quinta-feira, março 22, 2012

Entrevista com Alex Polari

Desde moleque, Alex Polari quer fazer revolução. Primeiro, como militante político na ditadura. Foi perseguido, torturado e preso por nove anos. Solto, descobriu na ayahuasca uma missão ainda maior: mudar a sociedade, e a si mesmo, através de um despertar espiritual. Um dos líderes da maior comunidade do Santo Daime no mundo, com raízes que se estendem do Acre à Holanda, ele anuncia: “O mundo só vai mudar quando a gente perceber que somos mais do que matéria... Somos luz”.

Hoje a Holanda é um país de igrejas vazias. Praticamente 70% da população não se associa a nenhuma religião. Metade desse número se diz ateia. Sem párocos ou paróquias, toda cidade tem de capelas a catedrais disponíveis para locação. Festas, reuniões políticas, feiras, exposições, aulas, peças de teatro tomam hoje o lugar de missas e pregações. Mas não naquela noite, quando um templo com mais de 300 anos de idade nos arredores de Amsterdã foi alugado para servir como uma improvável... igreja.

Do lado de fora, neve densa. Onze graus negativos. Debaixo da abóbada, cerca de 150 pessoas, a maioria grisalha, arrumadinha, vestindo branco, espera o convidado de honra. Quando ele chega, um pouco atrasado, dezenas de holandeses se aproximam. Alguns beijam sua mão, muitos fazem questão de saudá-lo em português: “Padrinho”. Alex Polari sorri tímido, um tanto acostumado, um tanto desconfortável no papel de clérigo. Enquanto ele vai tomando seu lugar no altar, uma senhora fleumática espalha um incenso amazônico pelo recinto. Quase sem sotaque, puxa o coro: “Defuma, defumador, essa casa de Nosso Senhor...”. Foi a primeira canção, abrindo mais de cinco horas de cantoria na sessão de Santo Daime.

Alex Polari serviu o chá, tocou o chocalho e puxou o hinário de cura no centro da roda de pessoas. Mas não foi à Holanda apenas para conduzir o trabalho daquela noite. Ele saiu do Céu do Mapiá, comunidade daimista fincada no Acre, para depor em um tribunal em Amsterdã. Depois de dez anos de uma frágil, porém estável, legalidade, um promotor resolveu pedir a proibição do Santo Daime no país. Como representante institucional e internacional da igreja, Polari teve que explicar, pela enésima vez, por que a bebida não é uma droga, mas um sacramento. Não é um alucinógeno, mas um enteógeno (termo para substâncias que “despertam o divino interior”). Que o chá, comprovadamente, não representa risco à saúde pública, ao contrário, tem poder de cura. E que banir a bebida por conta de um alcaloide proibido (o DMT, no caso) é infringir um direito tido como universal nas democracias modernas: a liberdade religiosa.

Muito antes de se tornar um líder espiritual, aliás, Alex Polari de Alverga já precisou depor muitas vezes. Mas sob condições muito diferentes... Foi preso, violentamente torturado, durante a ditadura brasileira. Ele integrava o VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), um dos movimentos de esquerda da luta armada. Participou de assaltos a bancos e sequestrou o embaixador alemão Ehrenfried Von Holleben, antes de cair nas mãos do regime militar em 1971. Viu seu amigo Stuart Angel, filho da estilista Zuzu Angel, ser morto na cadeia na sua frente. Tinha 20 anos de idade. Foi solto aos 29.

“Foram anos de profunda reflexão”, ele conta, “em que descobri que não adiantaria lutar por uma transformação social sem uma transformação pessoal, interna. Quando saí eu buscava um caminho diferente.” Um ano depois, em 1981, o caminho apareceu. Foi com um amigo ao Acre para conhecer um obscuro grupo religioso que utilizava um chá psicoativo como sacramento. Bebeu, foi tomado pelos hinos e pelo efeito do chá e teve uma revelação. Viu a história do universo desdobrar-se em sua mente. Vislumbrou o caminho da evolução à dimensão espiritual da vida. Quando aterrissou de volta, era outro. “Minha vida mudou completamente. Tive certeza de que ali era meu lugar.”

Ele foi um dos primeiros a fundar um grupo daimista fora da floresta. Já em 1982 mantinha uma comunidade em Mauá (RJ) e visitava sempre a igreja no Acre. Seu padrinho, o mestre Sebastião, foi o fundador do Cefluris (Centro Eclético da Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra), até hoje a maior e mais reconhecida divisão da igreja do Santo Daime. Sebastião batizou sua igreja com o nome de seu padrinho, o mitológico mestre Irineu, fundador da doutrina do daime da qual as outras linhagens se originaram. Foi de Irineu a revelação original que ecoa até hoje, do Acre a Amsterdã. Quando teve contato, em 1931, com a ayahuasca em um contexto xamânico, viu no poder da bebida a presença do espírito santo. E fez uma releitura cabocla, sincrética, da história de Jesus. Nas palavras de Alex Polari, “nossa igreja é um tipo de cristianismo visionário”.

Alex tornou-se logo peça-chave na difusão e no reconhecimento do daime como uma religião no Brasil. Estudado, articulado politicamente, acompanhou todas as comissões oficiais que foram ao Acre investigar o tal chá que provocava visões e arrebanhava cada vez mais gente fora da floresta. Aprendeu a doutrina, a conduzir trabalhos, a cozinhar o chá, a falar em nome da igreja, a defendê-la diante de juízes e a ser um rosto público de uma malcompreendida religião. Tornou-se, ele também, um padrinho.


Veja a entrevista na íntegra em:

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