quinta-feira, maio 23, 2013

Obá - A Mulher africana e guerreira!!!



Mais um brilhante texto do antropólogo Vilson Caetano Jr.



OBA, LÍDER DA SOCIEDADE ELEKÔ COMANDA TODAS AS MULHERES GUERREIRAS.

Obá é um dos “orixás femininos” sobre a qual recaiu uma espécie de esquecimento. Todavia, não obstante este fato, ela goza de enorme significado no universo das religiões de matriz africana. Muito pouco se tem escrito sobre a mesma, talvez por ela nos remeter a um mito original que se repete em várias culturas que fala “de um tempo em que o mundo era governado pelas mulheres.” 

Em alguns terreiros de candomblé que ainda preservam a figura desse principio ancestral, Obá aparece como uma caçadora. Este fato faz alusão aos primórdios dos grupos humanos que tinham a atividade coletora como principal meio de sustento. Pena que ainda hoje quando retomamos esta imagem, logo nos vem à mente figuras masculinas, contrariando alguns mitos afro-brasileiros que trazem enfaticamente a presença de mulheres a frente de grupos que mais tarde darão origem às grandes civilizações.

Em todos os mitos preservados no Brasil, Obá apresenta-se como caçadora ao lado de outras como Oyá e Iewá, daí a sua ligação direta com Odé, o caçador. Outra imagem que reforça a antiguidade do seu culto é a de que tal orixá também é um rio do mesmo nome que ainda hoje corta uma parte do território iorubá. 

Conta-se que, após vários dias de batalha, estando os orixás liderados por Ogum e Oxalá, fragilizados pela guerra, Obá não se contentando em reunir apenas as mulheres de seu tempo, convocou todas as fêmeas do mundo animal. Ao ver Obá chegar rodeada de animais, aquela guerra foi vencida porque os inimigos fugiram de seus postos. Afirma-se nos terreiros que Obá mantém relações profundas com os animais, outra imagem antiga preservada do tempo em que os primeiros grupos humanos acreditavam encantá-los através de seus desenhos. O tempo em que os caçadores e caçadoras confundiam-se com a própria caça. 

O culto a Obá é ainda hoje cercado de mistério. Mistério velado pelas cores escuras, representadas pelo vermelho encarnado que compõem seus elementos rituais nas poucas vezes em que aparece. Em alguns terreiros de tradição jeje nagô, a cantiga que diz “Obá, líder da sociedade Elekô comanda todas as mulheres guerreiras”, inicia a seqüência de músicas que dentre outras coisas, lembra a sua importância como representante das mulheres como caçadora, chamando para si funções sociais, políticas, culturais e religiosas. 

Em outras palavras, Obá, além de desempenhar um papel como desbravadora, cabia a ela defender o grupo, o protegendo em todos os sentidos, fomentar seu sustento e garantir a sua integridade política. 

Os caçadores eram ainda médicos, mágicos, verdadeiros entes divinos que sabiam que da relação de sua comunidade com os ancestrais dependia a sua permanência no mundo. Daí a expressão: “Obá Elekô”. Elekô, a exemplo de muitas outras sociedades secretas, era uma espécie de “maçonaria de mulheres”, que dentre outras funções, zelava pela preservação da relação entre estas e a terra, para alguns grupos humanos, a grande mãe ancestral.

Pena que apenas persistiu dentre nós, fragmentos de uma história que diz ter sido Obá enganada por uma das mulheres de Xangô que a teria induzido cortar uma de suas orelhas. Acho mesmo que a imagem da orelha cortada por Obá neste mito é menos importante do que aquilo que considero tema principal: o amor. 

Obá é símbolo do amor, esse principio universal que por mais esforço já se tenha feito para traduzi-lo através das poesias, das filosofias, das religiões e recentemente da ciência, ainda é um mistério, talvez por ser ele um dos mais divinos.

Gosto muito da história que diz que certa ocasião muito triste por ter perdido um de seus filhos, uma mulher adentrou-se na mata e pediu a Obá que o trouxesse de volta. Adormecida na floresta, a jovem sonhou com sementes que lhes eram trazidas por um enorme pássaro. Acordada do sono, a mulher foi procurá-las. Chegando a beira de um rio, mal pode conter a sua alegria ao deparar-se com as sementes que a noite havia sonhado, ao mesmo tempo em que se deu conta de que, era ela mesma o pássaro que a noite havia visto em sonho. Das sementes plantadas pela mulher arrebentou uma planta que se transformou numa árvore de tronco escuro a partir da qual a humanidade melhor podia se representar, trazendo presente na forma de esculturas seus antepassados: o ébano. 

Obá, dessa maneira é a “verdadeira deusa do ébano”, não somente da madeira escura, de brilho natural que tanto nos representa através das mãos dos artistas africanos, mas a verdadeira “deusa negra” presente em todas as mulheres, nossas irmãs e mães que hoje mais do que nunca vão ao enfrentamento para defender a sua dignidade através da garantia da integridade de seus filhos. Mulheres que embora tenham conquistado espaços nas sociedades contemporâneas ainda são aquelas mais estigmatizadas, violentadas e que tem seus direitos menos respeitados. Mulheres que como Obá amam, e por isso vão a luta pelos seus sonhos e são capazes não apenas de liderar quilombos, revoltas armadas, greves, movimentos sociais, mas grupos inteiros pois assim foi desde o inicio quando Obá saiu à frente convocando todas as mulheres para reconquistar o mundo.

Um comentário:

Anônimo disse...

É provável que o culto a Obá remonte ao antigo Império Edo, evidenciado em uma de suas denominações, Yoba. Em verdade um antigo título real, outrora concedido a uma excepcional rainha-guerreira, que possivelmente teria sido uma sacerdotisa.

E ao contrário do que texto apresenta, Obá se difere de todas as outras Iyabás, por sua belicosidade. Ela não é apenas uma caçadora, é uma guerreira, representante universal de todas as mulheres que pegaram em armas e foram à guerra, sucumbindo ou saindo vitoriosas dos campos de batalha.

Nos candomblés atuais, apenas vemos o ato dessa Iyabá junto a Oxossi. Mas outrora, o ponto alto, o clímax de sua dança sagrada, era sua contenta com Oxum. Simulada entre as duas divindades em transe, tendo a iyalorixá ou o babalorixá ao centro, entre ambas.

A divergência entre as duas divindades das águas, pode ser uma alegoria, um simbolismo alusivo a fatos históricos reais de um passado remoto, pertinente a uma antiga confraria de mulheres guerreiras da África.

A relação de Obá com a guerra, é explicitado em uma das principais interdições de seus filhos e devotos, manterem qualquer tipo de arma em suas residências. Bem como se afastarem de conflitos alheios.

Em transe, Obá se apresenta não como uma caçadora, mas sim como uma guerreira. Porta o escudo, o alfange, a lança e o ofá, ou uma besta. Usa peitaça, capacete e lhe é consagrado um ritmo semelhante a uma marcha militar.

Sua relação com as águas também é atípica, uma vez que é a representante das águas revoltas, turbulentas, em chamas. A pororoca lhe é associada, bem como as incontroláveis tsunamis.

Devido ao seu vinculo com as águas turbulentas, está relacionada aos perigosos espírito das águas, que se aprazem em provocar afogamentos.

Poucos sacerdotes dominam os fundamentos de Obá, cabíveis e necessários a sua iniciação. E tal qual a Nanã, quando bem "feita" trata bonança e prosperidade. Mas quando essa feitura é equivocada, poderá trazer mazelas e tragédias.

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