terça-feira, julho 03, 2012

A Dona de uma Gaiola sem Grades


Era uma gaiola sem grades com dois passarinhos.

Suas asas não estavam cortadas e eles nem tão pouco pareciam ser domesticados. Não sou um especialista em aves, mas podia jurar que eles tinham a cor do céu e cantavam com sotaque de liberdade, pois seu canto não lembrava nada aquele velho cantar de cativeiro.

A Dona da gaiola não era necessariamente a dona do casal de passarinhos e sim uma amiga que servia comida e água e em troca os pássaros retribuíam com canto.




Jamais tinha visto gaiola assim.

Já tinha visto cativeiros com grades douradas e gaiolas de madeira nobre com poleiro de marfim. Já tinha visto cativeiros gigantes que “abrigavam” centenas de passarinhos e gaiolas tão pequenas que o passarinho mal conseguia pular de um canto pro outro. Mas nunca havia visto gaiola com grades de vento, onde os pássaros tinham o direito de ficar ou partir; de ir e vir.

- Voa tudo por aqui – disse Dona Joana – Canarinho, Sabiá, Pardal e de vez em quando tem até beija-flor. É uma benção, não é?

Sim, era uma benção, mas vinha da terra, do lugar onde vivem os homens que prendem animais em jaulas, pássaros em gaiolas e uns aos outros com o laço do egoísmo, sob a desculpa do “prender para cuidar”.


- Eu gosto muito de passarinho e ao perceber que muitos deles passavam aqui pelo quintal, pedi ao meu marido que fizesse essa gaiola sem grades – explicava Dona Joana, que morava até numa rua com nome de passarinho – Coincidência, não é?


Coincidência?

Não, Dona Joana! Truque divino, para mostrar para a senhora e para esse peregrino que quem gosta de passarinho, não curte canto de presídio; pois canto livre de passarinho é muito mais bonito; não aceita algemas, grades, chantagens ou possessão; afinal, nada nem ninguém nos pertence e se tem algo que aprendi nessa estrada e que onde há coração há respeito, empatia e consideração. E isso não se aplica apenas para seres humanos, mas para todos os seres vivos que dividem esse planeta com a gente.


- A senhora nunca teve passarinho PRESO em gaiola? – perguntei, querendo saber o que não devia; querendo tentar ver alguma rachadura naquele jarro perfeito que era a Dona da Gaiola sem grades.


- Claro que já tive passarinho preso em gaiola. – explicou – Nasci e me criei no interior; atirando pedra em passarinho, armando arapuca e dormindo sob um teto cheio de gaiolas com todo tipo de pássaro que a gente pegava no mato. A sorte dos passarinhos era que minha pontaria era terrível; o mesmo não podia ser dito sobre a pontaria do meu irmão que usava estilingue como ninguém. Um dia consegui acertar um passarinho. Era a primeira vez que eu acertava algo com o meu estilingue, mal podia acreditar na minha sorte; porém o bichinho morreu com o impacto da pedra e o seu corpinho ali no chão mexeu comigo.



Meu irmão pulava e ria, enquanto eu ajoelhada no chão, olhava o passarinho morto que até segundos atrás voava recheado com vida. Uma coisa é matar os bichos por necessidade, como fazem os índios; outra bem diferente é matar por maldade, sob a bandeira da ignorância e da imaturidade.


Naquele momento nasceu meu respeito pelos bichos e minha incapacidade de vê-los presos em cativeiro. Afinal, lugar de pássaro é no céu, assim como o de peixe é no rio. Para mim, mais vale dois passarinhos no céu, que um preso nas mãos.




Um comentário:

Beto Freitas disse...

Show de Bola esse texto professor,ontem estava conversando com um amigo transcomunicador Antônio Jacob sobre a vida de um dele que desencarnou e sua relação com seu cão,como nada é por acaso, olha agora eu ,lendo esse texto,emocionou!grande texto!

Abraço!

Deus te ilumine sempre!

Beto

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