sexta-feira, agosto 31, 2012

A sexualidade segundo Reich



Por Célia Musili



Para Reich, a história de um indíviduo está no seu corpo 

A sexualidade segundo Reich


Fui a uma palestra do terapeuta Edson Galrão de França* e retomei o contato com as teorias de Wilhelm Reich (1897 – 1957), o precursor das pesquisas sobre a energia primordial a que ele chamou “orgone”, referência às palavras “orgasmo” e “organismo”. 

Reich foi discípulo de Freud e rompeu com o mestre no momento em que passou a estudar o corpo e a energia vital para compreender o comportamento e as neuroses humanas. Nos seus pacientes, ele observava não só a mente, mas os tipos físicos e aquilo que chamou “musculatura do caráter”. Em linhas gerais, percebeu, por exemplo, que os baixinhos e atarracados tinham queixas comuns (ai, como a vida é dura pra mim, carrego o mundo nas costas...”), enquanto os altos e magros pareciam viver no mundo da Lua. Embora sem sacramentar a linearidade, Reich percebeu que os tipos agiam em conformidade e a partir da observação e do estudo do corpo traçou teorias e escreveu  um livro importante: Análise do Caráter, obra fundamental para se compreender as neuroses a partir da rigidez estampada no corpo.

Reich foi mal compreendido em sua época, mas forma com Freud e Jung o tripé da modernidade para a investigação do corpo e da mente humanas, labirintos onde se assentam nossas experiências marcantes e, sobretudo, os traumas que vão determinar o nosso modo de ser e agir. A energia primordial estagnada, particularmente a energia orgástica ou sexual, propicia a formação de doenças como o câncer, as cardiopatias e os derrames cerebrais. Ao passo que uma vida livre com o restabelecimento das funções vitais e sem tensões e censuras opressivas, é o caminho para a saúde e, por decorrência, para a felicidade.

Atuando como médico e cientista no início do século 20, Reich já enfatizava a necessidade de mudanças para o restaurar a saúde sexual individual e coletiva.  O que não é pouco, uma pesquisa indica que 90% das pessoas têm neuroses. 
Em pleno século 21, quando o Papa Bento 16 ainda vem a público para dizer sandices que invadem o campo da sexualidade, considerando, por exemplo, o segundo casamento “uma praga”, os apelos de Reich são de uma modernidade  gritante. Entre outras coisas, ele preconizava:
1. Livre distribuição de anticoncepcionais para qualquer pessoa e educação intensiva para o controle da natalidade.
2. Completa abolição das proibições com relação ao aborto.
3. Abolição da distinção legal entre casados e não-casados; liberdade de divórcio.
4. Eliminação de doenças venéreas e prevenção de problemas sexuais através da educação sexual.
5. Treinamento de médicos, professores etc., em todas as questões relevantes da higiene sexual.
6. Tratamento, ao invés de punição, para agressões sexuais.  

Judeu, nascido no território hoje considerado a Ucrânia, Wilhelm Reich morreu em 1957 e foi um terapeuta revolucionário para sua época, tendo sido preso por razões políticas e científicas tanto na Alemanha, como também nos EUA, onde morreu numa penitenciária da Pensilvânia. Por conta de todas as perseguições e falsas interpretações de que foi vítima, ele determinou que algumas de suas teorias fossem lacradas e trazidas ao conhecimento público 50 anos após a sua morte. Pois a hora chegou e, este ano, a Fundação que leva seu nome , sediada nos EUA, deverá abrir a “Caixa de Pandora” onde há documentos que mostram as últimas descobertas de Reich no campo da investigação humana. Sua esperança era que os avanços científicos nas áreas da biologia, da física, da medicina, da sociologia, da psicologia , da antropologia e outras áreas  por onde  “circulou” traçando a interdisciplinaridade, pudessem amparar suas descobertas meio século depois. A comunidade científica internacional aguarda com ansiedade estas revelações.

A palestra de Edson Galrão de França, que veio a Londrina convidado pela psicóloga Adelaide Rotter, foi  sobre as terapias corporais, a sexualidade e, sobretudo , a afetividade, em contraponto às tensões, doenças e neuroses. Falando sobre Paixão, Desilusão e Amor, ele demonstrou o que os terapeutas ressaltam como um elemento insubstituível na cura física e psíquica: a afetividade. E incursionou pelo território do que chama de “afetividade madura” que compreende a relação do amor e do sexo sem barreiras, mas com responsabilidade. Edson Galrão de França é um dos nomes importantes da Psicologia no Brasil. Sua especialidade é a Psicologia Empresarial onde imprime a marca da humanização das relações como fator de “saúde coletiva”. Ele dá cursos de extensão em vários países como a Rússia, a Alemanha, a Tchecoslováquia e o Japão. E prepara os terapeutas chamados neo-reichianos – das novas correntes originadas pelas pesquisas de Reich – num espaço conhecido como Cochicho das Águas, em São Paulo. O endereço éwww.cochichodasaguas.com.br

Vale a pena passear por lá, mesmo que por pura curiosidade. Cursos e palestras têm programação anual. Quem participa diz que sai de bem com a vida. Não duvido. A liberdade de expressão emocional é um fator de cura. Saber colocar o dedo nas feridas e se dar o direito de fazer uma catarse equivale a um “descarrego” psíquico dos conflitos. Nada envenena mais o homem do que a opressão social , familiar e no ambiente de trabalho. Não somos máquinas apartadas da emoção. Ninguém pode renegar sentimentos, em função dos preconceitos ou do seu “papel social”, achando que, ainda assim, será saudável e, muito menos, feliz.




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