quinta-feira, junho 28, 2012

Caçadores de Baleias

A bordo de um antigo baleeiro, os caçadores rumam para o alto-mar. Olhos atentos escaneiam a água em busca do menor sinal daquela que é considerada o maior mamífero do planeta. Abaixo do leme, o comandante conduz o barco com um olho na tela do computador de bordo que filtra o mar ao nosso redor tentando identificar a aproximação da Rainha do Oceano. Porém os arpões e armas foram substituídos por câmeras fotográficas e filmadoras e os novos Caçadores não buscavam uma presa e sim a experiência de ver uma baleia.

- A primeira vez que a gente vê uma baleia, uma sensação de paz toma  conta da gente, que é difícil por em palavras - disse uma senhora ao meu lado. Ela era veterana desse tipo de turismo. Junto com o marido, um sujeito mal-humorado ao seu lado, eles já tinham visto centenas de baleias por todo o mundo. - Diante da visão de uma baleia a gente descobre o quanto somos pequeninos.

- Pequeninos e vulneráveis - disse o marido - só espero que a baleia não resolva brincar com o nosso barco. Essas águas geladas podem nos matar em minutos.

Por um momento toda a mágica de procurar por baleias deu lugar a um principio de pânico. Comecei a ponderar se realmente tinha sido uma boa idéia ir até ali. Eu não sabia nadar e se eu soubesse ainda contar, o número de salva-vidas a bordo não era compatível com o número de turistas. Morrer congelado não era exatamente o meio de transporte que eu queria utilizar para o outro lado ( como se eu pudesse escolher ).
Mas acabei chegando à conclusão que meu medo era um tanto infundável, uma vez que aquele barco fazia aquele passeio por anos.

- Eu costumava caçar baleias - disse o comandante, um sujeito franzino, com barba feita e cabelos curtos, que não lembrava nada o estereotipo do comandante de barco tipo Capitão Nemo – Minha vila costumava viver da pesca da baleia. Essa era a nossa principal fonte de renda. Quando o governo proibiu a caça, achávamos que iríamos passar por sérios problemas financeiros, até que o primeiro turista chegou e depois, eles começaram a chegar aos montes, dispostos a pagar mais para ver as baleias, do que ganhávamos com a caça dela.

Enquanto ele falava, lembrei de como o turismo pode ser bom para os lugares visitados, se bem controlado e organizado. Lembrei também que toda vez que lembrava das pessoas que caçavam baleias, os via como monstros insensíveis e nunca como gente ganhando a vida. É claro que isso não justifica em nada a matança de baleias que até os anos 80 era tão popular que virou até esporte, em que milionários tiravam fotos ao lado do corpo do animal para mostrar aos amigos como troféu, assim como provavelmente fizeram os seus tataravôs com os animais da África. A caça era tão descontrolada que uma palavra logo ficou associada a caça desses animais marinhos : Extinção.

Hoje em dias, boa parte dos países no mundo inteiro assinaram o embargo a caça à baleia, mas há países como o Japão e a Islândia, que ainda as caçam, sem contar inúmeros baleeiros que ainda cruzam o mar em busca da carne desse mamífero que tem custos astronômicos do mercado negro.Caça patrocinada por pessoas que ainda insistem no consumo de carne, óleo e todo tipo de produto extraído das baleias. Porém, vendo aqueles novos caçadores, fez com que eu sentisse esperança que a raça humana ainda não estava totalmente perdida na ignorância. É claro que eu não estava tão otimista assim que alguém naquele barco veria uma baleia tão cedo.

- Uma vez ficamos semanas tentando e nada.- disse o sujeito novamente, jogando água fria nas nossas expectativas. Preferi fingir que ele falava sobre a sua vida sexual e tentei ao máximo me afastar do casal e baixinho rezei a Iemanjá que mandasse um de seus anjos do mar vir nos saudar.

Enquanto eu filosofava sobre as gotinhas do mar que pipocavam pelo ar, olhando para baixo e se dando conta que são oceano; notei que toda a galera foi para um lado do barco e o comandante gritou: Se não for um submarino, só pode ser uma baleia!

Corri para tirar a minha foto, mas uma onda de pessoas impediam a minha visão. Quando finalmente consegui atravessar a barreira humana e ter um pedacinho da visão do mar, ouvi o comandante gritar de novo: Do outro lado!

Do outro lado, do lado em que eu estava, surgiu a Senhora do Mar. Enquanto tentava novamente atravessar a muralha de gente, me xingava por ser tão baixinho e por ter largado o meu lugarzinho. Mas lutei e mergulhei no meio daquela gente, e quando finalmente consegui passar por outro lado, só deu tempo de ver o rabinho da baleia acenando adeus. Tarde demais.

Ela não voltou à superfície novamente e eu não tinha conseguido registrar o meu momento, mas eu pude ver ao menos ela se despedindo. Não era exatamente o que eu esperava, mas ao menos eu sabia que elas ainda estavam por lá. Eu sabia que elas ainda não tinham desistido de viver no mesmo mundo que os homens.

Enquanto o barco retornava ao porto, tentei ao máximo fixar na memória a minha experiência. No fim, a senhora no barco estava certa quando disse que a primeira vez que a gente vê uma baleia sente algo indescritível. Eu que só tinha visto um pouquinho já estava tão feliz, imagina o que sentiria se a visse por inteira livre no mar.

Só espero que meus filhos possam também brincar de caçadores de baleias um dia.

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