São Paulo fez 454 anos e faz 20 anos que estou na cidade. Cheguei aqui num tapete voador nordestino chamado Contijo, entre farofa e sonhos, senti pela primeira vez o "perfume" do Tietê e ví os prédios que arranham o céu.
Enquanto Bill Medley cantava "He ain´t Heavy, He´s my Brother", fui saindo do centro da cidade e chegando na vila, atmosfera de conto de fadas e realidade nua e crua: éramos 6 em 1 quarto, num cortiço com banheiro dividido com outras 12 famílias.
Coisa linda ser jovem e sonhador. Onde minha mãe via vida dura, eu enxergava oportunidades, novidades e um mundo novo que se abria abaixo do céu púrpura paulista.
Pouco a pouco fui me soltando, conhecendo e descobrindo. Garoto de 13 anos, só tinha permissão de circular pela vila, garoto curioso, acabei pulando o muro e sem visto, avancei pelas fronteiras dos outros bairros e finalmente: o centro de São Paulo.
Caetano dizia que algo ocorria com o seu coração quando ele atravessava a Avenida Ipiranga com a Avenida São João; quando lá pisei pela primeira vez, algo ocorreu com todo o meu corpo, cinéfilo que era, descobri a cinelândia paulista (numa epóca em que os teatros não tinham sido ainda comprados por igrejas evangélicas e cinema em Shopping Center era para gente rica) e as dezenas de filmes que semanalmente entravam e saiam de cartaz - sonho de menino paraíbano que morara antes numa cidade, onde só havia um cinema, com um filme, que as vezes, ficava 2 meses em cartaz.
No centro, aprendi de tudo: a buscar emprego, a comprar gibi usado quase que novo, o mistérios dos teatros pornôs, as tribos urbanas de cuturno. Aprendi até a ser assaltado.
Das esquinas do centro, fui pouco a pouco, conseguindo meu espaço. Na escola passei do " baiano" para o garoto esforçado. Nas feiras e padaria, a descoberta de novos sabores e frutos; aliás, gostava tanto de padaria, que acabei empregado por uma; e foi semeando pão, que colhi um idioma: uma freguesa da padaria; que gostava muito do jeito que eu atendia; se tornaria a minha primeira professora particular de inglês e grande incentivadora para que eu não deixasse nunca de estudá-lo. Falando inglês, sai da Padaria, do McDonalds e voei pela Varig para as linhas da Embratel que me levaram a deixar o Brasil ( ah, se não fosse o inglês); mas acabei voltando e estou ficando, ficando e ficando...
Como todos os habitantes de Sampa, amo falar mal da cidade e falo mal querendo bem.
Paradoxo? Venha morar em Sampa e você vai descobrir que uma vez vivendo aqui, você não consegue morar mais em nenhum outro lugar no mundo.
Frank
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