“A morte é uma destruidora dos sentidos.**”
A mente humana é especialista em dar sentido a tudo, até
aquilo que não faz sentido. Porém, se não fosse por essa capacidade, talvez a
sociedade, como a conhecemos, jamais tivesse existido.
Dar sentido a tudo é primordialmente humano. É o que nos diferencia
dos animais e ao mesmo tempo é o que nos ajudou a ser o topo da cadeia
alimentar do mundo. Contudo, isso também é o que nos limita e nos aprisiona,
pois ao darmos sentido a algo, tentamos nomear, prender na forma algo que,
muitas vezes, é inarrável, indizível; daí a infelicidade do povo ao lidar com
coisas que não fazem o menor sentido – como a morte, a grande destruidora dos
sentidos – que varre do mapa qualquer bússola que norteava o nosso mapa de
estrutura da vida; e diante do não-sentido, a mente desesperada se agarra a
qualquer luto – o preto, a fé, o lúdico, o choro ou o eu mudo – para dar
sentido, para nos ajudar a continuar.
Continuar é preciso, mas trabalhar a morte – tão natural e tão
temida – em nossas vidas e em nossa psique é um dever de todo ser vivo
consciente; e que compreende que se não há nada o que fazer com a morte,
precisamos ao menos, aceitá-la como companheira inseparável da nossa jornada.
Por isso, meu amigo espiritualista, na hora de acalentar
quem perdeu alguém para além do véu da morte, afaste da orelha alheia suas
teorias, pois palavra nenhuma, nem muito menos a fé alheia, consegue acalentar
o coração de quem busca um alento que afaste a dor – para quem perde alguém, um
abraço e o seu silêncio ajuda muito mais que mil frases bem escritas e qualquer
versão de vida após a morte que exista – o silêncio, meu amigo e meu irmão, nos
ajuda a afastar a ilusão de dar a morte um sentido e trazer à vida a lição do
tempo.
Notas do Autor
* * Esse texto é inspirado nas palavras de Gê Marques, durante a vivência " Kuai de Ogun", que ocorreu no Reino do Sol no último fim de semana.

Um comentário:
Muito bom Fran.
Devemos pensar muito nisso e nos preparar não só para aceitar a nossa partida, mas saber lidar com a dos outros.
Beijos
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