sobrinho nunca tinha visto uma estrela. Triste sina dos nascentes da cidade grande, crescer sem ouvir pio de passarinho livre, sem pular no rio. Que tristeza é ser filhote da mata urbana, sem correr o risco de roubar manga no pé, de pescar bota no açude, de varrer os olhos embaixo de um tapete de estrelas.

Por vezes, diante do cinza de Sampa, deixo a imaginação correr solta e vejo botos no Rio Pinheiros; vejo parques verdes em cada canto da feia Santo Amaro; vejo tucanos no lugar de pombos no centro e uma avenida de estrelas sob a paulista, com uma lua cantante que entoa serenata pelas ruas vazias da madrugada; daí o som de uma buzina estridente me acorda; alguém gritando "pega ladrão", me assusta e me encosto num canto, dando passagem a multidão que tem pressa e não tem tempo para contar estrelas.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

BAILANDO

Há anos que passam pela gente, há outros que ficam como presente, dentro do nosso peito.

Quando dois mil e oito começou, jamais imaginei o quanto a minha vida mudaria e em como o destino me faria rever e recaminhar velhas trilhas e ao mesmo tempo começar novos rumos.

Nesse ano de resgate, recuperei minha irmâ Umbanda, fiz minhas preces a Cristo, aos Devas, Santos, Deuses indianos e Orixás. Nunca fui tão Namastê.

Minha bela esposa voltou a ser a minha musa, amigos se foram e outros tantos reapareçeram em minha estrada, como se brotassem em árvores, após um longo inverno da ausência da verdadeira amizade.

Foram tantos as "Festas da Vida", tantos textos, tantas poesias, tantas músicas, tanta alegria, que mesmo diante das pedradas que levei e das rochas no caminho, fiz sopinha de pedrinhas, extrai o melhor de cada situação e segui em frente, experimentando o feio e o bonito, na dualidade de todas as coisas que a Vida me deixa experimentar.

Saudades tenho de muitos parentes ( outros tantos, queria mesmo era distância); e como todo fim-de-ano acaba em enumeração de realizações, cito duas: Comecei 2008 como aluno e termino como professor; comecei 2008 com pequenos ensaios no chuveiro e termino como cantor. Fui graduado nas letras e na música! Quem diria? Ele disse, Ela fez ser.

Por isso agradeço ao Jesus menino, ao Budinha Guri, ao Menino Dourado e todos os erês que me fizeram ver "que para ser homem, é preciso ter a grandeza de um menino*".

Feliz 2009 a todos, que todos vocês sigam voando e bailando essa nossa vida maravilhosa, que a cada ano que passa, fica mais bonita, mais bonita e mais bonita.



* Girassol: canção do Cidade Negra

terça-feira, dezembro 30, 2008

O MANTO DE MAMÃE OXUM II

Em cada movimento dos braços, em cada mexer dos dedos; cachoeiras de pedidos saem do seu manto e Yansã faz chover cada um deles em nossos rios.

Em cada movimento dos braços, em cada mexer dos dedos; arco-iris de desejos cruzam o céu que eu vejo e noto Nanã distribuindo cada presente sem cobrar passado e nem exigir futuro.

Em cada movimento dos braços, em cada mexer dos dedos; vejo a Mãe Yemanjá limpar e iluminar; e eu pergunto:

- Mãe, o manto colorido que eu vi agora a pouco, era mesmo de Oxum?

E a Mãe Divina vira Erê e sai correndo, sem dizer nada.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

O Vazio e o Espaço Preenchido

Estou em uma das praias de São Paulo. Vejo carros cruzando as avenidas deixando um rastro de som; as pessoas falam alto; os bares atraem clientes com as mais variadas batidas eletrônicas; procuro, tento, mas não consigo escutar o mar.

A praia está lotada, no lugar da areia, os guarda-sóis com seus milhões de banhistas. Todos os espaços estão preenchidos, não insisto, desisto do mar, vou em busca do vazio, estou precisando de uma dose disso, de silêncio, de quietude, do descanso merecido.

Por um momento, penso que estou ficando velho: percebi que tenho tolerância zero para o barulho; evito nadar no mar de pessoas das ruas de São Paulo ou qualquer outro lugar; mas sinto que a questão não é a idade e sim a seleção. Tornei-me mais seletivo. Tenho selecionado melhor os lugares que me dão prazer, os sons que ouço, as pessoas com quem converso e aprendo; tenho filtrado melhor o que absorvo dos outros, do mundo.

Sou um observador, sou cronista, adoro estar entre a nossa gente, ouvindo as suas estórias, aprendendo com a vida de cada um; mas as vezes é preciso estar só; as vezes é preciso cultivar o silêncio; as vezes é preciso esvaziar os bolsos da matéria, para alcançar o que guardamos na alma.

Nesse processo coletivo que é viver nesse mundo, muitas são as vezes, em que ocupamos todos os espaços vazios da nossa praia com guarda-sóis, quarda-tranqueiras, guarda-coisas que não valem mais nada.

Eu percebi, na minha busca para escutar o silêncio, que na minha jukebox toca canções sem parar. Melodias ultrapassadas que atraem emoções estranhas e já experenciadas, nessa rádio da minha alma, ecoando músicas distorcidas no volume mais alto. Ocupo a minha mente com qualquer coisa, na tentativa de expulsar o silêncio, livrar-me do vazio, combater a quietude; sem perceber que é no espaço entre duas palavras, no vazio entre dois sons, que EU SOU pleno.

Quem EU SOU de verdade reside no espaço vazio entre o que eu penso e o que eu faço. Quem EU SOU em essência reside na quietude da alma que tudo vê e tudo sabe. Para perceber esse SER EU, é preciso calar-me, silenciar os pensamentos e perceber o vazio entre as letras. Como escritor, eu deveria já ter compreendido que uma frase não é feita apenas de palavras e sim também com os espaços vazios entre elas. Sem esse espaço, as palavras ficariam todas coladas uma as outras, não existiria pausa, não existiria nada.

Ao prestarmos mais atenção as pausas, ao vazio, ao espaço que não precisa ser preenchido; educamos os olhos e os ouvidos e limpamos o caos que criamos e que nos distrai do que realmente interessa ser ouvido, lido e aprendido. Ao dedicarmos mais tempo aos momentos de solitude, de harmonia com o mundo a nossa volta e ao silêncio, somos capazes de perceber que o que buscamos fora, sempre habitou dentro; e por trás do que aparenta ser nada, está tudo.

ENCANTAMENTO

Onde estava a Grande Verdade que estava aqui? Para onde foi o Caminho do Criador que eu acabei de mapear? Onde está a escada para o céu, formada de estrelas, que eu acabei de usar? Onde está o tesouro que acabei de desenterrar?

Assim não dá! Toda vez que eu descubro os mistérios do Divino, eles mudam de forma, voltam a ficar ocultos. Será que é mesmo preciso guardá-los no Segredo do não tentar revelar? Será que é um encanto que muda o céu de lugar, antes mesmo que eu consiga aos outros apontar e dizer onde está? Será que quando conseguimos interpretar e colocar em palavras, a experiência fica pobre, disforme e some para não mais voltar?

Quero compor uma canção que consiga descrever as maravilhas que vivi. Quero escrever um poema que consiga palavrear as coisas bonitas que senti. Porém, tudo o que consigo fazer é sombrear a luz que acabou de me iluminar.

Talvez essas coisas sejam assim mesmo, talvez, tudo deva mesmo permanecer em segredo, mas como sou teimoso, vou continuar a tentar escrever sobre o que não pode ser escrito e quem sabe assim, você possa perceber, depois de ter lido, que também teve um vislumbre do Divino, através do Menino Deus que passou rapidinho pelo nosso pensar, apenas para nos dar vontade de continuar a brincar desse esconde-esconde do religar.

domingo, dezembro 28, 2008

O Manto de Oxum

Eu vi Mamãe Oxum em algum lugar entre o aqui e Aruanda. Ela ouvia os nossos pedidos com a atenção de quem escutava as gotas d'água descendo pela cachoeira e seus braços se moviam como se fossem correntezas de um rio.

Eu vi Mamãe Oxum dançando em algum lugar entre o aqui e Aruanda. Suas mãos subiam e desciam, iam e vinham, como se ela estivesse a bailar e estivesse pegando algo do alto que meus olhos não conseguiram ver, mas meu coração sabia, era amor, era amor, era amor, e do manto branco que cobria seus braços, caiam cores, e cada cor era um pedido que ela enviava para seus filhos de fé.

Eu vi Mamãe Oxum nos enviando prosperidade, amor, saúde e esperança de algum lugar entre a Terra e Aruanda. Nenhum esforço ela fazia para nos abençoar; mas a medida que eu via os milhares de pedidos cairem do seu manto; fiquei com vergonha de pedir tanto. Eu sei que a Mãe Divina não cansa de nos dar suas benções, mas eu tenho muito mais o que agradecer, e cedo a minha vez a quem precisa mais do que eu, a quem ainda não consegue enxergar que há um poço inesgotável dos desejos dentro de cada um de nós, basta querer trabalhar para transformar esses sonhos em matéria.

sábado, dezembro 27, 2008

Papai Noel do Lixo

Eu vi Papai Noel remexendo uma lata de lixo. Ele estava magro e tinha cara de gente cansada, sua roupa vermelha estava suja de barro e ele fedia o cheiro de quem mora nas ruas.

Perguntei se podia fazer algo por ele, quem sabe chamar as suas renas ou alguém da sua família lá do Polo Norte para vir lhe buscar. Ele agradeceu a minha preocupação e disse que se eu pudesse lhe ceder alguns trocados já lhe faria grande ajuda.

Achei melhor não; desconfiei que o Papai Noel usaria os meus trocados para comprar algo menos sagrado que alimento e quando lhe ofereci o pagamento de uma refeição no restaurante ao lado; ele mandou-me ao inferno das boas intenções.

Sei não, acho que não acredito mais em Papai Noel.

terça-feira, dezembro 23, 2008

Uma Crônica de Natal

Um brinde ao peru assado!

Um viva ao presente embrulhado!

Um brinde a cerveja gelada!

Um viva a fartura na mesa!

Um brinde a Jesus?

Um Viva a Cristo?

Como assim? Quem é esse tal Jesus Cristo?

Cidade Alagada

Carros que viram barcos, ruas que viram rios; pessoas que se tornam peixes. Eu vejo o futuro ou este é mesmo o meu presente?

Escadas que viram cachoeiras. Bairros que viram ilhas. Prédios que se tornam torres. Será o dilúvio do fim dos tempos? Ou será simplesmente a natureza mostrando que é mais forte que o homem?

Noé, meu velho, ainda tem vaga na sua arca?

sábado, dezembro 20, 2008

LEIAM: VAI CAIR NA PROVA!

Olha aqui,
Não foge com esse olhar;
Olha pra cá,
Volta para mim,
Para as letras que criarão significados em sua cabeça,
Para a leitura que te seduz,
Que te norteia,
Vai cair na prova,
Leia:
SÓ O AMOR VALE A PENA!!!

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Templo Olhar Divino

Bê com o, é o bo
Ene e i, é o ni
Tê com o, é o to

BONITO de se vê
BONITO de cantar
BONITO de viver
BONITO de olhar

É o OLHAR DIVINO
É o OLHAR DIVINO
É o OLHAR DIVINO

Que o DAIME faz ver
Que faz ser UMBANDA
JAY JAY SHALOM
IshALÁ o OLHAR


Canção escrita no metrô da Sé, São Paulo, enquanto eu esperava a minha musa chegar.

Toda a Tragédia do Mundo

Você já se perguntou o que as tragédias do mundo tem a ver com a sua vida?

Alguma vez você já leu as notícias nos grandes jornais ou assistiu na TV os assuntos do mundo como um reflexo profundo do seu ser?

Eu sei. São tantas as tragédias, que a vontade que temos é vivermos isolados numa ilha distante ou irmos embora de vez para a Parságada do poeta Bandeira.

Sim, eu te entendo. São tantas as mortes sem motivos, as consequências da crise, os sinais dos Cavaleiros do Apocalipse, que sentimos vontade de sermos cegos para as imagens tristes do mundo e surdos para os ecos de nossas mazelas que se espalham feito vírus nas bocas dos outros em conversas de elevadores.

Contudo, os macaquinhos que nada vêem, nada escutam, nada dizem e nada fazem precisam evoluir e tornar-se homens que sabem discernir, seres com um olhar de peneira que filtram tudo aquilo que é besteira, manipulação da mídia, choro coletivo, ameaças de castigo divino e transformam tudo isso em algo a mais que "aquilo" que digerimos, engolimos e deixamos para lá.

Se há uma razão pela qual ocorrem tragédias refletidas em nosso olhar é por elas terem a finalidade de nos mostrar que sempre ocorrerão "tragédias" no mundo, mas que elas não precisam ocorrer pelas nossas mãos, pelos nossos atos, pelos nossos pensamentos e pelo nosso ignorar.

O mundo não precisa de heróis, de salvadores. O mundo não precisa que façamos grandes ações. Basta um pensamento, uma mudança de atitude, para que o efeito repercute em toda a gente.

Vivemos num mundo de dualidade, num plano que segue com o seu bailado de luz e sombras, amor e dor; a escolha de que lado vamos ficar, depende apenas de nós. É isso que a tragédia vem ensinar, é isso que a tragédia vem trazer.

Há sim uma relação entre toda a tragédia do mundo e o nosso olhar, pois é aceitando o mundo com todas as suas diferenças, coisas belas e coisas que aparentam ser feias, que fará com que compreendamos cada vez mais o nosso papel nesse palco, nesse show do Divino que é a vida na Terra.

Uma gota de amor pode matar a sede de uma multidão que só precisa de um pouco de atenção para se reerguer e voar. Um pouquinho de carinho pode saciar a fome de milhares que vivem de escuridão, e para tanto, basta um ponto de luz numa sincera oração, numa meditação no cantinho do seu quarto, a qualquer momento, a qualquer hora que você sinta vontade de ser luz e queira doar algo a mais que o seu olhar.

Imagens: http://poesiastheodoro.blogspot.com/

quinta-feira, dezembro 18, 2008

A Menina e o Acordeão

Menina pequena, acordeão gigante. Que música sairá dos dois? Que melodia encantará meus ouvidos de pescador perdido?

Tânia ri baixinho e me pede ajuda para lembrar o ritmo de uma canção. Sei não, Tânia! Só me lembro de algo assim:

- Hum, hum, tan, tan, tan... - resmungo no que era para cantarolar.

- Fum, fum, fan, fan, fan... - canta o arcodeão ou será que foi a Tânia?

Tenho medo que ela descubra que sou novo na banda e só sei mesmo cantar no chuveiro, mas desconfio que Tânia olha para a minha alma como quem encara um espelho e vê o reflexo de si mesmo. Um dia ela deve ter sido assim como eu, um analfabeto musical que não distingue um SOL de um LÁ; quem sabe tenho chances em me tornar um músico, acho que já passou da hora de aprender a tocar aquela gaita do Paraguai. Devaneio e volto, tudo o que preciso fazer é cantar...

Continuamos o nosso estranho dueto e o som do arcodeão chama a atenção de todo o salão. Penso nas ruas de Cajazeiras, no sertão da Paraíba, ao mesmo tempo que sou arremessado para as esquinas de Paris. Oxente, Monsieur! Sei lá onde vou, Mon Chérie, mas vou lá,anyway, pois tudo tem cara de Déjà vu. Já vivi isso antes, um ensaio para a música e o outro ensaio para a escrita. Não sou nenhum, nem outro ainda, mas sei que sou da arte de fazer poesia em flor, como diz Auri, quando recebo um poema caindo do céu.

A música continua...

Somos o arroz da festa, quero dizer, ela é, eu só seguro a letra, e fico morrendo de vontade de fazer crônica, mas não cronico nada, pois é hora da música. Esse é o momento do laríngeo, dos ouvidos, das batidas do tambor do cardíaco e do ritmo de cada pulsar do meu corpo para acompanhar a Tânia tocando as belas canções de um certo
Mestre seringueiro.

Cada canção é uma porta para a festa da alma e por toda a jornada, observo, enquanto canto, a relação de amor entre a menina e o acordeão. E quando finalmente, parece que Tânia tirou todo o som que podia do seu instrumento musical, o acordeão começa a entoar os acordes de uma canção para a Deusa da Cachoeira e dos rios. Oxum, não poderia ter mais bonita homenagem. Não dá mais vontade de cantar, somente ficar quietinho e escutar aquela canção belissíma que meus ouvidos tiveram a honra de ouvir, e observar o riso baixinho de Tânia, riso de felicidade que se propaga nos aplausos. O seu acordeão bem que quis também agradecer, mas coitado, exausto, ele descansava em seus braços agora em silêncio.

Imagem: Loreena McKennitt - grande cantora e multi-instrumentista.
http://www.quinlanroad.com/

Uma Certa Escola do Ipiranga

Numa certa rua do Ipiranga

Há uma vela que permanece sempre acesa

Ela é um ponto de luz na grande São Paulo

Onde estudantes da vida, celebram

O saber, a música e a bem aventurança


Por ela corto o silêncio

Por ela eu verso e falo

Pois esse ponto de luz

É a minha escola do Ipiranga


Já percorri o mundo todo

Caminhei pelas grandes cidades sagradas

Meditei nos templos hindús da Índia

Firmei meu ponto no berço da Umbanda, na África



Todos esses lugares possuem

As belezas mais variadas

Mas nenhum deles me trouxe tesouros

Tão profundos

Quanto essa escola no Ipiranga



Escola do Professor amigo

Que não gosta da palavra Mestre

Pois mestrado faz bem para o ego

E professar faz fluir o amor celeste


E professsando ele faz surgir a esperança

Que todos os alunos se graduem

Para além do mundo do apego e da maia que engana

E lembrem sempre com carinho

Do Abc da espiritualidade

Que eles aprenderam

Nessa certa escola do Ipiranga


De um autor anônimo para um professor anônimo de uma escola anônima.

terça-feira, dezembro 16, 2008

Duas Canções do Richard

A Lua e o Passarinho

Irmã, ontem a lua me acordou
no meio do sono e queria que
eu voasse.

Eu expliquei para
ela, irmã, que eu não tinha asas.
Ela insistiu que eu tinha.

Acho que a Lua ficou doida, irmã,
ela pensa que eu sou passarinho.

*****************************************

Deus que Brinca

- Deus brinca de dormir e todo dia desperta em meu coração.

- Para de falar isso, menino, é blasfêmia! É insulto! Deus te castiga.

- Castigar por quê? Eu só disse que esses dias acordei e vi Deus dormindo no meu peito.

domingo, dezembro 14, 2008

O CÉU DO BEIJA-FLOR

Você já perguntou qual imagem sua é refletida na retina das suas pessoas queridas? Como elas te vêem quando você se aproxima, quando conversa com elas, quando as visita?

Quando essas pessoas pensam em você, o que elas sentem? Alegria? Paz? Harmonia? Ou uma vontade inquietante de te esquecer?

Quando você passa pelos outros? Que perfume fica? Que energia você troca? Quais são os frutos que você trás consigo e entrega para os que estão compartilhando contigo esse lindo planeta Terra?

Ah, você não liga para os outros...Desculpe, esse texto não é para você. Essas palavras são para quem está indo no caminho oposto, para quem se importa com o coletivo, com o olhar amigo, com o outro.

Minhas desculpas, mas essa crônica é para os que voam no céu do beija-flor, para aqueles que carregam onde for, coisas boas, coisas bonitas, pois não há coisa melhor na vida do que sentir que somos queridos, não pelas coisas que possuímos, mas simplesmente pela nossa presença.

Dentro é Fora

Primeiro precisamos mudar dentro, para depois transformar fora. A cor do mundo é espelho do que carregamos no peito. O cheiro de dentro é a fragrância de fora.

A prosperidade começa com a quantidade de beija-flores que voam em nosso jardim interior. O rastro de luz dos nossos vaga-lumes é a luz que salta dos nossos olhos, mostrando ao mundo do que somos feitos.

Se há algo errado e estranho no nosso mundo, basta olhar para o nosso interior e ver a cor que pintamos a parede da nossa alma. Daí, basta mudarmos a cor de dentro, para surgir um arco-íris lá fora.

sábado, dezembro 13, 2008

A VOLTA

Coisa gostosa é viajar, cair na estrada, prosseguir e não parar; não precisar ficar.

Ser passageiro do mundo e de mim mesmo; ver os quatro cantos pela janela do trem, pelo lombo do camelo, e lá de cima do avião ou lá do meio do mar, no sobe e desce do navio, ver o mundo e contar.

Porém tão bom quanto ir é voltar, rever a sua terra que ficou pra trás, brincar de " bom filho a casa retorna", encontrar amigos, reencontrar parentes; comer a comidinha única e especial da mamãe, o bolo de cenoura e chocolate com cafézinho bem cheiroso e quentinho feito pela vovó.

Voltei ao Brasil, como quem não queria ficar e fui ficando, brigando com o Vagamundo que queria voltar a estrada e com o Vagamundo que desejava viajar para dentro. Fui ficando e tentando não querer partir e não desejar ficar. Acabei plantando sementes e criando raízes, e vou ficando por aqui, até que alguém pergunte: "cadê o Frank que estava ali?"

A verdade é que nunca na história desse país surgiu um Paraíba assim, tão metido a vagamundo, neguinho inxirido que pulou muros, atravessou fronteiras, sempre adiante, descobrindo, conhecendo os quatro cantos desse mundo lindo e transformando tudo em crônicas, por puro desejo de contar a todos que se ele foi para o mundo, todos podem ir, mas tudo na vida é equilibrio: tudo que sobe, desce; tudo que vai, volta; nesse eterno ciclo da vida de quem não tem medo de conhecer o novo.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

A Escrita Invisível

Respeitável público, tenho o orgulho de apresentar " O Paraíba Vagamundo e seu fantástico Circo de Pulgas¹". Com vocês: as famosas pulgas malabaristas e trapezistas, pulgas cospe-fogo, pulgas palhacinhas e pulga que coça tanto que faz caroço.

Como assim vocês não enxergam? Faz um esforço e vocês verão tudo aquilo que há de bonito que tento expressar em meus escritos. Compreenda que ser escritor do invisível é literatura nua de provas e vestida de símbolos; e cabe a vocês, caros leitores, um mergulho profundo nas minhas verdades que parecem mentira e nas minhas mentiras que parecem verdades.

Sou o poeta fingidor do Pessoa, sou a pedra no caminho do nunca será Drummond. De esotérico, só tenho o buraco no terno e na meia não tenho nada de culto; sou mambembe na escrita e manco de versos, tateando letras no escuro, pois quero mostrar a todos o mundo que vejo: nossa gente, que mundo mais belo!

Sou passarinho da flor, sou calango do agreste. Sou voador sem asas, sou animal sem pastas, sou homem querendo ser anjo, sou anjo querendo continuar a ser homem. Sou escritor na arte, no engenho e no amor, sou um simples escritor de letras miúdas, que muita gente acha que faz literatura de pulga, mas que arranca sorrisos, lágrimas e um tantim de conhecimento na mágica arte da prosa que já virou doença crônica.



¹Circo de Pulgas: peguei o termo e o circo emprestado de uma piada de um certo amigo xamâ.

Última Chance

Ainda lembro do meu primeiro beijo, do coração partindo e da despedida que ainda me trás lágrimas aos olhos, por isso quem não é romântico, quem nunca teve um primeiro alguém, não siga adiante, essa estória é para quem tem ou já teve coração sangrando por amor.

Era a última chance de falar com Eliane. Quatro anos se passaram e passou também a coragem de declarar o meu amor; de lhe mostrar minhas poesias, minhas canções e minhas declarações.

O que pensaria Eliane de mim? Jamais saberia, pois a última chance que eu tinha fugiu ao som do último sino que escutei naquela escola. Dali a dois dias, eu deixaria Cajazeiras para sempre para morar com meus parentes em algum lugar além de Brasília.

Fui covarde, confesso! Não quis ser rejeitado, não quis ouvir não, mas ó destino ingrato, partiu meu coração novamente, quando justamente eu já aceitava que não existia nada além do não.

Dois dias depois, quando eu estava já dentro do ônibus para ir embora da cidade, em meio a amigos, conhecidos, estranhos e familiares, notei o par de olhos brilhantes que tanto amava, gritando meu nome e eu achando que ela buscava um outro Francisco, mas ela procurava mesmo esse Chico; e disse que sempre quis se aproximar, mas esperava que eu desse o primeiro passo – como é que eu poderia fazer isso, se meus joelhos tremiam? Mas ela dizia que quem tinha medo era ela de eu não dizer sim e ficamos os dois, um olhando para o outro, bem pertinho, quase juntinho, com o silêncio convidando o próximo ato que não envolve palavras, mas tem tudo a ver com a boca; mas o povo foi entrando, o motorista se sentando, São Paulo me chamando e Eliane me olhando e dizendo com o olhar – Não vai não!

Foi quando eu disse ao motorista: “Seu Dirijidor, espera! Essa é a mulher da minha vida, dai-me três minutos para eu me despedir do meu amor”.

E na rodoviária de Cajazeiras nunca se viu despedida igual, um garoto pretinho beijando uma menina branquinha num café com leite juvenil amoroso.

Para tornar tudo ainda mais doce, Roberto Carlos cantava “Amor Perfeito” no autofalante, os outros passageiros e seus parentes aplaudiam, o motorista enxugava os olhos com um lenço, as moças pensando em casamento, os moços em suas amadas, os anjos abençoando, Deus do céu graças enviando e um coral de jumentos relichando a maior cena musical desse meu conto de amor matinê.

E é assim que termina a minha última lembrança de Eliane, como numa canção brega, como uma visão de uma imaginação fértil de um quase adulto, de um adulto ainda meio criança.

terça-feira, dezembro 09, 2008

Elefante Dourado

Denise danada, você me deu esse elefantinho dourado que eu não paro de admirar.

Não precisava, menina, mas não consegui te dizer não, nem fingir que não queria - e como é linda essa divina ironia - quando justamente eu esperava um sinal do Deus Ganesha, (a deidade hindú com cabeça de elefante), você aparece, dizendo que tinha uma surpresa e revela que foi você que ele escolheu para me lembrar que estava me ouvindo e é sempre por meio dos amigos que os mais variados Deuses, santos e mestres falam.

Aprende e Ensina

Todo mundo tinha medo do Professor Hêndricas, sua fama de reprovador e de durão corria nas mil bocas de seus estudantes antigos que diziam aos novatos estória de horror sobre a sua antipatia, a sua intolerância a atrasos, erros em trabalhos. As suas provas, diziam eles, nos faria perder o sono, que nos preparassemos para o próximo ano com as aulas do Professor Hêndricas.

Quem conta um conto é como quem fofoca; o boato aumenta, estórias se dirtorcem; a má fama circula como serpente que leva a culpa do bote que só foi dado por causa da bota que pisava, mas ficava a dúvida: como seriam as sua aulas?

Ora, seriam aulas!

Aulas como uma aula deve ser dada. Um ponte para o mestrado do "aprender e ensina".

- O verbo não é fala, é falar. Ora, terminem de pronunciar as palavras. - Dizia o Professor que por dois semestres mudou a idéia que tinhamos dele; e o que se viu, foi um homem com mais de oitenta anos revelando-se uma montanha de sabdoria. A classe que geralmente era uma feira, em suas aulas, viravam missa.

Perdi o medo que tinha de conhecer os mistérios e a ciência do estudo da minha própria língua com o Professor de nome difícil que aprendi a respeitar e jamais vou esquecer.

- Professor, todas essas novas mudanças na língua portuguesa. Nunca vou aprender...- reclamei, certa vez.

- Ora, não reclame! Aprende e ensina...

segunda-feira, dezembro 08, 2008

DANÇA DA FORMOSURA

Ela dançava como se as notas musicais fossem extensões dos seus braços; dançava como se fosse a última dança, como uma sereia que encanta e envolve em ondas de sedução o pescador.
Seus braços eram tormentas de amor, inudando o barco dos olhos miúdos desse escritor observador.

Ao som do tambor, ela fazia o caminho inverso da água, subindo a cascata e fluindo contra a correnteza do rio do meu sorriso.

Ela não tem a menor idéia do quanto meu barco balançou em suas ondas, mas tudo o que posso fazer é aplaudi-la em palavras e riscar alguns versos, na esperança que uma dia a sua dança volte a me arrancar sorrisos de menino encantado.

E eu ainda nem a tinha visto inteira, só lua pela metade...

CANTO DE OLHO

Canto de olho, canto de boca, canto de canto; passarinho abre o bico e canta; e pelo canto do olho vê Oxossi, o Rei da Floresta.

O passarinho não é bobo e continua o seu canto, ao mesmo tempo que enxerga na sutileza do canto do olho o Deus da Mata fazendo festa.

É a festa no canto do olho, é a festa do Rei da Floresta; e o passarinho que não é bobo continua cantando ao mesmo tempo que observa o Deus das Matas e toda bicharada da floresta cantando a música divina que faz girar a terra.

JARDIM DO RUBEM ALVES

Esses dias caminhei pelo Jardim do Rubem Alves e colhi algumas flores que gostaria de compartilhar o perfume e a beleza com vocês:

Em um canto do seu jardim, vi essa bromélia:
" O home tem dois olhos, com um ele vê as coisas que passam no tempo. Com o outro, ele vê o que é eterno e divino"
Angelus Silésius

Depois senti essa orquídea:
"O amor foge a dicionários e regulamentos vários. Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. Porque amor não se troca, não se conjuga..."
Carlos Drummond de Andrade

Logo após, percebi essa violeta:
"Existe no intervalo das palavras um ser qualquer alheio anós"
Ricardo Reis

E quanto achava que já tinha visto todas as rosas:
"No centro da teia, reside a aranha cósmica, tecendo, tecendo milhares de linhas, conecções, relações, conjunções que une todos nós. Todas as linhas são iguais"
Rubem Alves

E não pude sair do Jardim do Rubem Alves, sem deixar as minhas sementes de poema em flor por lá:
" Se eu pudesse entrar dentro da sua cabeça, teria com certeza, uma nova visão de mundo, daquilo que nos rodeia, pois ninguém vê o mundo da mesma maneira. É claro que uma mesa não deixará de ser mesa por mais que eu queira, mas talvez você tenha outras ideías do que fazer com a mesa que nem ao menos passam pela minha cabeça"

AmazingCounters.com
Overtons Marine Supply