quarta-feira, julho 11, 2012

O Equilibrista Zen do Metrô Lotado


 
O Equilibrista avança pela multidão. Com passos firmes, porém cautelosos, ele segue pela corda bamba , nas linhas do metrô...

Todos os dias brinco de equilibrista nos vagões do metrô. Há tempos parei de me irritar com as pessoas empurrando umas as outras para entrar no trem lotado, com as porradas do time do “sem querer”, com os idosos e mulheres grávidas sendo espremidos, com a falta de organização e paciência tanto dos usuários quanto do sistema metroviário com suas operações tartarugas em horários de pico. Não me irrito mais, pois criei a meditação Zen do Metrô lotado.

Essa meditação consiste em adaptar meu corpo e minha mente ao espaço que tenho entre as pessoas no vagão e o tempo que passo dentro do trem, de forma que eu permaneça sereno e em paz até descer na minha estação; em outras palavras, cuidado extra para não pisar no pé de alguém, cuidado redobrado para não dar uma cotevalada na senhora sentada, no rapaz com a mochila gigante que ocupa espaço para três e extrema calma para não mandar a merda o sujeito que insiste em ler meu livro mais rápido que eu e fica irritado quando não viro a página.

Nessa experiência de ensardinhamento humano que passo toda manhã para ir trabalhar, uso essa técnica, que inclui também controle respiratório, para evitar os odores provindos dos sovacos alheios e demais fedores de pessoas que na falta d´água, tomam banho de perfume ou tiveram a idéia ridícula de comer batatinha frita com cheiro de óleo vencido dentro do metrô. Além de romper a barreira da física e ocupar um espaço com outras três pessoas, que não caberia uma.
Com essa técnica já aprendi também o ritmo corporal certo para evitar encoxar ou ser encoxado; e (o que é mais importante) já não faço esforço algum para descer na estação certa, basta me deixar levar pela massa quando as portas do trem abrem.

Interessante é que antes do advento do bilhete único, esse problema era restrito as horas de pico, nos dias de hoje, qualquer horário do dia ou mesmo nos fins de semana enfrentamos estações abarrotadas, atrasos e a eventual necessidade da meditação Zen para enfrentar os vagões formigueiros. Não tenho nada contra o bilhete único em São Paulo, e nada mais natural, ocorrer um aumento de usuários, mas tenho todas as razões para reclamar do serviço prestado. Isso se ao menos eu conseguisse ser ouvido ou lido, pois o telefone de atendimento ao cliente está sempre ocupado e as dezenas de cartas de reclamação que enviei, jamais foram respondidas, se é que foram lidas algum dia.

Segundo a assessoria de impressa do Metrô de São Paulo: “tudo está perfeitamente bem. Não há justificativa para aumentar a rota”. Eles possuem toda a razão para acreditar nisso, afinal, o fluxo da grana dos passageiros não para de aumentar e para quê gastar e melhorar os serviços, se o número de novos usuários não para de crescer?

Como não tenho muita escolha (utilizar ônibus é uma jornada pelo inferno de Dante e dirigir em São Paulo é um risco constante), continuo utilizando minha técnica Zen no metrô e não perco a esperança que o serviço melhore um dia para que eu possa não só deixar de ser equilibrista, como também deixar de ser palhaço.

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