domingo, maio 14, 2006


Happy Mother�s Day: My sister and my Mother Posted by Picasa

Antes de Tudo: Mulher

A brisa do mar tocou a face de Eliane, o som das ondas morrendo na praia
chamou a sua atenção, mas ela só tinha olhos para os pés da filha pisando na
areia, de mãos dadas com o pai; só tinha ouvidos para a voz da filha que se
misturava com a do pai, num canto sagrado chamado Familia.

Não era a primeira vez que a sua filha de 02 anos vinha á praia, mas era a
primeira vez que ela os observava de longe, e o que via, banhou os seus
olhos, lavou sua alma.

A cena poderia ser piegas aos olhos dos outros, mas em seus olhos era pura
conquista, extremo contentamento. Ninguém fala muito sobre os desafios de
ser mãe, pois todos esperam que toda mulher já nasça sabendo se doar, cuidar
dos outros, quando em verdade, cuidar de sí mesmo já é uma tarefa
complicada. Nunca foi fácil ser mãe e esposa, pois no meio de tudo sempre
houve a mulher, que lutando contra aquela que surgiu após a aliança e a
outra que tomou de conta após o parto, precisou achar um caminho para
mostrar ao mundo e a si mesma, que além de esposa e mãe, ela também era
mulher. Mas além do preço que pagou e de tudo que teve que ceder, no fundo
essa mulher sabia que não era uma questão de lutar para retomar um lugar e
sim se adequar a mais uma nova experiência nessa jornada pelo feminino
durante a vida.

E como estava valendo a pena cada fase daquela jornada.

Naquele momento através do amor que sentia por sua familia, ela percebeu que estava completa e feliz. E sorrindo, deixou as lágrimas expressarem o que
mil palavras não conseguiriam. Lágrimas de agradecimento aos céus pelo que
havia conquistado. Lágrimas de contentamento pela filha saudável e pelo
marido feliz. Lágrimas por ser mulher, pois mesmo que um dia a filha parta e
o marido a negue, ela continuará experimentando todas as faces de ser
feminina, faces que começaram desde que ela nasceu filha e continuarão além
do dia em que a chamarem de avó.

Frank
10 de Maio de 2006

domingo, abril 23, 2006


O livro " And Tango makes Three" Posted by Picasa

O Segredo dos Pingüins

Little Bob deveria estar jogando vídeo game, mas havia o livro que pegara na
biblioteca que não lhe saia da cabeça: “And Tango makes Three” contava uma
história que ocorreu há dois anos no zoológico do Central Park, em Nova
York. Dois pingüins machos, Roy e Silo, chocaram um ovo e adotaram o
filhote, formando uma família fora dos padrões daquelas que se vê no local.
A história deles se tornou livro infantil e todos os alunos precisavam ler e
comentar na classe a leitura do mesmo.

Bob tinha ficado fã desses bichinhos, depois que assistira no cinema “A
Marcha dos Pingüins” e não conseguira parar de ler o livro que lhe deram. À
medida que lia, ele conseguia imaginar a cena tão nitidamente que parecia
que assistia ao filme. Riu da confusão dos animaizinhos e se emocionou ao
perceber que a união dos dois pingüins machos resultara em vida.

Quando chegou a última página, percebeu que aprendera algo e era isso que
falaria na classe no dia seguinte: “Há diferenças em todo o reino animal,
não podemos julgar nada pela aparência ou por nossos preconceitos, pois Deus
é tão bom que tem um plano de amor até para um casal de Pingüins machos.”

Pensava nisso, quando seu pai se aproximou e arrancou o livro das suas mãos.
Ele acabara de ler sobre o livro nos jornais; livro este que fora proibido
em todo Estado de Missouri.

- Quem te deu esse livro pra ler? – perguntou o pai furioso. Little John não
sabia o que responder; conhecia quando seu pai estava alterado e sabia que
se não desse a reposta certa iria apanhar. Mas qual seria a resposta certa?
Ele nem sabia ao certo o que tinha feito de errado.

“A Professora me pediu pra ler”, respondeu, já esperando a pancada, mas nada
ocorreu. Seu Pai olhou mais uma vez para o livro com a foto dos três
pingüins na capa e para ele, mas em seguida saiu do quarto. Alguns momentos
depois, Little Bob começou a ouvir seus pais discutindo sobre o livro.

“O que havia de errado com o livro?” ele se perguntava, mas nenhuma resposta
vinha a sua mente e estranhamente no dia seguinte não houve aula. Quando
finalmente voltou para a escola, havia uma professora substituta na classe.

Ele nunca entendeu porque razão a antiga professora jamais voltou a dar
aulas para eles e o silêncio dos novos professores quando ele perguntava se
cairia na prova à leitura do livro dos Pingüins.

No final, acabou se convencendo que certas perguntas não possuem resposta e
aceitou a ordem silenciosa de nunca mais discutir com os adultos sobre
aquele livro, porém, esse silêncio não existia entre as crianças que leram o
livro, pelo contrário, eles conversaram sobre o livro proibido que tanto
enfureça os adultos o ano inteiro e chegaram à conclusão que seus pais eram
mesmo estranhos, afinal não tinha nada naquele livro além de um historia de
amor.

Frank
23 de Abril 2006

Notas do autor: Leia mais sobre o livro e os pingüins no link abaixo:
http://mixbrasil.uol.com.br/cultura/especiais/pinguins/pinguin.shtm

sábado, abril 22, 2006


"To read or not to read..." Frank at the Shakespeare House Posted by Picasa

As Noticias e o Espelho

As Noticias e o Espelho


Uma curiosidade quase mórbida toma conta de mim toda manhã. Aproximo-me da banca de revistas e escaneio furtivamente as manchetes dos jornais como quem olha um acidente procurando corpos. Sei que boa coisa não iria ler, mesmo assim insisto na leitura, querendo saber o que esta ocorrendo de podre no reino tupiniquim; sabendo também que o efeito daquela noticia será similar à imagem de um corpo acidentado num desastre imbecil que poderia ter sido evitado por um drink a menos.

O anjinho e o diabinho brigam por essa decisão matinal que terá efeito pelo resto do meu dia, mas acabo dando ouvidos à curiosidade e mando para o inferno a precaução, o discernimento em saber que ler tudo aquilo não me ajudará em nada, pelo contrário, dependendo da noticia, ficarei o resto do dia comentando-a com os colegas, disseminando minha insatisfação com o mundo e distorcendo ainda mais o que li para convencer-los que o mundo está, estava e sempre estará à beira de um colapso.

- Bom dia, Frank! – diria alguém no escritório.
- Bom dia Fulano. – eu responderia, para em seguida comentar: Você viu que soltaram à assassina... Você ouviu a última de Brasília...

Se toda essa corrupção e violência que pinga dos jornais e revistas me embrulham o estomago, isso deve ser um bom sinal: devo estar mesmo no caminho menos egoísta; onde se não consigo evitar as besteiras que faço pelo menos esses atos medonhos do meu dia-a-dia não prejudicam tanto as pessoas ao meu redor. Contudo, meus comentários sobre o que leio nos jornais e absorvo pela TV, distorcidos pelo meu ponto de vista, ajudam ainda mais a propagar essa sensação de indignação que deveria deixar de ser teoria e obra prima para as minhas lamentações e passar a prática através do ato de votar em um candidato decente ou no drinque que deixaria de tomar, por saber que cada gesto meu, por menor que seja, acaba afetando a todos.

Se não consigo evitar essa “curiosidade” todo dia, ao menos estou tentando evitar o comentário inútil sobre esses assuntos desagradáveis de manchetes de jornais e que dão audiência aos tele noticiários e viram comida para os urubus de plantão. Nem sempre consigo. Ninguém quer saber se a sua sobrinha começou a andar ou se as pessoas finalmente pararam de passar fome no Sudão. Notícias boas não dão mesmo audiência, ibope e nem atenção. No fundo gostamos de ler e comentar sobre a desgraça alheia para nos dar conta o quanto a nossa vida é “maravilhosa e perfeita”. Precisamos dos políticos corruptos para que possamos declarar aos quatro cantos o quanto somos honestos, mesmo comprando produtos piratas que financiam essa mesma corrupção que tanto nos embrulha o estomago, mesmo sonegando impostos e etc. Como diria a sabedoria popular: apontar um dedo para o outro é apontar ao mesmo tempo três outros para nós.

Se alguém está fazendo algo que é o oposto que faríamos, precisamos pagar o preço de enxergar o reflexo desse espelho que é o rosto do outro. Não podemos exigir que esse reflexo se torne semelhante e nem muito menos julgar os seus atos com os nossos, como se fossemos o único modelo perfeito. Todos nós somos iguais (se acreditamos que fomos feitos à imagem e à semelhança de um Criador que não tem rosto e tem todos ao mesmo tempo), mas o nosso ego não. A imperfeição que gera essa distorção na imagem do espelho é a melhor prova que temos de que cada um de nós precisa trabalhar a sua imagem (o ego) de acordo com aquilo que precisamos experimentar para evoluirmos e nos tornarmos pessoas melhores nesse planeta.

Se você odeia morango, não posso forçá-lo a gostar por mais que acredite que essa fruta é a mais nutritiva e a mais saborosa. Se você vier a gostar de morango algum dia, será por conta própria, por meio das suas próprias escolhas e mesmo gostando das mesmas coisas, a experiência é diferente para cada um de nós.

Por isso que um certo Rabi á 2000 anos atrás dizia que o maior mandamento que existe é “Amais uns aos Outros” e não sei quanto a vocês, mas acredito que se há uma lista de sinônimos que ajude a descrever o amor, “Respeito” está no topo dela. Contudo, respeito pela mulher que te colocou no mundo não é o mesmo que submissão; respeito pela pessoa amada não significa escravidão; respeito pelo teu próximo não é ser um poço de reclamação; respeito por si mesmo não é chafurdar no lixo alheio para perceber o quanto o seu quintal é mais verde e nem tão pouco apontar a sujeira ou o mau cheiro. Pense a respeito, talvez o quintal do outro esteja sujo só para te mostrar o que o seu quintal pode se tornar se você parar de limpar.


Frank
22 de Abril de 2006

domingo, abril 16, 2006


Malhando o Judas/ Fonte: http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0116.htm Posted by Picasa

Suzane von Richthofen

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Não Precisamos de Outro Judas

Saiu do trabalho mais cedo, pois queria ser o primeiro a chegar ao local onde a moça, assassina confessa dos pais, estava sendo interrogada. Conhecia toda a sua trajetória, sua vida, acompanhou tudo pela TV, pelo rádio e queria vê-la ao vivo, ela parecia ser cruel demais para ser real. Na verdade, ele alimentava essa curiosidade misturada com um desejo de vingança: se os guardas dessem chance, e se ela fosse linchada pelo povo, a primeira pancada partiria dele.

Não que fosse um homem violento, mas acreditava que aquela menina representava o pior que a humanidade poderia produzir. “Ela merece ser exterminada, ser colocada numa prisão e definhar aos poucos”, pensou enquanto olhava para o relógio. “Tudo seria mais fácil se tivéssemos pena de morte por aqui. Mas somos muito sensíveis com esses monstros, por isso há tantos por aí!”.

Por um momento, seu plano mental de extermínio de todos os assassinos confessos deu lugar a imagens de ovos de páscoa. Era quase Sexta-Feira Santa e ele deveria estar aproveitando o seu tempo livre para comprar os ovos que seus filhos estavam esperando ganhar, mas o chocolate poderia esperar, afinal não era todo dia que aparecia um Judas em carne e osso.

“ Sim, ela era um Judas” , ele pensava enquanto olhava pela janela do ônibus pessoas caminhando e fazendo filas nas lojas de chocolate. “ Traíra seus progenitores e os entregara à morte, por um punhado de moedas; merecia ser enforcada, apedrejada e ser lembrada dali em diante como “A Judas”.

“Sim, A Judas “, refletiu, olhando para o jornal, onde as manchetes eram a prisão da assassina e a descoberta dos pergaminhos sobre Judas. De acordo com o jornal, a fama do Iscariotes já não era a mesma, depois que apareceu o Evangelho de Judas. A discussão da semana era a inocência do apóstolo traidor e a defesa que ele não fora exatamente o vilão que a Bíblia tanto pregara. “ Só falta agora aparecer alguém proibindo os bonecos do Judas e a tradição de espancá-lo”, concluiu.

“Onde já se viu”? – ponderou com indignação – “As coisas são o que são e devem permanecer assim. Precisamos do Judas como ele é. Já pensou como seria a Páscoa sem ovos de chocolate e peixe? Totalmente sem graça! Mesma coisa sem o Judas traidor. Precisamos vingar Jesus, por isso a gente desse o cacete nos bonecos do Judas pelo mundo afora”.

Perdido em seus pensamentos, ele nem percebeu quando uma velhinha sentou ao seu lado no ônibus. Ela carregava o mesmo jornal que ele possuía e tinha lido.

- Boa Noite! – ela o saudou, ele respondeu com um sorriso. Não queria puxar assunto; estava ocupado com suas idéias e pensamentos, mas a velhinha insistiu no papo:

- Você acredita nesse novo Evangelho? – perguntou , olhando a manchete do jornal que ele segurava.

- Claro que não! – ele respondeu sem pensar duas vezes - Ridículo, não? Só falta alguém aparecer com um outro evangelho dizendo que Jesus não morreu na cruz.

- Não sei, não filho! E se estivermos enganados sobre Judas. Já pensou que injustiça...

- Mas não estamos! A igreja disse que esses Evangelhos são os tais apócrifos que não merecem nossa atenção!

- Sim, eu sei, mas já pensou se a igreja estiver errada quanto à isso; afinal os Evangelhos oficiais foram escolhidos há séculos. E se as pessoas que selecionaram os textos que entraram na Bíblia tivessem na época outros interesses que não a verdade? Imagina... coitado do Judas. Será que é muito tarde para repararmos isso?

- Ele não merece o nosso perdão. É um traidor. Ele é como essa tal de Suzane, eles merecem arder no mármore do inferno.

- Filho tenha cuidado com o que você vê na TV ou lê nos jornais. A gente, às vezes, incorpora as idéias e julgamentos dos outros e quando menos percebe, passa a defendê-los como se fossem as nossas próprias idéias. Essa pobre moça não merece ser a nossa válvula de escape.

- Como não? A senhora viu o que ela fez? Ela matou os pais e foi ao motel com o namorado.

- A questão não é o que ela fez e sim como reagimos a isso. É muito triste toda essa raiva coletiva sendo acumulada e canalizada em direção a essa moça. Ela está sendo malhada como malhamos o Judas num dia que deveria ser de paz e reflexão. Imagina que nesse momento enquanto essa moça esta sendo mantida na delegacia, há uma multidão querendo linchá-la. Matá-la não trará seus pais de volta, só servirá para mostrar que não mudamos muito desde a época de Cristo. Continuamos agindo como se fossemos um bando de abutres esperando o primeiro erro, a primeira vítima, a primeira carcaça e se há algo que deveríamos lembrar na Páscoa é o perdão. Será que temos o direito de julgá-la e queimá-la em praça pública, por ela representar o que abominamos? Não estaríamos com isso, nos tornando piores que ela?

Aquele papo com a velhinha o estava incomodando. Ele não se sentia enganado e nem tão pouco manipulado pela mídia. Porém, ele começava a sentir vergonha de estar indo para aquele lugar e estar agindo de forma oposta ao que Jesus ensinara. A velhinha tinha razão sobre essa questão do perdão na Páscoa.

- Essa assassina não pode ser tratada com tanta consideração - disse ainda tentando defender o seu direito de ir até o lugar - Até entendo que podemos estar errados quanto ao Judas, mas ela confessou o crime. Não há duvidas sobre o que ela fez.

- Por não haver dúvidas sobre o que ela fez é que devemos evitar ao máximo piorar ainda mais a situação dela com o nosso ódio. Quando sentimos todo essa raiva por essa moça nos tornamos cúmplices dessa onda de violência que começou com o crime e que continua com a cobertura excessiva da imprensa e o desejo de vingança coletivo. Filho, pense a respeito e faça a sua opção. Eu pessoalmente acredito que existem outras formas de canalizarmos as nossas frustrações e o nosso desejo de ver no outro tudo aquilo que não querermos nos tornar. Definitivamente não precisamos de outro Judas.

Frank
16 de Abril de 2006

domingo, março 19, 2006


Frank and Auri Posted by Picasa

Elvis e Frank Rivers Posted by Picasa

Ate o Elvis apareceu... Posted by Picasa

A Festa do Frank foi realmente uma surpresa... Posted by Picasa

quarta-feira, março 15, 2006


A cada dia um aniversario da vida Posted by Picasa

Santuário da Amizade

Santuário da Amizade

(para o amigo Frank, em seu aniversário)



Dois amigos, ainda crianças,
Caminham para a escola.
Ainda é cedo e o Sol está começando a aparecer.
Para não perder a viagem,
Apertam as campainhas das casas das ruas,
Por onde andam e depois correm!
Os anos passam e ambos tomam caminhos diversos.
Até que um dia, dois olhares se cruzam,
Em uma movimentada avenida da cidade.
Um silêncio impera e...
Os dois correm para se abraçar.
Um abraço apertado, forte mesmo.
Lágrimas correm de seus olhos.
Os seus cabelos brancos denunciam,
Para ambos, que a vida é a vida.
Nenhuma palavra.
Só seus olhares.
O Santuário da Amizade intacto,

Inviolado, limpo e honesto.
Que Psicologia de Faculdade humana
Pode interpretar tal grandeza???


Tom Lobo Vermelho - 16/03/06

terça-feira, março 14, 2006


Is nearly there: a few more hours and the number 32 will be knocking at your door. Posted by Picasa

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

A Biblioteca que não tinha Teto

- Zé, chegou livro novo! – grita Mané, carregando uma carroça recheada de
papelão, pela Avenida Prestes Maia, no centro de São Paulo.

- Chegou meu Garcia Marques? – pergunta Zé, no outro lado da avenida,
aproveitando o farol vermelho, para vender água e refrigerante no semáforo.

- Chegou esse não, Zé. Mas tem um novo Jonh Lee Carre e aquele livro que
você estava esperando o Seara...

- Qual? – pergunta Zé correndo para a calçada, o farol abriu.

- O Seara Vermelha do Jorge Amado.

- Legal! – responde satisfeito Zé – Onde você achou?

- Numa lixeira lá nos jardins, encontrei também toda a coleção do Harry
Potter. A molecada vai adorar.

- Sei, não, Mané – diz Zé, correndo de novo para o Semáforo – Essa molecada
deveria ler mais Monteiro Lobato.

- Sossega, Zé! – diz Mané, ajeitando um dos papelões que começava a cair –
Deixe eles lerem a J. K. Rowling, quem sabe eles não esbarram logo, logo
num Mark Twain. Você começou lendo Paulo Coelho. Lembra?

- Fala baixo, Mané!- grita Zé - Pega mal, meu.

********************************************************
Notas: Esse texto foi baseado nas historia de Severino Manuel de Souza,56,
morador do edifício Prestes Maia 911, uma das principais favelas verticais
de São Paulo que montou uma biblioteca com livros achados no lixo e doados
por entidades assistenciais no subsolo desse prédio invadido pelo movimento
dos sem teto em 2002. É nessa biblioteca que centenas de crianças,
moradoras do prédio, passam o dia inteiro lendo e se divertindo; lugar
também, bastante especial para Lamartino Brasiliano, 38, que abastece o seu
acervo cultural, pegando emprestado os últimos “lançamentos” que Manuel traz
para a biblioteca. Lamartino adora Jorge Amado, Graciliano Ramos e Guimarães
Rosa e não vê a hora de reler Cem Anos de Solidão pela segunda vez. Ele só
não assume que leu todos os livros do Paulo Coelho.

Frank Oliveira
http://cronicasdofrank.blogspot.com

O Conto do Meio Copo

- Deus não existe – disse ela, chocada com as cenas que via na TV de um resgate de um bebê que fora jogado num rio. – Se Deus existisse, não permitiria que uma mãe fizesse isso com seu filho recém nascido – Completou irada, colocando o abandono da criança na sua lista semanal de desgraças urbanas.

Seu marido ouviu o comentário sem nada falar, sabia que ela esperava alguma resposta, mas era inútil argumentar. Já havia lido sobre o que ocorrera no jornal e sabia que o bebê estava bem e justamente por isso era que ele acreditava no oposto do que a sua mulher falara; ele sabia que aquele resgate milagroso era justamente a prova que havia um poder maior atuando sobre as nossas vidas. Para ele, tudo tinha a sua razão de ser, até as tragédias.

Ele não sabia explicar, mas por toda a sua vida, percebeu que as tragédias e os milagres sempre caminharam de mãos dadas e chegavam sempre a uma espécie de equilíbrio que nos empurrava pra frente; mas essa certeza intima, não é algo que se comente apenas que se sinta. Essa certeza é algo que carregamos conosco e que nos permite vivenciar ou observar essas tragédias com olhos de quem voa por cima e por não ver barreiras, entende o mundo como um todo.

Não adiantava convencer a sua mulher disso, nem muito menos ninguém; afinal há sempre quem enxergue um copo com água pela metade como um copo meio vazio e outros como um copo meio cheio. Através da lei dos opostos e dos diferentes pontos de vista, a humanidade em seu devido tempo caminha.


Frank Oliveira
http://cronicasdofrank.blogspot.com

Bebe resgatado no Rio Pampulha Posted by Picasa

segunda-feira, janeiro 23, 2006

O Primeiro Amor

Banhei-me de ouro,mergulhei no dourado. O ônibus estava lotado, a camisa suada, mas os olhos abriram caminho em meio a fadiga e ao calor e percebi a força do primeiro amor*.

Sim , o primeiro amor me tocou usando os raios de sol. A cidade cinza mergulhou no sorriso que o por-do-sol desencadeou em minha face e eu virei parte do crepúsculo.

Vi que estava sonhando de novo, sonhando acordado. Sonho lúcido do qual não consigo acordar e nem poderia ser diferente. Estou aqui pra sonhar, viver esse sonho em toda a sua dimensão, mas quando o sonho começa a perder o encanto, Ele se mostra e nos lembra do primeiro amor. Ele aparece no dourado refletido nos prédios e nos mostra que precisamos permanecer um pouquinho mais lúcido e não deixar o sonho virar pesadelo.

Sim, em momentos assim, posso sentir novamente o primeiro amor entrando por todos os meus poros e me lembrando de quem eu sou. Sim, em momentos assim, a saudade de casa me tira lagrimas dos olhos e da vontade de voltar. Em momentos assim, quase posso sentir o cheiro do lar vindo pelo ar, quase posso lembrar dos rostos dos amigos e amigas que torcem por mim nos bastidores. Quase lembro o que sei quando estou dormindo, mas preciso voltar pro sonho. Não posso acordar ainda. Esse sonho é bonito e só existe para que eu possa acordar, mas na hora certa. Mas não estou sozinho e toda vez que eu me esquecer disso, terei sempre o primeiro amor pra me lembrar.

Olho pro sol se despedindo e agradeço ao Criador por estar ali sentindo aquilo. Agradeço por estar vivo e poder estar consciente daquela sensação de certeza que há algo a mais do que os nossos olhos podem enxergar.

Sinto o primeiro amor pulsando no meu peito e entrando e saindo com o ar que respiro. Esse amor estava comigo, sempre esteve, mas precisa de um por do sol pra me despertar. Esse amor é minha estrela guia nos momentos em que esqueço completamente de quem sou e de onde vim. Esse amor é a minha luz nos momentos escuros. Luz que reflete no pedacinho do divino que habita dentro de mim. Luz Maior que foi e é o meu primeiro amor.


Frank Oliveira
23 de Janeiro de 2006
http://cronicasdofrank.blogspot.com


* Primeiro Amor: aprendi a chamar assim essa energia da vida, do todo; com o meu amigo Wagner Borges, que sempre procura passar através dos seus cursos, mas que teoria. Ele desvenda o oculto, revelando o coração.

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