terça-feira, abril 24, 2012

Se Não é Morte, É Parto*



“A morte é uma destruidora dos sentidos.**”


A mente humana é especialista em dar sentido a tudo, até aquilo que não faz sentido. Porém, se não fosse por essa capacidade, talvez a sociedade, como a conhecemos, jamais tivesse existido.

Dar sentido a tudo é primordialmente humano. É o que nos diferencia dos animais e ao mesmo tempo é o que nos ajudou a ser o topo da cadeia alimentar do mundo. Contudo, isso também é o que nos limita e nos aprisiona, pois ao darmos sentido a algo, tentamos nomear, prender na forma algo que, muitas vezes, é inarrável, indizível; daí a infelicidade do povo ao lidar com coisas que não fazem o menor sentido – como a morte, a grande destruidora dos sentidos – que varre do mapa qualquer bússola que norteava o nosso mapa de estrutura da vida; e diante do não-sentido, a mente desesperada se agarra a qualquer luto – o preto, a fé, o lúdico, o choro ou o eu mudo – para dar sentido, para nos ajudar a continuar.  

Continuar é preciso, mas trabalhar a morte – tão natural e tão temida – em nossas vidas e em nossa psique é um dever de todo ser vivo consciente; e que compreende que se não há nada o que fazer com a morte, precisamos ao menos, aceitá-la como companheira inseparável da nossa jornada.

Por isso, meu amigo espiritualista, na hora de acalentar quem perdeu alguém para além do véu da morte, afaste da orelha alheia suas teorias, pois palavra nenhuma, nem muito menos a fé alheia, consegue acalentar o coração de quem busca um alento que afaste a dor – para quem perde alguém, um abraço e o seu silêncio ajuda muito mais que mil frases bem escritas e qualquer versão de vida após a morte que exista – o silêncio, meu amigo e meu irmão, nos ajuda a afastar a ilusão de dar a morte um sentido e trazer à vida a lição do tempo.


Notas do Autor

* O título do texto é uma referência a uma estrofe da canção-hino de Chandra Lacombe: O Parto da Verdade.

* * Esse texto é inspirado nas palavras de Gê Marques, durante a vivência " Kuai de Ogun", que ocorreu no Reino do Sol no último fim de semana.

Um comentário:

Déa Prado disse...

Muito bom Fran.
Devemos pensar muito nisso e nos preparar não só para aceitar a nossa partida, mas saber lidar com a dos outros.
Beijos

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