Dona Roberta, benzedeira formada na vida. Fez caridade a vida inteira, vivia
numa casa de barro e se sustentava com a cesta básica que recebia do filho
que vez ou outra passava lá pra ver como ela estava.
O povo fazia fila na sua porta.
Ela era madrinha das centenas de crianças que curava, ou melhor, que ajudava
a curar, afinal Dona Roberta acreditava que ela era apenas um canal, assim
como a erva era uma torneira que fluia o amor que vinha do seu coração.
Um dia, minha mãe me levou até Dona Roberta. Eu tinha apenas 10 anos, mas
lembro muito bem do rosto que carregavam marcas de décadas e décadas de
experiências, e daqueles olhos que refletiam o infinito. Dona Roberta tinha
olhos de vaca, isso mesmo, era assim que eu descrevia os seus olhos grandes,
serenos e que pareciam não notar o tempo passar.
Dona Roberta salvou a minha vida. Contudo, ela não usou suas ervas, ela me
salvou com o seu bom senso.
Eu estava sofrendo de apendicite. Minha mãe não sabia. Religiosa ao extremo,
achava que as orações e ervas da famosa benzedeira poderiam me ajudar.
Estava enganada. Dona Roberta nem ergueu as ervas de suas mãos em minha
direção, ela apenas deu uma olhada, apertou minha barriga e disse a minha
mãe:
- Filha, leva teu filho ao médico. Minhas ervas não curam isso, deixa a
medicina dos homens fazer o trabalho dela.
Quando chegamos ao hospital, fui internado imediatamente. Estava com
apendicite aguda, mais alguns minutos e eu iria estar escrevendo essa
história do além. Sim, chegamos no hospital na hora certa. Se Dona Roberta
fosse uma charlatã, aproveitadora de pobres mães indefesas, provavelmente
teria feito uma oraçãozinha, recomendado um remédinho mágico e eu teria pago
com a vida.
Anos depois voltei a cidade onde morava no interior da Paraíba, e curioso,
quis saber da Dona Roberta, queria passar lá e agradecer (antes tarde que
nunca) “pelo trabalho que ela não fizera”, e percebi que a casa que ela
morava não existia mais. No lugar havia um sobrado bem bonito e comecei a
perceber que provavelmente alguém tinha expulsado a coitada de lá para
construir aquela mansão.
Revoltado, nem quis pensar muito no assunto. Afinal, estava de férias e não
queria me aborrecer; mas não resisti a curiosidade e passei num barzinho que
tinha lá do lado e perguntei a moça que estava atendendo no balcão, se ela
sabia o paradeiro da Dona Roberta.
- Ela mora no mesmo lugar que sempre morou. – Respondeu a moça.
- Impossível – disse – ela morava numa casa de barro e no lugar está esse
casarão, no minimo a expulsaram de lá.
- Que nada, moço – disse a mulher sorrindo – Dona Roberta tá bem de vida
agora. Começou a cobrar pelas benzedeiras e o povo não parava de chegar. Foi
até estudar em João Pessoa e voltou com dilploma de parede e tudo. A muié
hoje é benzedeira e mestra reika – acho que é assim que se chama, né? – sei
não, só sei que atende até o filho do prefeito.
Não podia acreditar naquilo – pensei – Ela havia se vendido! Como ela ousava
vender uma cura que nem vinha dela? Dinheiro realmente muda as pessoas. Sai
da cidade anos atrás e deixei uma senhora de fé e de boa alma; volto anos
depois e encontro uma mercenária da cura.
Pensando nisso, olhei pra casa dela e comecei a ponderar sobre os dois
finais possíveis para a história da Dona Roberta:
Final 1 : Dona Roberta foi despejada de casa para que alguém construisse uma
mansão. Deveria estar morando de favor, isso se ainda estivesse viva.
Final 2: Dona Roberta estudou um pouquinho mais e percebeu que a única forma
de ajudar outras pessoas era acima de tudo ajudando a si própria. Continua
com o seu trabalho de cura e agora tem condições de continuar a trabalhar.
Se continuasse da maneira que estava, o fim número 1 não seria tão hipotese
assim. Não parou nas benzedeiras, estudou outros tipos de cura e continua
progredindo em seu trabalho de cura, mas recebendo por isso, como qualquer
profissional.
O segundo final me pareceu mais coerente com a vida, afinal uma vida de São
Francisco somente é muito linda quando esperamos que outras pessoas a
tenham. Sim precisamos de pessoas que se sacrifiquem e morram na cruz para
nos salvar. Sem sacrificio, o salvador vira farsante e mercenário. Que bom
que Dona Roberta usou novamente o seu bom senso e cuidou da vida dela. Que
ruim para os outros que pagam por um cigarro, mas acham que devem receber
uma cura de graça.
08 de Setembro de 2006
Frank Oliveira