sexta-feira, fevereiro 14, 2014

Esquecer para Lembrar


Conta a lenda que houve um dia em que todos acordaram sem religião (Foi um dia antes daquele que a terra parou, como Raul contou). Algum mago maluco havia apagado a idéia que todos temos de Deus e de uma hora para a outra, a religião sumiu da história.

Apagou-se da mente humana qualquer referência as parábolas da Bíblia, os versos do Alcorão, a poesia de Buda, os mistérios do Toráh e o yoga do Baghavda Gita.

Todos os templos do mundo ficaram vazios, pois ninguém mais sabia qual era a serventia daqueles prédios tão belos, mas ocos.

Com a mente vazia das religiões criadas;

Com os olhos limpos das palavras escritas;
Com os ouvidos limpos das preleções manipuladas;
Todo o meu povo sentiu que havia uma presença que nunca partiu.
Presença sagrada que mesmo sem ser nomeada está sempre presente, sempre alcançando o coração da gente, seja no barulho do dia ou no silêncio da madrugada.

E no dia em que não existia a religião, todos estavam, mais do que nunca, religados com a Força Maior que se faz mais notada quando não é apontada.

E durante 24 horas, toda a minha gente percebeu que não precisava pensar sobre, para sentir o que sempre houve; que não precisava tentar compreender para perceber o que há entre eu e você.

Contudo, algum atrevido, algum abelhudo; decidiu escrever um texto sobre o que não precisava ser descrito e o encantamento se desfez; voltou o absurdo de se nomear o que não tem nome; de rotular o que não tem forma.

E a religião voltou ao mundo vestida de palavra.

quinta-feira, fevereiro 13, 2014

ACHO QUE NÃO VI UM GATINHO


Ela pediu um gatinho - "Para treinar a ter filhos” - argumentou - "Bons pais começam como bons donos de bichos".

Moramos num "apertamento" no centro e ficamos o dia todo fora. Gato não é tão carente quanto cachorro, mas precisa de atenção, cuidado e tempo. Como recusar o pedido dela? Como convencê-la que não é uma boa idéia?

Entenda, eu nunca tive um bichinho de estimação, mas sem prequis um. Fui criança incompleta, sem gato para brincar, sem cachorro para correr. Nunca quis ter passarinho, sendo voador precoce, sempre fui militante do movimento "Liberte o Ninho", afinal, canto de passarinho livre é jazz, canto do preso é blues. O mais próximo que tive de um pet foi um porquinho-da-índia, nome pomposo para o preá que acabou mordendo o dedo do meu pai e foi punido com morte, fogo e prato. Vai ver meu pai achou que o preá era mesmo porquinho.

Nunca tive nem aquário, imagina iguana. O mundo animal sempre foi National Geographic para mim, com exceção de um casal de serpentes que moraram comigo em Londres e que sumiram misteriosamente - esquecidos, vai ver cobra não tem mente - não lembraram de deixar o dinheiro do aluguel e do telefone.

Contudo, sempre quis ter a amizade de um cachorrinho ou o mistério do olhar de um gato. Queria experimentar esse tal amor por esses bichanos, que dizem por aí, se não é igual, é tão intenso quando o amor que sentimos por nossos filhos. É o que dizem, nunca tive nenhum, nem outro; por isso estou indeciso, ansioso. Cedo ou não cedo?

Não é tão simples, amigos. Assim como ter um filho, criar um cãozinho ou um gato, requer comprometimento e responsabilidade. Se todos pensassem bem antes de escolher ser dono de um bicho, não teríamos tanto cachorro e gato soltos por aí, perdidos, abandonados, presos, desenganados e mortos.

Quero que ela tenha um gato ou um cachorro, mas não agora. O animalzinho, assim como o filho, terá que esperar mais um pouco.

quarta-feira, fevereiro 12, 2014

A Primeira Estrela


Não tenho luneta, mas me considero um caçador de estrelas. Adoro procurá-las, mesmo que o céu nublado e poluído da cidade grande, muitas vezes não permita. Vibro com as novas descobertas; conto as que consigo ver sem medo da ameaça das verrugas nas pontas dos dedos e com um pouco de conhecimento de astronomia, meus olhos viajam pelas imagens das constelações com os nomes de heróis e seres da antiguidade. Tento imaginar em qual constelação, essas poucas estrelas que vejo pertence e nessa brincadeira noturna, vou dormir com a imagem de um Frank virando um Surfista Prateado, deslizando pelo espaço. Nesses devaneios, termino sentindo uma saudade de casa, da verdadeira casa, o lugar de onde eu vim e para onde retornarei, afinal somos todos feitos de poeira estelar.

Esses dias tive a oportunidade de passar três dias em Itatiaia no estado do Rio de Janeiro. O Parque e o famoso pico das Agulhas Negras dispensam explicações e é um destino obrigatório para qualquer um andarilho da terra ou das estrelas. Fui para lá para descansar por um fim de semana, e apesar de mal poder esperar pelas caminhadas, cachoeiras e pelo descanso merecido, confesso que estava ainda mais ansioso pelas estrelas. O dia ensolarado e o céu sem nuvens ,prometiam uma noite tapeada de estrelas.

A tarde passou correndo e a noite ameaçava chegar. Deitado na varanda da pousada em que estava, fiquei olhando as cores do horizonte mudarem rapidamente de azul claro para laranja e vermelho e o sol se esconder por trás das montanhas que tinham o formato de uma índia. Não pensava em nada, apenas observava o dia se misturando com a noite e de repente, surgiu a primeira estrela. Era a primeira vez em que observava o surgimento das estrelas no céu. Nunca tive tempo para isso, apenas sigo correndo para o trabalho durante o dia e voltando pra casa durante a noite. Ali, eu tinha todo o tempo do mundo, não havia pressa de chegar ou partir, apenas estar presente.

Mas estar presente não é nada fácil. Nunca estamos 100 % num momento. Não sei quanto a vocês, mas tenho um terrível problema de aproveitar totalmente o meu aqui e agora. Perco momentos maravilhosos em minhas horas livres, pensando senão estou desperdiçando o meu tempo ou se consegui fazer tudo aquilo que planejei fazer nessas “horas livres” que na teoria eu deveria usar para fazer nada. Às vezes, precisamos apenas fazer nada para curtir tudo por completo; se ao menos não estivéssemos tão preocupados em fazer algo...

Naquele momento nada mais importava para mim do que caçar as minhas estrelas. Vi a primeira, contei a segunda, fui pego de surpresa pela terceira e quando a décima apareceu, eu já estava além da terra e meus olhos viraram cometas pelo céu que apresentava o seu show estelar.

De acordo com um artigo* que eu estava lendo, o céu estrelado foi a primeira grande atividade especulativa do homem (inscrições e construções em pedra datam de até 30.000 anos atrás). Naquela época, o céu era observado com espanto, admiração e respeito, provocando profundo sentimento de idolatria, daí os nomes das constelações terem sido nomeados com seus deuses, heróis e mitos. Os astros eram divinos e o céu sagrado servia de morada aos deuses. 

Contemplando o céu em noites extremamente límpidas e sem iluminação artificial, os homens inventaram as constelações: figuras imaginárias de seres mitológicos, animais e objetos nos alinhamentos estelares. Cada povo ou tribo tinha as suas próprias constelações e, para memorizá-las criavam mitos.

Vivendo da caça, da pesca e da agricultura, precisavam conhecer detalhadamente o clima, épocas de plantio e de colheita e o céu constelado ajudava imensamente neste sentido. Além de servir como calendário, lembrando épocas do ano, explicava fenômenos naturais.

Atualmente as constelações não possuem a expressiva significação que tinham na antiguidade. São utilizadas pela Astronomia para indicar direções do Universo e facilitam o reconhecimento do céu.

Para o homem comum da cidade grande, tendo toda a informação impressa e a disposição, poucos param para observar o céu ou mesmo admirar as estrelas. O mesmo não ocorre no interior, onde o homem do campo ainda se baseia no céu para muitas coisas que faz.

Lembro que meu avô costumava confiar mais na posição do sol no céu do que em seu relógio quando o assunto era saber as horas: “ O relógio pode estar atrasado ou adiantado, o sol não!”, dizia ele quando eu era pequeno e morávamos no interior da Paraíba.

Foi nessa época que me apaixonei totalmente pelas estrelas e pelos desenhos dos deuses que os livros diziam que as estrelas formavam no céu. Foi sob o céu estrelado que comecei a contar minhas primeiras estórias e elas eram muitas vezes baseadas  em Órion o gigante guerreiro, que vivia sob nossas cabeças ou nas aventuras em que eu fingia ser Perseu e montava em Pégaso, o cavalo alado, e lutava contra o monstro marinho Cetus, para salvar minha amada Andrômeda.

Em Itatiaia, naquela noite em que caçava as estrelas, tornei a ser menino e continuaria a noite toda ali, se não tivesse um jantar a minha espera e alguém me aguardando, afinal, eu não podia perder a chance de cumprir todas as mil coisas planejadas.

Frank


*Nota do autor: parte do texto que se refere a história das constelações foi baseada no artigo "As Constelações" da autora Edna Maria Esteves da Silva. Coordenadora do Planetário da Universidade Federal de Santa Catarina.Maio/1999

terça-feira, fevereiro 11, 2014

A Menina e a Lua

Para Rutth

A princezinha Rutth estava doente. O rei, seu pai, promete:”Filhinha, dou o que você quiser, se ficar boa”. E a menina: respondeu “ Eu quero a lua!”.

O rei convocou os sábios da corte, matemáticos, mágicos, cavaleiros com experiência de países distantes, músicos e até feiticeiros. Masa lógica e a matemática tem limiteis; feitiçaria e fórmulas não conseguiam fazer essa mágica; mas o bobo da corte – que chamavam de palhaço e não foi consultado por ser bobo – assegurou ao rei que atenderia ao pedido da menina. Orei fingiu que ele não era bobo, e deu licença.

- Princesinha, qual é o mesmo o tamanho da lua?

- Assim, do tamanho duma medalha.

- De que é feita?

- Ela é toda de prata.

- Agora ela está muito alto no céu. Quando chegar à altura daquela arvore, eu subo lá e pego a lua para você. Durma sossegada, que ela demora a descer.

Enquanto a lua descia atrás das arvores, o palhaço vai aos tesouros do rei, escolhe uma linda medalha, branca e redondinha como a lua. Prende-a num cordão de ouro e aguarda o sol chegar.

A corte inteira quis presenciar o espetáculo. O palhaço com as mãos nas costas, olhou para a princesinha e disse:

- Querida princesinha, que acaba de acordar com um beijo do sol bem na ponta do nariz, adivinha o que eu tenho escondido aqui?

- A lua! Gritou a menina

- A lua! Respondeu o bobo

- A lua! Gritou o rei

- A lua! Todos gritaram por todo o palácio.

E o bobo da corte pendurou a lua no pescoço da menina. E a menina sarou completamente.

No dia seguinte, a menina e o bobo olhavam pela janela. E lá apareceu de novo a lua no céu. Mas o palhaço explicou:

- Veja princesinha, como Deus é bom. Roubei a lua lá de cima, e ele pôs outra no lugar.

James Thurber

segunda-feira, fevereiro 10, 2014

A Magia do Papel em Branco


Época de eleição, verdade, mentira e muito papel no chão. Era moleque; não entendia quem ia ganhar, ou o que eles tinham para oferecer; mas o que não faltava era papel e para quem não tinha onde escrever, era só aproveitar o parte branca do panfleto.

Na falta de um caderno para escrever meus contos, minhas histórias, os panfletos eram perfeitos. Quanto maior o panfleto do político, mais espaço eu tinha para escrever, para desenhar, para rabiscar as idéias que formariam o homem que sou. Para a minha sorte, naquela época ninguém havia pensado em colocar a foto do político na frente e no verso do panfleto.

Sim, era um tempo difícil, mas não menos divertido. Minha mãe só tinha dinheiro para comprar os cadernos da escola, os quais ela vistoriava constantemente. Era repressão na certa quando ela percebia qualquer espaço usado para escrever algo que não fosse matéria da escola. – Para quê você escreve tanta bobagem, menino? – dizia ela. Eu não tinha resposta, só sabia que havia uma história para contar.

O problema era que eu não parava de escrever, minha cabeça estava cheia de idéias, cheia de sagas dos meus heróis, personagens que gritavam, imploravam para se tornarem vivos no movimento das letras, no desenho das palavras.

Eu vivia escrevendo em papel de saco de pão, em guardanapo roubado das lanchonetes onde nunca comi uma refeição. Para um garoto pobre com fome de papel, panfletos caindo do céu, dos caminhões e carros, era como se chocolates caíssem dos prédios em dia de São Cosme e São Damião.

Nos dias de hoje, não aguardo mais a época das eleições com tanto entusiasmo, porém, toda vez que vejo panfletos de políticos no chão e entupindo bueiros, lembro desse moleque e fico desejando que houvesse outros garotos escritores por ai, reciclando panfletos e colocando no papel sua visão de mundo, afinal um bom conto, uma história não tem o poder de mudar os rumos de um país, mas se bem narrada, pode fazer todo um povo sorrir e sonhar.

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

AURIVERSÁRIO (Crônica de Aniversário de Casamento)

São Tomé das Letras, linda noite de lua cheia. Ainda estou lá.

A brasa queimava para cá, o crepitar das faíscas a dançar para lá e em meio a junção entre a fogueira e o luar, a vi chegando, com um lindo vestido indiano, sorriso gigante no rosto, olhos a cintilar.

Seus cabelos pretos compridos se uniam com os fios negros da noite, sua pele branca era a lua prateada que vinha me iluminar. Eu ainda estou lá.

Quem era essa menina? Questionava sem parar, tentando imaginar se ela viria pra ficar ou seria como a brisa que tocava meu rosto como um beijo de amada, mas tinha hora para ir embora.

Seu nome era Auri, e ela surgiu assim, como um passe de mágica recheado de pirimpimpim, para mim, para mim. Ela era um sonho e eu não queria acordar.

Eu estava no lugar perfeito, olhando para a moça que esperei a vida inteira chegar, por isso, eu orava sem parar: "por favor, Pai dos Sonhos, não me faça despertar".

E fiquei a versar, versar; sentindo o amor feito rio corrente fluindo do meu peito na direção do seu caminhar.

Ainda estou lá, vivendo aquele momento, achando que ela vai desaparecer quando o dia raiar; mal imaginava que onze anos depois, ela seria o último sorriso que eu veria ao dormir e o primeiro ao acordar.

Quinze anos de casamento, quase duas décadas de jornada: viajamos o mundo inteiro, descobrimos outros versos na poesia das linhas das mais diversas religiões que o ser homem criou, cantamos pontos de Umbanda nas ruas de Londres, pulamos "Govinda, Gopala" nas areias do deserto do Sahaara; e pensar que tudo começou, com a falta de fé. Jamais pensei que seria possível encontrar tal mulher, então fui parar em São Tomé...

Quinze anos e cada dia é um novo conquistar, papos sem-fim que se derramam pela noite, carinho sem pressa de quem tem todo o tempo do mundo para amar. Estar com ela é salgado, é doce; é suave, como nunca achei que o amor poderia se tornar. Não precisamos brigar, para sentir aquele doce mel do reconciliar, afinal, quinze anos é tempo suficiente para ficar evidente que o amor não precisa de brigas constantes para sólido ficar.

Gostaria que todos que estão lendo essas palavras pudessem sentir um pouquinho do que sinto nesse dia tão especial e lindo; gostaria que todos pudessem experimentar um tiquinho do que é viver nadando em respeito, amizade e carinho; e como não posso cortar meu peito em pedacinhos e sair distribuindo, faço o meu milagre da multiplicação das letras, para que todos possam compartilhar comigo através das palavras, essa data tão querida que é estar ao lado da minha grande amada nessa jornada maravilhosa da vida.

Ps: E quase ia esquecendo da Princesa do " Combinado" e do Príncipe dos " Bruguelos" que vieram nos lembrar que esse moleque vagamundo e essa menina do céu cintilante ainda tem muito o que viver junto essa alegria de amar em família...


Frank Oliveira
07 de fevereiro 2009
15 anos de jornada de amor


sexta-feira, janeiro 31, 2014

Um rápido confronto entre conto e crônica

           A crônica é o relato de um flash, de um breve momento do cotidiano de uma ou mais personagens. O que diferencia a crônica do conto é o tempo, a apresentação da personagem e o desfecho.

          No conto, as ações transcorrem num tempo maior: dias, meses, até anos, o que não se dá na crônica, que procura captar um lance curioso, um momento interessante, triste ou alegre. No conto, a personagem é analisada e/ou caracterizada, há maior densidade dramática e freqüentemente um conflito, resolvido em desfecho. Na crônica, geralmente não há desfecho, esse fica para o leitor imaginar e, depois, tirar suas conclusões. Uma das finalidades da crônica é justamente apresentar o fato, nu, seco e rápido, mas não concluí-lo. A possível tese fica a meio caminho, sugerida, insinuada, para que o leitor reflita e chegue a ela por seus próprios meios.

          Vamos supor que você surpreenda um garoto pobre tremendo de frio e olhado fixamente para um pulôver novinho na vitrina duma loja. Ora, isso dá uma excelente crônica. Você relataria o flash, a cena em si, mas não o desfecho: o menino comprou ou não o pulôver? Nada disso. Acabando de "pintar" o quadro, terminaria o texto, deixando o leitor a tarefa de refletir sobre a miséria, a fome, a má distribuição de renda, a injustiça social etc. É essa, muita vezes, a finalidade da crônica e a intenção do cronista. Seu texto não tem resolução, não temmoral como na fábula, é aberto para que cada leitor crie o final que melhor desejar. O cronista, no fundo, deseja que seu leitor seja um co-autor. A crônica, grosso modo, equivale à ilustração dum texto dissertativo, sendo um meio-termo entre narração e dissertação.

Crônica é uma narração, segundo a ordem temporal. O termo é atribuído, por exemplo, aos noticiários dos jornais, comentários literários ou cientificos, que preenchem periodicamente as páginas de um jornal. 


Crônica é o único gênero literário produzido essencialmente para ser veiculado na imprensa, seja nas páginas de uma revista, seja nas de um jornal. Quer dizer, ela é feita com uma finalidade utilitária e pré-determinada: agradar aos leitores dentro de um espaço sempre igual e com a mesma localização, criando-se assim, no transcurso dos dias ou das semanas, uma familiaridade entre o escritor e aqueles que o lêem.



Características:


A crônica é, primordialmente, um texto escrito para ser publicado no jornal. Assim o fato de ser publicada no jornal já lhe determina vida curta, pois à crônica de hoje seguem-se muitas outras nas próximas edições. Há semelhanças entre a crônica e o texto exclusivamente informativo. Assim como o repórter, o cronista se inspira nos acontecimentos diários, que constituem a base da crônica. Entretanto, há elementos que distinguem um texto do outro. Após cercar-se desses acontecimentos diários, o cronista dá-lhes um toque próprio, incluindo em seu texto elementos como ficção, fantasia e criticismo, elementos que o texto essencialmente informativo não contém. Com base nisso, pode-se dizer que a crônica situa-se entre o Jornalismo e a Literatura, e o cronista pode ser considerado o poeta dos acontecimentos do dia-a-dia. A crônica, na maioria dos casos, é um texto curto e narrado em primeira pessoa, ou seja, o próprio escritor está "dialogando" com o leitor. 

quinta-feira, janeiro 30, 2014

CRÔNICA

           A crônica é um gênero híbrido que oscila entre a literatura e o jornalismo, resultado da visão pessoal, particular, subjetiva do cronista ante um fato qualquer, colhido no noticiário do jornal ou no cotidiano. É uma produção curta, apressada (geralmente o cronista escreve para o jornal alguns dias da semana, ou tem uma coluna diária), redigida numa linguagem descompromissada, coloquial, muito próxima do leitor. Quase sempre explora a humor; mas às vezes diz coisas sérias por meio de uma aparente conversa – fiada. Noutras, despretensiosamente faz poesia da coisa mais banal e insignificante.

          Registrando o circunstancial do nosso cotidiano mais simples, acrescentando, aqui e ali, fortes doses de humor, sensibilidade, ironia, crítica e poesia, o cronista, com graça e leveza, proporciona ao leitor uma visão mais abrangente que vai muito além do fato; mostra –lhe, de outros ângulos, o sinal de vida que diariamente deixamos escapar.

segunda-feira, janeiro 27, 2014

CRÔNICA E OVO



"A discussão sobre o que é, exatamente, crônica, é quase tão antiga quanto aquela sobre a genealogia da galinha. Se um texto é crônica, conto ou outra coisa interessa aos estudiosos de literatura, assim como se o que nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha, interessa aos zoólogos, geneticistas, historiadores e (suponho) o galo, mas não deve preocupar nem o produtor nem o consumidor. Nem a mim nem a você.

Eu me coloco na posição da galinha. Sem piadas, por favor. Duvido que a galinha tenha uma teoria sobre o ovo, ou, na hora de botá-lo, qualquer tipo de hesitação filosófica. Se tivesse, provavelmente não botaria o ovo. É da sua natureza botar ovos, ela jamais se pergunta "Meu Deus, o que eu estou fazendo?" Da mesma forma o escritor diante do papel em branco (ou, hoje em dia, da tela limpa do computador) não pode ficar se policiando para só "botar textos que se enquadrem em alguma definição técnica de "crônica”.

Há uma diferença entre o cronista e a galinha, além das óbvias (a galinha é menor e mais nervosa). Por uma questão funcional, o ovo tem sempre o mesmo formato, coincidentemente oval. O cronista também precisa respeitar certas convenções e limites, mas está livre para produzir seus ovos em qualquer formato. Nesta coleção, existem textos que são contos, outros que são paródias, outros que são puros exercícios de estilo ou simples anedotas e até alguns que se submetem ao conceito acadêmico de crônica. Ao contrário da galinha, podemos decidir se o ovo do dia será listado, fosforescente ou quadrado.

Você, que é o consumidor do ovo e do texto, só tem que saboreá-lo e decidir se é bom ou ruim, não se é crônica ou não é. Os textos estão na mesa: fritos, estrelados, quentes, mexidos... Você só precisa de um bom apetite."

Luis Fernando Veríssimo

sexta-feira, janeiro 24, 2014

TRÊS SUJEITOS

Cheia de contrastes, São Paulo fascina e assusta. Sinto uma mistura de orgulho e repulsa por viver nessa cidade tão madrasta que tão bem me acolheu. 

Já tentei fugir, mas sempre acabo voltando para os seus braços. Acabei aceitando que sou dependente de sua feiúra tão bonita; de seus bairros que se alastram como se fossem um organismo vivo; de suas ruas sujas recheadas de gente tão valente e trabalhadora; do céu poluído refletido nas janelas espelhadas de seus arranha-céus e dos sonhos cuspidos pelo olhar de seus viajantes que passam mais tempo em trânsito, indo e vindo de suas casas para o trabalho do que aproveitando o preço que pagam por morar nessa metrópole tão querida.

Por onde quer que eu vá, tento ler o olhar dessas pessoas da minha terra. Sim, São Paulo é a minha terra emprestada, o pedaço de chão que insisto em querer chamar de meu e olho para os tantos desconhecidos com seus rostos e sonhos tão familiares e quase posso ver imagens saindo de seus olhos e rodopiando pelo espaço pequeno que os separam do outro, no ônibus ou no metrô. Quase posso ver os sonhos saltando do olhar do migrante, do estrangeiro, da garota que carrega seus livros de encontro ao colo, do executivo com pressa de se trancar no escritório.

Por onde quer que eu vá, procuro esconder o medo que sinto com a aproximação brusca de um desconhecido; do moleque que me pede uns trocados ou do moto-boy que bate no vidro do carro me avisando da porta que esqueci de fechar.

Às vezes acho que esse medo é exagerado, às vezes acho que amo odiar a minha cidade; às vezes me pego a descrevendo como se fosse Shangri-lá, outras vezes, sem medo, caminho distraído, sentindo-me como se estivesse andando nas ruas de Santa Rita do Passa Quatro e passam dois sujeitos suspeitos ao meu lado, sou preterido, pois eles avançam sobre outro sujeito à minha frente, sujeito carregando sacolas e um celular no ouvido. Tudo acontece muito rápido: a abordagem, a reação, o tiro, o grito, dois sujeitos correndo e um terceiro no chão...


Essa São Paulo de contrastes me fascina, mas infelizmente assusta mais ainda.

quarta-feira, janeiro 22, 2014

O CURUPIRA E O CANTO DO MENINO


O que fazia o menino quando o caçador o encontrou, senhor? Ele cantava, senhor, cantava!

O menino cantava, como se não estivesse perdido na mata por 12 dias, senhor. A família já tinha desistido, perdido a esperança. A mãe chorava noite e dia; mas depois se conformou. Ela sabia que aquilo era obra do Curupira, senhor. O Curupira, esse ser medonho dos pés tortos, vive atraindo gente pra mata e essa gente nunca volta. Como que pode? A família chorava e o menino cantava.

Ele só tinha 3 anos, senhor, moleque assim magrinho que até gavião pode pegar. Num momento ele estava brincando, no outro sumiu, senhor. Quando a mãe sentiu falta do menino, ele já devia estar dentro da mata. Essa mata, senhor, homem nenhum sobrevive muito tempo; imagine um menino por 12 dias vivendo entre onças, porcos-do-mato e cobras. Será que o Curupira se arrependeu quando ouviu o menino cantando?

O menino enfeitiçou o Curupira, senhor. Só assim, dá para explicar como esse menino ficou 12 dias na selva. O moleque falou que alguém lhe deu fruta e água. O médico disse que foi delírio, mas a gente que mora por aqui sabe de umas coisas – tem gente na floresta que não é desse mundo, senhor. Tenho até medo de falar nessas coisas, mas o menino foi achado e quando o caçador o viu, ele estava cantando. Se não fosse pelo canto, talvez ele não tivesse sido encontrado, nem sido poupado pelo Curupira.

Será que o Curupira foi um menino perdido que não sabia cantar, senhor?


Notas do autor: Conto baseado no artigo abaixo:
* Menino perdido há 12 dias é achado por caçador no AM
Caçador que encontrou o garoto contou que ele cantava uma música de ninar debaixo de uma árvore...
Saiba mais no site:

** O Curupira é uma figura do folclore brasileiro. Ele é uma entidade das matas, um anão de cabelos compridos e vermelhos, cuja característica principal são os pés virados para trás. Este defeito lhe é especialmente útil para uma de suas maldades prediletas: fazer pessoas perdidas na mata seguir-lhe as pegadas que, afinal, não levam a lugar nenhum.

Saiba mais sobre o Curupira no site abaixo: 

terça-feira, janeiro 21, 2014

Segunda Vez



Tamiris ficou grávida pela segunda vez. 

“Na primeira foi descuido, agora foi o quê?”, cochicham na rua que ela mora. A mãe está inconformada – “A minha menina só tem 18 anos” – chora pelos quatro cantos. Lamentando pela menina que mal acabou o 2º grau e trocou o cursinho universitário pelo supletivo maternal.

Tamiris chorou dia e noite, noite e dia; o pequeno Gabriel de dois anos, não entendia porque a mãe estava tão triste e triste ficava. 

Todo mundo apontava o dedo, toda a família reclamava, comentava e julgava.

Esses dias o celular tocou, Tamiris pensou duas vezes antes de atender, tudo que menos precisava era outro amigo chorão, outro parente discriminando; mas era a sua irmã que morava além do mar:

“Oi maninha – disse a irmã – liguei para te parabenizar e dizer que você pode contar comigo para o que você precisar.”

Os parentes se revoltaram – “Não é hora de parabéns, é hora de enfiar juízo nessa menina” – diziam pelos cantos. A irmã, anos luz de discernimento e lucidez, sabia que cada um de nós tem a sua história pessoal e não precisamos de ninguém tornando ainda mais pesada a cruz que carregamos.

Tamiris está mais calma e já contou a Gabriel que em breve, ele ganhará um irmãozinho. A mãe ainda chora pelos cantos, mesmo sabendo que em um mundo onde há mais clínica de aborto do que padaria, é necessário ter muita coragem para ser mãe antes do tempo que os outros julguem ser o mais correto.

sexta-feira, janeiro 17, 2014

A LUA GRÁVIDA

Qual é a sua primeira lembrança da vida? A barba do Papai Noel caindo e você descobrindo a identidade secreta do seu pai? Sua mãe tirando do forno um bolo de chocolate cheiroso e quentinho? Crianças brincando na rua?

A minha primeira memória dessa vida é a lua grávida.

Era uma noite de verão sem nuvens. O clima quente combinava com sorvete e minha família estava passando o Domingo no Parque Píton Farias em Brasília. Foi lá que me dei conta que era gente; foi vendo a lua que despertei para a vida.

Estranho, o alcance da nossa memória. Até onde naturalmente conseguimos recordar nossas experiências? Conheço pessoas que se lembram dos tempos em que engatinhavam; outros juram de pé junto, que se lembram da época em que o mundo tinha o tamanho e o formato de um útero, e com essa onda de regressão, tem gente até lembrando que era a Carlota Joaquina ou Dom Sebastião. Eu só me lembro da lua gigante e cheia no céu. A partir desse primeiro luar, percebi que era menino; que meu pai era tão grande quanto os pinheiros do parque, que meu irmão era um pentelho e que minha mãe estava tão cheia quanto à lua. Desse momento em diante, meu mundo se tornou cronológico: ano por ano, fui começando a contar idade e experiência.

Dias depois vi a lua de novo, mas ela estava magrinha, pela metade. Corri pro meu pai e perguntei o que houve com ela. Ele olhou a lua pela janela, suspirou e respondeu:

- A lua estava grávida igualzinho à sua mãe, filho; e seu bebê virou luz!

quarta-feira, janeiro 15, 2014

A TAPIOCA


Hoje à tarde, eu comi uma tapioca. Que coisa mais gostosa é o sabor e o som: ta pi o ca! O quê? Você não gosta?  Chamem o capitão, atire esse homem ao mar! Joguem essa mulher que não gosta de tapioca aos tubarões e o menino que torce o nariz, o deixe sem brincar. Onde já se viu que desrespeito! Tapioca tem gosto de Brasil, cheiro de terra, quem nunca provou de uma tapioca, não sabe o que lhe espera.

Adoro parar nessas barraquinhas e observar, a farinha e água numa bacia se misturar, enquanto a frigideira pacientemente fica a esperar. Então a artesã da tapioca vai jogando a massa e moldando-a como se fosse uma panqueca. Tudo é muito rápido, massa vira tapioca, como se tivesse pressa, de receber o recheio de leite condensado, goiabada, doce de coco, chocolate, manteiga ou nata. Doce ou salgada, a tapioca chega à boca como se fosse um “beiju”. Que goma mais linda, que refeição dos deuses. Comer tapioca é tão mágico quanto um Déjà vu.

Sempre como tapioca como se fosse a minha ultima refeição. Como um detento a um passo da sua execução, saboreio a tapioca, pedaço por pedaço, com apreciação. Comer tapioca é pura meditação: tapioca dissolvendo na boca, consciência em expansão; eu sou cada pedaço, sou o próprio sabor, cada sensação eu caço, cada mordida, uma explosão, uma cor. Eu amo tapioca como quem ama o próprio amor.

Quando chego ao fim, surge o desafio: a tentação de pedir um pedaço a mais, mas resisto, calo a gula e vou me embora sempre querendo mais; e como Deus é tão bom, sei que sempre haverá essas barraquinhas de tapioca por onde eu for nesse Brasil do meu coração. Agora me diga a verdade: deu vontade de comer ou não?

terça-feira, janeiro 14, 2014

A MULTIPLICAÇÃO DAS LETRAS


Escrevo como quem quer compartilhar. Não quero tudo para mim, quero dividir, te dar uma fatia, multiplicar.

Escrever é um milagre, mas nada de santo tenho. Se faço multiplicar as letras é porque jorra de dentro. Como dizia o poeta Bandeira, eu não as possuo, elas que possuem a mim. Não as escrevo como eu quero, elas são assim e por serem assim, jorram de mim com o vento: tudo vira rima de letra, o menino, o espaço e o tempo.

Se me tirarem as mãos, corro risco de ainda assim expressá-las pelo falar; se me tirarem a boca, elas saltarão pelo olhar e se me tirarem os olhos, vocês verão, como as letras sabem dançar.

E elas dançam e dançam no papel, na tela. Entram por debaixo das portas, pelas frestas das janelas. Contudo, elas não te invadem, apenas se oferecem. Ler é sempre um convite, nunca algo que se deve. Por isso, cabe a você aceitar ou não, o que se serve; e ainda assim, ao comer do pão e beber do vinho, filtre, use o discernimento, sempre que possível.

Um multiplicador de letras não quer de nada te convencer. Ele apenas escreve sobre como vê o mundo e oferece a você e se o convite for aceito de coração, aliança eterna, quando visões de mundo unem-se no mais belo espetáculo da terra: a união de pensamentos entre escritor e leitor por meio da interpretação.

segunda-feira, janeiro 13, 2014

5 SEGUNDOS


Preciso de 5 minutos para lhe falar. Sei que tem pressa, mas você precisa me escutar. Há tanta coisa a dizer e agora só me resta 4 , por isso confia em mim, larga as malas, vem aqui no quarto.

Sei que muita pouca coisa se faz em 3 minutos, vou tentar ser breve, pois agora só me resta 2  e meio para pedir perdão e 2 e 15 para explicar a razão pela qual ferimos sempre quem mais amamos. 2 minutos escorrem por nossas mãos, por isso, mais uma vez te pergunto: você ainda me ama?

Não! Não precisa responder, nem preciso de 1 minuto para perceber que não posso amar por mim e por você; e você precisa ir e eu esperar para ver, se a liberdade é a maior prova de amor que um casal deve receber.

30 segundos de abraço nesse tão curto se despedir, 15 segundos para olhar nos seus olhos e 10 segundos para te ver sorrir e só me resta agora 5 segundos para te dizer uma última vez: EU AMO VOCÊ!

sexta-feira, janeiro 10, 2014

MAR DE GENTE


Fecho os olhos, começa o mundo. Cores vivas, horas, minutos e segundos. O todo no tudo. O surreal, o absurdo – o que era aquilo? Se foi, voltou para o fundo.

Que cores são essas? Será Monet ou Tarsila? Não é a minha imaginação, é pura aquarela, a cor da vida.

É a luz da quase-morte, vejo Chaplin, ouço Bethânia e são as luzes da ribalta. O que vêm depois das luzes – valha-me sorte! As verdades da alma.



MAR DE GENTE

O mar segue cheio de fúria; as ondas avançam e açoitam a terra. Sentado na praia de Swadhistana, olho a água em guerra e finalmente aceito mudar. A mudança vem a duras penas, quem eu pensava que era quer se revoltar, faz convites sedutores e ameaças plenas, sabe que já não consegue me dominar.

Quando fui dado luz, virgem de mundo nasci; com a cultura e a crença de um povo me revesti. Aprendi a andar, como caminha os outros, aprendi a ver somente o aparente, nunca a alma, só o rosto. Recebi de presente, um pacote da língua local, fui instruído a virar anjo, mesmo mal sabendo ser um animal. Pegadas segui, caminhos percorri, mestres descobri e quando já me achava, pleno de mim, a verdade veio a tona: eu não era assim!

Cortei os cabelos, rasguei as roupas; lavei-me das certezas e da fé fiz sopa; digeri tudo o que aprendi a ser e o que ficou foi o que sempre havia, mesmo antes de nascer: muita vontade de aprender.

Já não há mais fúria, acabou essa guerra; a paz avança astuta nessa luta eterna. Já não luto contra, respeito a morada do eu; prazer vira criatividade, essa casa já não me afronta, faz parte de mim, um presente meu.

Finalmente sei quem sou, apenas mais uma gota d’ água velha. Ancião do mundo; do mar, apenas uma perna, e nesse oceano eu entro e saio, e o que vejo: teoria e prática. Opostos que só conseguimos experimentar verdadeiramente, quando caímos do céu e brincamos de gente.

quinta-feira, janeiro 09, 2014

ATENÇÃO


Ele vai se matar!

Já decidiu. Suicidar: não havia verbo mais reflexivo e maldito. Era a única opção. Passara toda uma vida, cabisbaixo e deprimido. Acabar com a própria vida era o mais correto a fazer – só a morte o libertaria da dor.

Dor? – disse certa vez um amigo, quando ele se lamentou – Você é saudável, caminha direito, não tem nada no peito que te impeça de respirar. Que dor é essa que tanto te aflige?

Ele nem tentou explicar. Dor da alma não se explica com palavras, pois tudo lhe doía, conversar com as pessoas, trabalhar, pagar suas dividas, acordar e continuar.

Não iria fazer a menor falta. Ninguém o notava mesmo. Sabia que não passava de um objeto para as pessoas. Ninguém realmente lhe entendia ou o tratava bem. Para o mundo, ele não era gente, era sempre isso ou aquilo, nunca amigo, nunca parente. Ele era sempre o objeto descartável, parte da estante, ausência de reflexo no espelho, pedra no meio, um eterno retirante, migrando para lugar nenhum.

Só havia uma coisa a fazer: tornar o seu último ato, algo memorável. Jogaria seu corpo na via do metrô. Era preciso que a sua morte fosse um evento, uma ocasião em que todos finalmente o notassem e o respeitassem. As pessoas lhe dariam atenção e finalmente ele seria tratado como alguém e não como algo.

Era 18:30 da segunda-feira no metrô Sé, quando ele se atirou na linha do trem. Sua morte chocou a todos e repercutiu até em quem não estava presente.

 São Paulo parou na hora do rush. Um silêncio se fez ouvir, enquanto todos os auto falantes de todos os trens parados em diversas estações noticiaram:

“ Atenção!  Paramos momentaneamente devido a necessidade de retirar objetos da via. Voltaremos a operação assim que for possível.”

quarta-feira, janeiro 08, 2014

CONTENDA


Sou o último dos meus. Não haverá mais deles. Olho por olho, bala por bala, sangue por sangue. Nem sei como fui parar ali, mas estou eu, aqui, com a espingarda na mão, pontaria na testa do maldito que matou meu pai, meu irmão.

Tudo começou com João. Briga de bar por causa de rabo de saia, bebida demais, juízo de menos. Um tiro no peito o fez defunto; outro tiro do meu pai começou a contenda.

Nunca fui de dar tiros, sempre carreguei livros embaixo de braço. Se peguei em arma de fogo, foi para espantar onça e cobra que ameaçava meu povo, tentando roubar os anjinhos. Se estou armado é porque não tenho escolha: ou eu mato ou morro.

Por isso troquei as letras pela pólvora quando Fonseca matou meu pai. Meu irmão caçula, Sebastião, matou Messinho, pois errou Fonseca que não errou meu irmão. Bastião morto com um tiro covarde pelas costas; eu escapei por pouco, Fonseca quis matar dois coelhos com uma só bala, sabia que eu era o último e não queria sofrer emboscada. 

Na minha terra, só ficou viúva chorando, minha mulher já veste preto. Eu sou um morto vivo, um moribundo, por isso, Fonseca precisa morrer, preciso recuperar meu mundo, meu eixo.

Enfim, crio coragem e atiro, enfio dois tiros no maldito, mas ele não cai. Terei errado o tiro? Atiro uma vez mais e ele não morre, virou invencível. Acerto mais um nas suas costas, dou um tiro bem no seu olho do ouvido e o desgraçado continua vivo. Será o Benedito? Será que minhas balas são de fumaça? Por que não consigo transformar o bandido em finado?

O que está ocorrendo?

Contenda!

Sou o último dos meus. Não haverá mais deles. Olho por olho, bala por bala, sangue por sangue. Nem sei como fui parar ali...

terça-feira, janeiro 07, 2014

Côncavo e Convexo

Duas senhoras conversam no ônibus. Uma discute sobre os últimos acontecimentos envolvendo Nelly Gonçalves, 68 anos, a senhora que falou sobre seu primeiro orgasmo em depoimento exibido após a novela "Páginas da Vida", a outra apenas escuta:

- Que a Tv é uma vergonha, todo mundo sabe, mas essa senhora de 68 anos, representa tudo de podre que há. Onde já se viu, nessa idade, falar sobre sexo.
- ...
- Amélia, minha amiga, quem fala dessas sujeiradas assim são os jovens. Senhoras devem se dar ao respeito. O que dirão nossos filhos? O que dirão nossos netos?
- É mesmo...
- Falar sobre isso não é pra gente de respeito. Essas coisas a gente nem pode pensar em público; agora me vem essa senhora contando em detalhes como foi o seu primeiro orgasmo na novela em horário nobre... isso é um ultraje! Onde está a censura? Tempo bom era na epóca da ditadura – os militares não deixariam isso passar. Onde está o Associação Cristã Feminina? Como permitiram que essa senhora falasse sobre orgasmo? Ainda sozinha?
- ...
- Que falta de vergonha. Essa senhora com idade para ser avó, deveria estar falando sobre seus netinhos, filhos, familia; e não descrevendo em detalhes como foi o seu primeiro orgas...nem consigo falar isso, Amélia, e ... ela usou a palavra “molhada”, sabia? Pode uma coisa dessas?
- Hum...
- Perder o emprego foi muito pouco, em outras época, ela seria queimada por falar algo assim. Tá vendo aqui no jornal? Ela esta reclamando que esta sendo discriminada, isso ainda é pouco! Onde vamos parar? E a moral e os bons costumes? Onde estão os valores da familia? Sim, ela merece ser alvo de chacota, merece cada xingo. Como ela ousou lembrar a todos nós, que gente velha também goza?
- Quer saber de uma coisa, Dorinda? – responde finalmente a outra senhora – Eu fiquei foi com uma tremenda inveja, ela descreveu mesmo como conseguiu?

segunda-feira, janeiro 06, 2014

Canção de Quem Não Voltará


Na minha terra tem palmeiras
Mas onde foi parar o Sabiá?
A laranjeira já não tem mais fruta
Alguém roubou o pomar

Tenho saudade do país do futuro
Que nunca chegou para me presentear
Nem em memórias da minha infância
Há coisa boa que valha a pena lembrar

Já fui exilado por conta própria
Pensei que os pássarinhos que voavam por lá
Eram diferentes dos que voam por cá

Talvez seja culpa de São Paulo
Que nunca chegou a me encantar
Afinal, não há mesmo diferença
Entre a manga de lá e o cranberry de cá

Mas não há árvore que resista
Ao preço do plantar
Nem pássarinho que escape
Das arapucas na mata

Voltar????
Lá???
Ah tá!!!!
Nem pensar!!!

Não vou voltar!!!

Não quero mais ouvir o Sabiá
Nem sentar sob a sombra da Palmeira
Nem da Laranjeira quero os gomos provar

Não vou voltar
Não fiz tantos planos
Para apenas voltar
Não vou me deixar enganar

Qualquer lugar é meu lar
Cante o Pássaro Preto ou o Sabiá
Qualquer lugar é minha casa
Pois para ouvir a canção, tanto faz estar lá como cá

quinta-feira, janeiro 02, 2014

Feliz 2014

Alegria, alegria é o que desejamos para todos em 2014, esses são os votos do Krishna, da Jureminha, do papai Frank e da mamãe Auricelia Lima, direto dos corações de todos nós quatro.

Ano Novo

Viver é caminhar numa Estrada Viva que se altera quanto mais acordado a gente fica. 

Então, percebemos que tudo estava à palma da mão; a verdade do universo não passava de um despertar do coração para que pudéssemos perceber que o tempo do homem se passa na mente, mas o tempo da alma se passa na eternidade da experiência que a todos transforma e a tudo modifica. 

Dai, todo o conhecimento escorre pelas mãos e o que fica é o bem que fazemos aos nossos irmãos e a sabedoria é finalmente entender que a verdadeira religião se chama família.

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