terça-feira, agosto 28, 2012

Encosto

Números que se repetem misteriosamente; coincidências que desafiam a lógica; a sincronicidade é uma realidade na vida de todos nós – e contam os místicos que quanto mais lúcidos estamos que somos borboletas sonhando que somos sábios chineses, mais percebemos esses acontecimentos se repetindo e aparentemente não há uma explicação. Por isso eu sabia que algo muito estranho estava ocorrendo comigo quando aquela mulher sentou no banco ao meu lado no trem.

Ela embarcou na Estação Santo Amaro e de todos os bancos vazios do vagão, ela decidiu sentar ao meu lado. Não a notei a principio, só percebi que quando ela sentou do meu lado, fui esmagadoramente imprensado contra a barra de ferro, próxima a porta. Não liguei, isso ocorre nas melhores linhas de transporte urbano público do mundo, mas quando ela começou a cochilar e se inclinar para o meu lado, comecei a evocar todos os orixás para que eu tivesse a paciência de Oxossi para não acordá-la com uma cotovelada. 


Contive a minha fúria, e apesar de continuar esmagado até a Estação Osasco, onde eu iria descer, nada de extraordinário parecia ter acontecido. Era ela me esmagando ou nadar contra um mar de sovacos até a estação final.



No dia seguinte, fiz o mesmo trajeto e em Santo Amaro, adivinhem quem entrou no vagão e sentou do meu lado. Minha tolerância foi zero, cada vez que ela se inclinava, levava uma cotovelada, mas ela parecia estar num estado alterado de consciência, pois quanto mais porrada eu dava, mas pesado ficava seu sono e consequentemente seu corpo me esmagando. Fiz minha prece a Maomé, bendito seja o seu nome, mas nem me virando para Meca, eu conseguia ficar confortável com aquela mulher em cima de mim.



No terceiro dia, mudei de vagão e quando as portas da Estação Santo Amaro se abriram e ela não entrou, respirei aliviado. Minha tática funcionara! Fechei os olhos e agradeci a São Judas, santo de todas as causas impossíveis pelo milagre; mas quando abri os olhos novamente, a vi correndo pela plataforma enquanto a campainha de fechar as portas tocava. Torci para que não desse tempo, fiz promessas a todos os santos milagreiros para que a porta fechasse, mas ela entrou no vagão e para o meu desespero, o único banco vazio estava...ao meu lado.



- Nãaaaaoooooo!!!!! – gritei, mas já era tarde. 



Em momentos como esse, sempre me pergunto: o que preciso aprender com isso?



Nada contra pessoas que estão um pouco acima do peso. Tenho vários amigos “gordinhos” e já sai com meninas fofinhas. Nada contra esses nossos trabalhadores que acordam antes do galo cantar, para as suas duplas ou triplas jornadas; mas entendam, era o terceiro dia em que isso acontecia comigo, naquela altura do campeonato, eu já estava xingando a mãe do Juiz e queria que o jogo acabasse.



Talvez eu tenha sido um travesseiro numa outra encarnação e tudo isso seja apenas o pagamento de uma ação equivocada do passado, mas karma à parte, como não tenho a escolha de usar o carro e sobreviver ao trânsito da hora do rush na marginal, vou continuar usando o trem para chegar até a escola que dou aulas de inglês em Osasco, mas decidi vou enfrentar o rio das axilas mal cheirosas de agora em diante e seja o que Krishna quiser. Lição? Acho que não aprendi nada com isso, mas quer saber, ela que faça de travesseiro, o ombro de outra pessoa.

Um comentário:

Anônimo disse...

Ai Meu Deus!!!!Morri de rir aqui com essa Frank!!!!Bj Auri

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