sexta-feira, outubro 24, 2008

LÚCIDO

O dourado solar acordou-me aquela manhã com a ternura que o despertador nunca usou. Despertei diferente, era a mesma pessoa, mas era gente mais lúcida. Com o sono foi-se a confusão habitual que povoa o reino da minha vigília. Eu estava lúcido, desperto, atento, focado, estava perto. Minha mente não estava presente no futuro, nem perdida no passado, eu era eu imediato, o que me deu uma sensação maravilhosa de estar acordado.

Percebi a conexão sutil e suave das coisas; notei pequenos detalhes que passariam despercebidos, e que além da ilusão de vivermos separados, há um laço que nos une, peito a peito, chacra a chacra, e nos conduz, mesmo quando estamos, cada um no seu lado.

Estando lúcido, consegui sentir nitidamente, que passo boa parte do tempo dormindo. Sou uma espécie de sonâmbulo, esbarrando em outros sonâmbulos nesse mundo de sonhos.

Estando desperto, meus olhos enxergavam com nitidez a linguagem do mundo ao meu redor. Vi as coisas falando comigo, cada uma com um significado que fazia grande sentido para a minha caminhada. Percebi Deus cochichando no ouvido do outro, que nem percebendo isso, fala comigo, dizendo a coisa certa, no momento em que preciso escutar.

Que pena que amanhã, acordarei dormindo...

quinta-feira, outubro 23, 2008

Um Mergulho no Rio Pinheiros

O trem sai da estação Rebouças rumo a Santo Amaro. A viagem é confortável, a música clássica acalma o viajante estressado com o mundo lá fora; os vagões são limpos, ar condicionado, poltrona acolchoada, ausência de ambulantes, pastores protestantes e outros dantes, tão comuns em outras linhas. Abro o livro, tento ler entre as estações, o trem para, a porta se abre: Estação Berrini! O mau cheiro me interrompe. Fecho o livro e olho pela janela, o cheiro de esgoto lembra que á minha direita jaz um rio que já transportou vida. Olho novamente e meus olhos recriam as margens do rio com Pinheiros gigantes...

Vejo centenas de pássaros, aves de todos os tipos, batendo asas pelos ares, dando vôos rasantes na água, onde botos rosas nadam e capivaras se espreguiçam; vejo barcos cheios de turistas, que tiram fotos das belas pontes ornamentadas com estátuas de nossos grandes escritores e poetas. Vejo alguns pescadores, fazendo coisa proibida: não é possível pescar no rio. O rio tem cheiro de rio e o passeio em suas curvas, inspira atletas a correr por suas marginais, atrai estrangeiros assombrados com a recuperação do leito e fascina as crianças que matam aulas para aprender ao ar livre o que não está escrito nos livros.

São Paulo nunca esteve tão bonita e tão cheia de vida.

“ Estação Santo Amaro!” - Diz a voz gravada, as portas se abrem, meus olhos de poeta se fecham e o mau cheiro revela que nunca terei em vida, a chance de ver minha visão imaginada, se tornar visão vivida.

quarta-feira, outubro 22, 2008

JOVEM APRENDIZ

Sessenta olhos estudantes e curiosos, sessenta bocas que jogam perguntas petecas e eu respondo, jogando experiência de volta; pois não tenho respostas, apenas minhas estórias para contribuir para os seus estudos; ou com as suas vidas.

Fui convidado pela Nurap*(Núcleo Rotary de Aprendizagem Profissional), para fazer uma palestra em sua sede, no Broklin, e falar sobre a minha vida, minha carreira profissional, para sessenta jovens que participam de um projeto chamado Jovens Aprendizes. Meu currículo profissional e de vida, foi entregue a cada um deles, para que fosse estudado e que para que eles formulassem perguntas e saciassem as suas dúvidas durante a palestra.

Palestra? Não sou palestrante, sou apenas um falante, contente em contar estórias sobre as minhas caminhadas pelo Brasil e por outras tantas estradas. Estórias sobre as pessoas que conheci, as lições que tive; e que ficariam em algum lugar, perdidas em mim, se não tivessem virado crônica, conto que eu conto e desconto, pois cada uma dessas estórias contadas ficam encantadas e se transformam em borboletas sorrisos nos ouvidos de quem tem ouvido.

Meu currículo são essas crônicas, que volta e outra, presenteio a vocês. Meu resume são essas estórias que eles desejavam saber em mil perguntas sobre o que vi, por que parti, por que voltei ou se partiria de novo.

- O senhor parece ser tão decidido. Parece ter tanta certeza que fez a escolha certa;mas me diga, nunca teve dúvidas? Nunca se questionou se o caminho que o senhor escolheu foi mesmo o melhor caminho? – perguntou uma moça, potencial de estrela brilhando em seus olhos.

- Se tive dúvidas? Ainda as tenho! E todos os dias! – respondi, todos riram. – Todos os dias, me pergunto se os passos que estou tomando, são realmente em direção ao destino certo. Pode parecer insegurança, mas prefiro não ter certeza de nada. Quando questiono meus passos, valido cada um deles e renovo os meus sapatos da força de vontade. Sei que a qualquer momento, posso optar por outras estradas, mas se continuo nessa, é porque aprecio cada passo dessa jornada.


Notas do autor: o NURAP (Núcleo Rotary de Aprendizagem Profissional) é uma entidade sem fins lucrativos fundada em 1987 pelo Rotary Clube São Paulo Brooklin e Rotary Clube São Paulo Morumbi.

Para saber mais sobre a instituição e seus projetos sociais:


PÁSSAROMEM

As lendas falam sobre homens que viram lobos e mulheres que viram serpentes. Nunca conheci esse tipo de gente que vira cobra ou lobisomem, mas, não se assuste, caro leitor, com a minha confissão: a noite, enquanto o meu corpo dorme, desconfio que viro pássaromem.

Desconfio porque essa manhã, notei vestígios de asas em minha mente, e ainda há lembranças do céu cintilante ecoando em meus ouvidos. Há um perfume divino preenchendo todos os meus sentidos; um azul sutil refletido em minhas retinas; uma certeza que tudo que estou vendo agora, não é só isto, há algo além dessa cortina que chamamos de vida.

Há uma desconfiança que se eu esfregar esse plano com muita vontade e força, aparecerá um gênio que perguntará:

- Diga lá, o que você quer enxergar? Está preparado para ver o além das coisas?

E eu responderei, mas por respeito que medo:

- Quero ver nada, não, Seu Gênio! Tô contente com o que vejo. Sei que vôo a noite além do leito, mas também sei que o ajuste do astral é muito fino e direito. Já percebi que as lembranças dos meus passeios noturnos ecoaram no meu caminhar. Não quero ver nada além do que consigo enxergar.

terça-feira, outubro 21, 2008

Ai, se sêsse

Se um dia nóis se gostasse

Se um dia nóis se queresse

Se nóis dois se empareasse


Se juntim nóis dois vivesse

Se juntim nóis dois morasse

Se juntim nóis dois drumisse

Se juntim nóis dois morresse


Se pro céu nóis assubisse

Mas porém se acontecesse

de São Pedro não abrisse

A porta do céu e fosse

lhe dizer quarquer tolice


E se eu me arriminasse

E tu cum eu insistisse

pra que eu me arresorvesse


E a minha faca puxasse

E o bucho do céu furasse

Távez que nóis dois ficasse

Távez que nóis dois caísse


E o céu furado arriasse

E as virgi toda fugisse



Texto: Zé da Luz, Severino de Andrade Silva, nasceu em Itabaiana, PB, em 29/03/1904 e faleceu no Rio de Janeiro-RJ, em 12/02/1965. O trabalho de Zé da Luz, como era chamado, ficou conhecido pela linguagem matuta presente em seus cordéis.

AS DUAS PRIMAS

Duas rosas nasceram no jardim da Rua Luis Paulo Silva. Duas rosas parecidas e ao mesmo tempo distintas que a Jardineira Nivalda trouxe ao mundo para cuidar. Embaixo do pé de Cajazeiras, sob a sombra da Pedra do Sapo, vi crescer essas meninas sabidas e bonitas.

Rosa é bicho frágil, cuidar é desafio, e a Jardineira, as levou consigo para outros canteiros, cuidando sempre com carinho desses dois brotinhos, cujas pétalas foram pouco a pouco se abrindo, desabrochando bichinho cada vez mais lindo e se transformando pétala a pétala em lindas mulheres.

Sim, nos meus contos de fadas, as rosas são parentes e viram mulheres...

segunda-feira, outubro 20, 2008

TUDO É O QUE É ( Reflexões sobre o que ocorreu em Santo André)

Escrevo essas notas em folha em branco, enquanto ouço um CD da Constance Demby que lembra cantos angelicais. Não sou cristão, mas a melodia que evoca a presença dos anjos transborda meu coração de êxtase e minha mente, feito barquinho, vai navegando pelo sorriso de Cristo, que surge como se fosse um porto seguro no meio do mar turbulento.

- Ás vezes, eu tenho medo, Senhor - eu digo, mas ele nada diz – então lembro que tudo é perfeito, mas para que essa lembrança retorne, sei que preciso me conectar com a poesia, com a música e com a arte do sorriso, daí tudo fica bem mais bonito - eu digo, mas ele continua sorrindo, na certa, por eu ter criado e dado uma solução a minha lamentação no mesmo parágrafo ou por saber que estou falando tudo isso da boca para fora, pois ainda continuo com medo.

Saio da sala e vou para o quarto. Como moro no centro, basta abrir os olhos para ver o mar turbulento, além da janela, com os seus carros gritando, os prédios se contorcendo em gente mal morada e sinto vontade de ficar em minha casa-templo e completamente me isolar.

- A quem você engana? – diz o vento que bate em minha cara com palavras frias de primavera inverno - Seria tão fácil, não é? Morar no Tibet, viver só de oração. Estar enclausurado, não ter nenhum contato com essa população. Seria tão mais fácil não correr risco de ser assaltado, ser morto ou seqüestrado, ou ter alguém querido levado da vida por um desequilibrado... Seria tão mais fácil. A quem você engana?

Volto para a sala, o discurso do vento não ajudou, só piorou a minha sensação de saudade de algum lugar onde as pessoas não briguem por nada. A música continua tocando, não a ouço direito, estou ocupado com os meus pensamentos de desolado em terra estrangeira. Eu sou amor, não gosto de ver gente vestida de ódio. Eu sou luz, a escuridão me deprime e corrói a minha vontade de estar aqui.

Olho para Jesus e peço ajuda, quero ter esperança que tudo se resolverá, que um mundo melhor nascerá amanhã, sem violência, sem manchete explodindo em sangue na camisa, na vista, e em todo lugar. Ele continua sorrindo, mas fala pela música que entra pouco a pouco no meu peito, finalmente me tocando e limpando todas as janelas que foram abertas pelos jornais, revistas, rádio e toda sorte de mídia que polui o ar com o sensacionalismo da morte do vizinho.

A música e Jesus me dizem: “tudo é o que é”.

Estou sujo! Sujo de lamentações, reclamações, pessimista não com os fatos da minha vida, mas com o que querem que eu permita que tome conta de meus pensamentos. Já passei por isso antes, deveria ter aprendido, mas uso a desculpa de não ficar alienado, sem notícias, para abrir a porta da sintonia e acabo com a lama em minhas pegadas e com o lixo em meus escritos.

Tudo é o que é!

A música me limpa, vai dissolvendo lentamente o que deixei sujar, quando estive dormindo, achando que o que aconteceu com o vizinho é culpa do mundo em que vivo. Não existe culpado! Tudo é o que é; da maneira que precisa ser feito, da maneira que é. A grande pergunta, não é onde estava Deus que deixou tudo isso ter acontecido, e sim, faria eu, o mesmo destino? Minhas mãos seriam capazes de conduzir o que tinha que ser feito? Teria eu a fraqueza de ser o agente de tanta maldade?

Não! Mas essa resposta negativa, não faz com eu me sinta melhor do que esse pobre coitado que foi a força por trás do assassinato da menina do ABC que já tinha dia marcado. Nada disso. Ele não é um monstro, ele é apenas humano, sujeito a certas ondas que fluem pelo mundo e que canalizamos para o lado escuro da nossa alma. Somos todos farinha do mesmo saco. Sujeitos a todo tipo de sintonia e descontrole de emoção. Somos todos algozes e vítimas das ilusões que vedam as nossas vistas e amarram as nossas mãos. Somos todos iguais e se eu não sou capaz de cometer algum delito que envolva prejudicar o meu vizinho; não há nada do que se orgulhar disso. Na bíblia, a qual respeito, mas não considero ser o único livro sagrado (todos os livros o são), há uma passagem que diz “orai e vigiai". Nada a ver com a imagem pecaminosa e adulterada do diabo, mas tudo a ver com o que deixamos guiar as nossas emoções, com as ondas que sintonizamos em nossos corações, e com as sombras que por vezes, incorporamos; sombra esta que tem pouco do coletivo e muito de nós mesmos.

Tudo é o que é. A diferença está no que deixamos dentro da nossa casa morar...

Vou deixando a música me limpar. Cada onda sonora vai envolvendo partes do meu corpo, girando ao redor da minha aura. Cada nota tocada vai pouco a pouco limpando a minha casa, me levando a um estado de leveza, trazendo de volta a minha lucidez, a minha consciência, de que não há lugar melhor no mundo para eu estar, do que aqui mesmo; pois foi aqui que vim parar e é essa estrada que preciso agora caminhar, mas com cuidado para que eu não confunda as pedras com a própria trilha da vida.

Há muita coisa boa a ser vivida e espero sempre contar com a música, com a arte, com a poesia e com uma little help divina, para me dar forças, luz e sobriedade para entender que tudo é perfeito, e que depois da tempestade, o sol sempre volta a ocupar o seu lugar, no seu reino.


Notas: o CD da Constance Demby que eu escutava é "O Faces of the Christ". Trilha sonora de um documentário de mesmo nome. Para mais informações sobre a cantora:
http://www.constancedemby.com/

O Amor e a Pira

Quando o amor chegou
Não escolheu quando e nem que forma;
Mais ele jamais imaginou,
Que seria por aquela senhora.

Ela era tão formosa e tão bonita,
Que poetas inspirava.
Tão bela e forte como a vida,
Era para ele, a mulher que sempre esperara.

Mais o destino com seus próprios planos,
Agia em segredo e bem enigmático;
Aproximara os dois sem engano
Num evento cruel e trágico.

Ela acabara de enviuvar,
E conforme os costumes de seu povo
Ao seu marido deveria se juntar,
Sendo queimado viva na pira* junto ao corpo.

Por toda a sua vida ela sabia,
O que deveria ser feito;
E a morte já não era sua desconhecida,
Desde que o marido sofrera no leito.

O que ela desconhecia
Era que a vida tinha outros planos;
E novamente se apaixonaria,
Tendo que optar pela morte ou pelo amor de um estranho.

E o estranho lhe pedira,
Que optasse pela vida e não por seguir seu esposo;
E ela confusa não sabia,
Se seguia o coração ou pulava no fogo:

- Não posso mais viver doce estranho!
Se vivo, Kali me condena pelo resto da minha vida,
Não posso viver em desonra e remorso.
Reconheço que te amo, mais devo seguir a minha sina.

- Doce Senhora! Estranho não sou mais a sua pessoa.
Nem ao coração de quem me ama.
Continue viva e embora Kali rejeite a sua escolha,
Parvati abençoara a nossa chama.

E conta a lenda que a Senhora
Olhando o marido na pira em brasa
Mesmo contra a opinião de todos que a cercava
Optou pelo estranho por quem se apaixonara



Nota do autor:
* Era muito comum na Índia até o fim do século 19, que a esposa se matasse quando o marido morria. Muitas delas se atiravam na pira, onde era cremado o marido, por tradição e por crença que elas perderiam a honra se permanecessem vivas. A honra e a virtude até os dias atuais é muito importante para as mulheres na Índia, e era mais ainda no passado. Essa pratica foi proibida pelos britânicos que dominavam o pais naquela época, e o caso de um soldado inglês que se apaixonara por uma viúva que estava prestes a morrer, se jogando no fogo onde cremava o seu marido, tornou-se um símbolo em Calcutá e até hoje essa estória é contada de vila em vila, mais infelizmente essa prática continua sendo feita pelo interior da Índia, mesmo com todo o esforço do governo para evitar que isso continue ocorrendo.

** Shiva é uma dos principais deuses no hinduísmo.Juntamente com Brama e Vishnu. Parvati é a consorte de Shiva, e uma de sua faces é representada por Kali, segue abaixo uma boa definição tirado do site : www.eclubbers.net/mat_shiva.asp :

¨Os deuses Hindus são sabiamente representados em diversas formas, assim como os humanos mortais possuem diversos estados psíquicos e manifestações de personalidade. Estes estados são demonstrados através de personagens. Kali é uma das manifestações de Parvati, esposa de Shiva. Kali é Parvati enfurecida. É muito parecida com o próprio Shiva, pois representa a destruição e renovação da energia estagnada, aquilo que deve ser eliminado. Possui uma expressão feroz, é de coloração cinza, pois mora num campo de cremação, atividade muito comum na Índia. Tem quatro braços, demonstrando muita agilidade e força. Segura uma cabeça decapitada em uma das mãos e uma variedade de armas nas outras mãos. Usa uma guirlanda de cabeças, representando os demônios que conseguiu dominar, ou seja, nossos próprios medos. Assim como Shiva, Kali aparece para eliminar a ignorância, a falta de verdade e do bom senso que está dentro de nós, e que devemos retirá-los para equilíbrio e fortalecimento da nossa personalidade.¨

ACORRENTADOS

No elevador, cruzo com robôs murmurando frases repetitivas. No serviço, vejo condenados com os pés acorrentados na mesa. Onde estou? Por que estou desperdiçando a minha vida? Quero qualquer coisa nova, seja lá o que seja.

Quero gritar, me libertar, quero ar, quero fugir.

Por favor, alguém me tire daqui! Estou preso pelas contas que ainda estão por vir. Fui sentenciado para viver eternamente o cotidiano do estar aqui.

Socorro!!! Não quero virar andróide de gesto repetitivo e carinho programado. Alguém me ajude!!! Help!!!Quero ser libertado.

Quero ser gente, não quero ser máquina. Não sei se tenho mente ou se ela é apenas um programa corrente, mas quero pular essa etapa; pois não vou aprisionar o amor, mesmo com o risco do meu coração quebrar; não vou desistir dos meus amigos, porque outra pessoa me contou que eles não são perfeitos, (também não sou!); não vou abandonar os meus sonhos, sejam eles de qualquer tamanho em nome das prestações do carro, da hipoteca, dos presentes aos parentes que nunca ficarão totalmente contentes ou das prestações no cartão que prometem liquidar o saldo devido se os meus sonhos forem esquecidos.

Quero sol agora em meu peito e mesmo que eu tenha que pagar o preço, vou respirar o ar fresco de viver do meu jeito.

domingo, outubro 19, 2008

ALQUIMIA DE LETRAS

Sou aprendiz de feiticeiro das palavras, alquimista das frases, minha caneta é canto de sereia, atraindo, seduzindo e encantando as letras; para que eu consiga mostrar para os meus leitores as belezas de aqui estar.

Quero conduzir o meu leitor por esse universo mágico; da leitura, quero lhes dar; a alegria da ternura de desvendar, o prato pleno de perceber o mundo.

Por isso, faço versos, escrevo prosa, sobre o nosso cotidiano, sobre o nosso tempo. Não ouso grandes verdades tentar mostrar; se encontrei algo verdadeiro, somente é verdade para mim e pode nem ser colorido no olho amigo, portanto, faço do meu canto, a melodia de revelar a maravilha do outro, esse outro que passaria por você ou por mim, e seria apenas um outro e não esse ser tão maravilhoso com suas estórias e conquistas que tanto pode valor nos compartilhar; por isso sou cronista da poesia e tento retratar em letras a sua vida, a minha, a de todos que em meu mundo passar.

Cara de Domingo

Caem gotas de chuva na janela, nesse dia com cara triste. Tenho duas escolhas: ou eu fico com essa cara de domingo chuvoso ou coloco um sol no sorriso, para iluminar e aquecer as crianças brincando no parque do meu peito...


ESCRAVOS DA MINHA ALMA

Essa manhã, despertei com as vozes e rostos de milhares de consciências que estavam escondidas dentro de mim. Pensei que ouvia espíritos, que via rostos de antepassados, mas não era nada disso; o que via e ouvia eram meus rostos do passado: tudo o que eu poderia ter sido e nunca tive a chance de presente ter tornado.

Não eram rostos de vidas passadas, nem vozes do futuro. Eram palavras engasgadas que nunca foram ditas; o Frank que teve medo de manifestar a sua arte por medo do que “esse povo” pensasse; era o “eu te amo, amor” que ficou esquecido; foi o mentiroso que se escondeu com medo de encarar a verdade.

Foi preciso muita coragem para libertar esses “eus” escravos, mas assinei a Lei Áurea e libertei da minha alma, tudo aquilo que estava reprimido e condenado. Para isso, apenas bastou, reconhecer com muito respeito e amor, que não vou mais manter por medo de crescer, a escravidão dentro da minha alma.


A CORRIDA

Fiz-me carne para sentir o poder de manifestar o meu pensar no agir, o meu prazer no criar.

Esse cavalo que tenho montado, está preparado para correr certas distâncias, alcançar certas vitórias e durar o tempo certo; basta que eu aja correto, equilibrando o tempo de ver e o tempo dos olhos fechar.

O que sou não é uma ilha, por isso, ganhei uma família que me ensinou a arte de me relacionar; mas essas águas não são feitas apenas de rostos amigos, daí a bandeira do perigo, se eu não aprender a me sintonizar.

Fiz-me medo para preservar, adrenalina para reagir e saudade para querer aqui estar e ao mesmo tempo sentir falta de lá; mas assim como vim, hora dessas, vou partir, basta a minha corrida terminar.

sábado, outubro 18, 2008

ESCONDE- ESCONDE DO SENHOR MENINO

Aprendi desde cedo, que Deus era um velhinho, porém quanto mais caminho pela estrada do Divino; mas tenho certeza que se Deus tem cara de gente, só pode ser a face de um menino.

Dele, temos apenas o verbo e o verbo muda constantemente; foge que nem água pelas mãos da gente, toda vez em que teimamos segurá-lo.

Estudá-lo é sempre um passo a frente e dois para trás. Avançamos casas quando nos sentimos parte de tudo; regressamos duas casas quando tentamos rotular esse Menino.

Esse Deus-Menino se desfaça de vento, pois não cabe em gaiolas, faz pit-stop nos templos, mas prefere mesmo o ar livre dos parques, onde passarinhos cantam a sua glória; sem pedir nada em troca.

Estar próximo de Deus-Menino é não pensar sobre ele, como ensinava o poeta Alberto Caiero; é preciso ter coração ligeiro; pois o raciocínio é lento. A mente pensa duas vezes se o vento que tocou seu rosto é mesmo vento; o peito sente o carinho do ar é não perde tempo, sabe que é presente.

Ser inteligente é ter em mente que sempre haverá um segredo a desvendar; e não importa o quanto a arrogante mente tente ; pois para cada pista certa descoberta, sempre haverá outras tantas falsas, pois esse Deus-Peralta, sabe muito bem como esconder suas pegadas.


Imagem: Salvador Dali - The Book Tree

sexta-feira, outubro 17, 2008

ERA UMA VEZ...UMA Polícia

Era uma vez um país onde a Polícia atirava na própria Polícia e a bandidagem ficava cada vez mais unida. Sem recursos do governo e sem mesmo dinheiro para pagar as contas, a Polícia fazia greve que durava semanas e a bandidagem sabida, se armava e aproveitava a fragilidade da Polícia, para continuar tomando terreno nos morros, nas periferias, nas portas das escolas e até mesmo nas delegacias, onde as contas eram pagas e o leite das crianças dos carcereiros estava em dia, com a graça do dinheiro que fluía do tráfico nosso de cada dia.

Era um país engraçado, onde a Polícia feria a própria Polícia e a bandidagem soltava fogos nas favelas, dançando a dança do quadrado; fazendo a festa, rindo a toa da Polícia atrapalhada que sem o devido preparo nem sabia lidar bem com o rapaz maluco que encarcerou a ex-namorada no ABC e a exibia pela janela.

País onde a população desprotegida não sabia se temia mais o bandido ou a própria Polícia. País que é lindo de morar, mas a cada dia que passa se torna cada vez mais perigoso de viver.


Imagem: http://ricardojacob.org/?p=75

Foi ? Não! É ...

Não foi, é...

Jurei que era ela, o meu amor; mas amor sempre foi, o que não foi, era o meu amor por ela, pois depois que ela se foi, o amor ainda estava lá. Nunca foi por ela, o amor era pelo amor.

O amor indenpende de rosto, dele ou dela; o amor é... apenas é...toda essa novela mexicana, esse drama americano, essa comédia romântica tupiniquim são apenas cenários, onde esse amor se manifesta em você ou em mim.

Chore o que for, ria o que der; o amor sempre será amor, não importa o rosto do seu homem ou da sua mulher.

RELÓGIO

Cada trabalho é necessário
Para edificar o cenário

Cada roupagem é uma peça
Mecanismo da Misteriosa Engrenagem

Ponteiro de mim, minuto, segundo e fim
Ponteiro de você, hora e meia, meia e hora a tecer

Peças vivas do Grande Relógio

Cada um com a sua função
Cada um com a sua sina
Cada um com o seu som
Nesse tic tac da vida

quinta-feira, outubro 16, 2008

DIETA ESPIRITUAL

Ele achou que indo ao templo uma vez por mês, resolveria as suas questões existenciais; que se contasse ao terapeuta, como estava a sua vida, tudo se resolveria como num passe de mágica. Tanto uma coisa quanto a outra ajuda, não há dúvida; mas do que vale perder um quilo no spa e de volta a vida, ganhar dois quilos a mais?

Estudar espiritualidade exige firmeza. Não basta se alimentar de tudo que há fartamente na mesa, e depois ficar uma semana sem comer nada. Espiritualidade é prática diária, começa no momento em que você acorda, até o momento em que você desperta.

Cadê a certeza profunda? Cadê a prática do fazer? Ficou para a próxima segunda? Isso é preguiça de agir ou medo de crescer?

Cadê o equilíbrio, menino que deseja saber tudo e não pratica nada? Cadê o ritmo dessa caminhada que exige os dois pés constantemente na estrada?

Caminho espiritual é compromisso, não é piada!

Firmeza, homem! Clareza, mulher!

Enxergar é para quem pode e não para quem quer.

quarta-feira, outubro 15, 2008

CONTATO IMEDIATO

Ele caminhava na solidão da noite, acompanhado por um cachorro vadio, que teimou em segui-lo, como se confundisse o rosto do andarilho com o de um dono perdido. Eles andavam por uma rua escura e suspeita, dessas em que qualquer sombra movendo-se ou silhueta faziam bater mais rápido o tum tum do peito; mas não tinha outro jeito, aquele era o único caminho até o ponto de ônibus, que nunca esteve tão longe.

Foi nesse espaço entre o caminhar até lá e o já ter chegado, que ele notou algo surgindo no céu que o deixou assustado. Não conseguiu seguir adiante e o cachorro, também assombrado, latiu e se dispôs a uivar.

Paralisado diante daquela presença, tudo o que ele conseguiu fazer foi olhar; pois por de trás de uma nuvem, ela surgiu prateada; parecia um disco, toda iluminada.

Encontro como esse nunca se viu igual: a lua, o moço e o cachorro em contato de diversos graus.

Ele começou a recitar uma poesia, ela encabulada, permaneceu calada; o cachorro não quis segurar vela, e partiu; não teve dúvida, inspirado, foi procurar uma cadela.

Obrigado Professor!

Dedicado ao Professor e amigo Wagner Borges


Por todas essas lições de amor e de discernimento. Você foi, é e sempre será as bases para o meu fundamento espiritual, pois sempre ensinou que é preciso firmeza, mas ao mesmo tempo carinho nos estudos do mistério do Divino.

Ainda lembro a primeira aula sobre os fascinantes chacras, quando você brincava com os nomes errados que davam para a aura e entre piadas, canções, arte e muita boa vontade; dividia conosco, todo o aprendizado que você trazia, das muitas caminhadas dessa e de outras vidas, apenas pelo prazer de compartilhar com alegria.

Aprendi com você, que nos estudos espirituais temos que sempre manter o bom humor e que solos de guitarras progressivas podem ser mais projetivas que músiquinha de elevador.

Você me ensinou que muitos são os caminhos para o Senhor, e que eu não me surpreendesse, se ao invés de encontrar um velhinho sisudo, topasse com um menino sorrindo, brincando de construir mundos ou uma mulher linda e protetora, cujos cabelos formam o mar, as estrelas e a nossa roupa; sim, foi com você que aprendi, que usamos uma roupa para entrar e nos despimos dela ao sair; pois somos mais do que o corpo fisíco, aliás, não somos nem isso ou aquilo, somos neti neti.

Professor, você é o cara, pois tinha tudo para criar religiões, seitas e ter uma centena de "irmãos" te seguindo; mas optou por nos ensinar o outro caminho, aquele que um Professsor, é acima de tudo, um grande amigo.


Para conhecer um pouco mais sobre o trabalho do Professor Wagner Borges:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Wagner_Borges
http://www.ippb.org.br/

terça-feira, outubro 14, 2008

BÊBADO DE POESIA

Para Paulo Bomfim

Desculpem-me se escrevo essas linhas com letras embriagadas. É que bebi a noite em copos de lua* e como aperitivo, comi estrelas.

Não sei onde vou parar, nem o que vou escrever; só sei que quero também te embriagar, toma aqui um copo de poesia pra você.

Venha cantar comigo pelas ruas da vida, a alegria de estar bêbado de poesia.

Venha celebrar a vida, que eu seja letras e você leitura sabida; leia nas entrelinhas, esses soluços de amor que são ecoados dos confins do universo. Xiii...acho que bebi Deus também!


Notas:
1. Para conhecer um pouco mais sobre Paulo Bomfim, esse grande poeta paulista, autor da frase "bebi a noite em copos de lua":
http://www.academiapaulistadeletras.org.br/cur_35.htm
http://www.jornaldepoesia.jor.br/pbonfim.html

2. Imagem: http://www.repoetas.blogger.com.br

segunda-feira, outubro 13, 2008

ENCANTADOR DE PENSAMENTOS

Estou tentando permanecer com a mente vazia. Explico, tento navegar com lucidez pelo meu mar turbulento de pensamentos e quanto mais longe avanço, maiores são os meus ganhos. Parece loucura? Que nada! Insanidade é essa confusão de pensamento que não me deixa pensar direito.

Casa limpa é casa vazia. Até gosto das visitas, mas aparece cada coisa, que ás vezes me assusta. Principalmente antes de dormir...

Há uma propaganda na televisão sobre um jornal para executivos que mostra um executivo sendo abraçado por sua esposa na cama, enquanto sua mente pensa em gráficos, números e valores. A música em inglês de fundo diz: "we´ve got no time". Eu hein? Nem pensar! Como na canção do Kleiton e Kledir, ficar pensando em outras coisas na cama, que não em dormir ou fazer amor? Nem pensar!

Contudo, é assim que nos ensina a cartilha do mundo moderno: Desocupado é vagabundo; ocioso é doido; mente vazia é oficina do cão. Do cão??? Acho que não!

Mente vazia é morada de passarinho, pois somente sem os entraves dos mil pensamentos, que podemos bater as asas e ir além do tempo, do espaço, rumo a quem somos de verdade. Sim, tenho feito isso e tem funcionado. Antes de dormir, tenho meditado. Nada parecido com aquela coisa meio zen futuro, de pose de yogue e OM absoluto. Sou cabra macho e não faço essas coisas ( pelo menos não mais agora). O que faço é observar o balanço do pensamento, sem tentar domá-lo. Sim, já tentei dominá-lo e levei na cabeça. Pensamento é cavalo brabo, quanto mais força fazemos para laçá-lo, mas o bicho fica danado e dá coice para tudo que é lado. Por isso, vou meio de mansinho, tentando encantá-lo. Observo o bailado, meio que se eu estivesse desligado, pensando em outra coisa e quanto menos dou bola, mais ele fica calmo, sereno e dentro do seu cercado. Sim, há encantadores de cavalos e eu sou encantador de pensamentos, pois tendo esses moleques pirracentos controlados, posso soltar os meus pássaros e voar sossegado.

Confesso que a primeira vez que os encantei, fiquei sentindo um vazio danado. Achei esquisito e até senti medo. Cadê aquele pensamento bobo, Meu Deus? Cadê aquela preocupação sem futuro? Cadê aquele pensamento mortal? Em princípio, fica mesmo um buraco na mente, pois acostumado com o barulho da mente, a casa vazia nos causa certo receio. Afinal, toda aquela enxurrada de pensamentos nos dá uma falsa sensação de segurança e conforto. Porém, é somente com a casa vazia que conseguimos pôr as contas em dias, investigar cada quarto, perceber coisas que pareciam não estar por lá antes e nos darmos conta que se a nossa casa é bem maior do que pensávamos, imagina o que há além do quintal...

domingo, outubro 12, 2008

SALVE RAINHA APARECIDA

Havia um quadro que eu não conseguia entender e uma oração que eu não conseguia decorar.

Havia mil Nossas Senhoras, muitas das quais, eu não sabia o nome, nem porquê. Porém, havia Aparecida, a Nossa Senhora que tinha a minha cor.

Sei lá, ela pareceu mais perto de mim; não sei se pelo quadro, ou pela oração, ou pela cor...vai saber o que cativa o nosso coração.


Salve Rainha

Salve, Rainha,

Mãe misericordiosa,

vida, doçura e esperança nossa, salve!

A vós brandamos os degregados filhos de Eva.

A vós suspiramos, gemendo e chorando

neste vale de lágrimas.

Eias pois, advogada nossa,

esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei,

e depois deste desterro mostrai-nos Jesus,

bendito fruto de vosso ventre,

ó clemente,

ó piedosa,

ó doce sempre Virgem Maria.

Rogais por nós Santa Mãe de Deus.

Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Amém.

VAGAMUNDO KID EM: O DIA DAS CRIANÇAS

Um dia desses, eu era bem pequenino, correndo pelas ruas da Paraíba, já ensaiando ser um andarilho.

Foi em um doze de outubro que ganhei um presente que me transformaria no Vagamundo Kid, a semente do viajante que viria a ser um dia.

Família pobre não comemora Dia das Crianças, assim, eu não sabia o que estava perdendo, só quando a escola me lembrava que nesse dia, todas as crianças ganhavam brinquedos; e eu não era uma dessas crianças.

Eu era menino sem brinquedo, mas com imaginação multiforme. Minhas caminhadas pela cidade eram jornadas épicas, onde meus heróis de papel salvavam o mundo dos grandes vilões. Não precisava de playmobil ou de miniaturas dos meus heróis favoritos; se eu podia com um papel, um lápis e alguns riscos, criar o herói que quisesse, bastava ter uma imaginação sem limites.

Meus heróis de papel cabiam todos no meu bolso, ou dentro do meu caderno; ninguém os desejava, assim, não corria risco de furto de olhos invejosos de menino, coisa comum entre meninos que não eram criativos; e como eu não esperava presente algum, não entendia a razão pela qual meu amigo da classe reclamava do presente que ganhou:

- Meu pai me deu um Atlas! Um Atlas! Como posso brincar com um Atlas? - reclamou Helânio, segundo ele, tinha razão, afinal já havia ganhado os bonecos dos Comandos em Ação, do He-man, banco imobiliário, e centenas de cartuchos para o seu Atari - Vou jogar essa droga fora! Qué procê?

O Atlas era lindo. Tinha uma capa preta, com a imagem do planeta, era grosso e pesava uns dois quilos, achava eu; e era grande, maior que os livros da escola.

- Última chance? Qué?

Ninguém notou em casa, que aquela tarde, eu cheguei com um livro novo. Não era costume de meus familiares repararem em meus livros ou cadernos. Após o almoço, coloquei "meu" Atlas novo sobre a mesa e pela primeira vez, viajei pelo mundo.

Já havia visto um Atlas anteriormente na escola, mas não contava, pois tudo o que fazemos por obrigação, a memória não cativa e guarda. Fui de uma América a outra, como na música do Toquinho, em um segundo. Atravessei o Atlântico e invadi o velho mundo, como um pirata dos sete mares. Viajei pela Europa e atravessei a Rússia, indo parar no frio da Sibéria; caminhei pelas muralhas da China, e surfei com os aborígines nas ondas da Austrália. Pequei carona com uma gaivota e atravessei o Pacifico, voltando para casa, mas antes passando e ficando um pouco, lá pelo fim do mundo, em Ushuaia, a Terra do Fogo.

Jurei sob aquele livro aberto na mesa, que um dia, faria essa viagem de verdade. Conheceria todos esses continentes, oceanos, culturas e sociedades; e fechei o livro, com os olhos brilhando de sonhos a serem realizados. Palavra de Vagamundo Kid!

Ficaria a tarde toda, pensando no Haiti ou nas praias de Goa, se não ouvisse alguém batendo na porta da casa da minha vó. Era o pai de Helânio, com o moleque arrastado pela orelha, perguntando para a minha vó, se o tal amiguinho neguinho do seu filho querido estava em casa.

Antes não estivesse.

Minha orelha sofreu a mesma pena, mas punição não merecida; afinal eu não havia pedido nada; e agora sofria o castigo dos presentes dados entre meninos, sem um adulto aprovando.

Entreguei o livro, com muito custo, dado não era roubado; mas meu amor a minha orelha esquerda era maior que o meu amor iniciante pelo mundo.

Helânio teve de volta o seu livro; e eu fiquei a semana inteira de castigo; mas era tarde demais; o Vagamundo Kid já havia nascido. Era só uma questão de tempo entre o sonho desejado e o sonho cumprido.


F.O

Nota do autor: eu havia me esquecido dessa lembrança do Atlas e do Vagamundo Kid, até essa tarde, quando ouvi num antigo CD, a canção "Amigo do Sol, Amigo da Lua" do cantor Benito di Paula. Essa canção era trilha sonora da novela global "A Gata Comeu" de 1985, e naquela epóca, tocava no rádio sem parar.

Incrível como algumas canções são máquinas do tempo...

Abaixo, a letra dessa canção:



Amigo do Sol, Amigo da Lua
Benito Di Paula
Composição: Benito Di Paula / Márcio Brandão

E ê criança presa ê, brinquedos de trapaças
Quase sem história pra contar
Você criança tão liberta me tire dessa peça,
E assim ter história pra contar
Estrela que brilha em meu peito e me leva pro céu
Em cantos cantigas canções de ninar
Me deixa no galho no galho da lua
No charme do sol pra me despertar

Estrela que brilha em meu peito e me leva pro céu
Encantos cantigas canções de ninar
Me deixa no galho no galho da lua
No charme do sol pra me despertar

Vem amigo nadar nos rios
Vem amigo plantar mais lirios
No vale no mato e no mundo vamos brincar
Vem amigo nadar nos rios

Vem amigo plantar mais lirios
No vale no mato e no mundo vamos brincar


Nota do autor:
1. Mais informaçôes sobre o cantor Benito de Paula e a sua discografia:
http://cliquemusic.uol.com.br/artistas/benito-di-paula.asp

2. Imagem: http://www.fabiocampana.com.br/
Abaixo, informação colhida no site sobre o autor da fotografia:
Foto de Araquem Alcântara. Segundo Rubens Fernandes, crítico de fotografia: " Araquém é andarilho, viajante, pioneiro na documentação ambiental contemporânea. Ele faz poemas visuais e usa a fotografia como arma de conhecimento e prazer. Seu trabalho é um dos primeiros a criar uma memória e uma identidade visual para o país, transportando-nos para espaços desconhecidos e de raríssima beleza. Um olhar politizado e esclarecedor, necessariamente exaustivo e paciente, marcado pelo encantamento de revelar a dignidade do povo brasileiro e a exuberância de nossa natureza. Araquém é um colecionador de mundos”.

Os Doze Trabalhos

- Quantos caminhos, caro oráculo, eu devo ainda percorrer? Já realizei os doze trabalhos, já atravessei as sete rodas; já abri diversas portas e não há sinal que percorro o caminho da luz.

- Há muitos outros caminhos, novas rodas, misteriosas portas o aguardando, poeta, até que você compreenda que o destino da sua jornada é a própria estrada.

Imagem: Oráculo de Delfos, Grécia.

sábado, outubro 11, 2008

THOR

Eu nasci com vontade de plasmar universos, conquistar tesouros, construir castelos sob o poder da minha espada letras. Nasci meio torto. Não era Drummond, mas um anjo nervoso veio dizer a minha mãe:” esse neguinho poeta, nasceu para martelar versos”.

Sou um martelador de versos, pois não sigo as regras da poesia; só escrevo o que me dá vontade; só poeto o que me dá alegria. Se eu tivesse que seguir as normas, não faria poemas nuvens, estaria fazendo portas; e talvez essa inspiração torta, morreria na praia do texto interrompido e nunca compartilhado, por não ter um formal estilo. Não quero isso!

Gosto de dar cor aos olhos do leitor amigo; quero ele saboreando cada palavras, desde o principio até o fim; por isso, desculpem-me os críticos, sou escritor apenas de mim.

sexta-feira, outubro 10, 2008

ODE AS FORMIGUINHAS

Segue firme a formiguinha, carregando a folhinha, sem se importar com os meteoros pés-gigantes; sem se preocupar com o que haverá depois ou com o que houve antes.

Segue firme a formiguinha, carregando a sua folhinha; segue pequenina tão desprotegida, seguindo a sua vida, que pode durar anos, horas ou dias; mas segue feliz em sua sina, sendo refletida nos olhos do menino crescido que ainda vê graça em observar a jornada das formiguinhas.

Uma formiguinha sozinha não faz inverno; duas formiguinhas não formam um formigueiro; uma gotinha é assunto sério, duas é aguaceiro.

Vida dura é ser formiga, mas nunca ouvi falar na vida de uma formiguinha suicida...

ENTRE-MUNDOS

Que coisa triste é não fazer parte da festa; olhar a celebração pela janela, não ser convidado para entrar.

Aqui fora faz tanto frio, há ausência de abraço amigo, falta permanência, tudo tem cara de perigo.

Bato na porta em busca de abrigo.

Grito: mãe, joga a chave!

Mas nada do que eu faça, importa. Meu perfume tem cheiro de inimigo; insisto, mas minha sombra é meu próprio entrave.

Valei-me papai do céu! Mãezinha, por favor, salva o seu filho. Tenho fome de mel, tenho sede de vinho. Quero bailar com os meus amigos, quero provar novamente da vida sem frio.

Estou tão cansado de ficar sozinho, nessa jornada de estar desencarnado do corpo e perdido do espírito.


Imagem: http://www.salves.com.br

quinta-feira, outubro 09, 2008

RETRATOS


Quando eu penso, formam-se imagens que são quadros para os que estão vivos.

Quando eu falo, formam-se livros que só podem ser lidos por quem tem ouvidos.

Quando eu finalmente ajo, minhas atitudes viram melodias em ondas sutis e finas que só podem ser percebidas por quem está em sintonia com o que há de mais belo na vida.


GERAÇÕES EM MIM

Ontem fui dormir criança e hoje acordei adulto.

Valei-me Nossa Senhora!

Se amanhã eu despertar velho, que eu seja adulto o suficiente para me manter criança.


INDIGESTÃO ESPIRITUAL

Estudar espiritualidade é alegria de confeitaria, pois descobrimos que muitos são os doces.

Contudo, o Ministério do Discernimento e dos Pães de Mel adverte:“ Equilíbrio, menino! Coma um doce por vez. Dê ao sabor, o tempo certo, não engula, deguste.”

A doceria do Senhor, fica em uma ponte: de um lado, o gosto doce da teoria, do outro a indigestão da falta da prática.

PONTO SEM RETORNO

“Amigos e inimigos estão, amiúde, em posições trocadas. Uns querem mal, e fazem-nos bem. Outros nos almejam o bem, e nos fazem tão mal”
Rui Barbosa

Quando atravessei a ponte para o outro lado, vi uma placa, que dizia:

“ Caminhante, aqueles que atravessam essa ponte, não podem mais retornar ao seu lugar de origem. Deseja ainda assim atravessar?”

Senti medo. De um lado da ponte, ficava a casa de onde vim, onde deixei sossego, segurança e conforto. Além da placa, havia um lugar desconhecido, que não tinha cara de bom amigo, que assustava, preocupava, inseguramente me deixava.

Percebi que tinha a escolha de prosseguir ou voltar. Não havia nada de errado em desistir, nem nada tão certo que valesse a pena continuar. Era a minha decisão, e a ninguém eu devia explicações sobre os meus caminhos.

Poderia desistir... mas não o fiz, e segui a ponte até o começo da outra estrada.

Ainda caminho, ainda estou descobrindo.

Não sei o que me espera além da curva, nem sei que mistérios serão revelados além da montanha, mas estou preparado para experimentar o novo a cada dia.

Para frente e avante, asas que ousam!!!


Imagem:

quarta-feira, outubro 08, 2008

INCORPORANDO O ANIMAL DE PODER

Era um ritual xamânico, onde deveríamos descobrir e incorporar o nosso animal de poder. Já havia visto médium incorporando médicos, arquitetos, escritores, orixás e preto-velhos, mas jamais pensei que fosse possível incorporar um animal, a moça que conduzia o trabalho dizia que sim, que era até normal.

- “Fechem os olhos, respirem fundo!” dizia a moça, bem bonita por sinal, vestida de índia, com roupas compradas na Rua Vinte e Cinco de Março. – “Imaginem o seu animal de poder”.

Quando o assunto é visualização, sou cego de nascença; daí a minha dificuldade: pelejei, lutei, afastei todos os pensamentos, mas tudo o que eu conseguia visualizar era a minha frustração.

“ Esse animal sempre está perto de você.” – dizia ela, voz macia, de quem fazia aquilo o tempo inteiro – “ Não tenha medo. Incorpore o seu animal”

- Iaaaaáaaaaaaaa!!! - Alguém gritou do meu lado, me dando um susto danado. Pelos gestos e gritos, o sujeito que lembrava uma pomba no cio, parecia ter incorporado uma águia.

- Aaaauuuuuuuuu!!!!! - Uivou um lobo do outro lado. Era um sujeito gordo, de pochete vermelha na cintura. Pelos grunhidos que ele começou a fazer, juro que pensei que ele tinha incorporado um porco.

- Rooouurrrrrr!!!! - Rugiu um urso, na fila da frente, que de tão magro, mas parecia um louva-deus.

Frustrante aquela festa na floresta. Constrangido pela minha incapacidade de médium de animal de poder, fiquei olhando aquele cenário do Rei Leão, bem contrariado, mas para tornar as coisas piores ainda, fui repreendido pela moça que conduzia o trabalho, que havia notado que há tempos, meus olhos observavam tudo ao meu lado.

Fechei os olhos, e tentei novamente me concentrar, e surpresa: senti que havia um animal do meu lado. Minha cabeça começou a mover para cima e para baixo, senti que um longo rabo balançava para os lados, só podia ser o meu animal do poder me incorporando, só podia ser uma serpente, esse animal tão poderoso que representa o perigo do veneno e a renovação da vida, que é o símbolo da medicina e da sabedoria.

Que legal, pensei, enquanto minha visão ia ficando verde e a minha língua começava a falar serpentês.

- Sssssssserpeeeeenteeeeee!!! Tentei falar, mas nada saiu.

Tentei uma vez mais, mas minha língua parecia presa, nada de fluência em serpentês; onde estava a serpente, a cobra? Não estava, pelo contrário, comecei a sentir que incorporava outro réptil. Se não era a serpente, eu só poderia estar incorporando a multiplicidade do camaleão, ou a força do crocodilo, mas não, não era nenhum desses bichos não. Inconformado, decidi acabar o transe e ir embora...

- O que houve? Aonde você vai? – perguntou a índia do Paraguai, quando me viu levantar, pegar as minhas coisas e ir à direção da porta.

- Pó, de todos os animais que eu poderia incorporar, tinha que ser o Calango, meu? – respondi irritado com meu orgulho de médium ofendido - Tô fora!!!


Imagem: http://www.prac.ufpb.br/projetocalango/img/calango_na_prancheta.gif

terça-feira, outubro 07, 2008

A VISITA

Senti a "indesejada das gentes*" chegando; atraída pelo meu torpor. O vento balançou diferente, a lua outro brilho mostrou; vi as estrelas se afastando e a noite durando mais que um dia.

A casa estava arrumada, as contas estavam pagas; e pela primeira vez na vida, eu estava totalmente feliz, tão feliz que nada mais me importava; foi quando ela bateu na minha porta, com a sua longa foice e o seu capuz que não sei bem se escondia trevas ou luz.

Não havia como escapar; se era a minha hora, eu tinha que ir; mas por que partir agora? Havia tanto a conquistar...

Então, encarei a Guardiã dos Sete Véus e a indaguei:

- Devo mesmo aceitar o seu convite?

Nesse momento, o capuz caiu, a foice virou um ramalhete com flores e vi uma moça linda, quase uma menina, com um sorriso doce, olhos brilhantes cheio de vida, que nada tinha a ver com a Senhora das Valkírias , e ela me disse:

- Não vim por ser hora, vim porque foi você quem chamou; quer mesmo partir? - disse ela, com voz doce e familiar, já a tinha ouvido tantas vezes, mesmo que eu não conseguisse naquele momento me lembrar onde ou quando.

- Com tanto lugar para ir, com tanta coisa para realizar; desculpe moça, mas eu quero mesmo é ficar por aqui.

- Então, levante o corpo e erga a sua mente - disse ela, vestindo novamente o seu capuz - Deixe o sofá para quem está doente e quem precisa mesmo comigo encontrar. Não importa o quanto você conquistou, não se deixe acomodar, vá a luta. Só para na pista, quem desse mundo cansou.
F. O
Notas do autor: A "indesejada das gentes", é como o poeta Manoel Bandeira, chamada a morte. Sua companheira por toda a vida.
Imagem: A personagem Morte foi criada por Neil Gaiman, para as estórias do personagem Sandman. Para quem gosta de quadrinhos, vale a pena conhecer esse trabalho, mais informações no site abaixo:

segunda-feira, outubro 06, 2008

APARTA A MENTE

Quero mudar para uma casa onde eu possa plantar lindas mudas de flores, em que minha mulher e minha filha, minhas duas queridas, meus dois amores, possam pisar no chão.

Estou cansado de viver nas alturas, preso numa gaiola, sem céu aberto, onde as paredes têm vizinhos

CHORAR PARA QUÊ?

O avô havia morrido, a netinha não entendia por que todos estavam chorando tanto ao redor do caixão. Intrigada, aproximou-se da sua mãe e perguntou:

- Mamãe, por que todo mundo está chorando?

- Porque eles estão tristes com a partida do seu vovô.

- E para onde foi o vovô, mamãe?

- Ele foi morar com o papai do céu.

- E isso é triste?

sábado, outubro 04, 2008

PRISIONEIRO DAS PALAVRAS

Tornei-me prisioneiro das palavras, na torre alta da vontade de expressar a alma pela boca, palavra dita é algema, que acorrenta o infinito pensamento em uma cela pequena, na prisão da boa intenção do aconselhamento, da critica ou do cumprimento.

Silêncio! Que doce mel é o silencio. Diante do amargo aconselhar. Afinal, se conselho fosse bom, seria dom, e não apenas vontade de dizer ao outro, como caminhar. Imaturidade, pois conselho bom é boca calada e conselho dito é coisa triste e miúda que não representa nenhum pouco, a amor de quem preserva e cuida.

Quero- te bem e meu cuidar não pode ser expresso em palavras, que por serem limitadas, correm o risco de te machucar; por isso, rogo ao Deus dos conselhos nunca ditos, que sacie a minha boca com o cálice do silêncio. Pois desejo que de minha boca, saiam apenas palavras passarinho que faça meu ouvinte voar ou frases flores, cujas pétalas não diga nada, já que é no perfume, que se fala tudo.


Imagem: http://www.nandinhalucena.blogger.com.br/macaquinhos.jpg

sexta-feira, outubro 03, 2008

MÃE DA OCA

Com olhos curiosos, minha vó nos olhava. Seus olhos diziam coisas que a boca não revelava, enquanto minha irmã e eu, falávamos sobre espiritualidade, deuses e deusas. A conversa seguia animada, maninha e eu falando, vó escutando e minha mãe massageando a farinha de mandioca. Tarde agradável na casa da Dona Graça, no já tradicional Café com Tapioca. Eu sabia que minha vó diria algo a qualquer instante, só não esperava que fosse algo tão surreal:

- Vocês são muito sabidos! – disse ela com o seu tom de voz nordestino e a sabedoria dos seus quase setenta ciclos – Se vocês são tão sabidos e eu sei que são, me respondam isso – qual é o alimento que melhor representa o ciclo de morte e vida?

- Alimento? – perguntei, coçando a cuca. Minha irmã olhou, e me disse que não entendia onde nossa vó queria chegar com essa estória de “sabidos”. Eu não era nem entendido, quanto mais sabido. Nem minha irmã, parecia ter a menor idéia de como responder aquele desafio: de um lado uma mulher graduada pela vida com filhos, netos e bisnetos; do outro lado, dois jovens tolos que falavam sobre tudo o que pensavam, mas não praticavam metade daquilo que estudaram.

Fingi que sabia a resposta e fiquei calado, minha irmã cometeu o erro de tentar adivinhar, mas é claro que não acertou, a resposta vinha da linguagem de mundo da minha vó.

- O Neguinho sabe, não sabe Neguinho?

Quem eu? Eu? Minha irmã, olhou-me com desconfiança. Meu silêncio não era de resposta encontrada e sim de em boca calada...

- Sua mãe está com as mãos na resposta.

Olhamos para a Dona Graça e vimos apenas ela mexendo na massa da tapioca.

- A Tapioca? – perguntamos os dois ao mesmo tempo.

- Não! A Mandioca! - respondeu ela.

- A Mandioca? - perguntamos os dois ao mesmo tempo de novo.

- Sim, a mandioca! Olhem para o nome do alimento: man di oca, mãe da oca, mãe da casa. Que outro alimento, sai da terra para nos dar vida; que outro alimento cai em semente e vira na terra, alimento novo, que tenha nome tão maternal, tão mulher. A mulher é o ciclo da vida, assim como a Mãe Santíssima, e elas são bem representadas na nossa terra pela mandioca.

Mãe di oca??? C´mon!!!!

Quis dar risada, mas calei-me, pois aquela etimologia não parecia corresponder a fatos. O professor de português falou mais alto e não digeri a sabedoria da minha vó, nem minha irmã.

Contudo, a mandioca permaneceu comigo todo fim de semana e comecei a pesquisar sobre o assunto. O que compreendi é que a mandioca ( ou aipim ou macaxeira) é um alimento que tem origem indígena e foi cultivada por varias nações das Américas, antes mesmo da invasão européia. É um alimento tão importante na vida do índio que existe varias lendas envolvendo o surgimento dessa raiz que se tornou alimento. Uma delas que encontrei no wikipédia e diz:

“ Conta a lenda que em épocas remotas, a filha de um poderoso índio da tribo tuxaua foi expulsa de sua tribo e foi viver em uma velha cabana distante por ter engravidado misteriosamente. Parentes longínquos iam levar-lhe comida para seu sustento, e assim a índia viveu até dar à luz uma linda menina, muito branca, que chamou de Mani.

A notícia do nascimento se espalhou por todas as aldeias e fez o grande chefe tuxaua esquecer as dores e rancores e cruzar os rios para ver sua filha. O novo avô se rendeu aos encantos da linda criança, que se tornou muito amada por todos. No entanto, ao completar três anos, Mani morreu de forma também misteriosa, sem nunca ter adoecido. A mãe ficou desolada e enterrou a filha perto da cabana onde vivia e sobre ela derramou seu pranto por horas.

Mesmo com os olhos cansados e cheios de lágrimas, ela viu brotar de lá uma planta que cresceu rápida e fresca. Todos vieram ver a planta miraculosa que mostrava raízes grossas e brancas em forma de chifre, e todos queriam prová-la em honra daquela criança que tanto amavam.

Desde então a mandioca passou a ser um excelente alimento para os índios e se tornou um importante alimento em toda a região.

Mandi = Mani, nome da criança. oca = casa.”

Linda menina, sacrificio, morte, renascimento. Mani...humm...que piada que nada. Cala-te ego, e que os meus ouvidos sempre estejam abertos para essas pérolas dessa gente que aprendeu tudo que sabe na melhor escola que há: a própria vida.


Notas do autor:


Informação sobre a lenda da mandioca: http://pt.wikipedia.org/wiki/Mandioca

Imagem: http://www.rosanevolpatto.trd.br/mandioca01.jpg

OS DOIS RUBENS E OS PÁSSAROS

Como Colombo, descobri as minhas Índias Literárias nas palavras de dois Rubens.

Que deliciosa descoberta foi conhecer Rubem Braga, navegar em suas crônicas, ancorar no porto da sua poesia e mergulhar nas águas cristalinas da sua prosa bem escrita.

Cronista aprendiz; nunca li leitura mais prazerosa e mais bonita, e se o Senhor Braga não estivesse, nesse momento, escrevendo as suas crônicas nas cachoeiras do outro lado da vida, eu iria até a sua cidade, Cachoeiro de Itapemirim, só para lhe dizer algo assim:

"Rubem, sou grato por cada palavra. OBRIGADO! Mas solta esses passarinhos, Senhor Braga, muito me admira um autor que faz tanta gente voar, prender esses bichinhos em gaiolas."

Contudo, tenho certeza que o cronista me expulsaria, afinal, dizem as más línguas literárias que ele já não era muito do cultivo de plantar e receber carinho do público. Ninguém é realmente perfeito, nem autor, nem leitor, mas eu, cronista e amante da liberdade, fiquei me indagando: como seria a poesia de Rubem, sem gosto de passarinho em cativeiro?

A resposta caiu na minha cabeça, quando eu procurava outro livro de Rubem Braga na Livraria Cultura do Conjunto Nacional: um livro com capa vermelha e preta, de um autor chamado Rubem Alves.

“ Pergutaram-me se acredito em Deus” era o livro que aparentemente era destinado a leitores que procuravam assuntos religiosos, mas olhei a contra-capa do livro, meio que sem esperar nada e eis o que li:

“ Se você não me conhece...Sou Rubem Alves, contador de estórias. Não é oficio que eu tenha aprendido. Nasci sabendo.”

Tornei-me fã automático.

Rubem Aves é um autor que as aulas de literatura dos cursos de Letras esquecem de mencionar. Uma pena, pois, se desejamos despertar o gosto pela leitura em futuros professores (e acreditem, há muitos aprendizes de professores de língua portuguesa se formando, que não gostam de ler), a leitura desse mineiro deveria ser obrigatória. Obrigatória? Nunca! Mal uso das palavras. Não há obrigação em ler esse autor, pelo contrário, lemos seus textos com prazer; sem esforço algum; os olhos deslizam pelas páginas com fome de ler mais. Como o próprio autor diz, escrever e ler são rituais mágicos e antropofágicos, onde o escritor se oferece para ser comido por meio das suas palavras e o leitor comerá (lerá) o texto, se o gosto for bom. Melhor analogia, nunca tinha lido.

Debravei os livros de Rubem Alves, pois são tantos, que eu nem sabia por onde começar. Readquiri o gosto da música clássica, descobri alguns mistérios por trás do véu da psicanálise, virei carpinteiro e já cultivo um jardim na minha cabeça de estudante de escritor e fiquei apaixonado pelo Pássaro Mágico que Rubem criou para explicar a sua filha que amor é bicho solto em liberdade, pois tudo o que tentamos aprisionar em nossas gaiolas, murcha, fenece, perde a graça.

Imagem: http://www.rubemalves.com.br/

Sobre Rubem Alves e Rubem Braga, corram para uma livraria ou biblioteca pública, mas é possível ter um gostinho virtual em:
http://www.rubemalves.com.br/
http://www.releituras.com/rubembraga_bio.asp

Jardim dos Sentidos

“Pensar é estar doente dos olhos” dizia Alberto Caeiro dentro de Fernando Pessoa. Caminhando pelo Jardim Botânico com a minha esposa, experimento o não-pensar por alguns instantes e permito que os outros sentidos me levem além do que aparenta ser isso ou aquilo. Deixo ser, apenas sou, pois quando penso sobre o que uma coisa é, nomeio, rotulo, prendo numa forma, que limita o ser.

Que dádiva ser qualquer bicho que não homem, bicho que apenas é, e vive intensamente suas sensações, mas a natureza me fez homem e sigo reaprendendo a sentir, desaprendendo a pensar, descobrindo outros milhares de sentidos. Tento enxergar com os meus ouvidos, escutar com o meu tato e tocar o mundo com o meu olfato e mesmo com tão poucos sentidos e tão limitados, percebo que o mundo se descortina em suas infinitas formas de maneira diferente em cada momento. Nenhum instante é igual ao outro; é isso o que me diz os meus ouvidos, é o que fala os cheiros; é o que demonstra os toques.

No Jardim dos Sentidos, as flores conversam comigo e noto uma rosa, compartilhando tudo comigo. Somos tão diferentes e tão iguais, que essa perfeição me assusta, mas calo a mente, pois casamento não é feito de pensamentos, assim como a vida, é feito de sensações e é muito bom ter essa rosa sentindo o mundo ao meu lado.

O MENINO E O LIVRO PROIBIDO

Coisa curiosa é ser menino; sensação gostosa é descobrir o proibido e sentir aquele medo inocente que algo terrível poderá acontecer se Deus souber por onde anda a gente – como se Deus não estivesse a todo instante presente – e mesmo sob a ameaça do castigo, ainda assim optar pelo perigo.

Ele tinha onze, nem era ainda uma pessoa; mas nunca ficava à toa, estava sempre de olho em novas descobertas, lia revistas, assistia novelas, queria entender o mundo dessa gente grande que vivia lhe dizendo o que fazer.

Nenhum segredo lhe escapava, ouvia por trás das paredes, das portas, bastava haver uma fresta e algo sendo sussurrado, para o menino estar ao lado, com ouvidos de cão e olhos de águia.

Quando o seu tio chegou de uma grande viagem ao sul, trouxe nas malas, muitas novidades; todos de sua casa, reunidos na mesa da sala de jantar, ouviram os “casos” do tio viajante, mas o menino curioso, estava vigilante, pois notara em uma das malas, um livro preto e uma revista que lhe instigaram a atenção. Esse tio, era o seu favorito, por isso, o menino achou que seria atendido, quando pediu para folhear a revista e ler o livro.

- Não posso, Neguinho! – respondeu o tio, chamando o nome, pelo qual o menino odiava ser chamado, mas era o tio, era o tio…

- Eu não conto a ninguém! – prometeu o menino.

- Nem pensar, se a sua mãe souber, ela me põe pra fora em um pensar. Além disso, esse livro é para gente grande, gente iniciada nas artes ocultas do mundo astral.

- Eu vejo escondido – o menino insistiu, mais curioso ainda – Por favor, deixa eu ver?

Deixô vê nada! Mas quem disse que o menino desistiria da sua empreitada…

Crianças são meio mágicas; feito bicho de conto de fadas, sempre descobrem um meio de atravessar portas e abrir malas trancadas. O menino conseguiu a chave da mala emprestada, enquanto o tio dormia. O bolso gentil cedeu as chaves, sem dizer nada; o menino agradeceu e voou para a mala e a abriu como se fosse um presente de natal; e viu em puro êxtase, o livro proibido de capa preta e a revista que revelou-se ser de mulher pelada.

Ali mesmo no quarto de visitas, o menino abriu primeiro a revista e a devorou como se comesse um pé-de-moleque. Era a primeira vez que via uma revista de gente nua. Nela, uma americana loira chamada Susan mostrava o seu corpo dourado e o menino sentia, um sei lá, em certas partes dos seus países baixos que o assustou, e por mais que fosse uma sensação boa; largou a revista, daria atenção a ela depois; precisava agora abrir aquele livro proibido a qualquer pessoa que não fosse “iniciada nas artes ocultas do mundo astral”; o que não era o caso do menino, nada oculto lhe escapava, nem mesmo aquele livro esquisito, que começou a lhe causar arrepio. O “Antigo Livro de São Cipriano” não trazia muita informação sobre o tal santo, mas havia uma série de receitas de magias, das mais variadas, tanto para o bem quanto para o mal; contudo, mas um pouco adiante, surgiu a segunda parte do livro, onde havia uma advertência em letras vermelhas e gritantes:

“ Caro neófito, não se atreva a ler as páginas seguintes. Se ousar decifrá-las, pagará o preço se a sua mente não tiver sido iniciada nas artes ocultas do mundo astral”

O menino respirou fundo, seu coração batia tum tum sem parar, o suor descia da testa feito água corrente e arrepios subiam e desciam pela sua coluna, mas ele não era covarde e avançou para as próximas páginas, onde São Cipriano contava a estória de um menino:

“Coisa curiosa é ser menino…” – dizia o livro.

O menino assustado, começou a perceber que a estória do garoto do livro era a sua estória, e antes que pudesse fechar o livro, leu ainda as seguintes palavras:

“ Leu ainda as seguintes palavras:

Para sempre, a alma do menino ficou aprisionada dentro da estória, mas a alma do menino não ficará sozinha, pois logo lhe fará companhia, todos que a lerem aqui e agora."
"A palavra ficou presa na língua, poderia ter se tornado poesia, prosa escrita; mas acabou esgotada na tentativa frustrada de expressar oralmente o inenarrável."

"Espera, molda, melhora, cuida da tua obra!
Enxuga, arruma, clareia, perfuma com lucidez as suas certezas."

Even - Setembro 2008


Folha Branca, Tinta e Criação


É meia-noite, não tenho sono; mas tenho fome, fome de escrita; os alimentos respiram aliviados, quando eu abro a geladeira e pego uma garrafa d’água, eles me olham com surpresa, mas sabem que não correm perigo.

Mato a sede, ignoro a TV e olho para a folha virgem, só aguardando meu toque de amor. Saúdo a minha musa, e ela brilha toda oferecida, quer se transformar em palavra corrida; sorrio, seguro a tinta e logo estamos envolvidos, pintor e tela, amante e amigo, palavras mágicas surgindo do nada, magia em criação com letras pipocando aqui e agora. Gozo literário…

Em êxtase suspiro: mais um poema está pronto. A folha cansada respira aliviada; consumido pelo amor, abro a janela em busca de ar e vejo o vento brincando com as estrelas.

Que poema lindo acabei de escrever, suspiro ao vento noturno, mas ele não parece estar convencido da minha obra prima e sopra de volta:

“Espera, por isso,
que a jovem manhã
te venha revelar
as flores da véspera*”

Vento danado e esperto, eu não sabia que você lia João Cabral de Melo Neto.

Nota do autor:

* Trecho do poema “Psicologia da composição” do poeta João Cabral de Melo Neto, autor do clássico: Morte e Vida, Severina. Leia o poema completo abaixo:

Psicologia da composição

I

Saio do meu poema
como quem lava as mãos.
Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.
Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;
talvez como a camisa
vazia, que despi.

II
Esta folha branca
me proscreve o sonho,
me incita ao verso
nítido e preciso.
Eu me refugio
nesta praia pura
onde nada existe
em que a noite pouse.
Como não há noite
cessa toda fonte;
como não há fonte
cessa toda fuga;
como não há fuga
nada lembra o fluir
de meu tempo, ao vento
que nele sopra o tempo.

III

Neste papel
pode teu sal
virar cinza;
pode o limão
virar pedra;
o sol da pele,
o trigo do corpo
virar cinza.
(Teme, por isso,
a jovem manhã
sobre as flores
da véspera.)
Neste papel
logo fenecem
as roxas, mornas
flores morais;
todas as fluidas
flores da pressa;
todas as úmidas
flores do sonho.
(Espera, por isso,
que a jovem manhã
te venha revelar
as flores da véspera.)

IV

O poema, com seus cavalos,
quer explodir
teu tempo claro: romper
seu branco frio, seu cimento
mudo e fresco.
(O descuido ficara aberto
de par em par;
um sonho passou, deixando
fiapos, logo árvores instantâneas
coagulando a preguiça.)

V

Vivo com certas palavras,
abelhas domésticas.
Do dia aberto
(branco guarda-sol)
esses lúcidos fusos retiram
o fio do mel
(do dia que abriu
também como flor)
que na noite
(poço onde vai tombar
a aérea flor)
persistirá: louro
sabor, e ácido,
contra o açúcar do podre.

VI

Não a forma encontrada
como uma concha, perdida
nos frouxos areais
como cabelos;
não a forma obtida
em lance santo ou raro,
tiro nas lebres de vidro
do invisível;
mas a forma atingida
como a ponta do novelo
que a atenção, lenta,
desenrola.,
aranha; como o mais extremo
desse fio frágil, que se rompe
ao peso, sempre, das mãos
enormes.

VII

É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.
São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.
É mineral
A linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.
É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza
da palavra escrita.

VIII

Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:
(A árvore destila
a terra, gota a gota;
a terra completa
cai, fruto!
Enquanto na ordem
de outro pomar
a atenção destila
palavras maduras.)
Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:
então, nada mais
destila; evapora;
onde foi maçã
resta uma fome;
onde foi palavra
(povos ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.

João Cabral de Melo Neto
(1920-1999)

Mais sobre João Cabral de Melo Neto em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Cabral_de_Melo_Neto

quinta-feira, outubro 02, 2008

PEQUENAS VITÓRIAS

A vida é feita de pequenas vitórias, momentos de glória que só possuem importância dentro de nossos universos. São Big Bangs de emoção para quem está dentro e quase invisíveis para quem está fora, não importa, pois ainda assim, o mundo pára! Pois esses momentos de vitórias nos mostram o quanto é maravilhoso estar vivo.

O sorriso fica do tamanho da galáxia, o olho brilha, parece que vai virar supernova, diante desses pequenos presentes que são gigantes em significados. Ás vezes, pode ser um diploma ou certificado de um curso de inglês ou da faculdade, onde fizemos aquele curso tão sonhado, muitas vezes pode ser apenas um CD gravado com os melhores sucessos ao lado de quem amamos; outras vezes é uma viagem inesperada que representa mais que malas e avião. Para sorrir, basta estar vivo e se sentir querido ou ouvido com coração.

Ontem vivenciei três momentos de pura alegria de estar vivo; nenhum ocorreu comigo, mas fui coadjuvante quando meus 19 estudantes, receberam seus diplomas; quando uma amiga querida me contou que viajará pela primeira vez para a Alemanha, e quando uma outra amiga, agradeceu com o olhar por eu a ter escutado.

Pequenos presentes, gigantes em significados.

SINFONIA ALADA

Bato na porta dos sonhos, abre-se a porta e vejo a mim mesmo. Convido-me para entrar e o que vejo é uma janela para as infinitas possibilidades da alma; experiências organizadas em quadros que os homens chamarão de amanhã ou chamaram de passado.

Fecho e abro os olhos, e invado outro mundo. Um fantasminha distraído, leva um susto e com medo, ora a Deus por proteção. Oh, meu Senhor, terei eu virado assombração?

Essa cor azul que lembra o mar... estou voando no ar ou mergulhado em Iemanjá? Tanto faz, não quero me preocupar com o que não é ou com o que há. Nado pelo céu, vôo pelo oceano de um amor ímpar e sinto que posso ir a qualquer lugar, mas fico mesmo quietinho, esperando algo que não sei bem o que será.

Vejo outros pássaros chegando, batendo as suas projetadas asas, e percebo que fomos todos convidados para uma festa de voar. Então a música começa a tocar, vindo de uma orquestra alada, que só veio até ali para nos mostrar que a arte acontece tanto dentro quanto fora.

Eles tocam uma melodia, uma canção que arranca lágrimas dos olhos; gostaria de poder gravar, só para poder lembrar, quando acordar...

Quando estou do lado de lá, tudo é lembrado, tudo é sentido, mas não faz palavras do lado de cá. As lembranças são perdidas, pois não adianta explicar para uma ilha, que ela está rodeada de mar.

Tudo é tão estranho que se torna familiar. Ironia é sentir-se em casa, onde achei que não fosse possível estar.

Acordo com cara de quem caiu do céu, esquecendo que havia voado. Abro os olhos para um novo dia e a janela para os raios do sol, e pássaros cantando e voando para todos os lados me lembram que eu também posso voar.

Mas só a noite, agora é hora de aterrar...

Imagem: http://www.viagemastral.com/hp/conteudo/galeria/img/nafloresta.jpg

quarta-feira, outubro 01, 2008

ORIXÁS DE MIM MESMO

Será ele ou será eu? Ou serão os dois?

Quem será esse Orixá?

Uma entidade ou uma outra face minha?

Não quero compreender o segredo, nem sei se consigo; mas preciso entender direito o que ocorre comigo.

Que força é essa que anda minhas pernas, gesticula os meus braços e grita a minha boca? Será a minha alma ou será outra? Se outra, também não será minha? Graça divina!

Ela me incorpora ou eu a incorporo? Ou os dois?

Eterno koan, Orixás de mim, vóis sois!

Saber faz diferença? Tira a mágica? Importa?

Aprender e desaprender incomoda...

AmazingCounters.com
Overtons Marine Supply