No Hotel dos Corações Partidos, que fica na Cidade dos Solitários, Arlequim encontrou Pierrot, seu grande amigo, caído, combalido, depressivo, arrasado. O pobre companheiro de nosso Palhaço Cósmico, seu grande amigo, andava cabisbaixo, ombro encolhido, pensando absurdos, flertando com a insanidade, mas quando viu Arlequim, foi como se o Sol entrasse pelas frestas de seu leito escuro.
- Pierrot, vamos tomar um café?
- Para quê, meu nobre amigo? Colombina não me ama, Colombina não me quer.
- Mas o café... ahhh... o café que eles servem aqui tem um poder mágico.
- Como assim?
- É um Café de Poder. É amargo para acordar seu fígado e te regenerar. A fragrância é tão forte e profunda que vai acordar a “Parte que Sabe” e te revelar que não podemos dar o nosso poder para ninguém. O problema não é o amor de Colombina que você não tem, o problema é acreditar que só podemos ter poder quando temos alguém.
- Ela também te deixou, Arlequim. Como você conseguiu estar assim tão bem, de cabeça erguida e ainda tendo forças para me vir me resgatar? Como conseguiu deixar de amá-la?
- Eu não deixei de amá-la, Pierrot. Eu ainda a amo - disse Arlequim - E ela não me deixou, ela seguiu para onde ela desejava ir. E nisso, eu compreendi que o amor verdadeiro é não bloquear o fluir do outro que *FOI* com você e agora quer *SER* em algum outro lugar ou com outro alguém.
- É aprender a deixar partir. É isso?
- Não, Pierrot. "DEIXAR" o outro partir ainda é ter *poder sobre o outro*. O amor não deixa partir. Quando dizemos que deixamos alguém ir, ainda é um jeito de nos convencermos que temos esse poder. Não temos. EU quis dizer, que, mesmo quando somos imaturos ainda de acreditar que amor é ter alguém só para si, podemos ancorar o nosso *Poder* sobre nós mesmos de compreender que os caminhos de alguém que amamos, não é poder manter alguém conosco ou deixar partir, o nosso poder pessoal é compreender, se for amor, que quando o outro se vai, o outro se foi, como o sol que se despede do dia, como as estrelas se despedem da noite. Eu percebi que a amava de verdade, quando não alimentei meu Oposto que desejava controlar o seu ir e vir. Amar é sempre um convite para naturalmente alguém querer estar conosco ou nos acompanhar. Não podemos ter esse poder de fazer alguém ficar conosco só porque nós queremos ou deixar partir como se o outro precisasse da nossa permissão para seguir. Isso não é amor. Amor é Amar e Amar é querer estar com quem a gente quer estar. O Oposto disso é apego, posse e controle.
- Acho que não sou tão evoluído quanto você. Ainda a quero só para mim. Não consigo ficar sozinho, sem ela.
- Aí é que está a questão, Pierrot. Se não conseguimos ficar sozinho e bem, acabamos delegando a estar com alguém esse "ficar bem". A solidão é uma erva-daninha em nosso jardim da liberdade, meu amigo, que precisamos observar e tratar para não contaminar as flores que estão brotando. E Evoluído eu não sou. Eu sou apenas alguém que percebeu que o Amor É tudo menos Ter, Possuir e Reter. Mas quer saber uma grande verdade?
- humm...
- Vem? Mas *só se voce quiser*, pois o café está esfriando e o café vai te fazer Sentir o que minha espada não vai mesmo conseguir ainda.
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