quinta-feira, agosto 31, 2017

ÁGUAS DE OUTROS RIOS




Caminhando pelas ruas de qualquer cidade brasileira, sob os olhos, chovem sinais do quanto só Jesus salva. Nas ruas do Cairo, de New Delhi ou de Bangkok, as gotas de salvação são águas de outro tipo, banhando o crente que acredita cegamente que sua fé é o único rio limpo que mergulha no Oceano do Deus de muitos nomes.
Tendo crescido sob forte influencia cristã, precisei percorrer o mundo para ver com meus próprios olhos, que, além da fronteira, o vento que soprava o nome de Jesus, por ali, grita o nome de Buda. E por mais que meus olhos se assustem com os deuses diferentes de tantas religiões e seitas, meu coração, que, como águia, vê mais adiante, notou que tão logo passamos a perceber outros quintais, o diferente se torna familiar, e o nosso rio passa a ser tão sagrado como o rio do outro, que, naquele canto, se chama Krishna.

Por isso parei de tentar convencer os outros da pureza do meu rio, troquei a fala pelas letras quando quero falar sobre algo que experimentei, pois sei que, pelo menos, a escrita abre espaço para interpretações individuais. É por isso, também, que sigo por esses quatro cantos, descobrindo e escrevendo o que sinto quando mergulho nos mares dos outros, afinal, ele pode falar B, enquanto eu falo A, mas fazemos parte do mesmo alfabeto de Babel, onde hoje sou Cristão, amanhã poderei ser Pagão, continuando a reciclar o aprendizado desses tantos rios, que um dia desembocarão no mesmo lugar.


Jerusalém, 23 de Fevereiro 2005.

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