Que coisa linda era aquela menina que entrava na sala. Cabelos longos e negros balançando ao vento, movimento sereno em slow motion, como se parasse o tempo e ela flutuasse pelo ar. Pele branca, quase morena; olhos brilhantes, lábios sussurrando: “Bom dia!” - Quem é essa menina? – pergunto ao meu amigo Cláudio, que parecia ter sido encantado também por aquela menina fada – Cláudio???
- Cala a boca, Neguinho! – disse ele – Deus, de onde ela saiu?
A menina fada veio ao nosso encontro. Corpo em sintonia com os raios de sol que refletiam-se dourado em seu rosto. Vestido de chita balançando para cá, balançando para lá – quem seria aquele anjo?
- Sua vó está? – ela perguntou para mim.
- A minha vó? – perguntou Cláudio. Ele morava durante o período de férias com a sua vó, que era vizinha dos meus avós, mas como estávamos na minha calçada e ela parecia me conhecer, só podia ser a mãe da minha mãe.
- A MINHA vó está! – respondi, ganhando a batalha – Dona Geralda, certo?
- Isso mesmo – ela respondeu como se cantasse e sorriu. Naquele momento a noite se fez dia e vi estrelas cadentes saindo do céu do sorriso dela em minha direção. Ela havia cativado a minha alma de 12 anos.
- Vou chamá-la – eu disse – Você, quem é? – perguntei – quero dizer, quem devo anunciar?
- Helena, sou filha do Zelder.
O brilho das estrelas se apagou, uma névoa londrina começou a cobrir as ruas do sertão. Ela era filha do bruxo, do professor das artes ocultas, era filha do pai de santo, do Zelder.
- Feiticeira – resmungou Cláudio.
- O quê – perguntou ela.
- Ca...ca...Cajazeiras? - caquejou Cláudio - Você é aqui de Cajazeiras?
- Sim, eu moro longe, mas sou daqui mesmo.
Cláudio estava certo, ela era a Feiticeira, e acabara de encantar dois meninos. Só poderia ser magia, pois eu já não conseguia lembrar quem eu deveria chamar.
- Sua vó – disse ela – pode chamar a sua vó?
Foi a primeira vez que eu vi a Feiticeira e eu sabia que não seria a última...
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