terça-feira, setembro 10, 2013

Roçar dos Dedos


BY Even

Ela lembrou que era mar no leve tocar de Riobaldo. Recordou que era mulher, antes de ser a mãe de dois filhos; que era fêmea, antes de esposa num casamento platônico regado a sexo por obrigação matrimonial.

Foi apenas um roçar de dedos, mas o toque durou o bastante para ascender em seu corpo sensações que ela não mais ousava permitir sentir; o bastante para ela se sentir viva e para provocar uma revoada de borboletas em seus estômago, mas também o bastante para ela se sentir culpada.

Mas como poderia ser errado, sentir-se inteira, sentir-se plena. Era assim que Riobaldo a fazia se sentir. As vezes, seu contentamento era tanto, que ela temia que o marido pudesse descobrir sobre o "toque". Por vezes, pensou em conversar com alguém, pedir um conselho, desabafar, ter apenas uma outra opinião, um confidente, mas suas amigas a condenaria, sua irmã contaria para a sua mãe que a lembraria que para uma mulher casada antes do D de desejo, vem o A de Adultério.

Mas não havia traição. Ela amava o marido, não largaria a familia por um caso com Riobaldo que também era bem casado; mas como negar, como explicar o desejo que a consumia. Se um toque  despertou todas aquelas sensações, imagina o Tsunami que seria um abraço; a explosão do Vesúvio em sua cidade, se Riobaldo a beijasse.

Era pecado, ela dizia a si mesma.

Riobaldo era um sonho, mas apenas um sonho; um sorvete negado em dia de resfriado; um pedaço de bolo de chocolate proibido pelo regime moral imposto pela sociedade e pelo inabalável sacramento do matrimônio.

Riobaldo era a Paris que ela nunca visitaria; o cruzeiro partindo sem ela, pelo mar azul grego da tragédia do desejo reprimido, do prazer negado.

Ela jamais ousou um novo toque; ele resistiu bravamente e não a procurou. Nada mais aconteceu além da troca de olhares entre dois mundos que queriam unificação, mas estavam separados por um muro de encontros sociais. Nada mais foi ousado e a alma borbulhante dos dois nunca amantes foi pouco a pouco voltando ao marasmo do dia a dia.

Foi assim que ela e Riobaldo descobriram como muitas vezes, optamos pela morte da alma por medo dos riscos da vida.

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