A salvação viria com a terapia. Bloqueios, traumas e complexos estavam com os dias contados se ele tomasse o doril das vidas passadas; pelo menos era o que prometia o folder da loja Lenga-lenga.
Tudo que bastava era ligar pro 0800 ou preencher o cadastro no site nova-era.com; mas antes de ligar ou acessar a internet, ele precisava se informar um pouco mais sobre o assunto. Era esperto e não cairia em nenhuma cilada como ocorrera naquela terapia xamãnica de renascimento, em que precisou comprar um animal do poder e um colar xavante, que estava com a etiqueta da 25 de Março. Estudar o assunto evitaria não só micos como esse, como também o ajudaria a chegar à oficina sem cara de Mané que não sabe nada de motor.
Comprou então o kit vidas passadas que trazia como brinde o fascículo “bisbilhote também as suas vidas futuras”. O Dr. Bryan Uées era um PHDZ no assunto e o Cd que veio junto com o material o conduziu por mil e uma noites pelas escadarias da memória apagada; porem o máximo que ele conseguia com esses exercícios fora uma passagem direto para o sono profundo.
- Esse negócio de “Faça Você Mesmo” é uma furada – disse frustrado – Preciso de ajuda profissional. – concluiu, já discando o 0800 para marcar uma consulta para o dia seguinte.
O dia seguinte não tardou a chegar, o que não pode ser dito da Terapeuta que chegou com horas de atraso.
- Karma! – disse ao vê-lo esperando na recepção – Fiquei três horas presa na marginal. Karma de outra vida em que fui policial e não precisava parar no farol. Meu nome é Astrogilda – disse sorrindo.
- Orostáquio – disse, se apresentando com o primeiro nome que veio á sua mente; afinal se ela realmente fosse boa, descobriria que seu verdadeiro nome era Escolástico.
Boa, na verdade ela era. Tinha um corpo escultural e um rosto que lembrava um anjo com olhinhos bem capetas. Era perfeita, até sua aura era linda, pelo menos era o que mostrava as fotos Kirlian da moça na parede, junto com o diploma de Terapeuta de Terapia de Vidas Passada da Universidade Oculta do Conhecimento Esotérico.
- Venha comigo – ela disse abrindo a porta do cômodo onde um forte cheiro de incenso de canela o fez espirrar. Ele era alérgico a qualquer tipo de incenso.
- Está muito forte pra você? – ela perguntou preocupada.
- Um pouquinho – ele respondeu e ela abriu a janela. “Que curvas” ele pensou tão alto que o pensamento virou sussurro.
- O que disse?
- E.. está bem melhor agora. - corrigiu, já pensando em trocar as vidas passada por um vida bem presente com ela. Porem algo estranho ocorreu. A brisa e o traseiro da moça lhe trouxeram uma sensação que nunca sentira antes, uma sensação de Deja Vu, palavrinha francesa, que de acordo com o que ele tinha lido na revista Sétimo Sentido, tentava nomear aquela sensação de já termos visto antes algo, alguém ou algum lugar quando na verdade, nunca vimos aquela pessoa ou estivemos naquele lugar. Sensação que os céticos descrevem como reação química inadequada ou Falha na Matrix, como preferem os mais moderninhos.
- Você já fez isso antes? – Astrogilda perguntou, colocando seus óculos, ato que ele achou extremamente sexy.
- É a minha primeira vez – ele respondeu e foi invadido por lembranças. Aquele consultório deveria mesmo ser dos bons. Dez minutos por lá e ele já estava lembrando um dos episódios mais traumáticos de sua vida que ele havia esquecido completamente. Lembrança essa que envolvia uma garrafa de cachaça, uma velha prostituta com cara de traveco; camisinha rasgada e uma espera angustiante pelos resultados dos exames de HIV que ele faria na manhã seguinte à noitada.
- Por que você quer fazer TVP? – ela perguntou enquanto colocava no estéreo um Cd da Enya.
- Porque quero tentar entender melhor certos traumas que tenho e vencer limitações psiquicas que me impedem de crescer espiritualmente – ele disse, repetindo palavra por palavra o que lera no livro do Dr Uées.
Algumas respostas brilhantemente decoradas depois e Escolástico deitou no divã, desejando que em breve, estivesse deitado em outro lugar, com Astrogilda lhe acompanhando.
- Muito bem! Vamos começar...
Ele fechou os olhos, respirou fundo, tentou pensar numa ilha deserta, mas a imagem da velha prostituta surgia a todo instante. O que não era de todo mal, a lembrança do rosto dela o ajudava a evitar uma situação constrangedora que parecia eminente, se Astrogilda continuasse tão perto dele.
- Erga o pensamento e pense no Altíssimo ou em algo que você considere ser bem bonito. Algo que possa elevar as suas vibrações.
Elevar as vibrações? Será que ela estaria louca de pedir algo assim pra ele, tudo o que ele precisava naquele momento era baixar as vibrações. “Volte a pensar na velha prostituta” ele ordenou a seus pensamentos e estranhamente passou até a lembrar da voz dela...
- Se deixe levar pelo som da minha voz... – dizia Astrogilda e ele foi se acalmando cada vez mais. Relaxando e entrando em transe. A sua respiração foi ficando cada vez mais compassada e a voz de Astrogilda foi ficando cada vez mais distante á medida que ele ouvia novos sons e imagens. Será que ele estava acessando seu passado? Será que ele estava realmente conseguindo fazer a regressão?
A voz de Astrogilda foi diminuindo cada vez mais e outra voz foi surgindo no lugar, cada vez mais alta e familiar. Cada vez mais próxima. Cada vez mais perto dele, tão perto que ele começou a ver imagens, que foram se transformando em sensações muito mais físicas do que ele estava esperando sentir.
- Venha meu Leãozinho – disse a velha prostituta, se despindo a sua frente.
- Aahhhh!!!! – gritou Escolástico totalmente presente no seu passado.
Ele estava lá na sua iniciação sexual; na sua primeira vez com a prostituta que parecia um traveco. Quis gritar e pedir que Astrogilda o trouxesse de volta, mas não conseguia. Sua terapeuta parecia não estar lhe ouvindo. Como era mesmo o nome dela?
Ele estava ali no seu passado. Como escapar? Como escapar daquela lembrança? Por que não lembrara do seu primeiro beijo no bailinho da escola? Ou o primeiro salário em dólar? Onde ele podia trocar de canal?
Assustado, ele se afastou da prostituta que não entendeu o que estava ocorrendo.
- O que há meu querido, não quer terminar o trabalho?
- Sai pra lá, você nem está aqui, você é apenas uma imagem do meu passado.
- Eu posso ser o que você quiser desde que eu receba meu dinheiro no final.
Havia algo errado, ela estava concluindo, aquilo tudo parecia ser muito real pra ser apenas uma imagem do seu passado. A velha continuava lá, o gosto de cachaça na boca também. E a camisinha no bolso...
- Isso mesmo, Leãozinho, venha para a sua Orostáquia!
A camisinha estava no bolso, ele não tinha transado ainda. O passado era presente. Ainda havia tempo e ele correu dali, como se corresse pela sua vida. Enquanto corria, ele ria ao mesmo tempo em que não entendia nada que havia rolado. Já na rua, tentando respirar depois do esforço, do riso passou a gargalhada com aquela situação ridícula. As lembranças da sua suposta consulta com a Terapeuta foram enfraquecendo, quase sumindo. O futuro que era presente foi sumindo, como lembrança de sonho, como se o que era tão nitido e lucido passasse a ser algo totalmente confuso.
- Cara, o que rolou por ali? – perguntou a si mesmo, mas não havia nenhuma resposta. Seja lá o que tivesse ocorrido naquele lugar tinha ajudado ele a não cometer aquela burrada. Sim, ele ainda era virgem, mas não custava esperar um pouco mais pela primeira vez, já pensou se a camisinha estourasse?
Frank
09 de Janeiro de 2006
Ps: Esse é apenas um conto sem qualquer critica ou tentativa de fazer humor barato em cima dos Terapeutas de Vidas Passada que conheço (um deles é a minha querida amiga Elô, a qual estimo muito). Trabalho esse, bem bacana, que esses Terapeutas vem fazendo nessa área.
O conto caiu em cima da minha cabeça ao conversar com um amigo recentemente que comprou o novo livro do Dr Bryan Weiss e começou a fazer as praticas do livro. Algumas semanas depois, ele desistiu, dizendo que tinha visto o rosto de uma mulher com quem estava fazendo amor no futuro que lembrava um travesti. Brincadeiras a parte, ele me autorizou a usar sua experiência para eu escrever essa brincadeira.